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Quais são suas atitudes no mar?

01 - Janeiro (47)

Dia desses um vídeo viralizou nos grupos dos amantes da navegação, mostrando o enrosco entre uma lancha e um veleiro em uma ancoragem, se não estou enganado, nas águas do Sudeste. Nos comentários, em grande maioria raivosos, velejadores sentavam o pau de spinnaker na cabeça do proprietário da lancha, comumente apelidado de lancheiro. Pois bem, o “lancheiro”, segundo se ouve na filmagem, festejava o barraco e proibia que seu marinheiro fizesse algum esforço para desfazer a situação. Ora, pequenos incidentes como aquele são mais do que comuns em qualquer local, onde algum comandante deixe de observar as boas regras de ancoragem e como consequência, o barco sai todo faceiro para denunciar o mal feito. – E quer saber? O mesmo tipo de atitude, e até pior, já presenciei envolvendo dois ou mais veleiros, com gritos de ameaças veladas e palavrões trocados pelos comandantes. Várias vezes embarquei em meu bote de apoio para segurar barcos de terceiros, que encontravam-se próximo de um abalroamento, enquanto os infelizes proprietários apenas observavam a cena, muito bem sentados no cockpit. De alguns ouvi abismado: “Só estava esperando para ver a m…. desse irresponsável e se batesse em meu barco o bicho iria pegar”. Certa feita estava com o  Avoante ancorado na Ilha de Itaparica, quando a tardinha chegou outro veleiro e ancorou pela popa, porém, muito próximo. Vendo a cena que poderia acontecer, recolhi um pouco a corrente e avisei ao outro comandante que aquela não era uma boa posição para ele jogar âncora. Ele sorriu, entrou na cabine e não mais saiu. Na madrugada, quando o vento acabou e os barcos ficaram pelas ordens dos remansos da maré, o púlpito de proa do veleiro dele veio de encontro a plataforma de popa do Avoante e ficaram ali num namoro barulhento e perigoso. Acordei e fui ver o que estava acontecendo, porém, o que vi foi o velejador sentado com a cara feia sobre o convéns e quando me viu foi logo dizendo: “Seu barco está batendo no meu”. Não fez o mínimo esforço para evitar uma situação causada por ele mesmo. Calado, liguei o motor, recolhi a âncora e fui procurar outro lugar para ancorar. Não estou defendendo o arrogante proprietário da lancha que aparece no vídeo, porém, antes de condená-lo, precisamos fazer minuciosos exames na consciência e rever nossas atitudes no mar, ambiente em que ética e bom senso não são apenas palavras bonitas. 

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Votos renovados com o mar – II

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Talvez possa dizer que esses Votos Renovados com o Mar, com o mar da Bahia, seja uma retrospectiva de tudo o que vivi na Baía de Todos os Santos, mas talvez não, porque no mar não tem talvez. No mar não existe sorte e nem azar. Aventura, jamais. Quem sabe destino, porque o mar não é dos valentes e muito menos dos inconsequentes, ele é daqueles que o respeitam, que tem na alma uma rota traçada, que tem no sonho o destino. O mar não se enfrenta, a não ser que se queira perder a luta. O mar se navega e com bem querer navegança, pois só passa por ele quem ele deixar.

Tenho uma paixão com o mar, daquelas que não se conta para não enciumar, pois no reino de Iemanjá segredo é segredo e ai de quem duvidar. Conto tudo por cima e quem sabe alguns floreios, mas se quer saber a verdade, vá você navegar. Experimento de um tudo e não deixo nada faltar, não me acho professor, pois essa é profissão dos encantados de lá. Navego com o coração aberto, alma livre e saio colhendo frutos, alguns doces outros amargos, mas todos são frutos que alimentam meus sonhos e me ensinam que no mar não existem nem flores e nem espinhos, e sim o amor de querer navegar. O mar do Senhor do Bonfim me acalma os sentidos e dita as regras de minha razão. Não consigo definir minha relação com ele, mas sei que é coisa de encanto.

E foi numa tarde faceira de final da primavera de 2016, que soltamos as amarras que prendiam o Tranquilidade ao píer da marina e fomos navegar. Fui até a proa e deixei ser tomado por aquele momento tão delicioso que vivi durante anos. Fechei os olhos e pedi bênçãos, pois é assim que sempre fiz. O mar me altera os sentidos e sou tomado por uma gostosa sensação de alerta, de prioridade, de responsabilidade. O mar me alimenta e faz minha alma sorrir com uma infinita alegria, a alegria de uma vida que alguns dizem de sonho. – Sonho? – Ah sim, o melhor deles, o sonho sonhado e vivido.

O mestre-saveirista olha o vento e segue para onde ele for, o mar é seu caminho e Iemanjá sua rainha, quando ela não deixa ele fica no caís. Não se briga com o mar e nem com os percalços que se apresentam, pois ali estão ensinamentos que muitas vezes valem alegrias, e vida, porém, não se desiste, muda-se o rumo, porque o vento e o mar são sempre mais carinhosos quando seguimos ao lado deles. E foi assim que fizemos ao cruzar a boia da Ribeira, que por sinal está indicando um canal cada vez mais raso, olhamos as condições, checamos os equipamentos e sem muito insistir aproamos a ilha de Itaparica e seu fundeio maravilhoso. Inicialmente queríamos ir a Canavieirinhas, lá no final do canal de Tinharé, região do famoso Morro de São Paulo, mas o piloto automático resolveu reclamar e os lemes estavam muito endurecidos – barco não gosta de ficar parado – e seguir assim durante mais de 50 milhas era uma tarefa árdua demais para quem só queria a sombra e a água fresca oferecida pelo Senhor da Colina Sagrada.

O fundeio de Itaparica continua lindo, maravilhoso e cativante. A paisagem que se descortina ao nosso redor é um bálsamo para aliviar as tensões de um mundo cada vez mais desumano. Podem dizer o que quiserem da Ilha, mas nunca neguem a poesia que está escrita no traçado das linhas de sua paisagem. Brindamos a noite com um bom vinho e uns quitutes da minha chef das chef e dormimos o sono dos justos naquele balanço de entorpecer e que somente um veleiro é capaz de proporcionar. A manhã seguinte levantamos a âncora e seguimos pelo canal interno da ilha, até a Fonte do Tororó, outro fundeadouro imperdível e lindo que só vendo. Um banho de mar para lavar a alma, uns bate-papos gostosos e despreocupados, um almoço fora de série e assim seguimos para a Praia de Mutá, outro fundeadouro maravilhoso e onde iriamos conhecer a Cervejaria ED3, que posso dizer, mesmo sem ter autoridade de conhecimento para tal, que é a melhor cerveja da Bahia.

A Praia de Mutá é um povoado pertencente ao município de Jaguaripe, que em tupi é îagûarype e significa “no rio das onças”. Mutá tem no traçado de suas ruas a origem da velha e boa Bahia, com ruas e becos que desaguam inevitavelmente na praça da igreja ou na rua que a praça leva. A beira mar é uma pequena baía de águas preguiçosas e rasas e nas areias se estendem alguns bares e restaurantes que ultimamente estão até bem educados no quesito altura do som. Tem na produção de mariscos, que por sinal por lá se prepara divinamente, uma excelente parcela de sua renda. É em Mutá o destino final de uma das boas regatas da Bahia, a Regata da Primavera, que a cidade recebe com muito carinho e festança.

– Sim, e a cerveja? – Tenha paciência meu rei, que falarei na próxima página.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Nossa noite da virada

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Não existe regra ou superstição, mas para quem é do mar, não tem nada melhor do que passar os bons momentos da vida a bordo de um barco e uma festa de fim de ano não poderia ser diferente. Em 2015 escolhemos mais uma vez a Ilha de Itaparica para passar a noite da virada e tivemos momentos maravilhosos a bordo do veleiro Flashback, do casal Fabio e Kise, da Mãe dele, da avó de 99 anos, que já se adiantou e prometeu estar a bordo no final de 2016, e na companhia do casal Sampaio e Nena, escuna Morena. Foi uma noite de alegria e bons papos, porque o Sampaio é um poço sem fim de boas histórias do mar e não se cansa em repassar adiante seus conhecimentos náuticos, que não são poucos e eu sou um ouvinte atento. Uma das boas surpresas da virada do ano em Itaparica foi o clima de harmonia, paz, tranquilidade e sonorização no limite aceitável para os ouvidos alheios. A ancoragem também foi tranquila e dividida entre pouco mais de 20 veleiros e a outrora movimentação frenética de jets e lanchas não aconteceu. Talvez por causa do feriado prolongado que espalhou as flotilhas por outros fundeadouros. Como diria o dono de pousada no litoral norte do Rio Grande do Norte, quando um amigo fez elogios a ambientação e limpeza de sua pousada: – Gosto quando está assim e sem ninguém!

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Na manhã do dia primeiro a Coroa do Limo foi o espaço escolhido para curar a excesso do champanhe da noite anterior e virou uma grande praça de confraternização entre as tripulações. No final da tarde o pôr do sol presenteou a todos com um magnânimo festival de cores. Viva 2016!

Quais as cores do futuro?

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O que será que estamos aprontando para o nosso futuro? Essa é uma pergunta que vem sendo feita desde que o mundo é mundo e dificilmente alguém terá uma resposta. Essa semana postei uma foto nos grupos das redes sociais do fundeadouro da Ilha de Itaparica e, entre tantos comentários que festejavam a beleza do lugar e da vida, alguns poucos se apegaram em quesitos como insegurança e violência para justificar que jamais ancoraria novamente ali e alertando para que ninguém o faça. Pois bem, Itaparica continua linda, maravilhosa e com um fundeadouro de lavar a alma. Nesse feriadão de 12 de outubro inúmeros veleiros coloriram de alegria e bons fluidos a antiga ilha dos Tupinambás. Que tal pararmos de olhar o mundo pelas lentes dos noticiários pintados de sangue e negativismo? Nunca conseguiremos saber como será o futuro, mas com certeza se ficarmos trancados em casa, discutindo as agruras das cidades através dos teclados e no bem bom de uma poltrona confortável, passaremos para frente um mundo cada vez mais desumano e sem sentido. Vamos sair gente, vamos pintar o mundo com as cores do bem e mostrar que somos melhores, mais felizes e mais fortes.   

Aliando cultura e náutica

2 fevereiro (142)

Convite Encontro de ArtistasA Ilha de Itaparica não tem encantos apenas na gostosura de suas águas convidativas, porque ela tem cenários fascinantes e paisagens que formam um bálsamo para a alma livre daqueles que têm na natureza a fonte para suas criações. Sou apaixonado pelo ambiente bucólico que paira sobre as ruas que compõem o traçado urbanístico da velha aldeia dos Tupinambás. Ao caminhar pelos becos e vielas da antiga Taba, escuto ecos de um passado que se sente injustiçado com as maledicências de uma modernidade cruel e inclemente. Mas deixa ver e vamos em frente! Para os que veem a Ilha apenas como destino de uma boa velejada e local de uma ancoragem perfeita, saiba que Itaparica tem uma vida cultural ativa e bem interessante – de lá saiu um dos maiores escritores brasileiros, o saudoso João Ubaldo. Nesse final de semana, 29/08, tem inicio o 10º Encontro de Artistas e a programação se estende até o dia 18/09, com apresentação dos trabalhos de artistas plásticos, artesões, cantores, poetas, dançarinos, cineastas, ceramistas, escritores e outros. Tai uma boa dica para quem está a procura de um bom motivo para velejar.

O desmonte de um paraíso

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Tem situações que se desmantelam por si só, outras seguem o sentido da nossa falta de ação, mas na grande maioria das vezes, o populismo barato dos governantes leva a sociedade a uma involuntária degradação moral, que nos transforma em reféns do caos.

Caro leitor, não pense que essa página é mais um grito contra toda essa desvairada violência que se apossou do nosso país e que tão cedo não pretende abandonar o trono. Mas bem que poderia ser, porque estamos presos nas garras de uma terrível criatura de lama que transforma honra e ética em canalhice. Pobre de nós!

Sempre falei maravilhas do fundeadouro da Ilha de Itaparica, um dos lugares em que a natureza desenhou com extremo zelo e carinho, mas o que estou presenciando nesses tempos de festas juninas, em que o baiano festeja mais um daqueles feriadões extensivos de lavar a alma, é o desmonte oficial de um paraíso.

Sou um ferrenho defensor da Ilha, das águas mansas e das ancoragens acolhedoras que a cercam. As páginas desse Diário estão coalhadas de textos que enfatizam essa minha paixão e sempre me posicionei contrário a notícias atemorizantes, mas infelizmente os fatos se adiantam e ficam claros demais para serem encobertos e as autoridades somente se mexem quando se veem diante da força de uma denuncia.

Há muito a Ilha vem sofrendo um processo de degradação. Os 44 quilômetros de extensão de sua geografia, dividido em dois municípios, com apenas um acesso por terra, bem que poderia servir de barreira para inibir a marginalidade. Porém, a falta de controle e de vontade política faz com que a velha ilha dos Tupinambás vire de ponta cabeça.

A proximidade com a capital baiana, apesar de um imenso mar servindo de linha de fronteira, inclui Itaparica na imensa lista de cidades dormitórios e com essa população vem também uma galerinha barra pesada para atuar na calada da noite.

Outro agravante é o sempre presente anuncio midiático eleitoreiro da construção de uma ponte ligando as duas cidades, sonho dourado de grandes empreiteiras e dos batedores da carteira governamental. A promessa tem servido de deixa para uma invasão descontrolada por espertalhões imobiliários e grupos liderados por profissionais em movimentos populares de ocupação territorial.

Até a Fonte da Bica, orgulho itaparicano e que a cidade se abastece gratuitamente, parece sofrer com o cansaço de uma extração desordenada. O sabor da água mudou e tomará que ela ainda seja a velha e boa água com indicações medicinais. Quem garante?

A marginalidade que assusta os municípios e povoados da Ilha há tempos vem migrando timidamente para as águas. Já não podemos afirmar que são casos isolados, porque já seguem uma regularidade crescente. Os acontecimentos ocorridos no mês de março, em que três veleiros de bandeira estrangeira foram assaltados enquanto estavam ancorados em frente à marina, gerou uma debandada. Outros casos menores como, roubos de motores de popa, botes infláveis e outros equipamentos são relatados e trazem ainda mais desconfiança.

No São João de 2013 ancorei o Avoante em Itaparica ao lado de um número quase incontável de outros barcos. Este ano estamos praticamente solitários na ancoragem, pois dividimos o imenso espaço com apenas três veleiros de bandeira brasileira com tripulação a bordo. Uma semana atrás estivermos aqui e para nossa surpresa e espanto não havia nenhum veleiro ancorado com tripulação a bordo. É triste mais é assim!

Em conversa com os outros três velejadores, que nesse São João procuraram o fundeadouro da bela ilha baiana, vi a angústia e a aflição no rosto de cada um. O bate papo invariavelmente tem o medo como pano de fundo e no silêncio da noite, o marulhar dos peixes ou a mais leve agitação das águas gera momentos de atenção.

Todos se perguntam o que fazer, mas todos sabem muito bem a resposta. Não existe nada a ser feito, pois fazemos parte de um todo e o todo está pelo avesso. Estamos à mercê das ordens do mal e vamos seguindo em frente procurando escapar tanto na terra como no mar. Tenho minha certeza que estou muito mais seguro no mar, porém, não sei até quando. Não existe mais no Brasil um lugar imune à violência.

As águas brasileiras são desejadas por todos, mas nenhum órgão de segurança se habilita a assumir o policiamento. E a Marinha do Brasil? E a Polícia Federal? E Netuno? E Iemanjá? Pois é, na dúvida a gente se apega mesmo com os dois últimos.

Salvem Itaparica ou devolvam para os Tupinambás!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Canoa havaiana emborca e atletas são resgatados no mar da Baía de Todos os Santos.

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Seis atletas foram resgatados no mar da Baía de Todos os Santos, nessa sexta-feira, 01/05, depois que a canoa havaiana em que estavam virou. Os atletas remavam em direção a Ilha de Itaparica debaixo de condições adversas, devido as chuvas que caem sobre a capital baiana, quando a água invadiu a  pequena embarcação que acabou emborcando. Quatro atletas foram resgatados por uma embarcação da Capitania dos Portos e outras duas com a ajuda de um helicóptero do Grupamento Aéreo da Polícia Militar. Apesar do susto e da complexidade do resgate, todos passam bem. A Capitania dos Portos alerta para situação de mar agitado e muita chuva durante todo o final de semana no litoral da Bahia.