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Elementos em fúria e velhas recordações

imageA força das ondas nas Ilhas Canárias, arquipélago que é uma das joias do turismo espanhol, foi de fazer tremer o coração daqueles que moram em residências ou edifícios praticamente debruçados sobre o mar. Com o mar não se brinca, assim diz o ditado, e o que aconteceu na costa de Tacoronte, em Tenerife, dia 18/11, foi mais um exemplo que felizmente trouxe apenas danos materiais e desassossego. Ao assistir o vídeo da fúria dos elementos, lembrei de um caso acontecido na Praia do Marco, litoral do Rio Grande do Norte, nos idos anos 90. Naquele tempo eu era um dos poucos veranistas da praia e da varanda fiquei observando um dos vizinhos, durante todo o dia, construir uma barricada com sacos de areia diante de sua casa. Para mim, pitaqueiro dos bons, aquele serviço era em vão e no finalzinho da tarde levei uma latinha de cerveja gelada para ele, que aceitou de pronto, e ao sentar sobre a areia falei: Rapaz, acho que esse serviço não terá sucesso, pois você deveria estirar essa barricada um pouco mais para os lados, senão, o mar entrará por lá e vai acabar destruindo a casa. Ele deu um gole na cerveja, olhou para mim e antes de levantar para ir embora, disparou: – Amigo, obrigado pela cerveja, mas você não entende de nada. Passar bem! Fiquei ali na areia mais um pouco, apreciando o pôr do sol, e voltei para casa. Pela manhã o trabalho do vizinho recomeçou e nem prestei mais atenção. Logo após o almoço, armei a rede na varanda e fiquei escutando o mar de ressaca roncar lá fora. Em dado momento um barulho surdo irrompeu o mundo e ao levantar a vista, notei que a varanda do vizinho não estava mais lá e o vi sobre a areia com os olhos arregalados. Fui até ele para prestar solidariedade e ele perguntou: – Como você sabia? Respondi: – Como assim se eu não sei de nada? Nunca mais ele falou comigo.    

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Cartas de Enxu 30

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Enxu Queimado/RN, 20 de agosto de 2018

Papai, dizem por aí que os dias festivo são cavilações comerciais para alavancar venda e tem até quem passe por eles, como se nada de mais estivesse acontecendo e ainda declaram em alto e bom som, que são dias como outro qualquer e não tem do que comemorar. Claro que quem pensa assim está com razão, porque cada um pensa como quer, mas dizer que os dias normais não merecem comemoração, aí não sei não, viu! Só em ter tido a graça de ter vivido mais um dia já é motivo de comemoração, pelo menos é assim que vejo a vida.

Pois bem, Papai, hoje para mim não é um dia normal, pois não comungo da ideia dos que assim acham, e nem acho que só temos uma data especifica para homenagear pai, mãe, avós, filhos, família ou amigos, porque são pessoas tão especiais que merecem homenagens todos os dias, principalmente aqueles que já partiram para a casinha branca do Céu.

Pai, sei que o senhor se lembra, mas não me custa repetir e repetirei quantas vezes for preciso, que um dia lhe escrevi uma cartinha confessando que durmo e acordo pensando naqueles últimos momentos que estive ao seu lado, dando tudo de mim para vencer a corrida de barreiras que se transformou as ruas e avenidas do bairro do Alecrim. O senhor tentando dizer alguma coisa e eu, na loucura de vencer a batalha, sem saber decifrar suas palavras. Talvez nem houvessem palavras, talvez nem existissem sons, talvez tudo não passasse da esperança da vitória que eu apostava a todo custo, mas seu olhar falava, como sempre falou, e naquele momento, justamente naquele momento tão crucial, tão aflitivo, tão pedinte, os últimos momentos de seu olhar, onde eu tinha por dever e obrigação escutar, não consegui ouvir. Me perdoa Pai! Quem sabe uma noite dessas, entre as fases de sono REM e NREM, o senhor venha sussurrar em meu ouvido!

Mas, Papai, não se aflija com os meus mais desejosos desejos, pois esta missiva é para falar das coisas desse paraíso praia que me acolhe carinhosamente sob a sobra de uma cabaninha de praia. Sei que o senhor sabe de tudo que acontece em meu redor, mas me deixe contar, pois vá lá que alguma coisa passou despercebido.

Os dias por aqui caminham na maciez dos ventos e das correntes marinhas. Os festejos do Dia dos Pais foi uma festança na beira mar, com direito a regata de paquete e umas bandas que tocam as mesmas músicas, parecendo um disco enganchado. Só não entendo porque não contratam somente uma banda e pedem para tocar o repertório de frente para trás e de trás para frente, pois seria bem mais divertido e mais barato. Mas tudo bem, a festa foi animada, sem confusão e no final salvaram-se todos.

Papai, os ventos de agosto estão de fazer inveja a qualquer Saci Pererê. Fico só na saudade das lembranças dos meus dias a bordo do Avoante, quando passava horas estudando rotas e roteiros para aproveitar o vento da vez. Os de agosto eram os ventos que rendiam mais estudos e era quando o Avoante mostrava toda sua valentia e destreza, pois ele adorava deixar esteiras sobre as águas frias de fins de inverno e eu amava a brincadeira. Por aqui o coqueiral tem comido tocha e quem quiser que se meta a besta em caminhar sob a sombra das palhas, pois vez por outra o vendaval faz um coco despencar no vazio para se espatifar no chão com um barulho surdo. Thumm!

O peixe da vez agora é o serra e os cestos tem chegado aos barracões cada vez mais abarrotados. A lagosta, que está com a pesca liberada até final de novembro, este ano por aqui está igualmente a orelha de freira, todos sabem que existe, mas poucos tem visto. Quando aparece umas lagostinhas, os preços estão que nem os salários dos STF, lá nas nuvens. O povoado está arrumadinho, mas bem que poderia estar melhor, mas como no mundo da política as coisas caminham lento, lento vamos andando até onde as pernas deixarem. A água chegou, mais não chegou e muito pelo contrário. O reservatório foi recuperado, cada casa tem seu registro, as bombas foram acionadas, o bem da vida jorrou uns dias pelos canos e de um dia para a noite, a fonte secou e não tem uma alma viva para contar a justeza do motivo. Onde a falta de informação é uma verdade, a verdade não se faz presente!

Papai, agora que me avexei que essa carta era para lhe homenagear, mas fiquei de teretetê contando os moídos, que me dei conta que o papel está findando e a homenagem não saiu. Mas é assim mesmo, num é meu Pai? As vezes a gente quer contar tudo de uma vez que esquece do principal. A saudade é imensa, o nó na garganta nunca sara, as lágrimas vez por outra lavam os olhos, o coração se aperta e quer sair pela boca, as pernas amolecem, os joelhos dobram, porém, as lembranças e os ensinamentos brilham mais forte e indicam o caminho a seguir.

Sim, meu Pai, já ia esquecendo de dizer que Ceminha está cada dia mais linda, apaixonante, amada e tenho a mais pura certeza que o senhor tem cochichado nos ouvidos do Nosso Senhor e da Virgem Maria, para mantê-la sob dobrada proteção. E Nanã! Eita que Nanã é valente, viu Pai!

Beijo

Nelson Mattos Filho

O Farol de Enxu

20180819_092454Na semana passada postei no facebook o retrato de uma das artes arteiras de Lucia, que fincamos na entrada de nossa cabaninha de praia, O Farol. Aí, o casal Alípio e Gil, navegadores arretados de bons, que cruzaram os mares do mundo a bordo do veleiro Bar a Vento, e que o mar nos deu de presente em forma de grandes amigos, pediu para incluir na postagem as coordenadas geográficas do “Farol de Enxu” e quando um velejador pede um waypoint e com vontade de traçar rota ligeira até o mesmo, aí vai: S 05º 04.296’ / W 035º 50.956’. Pronto, agora é botar a cerveja para gelar e esperar que a vela do Bar a Vento surja no horizonte.  

Cartas de Enxu 29

4 Abril (164)

Enxu Queimado/RN, 09 de julho de 2018

Mas Governador, porque danado você não veio a Enxu Queimado, homem de Deus? Se foi pelo motivo alegado, na entrevista a um blogueiro da região do Mato Grande, acho que foi fraqueza de sua parte. Onde já se viu um governador se intimidar com protestos, ainda mais protestos que impedem a passagem da mais alta autoridade de um Estado em viagem oficial para cumprir compromissos? Sei não viu! Se eram baderneiros, como você falou, mandasse a polícia desobstruir a via. Se eram moradores, reclamando melhorias prometidas e nunca realizadas, fizesse valer o bom diálogo democrático e desse por resolvido a peleja, mas não pisar no lugar, dando meia volta enquanto estava a mais de 60 quilômetros de distância, foi surreal. Será que o senhor estava de olho no regabofe da fama em São Miguel do Gostoso, para onde se dirigiu após decidir não vir aqui?

Mas tudo bem, ou tudo mal, sei lá, aquele 4 de julho era mesmo dedicado a São Tomé, o israelita, aquele que só acreditava vendo, e sendo assim: Eu não estava acreditando que o Governador do Rio Grande do Norte não viria a Enxu inaugurar uma obra tão importante para a população, tão significativa em termos de ganho para a saúde pública. Obra que esse pequeno povoado praieiro esperava há mais de 40 anos e que deve ter custado uma bagatela do orçamento do Estado. Pois é, o senhor não veio e água encanada de boa qualidade foi liberado sem o tradicional “batismo” oficial. Dizem que quem não é batizado vira pagão. Será que o senhor vai permitir que a água encanada de Enxu Queimado, liberada em 04 de julho de 2018, siga pela história com essa mácula? Água pagã? Faça isso não governador Robinson Farias, deixe de birra e venha cumprir sua obrigação.

Dizem que certa vez o presidente Juscelino recebeu uma sonora vaia ao chegar a uma cerimônia oficial, mas não perdeu a pose e nem sua condição de líder popular, que sabia decifrar a linguagem do povo, ao declarar: “feliz é a nação que pode vaiar seu presidente”. Bastou dizer isso para os aplausos comerem no centro. Governador, tem um ditado que diz que “triste é o poder que não pode”. Não o poder de fazer e meter os pés pelas mãos em atos escusos, mas o poder do bem fazer, de proporcionar melhorias, de caminhar de cabeça erguida em meio a população sem ser apontado por algum dedo acusador, de ter a alegria de prestar contas de seus atos e esses estarem limpos e transparentes. Pois é Governador, o presidente Juscelino Kubitschek, com maestria, mudou o rumo de um momento delicado, pois tinha absoluta certeza do poder que tinha. Não que a história do mito de Diamantina não tivesse fases obscuras, mas ele entrou para a história de cabeça erguida e desfazendo obstáculos.

Claro que o senhor lembra do episódio com o deputado Ulisses Guimarães, oposicionista e líder do MDB em plena ditadura militar, quando caminhava com o grupo de campanha pelo centro de Salvador/BA e deu de cara com uma barreira formada por soldados armados de fuzis e segurando cachorros. Sem aliviar os passos, Ulisses disparou: “Respeitem o presidente da oposição”. Sendo assim, empurrou o cano de um fuzil para o lado, abriu caminho e seguiu em frente com o grupo que o acompanhava.

Pois é, governador Robinson, fico aqui pensando na sua não vinda a Enxu Queimado com medo de enfrentar manifestantes, que nem eram tantos assim. O que terá passado por sua cabeça? Será mesmo que o senhor achava que a população dessa praia linda e maravilhosa iria rechaçar sua vinda, ainda mais sendo para dar vida a um sonho antigo? Os meninos que estavam na “barreira” têm suas magoas, mas não são meninos maus a ponto de pretender agredir um governador. No máximo o senhor levaria uma sonora vaia e quem sabe uma chuva de ovos, porém, isso faz parte do enredo dos regimes democráticos. Dizem, que não ouvi, que uma de suas promessas de campanha por aqui, foi que traria a água e faria o asfalto na estrada que liga Enxu a Pedra Grande, sede do município. A promessa da água está cumprida, mesmo sendo uma água pagã, mas o asfalto foi esquecido e é justamente aí que o bicho pegou, porque a estrada, que o senhor não viu porque desistiu de vir, está em estado lastimável, para não dizer outra coisa. Aliás, não viu a estrada e também não viu as belezas da região, não viu o maravilhoso parque eólico, a fábrica de torres, não viu a beira mar que precisa de ações urgentes, pois Netuno ameaça invadir com seus exércitos, não visitou uma comunidade alegre e em paz. Em paz sim, pois neste paraíso ainda não chegou a tal violência que assombra seu governo. Não sentou na beira mar, sobre uma jangada, para bater um papo descontraído com essa gente feliz. E o pior, não sentiu o sabor de uma suculenta posta do peixe serra, acompanhado de uma cerveja gelada. Eita que é bom demais, homi!

Venha governador Robinson Faria. Venha sem medo e inaugure a obra por seu governo construída. Se o povo tiver de cara feia, desça do carro, abra um sorriso e chame os meninos para uma conversa de pé de ouvido, que garanto que serás bem-sucedido.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 28

1 Janeiro (182)

Enxu Queimado/RN, 03 de julho de 2018

Sabe, Doutor Virgílio, estava aqui pensando, enquanto me espicho na rede armada na varanda, que até hoje não consegui definir o que o senhor representa para mim e meus irmãos, pois amigo é pouco para o tanto que você é. Quem sabe tio, mas há quem diga que tio é parente! – O que? – Pronto, achei a palavra certa: Tio. Tio Virgílio, porque sua amizade com meu Pai e Tio Emídio, meu segundo pai, se dava numa fronteira onde parentesco e amizade é retórica. Mas nem pense que vou me avexar a lhe chamar de tio no decorrer dessa missiva, viu! E vou tratar de entrar nos detalhes dos ocorridos nessa Enxu mais bela, pois a noite já vai longa. E tem moído que nem presta!

Antes que esqueça: Quando vem por aqui para saborear uma cioba gorda? Dr. Liu, o mar aqui é bom de peixe e dá de tudo. Lagosta tem também, mas os tempos estão cruéis para aqueles pescadores que se aventuram a mergulhar em busca das bichinhas. A pesca abriu no começo de junho, porém, até agora, o que foi pego não deu nem para o gasto. Lembro de quando pisei pela primeira vez os pés nessas areias, coisa de mais de 29 anos, que na época da lagosta era festa muita. Tinha caboco que tomava banho de cerveja e depois tirava o excesso com água mineral. Era um tal de chegar caminhão carregado de móveis e utensílios novos para casa, que era bonito de se ver. Carro zero quilômetro, então, vixi! Eram tempos de fartura e sabe o que se dava? No ano seguinte recomeçava o reboliço. Cansei de sentar na calçada da casa de Dona Tita e Seu Nilo, durante a noite, para saborear caldeirões de lagostas no bafo, acompanhado de cerveja, como diria o rei do baião, escumando. Nessa peleja virávamos a noite e ainda sobrava para o dia que vinha. – E acabou porquê? – Vai saber! É tanto disse me disse que é melhor deixar quieto.

Dr. Liu, sabe o que eu queria ver? Queria ver Nelson Mattos e Emídio Mattos batendo pernas por esse paraíso praia. Papai munido com o trombone de vara e Tio Emídio com aquela vasilha de sorvete que ele levava para a casa de Ponta Negra. Eita que a meninada ia adorar!

Liu, venha aqui, homem de Deus, que garanto um estoque novinho de piadas, causos e afins para sua enorme coleção de moídos. Venha sentar sobre uma jangada, na beira mar, para jogar conversa fora com Seu Neném Correia e a galera que não perde um bom bate papo. Durante o falatório você vai alegrar a turma com aqueles causos que só você sabe contar. Eita que vai ser bom! Mas, peraí, esqueça a história daquele “bicho” que Moquinho matou no banheiro, viu!

Dr. Liu, mudando de pau para cacete, tenho achado um bocado de graça com as coisas que me chegam pelas ondas da internet. Por aqui o sinal da internet é bom, apesar de alguns pormenores básicos, e basta piscar o olho para a tela se encher de novidades. Tem umas coisas cabeludas que bem cabiam nas atrações dos velhos trens fantasmas, mas dessa eu tiro de letra, pois danado e quem se mete a discutir os pormenores dessa politicalha barata, aliada aos destrambelhos de uma justiça sem freio. Pois bem, já que pulo essa casa, vou me arvorar da seguinte que é bem mais engraçada. Tempos atrás ouvimos ecos, vindos do planalto central, que afirmava que iriamos estocar ventos e o eco rendeu boas piadas e charges. Agora vejo que um general iraniano está acusando Israel de roubar nuvens. – Como assim? O militar ajuntou a impressa e declarou em alto e bom som, como assim fazem os generais quando querem mandar recado, que os meninos de Netanyahu estão “manipulando as condições meteorológicas” com o intuito de evitar que caia chuva no Irã. – Pode isso, Arnaldo?

Segundo o soldado do aiatolá, as mudanças climáticas no Irã são suspeitas e Israel e outro país da região, trabalham juntos para que as nuvens que entrem no território dos antigos reis aquemênidas não produzam chuvas. Diante dessa conversa mole do general, fico matutando: Quem danado está manipulando as nuvens desse Nordeste velho de guerras? E desse sertão sofrido do Rio Grande do Norte? Será que foi praga de Lampião e seus cabras da peste? Pense num povo amalucado! Deus é mais!

Dr. Liu, e por falar em água, pois num é que amanhã, 04/07, dia do israelita São Tomé, aquele que só acreditava vendo e por isso tomou uma reprimenda do Senhor, chega por essa prainha linda, o Excelentíssimo Governador do Estado, Robinson Faria, para inaugurar e dar vasão ao bem da vida nas torneiras de Enxu. Doutor, dizem que o povo está se manifestando para dar nó em pingo de água diante da presença do homem. Vamos ver, mas tomara que ele saia daqui com boa impressão, pois esse paraíso merece muito mais e o povo é ordeiro.

Doutor Virgílio Alexandrino Neto, Liu, meu tio por querença, pegue Dona Nair pelo braço e venha tomar uns banhos de praia no mar daqui, pois é bom demais da conta. Venha deitar o esqueleto numa rede armada embaixo da varanda dessa cabaninha de praia e ver o mundo de um jeito encantador.

Grande abraço,

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 25

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Enxu Queimado/RN, 03 de junho de 2018

Caro amigo Peralta, que danado de mundo é esse tão cheio de peraltices? Pois é, meu amigo, a coisa está esquisita, como bem disse um amigo, morador dessa Enxu mais bela. E por falar nisso: Quando você dará o ar da graça por aqui? Já se foi tempo que botasse os pés nessas areias, viu! Tá bom de se achegar novamente para ver como as coisas mudaram e nem as dunas são mais as mesma, pois deram um chega para lá nos montes de areia e plantaram uma colossal floresta de cata-ventos. Ficou uma paisagem surreal, que enche os olhos do povo que adora falar em progresso, mas para um saudosista inveterado como eu, restou apenas lembranças e interrogações sem respostas.

Velejador, você bem sabe que esse negócio de deitar o esqueleto numa rede para ver o tempo passar e coisa medonha de boa, mas deixa o caboco cheinho de confabulança, porém, assim mesmo que é bom, ainda mais quando a redinha, macia e cheirosa, está esparramada numa varandinha ventilada e perfumada pelas palhas verdes de um coqueiral. Pois é nessas horas que me avexo em curiar os noticiados deste planetinha azul e foi daí que li na coluna do jornalista Woden Madruga, assentada no jornal Tribuna do Norte, periódico que em tempos idos rabisquei páginas e páginas do Diário do Avoante, de que o mercado de livros no Brasil está caminhando avexado para o volume morto e no período entre 2006 e 2017 encolheu 21%, com os escritos de obras de ficção e não ficção liderando a queda com 42%. O povo num lê mais não, meu amigo! Só quer saber de zap zap e, como diz Woden, “faicebuqui”, e mesmo assim se for texto com, no máximo, duas linhas e com fundo colorido.

E por falar em livros, nas calmarias dessa prainha gostosa tenho lido um bocado e até dei por fim o primeiro volume da biografia do inglês Winston Churchill, caboco bem colocado nos anais da história do século XX. O inglês era bom e assinou o jamegão em uma ruma de passagens históricas do mundo em meio ao reboliço de duas grandes guerras. Agora estou pegado com os pecados e mistérios de Pilar, uma maranhense arretada e personagem principal do livro, A mãe, a filha e o espírito da santa, do autor PJ Pereira. Sei não, viu meu amigo, mas esse mundo da fé é meio desvairado!

A rede deu um balanço e dei de cara com notícias estelares insinuando que o mundo das estrelas tem, por baixo, uns 100 planetas habitáveis. – Será verdade, professor? Se assim for, o futuro será o céu e as estrelas. O problema vai ser fazer os homenzinhos verdes acostumar com nossas maruagens. Os estudiosos terráqueos apostam que em menos de 15 anos teremos a resposta se os orelhudos verdes existem de verdade ou tudo não passa da nossa fértil imaginação. – Será que tem funk? – E batidão? – Vixe, se não tiver eu pego o primeiro foguete!

A rede foi, voltou, a página virou e as notícias continuaram nas estrelas e dessa vez anunciando que a lixeira espacial está de vento em popa, com mais de 500 mil detritos vagando sem rumo sobre nosso quengo. O problema é sério, pois não tem ninguém na Terra com vontade de resolver a bronca. Os sabidos só sabem jogar as gerigonças para cima, mas nenhum tem o discernimento de saber quando, como e se um dia o rebolo volta. Ainda bem que Enxu fica num pedacinho quase invisível do mapa do mundo e acertar um alvo tão pequeno, só mesmo se for por azar.

Peralta, e a greve dos caminhoneiros? Seu menino, até aqui nessa vilazinha de pecadores a coisa deu ruim e até hoje, 03/05, dias depois que os polícias engrossaram a voz, ainda tem prateleira vazia. A padaria já anunciou que vai parar por falta de farinha, a batata inglesa virou pepita de ouro e assim vai a reza. A gasolina nem se fala, pois para falar tem que pagar. E o diesel, motivo maior da greve, ninguém sabe, ninguém viu e ninguém aposta que vá baixar de vera. As más línguas dizem que baixa e o governo vai pagar a conta inteirando o valor que faltar, e como ele é nós, quem paga é nós. Dizem que a Petrobras é nossa. – Como nossa, cara pálida? – Minha parte é só para pagar pelo prejuízo, é? – Vots, pode me tirar dessa sociedade!

João Jorge Peralta, velejador e professor arretado, desculpe encher seus miolos com esses moídos sem pé, nem cabeça, mas é, como disse no início dessa missiva, confabulações criadas enquanto balanço nessa redinha aconchegante e observo o balé do coqueiral. Venha aqui meu amigo, venha ver a vida por uma visão mais humana, mais simples e sem os cacoetes das grandes cidades. Venha espichar o corpo numa rede para esperar as respostas da alma. Venha saber com quantos paus se faz uma jangada e se inteirar dos segredos existentes na trama das costuras das redes de pesca. Venha, meu amigo, e venha logo, pois estamos na abertura da temporada da pesca da lagosta e por aqui a produção é decente. Quem sabe sobra algumas para enfeitar a churrasqueira!

Abraços.

Nelson Mattos Filho

Nas veredas das dunas – II

7 Julho (60)

Para quem não viu a primeira parte, ou viu e não lembra, click AQUI

Iniciei esse relato em agosto de 2017 e só agora dei fé que não conclui, ou foi simplesmente por achar que a cidade praia de Galinhos não merecia receber palavras tão críticas de minha parte, ou por receio de meter os pés pelas mãos e não ser compreendido pelos vigilantes internéticos da razão. Bem, foi por algum motivo justo, mas agora, com os miolos uns meses mais velhos e teoricamente mais apaziguadores, vou dar seguimento e darei graças se encontrar na cachola os arquivos sem um tiquinho de mofo. Contar relatos idos não é coisa tão boa assim, até porque as coisas mudam ligeiro e nesse mundão sem freio e sem memória, as pessoas se avexam a esquecer os problemas e tudo fica como foi ou como está. Mas vamos lá!

7 Julho (64)7 Julho (68)7 Julho (71)

Terminei a primeira parte envolvido em um turbilhão de reflexões enquanto observava a paisagem do portinho de Galinhos, mas digo que não me encontrei naquela paisagem e nem senti o pulsar da alma da antiga vilazinha peninsular. Mas deixe quieto! Afonso acelerou o possante e fomos saindo de fininho, porém, desejosos de saborear as famosas tapiocas de Dona Irene, no minúsculo distrito de Galos. O sabor daquela delícia, que tem receita cravada nos compêndios gastronômicos dos deuses, nunca me saiu da memória e nunca haverá de sair. Paramos em frente ao restaurante e encontramos a proprietária com a mesma fisionomia alegre a nos receber. Lucia perguntou se ela ainda lembrava da gente, mas já esperando o não como resposta, pois tantas pessoas passam diariamente naquele recanto que fica complicado puxar a fotografia nos arquivos da mente. Com aquele riso amarelo de quem passou despercebido, olhei em volta, mas também achei que havia algo estranho naquela casa de sabores. O que deveria de ser? Foi aí que Lucia deu a informação que custei a acreditar: – A tapioca não está mais sendo servida! – O que? – Como assim? – Acabou a goma por hoje? – Não, a tapioca saiu definitivamente do cardápio, porque os filhos de D. Irene, que agora administram o restaurante, não querem mais fazer, porque dizem que os clientes só vinham aqui para comer a tapioca e não pediam outros pratos. Portanto, não tem mais tapioca. – Danou-se!

7 Julho (75)7 Julho (79)7 Julho (80)

Procurei lembrar dos fundamentos que aprendi no meu curso de administração, nas ações de marketing que utilizei nos estabelecimentos empresarias em que trabalhei, tentei puxar das teorias dos livros técnicos que li e me arvorei até dos reclames do rapaz que vende o picolé de Caicó, mas não encontrei nada que desse guarida aquela decisão tão extremada. A única coisa que chegou mais perto foi a lembrança do conto de um senhor que vendia cachorro quente na beira da estrada e seus filhos, que conseguiram se formar, conseguiram acabar com um negócio alegando teorias estapafúrdias. – Rapaz, não é possível que tenha acontecido a morte daquela maravilha dos deuses! Para recuperar do susto, pedi uma cerveja para desanuviar as ideias e tomei numa golada só. – Pense numa viagem cheia de surpresas desagradáveis!

7 Julho (76)

Sem a tapioca de Dona Irene, mas com o bucho forrado por uma peixada, que não recomendo, fui para a beira do rio fotografar a bela paisagem que se amostrava faceira. – Eita lugar bonito e tão incompreendido! Meio sem graça, pegamos o beco de volta enquanto a luz do Sol alumiava a fantástica natureza das dunas e do mar, produzindo cenas de fascinante esplendor. Para aqui, para ali, sobe duna, desce duna, chegamos a Caiçara do Norte, com o astro rei já clareando a barra do outro lado do mundo. Para evitar novas surpresas e visando a segurança e tranquilidade do nosso passeio, preferimos seguir caminho pela RN 120, até a sede do município de Pedra Grande e de lá tomar o rumo de casa, onde chegamos com noite escura e um pouco cansados.

7 Julho (84)7 Julho (90)7 Julho (91)

Não se avexe em tirar conclusões precipitadas diante de tudo que escrevi nesse relato, pois ele é fruto de observações acontecidas há praticamente um ano e em um ano, tudo pode ter mudado, ou voltado a ser o que era. Pode até ser que seja um relato bem crítico, mas é sempre assim quando voltamos a um lugar que um dia nos encantou e não mais encontramos o encanto e nem a poesia ali desenhada. A praia de Galinho é um dos mais concorridos destinos turísticos do Rio Grande do Norte, tem um povo acolhedor, bons restaurantes e pousadas aconchegantes.

7 Julho (82)

A natureza que envolve a península continua encantadora, apesar da presença das invasoras torres dos geradores eólicos. Mas a invasão do exército eólico não é apenas em Galinhos, a intervenção se dá em praticamente todo litoral norte do RN. Não é o caso aqui de denegrir o progresso que representa o aproveitamento da energia dos ventos, mas bem que ele poderia trazer melhores resultados para as populações envolvidas e não enfeiar tanto a paisagem. Mas aí é outra história.

7 Julho (92)

– Valeu a viagem a Galinhos? – Valeu e qualquer dia eu volto!

Nelson Mattos Filho