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O buraco e a fonte

1Dia desses nos grupo de mídias sociais de velejadores baianos pipocaram imagens da Fonte do Tororó, uma das joias da Baía de Todos os Santos, em que se dizia que o local havia desabado, porém, a notícia logo foi desmentida. Segundo relatos, o desabamento se deu um pouco mais a frente da bela Fonte, hoje quase sem água. A Fonte do Tororó, debruçada sobre as águas do Senhor do Bonfim, é emoldurada por uma maravilhosa mata nativa e se apresenta com uma convidativa prainha de areias brancas. Por várias vezes o local serviu de ancoragem para o Avoante e em uma delas foi local escolhido para comemorar um dos meus aniversários. Ultimamente tenho escutado comentários de que a ancoragem não merece confiança, o que é uma pena. Hoje me apeguei com a notícia, no G1 Bahia, que uma enorme cratera está intrigando técnicos e ambientalistas, na mata no centro da Ilha, que não é mais ilha, de Matarandiba, localidade que abriga a Fonte. Os estudos indicam que a cratera cresce a cada dia e em sete dias já aumentou quase três metros. A área pertence a empresa Dow Química, que de lá extrai salmora de seis poços a uma profundidade de 1,2 mil metros. O buraco da Dow Química já está com quase 72 metros de comprimento por 30 de largura e quase 46 metros de profundidade. Agora eu pergunto: – Será que não poderiam aproveitar esse buraco para jogar dentro uma ruma de… Homi, deixe quieto! Como se diz na Bahia: Deus é mais!     

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Histórias de quem vive no mar

Screenshot_2018-06-01-18-54-54Screenshot_2018-06-01-18-57-10 Tem coisas que enche nossa alma de felicidade, principalmente quando recebemos o carinho e a atenção de pessoas que tão pouco conhecemos, ou nem conhecemos, mas que nos tem como referência para a realização de sonhos e histórias de vida. Foi assim comigo e Lucia, quando embarcamos em uma bela e enigmática história de um livro de aventura que mudou definitivamente o rumo de nossas vidas. Obrigado Heloísa Schurmann, por escrever o livro, Dez Anos no Mar, porque sem ele, jamais teria existido um certo casal Avoante e seu velho Diário. Hoje me deparo com o Blog Barlavento, editado pelo Tiago, e para surpresa, contando um pouco da nossa história e de outros casais, que um dia apostaram que o mundo do mar tinha muito mais a oferecer do que a maluquice extremada existente nas ruas de uma cidade qualquer. Plagiando Adriano Plotzki, velejador e editor do canal Hashtag Sal, digo assim: “Apenas alguns segundos sobre o mar, nos faz repensar prioridades”. Mar, reino encantado, guardião de sonhos e sonhadores, eternamente te renderei reverências! Obrigado Tiago!   

Cartas de Enxu 22

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Enxu Queimado/RN, 30 de março de 2018

Tia, tenho sim saudades do mar, mas aprendi com ele que nem sempre podemos navegá-lo e aprendi muito mais, aprendi que o recolhimento das velas e os bordos, muitos deles negativos, é a melhor maneira de seguir em frente em busca dos infinitos horizontes onde moram os sonhos. Vivi o sonho do mar onde pouquíssimos vivem, mas não me julgo melhor, nem pior, do que ninguém, apenas tenho a alegria de ter ao meu lado a pessoa que luta a cada segundo para me ver feliz e para ela, sonho se busca e se vive, por isso nunca pesou ou mediu regras para realizarmos juntos. Se existem coisas que devemos deixar para trás, deixemos sem medo. Se existem barreiras a ultrapassar, ultrapassemos. Se existem pontos negativos, transformemos em positivos. Se existe a alegria, sejamos alegres. Se existe a tristeza, faremos tudo para transformá-la em felicidade. Se existe a saudade, curtamos a saudade, porque ela é como o tempero das panelas da casa de mãe: Será maravilhosamente lembrado até o fim dos nossos dias.

Tenho saudade do mar, mas o mar está bem ali, bem diante dessa cabaninha de praia que me serve de abrigo e basta levantar a vista para render-lhe homenagens e respeito. Sempre respeitei o mar e depois que ele me acolheu tão bem, durante onze maravilhosos anos, jamais deixarei de reverenciá-lo. Por isso essa saudade desvairada que as vezes bate atravessada, porém, apaziguadora dos sentidos e que acalma a razão.

Minha tia, e por falar em saudade, estou com saudade daquela prainha que conheci há 29 anos, encravada entre dunas e matas da caatinga, mas eram tempos dourados de um Rio Grande do Norte inocente onde tudo era mágico e a vida era bem mais amena. Olhando preguiçosamente, enquanto deitado na rede macia estirada na varanda, ainda consigo respirar a paz e a tranquilidade reinante entre os coqueirais, porém, ao longe já escuto os tambores de uma guerra sem sentido, sem freio e sem lógica. Uma guerra desumana e sem comando. Uma guerra onde os exércitos do bem estão reféns do caos e fogem acovardados pelo medo. Uma guerra que se aproxima perigosamente desse pequeno pedaço do paraíso, que de tão pacato se tornará prisioneiro sem ao mínimo esboçar reação.

Naqueles anos noventa, Enxu Queimado era uma alegre colônia de pescadores onde todos se conheciam pelo nome e suas ruas e becos eram forradas de uma fria e gostoso camada de areia branquinha. Quatro ou cinco ruas formavam o traçado da vila e os chiqueiros dos porcos delimitavam a fronteira Norte. Hoje não, hoje as fronteiras são demarcadas pelos totens dos geradores de energia eólica, as ruas vivem um frenético e perigoso tráfego de veículos e o pulsar do progresso ameaça explodir a todo custo, sem ao menos ter dado aviso prévio, e se deu, não se fez ouvir.

Tia, Enxu vive hoje entre a cruz e a espada e sem identidade. Vive como diz o poeta, “sem lenço e sem documento”. Os antigos ainda apostam na pesca, mesmo sem os resultados do passado, e os novos vislumbram um emprego que lhes dê ares mais tranquilos e a certeza do salário no final do mês. O parque eólico da Serveng veio a calhar para a geração mais nova, porém, é um emprego com dias contados e tudo que é contado, um dia chega ao fim e a consequência é a insegurança e o mal-estar coletivo. Enxu Queimado está assim, vivendo eternamente de um progresso que nunca chega e festejando as promessas que nunca são pagas.

E por falar em promessa, prometeram de novo a construção da estrada asfaltada ligando Enxu a sede do município, isso depois de um protesto dos moradores, que resolveram fechar o acesso com pedras e pneus queimados. O moído foi grande e rendeu um bocado de teima entre os defensores de uns e os acusadores de outros. Teve visita “técnica”, pose para fotos, apertos de mãos, tapinha nas costas e no final, ficou tudo para quando Deus der bom tempo e todos saíram satisfeitos e com fé no coração.

Mas Tia Cecília, o mês de março por aqui começou agitado com um swell sacudindo o mar e trazendo novidade e preocupação aos moradores. O bicho foi pesado e foi dito nas folhas de notícias que o tal fenômeno foi um dos mais poderosos dos últimos 20 anos. Aliás, o swell endiabrado sacudiu o litoral do Nordeste de cabo a rabo e ainda sobrou umas lapadas em quem não pensava levar. Juro que nunca vi o mar de Enxu tão brabo. Registrei em retratos boa parte do fenômeno e guardo na memória passagens engraçadas, inclusive frases, para contar depois nas rodas de bate papos.

Maria Cecília Lopes Mattos, minha querida Tia Cecília, minha segunda Mãe e dona de boa parcela do meu coração, esta cartinha cheia de saudades e reminiscências é para contar um pouco do pouco do que vivo nessa vilazinha de pescadores tão aconchegante e feliz. Desculpe por algumas palavras mais carregadas de ressentimentos, mas faz parte do que vi e ouvi.

E quer saber? Tomara que o progresso adormeça um pouco mais e deixe a estrada aprisionada no sonho, porque assim, a paz e a tranquilidade continuarão a reinar por longos anos nesse paraíso praia.

Nelson Mattos Filho

O homem do mar é forjado no medo

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Com esse texto assim meio rebelde, meio sem causa e temperado com leves pitadas de pimenta ardida, traço a rota da pasta de escritos Do mundo do mar, que se junta a outras em que guardo as impressões sobre o cotidiano. Vida a Bordo, Vida de Praieiro, Cartas de Enxu, Textos Diversos, Cotidiano, Lembranças, são arquivos desconexos dos meus momentos de maluquice. – Mas esse tal de Mundo do Mar não se encaixaria em alguma página existente? – Sei lá, acho que sim, mas vai assim mesmo, viu!

A semana, que se encerra neste sábado, 10/03, teve início triste com o naufrágio, nas águas sergipanas, do veleiro Crapun, do navegador solitário Elio Somaschini, um italiano bem brasileiro. O acidente gerou comoção no meio náutico brazuca, porque o navegador estava envolvido em uma festejada volta ao mundo e em cada porto do litoral brasileiro, por onde passou, realizou concorridas palestras para divulgar as experiências acumuladas nos mares. O navegador se utilizava da peculiaridade de não fazer uso de aparelhos eletrônicos em seus posicionamentos no mar. Segundo se anunciava, ele utilizava o método da navegação astronômica, porém, sem ajuda do sextante. As medições eram feitas apenas com o polegar. Elio é autor do livro, O que sobra de uma viagem, que infelizmente ainda não tive o prazer de ler, mas, mais por desencontros do que por desejo.

Elio do Crapun, como é conhecido, porque o nome do barco sempre vira sobrenome do dono, pretendia adentrar a barra de Aracaju, dia 06/03, para comemorar o aniversário. A barra da capital sergipana, como todas as outras que marcam os rios daquele litoral, é uma das mais difíceis do litoral brasileiro, com inúmeros bancos de areia, que se formam aleatoriamente aos desejos das marés e das chuvas que castigam o interior. Sempre soube que não existe uma rota indicada para entrar nas barras de Sergipe, porque tudo ali muda da noite para o dia. Li alguns comentários, após o acidente do Crapun, defenestrando a carta digital Navionics, que o Elio utilizava na ocasião, mas a coisa não é por aí, pois nenhuma carta mostra as armadilhas existentes nas barras sergipanas. Quem conhecia tudo ali era o lendário Zé Peixe, prático que ficou conhecido por esperar os navios agarrado na boia de aproximação do canal. Ao avistar o navio, acenava e nadava até ele. Certa vez ouvi Zé Peixe falar em uma entrevista que não se entra na barra de Aracaju sem ajuda. Gravei!

Por três vezes adentrei a barra do Rio Real, que marca a fronteira de Sergipe com a Bahia, e em todas, entrei e saí por rotas diferentes, seguindo orientação dos pescadores da região. A primeira entrada foi na esteira do veleiro Caethel, do casal Daniel e Ângela, que tinha casa no ribeirinho distrito de Terra Caída, município de Indiaroba/SE. Foi uma entrada complicada e extremamente estressante, com os bancos de areia se esforçando para guilhotinar a quilha do Avoante, porém, conseguimos, estou contando a história e não aconselho ninguém entrar sem utilizar os serviços de praticagem feito um pescador nativo. Elio do Crapun, perdeu o barco, mas está bem, e do acidente sobraram marcas e ensinamentos. Espero muito em breve ver o navegador de volta ao mar e superando mais um desafio, pois é assim que faz os grandes marinheiros, e ele é um deles!

Pelo que vi no relato e nas páginas dos jornais, Elio Somaschini recebeu o infortúnio com naturalidade, pois sabe ele que são coisas que acontece com todo aquele que se aventura no mar. O mar é um ser amuado, não reconhece currículos e no dicionário do reino de Poseidon não existe a palavra infalível.

Já contei esse moído por aqui, mas não custa contar novamente: Certa vez o velejador potiguar Érico Amorim das Virgens, cabra conhecedor dos domínios de Netuno como poucos, se esmerou tanto numa palestra sobre navegação astronômica, no Iate Clube do Natal, que o suor escorreu na testa. Quando estava para dar por encerrado o tema, o velejador Alberto Serejo levantou o braço, para pedir a palavra, e disparou: – Comandante, a palestra foi bastante explicativa e acho que todos aqui estão maravilhosamente satisfeitos e conhecedores, porém, amanhã vou providenciar mais três GPS para equipar o Jazz 3.

“… Essa aceitação do medo, e portanto de uma certa humildade frente à natureza, é primordial, pois ela nos permite conservar as faculdades intelectuais, que são a única forma capaz de coordenar a ação que se impõem. O homem, batido no plano da dinâmica, tem apenas o seu saber ou a sua razão para escapar da força dos elementos. Ele deve, portanto, saber conservar toda a sua lucidez, sempre se sabendo fisicamente dominado, pois esse é o seu único meio de defesa, o de não se acreditar capaz de vencer a natureza.” (Willy de Roos – Sozinho, na esteira das caravelas)

Nelson Mattos Filho

Nelson e Lucia – amigos

nelson luciaA palavra hoje está com o amigo José Mauro, cabra arretado e dono de uma verve que só vendo, basta ver as letras que ele destrincha no blog Eu e o maldade, e foi lá que ele postou o texto e enfeitou com um retrato, dos bonitinhos aqui, tirado lá na fascinante Ilha do Sapinho, uma das joias encravadas na Baía de Camamu. Fala aí, , e obrigado pelas palavras abonitadas.

Isso deve ter uns 4 anos. Tudo em mim pedia por uma parada geral, por um desligamento do mundo. Alguém então me falou de Nelson, Lúcia e o Avoante. Um casal que vivia em um veleiro e que poderia nos acolher por uns dias à bordo.

Em um píer no bairro da Ribeira, em Salvador, embarquei no Avoante, uma embarcação pequena, mas valente, aconchegante como casa de mãe, para 4 dias de velejadas pela Baía de Todos os Santos.

Paixão à primeira vista. Pela vela, pelo veleiro, por Nelson e Lúcia e por aquela vida tão simples e diferente da minha e que eu nem sabia que existia. Dormir ao balanço do mar, olhando apenas o clarão das estrelas, foi algo que me tocou profundamente. E a partir dali o mar da Bahia virou meu destino sempre que a correria da vida em terra permitia. A ponto de eu mesmo comprar um veleiro e acalentar sonhos de libertação por quase um ano.

Certo dia, recebo a notícia de que haviam vendido o Avoante. Tinham vivido nele por mais de 10 anos, mas era necessário. Aquele não era apenas um barco, era um pedaço de suas almas, era o ente tangível que lhes ancorava um modo de vida.

A tristeza me bateu. Não conseguia ver Nelson e Lúcia em terra firme. Temi por sua felicidade, desconfiei que não conseguiriam mais se adaptar.

Hoje, vez por outra, entra uma mensagem de WhatsApp do “Comandante”, direto de sua casa na praia de Enxu Queimado, no litoral do Rio Grande do Norte. Às vezes é uma foto das delícias preparadas por Lúcia, às vezes um post do preservado e ativo Diário do Avoante (diariodoavoante.wordpress.com), ou às vezes apenas uma bela foto da natureza deslumbrante do lugar com um sincero “Bom dia, meu amigo”.

Nunca senti uma ponta de ressentimento. Nunca um tom de melancolia, nunca um maldizer a vida, sempre a mesma alegria, generosidade e simplicidade que conheci e aprendi a admirar a bordo do Avoante.

Obrigado por mais uma lição, além da vela, Comandante!

Zé Mauro Nogueira

Barco de cruzeirista raiz

bem equipadoQuem já cruzeirou por aí, de porto em porto, ou quem já morou por alguns anos a bordo de um veleiro, está mais do que familiarizado com uma imagem como essa. Eu mesmo dei muitas risadas ao me deparar com um barcão assim “todo equipado”, porém, ao virar o olhar para meu “terreiro”, não achava que estivesse com a aparência muito diferente. Certa vez, ao ancorar o Avoante no Iate Clube do Natal, o velejador Zeca Martino, que tem mais horas navegadas do que urubu de voo, ao ver o Avoante cheio de baldes de água, toldos, vara de pesca, mangueira presa na popa, bombonas de combustível, roupas secando no guarda-mancebo, mais roupas em corda de varal improvisada, marcas de ferrugem escorrendo nas ferragens e mais um sem número de apetrechos “descartáveis”, sentenciou: – Agora sim, tá parecendo barco de cruzeirista! 

A lição

cape_verde_political_mapO caso dos brasileiros presos no arquipélago de Cabo Verde, costa africana, é um alerta e uma lição para todos que tem no mar o cenário de sonhos de vida, principalmente os velejadores, que enxergam a oportunidade de uma viagem, como foi a do veleiro apreendido, como uma forma de ganhar experiências náuticas e embarcam com a alma livre e sem observar alguns procedimentos, que, inclusive, alguns mais experientes deixam passar em branco. O ditado já diz: “…quando a esmola é grande, o cego desconfia…”. Esse não é o primeiro caso, não será o último e nem é o caso de transferir a culpa para as autoridades policiais brasileiras, que segundo estão assinalando as matérias jornalísticas, cometeram falhas na hora da inspeção. Tenho esperanças que os brasileiros sejam inocentes e me levo a acreditar que embarcaram numa barca furada, mas não faço juízo de valor.