Arquivo da tag: vela de cruzeiro

Registros e recordações

viagem no Tranquilidade em 2011 (40)

Vasculhando os arquivos da alma para espanar a poeira, pesquei essa imagem, uma pequena fração da velejada no catamarã Tranquilidade, entre São Luiz/MA e Natal/RN, em junho de 2012, na companhia dos amigos Sérgio Marque, Moby, Erasmo e Flávio Alcides. O retrato foi  o registro da ancoragem no Marina Park Hotel, em Fortaleza/CE. – Quer saber o que Lucia serviu nesse almoço, né? – Acesse o link, Nas águas de Iracema, e confira! E assim, segue o tempo!

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REFENO, celeiro de boas amizades

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A REFENO – Regata Recife/Fernando de Noronha, uma das mais gostosas provas do iatismo brasileiro, um grande encontro dos amantes da vela de oceano, mas antes de tudo, é nas dependências do Cabanga Iate Clube de Pernambuco que boas e sinceras amizades são forjadas e se perpetuam abençoadas por gotas de água salgada. As imagens que ilustram essa postagem, com personagens que fizeram a história da REFENO 2010 – uma prova que os deuses do mar fizeram questão de testar a capacidade dos comandantes em um mar de faroeste – fazem parte de um recheado acervo de memórias que guardo com muito carinho.  Lembranças e saudades de uma vida bem vivida ao sabor dos ventos e sob os ensinamentos do mar.   

Aviso aos navegantes e afins

7 Julho (119)

Confirmando as informações publicadas aqui, em 01 de agosto, a Marinha do Brasil, através da Diretoria de Hidrografia e Navegação, emite nota a imprensa alertando para as condições de mar grosso, com previsões de ventos de até 40 nós, entre a Bahia e o Rio Grande do Norte, entre os dias 5 e 7 de agosto. Passando o olho nós gráficos dos institutos meteorológicos, podemos notar que o amuo das forças de Netuno se estenderá um pouco mais e com maior intensidade. 

MARINHA DO BRASIL

DIRETORIA DE HIDROGRAFIA E NAVEGAÇÃO

NOTA À IMPRENSA

Niterói, RJ.  Em 4 de agosto de 2019.

A Marinha do Brasil, por meio do Centro de Hidrografia da Marinha (CHM), participa que a persistência de um sistema de alta pressão sobre o oceano poderá provocar ventos de direção Sudeste a Leste com intensidade até 74 km/h (40 nós) entre os estados de Alagoas e do Rio Grande do Norte, ao sul de Natal (RN), entre o dia 4 à noite e o dia 7 pela manhã. Este sistema também poderá provocar ondas, em alto-mar, de direção Sudeste a Leste entre 3,0 e 4,0 metros nas proximidades do litoral entre os estados da Bahia, ao norte de Salvador (BA), e do Rio Grande do Norte, ao sul de Natal (RN), entre o dia 5 pela manhã e o dia 7 pela manhã. Haverá condições favoráveis à ocorrência de ressaca com ondas de direção Sudeste até 2,5 metros entre Salvador (BA) e Touros (RN), entre o dia 5 pela manhã e o dia 7 pela manhã.  A Marinha do Brasil mantém todos os avisos de mau tempo em vigor no endereço eletrônico https://www.marinha.mil.br/chm/dados-do-smm-avisos-de-mau-tempo/avisos-de-mau-tempo. Adicionalmente, as informações meteorológicas podem ser visualizadas na página do Serviço Meteorológico Marinho no Facebook, no link: https://www.facebook.com/servicometeorologicomb/, e por meio do aplicativo “Boletim ao Mar”, disponível para download na internet, tanto para o sistema Android quanto para iOS, desenvolvido em parceria entre a Marinha do Brasil e o Instituto Rumo ao Mar (RUMAR). Alerta-se aos navegantes que consultem essas informações antes de se fazerem ao mar e solicita-se ampla divulgação às comunidades de pesca e esporte e recreio.

Contato:  Assessoria de Comunicação Social da Diretoria de Hidrografia e Navegação

Baía de Camamu, a realidade e o país da fantasia

Outubro (1)

Sou solidário na dor e na revolta, diante do sentimento de impotência, que deve estar sentindo a velejadora Guta, mas o que aconteceu com ela, na baía de Camamu/BA, é nada mais, nada menos, do que acontece diariamente no Brasil real, que é o Brasil infinitamente distante das páginas e retratos editados das mídias sociais. No país maravilha dos facebooks, instagrans, whatsapps e outras feitiçarias quaisquer, a realidade do que aconteceu a bordo do veleiro Guruçá representa apenas nada mais do que um dia, ou no máximo dois, de curtidas e comentários revoltosos e ponto. O áudio que hoje, 26/07, foi divulgado pela velejadora é o retrato mais fiel da realidade que vive o Brasil verdadeiro. Realidade em que figuram os personagens da justiça que emperra na hora que deveria andar, da delegacia que está fechada em horas inoportunas ou simplesmente não tem pessoal, nem material humano, nem carros, nem equipamentos para atender uma ocorrência. Do hospital que não atende por falta de medicamentos, equipamentos adequados, macas ou apenas porque o médico não quer atender naquela hora crucial para aliviar a dor e a alma daqueles que sofrem. O Brasil onde as autoridades impedem a divulgação das estatísticas e onde as estatísticas são manipuladas ao bel prazer das suas vontades. O Brasil do tudo pode e nada existe de fato, nem de direito, pois tudo é direito e nada é fato. O Brasil em que uma criança dos cafundós da floresta amazônica é barbaramente assassinada pela mãe e sua companheira e tudo continua como antes. O Brasil onde o assassino  confessa que matou apenas pelo prazer de matar, porque o que ele queria era ficar alegre, e ficou. O Brasil do tudo, do nada, do bárbaro, do sentimento de impotência, da desgraça, da graça, da esmola, do circo, dos aplausos, das vais, dos vivas, do futebol, do santo ofício, das necessidades. Brasil da falta de vergonha na cara. O Brasil que vota por um pedaço de pão e uma dose de cachaça, mas que não deve nada ao Brasil que vota por uma dose de uísque 12 anos e um jantar no mais caro restaurante do jet set. Amiga Guta, infelizmente sua dor é real, mas sua luta é inglória, e você irá perceber ao caminhar alguns passos até que resolva olhar para trás, pois ninguém, a começar pelas autoridades que deveriam lhe dar abrigo, marchará a seu lado por mais do que um ou dois quarteirões, pois no Brasil da fantasia não cabe a insensatez da realidade. Encerro esse texto inglório e revoltante com o comentário do velejador baiano Julival Fonsêca de Góis, na postagem, Triste sina de um país contaminado pela impunidade.          

Olá, caro Nelson, pena que após expressivo período de tempo sem nos falarmos, que agora voltemos a fazê-lo como dantes. De início, queremos dizer que sua ira é uma maneira injusta para com nosso poder superior: Guta, deveria, sim, ajoelhar-se sobre uma camada de sal grosso, sob sol escaldante de 45 graus, por horas seguidas parada como uma estátua sobre a cabine do veleiro, com o olhar voltado para os céus e de modo contrito orar, orar e orar agradecendo ao criador por ter saído viva. Não ela a primeira vítima “ingrata” e não será possivelmente a única. Situações idênticas acontecem em todos os quatro quadrantes brasileiros. E quando ouvimos nossos gestores responsáveis, todos são unanimes em dizer: “hoje como nunca, nosso governo tem diminuído a violência”. Falam assim cinicamente enganando-se a si próprios. Há poucos dias, um grupo de bandidos, em represália a uma determinação judicial, invadiu uma propriedade da VERACEL, produtora de eucalipto e sob os “holofotes” dos celulares, não se intimidavam em mostrar toda brutalidade de que são capazes, quando quebraram e queimaram veículos, por pouco não assassinando os seguranças empregados exatamente para protegerem o patrimônio alheio. E porque assim procederam? Exatamente pelo indiferentismo de nossas “aRtoridades” em casos semelhantes, a exemplo do bandidiso cometido ano passado contra investidores japoneses no município de Correntina, oeste baiano, quando tudo destruíram causando prejuízo superior a 60 milhões de reais, deixando centenas de famílias desempregadas e inibindo a que outros investidores pensem em novos projetos. Para não mais nos alongar, quando nos decidimos pela venda do SEDUTOR( já felizmente consagrada), a razão maior foi exatamente essa: ausência de liberdade par vivermos nossa velhice em paz ao sabor dos ventos. Esteja certo, que não fossem esses registros, nossas delegacias de policia, estariam criando dificuldades para a realização dos “BO”, imoral situação que segundo alguns, uma determinação de sua excelência, a excelentíssima autoridade maior do estado da Bahia, o Excelentíssimo Senhor Dr. Governador. Agora, uma pergunta que não “ofende”: É ele diferente dos anteriores? Não, não é! Porque todos tem sido farinha com “bolô” no mesmo saco! Calate-boca, Julival! É melhor parar por aqui. À senhora GUTA, nossa irrestrita solidariedade. Fraternalmente, Julival Fonsêca de Góes

Triste sina de uma país contaminado pela impunidade

Outubro (45)

Essa imagem é de uma das mais fascinantes ancoragens da paradisíaca Baía de Camamu, o canal entre as ilhas de Sapinho e Goió. Jogar âncora nas águas desse canalzinho delicioso é um desejo de boa parte dos velejadores de cruzeiro, não somente brasileiros, mas principalmente estrangeiros, que se encantam pela vida vivida quase em estado bruto da encantadora baía que é o principal cenário da Costa do Dendê. Essa imagem é de 2015, última vez que passei por lá, a bordo do veleiro Compagna, do comandante Braz, em viagem que teve a carioca Paraty como destino final. Sou declaradamente apaixonado pela Baía de Camamu, um lugar mágico, e adentrar navegando aquela indecifrável paisagem, que o Criador se esmerou em desenhar, não tenho palavras para definir. – Quer que conte uma tristeza? – Conto! Segundo informações colhidas nos grupos de mídias sociais de velejadores, foi no canal do Goió que nesta quarta-feira, 24/07, aconteceu mais um criminoso caso de pirataria no Brasil, quando dois bandidos invadiram o veleiro carioca Guruçá, do comandante Fausto, e agrediram a Guta, esposa do Fausto, crime que ela mesma relatou e você lerá logo abaixo. – Dizer o que? Diante da tristeza e perversidade do acontecido, que felizmente Guta escapou apenas com hematomas, físicos e na alma, e gritando sua dor e impotência aos quatro ventos, não tenho muito a dizer, apenas que enquanto, como cidadãos, somos reféns do caos, nossos governantes brincam de ideologias baratas, de fazer  beicinhos, de discutir bairrismos e de mexer cordinhas de marionetes. – Nós? – Seremos eternamente palhaços!

Estamos fundeados em Camamú -BA e hoje, após Fausto sair com o Xerife para uma caminhada, fui surpreendida por dois homens. Um ficou na canoa e o outro subiu à bordo, com uma faca na mão.
Quando percebi o perigo, infelizmente não havia uma arma na mão, pois eu teria tempo de reagir.
Fui dominada, amordaçada, presa pelos pés em uma cadeira e as mãos nas costas.
Eles perguntavam por dinheiro, só dinheiro, que estava em uma mochila, mas amordaçada, eu não tinha como responder e por isso apanhei.
No rosto, nas pernas, nas costelas e estômago.
Quando encontraram a bolsa, levaram o dinheiro que tínhamos à bordo e mais nada.
O cara da canoa dizia: Rápido, só pegue dinheiro.
Minha pressão caiu e desmaiei.
Quando acordei, meus pés estava roxos pelo aperto da fita na cadeira.
Tive que me machucar mais ainda para conseguir pedir ajuda pelo rádio VHF.
Gostaria de agradecer ao Barba Negra que me desatou, e a todo pessoal: Caboges, Strega, Beijupirá que foram carinhosos e cuidadosos comigo.
Estou toda dolorida e com machucados bem feios que não vale a pena compartilhar.
Toda a comunidade está se esforçando para encontrarem os bandidos, um paraíso como esse não pode ser contaminado com a impunidade.

Sabigati – Parte III

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O poeta um dia cantou loas ao vento dizendo assim: “…Vamos chamar o vento/Vamos chamar o vento…”. Ninguém cantou o mar como Caymmi. As letras e melodias do Obá de Xangô, falam de uma Bahia encantada em lendas, da culinária, das ladeiras, das sereias de Itapoã, do suor do pescador, das morenas, cheiros, dos saveiros. Falam do mar, dos encantos mágicos, inebriantes, misteriosos e apaixonantes, o mar da Bahia e foi para ele que aproamos o Sabigati II, quando deixamos Maceió no início da manhã ensolarada do dia 18 de fevereiro de 2019, mês que recebe as bênçãos de Iemanjá.

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“…Vento que dá na vela/Vela que leva o barco/Barco que leva a gente….”, foi nessa entoada do “baianinho maneiro” que seguimos cortando as águas das Alagoas, cruzamos a foz do rio que vai bater no meio do mar e desaguamos na indecifrável beleza do mar sergipano. Desde quando enveredei nos traçados da navegação passei a escutar comentários sobre a força das águas do Velho Chico ao adentrar nas paragens de Netuno. Eram história que fascinavam a cabeça deste inveterado sonhador, que dormia idealizando como e quando seria a primeira vez. Quando ela chegou, trouxe a tristeza da fragilidade angustiante e agoniante do rio cantado em verso e prosa. Vieram outras e outras tantas se sucederam e naquele 18 de fevereiro lá estava eu novamente diante do São Francisco, tirando fino em sua foz tão inofensiva. Dizem que o Velho Chico é a salvação do Nordeste, mas ninguém diz quem irá salvá-lo.

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Diante das sombras da noite seguimos nosso rumo e nem de longe avistamos a cidade de Aracaju, porque do São Francisco sempre traço uma reta, por fora das plataformas de petróleo, para novamente aterrar quase vinte e quatro horas depois no través do farol do Itariri, lugar de peixe franco e a vontade, mas aí já estava na Bahia e foi daí que entoei Caymmi e sua bela canção, …vamos chamar o vento…, mas nesse dia ele não apareceu. Cantarolando seguimos navegando com a força dos motores e tentando planejar a nossa chegada na Ilha de Itaparica, onde deixaríamos o Sabigati. – Tentando? – Isso mesmo, tentando, pois para que a pressa meu rei, se a cidade está bem ali!

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Espreguiçando, levantei da poltrona da cabine e fui conferir a navegação e fiquei sabendo que chegaríamos a Itaparica no meio da madrugada. Argumentei que deveríamos diminuir a marcha para chegar pela manhã, mas fui voto vencido e ainda ouvi Lucia dizer assim: – E qual o problema de chegar de madrugada se já chegamos tantas vezes e você conhece aquele fundeio de olho fechado? – Eh! Então vamos! E fomos contando aviões. – Contando aviões? – Isso mesmo, porque chegando em Salvador, à noite, nem precisamos se preocupar em procurar os lampejos do Farol de Itapoã, porque ele fica nas imediações do aeroporto e como o tráfego aéreo por ali é muito grande, é um tal de descer e subir avião que duvido o caboco não se perder na conta.

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Deixamos o Itapoã para trás e nos metemos na aproximação da entrada da barra, que a noite, devido o clarão da cidade, é literalmente uma barra. Alguém haverá de perguntar se não utilizo a facilidade da carta digital do GPS. Claro que sim, mas quando o assunto é segurança na navegação, nada melhor do que o olho do marinheiro e disso eu nunca abri mão. E assim, com os olhos bem atentos, cruzei o canal entre o Banco de Santo Antônio e Praia da Barra e a meia noite recebi os acenos, pelos lampejos do Farol da Barra, que havíamos adentrado a Baía de Todos os Santos.

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Como sempre fiz, olhei para o alto da Colina Sagrada, agradeci ao Senhor do Bonfim, pedi licença para navegar em suas águas e que Ele nos guiasse até o ancoradouro em frente a marina de Itaparica. Foi com as graças e proteção que jogamos âncora às 3 horas da madrugada, desligamos os motores, olhei para Lucia, Pedrinho e Pedro Filho, agradeci, dormi e sonhei com um violeiro cantando assim: “…Yemanja Odoiá Odoiá/Rainha do mar/Quem ouve desde menino/Aprende a acreditar/Que o vento sopra o destino/Pelos caminhos do mar/O pescador que conhece as histórias do lugar morre de medo e vontade de encontrar/Yemanja Odoiá Odoiá/Rainha do mar…”

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Quando o Sol acendeu os primeiros raios, tomamos café, recolhemos a âncora e atracamos o Sabigati II no píer da marina de Itaparica, seu novo porto seguro.

Nelson Mattos Filho

Velejador

Sabigati – Parte II

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Existe uma máxima em meio aos velejadores que diz assim: Veleiro é bom, mas o motor é que atrapalha.

O Sabigate II é um catamarã, modelo BV36, construído pelo estaleiro Bate Vento, do Maranhão, e como todos os BVs, tem pedigree de barco marinheiro, e isso eu atesto e dou fé.

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Soltamos as amarras do píer do Iate Clube do Natal na manhã do sábado, 16/02, depois de um longo quiproquó com o motor de boreste, que teimava em não beber o combustível oferecido pelo reservatório que lhe daria o sustento. Por obra e graça de algum duende que sempre povoam embarcações, o combustível não passava – e não passou mesmo – pela mangueira nem com reza braba e muito menos com os armengues testados por Pedrinho, e que não foram poucos. Por sorte, o ex-proprietário havia instalado reservatórios reservas, com 20 litros, para cada motor e isso foi a nossa redenção diante da presepada dos duendes. – Ei, Nelson, e o Sabigati num é um barco a vela? – É, rapaz, e precisava fazer essa pergunta capciosa? Pois é, um motor tira o velejador do sério e dois então…!

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Velas em cima, motores funcionando, fomos deixando para trás a cidade dos Reis Magos e ao cruzar a boca da barra os duendes mexeram mais uma vez no caldeirão, retiraram uma porção de maldades e lá se foi o piloto automático. A correia do piloto era nova, mas desintegrou-se. Tínhamos uma sobressalente, porém, não tínhamos as ferramentas necessárias para a substituí-la. Poderíamos improvisar com as ferramentas que tínhamos a bordo, mas poderíamos estragar a peça. Como éramos quatro para dividir o comando, resolvemos deixar que os duendes festejassem a vitória e tocamos o barco em frente, em um mar que mais parecia um tapete e vento Leste/Nordeste tão carinhoso impossível. Se não fossem os motores…!

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Me surpreendi com o BV36, pois já tinha navegado no BV42 e no BV43 e achei o 36 um barco mais na mão, incrivelmente fácil de navegar e não desperdiça energia da tripulação. Foi nessa tocada suave que após 42 horas de navegada, a partir de Natal, ancoramos na alagoana Maceió. Mas não pensem que a nossa navegada foi exclusivamente na força dos motores, porque a partir do Cabo Branco/PB, que aliás não tem mais os lampejos do farol, o vento entrou com vontade e somente abandonou o posto no través da praia de Tamandaré/PE, que infelizmente também está com o farol apagado. Foi uma tristeza ver que a maioria dos faróis na costa entre o Rio Grande do Norte e a Bahia estão desativados e sobre esse assunto comentarei em outro texto.

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Tivemos 42 horas de puro deleite, com quatro peixes embarcados e só não pegamos mais, porque perdemos a rapala e o carretel de linha, numa bobeira do pescador. Mas os peixes que embarcados, quatro Serras deliciosos, fez a alegria das nossas refeições e ainda sobrou umas postinhas para presentear o novo proprietário do barco. Tivemos momentos de deliciosos bate papos naquela nossa pracinha navegante e fizemos, garanto por mim e por todos os tripulantes, uma das mais gostosas navegadas em uma fração de oceano Atlântico que nem sempre – pelo menos na faixa entre o RN e PE – é bondoso com os navegantes.

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Em Maceió paramos apenas o tempo necessário para desembarque do comandante Érico Amorim, que retornaria a Natal para aniversário do filho, e abraçar os amigos que estavam na Federação Alagoana de Vela e Motor – FAVM. A parada em Maceió é uma alegria, mas a tristeza continua sendo a sujeira que se estende na praia da ancoragem. Antigamente diziam que a podridão era causada pela comunidade que ocupava um terreno entre o Porto e a FAVM, mas a comunidade foi retirada e o problema continuou. Todos sabem muito bem de onde vem o lixo que invade aquele belo recanto, que se fosse bem cuidado seria um dos pontos de maior atração na cidade do mar de esmeralda. O lixo é levado até ali pelo Salgadinho, um rio imundo que cruza a cidade e onde boa parte da população joga todo tipo de milacrias. Maceió é linda demais para suportar a falta de zelo com o Salgadinho. Mas quem sou eu para estar falando da cidade alheia! Logo eu, nascido em uma cidade banhada pela imundice histórica do Rio Potengi! Não, não poderia falar, mas falo sim, do Salgadinho, do Potengi, do Capibaribe, do Paraíba, do Rio Vermelho e de tantos outros rios jogados ao desleixo nesse Brasil sem leis, sem ordem e sem comando.

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Três horas após de ter ancorado em Maceió, levantamos velas e ao sabor dos ventos, nos despedimos daquela terra bonita, que ainda preserva os lampejos do seu lindo farol, apesar de camuflado pelos prédios que o cercam.

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A Bahia é logo ali!

Nelson Mattos Filho/Velejador