Arquivo do mês: janeiro 2016

Carne de Fumeiro é a cara da Bahia

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Para quem viaja a Bahia achando que vai comer apenas moqueca, acarajé, abará, caruru e tudo temperado com o fogo ardido do mais puro molho lambão, é bom tratar de ir apurando o paladar para saborear um produto da mais pura culinária baiana e que passou despercebida das letras e versos dos grandes autores das terras do Senhor do Bonfim. Vai uma carne de fumeiro hoje freguês? A carne de fumeiro tem sua grife mais famosa na cidade de Maragojipe, uma das joias preciosas do Recôncavo, e por isso dificilmente você compra alguma em Salvador que o vendedor não garanta que ela venha de lá. A carne de fumeiro que é talvez o produto mais original da culinária baiana e é produzida com carne de porco. A defumação é uma técnica ancestral e totalmente artesanal, onde a carne é cortada em mantas e exposta a fumaça do pau de pombo para desidratar e ter a superfície selada, para evitar que estrague. Alguns antigos moradores da região não usam a palavra defumar e sim moquear, que é uma expressão indígena para a técnica de desidratar carnes e peixes. O sabor da carne de fumeiro é único e delicioso, e ai daquele que for a Bahia e não provar da iguaria.

20160108_09240120160115_10561620160115_10572620160115_10563820160115_105604No calçadão do bairro da Ribeira todas as sextas-feitas acontece uma feirinha que já virou tradição do bairro. Lá podemos encontrar produtos de excelente qualidade oriundos das cidades do Recôncavo Baiano, como as deliciosas, carnes, farinhas de mandioca, beijus, farinhas de tapioca, biscoitos, dendês, pimentas, frutas – como a jaca, que fez a alegria dos colonizadores –, verduras e tudo vendido com uma simpatia que só vendo. Aliás, simpatia é o nome de um dos mais famosos feirantes do pedaço e que já está por lá há mais de trinta anos. O passeio a feirinha da Ribeira é completo, pois além das compras, você vislumbra uma das mais fascinantes paisagens de Salvador e para quem é do mar, ainda tem o prazer de apreciar belas embarcações que refletem a história das navegações na Bahia. Vá lá e comprove!

Sobre velejadores e índios

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Claro que ninguém imagina que morador de veleiro viva apenas nos circuitos ligados pelos oceanos, porque se assim fosse a vida a bordo não teria sentido. Já escutei velejador abri a boca para dizer que não tem para que conhecer as paisagens e cidades do interior, porque tudo é a mesma coisa e ele já soltou as amarras da vida urbana e não pretende retornar tão cedo. Ele encerrou o assunto dizendo que o negócio dele é o mar e ponto final. Pois não!

Tem velejador que chega ao destino, se aboleta dentro do barco e nem nada para o resto do mundo e ainda tem a petulância de dizer que conheceu tudo e sinceramente não viu graça. Não poderia ter visto! Tem alguns que aprumam o barco no rumo do Caribe e passam a toque de caixa pela costa brasileira afirmando que aqui não tem nada de bom.

Certa vez conheci um em Itaparica que dizia conhecer a Bahia de cabo a rabo. Perguntei se ele havia passado em Camamu e ele disse que sim. Perguntei se havia conhecido a Ilha de Campinho, as ilhas de Goio e Sapinho, se havia navegado até Marau. Ele disse que tinha ido somente até Campinho e que já estava de bom tamanho, pois tudo aquilo é uma coisa só. Danou-se!

Sem querer ser chato, perguntei o que ele havia conhecido na Baía de Todos os Santos. O cara olhou para mim e respondeu com um ar de quem é o rei da cocada preta: – Nelson, eu tenho dezenas de anos no mar e tenho experiência para dar e vender. Não preciso sair de Itaparica para saber o que é bom, porque se eu quiser conhecer basta acessar o Google. Além de que, essa Baía de Todos os Santos é pequena para a bagagem que eu tenho. Cabra bom!

Gostamos de bater perna pelos locais que jogamos âncora, conhecer pessoas, interagir com os nativos e principalmente conhecer a feira livre, mesmo que está seja apenas uma pequena banca. Se tiver uma padaria então! Esse é um costume que trouxemos das nossas andanças pelas BRs que cortam o nordeste. Entravámos em uma estradinha qualquer apenas para ver até onde ela iria. Tivemos um monte de surpresas, boas e ruins, mas tudo valeu a pena.

Na Baía de Todos os Santos podemos dizer que conhecermos bastante coisa, mas tem muito ainda a ser conhecido. Cada lugarzinho é único e nada se parece com o outro. Fico intrigado quando escuto alguns velejadores baianos denegrindo alguns fundeadouros, dizendo que tal lugar não merece ser visitado, que é sujo, que a água é barrenta, que venta muito, que o barco balança, que não tem o que fazer, que a água é fria, que venta pouco e mais uma série interminável de desculpas esfarrapadas. E tem até quem se vira para a gente para dizer que falamos bem dos lugares porque não somos baianos e não conhecemos bem. Alguns chegam a empinar o nariz na tentativa de nos desmentir. Deus é mais!

Rapaz, comecei o texto falando de uma coisa e agora já estou enchafurdando em outra. Acho melhor tomar o rumo de volta antes que caia sobre mim um temporal vindo das bandas do noroeste. Eu queria mesmo era falar de um bordo que demos quando pegamos a estrada, montados em nosso Unozinho de apoio, e fomos parar num lugar pitoresco batizado de Cachoeira dos Índios, localizado na estrada da Linha Verde, que liga Sergipe a Bahia, a 100 quilômetros de Salvador.

A placa indicativa sempre chamou minha atenção e várias vezes quis entrar para conhecer, mas foi a partir de um bate papo com o marinheiro Serrinha, no Angra dos Veleiros, que a vontade aflorou de vez. Serrinha disse que conhecia a Cachoeira, que vez por outra ia até lá com os familiares e que o banho era muito gostoso. Perguntei se havia índio mesmo e ele respondeu que tinha um que ficava cobrando a entrada dos visitantes. Vou lá! E fui.

Chegando a porteira demos de cara com três figuras com a cara que haviam tomado à última dose fazia poucos segundos. Um deles se apressou em mostrar a placa que indicava o valor de R$ 3,00 o ingresso por pessoa. Pagamos, procuramos saber quem dos três era índio e foi uma risadagem geral. O mais velho disse que de índio não entendia nada, mas de cachaça ele era bom. Tiramos algumas fotos com os “índios papa mé”, pegamos algumas, ou quase nenhuma, informações e aceleramos o carro pela estradinha de terra. Antes de seguir, um deles disse que mais na frente encontraríamos o “índio prefeito” e que esse nos diria tudo. Beleza!

Não seguimos nem 200 metros e tivemos que parar, porque a estradinha de terra estava sendo restaurada e veio um senhor perguntado se iriamos conhecer a Cachoeira, informou que era o proprietário e que esperasse um pouco que ele levaria a gente até lá. Olhei para Lucia e disse: – Pense numa tribo arretada! E Lucia disparou: – Aqui tem índio não. Onde já se viu índio com cabelo crespo!

Uma pausa para respirar.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O Avoante revigorado

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Esse aí é o Rodrigo Rosa, um eletricista náutico de primeira qualidade e que acabou de refazer toda a instalação elétrica do Avoante. A última vez que nosso veleirinho passou por uma recauchutagem elétrica foi sob os cuidados do pai dele, o Rogério Rosa, e isso foi há mais de 10 anos. Tudo estava funcionando na mais perfeita ordem, mas seguindo o ditado que diz que, quem vai ao mar, avia-se em terra”, já estava na hora da revisão. Rodrigo, que é gaúcho, mora em Salvador/BA e só anda de bicicleta – fazendo parte de vários grupos da turma do pedal –, atende pelo telefone (71)99235-7404. O Avoante agora está pronto para mais 10 anos de mar.

No mundo das estrelas

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As vezes ficamos procurando desculpas para os fenômenos da natureza e invariavelmente ligamos ponto a fatos, fatos a coisas e assim por diante, mas, como bons mortais, não passamos mesmo de bons e alegres pitaqueiros que duvidam de tudo, de todos e visualizamos mistérios ou castigo do Céu em tudo que não encontramos respostas. Muitas vezes nem as teorias e comprovações científicas conseguem aplacar a nossa veia apocalíptica. E já que é para dar pitaco, eu é que não vou perder a oportunidade para largar o meu diante dessa chuva que põe em dúvida o verão de 2016.  – É chuva seu minino! Bem, essa semana uma fileira rara de planetas posará para as lentes daqueles que possuem máquinas mais arrochadas e aposto uma cerveja gelada que esse aguaceiro todo é resquícios dessa estripulia planetária. Se quiser apostar diga, mas se ganhar vai ter que dividir a cerveja comigo. Buscando saber mais do que se trata a fila dos planetas Mercúrio, Vênus, Saturno, Marte e Júpiter, mergulhei nos sites que metem a colher no assunto e me deparei a página Observatório, assinada pelo doutor e pós doutor em astronomia Cássio Barbosa, no G1, que explica para céticos e metidos o que danado é mesmo essa tal fila. Para começo de conversa o doutor Cássio se arvora em chamar nossa atenção com essa palavras: “Cuidado para não cair no erro de dizer que se trata de um alinhamento planetário, como muita gente está fazendo. Apesar dos planetas estarem quase na mesma linha, esse é um efeito visual, de perspectiva apenas. Quando há um alinhamento planetário de verdade, do qual a Terra faça parte, os planetas envolvidos ficam perfilados em suas órbitas e aparecem no céu todos bem próximos uns dos outros, o que não é o caso aqui.” Aprendeu?

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O doutor em astronomia diz ainda que a cena pode ser observada no finalzinho da madrugada e começo da manhã, até dia 20 de fevereiro de 2016. Para que ninguém perca a visada, ele diz que a coisa vai ficar mais as claras no final de janeiro e começo de fevereiro e o melhor horário será às 05:30 da manhã. Vixi, muita gente vai passar batido! Já o doutor Alan Duffy, da Universidade Swinburne, de Melbourne (Austrália), Vênus e Júpiter serão os planetas mais fáceis de serem visto e que para ver Mercúrio o cabra vai ter que fazer um esforço mais brabo, porque o bicho ficará “escondido” próximo a linha do horizonte. Doutor Alan diz ainda que a boa observação e a hora adequada será de acordo com a nossa localização na Terra. Pronto, agora é só acordar de madrugada, ver a cena e correr para assuntar com os amigos.

A Península de Itapagipe

8 Agosto (216)

A Península de Itapagipe, onde está localizado o bairro da Ribeira, em 2009 foi considerado, em votação feita na internet, um dos sete lugares mágicos de Salvador e é dotado de uma beleza ímpar de se ver. É na Península que está a Igreja do Senhor do Bonfim, o hospital, as obras sociais e o memorial de Irmã Dulce, O Monte Serrat – um dos mais belos recantos da capital baiana, a Ponta de Humaitá – um dos cartões postais da Bahia, a Praia da Boa Viagem e uma das orlas mais animadas da cidade e que tem na segunda-feira seu dia de maior alegria. É na Ribeira que baianos e turistas se deliciam na famosa Sorveteria da Ribeira, nas inúmeras pizzarias que servem pizzas com massa de batata, nos tradicionais botecos, nos pasteis e num calçadão que é um verdadeiro convite ao ócio.

01 Janeiro (66)01 Janeiro (69)10 Outubro (186)12 Dezembro (101)8 Agosto (217)7 Julho (91)

Os bairros da Península de Itapagipe ainda conservam um ar interiorano e ainda podemos ver moradores com cadeiras nas calçadas em animados bate papos com vizinhos e amigos, numa cidade que beira fácil os três milhões de habitantes. A Ribeira é um encanto e um grande livro a céu aberto, onde podemos ver o melhor de uma cidade multifacetada. 

A Ribeira

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O bairro da Ribeira, em Salvador/BA, é um recantinho gostoso em que a água salgada pulsa nas veias de seus moradores e inebria a alma dos felizes visitantes que caminham encantados por largos calçadões a beira mar, vislumbrando e sonhando com o desfile de belas embarcações que oferecem um espetáculo a parte. O pôr do sol da Ribeira é uma pintura da natureza que enche os olhos dos mais céticos dos mortais e me considero suspeito de falar, porque sou um observador abobalhado desse momento ímpar dos fins de tardes. Para o navegante, a Ribeira é um mundo encravado no solo do Senhor do Bonfim, devido a sua localização privilegiada, oferecendo o conforto de seis marinas e dotado de águas tranquilas, mas devido a astúcia dos incautos administradores públicos desse reino benevolente chamado Brasil, com elevados níveis de poluição. Porém, nem por isso deixo de admirar e gosto de ancorar o Avoante por lá e receber o abraço amigo e carinhoso dos que fazem o clube náutico Angra dos Veleiros.

Verão e chuva, tudo a ver!

mapservO verão dava toda pinta que seria quente de cabo a rabo, mas quem teve a curiosidade de tentar decifrar os sinais escritos nas nuvens e ouvir os sussurros do vento, ficou com uma pulguinha atrás da orelha, ainda mais quando por trás dos montes ecoaram roncos do guerreiro Thor. Adoro sentar num cantinho do cockpit do Avoante e utilizar as criativas ferramentas que somente o ócio é capaz de oferecer a um vagabundo do mar. A natureza não mente, porém, suas verdades são acobertadas por uma bela e maravilhosa cortina transparente que enche nossos olhos de brilho e encanto. Nesses tempos de Niños e Niñas – personagens encrenqueiros e de humores extravagantes – até um bom sertanejo ou mesmo um valente senhor do mar, conhecido como jangadeiro, vira e mexe se veem atrapalhados pelas estripulias mirabolantes dos “meninos”. Os homens das ciências e seus brinquedinhos espaciais carregados de lentes, tentam, tentam e vez por outra jogam a toalha diante do imprevisível. Juro que sou mais o sertanejo e o jangadeiro! Certa vez cheguei na praia de Enxu Queimado, litoral norte do RN, lugar que conservo bons e velhos amigos, e me atrevi a mostrar a Pedrinho, meu irmão de fé e lealdade, uma folha de papel com dados da previsão do tempo para os dias seguintes e que dizia ser de muita chuva e vento. Sem pestanejar ele olhou para mim e disparou: – Quem inventou essa mentira condenada homem? E deu uma sonora gargalhada. Pois é, a minha folha de papel foi jogada no lixo e saímos para tomar cerveja gelada com lagosta no bafo na mercearia de Dona Tita. Pedrinho, Seu Nenê Correia, Seu Nilo, Manoel, Seu Manu e tantos outros habitantes da praia e Enxu Queimado foram meus professores das coisas da natureza e até hoje não consegui sair das aulas de recuperação, porque tem coisas que não se aprende quando insistimos em misturar prática com teoria. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e naqueles dias não choveu e o vento foi fraquinho. Pois é, a estação que começou fervendo pelas bandas do nordeste, resfriou com as famosas chuvas de verão que estão dando o ar da graça e já tem gente tirando o casaco de frio do fundo do guarda roupas. Conheço as chuvas de verão desde que me entendo de gente e me espanto quando vejo os noticiários tratando o assunto como se fosse o fim dos tempos, do mundo ou castigo do céu. As chuvas estão aí e devem permanecer por boa parte do verão 2016, para desespero dos veranistas e turistas. Ainda não sei o que meus “professores” dizem sobre elas, mas sei que estão festejando adoidado. Já os homens do CPTEC/INPE preferem falar assim:

Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) ainda atua em parte do país
Nesta terça-feira (19/01), o destaque é ainda a atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que deixará o dia com muitas nuvens e pancadas de chuva fortes e localizadas no sudeste do PA, no sul de TO, no sudoeste da BA, no centro-norte e leste de GO, em MG, no RJ e no ES. Em algumas localidades, poderão ocorrer volumes significativos de chuva. Na Região Nordeste do país, a influência de um Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN) posicionado sobre o Oceano Atlântico adjacente contribui também para a ocorrência de pancadas de chuva em boa parte do interior da região.
Obs: Texto referente ao dia 18/01/2016-17h02