Arquivo do mês: fevereiro 2016

O mar e seus mistérios

iatemontagemPescadores filipinos se depararam na última sexta-feira, 26/02, com um veleiro a deriva, sem mastro e em péssimas condições, mas a cena mais macabra eles encontraram a bordo da embarcação. Lá estava sentado em frente a mesa de navegação, o corpo mumificado do alemão Manfred Fritz Bajorat, 59 anos. Segundo a polícia da localidade de Barobo, ainda não existe informação do tempo que o alemão está desaparecido, porém, um amigo disse que falou com o velejador há cerca de um ano pelo Facebook e ele havia dito que pretendia dar outra volta ao mundo. Manfred navegava pelo mundo há 20 anos na companhia da esposa. A esposa morreu há alguns anos e o alemão seguiu navegando em solitário. As causas da morte ainda não foram divulgadas. Fonte: G1

É assim!

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“ Muitos desejam possuir um barco, porém, matam o desejo quando primeiro pensam nos equipamentos que pretendem ter a bordo”

Algumas gotas de sal

9 Setembro (42)

“Onde muitos veem o feio eu enxergo o belo e onde muitos gritam troças eu sussurro poesia. O mar é o ser que me faz enxergar a polidez das coisas diante do infinito palco da natureza e com ele aprendi que a simplicidade é mágica e torna nossa alma livre.”  

Recados do mar

12 Dezembro (356)

Pesquisa de uma universidade dos EUA, aponta que a elevação do nível dos oceanos teve uma rápida aceleração nos últimos 20 anos e que até 2050 o nível do mar deve chegar a mais de 50 centímetros do que é hoje. Essa notícia bem que poderia ser mais uma das previsões apocalípticas que circula pela ondas virtuais, mas para quem mora em um lar balançante e volta e meia sai dando uns bordo por aí, a pesquisa é uma verdade verdadeira que salta aos olhos. As causas que fizeram chegar a beira dessa futura catástrofe mundial já é sabida por todos, porém, nada de concreto se chegou até hoje para tentar amenizar o castigo reservado as futuras gerações. Os líderes mundiais gastam tempo, dinheiro, comida e energia em monstruosos encontros para discutir o clima do planeta e no final da brincadeira se metem a assinar protocolos de intenções tão falsos que nem eles acreditam. Pura papagaiada! Nós, pobres mortais membros amestrados das torcidas organizadas, por enquanto vamos escapando e fazendo poses para selfies durante os momentos em que Netuno sai do sério e manda ver na força das ondas. A imagem que ilustra essa postagem é da prainha na Fonte do Tororó, no canal interno da Ilha de Itaparica, um dos locais em que observo a cada ano a maré subir um tiquinho a mais. Na pisadinha em que a coisa vai, muito em breve as cartas náuticas terão que ser revistas quanto a indicação das profundidades anunciadas, porque maré que sobe muito baixa muito. Ou será que não é assim? 

Veleiro é encontrado após 10 anos desaparecido nos oceanos

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Notícia publicada nesta segunda-feira, 22/02/2016, no site da Revista Náutica, dá conta que uma expedição de caiaque no Parque Nacional Bernardo O’Higgis, na Patagônia Chilena, encontrou no último dia janeiro os destroços do Open 60 Hugo Boss, tripulado pelo britânico Alex Tromson na Velux 5 Oceans de 2006. Na época o barco apresentou problemas na quilha, capotou e foi abandonado pelo velejador enquanto este brigava pela liderança da prova com o Mike Golding. Apesar de grandes rivais, Golding, que comandava o barco que estava mais próximo do acidente, deu meia volta e resgatou Tromson. O Parque Bernardo O’Higgis fica a mais de 13 mil milhas do local onde o barco foi abandonado. O mar é mestre em brincar de esconde esconde.

O Diário do Avoante agora também na revista Pindorama

IMG-20160215-WA0001A revista Pindorama, publicada e distribuída gratuitamente em Salvador e cidades metropolitanas do litoral norte da Bahia, acaba de lançar sua 6ª edição, como sempre, recheada de excelentes, caprichosas, diversificadas e apetitosas matérias. Em agosto de 2015, em sua 2ª edição, o Avoante fez parte da flotilha tema da matéria de capa, sobre pessoas que abandonaram a vida urbana para se aventurar a bordo de um veleiro de oceano. Naquela ocasião fui convidado pelo editor Mario Espinheira, a formar fileiras com os colaboradores articulistas e assinar a coluna Diário do Avoante. Depois de algumas correções de rumo a coluna finalmente começou a navegar na 6ª edição dessa revista que tem a cara e o gosto da Bahia.

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Hoje o mar amanheceu triste

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Tem pessoas que caminham pelo mundo carregando pesos inimagináveis para quem os observa com olhares incrédulos, porque a fragilidade do corpo não condiz com a energia da força irradiada. Pessoas assim nos transportam para o velho templo das reflexões e, por mais que tentemos, não conseguimos assimilar os segredos e mistérios que permitem a caminhada. Dona Izolda, que Deus, que a Senhora sempre foi fiel seguidora, a acolha em seus braços e cubra com o manto sagrado do alívio e do conforto suas dores. Siga em paz minha cara amiga e saiba que sua força e resignação é uma infinita fonte de aprendizado e carinho para aqueles que tiveram a alegria de conviver a Senhora.

Izolda Maria Andre das Virgens – 26/03/1947 – 17/02/2016

De conspiradores e malucos

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Uma notícia que acaba de chegar por entre as marolas do grande mar virtual me remeteu a um episódio que se passou numa tarde ensolarada na Baía de Camamu em 2005, enquanto batíamos papo, regado a umas cervejinhas estupidamente geladas. Mas antes de contar o bafafá, vou comentar o que me fez lembrar o caso.

Os jornais online dessa quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016, dão conta que um casal de velejadores dos EUA pediu ajuda a Guarda Costeira na terça-feira, 16, enquanto navegava nas proximidades da costa cubana e foi resgatado por um navio da Disney que seguia para Miami, mas ao atracar no porto, o velejador foi preso pelo FBI sob a acusação de conspiração. As autoridades dizem que ele participou de um ataque aos computadores de um hospital em Boston, em 2014, e quando surgiu seu nome como um dos resgatados, não tiveram duvidas em colocar o homem atrás das grades.

No mar tem todo tipo de gente e os barcos a vela ultimamente tem servido para um bocado de maruagem. Não duvido nada se algum dia aparecer alguma autoridade querendo impor regras de fiscalização para todo veleiro que deixar ou chegar ao porto, nos mesmos moldes que acontecem com os navios.

Certa vez fui recriminado em um certo clube náutico por dar ouvidos e acolher de bom grado todo velejador de passagem pela cidade. Defendi-me com a alegação de ser também um velejador de cruzeiro e por isso saber das dificuldades que um viajante do mar tem por aí afora, onde nem sempre a recepção é amistosa. Claro que minhas alegações foram motivos de muxoxos, mas eram as mais verdadeiras e dificilmente aqueles que recriminam estão a fim de ouvir justificativas. Se o cara é gente boa ou não, até que ele mostre sua face sinistra eu estou pronto a ajudar.

A história do velejador conspirador puxou minhas lembranças para baixo daquela palhoça em Camamu, porque naquele dia ficamos cara a cara com uma valente e raivosa militante de um dos grupos terroristas que atuam na Espanha. Estávamos já na sei lá quantas cervejas, quando ancorou um veleiro de bandeira espanhola e de lá desembarcou um casal que se dirigiu para onde estávamos e sentou em uma mesa vizinha a nossa. Lucia, como boa anfitriã, convidou o casal a sentar com a gente, pois estávamos junto com o casal Breno (que Deus o tenha) e Lau e os dois sabiam falar fluentemente vários idiomas. O convite foi aceito de pronto.

Naquele tempo havia acontecido um grande atentado na Espanha e o Breno comentou sobre o ocorrido, condenando o grupo que havia assumido o ato terrorista. A mulher, que havia acabado de chegar, fechou a cara e o homem acendeu um cigarro e deu um sorriso pelo canto da boca. O Breno insistiu no tema e a Lau atiçou o fogo soltando impropérios contra os terroristas. Sem conseguir segurar à ira, a mulher levantou, deu um soco na mesa e gritou palavras em um dialeto espanhol que fez o Breno corar. A Lau, que não é de ficar calada, soltou os cachorros para cima da mulher e assim o bafafá foi aumentando e eu já começando a achar que teria que centrar fileiras na turma do deixa disso.

Breno levantou e apontou o dedo para o rosto da mulher e respondeu gritando no mesmo dialeto que ela falava. A mulher puxou o marido pela camisa, saiu gritando alguma coisa, fazendo gestos como se estivesse apontando uma arma em nossa direção e voltaram para o barco.

Perguntei ao Breno o que havia acontecido e ele disse que a mulher era militante ao grupo terrorista do atentado na Espanha e não admitia que ele e Lau incriminassem o ocorrido e que se tivesse uma metralhadora ali acabaria com a gente sem piedade. Breno ameaçou denunciá-los a Polícia Federal e assim o casal se retirou soltando palavras de ordem e fazendo ameaças.

Para aliviar a tensão, peguei outra cerveja e ficamos ali observando o veleiro dos estranhos, mas a Lau não sossegava o facho e de vez em quando soltava palavrões em direção ao barco. A noite chegou, o sono bateu, os ânimos acalmaram e fomos dormir o sono dos justos. No dia seguinte, procurei o veleiro do casal na ancoragem e nem sinal. Como não vimos o nome do barco e não perguntamos os nomes da dupla, pois o moído aconteceu rápido e não tivemos tempo para as apresentações de praxe, até hoje a história navega em minhas recordações e tremo só em pensar que podia ter sido metralhado por uma terrorista braba que só um raio.

Aí você pergunta: – O que danado isso tem a ver com o conspirador preso nos EUA? Eu respondo: – Sei lá, mas no maravilhoso cruzamento de informações que ocorre em nosso cérebro, muitas vezes alguns arquivos se relacionam sem que nem mais.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A Tempestade – Epílogo

Michael Gruchalski (1)Depois de longos, tenebrosos e quase intermináveis dias de angústias, avexamento e desesperança dos leitores, chega ao fim a série A Tempestade, escrita pelo velejador de longo curso Michael Gruchalski. Do mesmo modo que começou, o final deixa na gente um gostinho de quero mais, pois o Michael é um exímio contador de histórias e causos tendo o mar como pano de fundo. Não preciso me estender em mais delongas, porque tudo já foi dito nos 20 capítulos que se seguiram, porém, é preciso sim agradecer ao autor por ter brindado nossos leitores com tão fascinante história.

A TEMPESTADE

EPÍLOGO

A história é verdadeira e foi contada em forma de crônicas, por partes, cada uma objetivando realçar um aspecto da aventura. Dei destaque à beleza e a magia das cores, sons e sentidos quando a força da natureza desnuda e põe à mostra a pequenez do homem. Procurei dar destaque também àqueles elementos incontroláveis, o medo, o terror e a desesperança que surgem durante uma aventura quando ela sai do controle e desanda rumo ao grande desconhecido.

A perda do leme de um barco é, de longe, a pior, a mais funesta coisa que pode acontecer. Por ser um problema sem solução, nada é comparável com o tamanho e a natureza das dificuldades encontradas. Para todos os outros acidentes, exceto ao do naufrágio repentino, há soluções que levam o barco avariado e sua tripulação a algum lugar. Sem leme, não se vai a lugar algum. E ponto final.

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Com um erro de uma a duas milhas de raio, as duas bandas do leme de fibra do veleiro Panoramix estão hoje enterradas na areia, no fundo do oceano, a uma profundidade de 50 metros. Bem na costa norte de Sergipe. Bem lá, na posição S 10º 42’, W 36º 26’, onde, navegando no rumo 60º, a proa aponta para o Nordeste, visando o waypoint Rio São Francisco a 23 milhas a leste da foz do velho Chico. Nossa rota, até Maceió, fecharia o rumo em 40º a partir dali, seguindo mais 65 milhas para o norte com o waypoint Coruripe no meio do caminho.

Duas placas enormes, abauladas, com um metro e setenta de comprimento, de fibra de vidro e resina poliéster com oito a dez milímetros de espessura, literalmente indestrutíveis naquele ambiente de água salgada. Ficarão lá por muitos séculos ainda, zombando da passagem do tempo, das correntes marítimas e gerações e gerações de peixes e crustáceos. Chegaram lá depois de se separarem do eixo do leme do nosso veleiro, mergulhando naquelas aguas turvas da costa sergipana para nunca mais voltar, no início da madrugada de sábado da última semana de setembro de 1997. Portanto, há quase vinte anos. Em linha reta, a 34 milhas da foz do rio Sergipe, 19 milhas da costa, e a 18 milhas do waypoint rio São Francisco.

Julgamos hoje que foram duas placas mal coladas uma à outra durante o processo de fabricação e que, por isso, quase tiraram a vida de três velejadores experientes durante a subida para Recife com a intenção de participar da Refeno. É evidente que a perda do leme por si só não representou perigo de vida à tripulação, mas sim a combinação do acidente com a ocorrência da tempestade na noite seguinte.

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Nosso CAL 9,2, fabricado doze anos antes pela Mariner de Porto Alegre, havia sofrido, no verão de 1995, um acidente ficando preso por um bom tempo nas pedras da ilha de Maré. Fazendo água, foi trazido às pressas para o clube onde verificou-se que o eixo do leme havia entortado. As batidas constantes nas pedras também haviam inutilizado a bucha inferior do eixo além de fazer um furo bem na junção do telescópio com o casco, motivo da grande entrada de água.

Nada mais fácil de consertar do que isso. Um bom torno e um bom torneiro para aproveitar o mesmo eixo. Uma boa resina e um bom fibrador para aproveitar o mesmo leme. Vinte dias depois, o barco já estava navegando de novo. E, diga-se de passagem, à venda, pelo antigo dono.

O comprador foi meu amigo Marcos Marcellino, na época, morador de Feira de Santana, que passou de um Ranger 22 para um poderoso veleiro de 30 pés. Acho que sem saber que o barco tinha sofrido aquele acidente. Após muitas velejadas pela baia com a família e amigos, um ano depois, o desejo de ampliar seus conhecimentos náuticos partindo para novos horizontes falou mais alto. Recebi o convite para acompanha-lo na Refeno de 1997 em agosto e não me fiz de rogado. Estivera lá, pela primeira vez, em 1995 com um Samoa 29 numa viagem dura e cheia de problemas. Esperava agora, sombra e água fresca como compensação e tudo indicava que seria assim com aquele barco quase novo, quase em perfeito estado de conservação. Seu filho, Ildefonso, o Ildé, de 16 anos que, apesar da escola, encontrou uma maneira de nos acompanhar, pelo menos ajudando-nos a levar o barco até Recife.

E, lá fomos nós.

Largamos as amarras as quatro da tarde de uma quinta-feira de sol e vento leste/nordeste do píer do Aratu Iate Clube em Salvador. Destino: Recife. Geladeira cheia, despensas mais cheias ainda, água nos tanques, diesel de reserva nos bojões, bote inflável recém-comprado desinflado no porão, motor e refrigeração revisados uma centena de vezes, um bom estoque de pilhas para nosso GPS comilão, enfim, tudo pronto para a grande viagem.

E, deu no que deu.

Na minha opinião e na do comandante também, exclusivamente por causa da colagem malfeita das duas bandas de fibra por cima do eixo e suas costelas de aço, dois anos antes. Elas se separaram devido a infiltração continua de água nos orifícios deixados pela má colagem. Com a pressão da água passando com maior velocidade naquela viagem mais longa até Recife, os pequenos furos se tornaram rombos que permitiram a entrada de mais e mais água no leme. O isopor que compõe a maior parte do seu interior ficou encharcado, começou a se despedaçar e a pesar muito. O peso excessivo, a pressão e a vibração do conjunto causado pela velocidade do barco fragilizaram o leme até aquele ponto em que as muitas fissuras se tornaram uma fenda contínua, inicialmente estreita, mas comprida ao longo de toda a parte frontal do leme. Mais água, mais pressão e o leme não resistiu. Abriu em leque separando suas duas bandas de fibra, uma para cada lado, uma para cada canto, ambas em direção das profundezas do oceano, esse depósito de segredos que lhe serviria, dali em diante, de sepultura eterna.

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Ainda a cronologia:

– Aratu Iate Clube-Salvador ao ponto do acidente: das 16:00 da quinta a 01:00 da madrugada do sábado ou 175 –milhas em 33 horas com média de 5,3 nós por hora.

– Trabalhos de construção e instalação do leme de fortuna: 14 horas, das 03:00 às 17:00 horas do sábado. Derivando para o leste-sudeste.

– Inicio do deslocamento com o leme de fortuna: 17:00 do sábado até a tempestade por volta das 23:00 horas.

– Retomada de navegação com o leme de fortuna e chegada em Aracaju: das 03:00 da madrugada as 18:00 do domingo, ou 15 horas para vencer aproximadamente 30 milhas a média de 2 milhas por hora.

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Enfim, são e salvos e atracados no pequeno píer de madeira do Iate Clube de Aracaju, tratamos de encontrar uma solução para sair dali.

Navegando. E conseguimos.

Mas, isso já é outra estória.

Por: Michael Gruchalski

O veleiro de vidro

lujac-desautel-salt-yacht-Sldlujac-desautel-salt-yacht-2-800x400lujac-desautel-salt-yacht-3-800x400lujac-desautel-salt-yacht-6-612x600Se você pretende trocar de barco ou está pensando em comprar um, acho bom esperar um pouquinho mais, porque as ideias mirabolantes dos projetistas não param de florir e a cada dia ficam mais ousadas e futuristas. Dia desses mostrei aqui o Ghost – meio barco, meio tanque de guerra –, agora foi a vez do premiado arquiteto e designer de iates, Lujac Desanutel, apresentar o fruto do bico de suas canetas digitais. O modelo batizado de Salt é inteiramente sustentado por vidros e tem a pretensão de deixar os tripulantes no mesmo nível do mar, que, segundo ele, em um ambiente agradável e tranquilo. “- Queria ver esse veleirinho navegando entre Fortaleza e Natal”. O barco terá três salas de jantar, cinco cabines e diversas salas de descanso e lazer. Acho que vou trocar o Avoante! Fonte: Revista Náutica