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Cartas de Enxu 37

8 Agosto (76)

Enxu Queimado/RN, 25 de abril de 2019

Caro Odilon, as coisas por essa Enxu mais bela estão indo daquele jeito que você viu quando esteve por aqui em 2018, na paz e caminhando em passos lentos, mas caminhando. É uma pena que nosso amigo Chaguinhas ainda não pisou os pés por essas areias de dunas brancas, mas tem nada não, porque um dia ele chega e quando chegar, você vai escutar o barulho daí de São Paulo, porque o coronel tem pareia não. No dia que ele vier, vou pedir para Dona Voreta e os filhos, que moram na rua por trás de minha casa, para colocarem protetores de ouvido. Pense num caboco barulhento!

Brodinho, lembra aquele papo-cabeça que você teve com Lindemberg, filho de Pedrinho, sobre Beethoven, na sombra da varada da nossa cabaninha? Caso você não lembre, vou avivar sua memória: Lindemberg, 4 anos de idade, disse que tinha um cachorro e ele se chamava Beethoven. Você perguntou se ele sabia quem foi Beethoven e ele reafirmou que era o cachorro. Foi aí que você descambou a falar sobre o famoso compositor alemão, um dos principais pilares da música ocidental e autor de nove sinfonias, sendo a Nona a mais famosa, que o consagrou no mundo e mais uma lista de qualidades do gênio alemão, que inclusive perdeu a audição na fase adulta, mas devido a sua fenomenal memória auditiva, conseguia criar as composições em sua mente e executá-las. Berguinho, escutou sua preleção, com aquele ar de quem estava entendendo tudo, e quando você terminou, ele disparou: – Já sei, Beethoven é um cachorro que canta! Naquele dia demos boas gargalhadas e dobramos a dose de cervejas geladas. Pois bem, o “cachorro que canta”, dias depois que você foi embora, saiu para um passeio na mata, foi mordido por uma cobra e bateu a caçuleta.

Eh, amigo, estava aqui pensado em como os interesses mudaram no mundo desde o final do século XX. Até lá éramos um povo entusiasmado com a história e tirávamos lições que norteavam a jornada a ser seguida, mas agora tudo é tão efêmero que dificilmente as preocupações, os interesses, as alegrias, as tristezas duram mais do que longas doze horas. Claro que não estou falando das ideias e fantasias de uma criança e seu “cachorro que canta”, mas sim da deformação que atinge a mente dos adultos. Perdemos o senso e tateamos desgovernados em meio a um oceano tempestuoso, onde a tempestade é criada por nós mesmos. A história que há muito vinha sendo jogada as traças, agora está recebendo toneladas de pás de cal. A história vive apenas de furtivos e festivo interesses de alguns espertalhões.

Brodinho, dia 22 de abril de 2019 marcou a data do 513º aniversário do descobrimento das terras de pindorama, mas a data não mereceu muitas deferências, a não ser, pequenas notinhas em cantinhos de páginas de jornais e míseros segundos nos noticiários televisivos. Se houve festejos, o que deve ter havido, nas paragens da baiana “Costa do Descobrimento”, não dou notícias, mas pelo meu Rio Grande do Norte e principalmente na esquecida e abandonada Praia do Marco, parede e meia com Enxu, lugar que alguns historiadores apostam fichas como sendo o local exato em que Cabral aportou com sua esquadra, não teve nem o pipoco de um traque sequer. E sabe o que é mais engraçado: Os municípios de Pedra Grande e São Miguel do Gostoso, divididos pela réplica amarela do Marco de Touros e sua igrejinha povoada de santos e fé, travam verdadeiras batalhas de bastidores para saber qual dos dois merecem estampar em seus pórticos o brasão do reino de Portugal. E sabe o que mais: As escolas da região ainda se avexam a ensinar uma história errônea, até agora sem muitos embasamentos, como sendo a mais pura verdade.

Odilon, alguns amigos que me identificam como navegador, sem saber, eles, que sou apenas um aprendiz de marinheiro, as vezes perguntam o que acho da peleja do Descobrimento, respondo que não aposto uma cerveja gelada nesse assunto, mas até comeria uma posta de peixe frito, para acompanhar a cerveja, em alguma mesa de bate papo onde a peleja fosse posta, pois no mar não tem estrada lógica e Netuno é mestre em desmontar verdades. Porém, tenho apenas uma ressalva nesse moído: Avistar prontamente, do mar, o Monte Pascoal é preciso que o caboco esteja há muitos dias de castigo na “casa do caralho”, pois se não for assim é um grande exercício de paciência. Aí você pergunta: – E o Pico do Cabugi? – Pois é, ele está bem visto e altaneiro a quem se aproxima da costa Norte potiguar, entre Guamaré e Touros, a partir das 20 milhas.

Pois é Odilon Gibertone Leão, entre cachorros que cantam e as estripulias além-mar de Seu Cabral, estou dando notícias daqui e convidando você e Dona Estela para virem armar novamente a rede sob a sombra da varanda dessa cabaninha de praia. Venha, homem de Deus, e venha logo, pois as chuvas caídas por aqui estão dotando a região com uma beleza ímpar. Venha ver a chuva e aproveitar para molhar o corpo com o sal refrescante do mar de Enxu.

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 36

2 Fevereiro (165)

Ângela, não sei se é verdadeiro o conto de que nascemos com o plano de vida traçado em algum lugar entre o Céu e a Terra e por mais que tentemos mudar nosso destino, não tem como. Mas como duvidar do conto, se quando começamos a caminhar no labirinto, o máximo que conseguimos é chegar a uma imensa e indecifrável clareira onde tudo casa com tudo sem nem sabermos o porquê? Amiga, aquele carequinha era o máximo e não tem como deixar de agradecer Aquele que traça o destino das pessoas, em ter cruzado o de vocês com o nosso.

Sabe, amiga, a vida nessa praia paraíso continua caminhando na paz e na tranquilidade e lembra um pouco Terra Caída/SE, aquele pedacinho do Céu debruçado sobre os rios Piauí e Cajazeiras, só não tem o Zé de Teca, porém, tem uma trinca de cabocos resenheiros que se brincar, deixa Zé segurando o queixo. Pois veja só: Certa manhã, depois de uma madrugada de relâmpagos e trovoadas, sentei para papear com uns amigos e o assunto não poderia ser outro a não ser o riscado dos coriscos que lumiaram a noite e o ronco surdo de Thor. Lá pras tantas, alguém afirmou que primeiro vinha o trovão e em seguida o clarão do relâmpago. Tentei corrigir a crença do amigo e por mais que eu argumentasse que primeiro vinha o relâmpago e logo após o trovão, porque a luz é mais rápida do que o som, não teve jeito, pois naquela roda de bate papo todos estavam convencidos que o som vem primeiro do que a luz. Teve até quem dissesse assim: – Menino, quando a gente solta um peido de velha primeiro vem o pipoco e só depois aparece o fogo do traque. E vou confessar uma coisa, viu amiga: Pois num é que saí daquela resenha quase convencido que eu estava errado, tamanha era certeza dos debatedores. No próximo encontro vou perguntar se a Terra é redonda ou plana só para ver o circo pegar fogo. Vai ser onda, viu!

Amiga, nesse mundão sem fronteiras e com a rede de computadores emitindo dados e notícias a cada milionésimo de segundo, por mais isolado que seja o recantinho do planeta o zumbido chega e chega ligeiro e nem uma redinha preguiçosa e despretensiosa, estirada em uma varandinha de praia, serve de trincheira para um vivente se esconder. Pois veja só, estava eu sobre a varandinha, maravilhado com a história de São Lucas, no livro Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldell, quando me deu na telha de pegar o celular, bicho anunciador de boas e más, e na telinha apareceu a notícia de que o presidente dos ianques, Donald Trump, em discurso cutucou os defensores da energia eólica e disse que o barulho emitido pelas pás e turbinas geram câncer. Não é preciso dizer que a largada do galego deu o que falar mundo afora, mas da minha varandinha fiquei a matutar ao olhar para a floresta de “moinhos de vento” que por aqui se estende além de onde a vista alcança e mais um pouco: – Agora danou-se, e se esse “topetudo” estiver certo? Dia desses uma amiga que mora no povoado do Alto da Aroreira, parede e meia com Enxu, disse que tinha horror do barulho constante das torres de eólico, que cercam o lugar. Disse que aquele zumbido surdo dava até dor de cabeça e que muitas vezes não conseguia dormir. – Vai vendo, amiga, vai vendo!

Pois bem, deixei o alerta do galego para lá, pois o danado é dado a falar pelos cotovelos, se bem que acerta quase todas. Lembra do atentado na Suécia? O bixiga só errou a data! Pulei a tela e diante da notícia seguinte encolhi os olhos para ler o que achava que não estava lendo. O STF, que agora se avexou a cesurar a boca e os dedos do povo e a emitir ameaças veladas a torto e a direita, deu carta branca para o sacrifício de animais nos terreiros de umbanda, sob alegação de cunho religioso, cultural e histórico. Cada qual com sua fé, mesmo que seja torta! Agora me diga, Ângela: – E se o santo pedir o sangue, como tem acontecido por aí, de uma pessoa, será que também está dentro da permissão dado pelos senhores supremos?

Eh, amiga, esse mundo está virado de ponta cabeça, ou melhor, sempre esteve. E falando de sacrifícios de humanos: – Você viu que nos Andes encontraram centenas de esqueletos de crianças, coisa feita pelos Incas? Os estudiosos relativizam e dizem que as crianças eram sacrificadas para que os deuses abrandassem os efeitos do El Niño. Será que naquela época tinha STF naquelas montanhas de frente para o Pacífico? Sei lá! E pior é que o danadinho do El Niño e sua irmãzinha querida, continuam dando as cartas e mandando ver nas coisas do tempo, isso quer dizer que as crianças incas morreram por nada. Tem muito pecado em meio a fé!

Pois é, Ângela Cheloni, essa missiva era para falar das coisas dessa Enxu mais bela, mas fui inventar de curiar o celular e me perdi por entre as vias marginais das histórias mal contadas, mas tudo bem porque tudo vale quando se quer puxar conversa com uma amiga.

Beijo e não demore a voltar por aqui, viu!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 35

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Enxu Queimado/RN, 12 de março de 2019

Olá, filhota, espero que essa cartinha chegue até você e a encontre em paz e com aquele sorriso lindo que me derrete de paixão. Bem que poderia ficar horas e horas ajuntando letras nesse teclado confidente, falando do amor que sinto e derramando loas e loas sobre a beleza que estonteia os olhos e enche de alegria o coração de um pai que está a milhas e milhas de distância. Mas não vou não, porque quero falar do cotidiano da vida vivida nessa vilazinha praieira que me acolhe e me dá carinho. Como você é linda e maravilhosa, Filha! Benza Deus!

Filha, o Carnaval por aqui foi bom, tranquilo e na paz que merece a festa de Momo, se bem que as músicas deixam a desejar, mas fazer o que se a batida é mesma de Norte a Sul. Andei lendo e vendo os moídos da sua Salvador amada e vi que a coisa por aí foi bem animada. Gosto de dizer que é preciso viver a Bahia para falar sobre ela. Eita terra boa e abençoada. Também, com todos os Santos no comando e um exército de Orixás dando proteção, não tem quem se atreva a meter água no azeite!

Aqui teve uns buchichos na beira mar, onde se apresentaram umas bandas tipo xerox. Digo assim, porque entrava uma, saía outra e o repertório era o mesmo. Não fomos nem um dia dar uma bisbilhotada no fuzuê, até porque a pizzaria estava funcionando a todo vapor e quando a labuta terminava, abríamos uma cervejinha gelada e cadê a coragem de sair. Tomara que Momo me desculpe por essa, mas foi assim. Papai gostava de dizer que ninguém podia perder um Carnaval, pois não recuperava mais nunca. Pense num homem arretado e que gostava de festa!

Filhota, as chuvas por aqui estão bem chovidas e a pequena floresta do quintal está rindo à toa e verdinha que só vendo. Tem acerola, pinha, graviola, pitanga, seriguela, laranja, coco, fruta-pão, caju, mamão – doce que faz inveja a açúcar –, berinjela, cajá, cajá-manga, banana e até uns pés de pimenta, para temperar moqueca e espantar mau-olhado. Tá pensando! Estou até pensando em virar exportador! Margareeeeth!

Loura Linda, diga aí se você já ouviu falar na palavra “serigóia”. Pois é, estava hoje na varanda e escutei alguém xingar outro de “serigóia” e me avexei a pesquisar no doutor Google para saber o que danado é isso, e no que cheguei mais perto foi da “sericóia”, que é a Saracura-três-potes, uma espécie de ave que vive em áreas alagadas do pantanal mato-grossense e também México e Argentina. Fiquei matutando como danado chegou essa sericóia por aqui e não sosseguei enquanto a danada não voltou. Pois num é que a pessoa tinha as pernas longas e era magra que só uma sericóia! Sei não, viu! Pedrinho de Lucinha certa vez me disse que no fundo do mar tem toda espécie de criatura igualmente em terra. Perguntei: – Pedrinho, e tem gente? – Tem veio, eu num mergulho lá! – Eh, tem mesmo! Qualquer dia vou perguntar se tem sericóia e parece que estou vendo a resposta!

Por aqui apelido é que não falta e tem cada um que nem nos melhores dicionários do mundo se consegue a tradução. Meu amigo Zé Mago, que agora ganhou mais um apelido, que depois eu conto esse moído, é quem mais bota apelido no povo. O cabra é bom de ajuntar letras e basta olhar para uma pessoa que o apelido já vem na ponta da língua. Dia desse chamei Zé Mago para um bate papo na mesa que tenho embaixo do pé de nim e pedi que destrinchasse os apelidos de Enxu. Foram tantos que enchi três folhas de caderno e só não enchi mais porque Zé recentemente teve um AVC e segundo ele, a doença fez a cabeça esquecer de uma ruma. Tem um, que foi goleiro do time, que tem dezenove apelidos e quando Zé irradiava o jogo, dizia tudinho numa tacada só.

Amandinha, Enxu Queimado é uma graça de se viver e um paraíso de encantos. É difícil encontrar um recantinho no litoral brasileiro mais gostoso do que esse. Tem suas necessidades, suas mazelas como em todo lugar, mas no final da conta o que sobra é uma riqueza enorme de grande. Só em ter paz e as pessoas poderem andar despreocupadamente a qualquer hora do dia ou da noite, já é uma riqueza que não tem preço. – Quer ver eu criar ciumeira e dar o que falar? – Gostoso fica aqui bem pertinho, mas nem de longe tem a gostosura que tem Enxu!

Amanda Isabella Palma Mattos, a Loura linda de Nelsinho, venha aqui filhota. Venha conhecer um lugar que dificilmente as pessoas deixam de se apaixonar. Venha ver as belezas encantadoras das dunas e do coqueiral que declama poesias ao vento. Venha sentir o frescor dos alísios do Nordeste que por aqui declaram amores ao mar. Venha se banhar em um mar de águas mágicas e caminhar em um infinito de praias de areias branquinhas e livres de poluição. Venha ver as jangadas em seus belos bailados. Venha ver a Lua mais bela. Venha filhota, venha viver um mundo que só tem em Enxu.

Beijo, Filha e não demore!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 32

2 Fevereiro (24)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2018

Caro amigo, Nadier, como vão as coisas nas águas dessa Bahia velha de guerras? Tenho saudades das “grandes navegações” que empreendi na Baía de Todos os Santos, sob o olhar observador do Senhor que faz morada no alto da Colina Sagrada. Eita tempos bons e prazerosos, que um dia qualquer reviverei. Lembro com carinho cada detalhe, cada ancoragem cercada de amigos, cada bordo, cada abraço, dos bate papos e dos brindes levantados em nome da boa amizade. O mar é uma festa e o da Bahia é um eterno carnaval.

Amigo, por aqui a vida é boa, mas confesso que nem chega perto dos costados de um veleiro. É um disse me disse, um quiproquó desenfreado e ainda tem um bocado de gente para colocar palha na fogueira. Se a gente não abrir o olho, perde o bordo e aí você já sabe o nó que dá para retomar o rumo. Sabe do que tenho mais saudade? Da falta de uma âncora para ser puxada quando as coisas ao nosso redor não estão confortáveis. Ei, Pajé, é bom demais levantar âncora para ir um pouquinho mais para frente, ou para trás, num é não? Mas tudo bem, a vida tem dessas coisas e assim tem que ser levada.

Doutor, sabe aquelas hérnias de disco que me tiraram o sossego as vésperas de uma das regatas Aratu/Maragogipe? Pois bem, vez em quando elas mostram serviço, porém, basta pensar naqueles remédios que você pediu para Lucia buscar em seu carro, que as bichinhas declinam. Pense num remédio bom da peste! Só não gostei de ter ficado naquela festança sem poder tomar umazinha sequer. Naquele dia voltei para o barco antes de Armandinho empunhar a guitarra baiana e botar fogo na fascinante baía de Aratu, pois se ficasse ali, com certeza sua recomendação para não beber seria jogada para o alto.

Amigo, por falar em remédio, você já ouviu falar em banha da cascavel? Rapaz, hoje embaixo da árvore que fica em frente à casa de Pedrinho, chegou um amigo com uma ferida feia na perna, e depois que cada um dos presentes indicou um remédio do mato, cada um mais estranho do que outro, Deiminho disparou: Para curar essa ferida não tem melhor do que a “banha da cascavel”! Doutor, o “remédio” parece que funciona mesmo, porque todos que ali estavam confirmaram e ainda contaram vários casos de gente que ficou curado. O que mais me chamou atenção, foi quando falaram que um litro custa em torno de R$ 200,00 e que tem uns paulistas que compram de ruma. Tais vendo? Anote aí nos seus arquivos de receituário, pois vai que resolve para alguma bronca incurável!

Doutor, o povo do interior desse Brasil arretado de bom tem sabença, viu! O que existe de garrafada obrando milagres por aí, é um negócio danado. Tem um senhor que vem por aqui a cada mês, vendendo umas garrafinhas de óleo de copaíba, que é milagre puro. O bicho serve para tudo e mais um bocado. Diz ele que serve até para curar dor de amor perdido! Se resolve mesmo eu não sei, mas tem um bocado de gente que compra e usa na testa, nos olhos, no coração e onde a dor se apresentar. Tem uns que usam até como forma de prevenção. Fazer o que, num é!

Dia desses vi alguém receitando fígado de urubu para curar quem envereda no mundo da cachaça. Me arrepio só em pensar em comer uma desgraceira dessa, mas com dizem: para quem quer ficar curado, tudo vale! Mas digo que ainda não vi nenhum papudinho ficar curado. Tem nego que come a iguaria como tira-gosto e até pede mais. Vareite!

Pois bem, doutor Nadier, eu mesmo gosto de uns chazinhos para espantar alguns males, mas vou mesmo é nos saquinhos de camomila, boldo, erva doce e mais alguns. Se resolvem eu não sei, mas me sinto bem confortável e ainda tiro onda de chique.

Meu amigo, velejador e ortopedista, Roberto Nadier Barbosa, essa cartinha é para relembrar dos meus tempos de mar e contar um pouco das coisas dessa vilazinha de pescadores em que estou vivendo. Dizem que saudade é bom, porque dá e passa, mas é bom sentir e o melhor é ter a alegria de relatar. Quando você dará o ar da graça por aqui? Venha homem de Deus! Venha e traga sua amada, para sentir a brisa desses alísios nordestinos, que por aqui é franco. Venha sentar sob a sombra de nossa cabaninha de praia, saboreando um peixinho fresco frito no mais puro dendê de sua Bahia. Mas quando vir avise, pois Lucia quando sabe que vem alguém daí, passa logo a lista de encomenda. Não se avexe que não é muita coisa e tudo é encontrado na Feira de São Joaquim ou Sete Portas, lugares que vende do bom e do melhor.

Grande abraço!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 31

11 Novembro (291)

Enxu Queimado/RN, 04 de setembro de 2018

Caro amigo, Daniel, como é fácil gostar de você! Guardo com carinho aquele dia, na Federação Alagoana de Vela e Motor, em que fomos apresentados e, sem nenhum sequer, viramos fraternos e bons amigos. Não preciso falar da confiança que tenho em suas palavras e ações, pois se não fosse assim, não teria aproado o Avoante na esteira do Cahethel, para adentrar a fascinante e periculosa Barra do Rio Real, que separa Sergipe e Bahia. Aquele dia foi demais, não foi? O Cahethel sem motor, apenas na vela, e o Avoante coladinho em sua popa, encolhendo o casco para não ser colhido pelos ameaçadores bancos de areia.

Pois é meu amigo, desde aqueles dias, muitas luas e marés já se passaram, algumas tempestades cruzaram em nosso rumo e o Senhor do tempo, da razão e dos segredos fez rodar a roleta da vida várias vezes e aqui estamos nós, vivendo saudades e apostando que nas próximas rodadas, a roleta nos reserve boas novas.

Mas Daniel, não pense que essa carta é para falar de nuvens negras e tempestades, pois se assim fosse não o faria, porque são duas coisas que não combinam com você. Para mim você é um farol de alegria, conhecimento, apaziguamento, amizade, boas palavras, sorrisos e bom humor, se bem que Ângela afirma que seu humor e causticante. Será mesmo? Vou perguntar a Lucia! Ou melhor, vou perguntar não, pois já sei a resposta.

Rapaz, por falar em farol, você viu o farol que Lucia pintou e eu chantei no terreiro da nossa cabaninha de praia? O bicho ficou bonito que só vendo e por solicitação de Gil e Alípio, do veleiro Bar a Vento, fiz até a marcação do waypoint na Latitude S 05º 04.296’ / Longitude W 035º 50.956. Acho bom você anotar, para quando pegar o beco naquela Land Rover bala, em direção as terras frias do Alasca, dar uma passadinha por aqui. Garanto que Lucia prepara uma deliciosa moqueca de fruta-pão e umas saltenhas maravilhosas que vocês adoram.

E por falar em virem aqui, coisas que vocês já fizeram em 2016, vou contar um pouco das últimas desse povoado praieiro. Rapaz, os alísios do Nordeste este ano estão de vento em popa, com rajadas que chegam fácil aos 25 nós. É tanto assopro que está difícil os coqueiros manterem a carga lá no alto e o chão do meu terreiro amanhece coalhado. Ou seria encocado? Baiano aqui ia lavar a burra, pois nem precisaria esperar muito pelo coco de temperar a moqueca.

Não sei se você sabe, mas a água encanada deu as caras por aqui, mas do mesmo jeito que chegou, se foi e nem me pergunte o motivo, pois você já sabe de cor e salteado. Coisas das promessas dos homens. Promessas sem vida, sem alma e sem um futuro lógico e certo. Promessas jogadas sobre as tábuas frias de um palanque meia boca e atabalhoado de sorrisos falsos e largos. Mas tem nada não, pois dizem que a vida é assim e os homens do palanque sabem direitinho nos encantar com palavreado bonito. É tanto verbo largado ao vento, que quando damos por conta, estamos aplaudindo e gritando vivas. Eita povo cheio de lábia!

Você lembra do imenso parque eólico que estavam montando por aqui? Pois é, a parafernália está pronta e produzindo energia a todo vapor, mas a população anda num resmungo que dá o que pensar. Como em todo empreendimento de tal porte, enquanto a obra anda, os empregos caminham junto, porém, quando a obra termina, os empregos se esvaem e os que restam, restam apenas para tocar a coisa funcionando. E a população ganha o que? Ganha com os impostos gerados para o município que transforma em benefícios para a população. Com um pouquinho de boa vontade a regra é fácil de ser compreendida, porém, compreender é fácil, o difícil é fazer valer.

Daniel, nos últimos dias tenho andado pensativo com as coisas amalucadas que tem ditado as regras neste “planetinha errante”. Não sei se é coisa minha, que há muito tento levar a vida em um modo off, como disse certa vez meu amigo Afonso, ou realmente as coisas se bandearam de vez para tomar rumos ousados e extremos. Sob a sombra da varanda dessa cabaninha de praia, escuto ecoar o sussurro de decisões atabalhoadas sem o mínimo de praticidade e conforto para a humanidade. A regra das decisões atuais é confundir, chocar, tornar vazio, desmerecer. Estamos sob o signo da ditadura do “não devo nada a ninguém e muito menos a mim mesmo”. Nada é o que é! Nada é o que pode ser! Nada é nada e é tudo como cada um queira que tenha que ser e ponto final! Eh, meu amigo, acho que envelheci! Mas tem nada não, vou seguindo assim, driblando os solavancos e tentando me adaptar à nova ordem mundial.

Meu amigo, Daniel Cheloni, vou encerrando por aqui essa prosa meio sem rumo, mas antes de colocar o ponto: Como homem do mar, você bem sabe da crueza de se enfrentar as tempestades, porém, quando elas passam, deixam de presente os mais lindos e fascinantes mares a serem navegados e uma bela história para ser contada.

Anotou o waypoint do Farol? Pois bem, lhe espero aqui!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 27

10 Outubro (151)

Enxu Queimado/RN, 24 de junho de 2018

Sabe, Lucrécio, o tempo bem que poderia, de vez em quando, dá um retornê em vez ficar ligado direto no alavantú, pois seria bom demais. Na verdade, o “bom demais” é um desejo, até porque acho que tiraria um pouco do encanto dos momentos de ouro que um dia vivemos na infância e adolescência, fases mágicas da vida e que a mocidade de hoje tem feito de tudo para pular essas casas. – O que você acha?

Estava eu aqui curtindo as estrelas da noite, que nessa Enxu mais bela fazem um espetáculo à parte, quando recebo mensagem de minha irmã Bebete falando da saudade dos ensaios das quadrilhas de Dona Iaponira e Zé Carvalho, o casal baluarte daquele pedacinho do céu, formado pelas ruas Almirante Teotônio de Carvalho, Conselheiro Brito Guerra e Hemetério Fernandes. Claro que aquele céu se estendia por outras ruas, mas essas três formavam uma trinca quase perfeita. – Quase? – Sim, quase, pois a perfeição não é coisa do nosso mundinho metido a besta. Rapaz, as quadrilhas de D. Iaponira fizeram história e duvido que algum daqueles felizes brincantes tenha esquecido. Pois bem, bateu saudade em Bebete, que estava no forte apache de Ceminha, e mais do que depressa ela tratou desencadear o turbilhão através das ondas ligeiras do “zapzap”. E num é que conseguiu! Eita tempo bom da mulesta!

Queço, era ela falando e minha cabeça de vento se danando em vasculhar nos arquivos da memória em busca das velhas e vivas imagens, os sons, os cheiros, as cores, os sorrisos, as alegrias, os choros, os sabores e mais uma danação de coisas que espero jamais se desbotem. E você sabe o que pedi a ela, já que estava no pedaço? Pedi que tirasse um retrato da Rua Teotônio de Carvalho naquele momento e ela o fez, com receio mas fez! – Receio? – Sim, meu amigo, receio, pois os tempos de hoje, naquele outrora céu, já não permitem que fiquemos marcando bobeira no meio da rua. E ainda vem “zé bonitinho” abrir a boca para declarar que está tudo normal. Pense num caba de peia!

Pois é meu amigo, o retrato veio e veio também, além da saudade, o silêncio, a tristeza e a melancolia que realçavam em cada pedacinho da imagem. O que fizeram daquele nosso céu? Quem deletou a alegria que pairava sobre aquele pedacinho de paraíso? Por onde andam o Cego, Trimegisto, Barriga, Curumim, Sarará, Jorge Pilha, Gambéu, Berís, Bolinha, Ci, Beta, as Jacks, Lila, Paulinho, Juninho, Seu Murilo, Ana, Maninho, Tiana, Mingo, Tutu, Ieié, personagens da turma menor? Esqueci alguém? Claro que sim, pois se assim não fosse, não era assim! E os maiores, Maninha, Dodora, Zé Filho, Ricardo, Nanã, Bebete, Rose, o Bárbaro, Fernandinho, Jussara, Raíssa e mais os que me faltam na memória? Lucrécio, no retrato não tem fogueira, não tem bandeirinhas, não tem balão, não tem fogos, não tem sanfoneiro, não tem milho assado, não tem pamonha, canjica, bolo pé de moleque, bolo de milho, de carimã, de macaxeira, não tem nem fumaça, meu amigo! Cadê Dona Iaponira? Porque será que ela não veio lá do Céu de Nosso Senhor para botar fogo na festança? É triste, Queço, mas o tempo é cruel, deixa marcas e o pior, não tem anarriê, se muito um balancê.

Mas meu amigo, não fique triste por causa das minhas saudades, pois as saudades daqueles dias levarei com alegria ao longo de minha caminhada. Aqui acolá largarei umas pedrinhas, que é para não perder o rumo da volta. – Volta? Sim, homi, volta aos arquivos! – Ei, Nelsinho, está cartinha não é de Enxu, porque danado você tá falando tanto das bandas do Tirol? – Eita, num é mesmo! Vou mudar o rumo da prosa, porém, tem um negócio que sempre me encasquetou: Quem foi o Almirante Teotônio de Carvalho? Alguém dá de conta? Será que o homem era almirante de Marinha ou de marujada? – Pronto, agora mudo o rumo!

Lucrécio, não sei como andam as coisas pela sua praia da Pipa, mas por aqui vai tudo bem e até bem demais. Tem umas faltinhas aqui, ali, porém, nada que desagrade um observador do cotidiano da vida. Meu amigo, só em ter a bendita paz já vale um mundo, e aqui tem, viu! Claro que não é aquela paz que tanto sonhamos, mas é paz. Para você ver, o “delegado” Marcelo passa prá lá, passa prá cá e volta para o quartel feliz da vida, pois aqui a tal da violência desenfreada que assola o Brasil, ainda não deu as caras. Tem uns gaiatinhos que se metem a besta, mas não passam de bestas e tudo se resolve com um aceno de mão ou com um olhar travante por parte do delegado.

Meu querido amigo, Lucrécio Siminea de Araújo, ouvi dizer que você continua nas ondas do surf e digo que aqui também tem uns surfistas. Não temos aquelas ondas de campeonato, mas dá para matar a tara da garotada. – Ei e o futebol? – Você era bom de bola e todos gostavam de jogar no seu time. – Você ainda dá uma botinadas na pelota? A turma aqui bate um bolão e tem gente que se quisesse teria futuro em time profissional. Mas o tempo voa, a bola sai pela lateral e se perde no vazio da vida.

Lucrécio, poderia muito bem falar dos festejos juninos daqui e até da Copa, porém, vou deixar para comentar com outro amigo, pois já ocupei demais seu tempo.

Ei, venha aqui homem de Deus, precisamos emendar os bigodes nos bate papos, pois faz tempo que a gente não se vê e adoro sua alegria contagiante.

Grande abraço.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 26

10 Outubro (14)

Enxu Queimado/RN, 06 de Junho de 2018

Eh, meu amigo Venício, acho que chegamos finalmente ao tão sonhado século XXI. Você lembra, claro que lembra, das invencionices contadas pelos nossos pais de como seria o mundo quando chegássemos ao ano 2000? Falavam em carros voadores, passeios espaciais, moradias em Marte e outras milongas mais. Seríamos os Jetsons em carne e osso. Eita que era bom ouvir aqueles moídos e sonhar com a vida daquela família que era o futuro puro e simples. Pois é meu amigo, com dezoito anos de atraso, nada demais em se tratando de ciência, finalmente vemos os primeiros carros voadores tomarem os céus das cidades e, por incrível que pareça, sem chofer. Rapaz, é muita onda, viu!

Aí você irá pensar assim: – Onde danado Nelson tá vendo essas coisas? Será que em Enxu já tem carro voador? – Hahaha, tem não meu amigo, me assunto mesmo é pela tal da internet, que tomou conta desse planetinha azul, de cabo a rabo. Deito na rede, acessando a grande rede, que esqueço do mundo, enquanto os assuntos mundo afora chegam avexado que nem ontem. – Entendeu? – Nem eu, vôti!

Pois bem, abri a telinha e lá estava dizendo que o povo do Google tá nos finalmente para fazer um carro levantar voo e a geringonça se chamará Flyer. Só não vi se terá modelo L, LX, LG, XL ou 1000. Vou perguntar a Luciano de Tita ou a Rodrigo de Paula, os dois mecânicos mais afamados daqui, pois eles devem de saber alguma coisa. Mecânico sabe tudo e um pouco mais! Tomara que eles saibam, pois senão souberem vão é rir da minha cara. – Onde danado tu ouvisse essa mentira Nelson? – Onde já se viu carro voar? – Quem voa é avião! Parece que estou vendo a resenha!

Mas Venício, não é só o doutor Google que se meteu a fazer carro avoar, não, pois os meninos do Uber fizeram pareia com os galegos do 7 a 1, se adiantaram na trapizonga e até botaram os xeiques das arábias para voar num carro drone, cheinho de ventilador no teto. Meu amigo, ria não, pois se os homens das arábias se ariscam em tapetes voadores, imagine num carro que avoa! Isso é besteira pouca! Homi, agora eu vou contar: Dia desses, me chega um amigo, vindo lá das alagoas, e tira do bisaco um drone, dizendo ele que iria bater uns retratos. Ligou o bicho, as hélices começaram a giram fazendo um zumbido que nem uma ruma de muriçoca, as luzes começaram a piscar, meu amigo testou os controles remotos e lá se foi o estranhento pegando altura. Pois quando o bicho emparelhou com as cachadas de cocos do coqueiro, deu um pé de vento que se não fosse a ligeireza do controlador, em trazer o mosquito de volta ao terreiro, era bem capaz do danado ter ido parar nos quintos do judas. – Meu amigo, ninguém tira brincadeira com os alísios do Nordeste quando eles estão apoquentados, não! Vai brincar pra tu ver a cor da chita!

Ei, mudando de voo de carro para voador, você sabia que em Enxu tem caviar? Pois tem! E dizem que o caviar tem o mesmo sabor do que é produzido no estrangeiro, só que o de lá vem da ova do esturjão, peixe que nada nas águas da Rússia e do Irã, e são os mais famosos e mais caros do mundo. O nosso é o primo pobre e vem da ova do peixe voador, peixe que no mar entre Enxu Queimado e Caiçara do Norte, dá que só peste. A ova é pega, pelo menos aqui é assim, com uma armadilha feita com os galhos que sobram dos cachos de cocos, que são lançadas ao mar para os peixes depositarem as ovas. Tem barco que chega com mais de 500 quilos de ova em cada viagem, e entregam o produto aos atravessadores na faixa entre R$ 7,00 e R$ 10,00 o quilo. O que acho estranho é que nessa região ninguém sabe como beneficiar o produto para consumo, o que para mim é um pecado. A ova do voador é uma iguaria rica na cozinha japonesa, que eles chamam de Tobiko, e são comumente utilizados para rechear sushis e outros pratos. Mas fazer o que, num é? As coisas são como são e quem sabe um dia apareça um filho de Deus por essa região para ensinar os segredos dessa iguaria.

Pois é, meu amigo Venício Gama Pacheco, por aqui as coisas vão indo assim e vou contando aqui, acolá como elas são. Fico imaginando no dia em que chegar por aqui os carros voadores e dentro de um deles, buzinando aos quatro ventos, meu amigo Pedrinho de Lucinha aboletado em um deles. Vai ser onda, viu! Quanto ao caviar do voador, até já comi uns sushis com aquelas bolinhas coloridas, só não sabia de onde saía aquela delícia, mas agora já sei e juro que gostei pra valer. Do caviar do esturjão já provei e digo que nem achei lá esse babado todo, mas parodiando Zeca Pagodinho, “…já tirei essa chinfra…”.

Caro amigo, vou ficando por aqui viu, porque a noite já vai alta e Lucia já está com os olhinhos miúdo de sono. Beijo em Sandroca e outro para tu.

Nelson Mattos Filho