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Cartas de Enxu 59

10 Outubro (268)

Enxu Queimado/RN, 17 de março de 2020

Eh, João, essa vontade que tenho de escrever “cartinhas”, sobre as coisas do cotidiano, as vezes me pega no contrapé e quando percebo, os dias já se foram, os assuntos ficam velhos, as cores desbotaram, os cheiros se perdem no sopro dos alísios e nem o olhar quer mais fazer uso do retrovisor, tamanho é o horizonte que se descortina e já preste a se tornar passado.

Pois é, amigo, comecei esta missiva quando ainda escutava o eco do rufar dos tambores de Momo, porém, sem mais e nem para que, ela ficou adormecida na barra de ferramentas da telinha desse criatório de duendes, que chamamos de laptop, e hoje retomo a escrita, mas fique certo de que tudo que devia estar aqui já escafedeu-se no tempo. Porém, uma coisa terei que confessar, porque na carta anterior, escrita para o amigo Marcelo Vila, me derreti em saudades do maravilhoso sopro de trombone do meu Pai, um folião arretado que não perdia os festejos de Momo e até instiguei a memória para lembrar as estripulias de um professor baiano apaixonado por carnaval e tudo foi se encaixando em um samba mal-acabado de letras e conjugações verbais malamanhadas, mas a folia estava na porta e o bloco tinha que andar, porque a avenida era longa.

Pois bem, havia prometido, isso é, se a cerveja azeitasse nos conformes o peritônio e os músculos das pernas, e dos braços, pegassem a pressão exigida pelos bumbos e clarins, que iria, assim como quem não quer nada, cair na folia, mas como foi uma promessa feita sem muita fé e nenhum santo se apresentou para cobrar a dita, fiquei devendo. Meu amigo, simplesmente perdi a graça com o que hoje chamam de Carnaval. – Se estou ficando velho? – Com certeza! Mas tudo bem, assisti de bom grado tudo o que passou diante da sombra da minha varandinha, levantei alguns brindes a alegria e me recolhi aos encantos do conforto e da comodidade e garanto que foi melhor assim. Pronto, podemos fechar o confessionário e pular duas casas, pois a vida seguiu e corre desembestada pelo mundo feito falação.

Vianey, meu caro, claro que assunto é que não falta por aí e bem que poderia ajuntar letrinhas para cutucar com vara curta o peçonhento Covid-19, o grande vilão da vida moderna, mas o bichim é mandingueiro e mais ligeiro do que o alumeio de corisco, pois de um pisado o danado faz um salto e num piscar de olhos vai de canto a canto do mundo sem nem arrepiar o cabelo e quando alguém dá por visto, o reboliço já é sem tamanho. Pois bem, foi lendo aqui, lendo ali, tentando desanuviar dos malassombros do “malamém” que me apeguei com uma notícia, vinda das terras da Oceania e que me elevou ao céu dessa Enxu mais bela e lembrei das suas falas sobre a linda Serra de Santana, que só conheço de ver de longe, mas que sempre nutri desejo de nela pisar os pés.

João, contam que a ilha de Niue, uma das maiores ilhas de coral do mundo, um estado autônomo em livre associação com a Nova Zelândia, localizada no Pacífico, recebeu recentemente o título de primeiro país de “céu escuro” do mundo, designação que confere ao lugar com a melhor visualização do céu durante a noite e ponto importante de observação de estrelas e planetas. Ora pois, será que os senhores jurados do céu escuro já ouviram falar nas noites de Enxu Queimado, Praia do Marco e Serra de Santana? Acho que não, pois se assim fosse, ficaríamos bem próximo de colocar a mão na taça, se bem que eles não veriam com bons olhos a má localização dos nossos postes de iluminação pública.

A Revista Galileu diz que os polinésios de Niue se comprometeram em reduzir a poluição luminosa e para eles “as estrelas e o céu noturno têm um significado enorme para o modo de vida niuiano, de uma perspectiva cultural, ambiental e de saúde…. e ser uma nação de céu escuro ajudará a proteger o céu noturno de Niue para as futuras gerações de niueanos e visitantes do país.”

Pois, João Vianey de Farias, alguns povos do mundo levam a sério os costumes e selam acordos sinceros e honestos com o futuro dos seus e sempre que por aqui olho para o firmamento, fico entristecido em ver que estamos perdendo a visão do grande manto dos sonhos em troca de uma iluminação sem nenhum compromisso com a razão. Lembro com saudades dos meus primeiros dias na Praia dos Marcos, que não tinha energia, quando ficava na varanda observando o passeio das estrelas e admirando abobalhado a Via láctea. Recordo que em minhas andanças pelas veredas do Seridó, onde está encravada a Serra de Santana, ficava encantado com o brilho enigmático daquele céu, brilho de magia, brilho de encanto, brilho poético, brilho de estupor. Será ainda assim o céu de Santana, caro amigo? Será que céu escuro de Niue se compara ao nosso céu?

João Vianey, rapaz, acho bom você trazer D. Fátima até aqui para tirarmos essa história a limpo diante de um tacho de moqueca, pois acho que botei os pés pelas mãos e me perdi em meio a escuridão das ideias.

Grande abraço!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 57

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Enxu Queimado/RN, 26 de janeiro de 2020

Carlinhos, como navegam as coisas em sua velha e boa Bahia? Tenho acompanhado tudo pelos buxinhos que escapam das linhas imaginárias que cruzam as cartas náuticas e que denunciam os rastros dos navegantes abençoados pelo Senhor da Colina Sagrada. Diante de tudo que chegam aos meus ouvidos, trazidos pelo eco dos ventos, defino que tudo vai bem, se bem que algumas coisas precisam de correções. O que seria da navegação se não existissem as correções, não é mesmo? Cabral que não as fez, acabou num sabe onde e condenando um povo a caminhar sem chegar a lugar nenhum. Aliás, ainda estamos nos descobrindo e com vontade de cobrir tudo novamente, porque a correção está difícil.

Amigo, tenho andado pouco por aí, pois essa vidinha de praieiro deixa a gente assim meio paradão. Não sei se é por causa do ar da praia, do marulhar das ondas, do bailar das folhas dos coqueiros, da observação das jangadas entre idas e vindas, dos alísios que por aqui transformam tudo em poesia ou simplesmente do calor apetitoso do Sol, que é um convite para um delicioso mergulho no mar de Enxu, mas é assim, a inércia tomou conta de mim e se não fossem as viagens a Natal, que me desloco de vez em quando para dar um cheiro em Ceminha, os passeios pelo mundo seriam apenas pela telinha brilhante do aparelhinho de celular ou na telona desse computador de mil e uma utilidades. Até meus escrevinhados ficaram raros e embalados no velho papel que se embrulha o deixe para depois, mas vou seguindo assim e quem sabe um dia dona inércia resolve tomar tento e passarei, novamente, a olhar o horizonte com o olhar de curiosidade. Quem sabe!

Meu amigo, escuto dizer que nos dias de hoje não é preciso sair batendo perna para conhecer e saber das coisas do mundo, porque tudo está muito bem nítido no bombardeio de informações que estamos recebendo instantaneamente e sem ter tempo nem de piscar o olho, o que é uma verdade não verdadeira, pois no mundinho digital, a mácula da desinformação exime o ônus da prova. Porém, digo que diariamente varo o mundo sem sair do lugar e ainda fico cansado, porque a caminhada, nas veredas das ondas internéticas, tem que ser ligeira, pois se vacilar, o bonde passa e o próximo é outro papo.

Comodoro, ultimamente minhas andanças estão voltadas para descobrir os caminhos que cercam essa prainha paraíso, que não são poucos, porém, esquecidos e incrivelmente abandonados. Enxu Queimado, no alto de seus 90 anos, tem um acervo paisagístico riquíssimo e uma maravilhosa história tendo o mar como pano de fundo. O Município de Pedra Grande, base desse pequenino povoado praia, e os distritos que lhe servem de satélites, foram aquinhoados com fascinantes tesouros naturais que se estivessem fincados em outros locais, ou mesmo países mundo afora, seriam bem vistos e valorizados. Na época das chuvas temos lagoas de águas cristalinas entre as dunas, assim como as que dão fama aos Lençois maranhense. Temos grutas subterrâneas como poucas no mundo. Uma fauna, apesar das ações desastrosas do homem, de fazer inveja a muitos parques ambientais. Uma flora exuberante e que de tudo dá, desde que se plante. E um povo dotado de um exuberante calor humano. Trilhas fabulosas, ornamentada por fábulas fascinantes, por entre a mata da caatinga. Tudo isso temperado por um clima maravilhoso e sem falar que foi nessas terras que oficialmente o Brasil teve início, em 7 de agosto de 1501.

Pois é, meu amigo Carlinho, muito do que escrevo aqui já foi dito em outras Cartas de Enxu, mas tem coisas que nunca é demais contar mais de uma vez e outras tantas forem preciso, para não caírem no esquecimento, ainda mais em uma região tão cruelmente desassistida. Costumo dizer que hoje vivo no Brasil real, como era real aquele Brasil em que vivi a bordo do Avoante, em que a fala das promessas se perdem no vazio das ações. Essa semana os portais de notícias deram conta de que a China, que enfrenta uma grave e mundialmente preocupante epidemia do coronavírus, surto que tem deixado a medicina feito barata tonta, está construindo um hospital com mil leitos, que deve ficar pronto em seis dias, somente para atender os casos diagnosticados. Diante da notícia tão valiosa e de priorização com saúde humana, olho para as nossas Unidades Básicas de Saúde, muitas delas há anos ainda em fase de projeto e construção, e as que estão em funcionamento, com indecifráveis faltas de equipamentos, medicamentos e estrutura de pessoal, e indago: – Poxa, Seu Cabral, porque não corrigiu a rota de suas Naus?

Carlos Santana, ou melhor, Carlinhos do Xéu, tenho saudades da sua Bahia e da alegria carinhosa do píer do Angra dos Veleiros, um dos portos seguros do Avoante na terra dos Orixás. Ainda lembro de suas palavras certa vez em que atraquei no Angra: – A alegria voltou! Sejam bem-vindos, Nelson e Lucia! Pois é meu amigo, quero dizer a mesma coisa no dia em que você chegar sob a sombra dessa nossa cabaninha, mas não se avexe, pois garanto deixar os assuntos comentados nessa cartinha, bem longe da sua alegria contagiante.

Grande abraço e antes do ponto final, digo que a Lua iniciou a fase de crescimento e a Lua cheia por aqui é linda. Venha conferir!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 46

janeiro a junho (233)

Enxu Queimado/RN, 05 de agosto de 2019

“ Seja bem-vindo ao caos, comandante! ”

Zé, meu amigo, nunca esqueci suas palavras quando lhe informei que estava deixando o mar, habitat que vivi, a bordo do veleiro Avoante, por onze anos e uns meses de lambuja, para retornar ao cotidiano das cidades. Naquele dia suas palavras soaram como uma sentença e até imaginei que seria assim, mas sinceramente, não sabia que a extensão do caos fosse tão grande. Está feia a coisa, meu amigo, e tem horas que a vontade é de largar tudo novamente, mergulhar de cabeça nas águas de Iemanjá e sair por aí cortando as ondas dos oceanos.

Comandante, confesso que fazia uma ruma de tempo que não caminhava pelas paragens inebriantes do Blogueio Maldade, mas juro que não foi por falta de tempo, pois desde que tenho sentado praça nos meandros dessa Enxu mais bela que o tempo não me falta, mesmo envolvido que estou em produzir e servir a melhor pizza do universo, sempre me sobra umas horazinhas para cultivar ramos de flores de ócio. Pois bem, essa semana acertei na tecla do eu e o maldade e lavei a alma com sua verve arretada de boa. Aliás, sob a sombra dessa minha cabaninha de praia, de frente para o coqueiral, tenho lido muita coisa boa e até já perdi as contas dos personagens que saíram das páginas para dar um passeio comigo sobre a imensidão de praia que por aqui se estende.

Mauro, vou te contar um segredo, a personagem que mais desejei que o passeio não terminasse nunca foi uma tal de Pilar, maranhense arretada da cidade de Codó, filha de uma mãe de santo do terecô, uma doidivana dos sete costados e que um dia se tornou a líder espiritual mais poderosa do país. É difícil esquece as estripulias de Pilar, figura saída das ideias do escritor PJ Pereira, no livro A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa, e mais difícil ainda não se apaixonar por essa mulher que descabela os mistérios da fé.

Zé Mauro, adoro os livros, mas tenho uma verdadeira paixão por crônicas, principalmente aquelas escritas nos recantinhos das páginas dos periódicos e digo mais, aposto todas as fichas que nos dias de hoje não existe um jornal brasileiro tão bem servido de bons cronistas como o potiguar Tribuna do Norte. Os cabocos que aportaram por lá ultimamente são conhecedores do riscado e deixam a gente com as bilocas dos olhos aboticados e o juízo tremendo de felicidade. Rapaz, Seu Henrique botou para reiar na escalação do time e não tem timeco espanhol que consiga trocar passes e nem passar do meio de campo. Veja aí a escalação: O meio de campo é comandado por Seu Woden; na cabeça de área quem manda é Seu Vicente que não dá mole para ninguém; na zaga central tem o danado do Cassiano; na ponta direita, avançando pelo meio tem um magro chamado Alex e na ponta esquerda o titular indo e voltado é o menino Rubinho. – Centro avante? – Tem não, pois tudinho sabe fazer gol, e só gol de voleio! Sabe, Zé, tempos atrás fui convocado para o time da Tribuna, mas só consegui vaga como reserva de gandula.

Ei, amigo, você viu que lá em riba falei que minhas pizzas eram as melhores do universo? Pois é, as danadas são boas sim, mas não sabia que era tanto até que um menino passou caminhando com o pai e afirmou: “- Pai, a pizza daqui é a melhor do universo”. Pois bem, como criança não mente, fiquei todo faceiro com a nota recebida. E por falar em universo, dia desse ouvi dizer que ele tinha 90 bilhões de anos-luz de extensão e na mesma hora minha cachola se danou a fazer contas e quando viu que não tinha capacidade para um numeral tão avantajado, deu um pânico. Isso mesmo, pânico e depois eu explico o prumode, mais antes vou tentar refazer essa conta, em um papel de pão, que deve ser assim: Se 1 ano-luz tem nove vírgula tantos trilhões de quilômetros e, segundo o caboco que estava anunciando a novidade, o universo tem 90 bilhões de anos-luz de tamanho, o resultado da conta é 873 trilhões. Vixe, vou é parar por aqui pois já estou vendo estrelas.

Tá bom, Zé, vou falar no pânico. Dia desses Lucia disse a uma amiga que havia ligado várias vezes e ela não atendia o telefone. Ela respondeu que o celular estava em pânico. – Em pânico? – Quem danado fez medo a esse aparelho? – Não, minha filha, o bicho caiu no chão e espatifou-se!

José Mauro Nogueira, que tal vir dar um passeio nesse paraíso praia para trocar as relíquias da morte e usar sem moderação a pedra da ressureição? Aqui é um dos poucos lugares sagrados guardados a sete chaves pelos bons feiticeiros e por todos os anjos do Céu. Aqui a vida caminha lenta, mas tem todos os desejos que você procura para aposentar de vez a capa da invisibilidade.

Antes de colocar o ponto final e antes que você fique a matutar nos escritos até aqui, vou em busca dos versos do jornalista Alex Medeiros, quando ele diz assim: “Meus escritos são momentos/de alegrias ou de desertos/nada mais que sentimentos/algo bem maior do que versos”.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 45

1 Janeiro (70)

Enxu Queimado/RN, 28 de julho de 2019

Pois é, Torpedinho, a vida não está fácil pelas “terras de pindorama” e até pensamos que estaríamos prestes a ver alguma luz que indicasse novos rumos a serem seguidos, mas tudo indica que continuaremos navegando feito marujos desnorteados. Será herança dos nossos descobridores? É bem capaz, viu! Aliás, como estão as coisas pelas terras dos maracatus? Aqui vai indo e quase do mesmo modo que você viu no comecinho desse julho que já se encaminha para os finalmentes. Porém, até nos mais bucólicos povoados desse país de temperaturas moderadas, a vida segue deixando rastros e impressões digitais nos escaninhos da história dos povos.

Amigo, o mar de Netuno – ou seria de Iemanjá? – tem andado meio amuado por essas bandas daqui, mas nada diferente do que tem acontecido a partir do litoral sudeste e subindo para os lados de cá. Os alarmentos, mas nem por isso mais responsáveis por suas ações, apostam que os reclames da natureza são consequências dos nossos atos, porém, nem os meninos das ciências se entendem sobre a razão e vez por outra estão batendo cabeça nos compêndios. Dia desse vi um professor da USP dizer, entre risos e bocas, que em meio as causas ambientais, principalmente ao mal falado aquecimento global, existe muita farinha falsificada no angu. Acreditar em quem? Vai saber!

Certa feita, ouvi um caçador de estrelas e planetas dizer que o eixo da Terra deu uma leve escorregada para o lado, mas não me pergunte para que lado, pois ele não disse e até tentei fofocar sobre o escorrego, mas ele calou-se diante das cartas, fez cara de paisagem estelar e recolheu as fichas da mesa. Deitando em minha rede, armada sob a varandinha, fico matutando, entre um cochilo e outro, será que esse reboliço de mar tem relação com esse moído. Rapaz, sei não, mas se continuar assim não vai demorar muito para o Sul virar Norte, Nordeste virar Sudeste, Centro-Oeste continuar Centro-Oeste, e assim, ninguém vai poder falar de ninguém.

Ei, Cleidson – é estranho chamá-lo assim, mas vou enfrentar a estranheza -, por falar em reboliço de mar, por essa região tem acontecido uns fenômenos arretados e que têm feito a alegria dos pescadores e das páginas nas mídias sociais. No final de junho, na praia de Galinhos, bem aliiii mais para o Norte, as redes de arrastão tiraram do mar uma ruma danada de Garabebeu, peixe que passa longe das receitas dos amostrados. Neste dia 25/07, na mesma praia de Galinhos, mais um lance de rede, e mais outros, acertaram bem de cheio em uma colônia de Corvinas, que segundo a conversa dos pescadores, rendeu mais de 25 toneladas. Foi peixe, amigo, foi peixe! JÁ no mar dessa Enxu mais bela, os barcos estão chegando carregados de Bonito, outro peixe que passa distante das receitas dos chefs, mas que é uma delícia quando preparado pela mão azeitada do povo do mar. É a vida sendo levada adiante pela natureza, que nos mostra a todo instante que nem tanto, nem tão pouco, pois o que ela quer dar, ela dá e nem adianta a gente espernear e nem querer se meter a adivinhações.

Pernambucano, por falar em natureza, quando você dará uns bordos por aqui naquele seu catamarã bala. Vi que você já está alistado na raia da próxima Refeno, Regata Recife/Fernando de Noronha, e fiquei imaginando que, na volta da ilha maravilha, você pudesse dar uma voltinha por essas quebradas. Rapaz, olha só as belezas que tem por aqui: Praia do Marco; Enxu Queimado; Ponta dos Três Irmãos; Serafim; Caiçara do Norte; Galinhos, Guamaré; Diogo Lopes e mais um monte de enseadinhas arretadas e que merecem registros. Digo mais, quem navegou boa parte do litoral nordestino, mas passou vexado por alguns desses lugares que falei, foi o Pedalinho, cabra arroxado e vivedor, que está mostrando ao povo da vela de cruzeiro, que o litoral brasileiro é muito mais bonito, fantástico, maravilhoso e navegável do que dizem por aí. Grande Pedalinho, que não conheci pessoalmente, mas tem toda minha admiração e reconhecimento.

Torpedinho, deixa eu lhe contar uma tristeza: No começo da semana, estava eu pintado o cercado de madeira do chalé que estamos terminando e que você bem conhece – Aliás, o ar-condicionado já está instalado -, quando passou um garoto, na companhia do pai, e ele vinha desembrulhando um bombom. Após colocar o doce na boca, seguiu segurando a pequena embalagem na mão, e o pai, que deveria ensinar, gritou: Sacuda esse papel na rua, seu p….! A criança, acho eu, para não levar uns puxões de orelha ou receber mais impropérios, soltou o papel sobre o chão. Sentenciei em meus pensamentos: – Pronto, nasceu mais um sugismundo!

Cleidson Nunes, advogado e velejador como poucos, a varanda dessa nossa cabaninha de praia está com saudade da sua prosa arretada e multifacetada que nos deu muitas alegrias durante os breves dois dias em que esteve por aqui. Você prometeu que iria volta, portanto cumpra a promessa ligeiro, viu! Para apressar seu passo, vou pedir que traga um bolo de rolo, iguaria que tem a marca, as cores, o sabor e a alegria da cultura da sua terra. Mas se não pedir muito, traga também uma cachacinha dos bons alambiques pernambucanos, que garanto a pareia do peixe frito, ou para variar, umas lagostas no bafo.

Abraços,

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 44

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Enxu Queimado/RN, 20 de julho de 2019

Meu caro, Sian, desde que você apareceu por essa Enxu mais bela, colorindo o mundo em preto e branco pelas lentes mágicas de sua possante máquina fotográfica e com uma indisfarçada alegria em apresentar aos poucos felizardos o maravilhoso projeto de fotografia documental, Um olhar de Si Através do Outro, passei a mirar as coisas deste minúsculo pedacinho de planeta por ângulos diferentes e muitas vezes indecifráveis. Eh, meu amigo, o que seria das cores se não fosse o preto no branco e branco no preto…. Aí você haverá de perguntar: – Sim, mas qual o motivo da reticência? Sei lá! Talvez porque quisesse escrever mais, mas sem saber o que. Talvez não quisesse escrever nada e elas apareceram do nada, ou talvez porque…sei lá. Bem elas estão aí, apareceram novamente e agora não sei como suprimi-las.

Amigo, as coisas por esse pedacinho de litoral estão caminhando como Deus quer, pois é assim que diz o povo. Juro que não sei se Ele gostaria que as coisas caminhassem como caminham, mas já que o povo diz e que, segundo o ditado, a voz dele e a voz Dele, vamos seguindo em frente e esperando não sei bem o que, mas vamos. Rapaz, não se avexe com esses meus pensamentos amalucados, pois como já disse lá em riba, tenho olhado o mundo por ângulos meio enviesados.

Fotografo, pelo pouco que aprendi naqueles poucos dias de curso, não é tão fácil a gente ver o mundo através do outro, até porque o outro nem sempre se mostra do jeito que é e se formos escarafunchar por aí, é coisa de risco grande, pois com o advento das mídias sociais, o outro é tão outro que ficamos em dúvida se ele é, foi ou será. Lembra do que presenciamos nas dependências da escola? Pois bem, pintam com uma tinta, mas a tinta não tem a cor que pintam. E não são assim as coisas por esses Brasil encantado? São, e em algum dia do futuro aportarão por aqui novos navegantes e esses haverão de nos descobrir por completo. Só tomara que não seja Cabral e sua trupe de degredados, pois se assim for, ele vai mandar cobrir tudo novamente, pois deu certo não.

Sian, por falar nos personagens do descobrimento e como no curso tiramos uma manhã para bater uns retratos da Praia do Marco e seu encoberto e abandonado Marco de Posse, digo que aquela paragem histórica continua a esperar que os contadores da história passem por lá, não só para dizer o pouco já sabido, mas para cobrar daqueles que devem compromisso e se fazem de desentendidos. Você bem viu que o lugar é lindo, paradisíaco, cheio de bons predicados, mas não passa disso, sobrevive apenas dos discursos feitos da boca para fora e sem nenhum compromisso com a intenção.

Ei, amigo, você sabia que o município de Pedra Grande é bem servido de lugares, que se fossem em outros países, ou mesmo em outros sítios por esse Brasil de futuro incerto, estariam ilustrando bem-aventurados programas de ecoturismo? Pois é! Por aqui existem trilhas e mais trilhas por entre as matas da caatinga e dunas. Existem belas lagoas que mais parecem oásis em meio as agruras da seca que castiga a região. Porém, o que é mais fantástico, existem grutas de valiosas riquezas arqueológicas, Gruta de Lajedo e Gruta dos Martins. Assim como o Marco de Touros, as duas grutas, que tempos atrás mereceu aprofundado estudo por parte da cadeira de geologia da UFRN, estão malcuidadas, abandonadas e, segundo línguas afiadas, servem até como depósito de lixo, que se for verdade, configura um criminoso atentado contra a humanidade.

Pois é, meu amigo fotografo, sair por aí brechando o planeta, como ultimamente tem feito o querido jornalista potiguar Flávio Rezende, nos faz ver situações indesejáveis, mas nem por isso impublicáveis. Aprendi que o olhar é facetado e por isso o cérebro nos obrigada a mexer a cabeça para fugir das ilusões de ótica ou mesmo enxergar um pouco mais além do horizonte. Aliás, a ciência prova que enxergamos invertido e o cérebro é que apruma o foco. Agora me diga: O mundo está de cabeça para baixo ou de cabeça para cima?

Sian Ribeiro Sene, meu novo e bom amigo fotografo, já faz dias que você e a maravilhosa Laura Branco botaram os pés por aqui. Que tal começarem a aprumar os passos de retorno? Aqueles retratos que você deixou em exposição já estão amarelando e todos os dias olhos para eles com saudades, mas sabendo que são registros da vida e a vida amarela com o tempo.

Venha, meu amigo, venha provar do sabor dos frutos da semente que você plantou. Não foram muitos frutos, mas toda plantação começa assim.

Grande abraço,

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 43

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Enxu Queimado/RN, 30 de junho de 2019

Presidente, rapaz, desculpe a ousadia de enviar-lhe essa missiva e também a intimidade do “rapaz”, pois lhe vejo tão sem apego aos salamaleques das palavras e do cargo, que resolvi pular os princípios da boa educação e respeito que Ceminha ensinou, mesmo arriscando levar uns puxões de orelha. Mas antes de seguir ajuntando letras nos moídos, vou contar um tiquinho do porquê das Cartas de Enxu.

Idealizei as Cartas para contar um pouco das coisas do cotidiano da pequena comunidade praieira de Enxu Queimado/RN, onde moro atualmente sob as sombras de uma cabaninha de praia, e por aí vou indo contando fatos, causos, costumes e reparando nas necessidades que aqui são muitas. Pronto, já que contei um conto, vou contar o contado. Mas Capitão, antes de mais nada, me diga aí de onde danado vosmicê tira tanta coragem para se meter em falação? Pense num caboco pra gostar de peleja!

Presidente, Enxu Queimado, distrito do pequeno município de Pedra Grande/RN, é uma joia de lugar com a cara escancarada para o paraíso e com um povo ordeiro que faz inveja a uma ruma de lugar mundo afora. Por aqui a vida ainda é contada passo a passo que nem a letra de uma música do rabequeiro pernambucano Siba, “…toda vez que dou um passo, o mundo sai do lugar…”, porém, nem tudo são flores e quando são, vez em quando tem uns espinhos que é para o povo não esquecer o tranco.

Jair, o senhor está precisando conversar na linguagem do povo e o povo que o cerca precisa encolher a língua, senão o baralho vai embaralhar de vez. Sei que a orquestra estava bastante desafinada, porém, afinação se faz em um instrumento de cada vez, senão desanda no compasso e não tem maestro que consiga botar ordem no terreiro. Seus meninos estão muito ouriçados e tem horas que merecem até levar umas chineladas das boas. Onde já se viu criança se meter em conversa de adulto? Lá em casa tinha isso não e se acontecesse, Ceminha botava um quente e dois fervendo!

Homem de Deus, esse negócio de mandar recado e ditar diretrizes pelas linhas curtas do Twitter tem futuro não! Além do mais, a grande maioria do povo nem sabe o que danado é tuitar e aqui em Enxu tem esse bicho não. O papo cabeça por aqui é via WhatsApp, pelas teimas intermináveis sob a sobra de pé de pau ou embaixo de uma barraca a beira mar. Capita, se não for assim, ou através da telona de uma TV, o recado sai atravessado, distorcido e mal falado, porque quem conta um conto aumenta um ponto e quando o conto vem da sua conta, aí danou-se! Não vá na onda do “galego do topete”, pois ele tem panos pras mangas, viu! Quer um conselho? Bote uns coturnos macios e vá bater pernas por aí para escutar e dizer as verdades que precisam ser ditas e ouvidas.

Presidente, sei que muita coisa boa foi feita nesses seis meses de mandato, mas a engrenagem mestra que move o moinho do governo está pisando no eixo da grampola e se não for reparado ligeiro, vai torar em bandas! Tome tento, homem, pois até os “inocentes” do Congresso estão tirando onda de bons moços, porque lábia eles têm para dar, emprestar, alugar e receber, que é o que mais gostam. Seu povo aí está batendo cabeça e nós aqui é que recebemos a pancada. – Quer que fale mais, quer? – Pois lá vai: Está faltando conversa olho no olho e no fio do bigode, está sobrando lero-lero e acho que já estou sendo chato com essa conversa de pitaqueiro barato. Pronto, falei!

Seu Messias, que tal vir dar um passeio por essa prainha linda e aconchegante? Faz tempo que não aparece uma autoridade bacana por essas dunas brancas e quando aparece, chega transvestido de candidato e sendo assim a promessa corre solta pelos alísios e se vão para nunca mais. Capitão, o povo daqui não quer muito, quer apenas 11 quilômetros de estrada asfaltada que ligue o povoado a sede do município, um posto de saúde decentemente bem equipado e com bons médicos, boas escolas e um programa de incentivo para melhorar a flotilha de barcos de pesca, porque os barquinhos estão sofridos e com idade para lá de avançada. Se o senhor garantir que vem, vou ajeitar com Xará, presidente da colônia de pesca, para ajuntar os pescadores e assim o senhor fala o que quiser falar, mas não venha com mais promessa, porque de prometido e não cumprido os balaios já estão cheios.

Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, desculpe o atrevimento dessa cartinha mal escrita, mas gostaria muito que o senhor desse o ar da graça por essa prainha paraíso, que garanto que Dona Michelle vai adorar conhecer. Venha ver as riquezas de um pedaço quase esquecido do Brasil, apesar do gigantesco, porém, socialmente deficiente, parque eólico plantado sobre dunas e matas. Venha tirar um retrato no histórico e abandonado Marco de Posse, localizado  na Praia do Marco, parede e meia com Enxu. Venha degustar da moqueca produzida por Lucia, que é dos deuses, e venha se fartar em um delicioso caldeirão de lagosta feita no bafo. Venha que garanto estirar uma rede sob a varandinha de minha humilde cabaninha, para o senhor jogar conversa fora e tirar um cochilo sonhando o sonho dos justos.

Até mais!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 42

3 Março (7)

Enxu Queimado/RN, 04 de junho de 2019

Bebete, ontem, terceiro dia do mês de junho, tivemos a grata alegria de receber em nossa cabaninha de praia os irmãos Flávio e Jorge Rezende, dois cabras arretados que só vendo e que prezamos a amizade desde os tempos de menino pelas ruas de um bairro delineado pelas belezas inebriantes e cheias de mistérios dos morros do Tirol, em Natal. Foi um dia dedicado as boas lembranças de um tempo que já se foi, mas que continuará eternamente materializado nos maravilhosos arquivos da saudade.

Como seria gostoso se pudéssemos voltar no tempo, pelo menos por um dia, para vivenciarmos momentos felizes ao lado daqueles que, entre uma brincadeira e outra, juramos amizades e assinamos tratados de jamais nos separarmos. Infelizmente a vida não tem replay e o que um dia se foi, se foi para sempre e só nos resta o abraço apertado e o calor do reencontro diante de rostos amadurecidos e feições azeitadas pelas tatuagens da vida.

Bebete, diante da deliciosa moqueca de peixe, servida na panela de barro, que é uma obra prima das receitas de Lucia, Flávio fez uma pergunta que deixou no ar uma resposta que não veio, ou não quis vir para não quebrar o encanto do reencontro e muito menos espalhar fragmentos de tristezas em um momento tão sem igual. Perguntei sobre pessoas, estradas e sobre as variantes do destino e antes de responder ele perguntou assim: – Béris – como ele carinhosamente me chama -, vamos tentar recapitular. – Em que momento da vida caímos no vácuo em que as amizades tomam caminhos distintos? Pois é, minha irmã, não lembramos. Só sei que os deuses que desenham e abençoam as amizades, mais uma vez mexeram os pauzinhos e estamos festejando. No meu entender não existe resposta para a pergunta de Flávio, porque amizades verdadeiras nunca se acabam e assim como as estradas, em algum momento elas voltam e se cruzar, quando não, mostram placas indicativas de onde tal estrada se encontra.

Pois é, Bebete, hoje retomo o caminho ao lado de queridos amigos, mas sem saber até que ponto caminharemos juntos, porque sabemos que inevitavelmente um dia estaremos diante de nova encruzilhada e não tem jeito, pois jamais conseguiremos caminhar com os passos do outro. Ontem estávamos sob a sombra de nossa varandinha, revendo o passado e vislumbrando embasbacados o horizonte que delineia o presente. Tomamos banho de mar como se ainda fossemos três crianças do bairro do Tirol. Tiramos onda um com o outro, rimos dos causos, dos apelidos, lembramos dos cheiros, e até recordei as brigas que tive com Hermann, Fobica e outros. Juro que eu não era brigão, mas também não levava desaforo para casa, mesmo que para isso tivesse que levar uns bofetes, e levei um bocado.

Mas minha irmã, vou deixar as recordações de lado para dizer que Jorginho e Flávio adoraram Enxu Queimado e não tem como ser diferente, porque isso aqui é lindo demais da conta. Eles vieram pagar a promessa que fizeram de me visitar e pagaram com gosto. Flavio agora é um retratista bom que só a bexiga e não pensou duas vezes quando Jorge fez o convite para virem até aqui. Sinceramente, acho que o filme que ele usa na máquina Cannon Rebel T6, deve ter uma danação de poses, pois o cabra não deu sossego ao botão do click. Quando não era ele, era Jorge e eu já estava com pena daquele botãozinho de click, que no final já estava rouco. Bete, eles sabem que um dia foi pouco e esticaram enquanto puderam. Quando chegou na metade da noite da Lua nova, e com duas pizzas no bucho, pegaram o caminho que leva até São Miguel do Gostoso, desapareceram nas sombras e o “retratista da alma” ainda nos presenteou com uns escritos que fez carregar os olhos de água.

Minha irmã, agora me diga, se num é bom rever amigos? Claro que é! Vez em quando, nas Cartas de Enxu, convido um para vir aqui, mas vou logo adiantando que amigo em minha casa não precisa de convite. Alguns já vieram, outros prometeram e tem aqueles que estão pelas veredas dos caminhos e ainda não deram respostas, ou não leram a Carta, mas sei que algum dia darão as caras e aí vai ser festa.

E por falar em vir aqui: Elizabeth Lopes Mattos Jordão, quando será que você e Amaro darão o ar da graça por essa Enxu mais bela? Sei que sua Maracajaú e a super pousada Ponta dos Anéis, não deixam vocês sossegados, mas sei também que vez por outra saem batendo pernas pelos recantos do mundo e numa dessas quem sabe vocês botam os mocotós para caminharem pelas praias mais ao Norte. Venha minha irmã, venha ver coisa bonita e se encantar com esse povoado praieiro. Venha que Lucia promete preparar uma moqueca de bicuda da melhor cepa atlântica.

Venha e venha logo, pois já vou armar a rede na varanda para você tirar um sono com o frescor dos alísios que sopram sobre as dunas.

Beijo.

Nelson Mattos Filho