Arquivo do mês: março 2016

Retrato de um passeio pela Baía de Aratu – I

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Em meados de março de 2016 fomos convidados pelos amigos Ney, veleiro Malagô, e Everton Fróes, navegador e apresentador do programa A Bordo, apresentado aos domingos pela rádio baiana Metrópoles, para uma navegada pelos recônditos recantos da Baía de Aratu e conhecer um pedaço do mar da Bahia raramente navegado pelo navegante amador, mas incrivelmente lindo. Não iriamos no Avoante ou em outro veleiro, porque é uma área rasa, com bancos de areia, aqui, acolá cortada por fios de alta tensão e balizada por uma antiga ponte que servia para o tráfego de trens que faziam a ligação de Salvador com diversas cidades do interior baiano.

Esse nosso Brasil de mil e uma facetas é um deslumbrado integrante do bloco dos países do “já teve”, mas se arvora em se declarar dotado de um grande potencial de riquezas jamais imaginado pelos seus nativos, porém, dilacerado a golpes de marretas por verdadeiras hienas fantasiadas de autoridades, numa descaração sem tamanho e sem um pingo de vergonha na cara.

Nosso passeio começou logo após o almoço do último domingo do verão de 2016, quando embarcamos na lanchinha de alumínio, e não coincidentemente batizada de Panela, e soltamos as amarras do píer do Aratu Iate Clube e de lá circundamos a Ilha do Aratu, navegando por um canal raso e estreito. A Ilha do Aratu tem farta vegetação e um charme especial com uma pequena casinha branca em meio à folhagem, mas a visitação é restrita por se tratar de propriedade particular e toda circundada por uma lama espessa.

Continuamos margeando o canal e passamos em frente à Marina Aratu, que apesar de ser uma das maiores em número de embarcações na Bahia, tem uma aparência estranha e entristecida, devido a várias sucatas de navios que apodrecem em sua área de ancoragem. Muitas dessas sucatas são de embarcações que fazem parte de pendengas judiciais, outras foram apenas abandonadas na área da marina. – E quem paga a conta? Taí uma boa pergunta! O terreno da marina Aratu já pertenceu a uma fábrica de cimento e chama atenção uma armação de concreto que serve de moldura para belas fotos do local.

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Saindo da área da marina, nos deparamos com uma das muitas aberrações que fazem parte do nosso arrogante e ignorante mundinho tupiniquim, que transforma a história em um grande caso policial em vez transformá-la em ensinamentos para futuras gerações que bem poderiam transformar essa nação na riqueza tão bravamente badalada. Uma nação sem história não é uma nação!

Foi com emoção que vi o naufrágio de um marco da navegação baiana, o navio Maragojipe. O Maragojipe naufragou de tristeza na beira da praia da Baía do Aratu, seguido a sina daqueles que tanto nadam e contribuem para a sobrevivência de um povo, mas que terminam morrendo abandonados e moribundos sobre as areias de uma praia qualquer.

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O velho navio de fabricação alemã tinha 35 anos e capacidade para transportar até 600 passageiros, mas durante as festa de São Bartolomeu, padroeiro do município de Maragojipe, transportava bem mais do que sua lotação. Entre 1962 e 1997 foi a principal ligação das cidades do Recôncavo com a capital, porque naquela época não existiam boas estradas e a ferrovia já havia sido extinta. O Maragopije, assim como os velhos Saveiros, foi vital para a economia do estado, porque em seus porões foram transportados boa parte da economia da Bahia. Ver sua carcaça apodrecendo a céu aberto foi um choque e ao mesmo tempo revoltante. Se o Maragojipe navegasse em algum país que leve a sério a cultura e a história, com certeza estaria servindo de museu ou ainda navegando com alegria e cheinho de turistas. Não tenho palavras para descrever o que vi a não ser com um sonoro palavrão.

Dizem que o velho navio foi doado à prefeitura de Maragojipe, que pretendia transformá-lo em museu, mas como museu é uma palavra estranha no dicionário dos nossos administradores públicos e só é pronunciada quando eles querem arranjar dinheiro ou iludir o povo, o navio foi devolvido sob alegação de altos custos para dotá-lo de uma infraestrura necessária. Como se o bom e honesto controle das verbas públicas fosse norma entre nossos políticos.

Por alguns minutos fiquei em silêncio diante das ferragens submersas na tentativa de sentir o pulsar da alma daquele velho cruzador, mas não senti nada. Aquele navio está morto e sua alma deve navegar errante pelos mares da Bahia emitindo seus lamentos de tristeza. Há de haver um culpado pelo crime, mas dificilmente saberemos quem, porque de tantas e tão sujas pegadas, as provas não são mais possíveis.

Mas é assim: A Bahia já teve um famoso navio de passageiro e carga, mas sua história não serviu para nada.

A nossa navegada continua!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Soam os tambores

ilhas malvinasRio-SilalaPelo ardor das discursões e o fervor com que estão sendo desfradadas as bandeiras, parece que os aminos estão exaltados entre os generais dos países latino americanos. A Argentina que nunca perdeu as esperanças em reconquistas as Malvinas, agora recebeu um aceno positivo vindo da ONU que reconhece sua soberania sobre o pedaço de mar em que se encontram as ilhas ocupadas pelos ingleses e que já foi palco de guerra, em 1982, entre as duas nações. A Bolívia, que nunca desistiu de ter uma brechinha de seu território banhado pelas águas do Pacífico, bate o pé no chão e faz cara feia para os chilenos numa disputa pelas águas do rio Silala, que nasce na Bolívia, mas escorre para o oceano através das terras do Chile. Por enquanto as brigas se restringe aos palanques e tomara que continue assim, pois o que menos precisamos no momento é de um guerra próximo as nossas fronteiras. 

Um passeio em família

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Tivemos a alegria de receber a bordo durante a Semana Santa os sobrinhos Gilmar, Grace, Giulia e Giovana, que vieram de Brasília para uns bordos pelos canais da Baía de Tinharé, que tem o Morro de São Paulo como um dos destinos mais desejados pelos turistas que chegam a Bahia. Foram quatros dias de alegria e que teve início em Salvador, dia 24/03, quando a família embarcou para uma velejada gostosa até a Gamboa do Morro, que serviu de base para nosso passeio. Sempre ancoramos na Gamboa, porque a ancoragem em frente a vila de Morro de São Paulo não é das mais favoráveis devido ao grande número de embarcações de transporte e passeio que ancoram por lá e não respeitam os limites de velocidade próximo as ancoragens. Aliás, a falta de educação náutica por parte de comandantes de lanchas, motos aquáticas e embarcações de transporte é um tema recorrente e que passa incrivelmente despercebido diante do nariz das autoridades marítimas. 

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A velejada de Salvador a Morro – como a região é batizada pelo povo do mar – é simplesmente fantástica, desde que feita em época certa e seja observada as condições meteorológicas. São 30 milhas náuticas de mar aberto, vento brando e mar de almirante, onde invariavelmente podemos fisgar um peixinho para alegria da tripulação. Alguém há de perguntar:  – E o tempo de velejada? – Bem, tudo vai ficar por conta do vento e do mar, mas normalmente é feita na média de 6 horas de barra a barra. Porém, temos que levar em conta o porto de saída. Se a saída for da Baía de Aratu, onde se localiza o Aratu Iate Clube, a marina Aratu e a marina Ocema, acrescente ao tempo de velejada umas quatros horas, porque a distância até a Barra de Salvador é em torno de 15 milhas. Uma milha náutica equivale a 1,852Km. Chegamos ao Morro no comecinho da noite da quinta-feira, 24/03, com maré de vazante e Lua cheia.

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Na Sexta-Feira da Paixão navegamos até a cidade de Cairu, mas não desembarcamos. Primeiro que Lucia serviu uma deliciosa moqueca de peixe com camarão seco defumado, que degustamos ancorado em frente a bela cidade histórica. Não é fazendo inveja, mas a moqueca estava de-lí-ci-o-sa. O segundo motivo foi que a tripulação iria fazer o passeio, no dia seguinte, em volta da ilha de Tinharé, a bordo de uma lancha rápida e uma das paradas era justamente em Cairu. Diante disso, e com o sabor da moqueca perfumando o paladar, levantamos âncora e retornamos a Gamboa do Morro, numa navegada ao pôr do sol e diante de uma paisagem de encantar o olhar dos mais exigentes.

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No Sábado de Aleluia, como a tripulação foi fazer o passeio de volta a ilha, demos uma arrumada no Avoante e desembarcamos para prosear com os amigos que estavam na ancoragem e ficamos jogando conversa fora, regada com umas cervejinhas geladas, até que o sol se pôr.

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A noite mais uma vez Lucia mandou ver nas panelas e serviu Conchilhone de Bacalhau, que nem é preciso dizer que estava ótimo, e foi mais uma noite de bons papos no cockpit.

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No domingo, 27/03, pela manhã, os sobrinhos embarcaram no catamarã Gamboa do Morro e retornaram a Salvador, para pegar o voo de volta a Brasília. Às 11h30min, levantamos âncora, abrimos as velas do Avoante e aproamos o rumo de Salvador, onde chegamos no Aratu Iate Clube às 23horas e 30minutos. Doze horas de uma velejada maravilhosa e que tivemos a alegria de dar carona a um pássaro oceânico que pousou na borda do nosso botinho de apoio e ficou até o começo da manhã da segunda-feira. Porém, o mais gostoso de todo esse passeio foi ver a felicidade de Gilmar em ter mostrado as filhas, Giulia e Giovana, um mundo em que a simplicidade e a interação permanente com os elementos da natureza transformam vidas e torna a alma do homem livre para sonhar e desbravar novos horizontes.

 

Regata da Redenção do Aratu Iate Clube – Resultado

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imageO Aratu Iate Clube publicou em seu mural o resultado da 29ª Regata da Redenção, ocorrida dia 19/30, que teve como Fita Azul o veleiro Marujos, do comandante Gerald Wicks. Veja abaixo algumas imagens da competição e da festa:

Resumo de um fim de verão

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Quanto mais navego no mar da Baía de Todos os Santos, mais me encanto com o que vejo. Nesse domingo, 20/03, último dia de verão, estávamos batendo um papo na varanda do Aratu Iate Clube, com os amigos Ney, veleiro Malagô, e Everton Fróes, Programa A Bordo, quando Ney perguntou se eu conhecia as belezas da Baía de Aratu. Respondi que, apesar de já ter sido convidado pelo velejador Julival Góes, infelizmente não conhecia. Na mesma hora Ney atiçou o Fróes para colocar a lanchinha Panela na água para que fizéssemos um passeio por um paraíso de águas e mangues que pouquíssimos navegantes de esporte e recreio conhece e o que vi me deixou embasbacado, porque não imaginava que existisse uma natureza ainda em estado puro tão próximo a uma super metrópoles como Salvador, margeada por uma rodovia movimentadíssima e cercada por enormes conglomerados industriais. Porém, não irei falar desse passeio nessa postagem, porque tenho que acalmar os miolos que fervem de tanta euforia e não quero pecar pelo excesso, nem deixar que nada fique de fora. Talvez com excesso fosse a melhor forma de escrever sobre os recônditos navegáveis da Baía de Aratu, mas deixe quieto. O que vi vai estar escrito por aqui com certeza no decorrer da semana que se inicia sob as ordens do Outono que espero não venha carregado com surpresas climáticas.

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Mas o final de semana que se iniciou dia 18 foi movimentado e mais uma vez o Avoante ficou preguiçando amarrado ao píer do Aratu Iate Clube, o clube que prometia, e cumpriu, festa para comemorar a Regata da Redenção, uma das mais importantes para a sua história. E como festa é com a gente mesmo, Lucia preparou uns comes e bebes na noite da sexta-feira e convidou o Tiago e a Dani, veleiro Nimbus, para desenferrujar as cordas do violão e chamou a galera que estava na varanda para curtir a noitada no cockpit do nosso veleirinho, que é igualmente coração de mãe. Compareceram o Ney, Marcelino, Sandra, Neto e o Nadier. A noite rendeu!

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E no sábado, 19, foi dia de curtir a Regata da Redenção que foi bem concorrida e sobre ela falo em outra postagem. Foi assim o nosso fim de semana!

Dona Ideonella, a bactéria do bagaço

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A notícia que cientistas japoneses criaram uma bactéria para destruir as, até então indestrutíveis, garrafas PET é um alento para a saúde dos oceanos, rios e ao meio ambiente como um todo, hoje tão maltratados e descaradamente violentados por todos nós. Até hoje a ciência não chegou a real certeza de quanto dura uma garrafinha PET jogada ao relento. Alguns estudos falam em 800 anos ou mais, porém, são afirmações tão sem noção que entram em um ouvido e sai pelo outro. O cientista japonês que lidera a pesquisa garante que a bactéria criada por eles consegue destruir uma fina camada de Polietileno Tereftalato, nome de batismo do PET, em pouco mais de 6 semanas. Se assim for é uma ligeireza que só vendo para um produto que duraria quase um milênio denunciando a nossa falta de educação ambiental. Os homens das pesquisas dizem que somente em 2013 foram produzidos 56 milhões de toneladas de PET no mundo e menos de 15% foram reciclados. Os estudos e os satélites cansam de nos alertar para o oceano de plástico que navega serelepe pelos recantos raramente navegados e visitados do oceano Pacífico. É uma ilha de lixo de meter medo até em urubu rei, mas que é um prato cheio para a Ideonella sakaiensis, nome de batismo da bactéria come PET. Tomará que Dona Ideonella venha colocar ordem na sujeira e que ela se contente apenas com o sabor das garrafinhas, pois se ela resolver provar outro prato, barco de plástico vai virar tira gosto. 

E a Volvo em?

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Notícias que navegam em meio a um mar de certezas, boatos e afins, dão conta que a organização da regata volta ao mundo Volvo Ocean Race ainda não se decidiu qual a parada brasileira para a próxima edição da prova. Muita gente aposta que nada mudará e que a catarinense Itajaí será pela terceira vez a escolhida. Porém, correndo por fora e aliado a um exército de orixás, sob o comando do Senhor do Bonfim, a baiana Salvador apimenta o tacho de azeite e monta o tabuleiro na praça para receber a grande batalha da vela mundial. A prefeitura de Itajaí promete gorda contribuição ao evento e isso soa como música nos ouvidos atentos dos organizadores, falta agora escutar o ritmo dos tambores da Bahia. Para mim a Baía de Todos os Santos oferece as qualidades necessárias e é um palco natural para o evento, só falta subir as velas e aproar no rumo certo.