Arquivo do mês: setembro 2019

Humor de marinheiro

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E a sereia cantou o canto e caiu no encanto

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Imagem e poesia

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Confesso não saber quem foi o autor dessa obra, mas sei que poesia não se faz apenas com rimas, métricas, estrofes e versos. Por que não uma quadra? Quem sabe um soneto! Diria eu uma sextilha! Cairia bem um haicai! Mas, e a imagem? Oh, Apolo, que mundo maravilhoso inventaste de criar!

De olho nos ventos de setembro

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E os ventos continuam soprando forte e correndo soltos pelo litoral do Rio Grande do Norte e Ceará, e a Marinha do Brasil tem renovado sistematicamente os avisos aos navegantes, com pedidos de atenção redobrada aqueles que desejam se aventurar mar adentro. Segundo as previsões, os ventos de até 60km/h devem prevalecer até o final desta semana. Porém, o que me chamou atenção, no gráfico de animação do site Windguru, é o filhote de “cruviana” que está se formando no meio do Oceano Atlântico e de nariz empinado para as ilhas caribenhas. No miolinho da “cria da deusa”, as lapadas do açoite estão batendo a mais de 120 km/h.   

Epitáfio

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Gordo, precisava ser assim não, rapaz, mas já que foi, ficaremos aqui com as lembranças e se remoendo em saudades.

Caro amigo, você não imagina como foi gostoso assistir o longo filme que meu cérebro instantaneamente editou e produziu, a partir do momento em que abri o Facebook e li na página do Floro Dória alguma coisa sobre Marrecão e mecanicamente meti o dedo na tela para passar a página, mas o dedo não foi, porque meus olhos cravaram em uma fitinha de luto e daí veio o choque ao ver sua imagem. Juro que não sei dizer em que velocidade meu cérebro trabalhou e nem posso afirmar se ele pressentiu o que os olhos viram, mas entre o estupor e a ação, tudo se deu entre o abrir e o fechar de olhos e nem sei se realmente esse mecanismo aconteceu, porque o filme já rolava solto e lá estávamos nos, às 4 da manhã de uma Sexta-Feira Santa, do início dos anos 80, montados em uma Brasília no rumo da praia de Baía Formosa. Eu, você, Marcelo Cabral e os outros dois, que completavam a trupe, vou colocar no débito do avanço da idade.

Gordo, pode rir e ficar sossegado que não vou contar tudo o que aconteceu durante o percurso até Baía Formosa, mas ainda lembro da cara do policial rodoviário e das palavras dele, ao parar o carro, olhar pensativo para as pranchar sobre o bagageiro, pedir meus documentos, pois eu era o motorista, olhar mais uma vez para dentro da Brasília e com um ar de quem sabia ler pensamentos, falou: – Boa viagem e aproveitem o surf, viu meninos! Ufa! Liguei o carro, engatei a primeira e você gritou: – Baía, aí vamos nós, uhuuuuu!!!!!

Chegamos a velha e boa Baía Formosa, praia arretada de ondas maravilhosas, às 6 horas da manhã. Paramos a Brasília ao lado da igreja, sentamos na calçada, abrimos um garrafão de 5 litros de vinho Dom Bosco e mandamos ver até a hora de irmos para a casa da senhora que nos abrigaria durante aquele feriado. Vocês foram surfar e eu, que nunca aprendi o traçado, fiquei na varadinha, deitado na rede e peguei no sono. Foram três dias maravilhosos!

Na rapidez dos sentidos e ainda lendo a postagem de Floro, lembrei das farras em Ponta Negra, Pirangi, Búzios, Tabatinga, Muriú e assim a fita foi apagando, perdendo a cor e sem mais, nem para que, a vida foi alterando rotas, introduzindo variantes e nossa amizade foi congelando no tempo e no espaço, por longos anos, para esporadicamente receber um calor de um abraço, um aperto de mão e um aceno, apenas para mostrar que a chama continuava viva.

Poxa, Cláudio, quantas vezes avistei você batendo papo ao lado de uma banca de revista em frente ao Atheneu. Quantas vezes quis parar, apenas para lhe abraçar ou dizer olá e não o fiz. Porque temos que insistir em ser assim tão indiferentes com os amigos? O que custava parar, descer do carro, tomar um café, apertar a mão e seguir em frente? Ontem, 23/09, vim de Enxu Queimado, onde moro atualmente, apenas para fazer um procedimento em um dente com Jorginho Rezende, eu nem estava programado para vir, mas vim. Ao sair da clínica, próximo ao colégio Atheneu, passei ao lado da banca de revista, onde você costumava bater papo, olhei e você não estava. Pensei: Poxa, será que o Gordo não vem mais aqui? Se hoje ele tivesse iria parar para bater um papo e saber das novidades. O trânsito seguiu e eu segui junto. Um pouco mais adiante, novamente você veio em uma ponta de lembrança e assim fui esquecendo e o dia terminou, mas uma insistente dor de cabeça me fez adormecer mais cedo do que o normal.

Gordo, porque temos que ser assim? Porque permitimos que as amizades se dispersem? Porque? Porque deixamos que as lacunas marquem territórios entre as amizades? Será que somos mesmo tão insensíveis? Hoje, depois que sai daquele salão em que você estava deitado tão confortavelmente e com um leve sorriso no canto da boca, fiquei sozinho e pensando em todos que ali estavam. Todos amigos, bons amigos, todos de cabelos grisalhos, cabelos rareando, alguns sem nenhum cabelo, a grande maioria que não avistava há muito tempo, novamente me interroguei: – O que fizemos da vida? – Que esquina maluca foi aquela em que dobramos para nunca mais nos encontrarmos? E o pior: Nem lembro se acenamos, se dissemos até logo, se sorrimos ou se apenas baixamos a cabeça e seguimos.

Meu amigo, Cláudio Cabral, Gordo Cláudio para mim e Marrecão para outros, muitas histórias foram lembradas no filme que assisti hoje e em todas estávamos dando boas risadas, pois era assim que sempre você se apresentou. Não sei se havia lhe dito, mas você era um cara incrível e será inesquecível, porque sua luz brilhará para sempre na memória dos seus familiares e amigos.

Vá em paz, Cláudão, e obrigado pela sua amizade!

Nelson Mattos Filho

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Humor

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Ódio

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O ódio é assim: Mansamente se instala no coração, vai sendo destilado, afinado, lapidado, vai lentamente se espelhando pela alma, pelas veias e assim, quando atinge o cérebro e os músculos, explode atingindo tudo e todos a sua volta, sem distinção de cor, raça, gênero, credo, amizade, família. O ódio é ódio e com ele não existe razão, paixão, amor, reconhecimento, gratidão, não existe nada além dele mesmo. O que ele quer é destruir, massacrar, matar, comer as entranhas do odiado despejando sua verve feroz entre labaredas de cuspes e babas. O ódio vibra com a palavra falada, mas seu deleite está na palavra escrita, porque é aí que ele se perpetua. Dizem que só o amor vence o ódio. Mentira! O amor é superficial, se inibe e foge diante do ódio que é o grande manipulador da vida humana e é com ele que o homem mostra toda a sua verdade. O ódio não é de Deus e muito menos do Satanás, o ódio é do homem, o frágil hospedeiro e fiel multiplicador. Triste sina da espécie humana!

Cartas de Enxu 51

8 Agosto (6)

Enxu Queimado/RN, 21 de setembro de 2019

Waltão, como vão as coisas com você e com os seus, meu amigo? Por aqui tudo indo e vindo, porém, mais indo do que vindo e não me pergunte os motivos, porque por mais que observe e tente decifrar os teoremas, mais perdido fico. Como disse um amigo: “Nelson, as coisas são o que são e quando não são, não são, entende?” Rapaz, preferi responder que entendia, pois vai que ele resolvesse explicar!

Amigo, nunca esqueci aquele dia, do ano 2000, quando saímos da Praia do Marco, onde eu tinha uma cabaninha de praia e juntamos aquela turma boa de velejadores, e viemos a Enxu Queimado, eu, Lucia, você e Baleia, tomar um café da manhã, no bar de Dona Tita, regado a cerveja, aliás, mais cerveja e menos café. Naquele tempo a fartura de lagosta por essas bandas ainda era coisa de fazer valer uma boa matéria jornalística e você sabendo disso incentivou a vinda – como desculpa para a cerveja – para bater uns retratos e registrar no bloquinho de anotações algumas informações. Pois saiba que aqueles meninos que carregavam dois carros de mão carregados, até a borda, de lagosta, e que tremeram nas bases e afrouxaram o intestino quando você pediu que eles parassem um pouco, porque você queria bater uma foto, aqueles meninos hoje são adultos, pais de família e ainda lembram do cheiro do “material pastoso” que escorreu por entre as pernas deles. Eles pensaram que você era fiscal do IBAMA. Vez em quando, em conversas de varandas, damos boas risadas lembrando daquele episódio. Mas Waltão, para mim o mais engraçado foi sua tentativa de aprender a subir em um pé de coqueiro. Sei não, viu! Pense num caboco desajeitado e ainda bem que você desistiu antes de receber a segunda lição, pois eu já estava imaginando a cena quando fosse para você descer.

Jornalista, sob a sombra dessa cabaninha de praia fico ouvindo os moídos do mundo, apesar da cacofonia que ecoa das trincheiras da grande rede e que as mídias tracionais teimam em comer corda, e não tenho como refestelar os miolos do juízo. Pense numa bandalheira desenfreada e sem direção lógica! Está todo mundo tão amalucado com a tal mídia social, que ninguém quer mais saber a verdade de nada, basta postar, ou ler o que os “influenciadores” publicam, apertar a tecla de encaminhar e pronto, a “verdade” está confirmada e prontinha para fazer estrago na vida do alheio por intermináveis dois dias até cair no ralo do assunto antigo e sem mais interesse. Waltão, quanto a isso, o navegador Amyr Klink falou assim, em uma entrevista sobre a comemoração dos 35 anos da travessia do Atlântico em um barco a remo: “…Se fosse hoje, eu estaria no Instagram uma boa parte do tempo, nas mídias sociais, provavelmente eu teria uns 2 ou 3 milhões de seguidores e, em uma semana, nenhum. Eu não ia ter mais nada pra falar porque todo mundo já acompanhou o que aconteceu. Então eu teria tido milhões de caras torrando minha vida a bordo na última semana e na primeira semana de volta ao Brasil eu não teria mais nada para contar…”. É assim, amigo!

Rapaz, por falar em mídias sociais, faz dias que escuto os ruídos que hoje, 21/09, é o dia reservado a Limpeza Mundial e sinceramente ainda não consegui entender o que danado isso quer dizer, pois o planetinha azul nunca esteve tão sujo, em todos os sentidos da palavra. Pois bem, acordei neste sábado de Limpeza Mundial, disposto a pegar uma pá, uma vassoura, alguns sacos para juntar lixo e sair em busca da turma que estava imbuída da tal limpeza. Já na cama apurei os ouvidos na tentativa de escurar o ciscado das vassouras e o arrastado das pás, e nada. Levantei, abri a janela, e nem sinal dos voluntários. Pensei com meus botões: Deve ser mais tarde! Tomei café, acompanhado de umas bolachas molhadas no leite, salteadas com queijo, e fui na calçada procurar saber onde estavam todos, e mais uma vez não consegui resposta. Foi aí que passou Dona Leonete, ativista de causas sociais, e perguntei de pronto: Amiga, a Limpeza Mundial já começou por aqui? Ela deu uma risada e respondeu: – Já teve! Olhei para um lado, para o outro e repliquei: E foi? Waltão, você acredita que mundo afora foi diferente daqui? Eu mesmo é que não acredito, pois se quisessem mesmo limpar o planeta, bastava incentivar que cada um limpasse a sua casa e chamasse o vizinho para conferir. Vizinho é bicho fuxiqueiro!

Pois é Walter Garcia, jornalista e velejador arretado, diante do coqueiral e do mar que me acena, fico escutando as loas e matutando nas batalhas travadas sobre as paragens desse planetinha metido a besta e muitas vezes prefiro fechar os olhos, os ouvidos e me calar, pois assim a vida se torna mais salutar. Mas como gosto de ver, ouvir e falar pelos cotovelos, vou seguindo feito balanço de rede: Meio lá, meio cá!

Velejador, que tal voltar a pisar os pés nas areias dessa prainha paraíso? Venha, homem, mas não garanto que terá outros carros de mão com a fartura de lagosta como naquele ano de virada de século. O que foi já era e o que já era, já era mesmo. Entendeu? Se não entendeu, venha que explicarei aqui!

Lucia manda um cheiro!

Nelson Mattos Filho