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Poesia de uma paixão

 

5 Maio (24)

E por falar na coluna do Woden Madruga, deste domingo 24/06, lá tem a poesia de Zila Mamede, poetisa paraibana, que fincou raízes profundas no solo do Rio Grande do Norte. Zila, escritora indo e voltando, tinha verdadeira paixão pelo mar e no poema Partida, escrito em 1958 no livro Salinas, premonizou sua passagem para o andar dos encantados. A poetisa morreu afogada, em 1985, enquanto se banhava nas águas da Praia dos Artistas, em Natal/RN.

PARTIDA  

Quero abraçar, na fuga, o
pensamento

da brisa, das areias, dos
sargaços;

quero partir levando nos meus
braços

a paisagem que bebo no
momento.

 

 Quero que os céus me levem; meu
intento

é ganhar novas rotas; mas os
traços

do virgem mar molhando-me de
abraços

serão brancas tristezas, meu
tormento.

 

 

Legando-te meus mares e
rochedos,

serei tranquila. Rumarei sem
medos

de arrancar dessas praias meu
carinho.

 

 

Amando-as me verás nas puras
vagas.

Eu te verei nos ventos de outras
plagas:

juntos – o mar em nós será
caminho.

 

 

 

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Poetas do mundo

A canoa de Francisco Diniz

Navegar é Preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,

transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.

Só quero torná-la grande,

ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;

ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue

o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir

para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa

Poema para a humanidade

9 Setembro (148)

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Eduardo Alves da Costa 

 

 

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

 

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

 

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

 

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

 

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas ao tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

 

E por temor eu me calo,

por temor aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

Nota: Em negrito está o fragmento mais conhecido desse poema 

 

 

Jangada

3 Março (63)

“…Quer sossegada na praia,
Quer nos abismos do mar,
Tu és, ó minha jangada,
A virgem do meu sonhar:
Minha jangada de vela,
Que vento queres levar?…”

Juvenal Galeno

O retrato, o poema e a poesia

2 Fevereiro (32)

“Perder um poema pode ser doloroso, angustiante, mas perder a poesia seria muito pior” Lívio Oliveira, escritor, no texto O poema perdido, publicado no jornal Tribuna do Norte

Da loucura dos poetas

03 - março (87)

Fernando Pessoa: “Meu coração é um almirante louco que abandonou a profissão do mar e que a vai relembrando pouco a pouco em casa a passear, a passear …”

Do livro “A Saga do Barcaceiro”

7 Julho (167)

Pra tudo precisa sorte

Até para andar no mar

Onde as águas balançam

Eu queria morar

Prá tudo precisa sorte

até pra navegar

(Cancioneiro das Barcaças)