Arquivo do mês: janeiro 2019

Um litoral em frangalhos

IlhabelaO site Mar Sem Fim, no Estadão, trás matéria sobre o descaso sofrido pelo litoral brasileiro em pleno Verão 2019, porém, a notícia pode muito bem servir de denuncia para verões passados e futuros, pois desde que um certo Cabral atolou suas botas nas areias da nossa tribo a coisa enlameou e não tem homem no mundo que limpe. O jornalista e navegador João Lara Mesquita, que assina a matéria, começa a puxar o fio da porcaria a partir da afamada  e bela Ilha Bela/SP e fecha o firo na estonteante  e incompreendida Ilha de Fernando de Noronha/PE. Segundo o Mar Sem Fim, o número de praias impróprias para banho cresceu mais de 20% em um ano, o que acredito piamente e sem pestanejar. E João começa assim: “…Ao juntarmos os dados, percebe-se que o drama é nacional, fruto do egoísmo, da omissão, do crime de lesa-pátria, e também da mais pura ignorância…”.

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A lama do Feijão é a cara do Brasil

incidente-brumadinho-v6Mais uma vez estamos cara a cara com mais uma tragédia, mais uma barragem rompida, mais explicações infundadas e mais uma vez o palco trágico é o belo Estado de Minas Gerais, onde em novembro de 2015 a barragem do Fundão, localizada no município de Mariana, rompeu, ceifou 18 vidas e provocou o maior desastre ambiental brasileiro,  jamais reparado e até o momento vem, descaradamente, sendo jogado de um lado a outro nos tribunais de justiça. Brumadinho é uma cidade linda, localizada nas cercanias da capital mineira, com uma população estimada em torno de 40 mil habitantes, destaca-se pelos grandes mananciais de água que abastecem um quarto da região metropolitana de Belo Horizonte e também por abrigar em suas terras o maravilhoso museu Inhotim, um dos mais importantes acervos de arte contemporânea brasileiro, considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina. Hoje, 25/01, o Brasil acordou para descobrir que a lição de Mariana não foi aprendida, não serviu para nada e aqueles que perderam seus entes queridos, suas casas e histórias de vida, mais uma vez irão chorar de pavor e descrença nas leis dos homens, diante do rompimento da barragem da mina do Feijão que até o momento, segundo as autoridades, existem 200 desaparecidos e lugarejos praticamente riscados do mapa. Assim como em Mariana, a mineradora Vale S/A assina o enredo do terror. – Quer saber? – Mais uma vez vamos engolir a lama goela abaixo!       

Coisa bem nossa

7317663_x720O Brasil é sim um grande país carnavalesco, de leis tão amalucadas que dificilmente conseguem intimidar os mais afoitos. Aliás, como diz o jornalista e humorista José Simão, somos o país da piada pronta. Buemba! Buemba! Pois bem, o Código de Trânsito Brasileiro, que entrou em vigor em 1998, já se vai vinte e um anos de idas, vindas e inúmeras contramão, é um verdadeiro samba do crioulo doido, tamanha são as veredas marginais por onde trafega. Passeando por aí se vê de tudo e mais um pouco e por mais que se ditem regras, normas e exigências esdruxulas para o registro de novos motoristas, mais a coisa desanda num mar de imperícias e permissividade de dar dó naqueles que querem andar certo. Quem perambula pelas ruas das cidades e cruza as estradas que cortam o país, perde a conta dos erros, descasos e desmandos avistados a cada quilômetro percorrido. No trânsito é cada um por si e ponto final, porque são tantos descaminhos que até Nosso Senhor anda cansado de pastorar. Porém, todo esse moído é apenas para comentar sobre a imagem que abre a postagem, mas que não me espanta, porque apesar de hilária imagens assim podemos observar diariamente em qualquer lugar. O que me chama atenção é que carro trafegava todo faceiro em um dos mais belos colossos da engenharia carioca, a super movimentada Ponte Rio-Niterói, e segundo a reportagem, com nove irregularidades, entre elas, motorista sem habilitação. Agora me diga: – Como danado o caboco se atreve a  atravessar a Rio-Niterói com o carro todo errado e sem possuir carteira de habilitação? – Me diga se isso não é a certeza da impunidade?   Diz o ditado que quando a pessoa quer aparecer basta pendurar uma melancia no pescoço. O que não era o caso. 

Ensinamentos do Rapunzel

IMG-20190121-WA0002O velejador Marçal Ceccon, gente de dez, certa vez embarcou a família no veleiro Rapunzel e se mandou pelos mares do mundo, numa das viagens mais fantásticas e maravilhosas de um brazuca, numa época em que os meninos que idealizariam e criariam as redes sociais nem pensavam em nascer. Não quero dizer com isso que o Velejador, amigo que tenho muito carinho, seja velho, pois no máximo é um pouquinho desgastado, apenas quero dizer que nos dias de hoje a volta ao mundo de Ceccon, aliás, as voltas ao mundo, porque depois da primeira vieram outras, seria viral, como se diz no jargão “internético”. As viagens do Rapunzel renderam livros que fazem parte da biblioteca de boa parte dos amantes da boa leitura, sem contar os apaixonados por barcos a vela, porque os escritos de Marçal são deliciosos, verdadeiros ensinamentos sobre as coisas do mar e fonte de observação sobre o cotidiano dos países e ancoragens por onde passou. Foi do livro Rapunzel nos Mares do Sul que pesquei, com ajuda do “potiucho” Antônio Carpes, a frase atualíssima:  

“Para se dar bem nessa vida de nômades lembrem-se, quando chegarem a algum lugar vocês serão apenas visitantes, meros espectadores. Tudo o que acaso virem, representa apenas o último instante da história do local. Julgar os fatos e emitir opiniões radiais a luz dessa visão parcial não é, definitivamente, uma boa ideia.”

Passeio de jet no litoral potiguar termina em empurra-empurra

600x400Um passeio dos usuários de motos aquáticas que seria realizado nesta sexta-feira, 11/01, no litoral Sul do Rio Grande do Norte, deu o que falar nas redes sociais, expôs a maluquice das repartições fiscalizadoras que cuidam do bom cumprimento das leis ambientais e tirou os prefeitos, das cidades por onde a flotilha navegaria, do conforto dos alpendres das casas de veraneio. O Idema, órgão ambiental do Estado, navegou pra lá, deu bordo pra cá e sem ter um rumo certeiro passou o comando para o Ibama, que sem saber se acelerava ou parava as motocas voadoras, devolveu o timão para o Idema sem ao menos visualizar o horizonte. Quem botou ordem na derrota foi o prefeito de Tibau do Sul, que numa canetada fechou a barra. O quiprocó teve início quando foi anunciado a navegada que sairia da praia de Barra do Cunhaú, uma das joias do litoral potiguar, com destino ao município de Senador Georgino Avelino, passando por uma extensa área de proteção ambiental na Lagoa de Guaraíras. Segundo os organizadores, o “passeio” tinha como objetivo fazer distribuição de cestas básicas a comunidades carentes, porém, os ambientalista vislumbraram uma possível agressão ao meio ambiente e aí o reboliço foi grande. Procurei nas ondas livres da internet notícias se o “passeio” encalhou ou seguiu em frente, mas não tive resposta, como também fiquei sem saber qual foi o posição da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte diante desse moído. Estou comentando o caso porque navegando por aí deparei com vários passeios de motos aquáticas e vi de tudo: de motonautas bem comportados e seguidores das leis de navegação a turmas que mais pareciam saídos dos filmes de bárbaros sanguinários. As leis de terra podem não ter a clareza necessária, mas as leis marítimas não deixam dúvidas, porém, todas escorregam pelo mesmo ralo por onde escorrem as coisas nebulosas. Já os ambientalistas, nem sempre olham para onde deveriam olhar e muitas vezes se apegam apenas em aspas.          

Fenômenos astronômicos para anotar na agenda

FB_IMG_1546984097840Navegando pelas páginas do Facebook, que apesar das muitas picuinhas e fofocas politiqueiras tem bastante coisa boa, me deparei com esse folheto virtual no perfil do fotografo, velejador, pedaleiro, cervejeiro e excelente papo, Hélio Viana, ou melhor, Hélio de Mara, e copiei para colar aqui. É a programação dos fenômenos astronômicos para serem vistos em 2019. Claro que terá muito mais e até surpresas, como a de algum meteorito invasor, que vez por outra dá drible nas lentes dos telescópios e passa tirando “fino” em nosso quengo. É bom anotar as datas, ou então dar o ar da graça aqui no blog, para não perder o espetáculo.  

Cartas de Enxu 34

1 Janeiro (108)

Enxu Queimado/RN, 08 de janeiro de 2019

Pois é, Tio, mais um Natal se foi e mais uma vez a data foi comemorada com uma alegria desconexa, em que o riso sai frustrado e os abraços, por mais que se apertem, não conseguem produzir o calor necessário para confortar a alma. Mas vamos levando por aqui, até que Nosso Senhor, que está aí ao seu ladinho, remexa nas fichas e lembre de nos mandar subir. Tio, aquele dia foi pesado demais, tão pesado que até hoje ele permanece vivo e em cores em minhas lembranças.

Talvez a data marcante colabore para aumentar o peso. Talvez as últimas cenas que ficaram gravadas: Nosso último bate papo, momentos antes de sua partida; O presente que eu havia comprado para lhe dar, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que ficou no ar; A notícia que me deixou momentaneamente sem fala; As palavras que não foram ditas; A cena de lhe ver estirado naquela mesa de pedra fria; Quem sabe as palavras emocionadas de seu grande amigo, Dr. Virgílio, diante do seu corpo inerte sobre a pedra daquele necrotério, “Seu merda, isso é coisa que você faça com a gente…”; A lembrança da imagem de Ademar, sentado no batente da escada que levava ao escritório da padaria, apenas balançando a cabeça; O choro de Tia Cecília no saguão daquele hospital repetindo a palavra: Acabou! Vinte e quatro anos e é como se fosse hoje!

Tio Emídio, antes de continuar preciso lhe dizer, mesmo sabendo que você já sabe, que essa carta começou a ser escrita na véspera de Natal de 2018, mas por motivos de forte emoção, a deixei de lado até que as lágrimas cessassem e o coração tomasse tento. Hoje, diante de um ano que já vai alto e que promete um festival de esquisitices, resolvi dar andamento depois de uns mergulhos nas águas do mar para salgar a alma.

Tio, ao sentar numa pedra para refletir sobre a vida. olhando para os domínios da Rainha do mar, decidi que não iria escrever sua carta com tristeza, porque você encarnava e irradiava alegria e irreverência. Quero apenas falar um pouco das coisas daqui e mandar notícias dos nossos, principalmente de Tia Cecília, que de tanto carinho e amor não cabe em meu coração. Pois é Tio, a vida aqui vai indo e a cada dia o mundo dá tantos giros de 180 graus que está ficando difícil a gente ficar aprumado sobre ele. Tá brabo e sei que vocês, encantados que se avexam a nos proteger, estão se virando nos trinta para manter em dia a proteção. Se vacilar a coisa desanda, num é não?

Pois bem, tia Cecília está bem, Ceminha também está indo, apesar de que, vez por outra se mete a aprontar sustos, Nanã está em plena e franca recuperação e os demais da família estão caminhando num caminho meio espinhoso, bambeando aqui, ali, acolá, porém, de cabeça erguida e seguindo em frente. Nessa minha Enxu mais bela a coisa está a cada dia mais gostosa e em paz. Os homens do poder daqui começaram o ano anunciando que a estrada que liga Enxu Queimado a sede do município, dessa vez sai para valer. Porém, já coloquei minhas barbas de molho, pois nos vinte e nove anos que ando por esse paraíso/praia, perdi as contas de quantas vezes assisti essa novela. Se me perguntam se sou a favor da estrada, digo que sou por Enxu e desejo que a paz e a tranquilidade permaneçam altaneiras sobre o paraíso.

Ei, Tio, você que está aí em cima, me diga se a outra face da Lua é bonita mesmo ou se tudo não passa de marketing de chinês. Vejo que os chinas colocaram um carrinho para fazer rastro no terreiro lunar e mandar uns retratos da paisagem que jamais conseguiremos ver daqui de baixo. Só não sei para que danado isso vai servir para a humanidade, mas um dia saberemos, quem sabe. Por falar em lua: os mandatários da Terra estão cada dia mais aluados e doidinhos para trocar uns sopapos. É um tal de trincar os dentes e rosnar feito fera das trevas que tá dando até medo. Os cabras de peia já esqueceram as agruras das duas grandes guerras e agora estão querendo tirar onda com a nossa cara. Dizem que cachorro que late não morde, mas quando ele morde aí é nó. Até o nosso Brasil, mais pra lá do que pra cá, está querendo meter a mão nessa cumbuca. Sei não, viu!

Tio Emídio, você lembra da vez que viemos a Enxu? Viemos para ver uma panificadora que estava à venda na cidade de Parazinho, mas o senhor não se agradou do que viu. De lá viemos comer um peixe frito, com cerveja gelada, na mercearia de Dona Tita. Lembra? Tudo que vimos naquele ano está mudado e mudando rápido. O progresso chegou, meio torto, mas chegou, e tudo focado na mais alta tecnologia. Muito ainda haverá de ser feito e não vai demorar para esse paraíso/praia ser apenas uma feliz lembrança em algum álbum de retrato.

Emídio Nogueira Mattos, meu tio amado e um dos principais pilares de minha formação, como queria lhe ver sentado sob a sombra da minha varandinha de praia apreciando o coqueiral e ditando seus ricos ensinamentos. Agora me diga: As palavras que não foram ditas e os segredos que não foram ensinados, são os chamados mistérios da vida? A saudade é imensa e jamais terá fim.

Eh, Tio Emídio, a carta ficou meio mórbida, mas eu precisava lhe contar e desabafar. Desculpe e receba um grande beijo!

Nelson Mattos Filho