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Cartas de Enxu 50

7 Julho (218)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2019

Luciano, meu amigo, como andam as coisas na sua Bahia mais bela? Por aqui vamos caminhando, cantando, seguindo a canção e achando graça, porque se faltar o riso o bicho pega. E por falar em bicho: Como vai seu ninho de cobras? Pelas bandas daqui, tenho notado que a criação de ovelhas e carneiros diminuiu um pouco, pois faz dias que não avisto os bichinhos caminhando livre, leve e solto pelas ruas e avenidas dessa Enxu querida. – Avenida? Isso mesmo, meu amigo, avenida, pois assim está escrito no endereço da conta de energia elétrica. E por falar em conta de energia, por mais que os encantadores de gente se esmerem em explicar, juro que não consigo entender essa troca de bandeiras. Tem tempo que é verde, tem tempo que a danada amarela e nesse mês de setembro o troço veio num tom encarnado, mais esfomeado do que a molesta. Seu menino, eu ia até falar, mas vou parar por aqui para não “elogiar” a senhora Mãe dos outros.

Amigo, sobre essa troca de bandeiras o que me intriga é ver, da minha varandinha, a danação de torres catadoras de ventos espalhadas a torto e a direito sobre dunas e matas, gritando promessas engabeladoras, e nem sinal das tais bandeiras perderem o ímpeto. Ei, baiano, não se avexe com minhas observações amalucadas, pois são apenas visões de um praieiro que em vez de ficar catando nuvens no belo e infinito céu dessa prainha paraíso, fica dando pitaco em coisas que não entende.

Rapaz, essa semana estive na casa de Ceminha e ao folhear o jornal Tribuna do Norte, cravei a vista numa matéria que falava da nossa falta de interesse nas benesses do grande mar Atlântico, que nos banha. Pois bem, a nota dava conta de que um economista português ajuntou um punhado de interessados, ou desinteressados, sei lá, para dizer uma coisa que seus patrícios de 500 anos atrás já haviam descoberto e até hoje não demos de conta. O portuga disse em alto e bom som, que o potencial costeiro do Rio Grande do Norte é enorme e que até os dias de hoje, por mais que tenhamos trocado o comando do timão, não aproveitamos, ou melhor, desaproveitamos por completo. Ao ler a matéria lembrei de uma palestra que assisti no Sesc, em Natal, com o economista Delfim Neto, na época ministro todo poderoso, em que ele disse que o RN estava lutando uma luta inglória – e hoje está provado -, ao pleitear a implantação de uma refinaria de petróleo, porque a grande redenção desse Estado estava no turismo e no maravilhoso mar que acaricia suas praias. Eh, meu amigo, olhando da minha varandinha o mar emoldurado pelos troncos e palhas dos coqueirais não posso e nem devo deixar de aceitar as palavras do economista português, Miguel Marques, e muitos menos do grande professor Antônio Delfim Neto. Como seria bom se nossos governantes tivessem pelo menos um tiquinho de tempo e vontade para ouvir e falar verdades. Aliás, o tão proclamado Marco de Posse, chantado na praia do Marco/RN, que o diga, porque mais abandono é impossível.

Luciano, mudando o rumo dessa prosa, você acompanhou o moído sobre os “inocentes” livrinhos infantis lançados na feira literária sob as bênçãos de São Sebastião? Se acompanhou, fez bem, pois assim não será pego desprevenido quando algum neto lhe indagar sobre a vida. Se não acompanhou, fez mal, pois perdeu de dar boas risadas com as palavras ditas, escritas e com as afetações de quem canta a música sem nem saber a letra, nem o tom e só sabe entoar o coro. Me contaram que um cabocolinho que comprou, todo falante, um exemplar do tal livrinho, quando chegou em casa o filhinho quis folhear e levou um tapa nas orelhas, pois aquilo não era leitura para uma criança, ainda mais a dele. Vai vendo, viu! Mas fiquei sabendo que quem ficou brabo mesmo foi Seu Quinzinho da Burra, um antigo morador de um povoado distante daqui, pois na adolescência ele sentiu uma queda pela jumentinha mimosa que andava faceira pelas baixas, e depois de ganhar a confiança da bichinha, partiu confiante para uns afagos, amassos e daí para os finalmente foi apenas questão de minutos e um “Ih” mais carinhoso do que o normal. Depois de uns meses o amancebo foi descoberto pelos outros pretendentes da burrinha faceira e a fofoca caiu nos ouvidos do delegado que não contou conversa, mandou chamar Quinzinho e entre perguntas e cacete, fez o pobre namorado entregar o serviço contando coisas de A a Z. O namorador passou uns dias enjaulado, ganhou o agregado no apelido e até os dias de hoje nunca mais passou nem próximo das baixas, mas a saudade é grande daquela a quem tanto carinho dispensou. Pois bem, Seu Quinzinho soube que tem um livrinho ensinando os meninos a chamar uma coelhinha na chincha e que depois de uns alaridos, os senhores do conselho superior deram tudo como certo, justo e encerraram a peleja com pontos para o autor. Agora, Seu Quinzinho, no alto dos seus 90 anos, quer saber quem vai indenizar a desgraça amorosa sofrida nos seus 18 anos. Procede!

Luciano Lopes Guimarães, cabra aventureiro da gota serena, faz tempo que você e a sua mandante Arlene, não dão as caras por essa prainha bela e preguiçosa. Venha, homem de Deus, venha para a gente emendar os bigodes nos bons papos que rolam sob a sobra dessa cabaninha de praia. Venha aproveitar os assopros dos bons alísios de um setembro soprador. Venha que prometo arranjar uma jangada para você traçar rumo até o abençoado e produtivo Cabeço de André, lugar que deixa qualquer pescador abestalhado diante de tanta fartura.

Estou esperando, viu, e já vou colocar as cervejas no gelo!

Nelson Mattos Filho

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