Arquivo do mês: fevereiro 2020

Será?

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Pois é, desde que enveredei pelos encantos e mistérios dos caminhos do mar, perdi a conta das vezes em que fui taxado de maluco. Hoje morando em uma cabaninha de praia, na pretensa segurança da terra firme, vivo a refletir sobre o que é ser normal. 

Cartas de Enxu 58

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Enxu Queimado/RN, 22 de fevereiro de 2020

Eh, Marcelão, mais um Carnaval para alegramos a alma com as boas vitaminas da saudade. Como esquecer, caro amigo, aquele maravilhoso som de um trombone de vara soprado com o coração? Cada nota, cada tom, cada gesto, cada balanço e cada sorriso do trombonista era como bálsamo aos ouvidos e olhos daqueles que assistiam e se deleitavam ao final de cada melodia. Tinha pareia não! Aquele fantástico trombonista era simplesmente divino!

Pois é, amigo, desde que aquele velho músico deixou os palcos da vida terrena e se bandeou para o mistério das orquestras celestiais, os confetes e serpentinas perderam parte do brilho que coloriam nossos Carnavais. Se foram as fantasias, confeccionadas a todo vapor na máquina de costura de Salva. Se foram as feijoadas, as paneladas, os caldos da caridade e os assaltos tão esperados e disputados pelos amigos. Na casa dele, dois assaltos eram famosos e mereciam toda deferência dos anfitriões: A Escola de Samba Asa Branca, do saudoso Severino Guedes e o bloco do jornalista e cronista social Adalberto Rodrigues. Era festa para mais de légua e que enchiam de boas energias o reinado de Momo!

Não tinha como ficar indiferente ao sopro daquele trombone e até a execução do frevo Vassourinhas tinha outra magia. Aliás, todo som que saía da campana daquele trombone era magistral e não tem como lembrar daquele trombonista sem deixar que lágrimas rolem na face, por isso que vou mudar o tom dessa marchinha e deixar que os sons do Carnaval invadam meus ouvidos.

– Mas que som? Pois é, que som! Não mais existem músicas de Carnaval, o que existe é um balaio de gatos de ritmos, se é que podemos chamar de ritmo, e com letras que denigrem as imagens de colombinas e pierrôs, deixando-os rentem a lama do chão e tudo abençoado por um tal de “Carnaval multicultural”, que garanto nem o inventor do tema sabe explicar o que danado isso quer dizer. – Se dá vontade de sair de casa para assistir o Carnaval? Dá não, mas ainda gosto e boto fé que um dia vai aparecer um bom filho de Momo para botar novamente ordem no salão.

Eh, amigo, nesse primeiro dia do Carnaval 2020, amanheci saudoso e ao vasculhar o youtube, em buscar de um frevo para dar um bom dia aos amigos, e ao ver uma apresentação do bom baiano Armandinho Macedo com a Orquestra Spok Frevo, tocando o frevo Último Dia, uma obra-prima, tive que enxugar as lágrimas, principalmente quando entrou o solo do trombone. Aquele vídeo, aquele som, foi demais para um coração folião, nascido, batizado e criado em meio as boas partituras.

Mas Carnaval é Carnaval e aquele velho trombonista gostava de dizer que um Carnaval perdido jamais será recuperado. É pensando assim que sempre lembro de um professor baiano, se não me falha a memória, de nome Edmilson, amigo de Sr. Milton Palma, meu ex-sogro. O professor era um cidadão pacato e durante o ano inteiro dificilmente participava de alguma festa, coisa que na Bahia é quase diária, mas quando começava a folia de Momo, ele comprava um abadá e timidamente ia para a avenida. Na concentração do bloco ele comprava uma cerveja, comprava a segunda, a alegria começava a dar pressão na musculatura, o trio dava o primeiro toque, ele levantava um dedo, o atabaque batia, ele levantava outro dedo e quando dava por si, estava pulando feito doido e só parava na manhã da Quarta-Feira de Cinzas, na Praça Castro Alves, quando o último acorde soava vindo do Encontro de Trios.

Pois é, Eugênio Marcelo Vila, meu amigo/irmão, neste Carnaval dessa Enxu mais bela, acho que vou fazer como o velho professor baiano, vou abrir a primeira cerveja, a segunda, a terceira, esquecer as péssimas músicas que saem dos paredões e quando os músculos pegarem pressão e a cabeça estiver etilicamente azeitada, vou sair pelas ruas e becos dessa bela vilazinha praieira, em busca da paz e distribuindo alegria aos quatro cantos. Se o fôlego e as pernas aguentarem, vou pisar o chão das areias da beira mar e pular na animação das bandas oficiais do evento, entre elas, a Banda Grafitte, vinda lá das dunas natalenses do bairro de Santos Reis. Pois é, apesar da falação de alguns, o Grafitão agita as massas e diante da batida do seu swing, é difícil ficar parado. Claro que não existe um fantástico naipe de metais, como bem merece um bom Carnaval, mas nem tudo é como a gente quer, num é não? Vale relembrar o comediante Lilico, quando cantava assim: “Tempo bão, não volta mais/Saudades de outros tempos iguais…”.

Viva Momo! Viva o Carnaval! Viva Nelson Mattos, o melhor trombonista que já existiu e mais animado folião do mundo! VIVA!!!!!!!!

Nelson Mattos Filho

Um conto de história

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As veredas da história são traçadas ao longo do tempo e cada geração acrescenta vírgulas entre retas e curvas, mas jamais o ponto final, porque os passos da História, como ciência, não admitem ponto. Mas uma coisa é certa, continuamos com a mesma inocência dos antigos habitantes dessa terra maravilhosa chamada Brasil: Depois de fartos banquetes e bebedeiras, por fim, deitamos tranquilos e satisfeitos diante das promessas dos novos poderosos de plantão.  

Num tiquinho de mundo curiando o tempo

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O tempo hoje pelas bandas de minha Enxu mais bela, amanheceu nublado e com uma chuvinha preguiçosa pingando aqui, ali, acolá, mas ameaçando vir a baixo a qualquer momento, pois é assim que diz a leitura das nuvens nas barras do nascente. Durante a madrugada, o ronco surdo das trovoadas ecoavam distante já anunciando as boas novas para uma terra que começava a sofrer com o avanço de uma tal seca verde. Dizem que pelo sertão potiguar o chão está bem chovido e que os barreiros e açudes estão animados, mas nessa beira de mar, o calor, até a noite de ontem, estava de cozinhar os miolos de caboco brabo. Hoje, diante do chuvisco que cai sobre o telhado, fui assuntar nos sites que tratam das coisas do tempo e curiar as imagens retratadas pelos satélites  que brecham os segredos da natureza e gostei do que soube e do que vi, porque a previsão é de chuva forte, mas como previsão é bicho amuado, arisco e não promete nada a ninguém, nem jura, vamos ver no que vai dar. Por enquanto as plantinhas do terreiro estão sorrindo de alegria. – E o mar? – O mar está uma maravilha e convidativo para um gostoso mergulho! Mas peraí e não se avexe, porque tudo que falei aí em cima é sobre o que observo diante da varanda da minha cabaninha de praia, em Enxu Queimado/RN,  no resto do Brasil, como gosta de falar a moça platinada, os satélites mostram chuvas no litoral do Nordeste, entre Maceió e Rio Grande do Norte, e uma nesga ameaçadora entrando barra adentro pelo Sudeste. – E o Carnaval? – Vem aí, mas sei lá, está tudo tão enuviado do outro lado do mundo. Só tomara que o bumbo não bata fofo! 

Prosa de uma noite de verão

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Tem coisas que nós, pobres mortais, custamos a entender e por mais que queimemos os neurônios, mais ficamos batendo cabeça no velho e gostoso, as vezes insosso, papo de dar jeito nas coisas do mundo, mesmo sem saber para que lado fica a porta de entrada e muito menos a de saída. Mas enquanto tiver uma “gela”, uma meiota de cachaça, um pratinho de farofa e um caldinho para rebater, a coisa vai que vai longe.

Pois foi assim que dia desses sentei embaixo da sombra da árvore, que dá frescor ao Cantinho do Ivo, uma esquina divertida onde o moído corre solto, no povoado de Enxu Queimado, e entre uma latinha gelada e outra, alguém puxou do balaio dos assuntos a carta marcada com o consumo de combustível dos automóveis. De pronto e sem pestanejar e antes que eu desse um gole no néctar da latinha em que a esfinge de uma moça faz pose provocante, o ronco dos motores já ia alto e tinha deles fazendo pecaminosos três quilômetros por litro, o que achei uma aberração, pois meu Unozinho me agrada e dá conforto percorrendo 17 km/l. Eita carrinho arretado e valente!!

Rapaz, a discussão foi acalorada, animada, engraçada e incrementada com marcas de carros que dificilmente alguns deles cruzarão as estradas, ruas e becos de Enxu, se bem que de vez em quando passam levas de super possantes riscando as trilhas a beira mar, para cima e para baixo, mas antes que novo assunto caísse sobre a mesa, alguém lascou a frase: “Homi deixe de ser besta, carro bebedor é carro de pobre, carro de rico é econômico”. Pronto, foi a senha para mais uma rodada de cerveja, mas daí, sem mais nem pra que, lembrei de um almoço em São Paulo, quando estive presidente da Associação de Supermercado do Rio Grande do Norte, e que sentei em uma mesa com sete dos maiores empresários supermercadista do país, e lá para as tantas um deles falou da pretensão de comprar um helicóptero e após indicações de marcas e modelos, pois quase todos ali possuía um, logicamente que eu não fazia parte do grupo dos “quase”, o pretendente ventilou saber qual o salário médio de um piloto. Após breve fração de segundos de silêncio, um integrante do grupo dos “quase” sentenciou: “Caro amigo, esqueça, pois você nunca irá possuir um. Qualquer aeronave dessas indicadas nessa mesa custa mais de 4 milhões de dólares e você está preocupado com o salário do piloto!”. Novo silêncio e ainda bem que o garçom chegou com a bandeja de whisky para espalhar o sangue e desanuviar o ambiente.

Hoje vi nas folhas digitais que o magnata Bill Gates, criador dos duendes, fadas e dragões que dão vida a essa ferramenta que escrevo, tirou a carteira – será que ele usa isso? – do bolso e comprou um iatezinho maneiro por, segundo os fuxiqueiros, 600 milhões de euros. Pechincha! O brinquedinho de Bill, quando sair do estaleiro, terá 112 metros de comprimento, cinco andares, capacidade para acomodar 14 passageiros, 31 tripulantes e autonomia para navegar 3.750 milhas náuticas com as 56 toneladas de hidrogênio líquido distribuídos em 2 tanques selados a vácuo e resfriados a -253º C. Isso mesmo, hidrogênio! Será o primeiro iate do mundo movido com esse combustível, ou melhor, um barco, segundo o estaleiro, que pretende construir um futuro melhor e criar inspirações.

Agora me diga: Se o barco for mesmo do Bill Gates, parece que não é, pois o estaleiro construtor já se adiantou em negar, mas cruzando os dedos para que seja verdade, ele quer lá saber quanto custa um litro de hidrogênio líquido? E o salário do comandante? Porém, o Bill pode não querer saber, mas os frequentadores do Cantinho do Ivo, com certeza querem, além de ser um bom motivo para tomar umas cervas geladas, e por isso já vou me assuntar e me danar a fazer a conta para puxar a carta no próximo encontro. Se um litro de hidrogênio líquido, na Europa, custa em torno de 3 euros, para Bill encher o tanque irá desembolsar, no barato, um prêmio acumulado de Mega-Sena para soltar as amarras no Porto de Natal e atracar em algum porto argentino. – Ah, sim, o salário do comandante: Se ele me convidar, faço um desconto e fecho baratinho. – E ele pagaria? – Sei lá, acho que sim, pois acho que Bill faz conta disso não, além do mais, acho que ele ficaria tiririca da vida se um colega de mesa fizesse a mesma sentença que fez o outro do helicóptero.

Quanto ao consumo, sei dizer nada não, porque meu negócio é barco a vela, mas parodiando o amigo da mesa do Cantinho, digo: – Homi, barco bebedor é barco de metido, barco de rico de verdade, consome pouco! Foi assim que certa vez estava com o Avoante no píer da marina de Itaparica/BA, e atracou uma lancha com cinco motores de popa, com 225 Hp cada um, vindo de uma pescaria. Como quem não quer nada cheguei perto e para matar a curiosidade, perguntei ao proprietário: – Essa lancha consome muito? Ele respondeu sem nem olhar para mim: – Sei não, só mando encher e pago! Pegue besta!

Nelson Mattos Filho

Um retrato triste de um lindo vale

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Os que apostam que o Rio Grande do Norte não tem história interessante a ser contada podem jogar mais fichas sobre a mesa e sair contando vitória, porque o que se fez e o que se faz, com fatos, monumentos e personagens históricos, não permite outra leitura. – Duvida? – Pois então bote um par de alpercatas nos pés e saia batendo pernas pelas veredas potiguares e tire a prova dos nove. Se quiser traçar um rumo comece pelo começo, indo até a Praia do Marco, onde foi chantado o Marco de Posse, em 1501. Em seguida vá até o Cabo de São Roque, litoral do munícipio de Barra do Maxaranguape e de lá pegue descendo até se deparar com as grossas paredes do Forte dos Reis Magos, na foz do Rio Potengi, em plena capital potiguar. – E depois? – Depois, se você não ficar entristecido com o que viu, passe em qualquer banca de revista e compre um roteiro turístico de bolso e vá em frente com muita fé, pois se tiver fé de menos você desiste no meio do caminho. Os acostamentos dos caminhos que tentam contar a história das terras de Poti são lastimosos.

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Dia desses fui a praia de Muriú, litoral Norte, e após uma noitada de bons papos e vinhos, na casa de um amigo, pela manhã retornei a Enxu Queimado, porém, em vez de pegar a BR 101 até o município de Touros, seguir para São Miguel do Gostoso e de lá trafegar no arremedo de estrada vicinal até Enxu, decidi seguir pela antiga estrada que liga Muriú a sede do município de Ceará Mirim, pegar a BR 406 até João Câmara, e de lá seguir pela RN 120 até Pedra Grande e daí mais uma vez me indignar nos 11 quilômetros de descaso que é a estrada entre Pedra Grande e Enxu. Aliás, se a estradinha de Enxu recebesse apenas uma lasquinha das verbas públicas que ultimamente vem sendo gasto com festas e shows, se não desse para asfaltar, chegaria bem perto disso.

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Pois bem, voltemos ao Vale do Ceará Mirim. Havia anos que não andava naquela estrada que outrora serviu de único acesso a bela praia de Muriú e que sempre me encantou, devido a beleza dos engenhos e pelo magistral casario que engendrava a cena canavieira em um mundo emoldurado por uma áurea de fascínio e lamentos de uma riqueza histórica que, já naquele tempo, pedia socorro para não ser esquecida em algum recanto do futuro, e foi.

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Dos grandes engenhos praticamente nada restou e a história agoniza em meio ao abandono e escombros fantasmagóricos. Placas enferrujadas indicam a existência de um certo Caminho dos Engenhos, roteiro turístico do Governo do Estado, mas diante do que está posto, duvido muito que ainda exista algum documento da criação ou mesmo que normatize o tal programa. Ora, se o Marco de Touros, o Cabo de São Roque, a Fortaleza dos Reis Magos, pedra fundamental da capital potiguar, estão jogados ao deus dará, imagine uns engenhos de cana de açúcar, símbolos da aristocracia, localizados em um município interiorano de médio porte!

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Com muita justeza e propriedade alguém ira alegar que não foi apenas o Rio Grande do Norte que jogou a história na lata do lixo. Claro que não, porque isso é um mal que sempre se viu em toda parte desse Brasil desvairado e eternamente mergulhado no caos, mas apesar de tudo fiquei feliz, mesmo diante da desilusão, em voltar a trafegar pela velha estrada de Muriú, que pelo estado em que se encontra, parece ter recebido recentemente uma fina camada de lama asfáltica, porém, esqueceram os acostamentos e a sinalização, e indicarei o caminho para todos que queiram saber um pouco mais sobre o esquecido Rio Grande do Norte, um Estado lindo, mas tão cruelmente maltratado e dilacerado pelos seus governantes.

Nelson Mattos Filho