Arquivo do mês: julho 2013

Agradecimentos

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Raimundo, Rui, Lafayete, Wilson, Elson, Antônio, Luiz, Mauriane, Érico, Rosane, Aparecida, Leo, Moacir, Marcia, Hélio, Francisco e tantos outros que não comentaram e preferiram apenas ler em silêncio o texto Apenas uma questão de prioridade, quero agradecer a acolhida as minhas palavras e dizer da alegria que sinto por estar levando a muitos de vocês o testemunho que sonhos de vida não são inalcançáveis e nem envelhecem, apenas permitimos que eles se percam no tempo.    

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Apenas uma questão de prioridade

1 janeiro (2)

Não quero ser pretensioso, mas depois de 8 anos morando a bordo de um veleiro de oceano, acho que tenho um pouco, apenas um pouco, de propriedade para falar sobre essa vida tão cheia de surpresas e incertezas.

Surpresas, porque o mar nos reserva todos os dias momentos únicos de reflexões e aprendizados. Incertezas, porque as reflexões e aprendizados muitas vezes nos colocam diante de rumos cruzados e do grande muro das indagações.

De tudo o que aprendi e vivi, posso dizer que a escolha não é fácil. A começar pelo rol das prioridades e as cobranças dos familiares e amigos que são infindáveis e muitas vezes maltratam a consciência. Mas posso dizer também que hoje sou outra pessoa e mais aberto para os segredos desse mundo tão cheio de verdades infalíveis.

Nas nossas andanças por ai, sempre ouvimos teorias e planejamento minuciosos sobre projetos de pessoas desejosas de morar a bordo, mas raramente escutamos ou vemos o grau de prioridade necessário para a realização do sonho. Tento argumentar sobre minhas observações e mostrar um lado mais simples, original e verdadeiro, mas me recolho diante de teorias tão precisas e sem margens para questionamentos.

Levar essa vida tão alternativa não é preciso malabarismos, enquetes, mágicas, teorias, parcelas de sofrimento, finanças abastadas para comprar todos os desejos e muito menos o último lançamento daquele estaleiro famoso. É preciso sim simplicidade no viver, que é uma coisa que as grandes cidades empurram cada vez mais para as vias marginais.

Hoje, depois de uma noite de chuva e frio, acordei com os pensamentos voltados para o início de nossa vida a bordo do Avoante. Como uma fita em câmera lenta, o filme foi sendo rodado e expondo detalhes já esquecidos. Lá estavam às agruras do mar, os açoites dos ventos, os terríveis enjoos, os momentos de aflição, os questionamentos sem respostas, as alegrias com os objetivos alcançados e a incerteza diante do poder tão descomunal demostrado pela natureza.

Em meio a pensamentos tão melancólicos, enquanto a chuva castigava o mundo lá fora, comprovei até onde vai o nosso comprometimento com o mundo que o Avoante representa para mim e reconheço que não é fácil, mas faria tudo outra vez.

Não é aquele mundo de aventuras como dizem alguns, nem a busca infalível pela perfeição do planejamento, muito menos o enfrentamento de grandes ondas e terríveis tempestades e nem de longe passa pelo desprendimento total dos valores, mas sim aquele mundo perdido, em que amizade, companheirismo, ética, sinceridade, simplicidade, amor e paz são o que são e não o que queremos fazer com que pareçam. Por isso muitos desistem do mar.

Certa vez escutei de um amigo que a esposa dele somente embarcaria numa dessas se conseguisse comprar o veleiro mais confortável. O barco precisaria ter ar condicionado, chuveiro elétrico, suíte e mais um monte de balangandãs que nunca seria muito. Esse amigo não escondia o descontentamento, mas também não dava um passo em prol do sonho. Vivia na eterna amargura reclamando da esposa e ela, se fazendo de forte e levando ao extremo seu embate contra as intenções maledicentes daquela alma sonhadora. Ele não é o único no barco dos descontentes e reféns da falta de prioridade, pois essa é uma tripulação populosa.

Acho que já falei aqui várias vezes que no Avoante não temos geladeira e muito menos o espaço oferecido pelos novos modelos de veleiros, mas isso nunca foi motivo para desistir e nem maldizer a nossa escolha. Temos sim tudo o que precisamos que é o companheirismo, o amor e a paz de espírito que renovamos todos os dias ao acordar.

Ter um veleiro é um sonho alcançável por qualquer pessoa. Não precisa ser um grande veleiro para cruzar os oceanos, mas apenas um veleirinho, para navegadas naquele riozinho ou no lago pertinho de casa já é uma grande conquista para corações aventureiros. Mas fazer que o uso desse veleiro se torne uma prática regular e prazerosa é outra história se isso não for prioridade.

Sei que não é fácil acordar, como num desses dias de muita chuva, sem poder colocar a cabeça para fora do barco, ou se deparar com goteiras sobre estofados, livros e equipamentos eletrônicos, mas basta parar um pouco, respirar fundo e apreciar a beleza dos pingos de chuva caindo sobre o mar para o problema ter outro sentido.

Não é fácil, mas no Avoante temos simplesmente a prioridade de sermos felizes.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A Tempestade – parte 3

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Uma das boas coisas para um dia de chuva e frio é uma boa leitura, por isso vamos a terceira parte de A Tempestade, texto do velejador Michael Gruchalski. 

A TEMPESTADE

A PERDA DO LEME – Parte 3

Eram quase três da tarde quando começamos a fazer os dois furos na fibra dura. Esses deveriam ter, pelo menos, meia polegada de diâmetro cada um. Começamos o trabalho com uma pua manual encontrada no fundo da segunda caixa de ferramentas e algumas brocas. A mais grossa, de apenas um quarto de polegada. Todas, portanto, muito finas, não apropriadas. Além de enferrujadas. Só dispúnhamos daquela pua manual que era de furar madeira. Velha e pequena. A coroa dentada, totalmente desalinhada, travava a todo instante por falta de graxa ou óleo quando se girava a manivela.

Mas, não tinha jeito. Tínhamos que fazer dois furos. Tarefa duríssima na fibra dura. A solução dos nossos problemas passava forçosamente por aqueles dois furos na parte superior do convés, acima do espelho de popa. Um de cada lado, a um palmo da cabeça do eixo da cana de leme.

Era uma tarefa hercúlea: quase como que fazer um furo do tamanho de uma moeda numa chapa de aço de um quarto de polegada utilizando a ponta de uma caneta tinteiro. Ou, impossível como cavar um túnel pela água do mar. A fibra ali, próxima do verdugo de popa, devia ter perto de oito milímetros de espessura. Continuar lendo

IPVA sobre veículos aéreos e aquáticos.

4 abril (142)

Amigos navegadores, é bom começarmos a botar as barbas de molho, abrir as Cartas Náuticas para traçar rotas alinhadas com a razão e  apontar os canhões das nossas naus sobre os sanguessugas. Tramita no Congresso, sob os aplausos de 172 Deputados Federais, entre eles quatro de meu Estado, o Rio Grande do Norte, as PECs 283/2013 e 140/2012 de autoria do Deputado ASSIS CARVALHO – PT/PI, para que seja alterado o inciso III do art. 155 da Constituição Federal determinando que ao IPVA, Imposto sobre Veículos Automotores e Terrestres, seja incluído os veículos aéreos e aquáticos. O assunto já entrou na pauta das discussões da ABVO, Associação Brasileira de Veleiros de Oceano, timoneada pelo Comodoro Lars Grael, e também de outros segmentos do mundo náutico.  

As lições deixadas por Eric Tabarly

imageNesse mês de Julho de 2013 faz 15 anos da morte do velejador francês Eric Tabarly, que caiu do lendário veleiro Pen Duick durante uma manobra de velas. Para lembrar essa data que marcou o povo do mar, o velejador pernambucano Luiz Sergio Gusmão enviou ao blog uma tradução do artigo “Eric Tabarly´s last night alive” escrito por Dan Houston na revista eletrônica Classic Boats, de 9 de Fevereiro de 2013. No final da tradução Luiz Sergio lista dez conclusões que podem tornar mais seguras uma navegada.

 

“Pen Duick deixou Newlyn no final da manhã juntamente com o veleiro Magda IV. Foi acertado um contato por rádio VHF portátil a cada três horas. Prudentemente, o skipper do Magda IV partiu com o velame reduzido, já que ele molha muito em mar agitado. Eric, de acordo com a sua prática, colocou todos os panos disponíveis no Pen Duick: três velas de proa, sua grande de maior área vélica e a topsail. Ele estava com pressa para navegar o barco novamente. Pen Duick passou a extremidade de Land’s End cerca de 13h00ms. Na parte da tarde, o sul refrescou. Eric retirou uma buja e a topsail…”.

Esta foi a primeira vez que Erwan Quéméré navegou no Pen Duick. Ele ficou muito impressionado ao ver Eric, aos 66 anos, trabalhando no final do gurupés, equilibrando-se enquanto calmamente retirava a buja. Claro que não havia cintos de segurança ou linhas da vida; Eric nunca os usou. Certa vez, ele disse que preferia passar uma hora na água do que ser amarrado com um cinto. Continuar lendo

Cercado de amigos no dia do amigo

Deixamos mais uma vez o Avoante solitário nas águas da Bahia e pegamos a estrada para dar um pulo em Natal/RN, mas mesmo sem avisar aos amigos que iriamos chegar na nação potiguar, eles sempre nos descobrem. E como Dona Isolda e Eilson nunca mediram esforços para demostrar o carinho que sentem por nós, trataram logo de convocar a turma para um delicioso café, com direito a tudo que gostamos, inclusive cachorro quente. A tarde foi de boas conversas, risadas, amizades renovadas, saudades abafadas por calorosos abraços e a tradicional abertura dos arquivos para atualização dos assuntos. Foi um fim de tarde dos melhores e quando tivemos que ir embora, saímos com o coração bem apertado, mas tinha outro casal de amigos nos esperando para jantar e brindar a amizade com bons vinhos: Sandra e Venicio, amigos/irmãos que inclusive nos hospedou nessa nossa rápida passagem por Natal. Como é gostoso ter o prazer e a alegria de ter bons e verdadeiros amigos. 

Um crime recorrente e sem controle

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Quando peguei a máquina fotográfica e sai da cabine do Avoante, não era para registrar essas cenas maravilhosas de um fim de tarde na Baía de Todos os Santos, mas não tive como deixar de registrar à tarde que se ia. Na verdade eu queria mesmo era mostrar como no seio de uma metrópole como Salvador, emoldurada por uma paisagem apaixonante, abençoada por um sincretismo religioso dos mais diversos, cantada em verso e prosa por poetas e artistas das melhores cepas, comandada por políticos que se definem como amigos/irmãos do rei, ou da rainha, sei lá, e dona de uma cultura tão rica, consegue admitir nos dias de hoje a predatória pesca com bomba. Não estou falando da prática usual e diária desse crime ambiental nos recônditos esquecidos do mar que banha a Bahia, estou falando do crime, segundo a Lei inafiançável número 9.605/98, que sacode a cidade exterminando a fauna e a flora do fundo do mar. Não consigo acostumar com os estampidos surdos amplificados pela parte submersa do casco de uma embarcação.

pesca-explosiva-300x206 Essa imagem que flagra o crime sendo cometido não é minha, fui buscá-la no site infoescola.com, numa matéria sobre o assunto, mas traduz como tudo acontece: Um pescador despreocupado e sabedor de que todas as ações da fiscalização não resultam em nada, a não ser multa e repreensão, pois ele se define como trabalhador que tem o deve de levar o pão de cada dia a boca dos filhos, e por isso é acobertado pela política do passar a mão sobre a cabeça; E uma dinamite, levando para os ares água e espalhando ao redor carcaças remoídas de peixes, mariscos, moluscos, plantas, corais e de vez em quando uma mão ou um braço de um “pescador”.

5 Maio  (29)

A pesca com bomba continua explodindo o mar da Bahia a qualquer dia e hora, com as autoridades fazendo ouvidos de mercador e promovendo pirotecnia em ações desconexas de repressão com uso de helicóptero e lanchas. Nem a beleza de um pano de fundo com as cores de um Pôr do Sol consegue acalmar a fúria bombástica daqueles que se dizem pescadores. Dizem que essa é uma prática centenária no Brasil, País de Todos, mas em nossa bandeira está escrito: Ordem e Progresso