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O banho

Crenologia-o-estudo-da-água-que-curaUm filminho que viraliza nas redes sociais mostra um rapaz tomando banho com uma garrafa plástica presa as costas e alguns velejadores fazem comentários dizendo, em tom de brincadeira, que seria uma boa solução para ser usada a bordo, como uma forma de economia de água. – Ora, e por que não? Quem já morou a bordo, navegando de praia em praia, ou se aventurou pelos mares do mundo em uma circunavegação sabe o valor que tem alguns pingos de água derramados. No Avoante tínhamos uma garrafinha plástica de um litro e meio, com um furo na tampa, que inúmeras vezes serviu como chuveiro para um refrescante banho de fim de tarde e nada deixava de ser lavado. Pode rir, mas era assim que curtimos imensamente nossa vida a bordo com alegria, descontração, boa vontade e deixando todos os parâmetros da  vida urbana em terra. O reservatório de água do Avoante, um modelo Velamar 33, tem capacidade para 120 litros e nunca nos faltou. Antes que alguém pergunte, respondo que tínhamos bomba para o chuveiro e a torneira da pia da cozinha era com bomba acionada com o pé. – Então para que tomar banho com uma garrafinha? Pois é, né, alguém já lhe falou que para viver um sonho é necessário quebrar parâmetros? Você já ouviu ou leu em algum lugar que a felicidade independe dos confortos urbanos? Você velejador, já percebeu a cara de felicidade do comandante daquele minúsculo veleirinho, de bandeira de um país distante, sem muitos recursos tecnológicos, que ancorou ao seu lado? Pois é, a garrafinha presa nas costa é sim uma excelente e criativa maneira de lavar a cabeleira a bordo, o resto do corpo é lavado com o que sobrar, e se não der, na próxima tentativa trate de economizar.       

Votos renovados com o mar – IV

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Naveguei no mar da Bahia durante boa parte dos meus onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante e acho que tenho o direito de dizer que o mar do Senhor do Bonfim e seu séquito de Orixás é simplesmente fantástico, inebriante e que todos os elementos da natureza conspiram em favor do povo do mar, porém, existe sim um escabroso e indecifrável abandono das autoridades com aquele mundo tão fascinante. Não canso e jamais cansarei de afirmar que não existe no mundo um lugar melhor para navegar e curtir a vida de velejador cruzeirista, do que o mar cantado em verso e prosa por diversos compositores e escritores mundo afora, sem falar nos maiorais Amado e Caymmi. O mar azeitado de dendê, adocicado de cocadas, dourado com a crocância do acarajé e embebecido com o sabor inigualável do jenipapo, tem segredos e enredos infinitos, basta olhar para ele e ter a sensibilidade de pescar um pouco das essências que ali afloram. Escrevendo assim, muitos podem achar que sou mais um baiano bairrista, mas sou não, sou sim um apaixonado papa jerimum que tem o coração e duas belas joias, do melhor quilate, encravados no chão da filha de Oxum Mãe Menininha do Gantois.

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A noite corria alta e eu observava as sombras que dançavam sobre o manhoso Rio Paraguaçu. Das sombras ouvi ecos surdos de penosos lamentos do velho rio, denunciando a descortesia dos homens diante de sua grandeza e importância histórica. Dizem que os velhos reclamam de tudo e de todos, mas dizem também que a mocidade não gosta de ouvir verdades. Ouvindo aquele lamento surdo e quase inaudível, fechei os olhos e sonhei com as canoas de um tempo passado, carregadas de felizes e barulhentos Tupinambás. Como deve ter sido bom aqueles dias de índio de outrora, até o dia em que chegaram uns homens brancos, com vestimentas cravejadas de brilhantes e marcadas com o símbolo de uma cruz que a tudo proibia e condenava, e o que era bom se acabou.

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Dia claro, hora de levantar âncora e aproar o catamarã Tranquilidade para adentrar um pouco mais o Paraguaçu até o povoado de São Tiago do Iguape, uma lindeza de fundeadouro abençoado pela visão de mais uma belíssima igreja matriz debruçada sobre as águas. Jogamos âncora, porém, demoramos pouco, apenas o tempo de respirar o ar daquelas paragens e registrar mais uma vez nossa passagem por São Tiago, lugar que temos os bons amigos, Dona Calú, Seu Jarinho e o pescador Lito. Com a maré de vazante saímos do Paraguaçu para ancorar em Salinas da Margarida, outro fundeadouro bom demais da conta e onde passamos a noite.

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Se aproximava o dia da nossa despedida daquele mar de bondades e mais uma vez retornamos à Praia da Viração, que o comandante Flávio marcou em seu cardeninho de anotações como uma delícia de praia. Lucia, como sempre, preparou um almoço dos deuses e ficamos ali, olhando a paisagem e jogando conversa fora, como se o tempo não existisse, mas ele existe e tínhamos que seguir viagem. Para onde? Que tal ir até o Aratu Iate Clube para saborear aqueles pasteis fora de série? Boa ideia, vamos lá! Bem, os pasteis não degustamos, porque o Wilson estava fazendo manutenção no restaurante, porém, lá nos esperavam o Paulo e o Maurício, para festeja nossa estadia com uma rodada da mais gelada cerveja sob as cores do pôr do sol, que das varandas do Aratu é imbatível.

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Mais uma noite se passou e pela manhã voltamos para o local de nossa partida no Angra dos Veleiros, na Península de Itapagipe, bairro da Ribeira. Com as energias e os votos renovados no mar da Baía de Todos os Santos, festejamos a boa vida que tivemos naqueles sete dias a bordo do Tranquilidade, um modelo BV 43 construído pelo estaleiro maranhense Bate Vento. Como se diz na Bahia: Um barco da porra!

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No dia seguinte levamos o comandante Flávio e Gerana para um tour pela cidade de Salvador. Visitamos o Mercado Modelo, o Pelourinho, a Ponta de Humaitá, o Rio Vermelho, o Mercado do Rio Vermelho e o Farol da Barra. Turistar pela capital baiana é caminhar sobre a história de um Brasil mais encantador impossível. Apresentar aos amigos o mundo que tivemos a alegria de viver por tantos anos e que tantas alegrias nos trouxe, é para nós uma felicidade imensurável.

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Os nossos anfitriões do Tranquilidade voltaram para Natal e nós ficamos mais um dia para ver as duas joias que citei lá em cima. Nelsinho e Amanda, o melhor de toda essa viagem, em dezembro de 2016, foi poder mais uma vez abraçá-los e beijá-los. Que o Senhor do Bonfim sempre os proteja.

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P_20161214_102809“Nessa cidade todo mundo é de Oxum/…Toda essa gente irradia magia/…eu vou navegar, nas ondas do mar, eu vou navegar…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

O enjoo

sup0040Quando me perguntam sobre o que fazer para evitar o enjoo no mar, costumo responder que Lucia tem PHD na causa e por isso acho melhor a pergunta ser feita diretamente a ela, porque nos cinco primeiros anos de nossa vida a bordo do Avoante ela enfrentou o problema corajosamente e apesar de enjoar horrores, nunca desistiu de velejar. Nas nossas primeiras navegadas até a ilha de Fernando de Noronha, participando da Refeno, Lucia só enjoava duas vezes: Uma para ir, outra para voltar. O problema foi sendo contornado, porém, nunca exterminado, e assim vivemos 11 anos e 5 meses a bordo. – E se eu também enjoo? – Claro que sim! Pois bem, tempos atrás li um artigo no site Popa.com.br, assinado pela Dra. Claudia Barth, que até hoje vejo como o mais completo e realista sobre o tema. Sem pedir licença ao Danilo Chagas Ribeiro, copiei e colei aqui. Tomará ser perdoado!

Enjoo não tem cura. Previna-se!

Claudia Barth*

07 Jul 2005
O enjoo marítimo, também conhecido como cinetose, doença do movimento ou náusea do mar é uma situação muito frequente a bordo e acomete até os mais experientes navegadores. É um fenômeno fisiológico, uma reação natural do organismo às variações rápidas e constantes de posição. Caracteriza-se por sintomas como sudorese, palidez, salivação, náuseas, tonturas, cefaleia (dor de cabeça), fadiga e vômitos. Até o momento, não existe tratamento definitivo para este problema.

Causas do Enjoo Marítimo
As variações de posição do corpo, quando navegando, estimulam receptores sensoriais localizados no labirinto vestibular (localiza-se no ouvido interno e dá a noção de movimento linear e angular e de orientação no espaço), nas retinas dos olhos e nos músculos e articulações (sensibilidade proprioceptiva). Estes dados sensoriais misturados são enviados ao cerebelo, tronco cerebral e cérebro, que tentam coordená-los. Estas estruturas procuram fazer os ajustamentos posturais e provocam a sensação de vertigem.

A conexão destes impulsos nervosos com o nervo vago é a responsável pelos sintomas característicos do enjoo marítimo: palidez, sudorese, salivação, náuseas e vômitos.
Descobriu-se que o medo ou a ansiedade podem baixar o limiar para o desenvolvimento destes sintomas. Este limiar também pode aumentar, como, por exemplo, nas situações em que há poucos tripulantes a bordo. Nestes casos, não há tempo para enjoar, mesmo com mar agitado, o que reforça o componente psicológico. Entretanto, alguns indivíduos parecem ser predispostos ao enjoo desde a infância.

Classificação
Podemos classificar os indivíduos que sofrem de enjoo marítimo de acordo com o limiar de sensibilidade:

-Indivíduos altamente suscetíveis ao problema: são os “mareados”. O mareado pede para morrer, fica jogado no chão e, se alguém pisar em cima, ele nem reclama.
Certa vez, numa travessia de Rio Grande a Florianópolis, um tripulante do veleiro Orion II ficou mareado por dois dias consecutivos, sem alívio dos sintomas por um só momento. O infeliz não aguentava mais aquela tortura, pedia para morrer, queria se jogar no mar. O Comandante Egon, vendo a gravidade da situação, não teve dúvidas. Mandou a tripulação amarrá-lo no mastro da mezena, já que ele era grande e forte. Ficou ali por um bom tempo, até se acalmar.

-Indivíduos que apresentam sintomas em condições especiais: são os “nauseados” ou “enjoados”. O nauseado continua trabalhando e em pouco tempo está bom.

-Indivíduos que apresentam sintomas somente em situações extremas: são os “resistentes”.

O Comandante Ferrugem conta uma situação tragicômica em que um tripulante mareado levou um balde para o beliche, para o caso de alguma emergência. Não deu outra, teve de usar o balde. O detalhe é que esse balde não tinha fundo. Era o balde de passar balão, utilizado como se fosse um cano, para colocar os atilhos que prendem o balão.

Como Prevenir o Enjoo:
A prevenção deve ser feita na véspera do passeio:
-Tentar dormir as horas de sono de que o organismo necessita.
-Não fazer uso de bebidas alcoólicas.
-Evitar gorduras, cafeína e excessos alimentares.
-Nunca embarcar de estômago vazio.

O enjoo deve ser prevenido antes do aparecimento dos primeiros sintomas. Quando eles aparecem, pouco pode ser feito. Estes podem ser atenuados com as seguintes “dicas”:
-Evitar o interior do barco (cabine). Permanecer no convés, em local arejado.
-Não deixar a cabeça acompanhar o movimento do barco. Tentar mantê-la fixa, olhando o horizonte ou outro ponto de referência que esteja fixo (objeto na costa, outro barco ao longe, etc.).
-Manter-se preferencialmente na popa do barco e longe do cheiro de combustível. Numa embarcação maior, procurar uma área de menor movimento, geralmente no meio do barco e permanecer no nível mais baixo possível.
-Evitar esforçar-se exageradamente quando estiver navegando. Procurar ocupar-se com atividades leves e conversas de bordo.
-Evitar ler as cartas náuticas ou olhar o GPS.
-Evitar o fumo e manter-se longe de quem está fumando.
-Respirar fundo e lentamente.
-Evitar sentir frio.
-Comer bolachas de água e sal e beber água ou coca-cola.
-Aplicar compressas geladas sobre os olhos e no pescoço.

Medicação Contra Enjoo
A principal ação das drogas usadas na profilaxia e tratamento do enjoo marítimo é, basicamente, a sedação. Elas diminuem a atividade do sistema nervoso central (SNC), agindo diretamente sobre ele, ou diminuindo os impulsos nervosos que chegam até ele.

As drogas de escolha são os anti-histamínicos, sendo o Dramin o mais usado, na forma de comprimidos ou injetável. Normalmente é receitado meia a uma hora antes de entrar no barco e repetido uma hora depois do início da viagem. Seus efeitos colaterais são sonolência, boca seca, e, em alguns casos, alterações visuais (visão turva, diplopia), dentre outros. Seus efeitos variam de indivíduo para indivíduo e duram de seis a oito horas. A sonolência em certos casos pode ser benéfica. Em outros, pode provocar acidentes, pois prejudica a atividade do paciente, tornando sua mente embotada e diminuindo a atividade reflexa.

Atualmente, está sendo comercializada livremente na Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália a meclizina (Meclin), um anti-histamínico que promove menor grau de sonolência porque atua mais especificamente no labirinto, diminuindo sua irritabilidade. Seu efeito dura vinte e quatro horas e tem sido a droga de escolha das grandes companhias de cruzeiros marítimos internacionais.

Outros medicamentos usados contra o enjoo são os anticolinérgicos (escopolamina), a metoclopramida (Plasil) e a ondansetrona (Setronax, Nausedron, Zofran). O uso da escopolamina é pouco frequente atualmente, já a metoclopramida é bastante utilizada. Além de agir diretamente no SNC, ela relaxa o piloro, acelerando o esvaziamento gástrico. Sua dose é de 10 mg de seis em seis horas. A ondansetrona diminui a atividade vagal e também atua a nível de SNC, sendo mais usada no controle dos enjoos provocados pela quimioterapia e pós-operatório. A dose usual é de 4 a 8mg de oito em oito horas. A metoclopramida e a ondansetrona também são usadas na forma injetável.

IMPORTANTE: Todo medicamento possui efeitos colaterais. As informações contidas nas bulas dos medicamentos devem ser lidas com atenção antes da sua administração. Consulte seu médico sobre os medicamentos aqui citados.

Curiosidade:
-Tapar um dos olhos pode ser útil. Antigamente, os piratas usavam este recurso, não por falta de um dos olhos, mas sim para evitar o enjoo.

Conclusão:
Andar de barco, na maioria das vezes, é um grande prazer, mas não para quem enjoa. Apesar de todos os progressos da ciência, ainda não foi encontrado um tratamento verdadeiramente eficaz contra este mal. Prevenir é ainda o melhor remédio. Para quem é altamente suscetível ao problema, aqui vai o conselho do Mestre Geraldo Knippling: “Existe um remédio infalível e 100% eficaz: basta sentar-se embaixo de uma árvore”.

Agradecimentos:
Meus agradecimentos aos Doutores Remo Farina Júnior (Cirurgião Plástico e Professor de Anatomia da Faculdade de Medicina da PUCRS) e José Antônio Trindade (Anestesista) e aos Comandantes Geraldo Knippling, Eduardo Hofmeister “Ferrugem” e Danilo Chagas Ribeiro, que, com suas contribuições, ajudaram na elaboração deste trabalho.
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(*) A Dra. Claudia Barth, cirurgiã plástica, é Capitã Amadora. De família com tradição marinheira, é associada ao Veleiros do Sul, Porto Alegre.

A vida a bordo como tema de novela

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Barcos a vela sempre fizeram parte dos roteiros e cenários de filmes, seriados e novelas mundo afora, despertando sonhos, desejos e paixões. Nos últimos anos a vida a bordo de um veleiro de oceano já foi tema de novelas e seriados brasileiros e em breve mais um personagem, dessa vez ator Reynaldo Gianecchini, trocará a vida urbana para encarnar um herdeiro ricaço que prefere a vida sobre o mar a ter que assumir a administração da fortuna na próxima novela das 9 horas, Lei do Amor, da Rede Globo. A aparição de personagens velejadores nas telas costuma ser desdenhada pelos velejadores reais, que fazem críticas veladas quanto a possíveis erros dos roteiristas, mas esquecendo eles, os críticos, que mesmo com erros, imperceptíveis aos olhos do grande público, um personagem velejador é uma excelente forma de divulgação para a náutica e principalmente o mundo da vela. Todo setor que é agraciado com um personagem vestindo a camisa de sua causa, festeja a oportunidade e muitos aproveitam para mostrar as dificuldades que enfrentam no dia a dia, mas na vela infelizmente não é assim. Por que será?  

Para quem sonha em morar a bordo

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O mundo da engenharia e arquitetura naval não para de se renovar e a cada dia os barcos vão se transformando em uma excelente extensão do mundo urbano. Não duvido que muito em breve veremos barcos que não sofram os efeitos do mar e naveguem sem um mínimo sequer de balanço. Vai ser o Céu para aqueles que se martirizam com os enjoos. Pedrinho, meu amigo lá da praia de Enxu Queimado, litoral norte do Rio Grande do Norte, um dia disse assim: – Veio, se o mar não tivesse ondas existiria engarrafamento. E não é mesmo! Nas páginas virtuais da Revista Náutica me encantei com o projeto futurista desse barco-casa, que pode vir a calhar com os planos de muitos que sonham em morar a bordo de um barco. O projeto do Cruising Home, que oferece duas versões e vários tamanhos, reza na cartilha da inovação e sustentabilidade e tanto pode servir para uso comercial ou moradia. Gostei! 

O catamarã de velocidade – IV

20160423_171355Na literatura náutica existe uma infinidade de tratados sobre enjôo e os motivos que levam a ele. Em meio a rodadas de conversas entre navegadores o tema é tratado com desdém, risos, piadas e tem até quem declare, em alto e bom som, que o problema se deve a frescura ou simplesmente alteração do psicológico. As teorias são muitas e dificilmente se acha um navegador com coragem para admitir que enjoa. Alguns, para se livrar da pecha de fracote, conseguem admitir que logo no começo da vida náutica enjoavam, mas que isso é coisa do passado e ponto final. A conversinha é essa!

Nos meus vinte e poucos anos fui diagnosticado com uma forte e terrível labirintite que me deixou acamado por mais de uma semana. A danada foi tão poderosa que no dia que senti sua presença, às cinco horas da manhã, tentei levantar da cama e cai para trás sentindo o mundo rodar em minha volta. Eu disse sentindo, pois nem abrir os olhos eu pude. Apenas no terceiro dia consegui sair da cama e mesmo assim rastejando para ir ao banheiro e tomar um banho. Foi duro!

Depois de uma semana, o médico que estava me atendendo, em casa, jogou a tolha e indicou para que eu fosse à doutora Joaquina, afirmando que somente ela poderia me curar. Marcamos a consulta, fomos até o consultório da doutora e depois de dez dias os efeitos maléficos da labirintite estavam praticamente curados. Ufa! Como foi bom abrir os olhos e ver que tudo estava paradinho.

No dia em que a doutora me liberou, disse assim: – Nelson, você nunca vai poder passear de barco e nem suportará luzes fortes e incidentes em direção a sua vista, porque são coisas que podem desencadear novas crises. Respondi: – Doutora, sendo assim, uma parte está resolvida, pois nunca tive barco e nem pretendo ter. Quanto às luzes, vou me precaver. Isso aconteceu há mais de trinta anos e Lucia gosta de dizer que eu ainda não estava sob seu poder. Dizer o que? Nada né! Aí você pergunta: – E o que isso tem haver com essa história? Peraí que chego lá!

O Tranquilidade navegava ao largo da costa sergipana e nem sinal de nada, porque passávamos a mais de 20 milhas da costa e, vendo apenas céu e mar, a ordem da tripulação era curtir o azul infinito, as nuvens, o vento no rosto e encher a boca de água com o cheiro delicioso que vinha da cozinha. Claro que não faltaram algumas cervejas gelada para esfriar a goela, mas eu não quero fazer inveja a ninguém.

Logo pela manhã eu havia colocado a linha na água na esperança de surpreender a tripulação com um peixinho, porém, tive que trocar várias vezes de isca artificial e juro que o problema não foi do pretenso pescador, mas sim das próprias iscas, porque todas acabavam enroscadas na linha. A última tentativa foi com um pequeno anzol revestido com uma lula rosa artificial, que até já havia esquecido que tinha lançado ao mar. Já no finalzinho da tarde a carretilha gritou e quando corri para pegar a vara, senti que tinha pegado um peixe um pouquinho maior do que eu estava acostumado.

A segunda providência foi pedir para folgarem as velas do Tranquilidade, para diminuir a velocidade, e iniciar a luta com o peixe. O bicho era pesado, o maior peixe que até então eu já havia pescado, e quando deu um salto vi que era um belo de um dourado. Eu e ele ficamos na peleja por quase trinta minutos e por várias vezes tive que soltar quase toda a linha do carretel, para depois recolher tudo novamente e com muita dificuldade. Quando o dourado cansou – eu também – foi à vez de embarcá-lo, com muita dificuldade e com a ajuda providencial do Myltson.

Quando estiramos o peixe sobre o convés vimos a real dimensão do resultado da pescaria. O dourado tinha mais de metro e pesava por volta de 15 quilos e me perguntei como consegui pescá-lo com um anzol tão pequeno. Ao tentar retirar o anzol notei que o segredo foi à gula do dourado. O bicho foi com tanta sede ao pote que o anzol entrou e enganchou em suas guelras.

Com a adrenalina a mil, devido ao esforço da puxada, e aliado a tentativa quase inglória de retirar o anzol sem me ferir, trabalhando abaixado e com a cabeça baixa, comecei a sentir os sinais do enjôo. Como sempre acontece e para não deixar que ele tome conta do meu eu, meti o dedo na goela, apressei o resultado e continuei tratando o peixe, pois queria provar a delícia do seu sabor o mais breve possível.

Bem, o peixe estava delicioso, eu enjôo sim e agradeço a doutora Joaquina um dia ter me curado de uma labirintite, que se fosse recorrente eu jamais poderia está relatando essa história ocorrida no mar. Aliás, ela disse que eu nunca iria navegar e esqueci-me desse detalhe.

O Tranquilidade segue o rumo e agora com um peixão a bordo.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O catamarã de velocidade – II

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Antes reiniciar essa prosa é preciso dizer por que batizei de “O catamarã de velocidade” essa série de crônicas: O nome é uma referencia ao nosso companheiro de tripulação Myltson Assunção, pois é assim que ele chama o Tranquilidade. Myltson é um regateiro apaixonado, saudosista e em qualquer barco que embarca ele vê velocidade, porém, ver é uma coisa e ter é outra. Claro que o Tranquilidade não é um barco lento, mas também não é um regateiro puro sangue. Ele é sim um catamarã super confortável e navegava maravilhosamente bem em mar aberto. Durante a nossa velejada eu escutei tanto essa expressão que resolvi nominar assim o relato da velejada.

Bem, como tudo foi explicado, vamos continuar nossa labuta com o mar, mas antes de seguir em frente vou lembrar que terminei a página passada comendo paçoca, arroz de leite, feijão verde, batata doce e regando a goela com uma cachacinha da boa.

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Ancorado na praia do Jacaré, lugar na Paraíba onde se festeja o pôr do sol, ao som de um sax, me ative nos sites meteorológicos para destrinchar os segredos do tempo, porque até ali a coisa estava bem esquisita. Dei uma olhada em vários sites e todos prometiam que o mar e o vento seriam os mesmos que havíamos pegado até então. Se é assim, tá bom!

No dia seguinte acordamos cedo, ligamos os motores, novamente abdicamos das velas e pegamos o beco em direção ao oceano. Em frente ao porto de Cabedelo tive a certeza que tudo seria igual ou pior do que tinha sido, porque o vento no raiar do sol já beirava a casa dos 22 nós de velocidade. Ao entrar no canal que leva barra afora, as ondas estouravam na proa e lavavam tudo por cima do barco. Pensei com meus botões: – Vai começar tudo outra vez!

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Para ser sincero: a coisa foi muito pior, porque de Cabedelo até próximo ao través da ilha de Itamaracá navegamos em um mar amalucado, com ondas entre 2,5 e 4 metros de altura e incrivelmente desencontradas. Mas não era um mar em que eu não estivesse acostumado a navegar nessa região, apenas estava esquecido, pois navegar na maciez do mar da Bahia deixa a gente assim meio sei lá. Porém, o BV 43 é um barco valente e tirou de letra os amuos de Netuno, até que o rei dos oceanos resolveu sossegar e nos deixou navegar com um tiquinho de paz até a barra sul da ilha da ciranda de Lia. Resultado, saímos de Cabedelo as cinco da matina e jogamos ancora na Barrinha dos Marcos as 19 horas e 30 minutos. Quatorze horas e meia para vencer pouco mais de 40 milhas entre os dois pontos. Achou muito? Eu também! Mas foi assim e aquele mar estava endiabrado.

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Bem, o ditado diz que depois da tempestade vem à bonança. Quem escreveu essa máxima eu não sei, mas sempre é assim. A Barrinha dos Marcos, no canal de Santa Cruz/PE é um lugar arretado de gostoso e um fundeadouro fantástico. É lá que mora um grande amigo, o navegador, fazendeiro e fazedor de bons amigos Elder Monteiro e sua amada Dulcinha. O casal quando soube que iríamos aportar por ali preparou uma recepção que dificilmente esqueceremos.

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Depois de jogar ancora, numa operação cheia de pra que isso, desembarcamos e embarcamos no possante branco do Elder para ir jantar na fazenda Belo Horizonte, onde Dulcinha esperava com uma mesa farta, como toda mesa de fazenda. O cardápio foi assim: Ensopado de caranguejo na entrada; arroz de pato e galo torrado como prato principal e para a sobremesa foi servido doce de leite de lamber os beiços. Foi uma noitada maravilhosa! Quando o sono começou a pesar sobre os olhos, pegamos a estrada e voltamos ao Tranquilidade que descansava preguiçosamente nas águas históricas do canal de Santa Cruz.

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Na manhã seguinte Elder colocou a lancha na água e foi nos ciceronear pelas belezas da região. Fomos a Coroa do Avião, saborear agulhinhas fritas, camarão e cerveja gelada. Apreciamos a beleza da arquitetura do Forte Orange, avistamos o casario de Vila Velha, onde Duarte Coelho mandou e desmandou, aceleramos a lancha próximo aos manguezais bem preservados da Ilha e desaguamos na praça de alimentação de Igarassu para saborear uma deliciosa e imperdível caldeirada, servida nos pitorescos restaurantes do lugar.

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Voltamos a bordo do Tranquilidade no finzinho da tarde para descansar o sono dos justos e preparar o ambiente de bordo para receber nossos anfitriões nas terras pernambucanas. Lucia preparou costela de porco ao molho agridoce, acompanhada de risoto de jerimum. Claro que vou dizer que o jantar foi delicioso. Mais uma noitada sensacional de bons papos e boas amizades.

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A madrugada foi de chuva fina, vento brando e sonhos. A Barrinha é o lugar!

Nelson Mattos Filho/Velejador