Arquivo do mês: dezembro 2013

Vida, vento e vela

4 abril (24)

“Corra/não pare/ não pense demais/repare essas velas no caís/… a vida é cigana”. Assim cantou o poeta, compositor e violeiro Geraldo Azevedo, prevendo um mar de águas claras para a caravana que seguia entristecida pelas estradas da vida.

Mais um ano fecha as cortinas para entrar para a história dos tempos idos. Se o ano foi bom, ruim, mais ou menos é difícil essa avaliação, pois cada um sabe das linhas escritas em sua história. Para o Avoante foi um ano de muitos caminhos que rascunharam contos e aprendizados nas páginas que cravejam nosso diário.

Houve tristezas, desilusões, maus dizeres, incompreensões, descaminhos, revanchismos, incertezas, mas o outro lado foi bem melhor, pois houve muitas alegrias, muitas conquistas, muito aprendizado, que nos coloca sempre diante de novos horizontes, numa clara demonstração da beleza da vida. “… não pare”.

Nunca deixei de prestar atenção no movimento das velas no caís, apesar de parar para pensar um pouco além da conta, mas também nunca fui de ficar a espera de um sim caído dos céus. A bordo do nosso veleirinho descobri o quanto a vida é cigana e com asas abertas para festejar e acobertar os sonhadores.

As velas representam para mim o mundo mais sincero da vida. O mundo da paz, da comunhão, o mundo do simples, o mundo real, o mundo da espera e do prazer da conquista. O mundo da sabedoria e da obediência aos sinais da natureza. O mundo em que a lógica vence o cansaço e onde o homem é mais racional.

A vela fascina, embriaga, comove e carrega, em panos branquinhos soprados por alísios macios ou tempestades endiabradas, os sonhos sonhados e não vividos. Um poeta cearense um dia se encantou com as velinhas brancas lá do seu Mucuripe e através delas cantou um amor desiludido, mas nem por isso menos amor.

Com seus vinte e poucos anos de amor, o poeta desejou embarcar nas toscas jangadinhas apaixonantes, soprados pelos ventos que alisam o seu Ceará, para afogar suas magoas nas profundezas dos oceanos. Novamente as velas no caís a despertar sonhos e desvendar horizontes.

Não sou poeta, sou apenas um velejador apaixonado pelo mar, pela vida e por uma marinheira que me abre o mundo dos desejos e dos encantos, mas vejo poesia em tudo que tem o mar como pano de fundo. E esse 2013 que agora fecha as cortinas e se despede do real e entra no mundo dos contos de um passado já distante, me trouxe conquistas, segredos e velas ao vento.

Apesar de morar há nove anos a bordo, nunca navegamos tanto como em 2013. Subimos e descemos em todos os sentidos as águas abençoadas pelo Senhor do Bonfim, destrinchando rotas e cruzando rumos.

Recebemos amigos a bordo, fizemos novos, renovamos amizades, revisitamos o passado, reverenciamos dezenas de pôr do sol, brindamos as conquistas, acreditamos mais nas pessoas e apostamos na paz em novo sentido para a vida.

Não foi a bordo do Avoante, mas em um veleirinho tão bom quanto, que cruzamos as barreiras que nos prendia a Baía Camamu e chegamos aos pés do Cristo Redentor lá nas terras cariocas. Vimos novos mares, sentimos os sussurros de novos ventos e tiramos a prova dos nove, sem zerar a conta, diante da natureza e seus amuos.

Entramos de cabeça no mundo desconhecido, mágico e encantado da literatura, onde a vida e os sonhos se desenham entre as páginas de um livro. O Diário do Avoante agora navega por ai sem fronteiras e derramando luzes coloridas nos sonhos adormecidos de muitos leitores. “… a vida é cigana”.

Tivemos sustos com a saúde apenas por se achar infalíveis, porém paramos diante da realidade do corpo. A vida cobra sim bons modos e achei graça diante de um amigo/médico que disse que deveríamos ter uma melhor qualidade de vida. Como? Tento entender e seguir o conselho. “… não pense demais”.

Dois mil e treze se foi e um novo velho mundo se abrirá em nossa proa. Vamos continuar apostando no mar e diante dele abrir o leque de esperanças. Abriremos ao vento nossa alma e embarcaremos cada vez mais amor e alegria em nosso veleirinho, pois é assim que fazem os bons marinheiros.

Poetas, compositores, violeiros, seresteiros, namorados, escritores, sonhadores, marinheiros, descobridores, todos tem o mar como fonte de paixão e uma grande página em branco pronta para receber a sua história de vida e de amor de qualquer um.

Que venha 2014! “… aquela estrela é bela, vida, vento, vela, leva-me, daqui.”

Nelson Mattos Filho/Velejador

Expedição Tranquilidade – V

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No post IV da Expedição Tranquilidade prometi que na postagem seguinte navegaríamos pelas veredas aquáticas que levam a um dos mais belos recantos navegáveis da costa brasileira, mas resolvi dar um bordo para ir até a cidade de Camamu. A imagem que abre essa postagem é da ponta sul da ilha do Goió e que dá uma pequena mostra da beleza reinante naquele santuário natural da costa baiana.

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Poderíamos ter ido a cidade de Camamu a bordo do Tranquilidade, numa navegação pontilhada de waypoints, mas nem por isso terrivelmente complicada. É apenas uma navegação que exige atenção e um pouco de conhecimento em rios e igarapés. O canal de acesso a cidade de Camamu tem sim seus segredos e eu até conheço boa parte deles, mas a prudência sempre fala mais alto e nada melhor do que embarcar em um dos muitos barcos, toque-toque, que fazem a linha, num passeio de interação com os nativos, vivendo suas histórias, escutando seus causos, dando boas gargalhadas e observando a paisagem que passa como em um filme em câmara lenta de um mundo encantado. Foi assim que deixamos o Tranquilidade ancorado entre as ilhas de Sapinho e Goió e embarcamos no barco Camponesa, do amigo boa praça Joaquim. Porém, com um pequeno detalhe: Temos que acordar às 5 horas da manhã, pois a Camponesa passa impreterivelmente às 5 horas e 45 minutos. Quem não estiver pronto e esperando fica!

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Coroas de pedras como essas é que trazem má fama ao canal. Elas foram plantadas há mais de 450 anos, por índios, colonizadores e outros defensores da terra descoberta, para impedir que esquadras de invasores tomassem conta do pedaço. Diz a história, que os barcos invasores ao encalharem sobre os bancos de pedras, eram atacados por flechas, pedras, balas, impropérios e tudo mais que estivesse ao alcance dos defensores. Deve ter sido uma farra das boas! O resultado é que as pedras continuam lá e até hoje não teve uma viva alma com coragem para retirá-las. Ainda bem!

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E o que será que fomos fazer na cidade histórica de Camamu e que já foi considerada uma das joias da coroa? Fomos a feira que acontece aos Sábados e é a maior da região. Enfeitei as imagens acima com muita pimenta e azeite de dendê, pois representam toda a cultura de um povo. O dendê de Camamu tem fama de ser o melhor do mundo e as pimentas ardem como qualquer outra pimenta baiana. É melhor ir com muita parcimônia quando for pedir uma moqueca por aquelas bandas. O negócio não é para brincadeira! E a cidade? Bem, a cidade não é mais essa joia toda, mas merece uma boa visita para podermos observar o quanto nossos administradores públicos estão desnorteados.

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Depois de cinco horas perambulando pela feira e ruas da cidade baixa de Camamu, chegou a hora de retornar. A Camponesa veio carregada e a gente disputando espaço com sacolas e caixas de compras, mas com muita alegria em estar vivenciando aquele momento. Alguns, apesar do barulho do motor, não conseguiram segurar o cansaço e o sono, que bateu pesado diante da malemolência do percurso. Eu preferi, como sempre, vir na parte de cima e aproveitar um pouco mais do bálsamo que exala daquela paisagem maravilhosa.

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Não posso, não nego e não me canso de falar: A Baía de Camamu é mágica e nenhum lugar no mundo consegue ser tão fascinante. Mas, isso é apenas a minha opinião.

O que escrever no Natal?

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“… o que a minha terra tem de mais riqueza é a água”. Essa frase solta surgiu de uma conversa com um dos muitos meninos que nos acompanhava por entre as trilhas que levam a bela cachoeira de Tremembé, lá na mágica e fascinante Baía de Camamu/BA.

Eu estava sentado sobre uma pedra, e como sempre paralisado diante de tanta beleza em meio a uma natureza em estado bruto, quando o menino chegou e puxou conversa. Primeiro ele disse que a minha vida estava entregue a ele e que faria o possível para me proteger em meio às águas que escorriam sobre pedras lisas e traiçoeiras.

Lógico que o objetivo dele e dos outros treze meninos que apareceram do nada do meio da mata e dos inúmeros igarapés, era ser recompensado pelo serviço voluntário. Somos até tentados a dizer que não precisamos de ajuda e a querer fazer cara feia quando eles surgem em nossa frente e já esticando a mão para auxiliar. Num impulso da mente e da nossa instintiva autodefesa, um não quase consegue escapar da boca, mas felizmente, ele para entre os dentes e retorna ao lugar de onde nunca deveria ter saído, pois sem aqueles meninos a nossa vida entre os segredos daquela cachoeira seria um desastre.

O menino ficou ali ao meu lado e numa fração de segundo me contou um pedaço de sua vida e de como chegou até o distrito de Tremembé, um pequeno povoado pertencente ao município de Maraú, que segundo ele quase não tem nada. Falou que adorava o lugar de sua antiga morada, o distrito do Tanque, também em Maraú, e que a mudança se deu pelo motivo que seu avô havia vendido um pequeno sítio.

Falou dos estudos precários, porém, importantes para ele, e para todos os seus amigos, e disse que se eu quisesse me levaria até o seu povoado, onde havia mais duas cachoeiras tão belas quanto aquela. Um pouco mais abaixo, Lucia conversava com outros meninos e prometia que na próxima visita iria até o povoado deles.

Fiquei ali embasbacado olhando a paisagem que escorria entre as pedras, escutando a conversa alegre, prestativa e educada daqueles meninos e tentando fazer um utópico parâmetro entre eles e os seus muitos pares que habitam nossas grandes cidades, entre eles os nossos próprios filhos.

O que teria de diferente naquelas crianças que as deixavam tão à vontade para falar na riqueza das matas e das águas? Por que elas, diante de tantas necessidades impostas pela vida, não estendiam a mão para pedir e sim para ajudar? Por que nenhuma daquelas crianças portava celular ou um brinquedinho eletrônico? Por que nenhuma delas chegou sequer a insinuar valores em troca do serviço de guia?

Olhando aquele mundo cercado da mais pura natureza e envolvido pela presteza daqueles meninos que somente ofereciam ajuda e nada mais, vi o quanto estamos vivendo em uma época ditada pelo avesso.

A Cachoeira de Tremembé que deságua numa piscina de águas negras, cercada de mata, paz e silêncio é um prêmio para todos aqueles que têm a felicidade de conhecê-la. Em sua volta paira uma áurea imaculada que nós humanos não conseguimos alcançar. As crianças que caminham desinibidas sobre suas pedras, parecem pertencer a um tempo mais sincero e seus risos são mais risonhos.

Em meio aquele nada de nada eles sabem de tudo um pouco e reconhecem e agradecem a riqueza que vem com as águas. O menor deles é apelidado sugestivamente de “pesquisa”. Ele falou que é porque tudo que acontece ele é o primeiro a saber. Será? Eita menino danado!

Há dias venho pensando no que poderia escrever para desejar felicidades para o Natal e o 2014 que vem por ai. Olhando para aquelas crianças que se misturavam entre arvores, águas e igarapés, vi que a vida pode sim ser contada de outra maneira e que sonhos, esperanças, conquistas e futuro têm sentidos diversos.

O menino de Tremembé me ensinou um pouco mais sobre a vida enquanto eu olhava a natureza a minha volta. Ele não precisou de muito para ver a riqueza que escorre pelas pedras da cachoeira e nela deposita seu futuro.

Desejo que nesse Natal você pare apenas um pouquinho para olhar o mundo diverso que existe ao seu redor e que pode ser tão belo quanto você acha que é o seu. Desejo também, desde já, um Ano Novo repleto de paz, harmonia e novos horizontes.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A Tempestade – Parte 14

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Novela boa é aquela que a gente assiste um capítulo e fica torcendo que chegue o dia seguinte para assistir o outro. Pelo menos é assim na telinha e acho que é isso que aposta o velejador Michael Gruchalski. A Tempestade chega ao 14º capítulo, cada vez mais carregada de emoção, e parece que os deuses da natureza decidiram dar um refresco aos nossos personagens. Parece!

O vento e a chuva diminuem

Naquele momento, a superfície do mar, com a mudança sofrida em duas horas de vento ascendente, era inacreditável. O mar estava raivoso, espumando e frenético. Impressionava muito mais quando as cristas das ondas eram iluminadas pela luz prata dos clarões dos relâmpagos. Adicionando-se o efeito do reflexo de bilhões de prismas que a precipitação dos pingos de chuva provocava, a visão causava sentimentos desencontrados que iam de encanto e beleza ao terror paralisante.

O que dizer do comportamento do nosso barco, um veleiro de trinta pés, menos de dez metros, no meio daquela confusão? Daquela pancadaria sem igual, promovida pela musculatura de mil gênios do mal? Se veleiros falassem, o que estaria dizendo ele ali, naquela hora? Que tipo de xingamento, quantos “ais” e “uis” teria soltado? Quantas dores pelo casco, ampliadas pela torção das cavernas, pelo esforço do verdugo, pela pressão na enora, pelo estiramento dos membros superiores, os fuzis, esticadores, terminais e timbós. Tudo se contorcendo, trabalhando no limite.

O nosso veleiro tinha quase vinte anos de idade e, com certeza, nunca tinha passado por um aperto tão grande. Lembrei-me do estalo que tinha vindo debaixo do cockpit quando o barco mergulhou de cabeça naquela onda gigantesca havia menos de trinta minutos. Procurei não pensar em nada. Afinal, um estalo é um estalo, nada mais.

O capitão sabia que o vento, soprando do noroeste, estava atingindo nosso barco pela alheta de popa e que estávamos sendo levados para o oceano aberto, para o leste/sudeste, portanto. O motor trabalhava bem, mas perdia metade da sua função por causa da descentralização do leme de fortuna. Quanto mais tempo nós demorássemos em endireitar o leme para que ele atuasse centralizado, pior seria para recuperar a distância perdida em relação à linha da costa. Em uma hora tínhamos percorrido quatro milhas ou mais para fora. Isso era bom sim, por causa da tempestade, mas seria ruim no dia seguinte se, posicionados muito ao sul, tivéssemos que enfrentar uma orça fechada com os previsíveis ventos de leste/nordeste, que dificultariam a aproximação de Aracaju.

É certo que com um leme de fortuna, só mesmo um louco se aproximaria das plataformas com vento e chuva de trinta nós. Por isso, com um leme de fortuna, o correto seria meter a proa, o nariz do barco, rumo para a África. Para fugir de praias, pedras e o desastre certo. Era um dilema. Num primeiro momento, ser levado para onde não se quer ser levado e, sem seguida, ter que ir para onde não se quer ir por uma deficiência técnica incontornável.

Ao primeiro sinal de diminuição da força dos ventos, teríamos que tomar o rumo sudoeste, mais para perto das plataformas cuja distancia era, no início da tempestade, de dezessete milhas. Isso, além de nos aproximar de terra e melhorar o sinal de rádio VHF do tráfego marítimo entre plataformas, facilitaria também encontrar barcos pesqueiros e eventual socorro como reboque.

Fácil de imaginar, difícil de realizar. Continuar lendo

É chuva!!!

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A tarde dessa Sexta-Feira, 20/12, está sendo de muita água sobre Salvador/BA. Chove torrencialmente sobre a capital baiana e raios, relâmpagos e trovões fazem uma verdadeira festa de arromba. A imagem do satélite não promete refresco de cacau e nem acarajé a ninguém para as próximas 24 horas. Muita chuva ainda vai cair pelo Brasil nesse final de semana e o verão começa amanhã.   

Expedição Tranquilidade – IV

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A navegada do Tranquilidade pela Baía de Camamu foi repleta de bons momentos, belas ancoragens e muita alegria. A passagem pelas ilhas de Goió e Sapinho, em que o pequeno canal entre duas se configura numa das mais perfeitas ancoragens daquelas paragens, se deu em duas oportunidades. O local é realmente indescritível, mas está necessitando de mais atenção do poder público.

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O velho píer público onde outrora havia um pequeno pórtico dando boas vindas aos visitantes, com a frase: Sejam Bem Vindos a Ilha do Sapinho, não serve a mais ninguém, pois está em completo estado de penúria e abandono.

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Da bela e velha passarela, onde podíamos sentar em seus bancos de madeira para apreciar a paisagem e o pôr do sol, e que fazia a ligação entre o Sapinho 1 e Sapinho 2, restou apenas um monumento em homenagem a vergonhosa indiferença dos governantes municipais com a coisa pública e seus eleitores. Não queria ter que mostrar imagens como essas capturadas de um lugar tão fascinante como a Baía de Camamu, mas não poderia deixar passar em branco esses crimes de gestão pública. 

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Mas vamos seguir em frente e navegando por entre os mangues que margeiam o monumental Rio Maraú, pois a natureza não costuma desmanchar os prazeres dos homens, a não ser quando é agredida. Nosso destino no próximo post será um dos lugares mais exóticos e encantados e que fazem do litoral brasileiro uma das grandes maravilhas do mundo.

Bombeiros controlam o fogo no navio Golden Miller

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Acabou a operação de rescaldo do navio Golden Miller que explodiu enquanto estava atracado ao Porto de Aratu, no começo da semana, e que comentamos aqui, pelo menos foi o que vimos na manhã de hoje, 19/12. O acidente espalhou uma grande quantidade de produtos químicos e diesel nas águas da Baía de Todos os Santos. Barreiras de proteção foram instaladas em torno do navio e nas imediações da Ilha de Maré e equipes de limpeza vasculham a área atingida.