Arquivo do mês: julho 2015

Meu pôr do sol no Diário do Avoante

Dorival Oktopus (2)Haroldo Quadroshellayne santiago (2)Henrique Lage - veleiro Amanhã II (1)Jovito Melo

O concurso fotográfico Meu Pôr do Sol no Diário do Avoante já faz parte do tempo, mas as fotos dos participantes estão muito bem guardadas em meus arquivos e não me canso de admirar a beleza criativa dos nossos fotógrafos amadores. Claro que aqueles dotados de excepcional poder fotográfico hão de questionar a qualidade das imagens e apontar defeitos onde o mais simples dos mortais enxergam apenas beleza, porque o mundo é assim mesmo cheio de desavenças. Hoje trago até você mais cinco retratos que concorreram aos brindes e a fama desse blog. Parabéns para Dorival, Haroldo, Hellayne, Henrique e Jovito, que mesmo não se saindo vencedores, captaram belas imagens.  

Anúncios

Ilha da Reunião

reuniao

A Ilha da Reunião é um pontinho no globo terrestre e que serve de rota de encontro para a grande maioria dos velejadores cruzeiristas que se aventuram numa tão sonhada volta ao mundo. Nos tempos idos era para lá que também se dirigiam navegadores e marinheiros europeus, árabes, polinésios e outros apaixonados pelo mar. Porém, seu nome não veio daí e sim em referencia a Assembléia dos Estados Gerais, que deu início a Revolução Francesa. Em 1644 a França passou a gritar para o mundo que a ilha era sua por vontade e direito, mas foi apenas 120 anos depois, que os franceses passaram definitivamente a dar as ordens por lá e para isso, mandaram ver nas atrocidades contra os nativos. Mas, nós humanos, somos assim mesmo e sempre achamos que podemos mandar em tudo e fazer valer a nossa vontade, e para tal, não nos fazemos de rogado. Os incomodados que saiam de baixo ou se mudem. Reunião, cuja capital é Saint-Denis, é uma possessão francesa no Oceano Indico, com 2.510 quilômetros quadrados de área cercado por 210 quilômetros de praias. Quem já foi até lá sai falando maravilhas de suas belezas o que não duvido nem um pouco.

2015-07-30t112207z_10069400

A Ilha da Reunião recentemente emergiu no noticiário global devido a uns destroços que foram dar em suas areias e que as autoridades julgam como sendo do Boeing 777, da Malaysia Airlines, desaparecido no Oceano Índico em março de 2014. Reunião fica a mais de 4 mil quilômetros de distância da provável queda do Boeing, mas o mar tem seus segredos e dificilmente fica com coisas que não lhe pertence. Fontes: Globo.com; Wikipédia; Rendezvousfrance.

Lua, oh lua…

IMG-20150731-WA0001Poetas, caretas, seresteiros, namorados, lobisomens, crédulos, incrédulos, bruxas, fadas, lobos, apaixonados e até aqueles que tentam demonstrar desinteresse diante das magias da natureza, estarão de olho vidrados na grande feiticeira dos mistérios do nosso planetinha perdido no espaço infinito do universo. Hoje, 31 de julho, Sexta-Feira, é dia da Lua Azul, fenômeno descrito pelos homens das ciências como sendo a segunda Lua durante o mesmo mês – a primeira foi dia 02/07. Mas ninguém se frustre ao olhar hoje para a Lua e não vê-la com um tom bem azulado, porque a expressão Lua Azul surgiu em 1946, quando um astrônomo pitaqueiro publicou um artigo numa revista americana em que afirmava que a segunda Lua do mês recebia esse nome. Palavra de pitaqueiro é uma peste para pegar como verdade! A Lua Azul não é um evento astronômico, mas sim uma falta de sincronia entre os desejos de grandeza do homem e as leis que regem a natureza – a grande mãe da razão. As fases da Lua duram 29,5 dias e o calendário gregoriano varia entre 30 e 31 dias, com o revolucionário mês de fevereiro fugindo da regra. Quem não conseguir ver a Lua Azul nessa sexta-feira, terá que esperar até o dia 31 de janeiro de 2018. Portanto: Bata os tambores, se apegue com seu santo protetor e torça para que São Pedro não resolva abrir as torneiras do Céu. Já ia esquecendo: Não esqueça de estar bem juntinho do seu amor. “… Lua, oh lua/Querem te passar pra traz/Lua, oh lua/Querem te roubar a paz…”  

 

XXXVIII Regata Brancaccio

imageO clube Angra dos Veleiros confirmou para dia 08 de Agosto a realização da XXXVIII Regata Brancaccio. A Brancaccio, como é conhecida no meio náutico da Bahia, é uma das mais tradicionais regatas do circuito baiano de vela e é uma homenagem ao fundador e primeiro comodoro do Angra do Veleiros, Edson Battle Brancaccio. As inscrições podem ser feitas em qualquer clube náutico de Salvador, até um dia antes da prova, ou na secretaria do Angra com a Sra. Ana.  

O cesto é do ca…..

inauguração museu das naus (49)

A imagem que abre esse post é da réplica de uma Caravela da época dos grandes descobrimentos e que estava exposta no Museu das Naus, um projeto belíssimo do arquiteto João Mauricio Fernandes de Miranda, inaugurado, em 2012, com todas as pompas nas dependências do Iate Clube do Natal. Infelizmente o Museu das Naus, que falei sobre isso AQUI, entrou para o arquivo morto do já teve” e hoje é apenas uma vaga lembrança na cabeça dos saudosistas. Será que mandaram para o cesto? Bem, vamos em frente, porque não é sobre o Museu que eu quero falar e sim sobre um cesto que existia no alto dos mastros das Naus e Caravelas e que tem um nomezinho esquisito, mas que não é fácil saber onde se localiza a fronteira entre a lenda e a verdade.

imageDizem que o cesto, assinalado na imagem, era conhecida como casa do caralho, mas segundo as informações que andei pesquisando nos mares temperamentais da internet, não existe referência a esse termo e sim cesto da gávea. O cesto era o local na embarcação onde ficava o olheiro que identificaria terra, barcos, perigos isolados e com certeza não era lugar desejado por nenhum marinheiro. Talvez  chamar o lugar de caralho tenha vindo justamente daí, pois o cara estava dando nó cego a bordo e o comandante gritava: – Joaquim, vá a casa do caralho! E lá ia Joaquim cumprir seu castigo. Ainda bem que nos veleiros modernos não existe o tal cesto, pois se existisse iria faltar espaço.

O Mara Hope e o mar do Mucuripe

IMG_0177

Quem chegava pela primeira vez a cidade de Fortaleza/CE navegando e aproava o Hotel Marina Park, onde se localiza a marina, ficava intrigado com a carcaça enferrujada de um navio sobre um enorme banco de areia, mas não tinha como o navegante fugir daquela visão fantasmagórica, porque o navio serve de excelente balizamento para a entrada da marina, além de que, pontua com exatidão o banco de areia. O casco, ou o que sobrou dele, é do navio Mara Hope, um gigante petroleiro que em 1985 escolheu as terras de Iracema, a virgem dos lábios de mel, para seu descanso eterno. A história do petroleiro é bem carregada e nos leva a navegar pelos manuais das superstições que habitam os oceanos e o coração de velhos e novos marinheiros. Construído em 1967 na Espanha, foi batizado inicialmente como Juan de Austria. Em 1979 foi rebatizado como Asian Glory e somente em 1983 passou a se chamar Mara Hope. E foi justamente em 1983 que o gigante dos mares pegou fogo quando estava ancorado em Port Neches, Texas, e como consequência, os moradores das imediações do porte tiveram que ser evacuados, porque corria risco de explosão. Eh! Existe uma velha superstição marinheira que não se muda nome de uma embarcação. Será verdade? E como danado o navio veio parar no Ceará? Vamos lá: Em 1985 o chamuscado petroleiro estava sendo rebocado para o desmanche numa praia qualquer asiática, quando o rebocador Sucess II – contratado para a operação – sofreu avarias na costa do Brasil e foi dar no litoral do Ceará. Sem sucesso na empreitada o Sucess II foi encaminhado para o estaleiro e o Mara Hope ficou ancorado ao largo, quando uma forte tempestade rompeu suas amarras e o navio derivou para cima do banco de areia, que ficava em frente ao estaleiro onde estava o rebocador avariado, e de lá não saiu mais.  

image

Isso foi há trinta anos e de lá para cá, o casco faz a vez de ponto turístico na capital alencarina e diariamente várias empresas oferecem passeios até próximo ao naufrágio e grupos de mergulhadores fazem a festa em meio aos corais que se formaram sobre as ferragens submersas. Na semana passada um grupo de artistas fez um mutirão para colorir as ferragens do que restou do navio, criando uma nova cena para o turismo local. Se ficou bonito eu não sei, pois não vi as fotos da obra terminada, mas achei uma ideia muito criativa e que serve de inspiração para outras embarcações que estejam nas mesmas condições. Agora fica aqui um aviso aos navegantes: O Mara Hope não é mais um pedaço de navio enferrujado e fiquem atento ao colorido. Fontes: G1 Ceará; blog Mar do Ceará; Wikipedia

O grande mar – III

IMG_0075

A primeira vez que desejamos navegar até São Tiago do Iguape foi em 2009, mas naquele ano as chuvas, os ventos e o frio nos fizeram retornar de São Francisco do Paraguaçu, cinco milhas náuticas antes, e deixamos a oportunidade passar adiante, porém, o desejo nunca passou.

No começo de 2015 o amigo e velejador baiano Haroldo Quadros falou assim: – Nelson, você escreve maravilhas sobre a Baía de Todos os Santos, mais até do que muitos baianos. Você precisa escrever sobre a Baía do Iguape e todas as cidades banhadas por ela, pois ali está a verdadeira história da Bahia. Confesso que fiquei lisonjeado com as palavras do amigo, mas fiquei corado quando ele me colocou acima de “muitos baianos”. Deve ter sido piada!

Ele me fez retornar até 2009, o desejo aflorou novamente e dessa vez, com força total. Vou a Iguape, faça sol ou faça chuva!

Com as fogueiras sendo armadas em frente às casas nas ruas da Ribeira, soltamos as amarras que prendiam o Avoante ao píer do Angra dos Veleiros e debaixo de uma chuva forte subi as velas e aproei a Ilha de Itaparica, onde comemoramos o São João. De lá, tomamos o rumo de Salinas da Margarida para festejar o outro santo junino, o poderoso São Pedro. Os dois santos forrozeiros mandaram ver nas chuvas e estas castigaram Salvador e as cidades do Recôncavo Baiano durante todo o período festivo. Entre uma chuva e outra fomos ficando em Salinas, curtindo a velha e boa preguiça que sempre bate na gente nos dias de chuva e frio.

Numa manhã nublada, quando já descambava para seis dias de ancoragem em Salinas, suspendi a âncora, icei as velas e aproei a foz do Paraguaçu. Pronto, estava novamente no rumo de Iguape e onde os amigos diziam ter camarão em banda de lata.

A ideia inicial era ancorar em algum lugar ao longo do rio, mas a velejada estava tão boa, com o Avoante navegando na estonteante velocidade de média de 2 nós, que as ideias foram mudando, os locais planejados foram ficando para trás e quando o sol se preparou para ir embora, numa curva do rio, surgiu as torres da Igreja e logo estávamos jogando âncora em frente ao povoado, com a noite tomando forma em meio ao lusco-fusco. Foi uma noite tranquila e de belos sonhos.

Quando o dia amanheceu e botei a cabeça para fora do barco, me deparei com a canoa Carolina de onde o pescador gritava: – Gringo, camarão? Olhei para os lados e como não havia outro barco na ancoragem, deduzi que o gringo era eu mesmo. – Quero, pode chegar!

Foi ai que conheci Seu Lito, um pescador boa praça e que nos adotou como amigos logo de cara. Compramos o camarão, mas como não tínhamos gelo, ele se ofereceu para levar para sua casa e guardar no freezer. Beleza! Ele ensinou o endereço e combinamos que pegaríamos no dia seguinte.

Como a maré estava baixa, esperamos ela subir para poder desembarcar. Como assim? O desembarque é o ponto franco em Iguape e em todas as cidades que margeiam o Paraguaçu, porque a lama espessa que se deposita no fundo torna o desembarque um tremendo desconforto.

IMG_0045 

Infelizmente a visão dos administradores não permite que eles enxerguem o apoio a navegação como um bem maior para incentivar o turismo e o desenvolvimento das cidades. No passado existia sim um píer para embarque e desembarque, mas o que restou dele virou escombros abandonados que enfeiam a paisagem.

A maré subiu e desembarcamos. Precisávamos comprar gás de cozinha e água mineral, o que foi resolvido na primeira mercearia em que Lucia parou e bem próximo ao porto. Em seguida saímos em busca de Dona Calú e Seu Jarinho, proprietários de um pequeno comércio de bar e mercearia. Eles foram recomendados por alguns velejadores baianos que outrora estiveram por lá. Seu Lito nos informou que há muitos anos não ancora por ali veleiros com bandeira brasileira e por isso ele achou que éramos gringos.

IMG_0019

Como Dona Calu e Seu Jarinho são mais conhecidos no povoado do que farinha, não foi difícil achá-los. Do primeiro interlocutor já recebemos as coordenadas: – No primeiro pé de amendoeira que encontrarem na praça a mercearia deles é na frente. E era mesmo! O casal é uma simpatia e logo que fizemos as apresentações viramos amigos de longas datas. Eita povo bom!

IMG_0052

É esse carinho espontâneo e a simplicidade que me encanta.

Nelson Mattos Filho/Velejador