Arquivo do mês: março 2018

Cartas de Enxu 22

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Enxu Queimado/RN, 30 de março de 2018

Tia, tenho sim saudades do mar, mas aprendi com ele que nem sempre podemos navegá-lo e aprendi muito mais, aprendi que o recolhimento das velas e os bordos, muitos deles negativos, é a melhor maneira de seguir em frente em busca dos infinitos horizontes onde moram os sonhos. Vivi o sonho do mar onde pouquíssimos vivem, mas não me julgo melhor, nem pior, do que ninguém, apenas tenho a alegria de ter ao meu lado a pessoa que luta a cada segundo para me ver feliz e para ela, sonho se busca e se vive, por isso nunca pesou ou mediu regras para realizarmos juntos. Se existem coisas que devemos deixar para trás, deixemos sem medo. Se existem barreiras a ultrapassar, ultrapassemos. Se existem pontos negativos, transformemos em positivos. Se existe a alegria, sejamos alegres. Se existe a tristeza, faremos tudo para transformá-la em felicidade. Se existe a saudade, curtamos a saudade, porque ela é como o tempero das panelas da casa de mãe: Será maravilhosamente lembrado até o fim dos nossos dias.

Tenho saudade do mar, mas o mar está bem ali, bem diante dessa cabaninha de praia que me serve de abrigo e basta levantar a vista para render-lhe homenagens e respeito. Sempre respeitei o mar e depois que ele me acolheu tão bem, durante onze maravilhosos anos, jamais deixarei de reverenciá-lo. Por isso essa saudade desvairada que as vezes bate atravessada, porém, apaziguadora dos sentidos e que acalma a razão.

Minha tia, e por falar em saudade, estou com saudade daquela prainha que conheci há 29 anos, encravada entre dunas e matas da caatinga, mas eram tempos dourados de um Rio Grande do Norte inocente onde tudo era mágico e a vida era bem mais amena. Olhando preguiçosamente, enquanto deitado na rede macia estirada na varanda, ainda consigo respirar a paz e a tranquilidade reinante entre os coqueirais, porém, ao longe já escuto os tambores de uma guerra sem sentido, sem freio e sem lógica. Uma guerra desumana e sem comando. Uma guerra onde os exércitos do bem estão reféns do caos e fogem acovardados pelo medo. Uma guerra que se aproxima perigosamente desse pequeno pedaço do paraíso, que de tão pacato se tornará prisioneiro sem ao mínimo esboçar reação.

Naqueles anos noventa, Enxu Queimado era uma alegre colônia de pescadores onde todos se conheciam pelo nome e suas ruas e becos eram forradas de uma fria e gostoso camada de areia branquinha. Quatro ou cinco ruas formavam o traçado da vila e os chiqueiros dos porcos delimitavam a fronteira Norte. Hoje não, hoje as fronteiras são demarcadas pelos totens dos geradores de energia eólica, as ruas vivem um frenético e perigoso tráfego de veículos e o pulsar do progresso ameaça explodir a todo custo, sem ao menos ter dado aviso prévio, e se deu, não se fez ouvir.

Tia, Enxu vive hoje entre a cruz e a espada e sem identidade. Vive como diz o poeta, “sem lenço e sem documento”. Os antigos ainda apostam na pesca, mesmo sem os resultados do passado, e os novos vislumbram um emprego que lhes dê ares mais tranquilos e a certeza do salário no final do mês. O parque eólico da Serveng veio a calhar para a geração mais nova, porém, é um emprego com dias contados e tudo que é contado, um dia chega ao fim e a consequência é a insegurança e o mal-estar coletivo. Enxu Queimado está assim, vivendo eternamente de um progresso que nunca chega e festejando as promessas que nunca são pagas.

E por falar em promessa, prometeram de novo a construção da estrada asfaltada ligando Enxu a sede do município, isso depois de um protesto dos moradores, que resolveram fechar o acesso com pedras e pneus queimados. O moído foi grande e rendeu um bocado de teima entre os defensores de uns e os acusadores de outros. Teve visita “técnica”, pose para fotos, apertos de mãos, tapinha nas costas e no final, ficou tudo para quando Deus der bom tempo e todos saíram satisfeitos e com fé no coração.

Mas Tia Cecília, o mês de março por aqui começou agitado com um swell sacudindo o mar e trazendo novidade e preocupação aos moradores. O bicho foi pesado e foi dito nas folhas de notícias que o tal fenômeno foi um dos mais poderosos dos últimos 20 anos. Aliás, o swell endiabrado sacudiu o litoral do Nordeste de cabo a rabo e ainda sobrou umas lapadas em quem não pensava levar. Juro que nunca vi o mar de Enxu tão brabo. Registrei em retratos boa parte do fenômeno e guardo na memória passagens engraçadas, inclusive frases, para contar depois nas rodas de bate papos.

Maria Cecília Lopes Mattos, minha querida Tia Cecília, minha segunda Mãe e dona de boa parcela do meu coração, esta cartinha cheia de saudades e reminiscências é para contar um pouco do pouco do que vivo nessa vilazinha de pescadores tão aconchegante e feliz. Desculpe por algumas palavras mais carregadas de ressentimentos, mas faz parte do que vi e ouvi.

E quer saber? Tomara que o progresso adormeça um pouco mais e deixe a estrada aprisionada no sonho, porque assim, a paz e a tranquilidade continuarão a reinar por longos anos nesse paraíso praia.

Nelson Mattos Filho

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Reminicências

2 Fevereiro (191)

O que falar nesses primeiros dias de um outono que se apresenta com um horizonte tão enuviado? – Sei lá, vou ajuntar as letras e antes de colocar o ponto final, passarei a vista para ver no que deu.

O outono abaixo da linha do Equador é uma estação interessante e sempre gostei de vivenciar durante a longa temporada em que morei a bordo de um veleiro. O céu se apresenta com uma roupagem cinza enigmática, o mar adquire feições apaixonantes e os ventos bailam ao compasso de um velho e gostoso blue. É nessa época, algumas horas para lá, outras para cá, a depender dos volteios planetários do astro-rei, que os doutores e os adeptos das coisas da astronomia, festejam e discorrem loas sobre o equinócio, que acontece duas vezes por ano – uma em março, outra em setembro – que em breves palavras, é o período em que os dois hemisférios da Terra estão igualmente iluminados pelo Sol e assim os dias e as noites duram tempos iguais. – Só isso? – Não, tem mais tempero nesse angu orbital, mas conto apenas os contos que sei, pois dos pormenores, os entendidos se encarregam de destrinchar!

E o dia de São José, que é santo esperançoso, passou praticamente sem um molhadinho sequer pelos terreiros nordestinos. Teve missas, rezas, foguetórios, promessas prometidas, promessas pagas e mais alguns folguedos animando praças e átrios das igrejas, mas o Santo se fez de rogado e seu dia passou em brancas nuvens. Porém, sertanejo é cabra forte, quando reza, reza pra valer e quando acredita, acredita acreditando e botando fé. A chuva está prometida, só não sei se hoje ou amanhã, mas que ela vem, vem. E tomara que venha logo, pois os barreiros estão secando ligeiro e os açudes nem pegaram água. Agora, saindo dos caminhos da fé e entrando na variante da ciência, pelas imagens transmitidas pelos satélites, a chuvarada está tomando forma. Que venha!

Seu menino, e o tal apagão da quarta-feira, 21? Precisa dizer alguma coisa, ou tudo já foi dito e desdito? Mas já que todo mundo deu um pitaco, vou dar o meu também: Acho que a causa foi falta de peia no lombo de quem precisa levar e nada mais. Pense num desmazelo destrambelhado! Num tem um filho de Deus, na seara das “autoridades”, para falar coisa com coisa ou coisa que se aproveite. É um tal de não sei, não fui, não sabia, não vi, que chega dá um reboliço nos miolos da gente e não tem paciência que fique quieta. Mal ligaram as luzes da quarta-feira, apagou-se novamente na quinta-feira, na “casa do céu”. – Casa do céu? – Sim, homem, aquele tribunal do planalto onde os pares se acham deuses, fazem beicinho um para o outro, enchem a carteira como se fossem xeiques das arábias e se arvoram a botar “ordem” até em jogo de biloca. Nem que eu quisesse entraria no mérito da questão não decidida, ou decidida, sei lá, pois o juízo ainda me resta um tiquinho e danado é quem quer emendar os bigodes com entrincheirados de plantão, mas o que houve por baixo das vestes da moça que segura a balança, só os mosquitos é quem sabem. Eita Brasil cheio de munganga e ainda sobra uma ruma de mungangueiro para tocar fogo no circo!

E as novidades não param de chegar e pelo zapzap a coisa se espalha mais ligeiro que fogo em palheiro, mas se tirar os nove fora não sobra nada, a não ser a parte sexo-educativa e as piadas. Eita ruma de caboco pra gostar de sacanagem! Tem aparelho de celular que o dono já mandou trocar umas três telinhas, pois o vidro gasta de tanto ele passar o dedo para cima e para baixo. Dizem que o primo, da prima do primo de uma amiga distante, gastou a impressão digital de tanto passar o dedo na tela do celular.

E a Semana Santa já vem despontando por aí e com ela as velhas notícias sobre o preço do peixe, a falta do mesmo e as enfadonhas entrevistas com os fiscais sobre as normas de comercialização. Como se o beabá desse jeito nos balaios! Qualquer dia vão inventar que peixe tem que ser vendido sem catinga e ai daquele que se abestalhar a vender! – Duvida? – Pois num duvide não, que nesse mundo tudo pode e quando é para arrancar dinheiro do contribuinte, a lei surge que nem faísca.

– E o Rio em? – Rapaz, só não digo que está igualmente a casa de mãe joana, porque na tal casa todo mundo manda e no Rio de Janeiro ninguém manda em nada. Nem a soldadesca verde oliva escapa e nem sei onde diabo os quatro estrelas estavam com a cabeça de se meter naquele fuzuê. Tome tento general e bata em retirada enquanto é tempo. Aliás, será que nos quarteis já escutaram Fernando Abreu cantando assim: …O Rio é uma cidade/De cidades misturadas/O Rio é uma cidade/De cidades camufladas/Com governos misturados/Camuflados, paralelos/Sorrateiros/Ocultando comandos…

Eh, acho que chove sim!

Nelson Mattos Filho

Um dedinho de prosa

mapservOh, chuva, por que você se faz de tão difícil para os lados do Nordeste? Assim que cessaram os tambores do baticum carnavalesco, as chuvas entoaram o canto de alegria, trouxeram esperanças ao sertanejo e fizeram ecoar o canto do Acauã pelos recantos da terra em brasa, mas amornou. Diz a lenda, hoje esquecida pela modernidade, que quando o Acauã canta em árvore seca, o ano será de seca, se cantar em árvore com folhas, é sinal de ano invernoso. Não sei em qual árvore, seca ou com folhas, o pequeno falcão cantou primeiro, mas acho que ele soltou o gogó um pouquinho ali outro acolá, pois o inverno prometido, por enquanto ainda é promessa a ser paga. Tem chovido, sim senhor, mas não ainda para fazer transbordar barreiros e tirar os açudes de um tal volume morto. Já tem muito milho plantado, como tem também feijão. Tem capim bem crescido e boi lambendo os beiços. Tem festejos, cachaça e tem prosa nos alpendres, mas entre um sim e um não, um talvez e um será, tem olhar voltado por cima dos montes de serra, de onde nascem os torreões. – Cadê a chuva, meu compadre? – Hoje chove não senhor! – E o roçado? – Tá precisando molhar, mas se avexe não que ainda tem muita água para cair! – Escute o Acauã cantando! – Eita bichinho abençoado! O retrato que chegou do satélite do CPTEC/INPE indica que chuva no Nordeste, por enquanto, é um tiquinho em cada canto e tem recanto que nem isso. Entre o Sul e Sudeste, terras que chove que só vendo, o inverno tá se encaminhado e metendo até medo. Entrando pelo miolo do Centro-Oeste, a coisa vai assim sei lá. Lá nas florestas do Norte, começando pelas terras do Piauí, o molhado tá bonito e assim vai sendo. – E pras bandas do mar? – Seu Netuno sinaliza que vai assossegar o facho, mas também faz dias que o homem tá apoquentado! – Vamos ver, vamos ver! E como se diz por aí: “Amanhã é outro dia e dos desejos de Deus só quem sabe é Ele”     

O dente furado, ou seria furtado?

xdente.jpg.pagespeed.ic.AVRqZ3QUfhNão sou bairrista, nacionalista ou qualquer outro apelido que queiram imputar, se bem que, não tenho nada contra os adjetivos e acho legal quem defende tais bandeiras com unhas e dentes. Pesquisadores australianos anunciam que um dente de Megalodonte, tubarão pré-histórico que viveu nas águas do nosso planetinha azul há mais de 2,5 milhões de anos, foi furtado de um local “secreto” de um sítio do Patrimônio Mundial da Austrália. O “peixinho” que podia chegar a mais de 18 metros, tinha o dente de 8 centímetros de comprimento e este estava entocado sob pedras em um local isolado e sem acesso de visitantes. O achado é valioso e nessa altura do campeonato, já deve está enfeitando, ou servindo de troféu, a prateleira de algum colecionador. Se o caso fosse nas terras das palmeiras, o moído das manchetes ia ser grande, sobraria sopapo para todos os lados, teria algum figurão envolvido, ONGs e sindicatos fariam passeatas, ônibus seriam queimados, hashtag e era bem capaz de ser lançada a operação “dente podre”. Passando os efeitos do fogo na palha, tudo voltaria a normalidade. – Sim, e o que danado tem haver uma coisa com a outra? – Sei lá!       

De olho na chuva

br2O gráfico do CPTEC/INPE mostra que a semana começa com tempo fechado e pancadas de chuvas fortes em grande parte o Brasil e o mar, promete ir de almirante a mar-e-guerra, no decorrer da semana, com ondas que podem alcançar os 3 metros de altura. Nessa minha Enxu Queimado, mais bela, já estamos a uma semana sem uma chuvarada boa, para lavar a alma e adoçar o milho. Tá bom de São Pedro tomar ciência e mandar regular as torneiras!  

O homem do mar é forjado no medo

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Com esse texto assim meio rebelde, meio sem causa e temperado com leves pitadas de pimenta ardida, traço a rota da pasta de escritos Do mundo do mar, que se junta a outras em que guardo as impressões sobre o cotidiano. Vida a Bordo, Vida de Praieiro, Cartas de Enxu, Textos Diversos, Cotidiano, Lembranças, são arquivos desconexos dos meus momentos de maluquice. – Mas esse tal de Mundo do Mar não se encaixaria em alguma página existente? – Sei lá, acho que sim, mas vai assim mesmo, viu!

A semana, que se encerra neste sábado, 10/03, teve início triste com o naufrágio, nas águas sergipanas, do veleiro Crapun, do navegador solitário Elio Somaschini, um italiano bem brasileiro. O acidente gerou comoção no meio náutico brazuca, porque o navegador estava envolvido em uma festejada volta ao mundo e em cada porto do litoral brasileiro, por onde passou, realizou concorridas palestras para divulgar as experiências acumuladas nos mares. O navegador se utilizava da peculiaridade de não fazer uso de aparelhos eletrônicos em seus posicionamentos no mar. Segundo se anunciava, ele utilizava o método da navegação astronômica, porém, sem ajuda do sextante. As medições eram feitas apenas com o polegar. Elio é autor do livro, O que sobra de uma viagem, que infelizmente ainda não tive o prazer de ler, mas, mais por desencontros do que por desejo.

Elio do Crapun, como é conhecido, porque o nome do barco sempre vira sobrenome do dono, pretendia adentrar a barra de Aracaju, dia 06/03, para comemorar o aniversário. A barra da capital sergipana, como todas as outras que marcam os rios daquele litoral, é uma das mais difíceis do litoral brasileiro, com inúmeros bancos de areia, que se formam aleatoriamente aos desejos das marés e das chuvas que castigam o interior. Sempre soube que não existe uma rota indicada para entrar nas barras de Sergipe, porque tudo ali muda da noite para o dia. Li alguns comentários, após o acidente do Crapun, defenestrando a carta digital Navionics, que o Elio utilizava na ocasião, mas a coisa não é por aí, pois nenhuma carta mostra as armadilhas existentes nas barras sergipanas. Quem conhecia tudo ali era o lendário Zé Peixe, prático que ficou conhecido por esperar os navios agarrado na boia de aproximação do canal. Ao avistar o navio, acenava e nadava até ele. Certa vez ouvi Zé Peixe falar em uma entrevista que não se entra na barra de Aracaju sem ajuda. Gravei!

Por três vezes adentrei a barra do Rio Real, que marca a fronteira de Sergipe com a Bahia, e em todas, entrei e saí por rotas diferentes, seguindo orientação dos pescadores da região. A primeira entrada foi na esteira do veleiro Caethel, do casal Daniel e Ângela, que tinha casa no ribeirinho distrito de Terra Caída, município de Indiaroba/SE. Foi uma entrada complicada e extremamente estressante, com os bancos de areia se esforçando para guilhotinar a quilha do Avoante, porém, conseguimos, estou contando a história e não aconselho ninguém entrar sem utilizar os serviços de praticagem feito um pescador nativo. Elio do Crapun, perdeu o barco, mas está bem, e do acidente sobraram marcas e ensinamentos. Espero muito em breve ver o navegador de volta ao mar e superando mais um desafio, pois é assim que faz os grandes marinheiros, e ele é um deles!

Pelo que vi no relato e nas páginas dos jornais, Elio Somaschini recebeu o infortúnio com naturalidade, pois sabe ele que são coisas que acontece com todo aquele que se aventura no mar. O mar é um ser amuado, não reconhece currículos e no dicionário do reino de Poseidon não existe a palavra infalível.

Já contei esse moído por aqui, mas não custa contar novamente: Certa vez o velejador potiguar Érico Amorim das Virgens, cabra conhecedor dos domínios de Netuno como poucos, se esmerou tanto numa palestra sobre navegação astronômica, no Iate Clube do Natal, que o suor escorreu na testa. Quando estava para dar por encerrado o tema, o velejador Alberto Serejo levantou o braço, para pedir a palavra, e disparou: – Comandante, a palestra foi bastante explicativa e acho que todos aqui estão maravilhosamente satisfeitos e conhecedores, porém, amanhã vou providenciar mais três GPS para equipar o Jazz 3.

“… Essa aceitação do medo, e portanto de uma certa humildade frente à natureza, é primordial, pois ela nos permite conservar as faculdades intelectuais, que são a única forma capaz de coordenar a ação que se impõem. O homem, batido no plano da dinâmica, tem apenas o seu saber ou a sua razão para escapar da força dos elementos. Ele deve, portanto, saber conservar toda a sua lucidez, sempre se sabendo fisicamente dominado, pois esse é o seu único meio de defesa, o de não se acreditar capaz de vencer a natureza.” (Willy de Roos – Sozinho, na esteira das caravelas)

Nelson Mattos Filho

Nelson e Lucia – amigos

nelson luciaA palavra hoje está com o amigo José Mauro, cabra arretado e dono de uma verve que só vendo, basta ver as letras que ele destrincha no blog Eu e o maldade, e foi lá que ele postou o texto e enfeitou com um retrato, dos bonitinhos aqui, tirado lá na fascinante Ilha do Sapinho, uma das joias encravadas na Baía de Camamu. Fala aí, , e obrigado pelas palavras abonitadas.

Isso deve ter uns 4 anos. Tudo em mim pedia por uma parada geral, por um desligamento do mundo. Alguém então me falou de Nelson, Lúcia e o Avoante. Um casal que vivia em um veleiro e que poderia nos acolher por uns dias à bordo.

Em um píer no bairro da Ribeira, em Salvador, embarquei no Avoante, uma embarcação pequena, mas valente, aconchegante como casa de mãe, para 4 dias de velejadas pela Baía de Todos os Santos.

Paixão à primeira vista. Pela vela, pelo veleiro, por Nelson e Lúcia e por aquela vida tão simples e diferente da minha e que eu nem sabia que existia. Dormir ao balanço do mar, olhando apenas o clarão das estrelas, foi algo que me tocou profundamente. E a partir dali o mar da Bahia virou meu destino sempre que a correria da vida em terra permitia. A ponto de eu mesmo comprar um veleiro e acalentar sonhos de libertação por quase um ano.

Certo dia, recebo a notícia de que haviam vendido o Avoante. Tinham vivido nele por mais de 10 anos, mas era necessário. Aquele não era apenas um barco, era um pedaço de suas almas, era o ente tangível que lhes ancorava um modo de vida.

A tristeza me bateu. Não conseguia ver Nelson e Lúcia em terra firme. Temi por sua felicidade, desconfiei que não conseguiriam mais se adaptar.

Hoje, vez por outra, entra uma mensagem de WhatsApp do “Comandante”, direto de sua casa na praia de Enxu Queimado, no litoral do Rio Grande do Norte. Às vezes é uma foto das delícias preparadas por Lúcia, às vezes um post do preservado e ativo Diário do Avoante (diariodoavoante.wordpress.com), ou às vezes apenas uma bela foto da natureza deslumbrante do lugar com um sincero “Bom dia, meu amigo”.

Nunca senti uma ponta de ressentimento. Nunca um tom de melancolia, nunca um maldizer a vida, sempre a mesma alegria, generosidade e simplicidade que conheci e aprendi a admirar a bordo do Avoante.

Obrigado por mais uma lição, além da vela, Comandante!

Zé Mauro Nogueira