Arquivo do mês: dezembro 2014

Um fim de ano sem respostas

10 Outubro (121)

Mais um ano recolhe as velas para navegar em árvore seca pelos mares da história. Mais um ano que deixa saudades, tristezas, alegrias, descaminhos, que trouxe amigos e que deixou alguns irem pelas estradas tortuosas das palavras, como se a retórica de uma boa amizade não merecesse o silêncio tranquilizador de um abraço. Somos humanos e humano é assim.

Nesse 2014, que prepara o desembarque, a nossa vida a bordo foi marcada pela reflexão, afinal em 2015 completaremos 10 anos morando em uma casquinha de ovo ao sabor das ondas e dos ventos. O que fazer a partir daí? Que rumo tomar? Como decidir? Voltar? Abandonar tudo e retomar os passos sobre as agruras do mundo urbano? E o sonho? E a aposta em um mundo diferente tão cheio de alternativa?

É difícil decidir quando olhamos em volta e avistamos o caos, a vida ameaçada, a paz entregue aos monstros, as ruas enlameadas de crueldade, os bons jogados a própria sorte, a verdade transformada em mentira e a mentira transvestida de verdade. O que fazer em terra? É difícil o retorno depois que se degusta a doçura poética do mar.

Sem decisão vamos tentar seguir em frente, navegando em busca das respostas que o mar ainda não nos deu. Precisamos seguir o rumo traçado lá atrás que deixamos apagar pelo tempo na carta náutica da vida.

“- É preciso prioridade para se fazer ao mar!” Com essa frase Lucia costuma desanuviar o sonho daqueles que chegam até nós com a vontade emparedada pelos medos. Funcionou com a gente e é assim que ela aposta que funcione com outras pessoas.

Prioridade! Prestes a completar 10 anos de mar estamos diante dos segredos embutidos nessa palavra tão especial. Temos que avançar. Temos que seguir em busca das respostas. Temos que dar prioridade à vida, a nossa vida, ao nosso sonho, as nossas apostas. Temos que voltar a traçar o rumo e navegar em busca do nosso eu.

Nós que traçamos tantos rumos; que repassamos tantos segredos; que indicamos tantos waypoits; que apostamos uma vida em busca de outra vida; que aprendemos que nem tudo é o todo. Nós que apostamos no amor como um só; que respiramos o mesmo ar; que sofremos as mesmas tristezas; que sorrimos a mesma alegria; que tentamos irradiar a mesma esperança; que dividimos o mesmo espaço, sem tempo, sem hora, sem dia, de mãos dadas, entre beijos, entre abraços, entre carinhos, em meio ao sol, a lua, as estrelas, ao mar. Nós que um dia decidimos soltar as amarras, não sabemos dar o nó para prender novamente a embarcação sobre os cunhos do caís.

Um dia um amigo velejador escreveu uma frase que mexeu comigo e com muitos colegas mar afora: – Que liberdade é essa que aprisiona a alma? Frase instigante e extremamente carregada de reflexão. Que liberdade é essa? Procuro respostas e não acho, porque é difícil peitar a liberdade sem sair ferido nas entranhas da alma. Juro que não queria ter lido essa frase tão liberta de sentidos. Confesso que durmo com ela martelando em minha mente, me interrogando, exigindo uma resposta e sabendo ela que eu sei, mas que não consigo responder.

Dez anos no mar não são dez dias. Dez anos no mar é uma vida em que nada se parece com nada do que o mundo urbano possa oferecer. O mar encanta e aprisiona a alma sim senhor. Lança seus perfumes e atrai os desvairados. O marulhar das ondas é o verdadeiro canto da sereia a chamar o navegante para o laço do amor. Nada no mar é lógico, tudo é magia, tudo é mistério, tudo é encanto, tudo são gotas de poesia que transformam medo, paz e serenidade em amor. São os segredos da natureza que o homem nunca alcançara. Desse caldeirão escaldante de espumas vem à liberdade que aprisiona, que mistura os sentidos, que inverte a razão, que lança respingos de paixão e prazer no coração do homem.

O Avoante escuta tudo isso e se retrai nas estruturas de suas cavernas. Espera calado a nossa alma acalentar os sentidos. Recolhe-se nos braços do mar em um namoro nunca visto entre amantes. Vislumbra novas rotas, novos horizontes e tenta se lançar pelos mares, nos levando como felizes passageiros de sua alegria. O Avoante é feliz, é bravo, é marinheiro, é forte como os grandes navegantes dos mares. É um veleirinho carinhoso e incrivelmente aconchegante. Ele tudo sabe, tudo escuta, sofre e se alegra. Ele sabe do amor que temos por ele e por isso é tão carinhoso.

Vocês estão vendo o quanto é difícil à decisão? O quanto é difícil depois que entranha na gente o perfume das algas, da maresia, do sal, das sereias, das barbas de Netuno e do manto azul de Iemanjá?

Que venha 2015 e que os deuses dos oceanos continuem nos abençoando!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Os números do Diário do Avoante de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog e só temos a agradecer a todos vocês que fizeram esses números serem tão significativos. Cento e dez mil tripulantes somente em 2014 é uma responsabilidade muito grande para quem comanda um veleirinho de 33 pés de tamanho e com um coração tão imenso quanto todos os oceanos do mundo. Desejamos ter todos vocês com a gente em 2015 e adicionar outros 110 mil novos tripulantes, para assim ampliar essa comunidade tão amiga do Avoante. Um grande beijo Nelson e Lucia  

Aqui está um resumo:

O Museu do Louvre, em Paris, é visitado todos os anos por 8.5 milhões de pessoas. Este blog foi visitado cerca de 110.000 vezes em 2014. Se fosse o Louvre, eram precisos 5 dias para todas essas pessoas o visitarem.

Clique aqui para ver o relatório completo

Risoto de Jerimum. Pense num prato danado de bom!

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Não quero que ninguém me leve a mal ou fique achando que estou querendo fazer inveja, mas essa desgraceira gastronômica que aparece nas imagens é nada mais, nada menos do que um prato misturando sabores da cozinha italiana e nordestina, que rendeu essa delícia que incrementou a mesa do almoço do Avoante, nesse 29 de Dezembro de 2014. Eita ano que passou depressa! Risoto de Jerimum, acompanhado com a sertaneja carne de sol e uma saladinha básica para acalmar a dor de consciência do povo da dieta. Rapaz, o bicho estava danado de bom e já vou dizendo que não sobrou nem um grãozinho de arroz e nem uma lasquinha de carne. Quanto a salada: também foi toda. Tudo isso foi degustado com alguns goles de cachaça Caribé, pois aqui ninguém é de ferro. Quer a receita? Então anote ai e depois me diga se aprovou:

Risoto de Jerimum

150 g de Arroz arbóreo

200 g de Jerimum (abóbora) de leite

1 cebola pequena ralada

2 dente de alho ralado

2 colheres de sopa de coentro picadinho

2 colheres de sopa de cebolinha verde picadinha

2 colheres de sopa de azeite de oliva

40 ml de cachaça

3 colheres de sopa de requeijão

1 cubo de caldo de legumes

1 litro de água

queijo parmesão a gosto

O sal, deixa para corrigir no final, pois o caldo de legumes contém sal.

Rende 4 porções

Modo de fazer:

Refogue a cebola e o alho no azeite, quando a cebola estiver dourada acrescente o arroz e continue refogando até o arroz começar a ficar branco. Acrescente a cachaça e mexa até a maldita evaporar. Misture o caldo de legume em água fervente e vá acrescentando aos poucos sobre o arroz. Quando a arroz estiver quase no ponto, acrescente o jerimum, a cebolinha, o coentro, o requeijão e continue mexendo até o jerimum cozinhar e o arroz ficar ao dente. Se for necessário acrescente mais um pouco de água. Tire do fogo, polvilhe com queijo parmesão e sirva.

O mar, o pescador e o sol

8 Agosto (229)

 Não sei porquê, mas adoro essa foto.

Navegação em solitário

VITO DUMAS 2 Os navegadores solitários enfrentam quatro problemas, que numa primeira abordagem nos surgem parcialmente apavorantes:

– a arte de navegar

– a preparação física e psicológica;

– o mar alto; e

– a solidão.

Numa postagem recente sobre um veleiro comandando por um velejador solitário de 71 anos, que havia garrado e encalhado em Cabo Frio, litoral do Rio de Janeiro, falei que admirava a bravura daqueles que se lançam ao mar sozinhos em busca do sonho, de um ideal, de respostas, de aventura, de se encontrar ou simplesmente de curtir a vida ao sabor das ondas e dos ventos. Alguns leitores comentaram o acidente em Cabo Frio e deram vivas quando o veleiro voltou a navegar, desejaram bons ventos e sorte ao velejador. Outros preferiram se armar com o rol das teorias que habitam as sombras aconchegantes dos palhoções de clubes e marinas e ficaram no bem bom das acusações. Hoje, depois de seguir uma dica do velejador Jorge Dino, me deparei com uma postagem no blog Mare Nostrum, de José Maria Alves, que se diz Pelegrino da Terra e Mendigo dos Céu, de onde copiei as letras em itálico, acima, e que abrem o texto Navegação em Solitário.  “…O solitário é um marinheiro por excelência, um amante do mar, que com ele intenta viver para sempre, até que a morte os separe – ou una… – percorrendo os oceanos com as suas velas aladas…”

Fazer o bem sem olhar a quem

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Essa senhora que vislumbra o mar com olhos de atenção é Regina Catrambone, co-fundadora da MOAS, um instituto humanitário, sem fins lucrativos, criado para ajudar navios de imigrantes ilegais que saem do norte da África com esperanças de alcançar o litoral da Europa. Como em toda aventura migratória de homens que tentam escapar das agruras das guerras e das garras de ditadores cruéis e seus asseclas donos da verdade absoluta, a busca pela pretensa liberdade é um caminho sem horizontes em que a sorte e o azar caminham de mãos dadas. Centenas de imigrantes perdem a vida todos os anos na tentativa de atravessar o Mediterrâneo e alguns corpos, quando não são recolhidos, acabam sobre as areias das ilhas da região. A visita do Papa Francisco a ilha italiana de Lampesuda em 2013, para onde eram levados a grande maioria dos imigrantes ilegais, chamou a atenção de Regina e do seu marido, Christopher Catambrone, milionários ítalo-americanos, que decidiram gastar boa parte da fortuna para ajudar essas pessoas. Compraram um antigo navio, o Phoenix, criaram o instituto Moas e partiram sem perda de tempo para as águas do Mediterrâneo em busca dos imigrantes. MOAS_-_Press_5_001O Phoenix, de 136 pés e 483t, é equipado com os mais modernos aparelhos de busca, salvamento e com um helicóptero. A tripulação é composta de agentes humanitários, médicos, profissionais de segurança e marinheiros experientes em busca e salvamento. Quando se quer fazer é assim!

O “objeto estranho”

boia abandonada

Essa boia de atracação que apareceu na praia de Vila Caiçara, litoral paulista está causando o maior reboliço entre moradores, banhista e turista que frequentam o lugar e nem duvido se me disserem que o achado tenha sido motivo de reza braba, teorias conspiradoras, ataque alienígena e até obra do temível chupa cabra. Até ai tudo bem, porque o homem é um bicho criativo e esse assunto ainda vai render tantas latinhas vazias de cerveja, que se brincar vai ter matéria prima para umas dez boias iguais a essa. Mas o que me deixa intrigado são as declarações estapafúrdias dos técnicos de todos os órgãos convocados as pressas para dar um pitaco sobre o “objeto estranho”. A impressa, por sua vez, faz o papel dela até enquanto o “mistério” não esfria ou algum técnico mais ousado resolva mandar todo mundo catar coquinho.