Arquivo da categoria: Cartas de Enxu

Observando o mundo através da varandinha de uma casinha de praia.

Cartas de Enxu 50

7 Julho (218)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2019

Luciano, meu amigo, como andam as coisas na sua Bahia mais bela? Por aqui vamos caminhando, cantando, seguindo a canção e achando graça, porque se faltar o riso o bicho pega. E por falar em bicho: Como vai seu ninho de cobras? Pelas bandas daqui, tenho notado que a criação de ovelhas e carneiros diminuiu um pouco, pois faz dias que não avisto os bichinhos caminhando livre, leve e solto pelas ruas e avenidas dessa Enxu querida. – Avenida? Isso mesmo, meu amigo, avenida, pois assim está escrito no endereço da conta de energia elétrica. E por falar em conta de energia, por mais que os encantadores de gente se esmerem em explicar, juro que não consigo entender essa troca de bandeiras. Tem tempo que é verde, tem tempo que a danada amarela e nesse mês de setembro o troço veio num tom encarnado, mais esfomeado do que a molesta. Seu menino, eu ia até falar, mas vou parar por aqui para não “elogiar” a senhora Mãe dos outros.

Amigo, sobre essa troca de bandeiras o que me intriga é ver, da minha varandinha, a danação de torres catadoras de ventos espalhadas a torto e a direito sobre dunas e matas, gritando promessas engabeladoras, e nem sinal das tais bandeiras perderem o ímpeto. Ei, baiano, não se avexe com minhas observações amalucadas, pois são apenas visões de um praieiro que em vez de ficar catando nuvens no belo e infinito céu dessa prainha paraíso, fica dando pitaco em coisas que não entende.

Rapaz, essa semana estive na casa de Ceminha e ao folhear o jornal Tribuna do Norte, cravei a vista numa matéria que falava da nossa falta de interesse nas benesses do grande mar Atlântico, que nos banha. Pois bem, a nota dava conta de que um economista português ajuntou um punhado de interessados, ou desinteressados, sei lá, para dizer uma coisa que seus patrícios de 500 anos atrás já haviam descoberto e até hoje não demos de conta. O portuga disse em alto e bom som, que o potencial costeiro do Rio Grande do Norte é enorme e que até os dias de hoje, por mais que tenhamos trocado o comando do timão, não aproveitamos, ou melhor, desaproveitamos por completo. Ao ler a matéria lembrei de uma palestra que assisti no Sesc, em Natal, com o economista Delfim Neto, na época ministro todo poderoso, em que ele disse que o RN estava lutando uma luta inglória – e hoje está provado -, ao pleitear a implantação de uma refinaria de petróleo, porque a grande redenção desse Estado estava no turismo e no maravilhoso mar que acaricia suas praias. Eh, meu amigo, olhando da minha varandinha o mar emoldurado pelos troncos e palhas dos coqueirais não posso e nem devo deixar de aceitar as palavras do economista português, Miguel Marques, e muitos menos do grande professor Antônio Delfim Neto. Como seria bom se nossos governantes tivessem pelo menos um tiquinho de tempo e vontade para ouvir e falar verdades. Aliás, o tão proclamado Marco de Posse, chantado na praia do Marco/RN, que o diga, porque mais abandono é impossível.

Luciano, mudando o rumo dessa prosa, você acompanhou o moído sobre os “inocentes” livrinhos infantis lançados na feira literária sob as bênçãos de São Sebastião? Se acompanhou, fez bem, pois assim não será pego desprevenido quando algum neto lhe indagar sobre a vida. Se não acompanhou, fez mal, pois perdeu de dar boas risadas com as palavras ditas, escritas e com as afetações de quem canta a música sem nem saber a letra, nem o tom e só sabe entoar o coro. Me contaram que um cabocolinho que comprou, todo falante, um exemplar do tal livrinho, quando chegou em casa o filhinho quis folhear e levou um tapa nas orelhas, pois aquilo não era leitura para uma criança, ainda mais a dele. Vai vendo, viu! Mas fiquei sabendo que quem ficou brabo mesmo foi Seu Quinzinho da Burra, um antigo morador de um povoado distante daqui, pois na adolescência ele sentiu uma queda pela jumentinha mimosa que andava faceira pelas baixas, e depois de ganhar a confiança da bichinha, partiu confiante para uns afagos, amassos e daí para os finalmente foi apenas questão de minutos e um “Ih” mais carinhoso do que o normal. Depois de uns meses o amancebo foi descoberto pelos outros pretendentes da burrinha faceira e a fofoca caiu nos ouvidos do delegado que não contou conversa, mandou chamar Quinzinho e entre perguntas e cacete, fez o pobre namorado entregar o serviço contando coisas de A a Z. O namorador passou uns dias enjaulado, ganhou o agregado no apelido e até os dias de hoje nunca mais passou nem próximo das baixas, mas a saudade é grande daquela a quem tanto carinho dispensou. Pois bem, Seu Quinzinho soube que tem um livrinho ensinando os meninos a chamar uma coelhinha na chincha e que depois de uns alaridos, os senhores do conselho superior deram tudo como certo, justo e encerraram a peleja com pontos para o autor. Agora, Seu Quinzinho, no alto dos seus 90 anos, quer saber quem vai indenizar a desgraça amorosa sofrida nos seus 18 anos. Procede!

Luciano Lopes Guimarães, cabra aventureiro da gota serena, faz tempo que você e a sua mandante Arlene, não dão as caras por essa prainha bela e preguiçosa. Venha, homem de Deus, venha para a gente emendar os bigodes nos bons papos que rolam sob a sobra dessa cabaninha de praia. Venha aproveitar os assopros dos bons alísios de um setembro soprador. Venha que prometo arranjar uma jangada para você traçar rumo até o abençoado e produtivo Cabeço de André, lugar que deixa qualquer pescador abestalhado diante de tanta fartura.

Estou esperando, viu, e já vou colocar as cervejas no gelo!

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 49

10 Outubro (26)

Enxu Queimado/RN, 03 de setembro de 2019

Saulo, estava aqui pensando nas coisas dessa Enxu mais bela, enquanto dava umas bicadas numas doses da dita, bendita ou “mardita”, melhor cachaça do mundo, produzida lá no pé da serra seridoense de Samanaú, e rindo sozinho com os muitos moídos que já vivi e presenciei por aqui e foi aí que dei conta que faz tempo que você não dá o ar da sua graça sob a sombra dessa cabaninha de praia. Lembrei de você e também do saudoso e inesquecível Campeão, que adorava ouvir os causos acontecidos nas quebradas dessa prainha arretada de boa. Pois é, meu amigo, o tempo passa, passa ligeiro, segue em frente e deixa o fascínio em forma de lembranças e saudades, algumas boas, outras más, mas quando misturadas, dão o sentido que rege a vida.

Saulo Júnior, como não mirar o maravilhoso coqueiral esparramado sobre a beira mar, e não lembrar das estripulias caridosas de Dona Ana, uma das muitas figuras folclóricas do álbum de Enxu? Dona Ana era avançada demais para uma época em que a inocência nem se dava conta que um dia perderia a razão diante das ideias beligerantes e filosóficas dos intelectuais modernosos. Conta a lenda, que a velha madame, apaziguadora da alma curiosa e irrequieta dos meninos de então, quando o assunto era sobre as formas libidinosas do amor, ela não deixava ponto sem volta. Pois bem, certa vez estávamos em um grupo de bate papos sob a sombra de uma árvore, e ela passa caminhando nos passinhos curtos e lentos dos seus oitenta e tantos anos bem vividos. Ao vê-la passar, Seu Neném fala: – Dona Ana! Ela para, olha e pergunta: – Que foi Neném? – Os meninos estão dizendo que a senhora não dá mais no couro! Ela põe as mãos no quadril, dá uma rabissaca, olha por cima do ombro e desdenha: – Aí, uhuuuuu!!!!! E seguiu sua caminhada, deixando a turma em boas gargalhadas.

Mais uma dose e lá vem a cena acontecida numa noite de Lua nova na estrada que liga Enxu a Pedra Grande. Alma era um rapaz que vivia de comprar pequenos peixes em Enxu Queimado para revendê-los nos povoados mais distantes. Quando terminavam as vendas, Alma se encostava no primeiro balcão de boteco que encontrasse na beira da estrada e entre uma cachacinha e outra ficava de olho aboticado na estrada na esperança de pegar uma carona que o levasse no rumo da volta. Naquela noite o tempo passou rápido na localidade do Alto da Aroeira e nada de aparecer a sonhada carona e assim a cachaça foi duplicando nas ideias, pois fazia poucos dias que Santo, seu velho pai, havia falecido e a branquinha tanto aliviava a dor, quanto aumentava a saudade. Lá para as tantas ele escutou o ronco de um trator e se posicionou na beira da rodagem. O trator, puxando uma carroça, foi chegando, ele pediu parada, mas, Zeca, o tratorista, que vinha guiando no piloto automático, mais bêbado do que o caronista, nem notou sua presença e seguiu em frente. Alma, macaco velho nas artes da carona, apressou o passo e pulou para dentro da carroça, suspirando aliviado, porque já estava perto da meia-noite e a possibilidade de passar outro veículo por ali era difícil.

Quando as luzes do pequeno povoado ficaram para trás, Zeca, de relance, notou a presença de alguém sobre a carroça e gritou: – Quem vem lá? – É Alma! – Alma de quem? – De finado Santo! Saulo, os cabelos de Zeca arrepiaram, ele acelerou o trator até o motor sair do tom e se danou a dar rabos de arraia pela estrada, jogando o trator de um lado para outro, tirando fino nos galhos de jurema preta e nada da Alma desaparecer. E assim foi a correria e o desespero até chegar em Enxu, quando Zeca, já bonzinho da cachaça, meteu o pé no freio, pulou do trator ainda em movimento, olhou para trás e lá estava Alma com os olhos aboticados e gritando; – Zeca, você está ficando doido? Quase me mata, homi! Zeca, quase sem fala e já recuperando a cor, respondeu puxando o que restava de ar dos pulmões: – Fii de uma égua, você que quase mata de susto, seu desgraçado! Segundo contam, depois desse dia Zeca perdeu todos os cabelos da cabeça. Pense num medo!

Pois é, Saulo Andrade dos Santos Junior, meu cunhado e irmão de querer bem, se for contar todos os causos, contos e fatos que fazem parte da história dessa prainha paraíso, é de fazer uma ruma bonita e cheia de graça. Tenho muita coisa guardada na cachola, outras em borrões de anotações e você bem sabe de um bocado, pois entre umas e outras já escutou muitas e riu boas risadas. Mas não custa vir aqui para escutar tudo de novo e rir novamente, pois assim são as coisas boas dessa vida. Aliás, daquela garrafa de Samanaú, a melhor do mundo, deixei sobrar um pezinho de uns quatro dedos, viu! Venha pra gente fechar a contabilidade e venha logo, senão a danada evapora!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 48

5 Maio (34)

Enxu Queimado/RN, 19 de agosto de 2019

Sabe, Maurício, hoje, na paz do luar que derrama fios prateados sobre a noite dessa Enxu mais bela, me peguei fazendo uma retrospectiva de vida e desatei a lembrar dos bons momentos vividos a bordo do veleiro Avoante, subindo e descendo o litoral do Nordeste, plantando, regando e colhendo amizades. Em uma das passagens da fita, veio a imagem de um tripulante, que estava fazendo um dos nossos charters pelos encantos e segredos da bela e colorida Baía de Todos os Santos, e as palavras por ele proferida enquanto degustávamos um vinho, saboreando um risoto de limão siciliano, na enigmática ancoragem do Saco do Suarez, por traz da Ilha do Bom Jesus dos Passos e de frente para a mata atlântica que cobre a Ilha do Frade, ancoragem que segundo contam os livros de história, os holandeses se esconderam durante 60 anos dos olhos e ouvidos dos portugueses, até que em um 2 de julho a brincadeira acabou e até hoje o baiano festeja.

“Nelson e Lucia, vocês não vendem charter e nem curso de vela, vocês vendem sonhos e uma maravilhosa história de vida”. Pois é, Maurício, durante o resto da noite e boa parte da madrugada, a frase cutucou meu juízo e no silêncio e na paz daquela ancoragem tão mágica, adormeci, os circuitos internos do cérebro levaram a frase para o arquivo e assim ela permaneceu esquecida até que hoje, uma velinha branca de paquete cruzou o pedacinho de mar que vislumbro dos domínios de minha varandinha de praia, e pronto, estou aqui a matutar. Pois num é que dia desses, Gilberto da Farmácia, um amigo cultivado sob os alísios que sopram por essa paragens, disse que adorava vir aqui para entabular um conversê, porque, segundo ele, os horizontes se abriam em sua frente. Agora danou-se, um disse que eu vendia sonhos e agora o outro diz que vendo horizontes. Sei não, viu! Rapaz, aqui eu vendo é pizza e saltenhas, e segundo uma criança que passou na calçada, a melhor pizza do universo.

Maurição, pois num é que a tal retrospectiva me fez ver coisas que diante do moído da vida urbana deixei esquecer. Durante onze anos tive uma casa com a varanda de frente para o nascente, o poente e de cara para todos os ventos que se arvorassem a soprar. Foram dias de intensa conjugação com os elementos da natureza e seguindo os ditames de deuses encantados. Por mais que me fizesse de rogado, jamais pude deixar de sorrir e pedir bênçãos diante da magia e das cores do pôr do sol, que nunca se apresentou igualmente o anterior. Via o pôr do sol como um grande livro de páginas infinitas, de versos e crônicas em escritos, desenhos e cores que jamais se repetirão. Hoje, meu amigo, mesmo sabendo da bela maquiagem que as dunas de Enxu produzem para o final da tarde, não consigo tempo para assistir os últimos passos diários do astro rei. Quando consigo, tenho o mesmo deslumbramento e a mesma emoção de sempre, mas sinto minha alma entristecida. Maurício, será que a vida urbana consome a alma das pessoas?

– E a Lua? Pois é amigo, a Lua daqui é linda como a Lua dos outros lugares, mas também não a tenho diante dos meus olhos e nem mantenho a intimidade que tive noutros tempos. Conheço os passos do seu caminhar, sei os segredos de suas cores, consigo sentir seu cheiro e as vezes escuto seus lamentos, mas perdi a intimidade. Aí você pergunta: – Como assim? – Você mora em um paraíso, em uma praia linda, com paisagens belíssimas, com um mar encantador, diante de um coqueiral deslumbrante, cercado de pessoas maravilhosas e sob o teto de uma aconchegante cabaninha praieira, o que falta mais? Pois é, tenho sonhos, horizontes, amigos, família presente e unida, mas falta a intimidade com os elementos da natureza, com a Lua, com o Sol, com os ventos, as correntes marinhas, as ondas, as nuvens, as gotas de sal sobre a face, o balanço do oceano, as vozes do mundo, os sons que ecoam do fundo do mar. Falta o calor do abraço de um mundo que sei que está bem ali, mas um pouco distante demais da mão. Eh, amigo, acho que é isso, a vida urbana consome a alma da gente e fecha os nossos olhos para as maravilhas que somente a natureza pode dar.

Maurício Silva Rosa, você que um dia viveu conosco alguns dias a bordo daquele belo veleirinho avoado, avoando lentamente pelos mares do Senhor do Bonfim, sentindo a natureza correr nas veias e piscando os olhos diante da paisagem desnudada a cada fração de milha navegada, sabe das lamurias que me trazem essa incrível e saudosa retrospectiva, mas não se avexe com essas linhas escritas, porque tudo passa entre um balanço e outro da rede. Além de que, os encantos dessa prainha paraíso é um fabuloso remédio para aplacar minhas saudades.

Amigo, agora me responda: Será que eu ainda consigo vender sonhos ou os tais horizontes que encantam Gilberto? Não, Maurício, não vendo sonhos, nem horizontes, quero mais é dar alegria e mostrar para aqueles que se interessam, que o mundo pode ser melhor, infinitamente melhor, do que este que estamos vivendo. E para isso, nada melhor do que ir ao pomar e colher uma muda de bons amigos.

Venha aqui, amigo, e venha sem pressa, porque embaixo dessa varandinha cabe uma montanha de boas conversas.

– O vinho? – Claro, tem vinho!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 47

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Enxu Queimado/RN, 15 de agosto de 2019

Eh, Pai, domingo, 11/08, foi dia de saudades, mas não aquela saudade que corrói a alma e sai por aí espalhando dor e sorrisos amarelos, mas a saudade do bem querer, das boas lembranças, dos felizes ensinamentos, do amor incondicional e da precisão de ensinamentos, quase cirúrgicos, que trançam os passos e os caminhos dos filhos pela vida afora. Pois é, sempre festejo com alegria esse dia, mesmo sem ter a alegria de vê-lo sentado na mesa. Aliás, nunca entendi os motivos daqueles que declaram não ter motivos para celebrar o Dia dos Pais pela justificativa de que os deles já se foram para os braços do Pai. Eu tenho motivos sim e se assim for permitido, comemorarei por muitos anos, porque o senhor merece e nós, seus filhos, temos mil e um motivos para festejar. O senhor era demais!

Pai, como vão suas tocatas pelos bailes do Céu? Acredito que a orquestra daí está cada dia mais afinada e se esmerando em maravilhosas partituras, pois o que tem subido de gente boa para estrelar o palco do paraíso, não é brincadeira. Dou por visto a alegria da plateia e o rosto de encantamento de Nosso Senhor, diante dos shows. Já por aqui a coisa está cada dia mais feia, pois está ficando só a catrevagem e ainda inventaram um tão de paredão, saído das ideias malignas do tinhoso, que tem pareia não. Aliás, estou planejando entrar no mercado de produzir pen drives para tocar nos paredões, porque achei uma fórmula arretada de gravação e que vai fazer sucesso: Gravarei apenas a introdução das “músicas”, ou no máximo dois minutos de cada, e assim, em um pen drive de 4Gb gravarei umas 8 mil “músicas”. Pai, nunca ouvi um dono de paredão deixar tocar uma faixa – graças aos anjos do Céu – inteira. É só o comecinho e pula para a próxima.

Nessa prainha linda que me dá guarida e carinho, o Dia dos Pais foi comemorado com uma regata que se tornou famosa na região e neste 2019 comemorou a décima terceira edição. É a regata dos Navegantes da Praia de Enxu Queimado, um evento arretado, idealizado e organizado por Pedrinho e Lucinha, casal bom do “carvalho”, e que colore o lugar com as cores da alegria e do companheirismo, qualidades tão peculiares aos pescadores. É gostoso ver o moído do preparo das embarcações nos dias que antecedem a festa e mais gostoso ainda é presenciar a faina e a labuta dos últimos detalhes minutos antes da largada. Pai, o sistema é bruto e aí daquele mastro, vela ou corda que não aguentar o tranco dos puxos e repuxos! Eu, velejador de barcos de plástico, cheios de salamaleques e prá que isso, dou risadas e fico imaginando a cena de um desses iatistas juramentados participando de um preparo de paquete para correr uma “corrida”.

Circulando entre os barcos, abraçando os amigos e batendo retratos a torto e direito, no dia da largada, parei para ver a vela do paquete Brasil 1 – isso mesmo, Brasil 1 – sendo esticada por seis homens sobre o mastro e a retranca e apostei comigo mesmo que aquele sistema não aguentaria e não sei se por força do meu olho grande, ou praga de apostador, a corda partiu e lá se foi a mesa que acomoda o mastro partida em bandas. O reboliço foi grande, porque o tiro de largada se aproximava, e entre palpites e pitacos, inclusive meus, apareceu uma furadeira, com eixo do mandril mais empenado do que o “gato da zinebra”, mas acho que a broca era mais torta, uma extensão com fio desencapado, um martelo, duas chaves de boca, bitola 14, porém, as porcas eram 13, umas latinhas de Itaipava escumando e entre pelejas, gritos e gozações, o armengue ficou pronto e lá foi a “nova estrutura” ser forçada novamente. E num é que aguentou! Tanto aguentou que o barco foi para a competição e não fez feio e nem os tripulantes andaram no burro. – No burro? – Isso mesmo! Os caras enfeitam um burrico e quem faz a pior lambança durante a prova, na chegada tem que passear em meio ao povo sobre o burro. Eita que a gozação é boa!

Pois é, Pai, a vida por aqui vai indo assim e bem diferente dos azedumes e mal costumes das grandes cidades. Por aqui basta pouco para a felicidade aflorar e por mais que os reclames insistam em dizer que babado não é bico e que o caldo vai entornar, ninguém liga muito para as armadilhas e subterfúgios produzidos nos caldeirões das redações. Aliás, os aprendizes de feiticeiros que mexem a colher nas redações dos jornais, precisam pegar a vassoura para dar pelo menos um voozinho por aí. A vida tem andado bem diferente do que eles alegam.

Nelson Mattos, meu querido e amado Pai, pensei em escrever essa cartinha para enviar-lhe no Dia dos Pais, mas dei um bordo, porque não queria que a emoção enuviasse minha cabeça de vento e como bem disse um colega: “O coração das pessoas já não aguenta tanto repuxo”. Pai, por aqui vai tudo bem, tudo indo e bem-vindo. Nelsinho e Amanda continuam me dando alegrias e Ceminha dia desses deu o ar da graça sob essa varandinha, na companhia de Tia Cecília, Grace e Jailson. Saborearam uma das deliciosas moquecas da Lucia, que eu e Jailson degustamos com umas doses da marvada, para não perder a vez, e se foram prometendo voltar em breve. Estou aguardando!

Para encerrar, confirmo que o senhor continua muito vivo e lindo em meus sonhos e tomara que permaneça assim por longos anos, viu! Beijos!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 46

janeiro a junho (233)

Enxu Queimado/RN, 05 de agosto de 2019

“ Seja bem-vindo ao caos, comandante! ”

Zé, meu amigo, nunca esqueci suas palavras quando lhe informei que estava deixando o mar, habitat que vivi, a bordo do veleiro Avoante, por onze anos e uns meses de lambuja, para retornar ao cotidiano das cidades. Naquele dia suas palavras soaram como uma sentença e até imaginei que seria assim, mas sinceramente, não sabia que a extensão do caos fosse tão grande. Está feia a coisa, meu amigo, e tem horas que a vontade é de largar tudo novamente, mergulhar de cabeça nas águas de Iemanjá e sair por aí cortando as ondas dos oceanos.

Comandante, confesso que fazia uma ruma de tempo que não caminhava pelas paragens inebriantes do Blogueio Maldade, mas juro que não foi por falta de tempo, pois desde que tenho sentado praça nos meandros dessa Enxu mais bela que o tempo não me falta, mesmo envolvido que estou em produzir e servir a melhor pizza do universo, sempre me sobra umas horazinhas para cultivar ramos de flores de ócio. Pois bem, essa semana acertei na tecla do eu e o maldade e lavei a alma com sua verve arretada de boa. Aliás, sob a sombra dessa minha cabaninha de praia, de frente para o coqueiral, tenho lido muita coisa boa e até já perdi as contas dos personagens que saíram das páginas para dar um passeio comigo sobre a imensidão de praia que por aqui se estende.

Mauro, vou te contar um segredo, a personagem que mais desejei que o passeio não terminasse nunca foi uma tal de Pilar, maranhense arretada da cidade de Codó, filha de uma mãe de santo do terecô, uma doidivana dos sete costados e que um dia se tornou a líder espiritual mais poderosa do país. É difícil esquece as estripulias de Pilar, figura saída das ideias do escritor PJ Pereira, no livro A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa, e mais difícil ainda não se apaixonar por essa mulher que descabela os mistérios da fé.

Zé Mauro, adoro os livros, mas tenho uma verdadeira paixão por crônicas, principalmente aquelas escritas nos recantinhos das páginas dos periódicos e digo mais, aposto todas as fichas que nos dias de hoje não existe um jornal brasileiro tão bem servido de bons cronistas como o potiguar Tribuna do Norte. Os cabocos que aportaram por lá ultimamente são conhecedores do riscado e deixam a gente com as bilocas dos olhos aboticados e o juízo tremendo de felicidade. Rapaz, Seu Henrique botou para reiar na escalação do time e não tem timeco espanhol que consiga trocar passes e nem passar do meio de campo. Veja aí a escalação: O meio de campo é comandado por Seu Woden; na cabeça de área quem manda é Seu Vicente que não dá mole para ninguém; na zaga central tem o danado do Cassiano; na ponta direita, avançando pelo meio tem um magro chamado Alex e na ponta esquerda o titular indo e voltado é o menino Rubinho. – Centro avante? – Tem não, pois tudinho sabe fazer gol, e só gol de voleio! Sabe, Zé, tempos atrás fui convocado para o time da Tribuna, mas só consegui vaga como reserva de gandula.

Ei, amigo, você viu que lá em riba falei que minhas pizzas eram as melhores do universo? Pois é, as danadas são boas sim, mas não sabia que era tanto até que um menino passou caminhando com o pai e afirmou: “- Pai, a pizza daqui é a melhor do universo”. Pois bem, como criança não mente, fiquei todo faceiro com a nota recebida. E por falar em universo, dia desse ouvi dizer que ele tinha 90 bilhões de anos-luz de extensão e na mesma hora minha cachola se danou a fazer contas e quando viu que não tinha capacidade para um numeral tão avantajado, deu um pânico. Isso mesmo, pânico e depois eu explico o prumode, mais antes vou tentar refazer essa conta, em um papel de pão, que deve ser assim: Se 1 ano-luz tem nove vírgula tantos trilhões de quilômetros e, segundo o caboco que estava anunciando a novidade, o universo tem 90 bilhões de anos-luz de tamanho, o resultado da conta é 873 trilhões. Vixe, vou é parar por aqui pois já estou vendo estrelas.

Tá bom, Zé, vou falar no pânico. Dia desses Lucia disse a uma amiga que havia ligado várias vezes e ela não atendia o telefone. Ela respondeu que o celular estava em pânico. – Em pânico? – Quem danado fez medo a esse aparelho? – Não, minha filha, o bicho caiu no chão e espatifou-se!

José Mauro Nogueira, que tal vir dar um passeio nesse paraíso praia para trocar as relíquias da morte e usar sem moderação a pedra da ressureição? Aqui é um dos poucos lugares sagrados guardados a sete chaves pelos bons feiticeiros e por todos os anjos do Céu. Aqui a vida caminha lenta, mas tem todos os desejos que você procura para aposentar de vez a capa da invisibilidade.

Antes de colocar o ponto final e antes que você fique a matutar nos escritos até aqui, vou em busca dos versos do jornalista Alex Medeiros, quando ele diz assim: “Meus escritos são momentos/de alegrias ou de desertos/nada mais que sentimentos/algo bem maior do que versos”.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 45

1 Janeiro (70)

Enxu Queimado/RN, 28 de julho de 2019

Pois é, Torpedinho, a vida não está fácil pelas “terras de pindorama” e até pensamos que estaríamos prestes a ver alguma luz que indicasse novos rumos a serem seguidos, mas tudo indica que continuaremos navegando feito marujos desnorteados. Será herança dos nossos descobridores? É bem capaz, viu! Aliás, como estão as coisas pelas terras dos maracatus? Aqui vai indo e quase do mesmo modo que você viu no comecinho desse julho que já se encaminha para os finalmentes. Porém, até nos mais bucólicos povoados desse país de temperaturas moderadas, a vida segue deixando rastros e impressões digitais nos escaninhos da história dos povos.

Amigo, o mar de Netuno – ou seria de Iemanjá? – tem andado meio amuado por essas bandas daqui, mas nada diferente do que tem acontecido a partir do litoral sudeste e subindo para os lados de cá. Os alarmentos, mas nem por isso mais responsáveis por suas ações, apostam que os reclames da natureza são consequências dos nossos atos, porém, nem os meninos das ciências se entendem sobre a razão e vez por outra estão batendo cabeça nos compêndios. Dia desse vi um professor da USP dizer, entre risos e bocas, que em meio as causas ambientais, principalmente ao mal falado aquecimento global, existe muita farinha falsificada no angu. Acreditar em quem? Vai saber!

Certa feita, ouvi um caçador de estrelas e planetas dizer que o eixo da Terra deu uma leve escorregada para o lado, mas não me pergunte para que lado, pois ele não disse e até tentei fofocar sobre o escorrego, mas ele calou-se diante das cartas, fez cara de paisagem estelar e recolheu as fichas da mesa. Deitando em minha rede, armada sob a varandinha, fico matutando, entre um cochilo e outro, será que esse reboliço de mar tem relação com esse moído. Rapaz, sei não, mas se continuar assim não vai demorar muito para o Sul virar Norte, Nordeste virar Sudeste, Centro-Oeste continuar Centro-Oeste, e assim, ninguém vai poder falar de ninguém.

Ei, Cleidson – é estranho chamá-lo assim, mas vou enfrentar a estranheza -, por falar em reboliço de mar, por essa região tem acontecido uns fenômenos arretados e que têm feito a alegria dos pescadores e das páginas nas mídias sociais. No final de junho, na praia de Galinhos, bem aliiii mais para o Norte, as redes de arrastão tiraram do mar uma ruma danada de Garabebeu, peixe que passa longe das receitas dos amostrados. Neste dia 25/07, na mesma praia de Galinhos, mais um lance de rede, e mais outros, acertaram bem de cheio em uma colônia de Corvinas, que segundo a conversa dos pescadores, rendeu mais de 25 toneladas. Foi peixe, amigo, foi peixe! JÁ no mar dessa Enxu mais bela, os barcos estão chegando carregados de Bonito, outro peixe que passa distante das receitas dos chefs, mas que é uma delícia quando preparado pela mão azeitada do povo do mar. É a vida sendo levada adiante pela natureza, que nos mostra a todo instante que nem tanto, nem tão pouco, pois o que ela quer dar, ela dá e nem adianta a gente espernear e nem querer se meter a adivinhações.

Pernambucano, por falar em natureza, quando você dará uns bordos por aqui naquele seu catamarã bala. Vi que você já está alistado na raia da próxima Refeno, Regata Recife/Fernando de Noronha, e fiquei imaginando que, na volta da ilha maravilha, você pudesse dar uma voltinha por essas quebradas. Rapaz, olha só as belezas que tem por aqui: Praia do Marco; Enxu Queimado; Ponta dos Três Irmãos; Serafim; Caiçara do Norte; Galinhos, Guamaré; Diogo Lopes e mais um monte de enseadinhas arretadas e que merecem registros. Digo mais, quem navegou boa parte do litoral nordestino, mas passou vexado por alguns desses lugares que falei, foi o Pedalinho, cabra arroxado e vivedor, que está mostrando ao povo da vela de cruzeiro, que o litoral brasileiro é muito mais bonito, fantástico, maravilhoso e navegável do que dizem por aí. Grande Pedalinho, que não conheci pessoalmente, mas tem toda minha admiração e reconhecimento.

Torpedinho, deixa eu lhe contar uma tristeza: No começo da semana, estava eu pintado o cercado de madeira do chalé que estamos terminando e que você bem conhece – Aliás, o ar-condicionado já está instalado -, quando passou um garoto, na companhia do pai, e ele vinha desembrulhando um bombom. Após colocar o doce na boca, seguiu segurando a pequena embalagem na mão, e o pai, que deveria ensinar, gritou: Sacuda esse papel na rua, seu p….! A criança, acho eu, para não levar uns puxões de orelha ou receber mais impropérios, soltou o papel sobre o chão. Sentenciei em meus pensamentos: – Pronto, nasceu mais um sugismundo!

Cleidson Nunes, advogado e velejador como poucos, a varanda dessa nossa cabaninha de praia está com saudade da sua prosa arretada e multifacetada que nos deu muitas alegrias durante os breves dois dias em que esteve por aqui. Você prometeu que iria volta, portanto cumpra a promessa ligeiro, viu! Para apressar seu passo, vou pedir que traga um bolo de rolo, iguaria que tem a marca, as cores, o sabor e a alegria da cultura da sua terra. Mas se não pedir muito, traga também uma cachacinha dos bons alambiques pernambucanos, que garanto a pareia do peixe frito, ou para variar, umas lagostas no bafo.

Abraços,

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 44

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Enxu Queimado/RN, 20 de julho de 2019

Meu caro, Sian, desde que você apareceu por essa Enxu mais bela, colorindo o mundo em preto e branco pelas lentes mágicas de sua possante máquina fotográfica e com uma indisfarçada alegria em apresentar aos poucos felizardos o maravilhoso projeto de fotografia documental, Um olhar de Si Através do Outro, passei a mirar as coisas deste minúsculo pedacinho de planeta por ângulos diferentes e muitas vezes indecifráveis. Eh, meu amigo, o que seria das cores se não fosse o preto no branco e branco no preto…. Aí você haverá de perguntar: – Sim, mas qual o motivo da reticência? Sei lá! Talvez porque quisesse escrever mais, mas sem saber o que. Talvez não quisesse escrever nada e elas apareceram do nada, ou talvez porque…sei lá. Bem elas estão aí, apareceram novamente e agora não sei como suprimi-las.

Amigo, as coisas por esse pedacinho de litoral estão caminhando como Deus quer, pois é assim que diz o povo. Juro que não sei se Ele gostaria que as coisas caminhassem como caminham, mas já que o povo diz e que, segundo o ditado, a voz dele e a voz Dele, vamos seguindo em frente e esperando não sei bem o que, mas vamos. Rapaz, não se avexe com esses meus pensamentos amalucados, pois como já disse lá em riba, tenho olhado o mundo por ângulos meio enviesados.

Fotografo, pelo pouco que aprendi naqueles poucos dias de curso, não é tão fácil a gente ver o mundo através do outro, até porque o outro nem sempre se mostra do jeito que é e se formos escarafunchar por aí, é coisa de risco grande, pois com o advento das mídias sociais, o outro é tão outro que ficamos em dúvida se ele é, foi ou será. Lembra do que presenciamos nas dependências da escola? Pois bem, pintam com uma tinta, mas a tinta não tem a cor que pintam. E não são assim as coisas por esses Brasil encantado? São, e em algum dia do futuro aportarão por aqui novos navegantes e esses haverão de nos descobrir por completo. Só tomara que não seja Cabral e sua trupe de degredados, pois se assim for, ele vai mandar cobrir tudo novamente, pois deu certo não.

Sian, por falar nos personagens do descobrimento e como no curso tiramos uma manhã para bater uns retratos da Praia do Marco e seu encoberto e abandonado Marco de Posse, digo que aquela paragem histórica continua a esperar que os contadores da história passem por lá, não só para dizer o pouco já sabido, mas para cobrar daqueles que devem compromisso e se fazem de desentendidos. Você bem viu que o lugar é lindo, paradisíaco, cheio de bons predicados, mas não passa disso, sobrevive apenas dos discursos feitos da boca para fora e sem nenhum compromisso com a intenção.

Ei, amigo, você sabia que o município de Pedra Grande é bem servido de lugares, que se fossem em outros países, ou mesmo em outros sítios por esse Brasil de futuro incerto, estariam ilustrando bem-aventurados programas de ecoturismo? Pois é! Por aqui existem trilhas e mais trilhas por entre as matas da caatinga e dunas. Existem belas lagoas que mais parecem oásis em meio as agruras da seca que castiga a região. Porém, o que é mais fantástico, existem grutas de valiosas riquezas arqueológicas, Gruta de Lajedo e Gruta dos Martins. Assim como o Marco de Touros, as duas grutas, que tempos atrás mereceu aprofundado estudo por parte da cadeira de geologia da UFRN, estão malcuidadas, abandonadas e, segundo línguas afiadas, servem até como depósito de lixo, que se for verdade, configura um criminoso atentado contra a humanidade.

Pois é, meu amigo fotografo, sair por aí brechando o planeta, como ultimamente tem feito o querido jornalista potiguar Flávio Rezende, nos faz ver situações indesejáveis, mas nem por isso impublicáveis. Aprendi que o olhar é facetado e por isso o cérebro nos obrigada a mexer a cabeça para fugir das ilusões de ótica ou mesmo enxergar um pouco mais além do horizonte. Aliás, a ciência prova que enxergamos invertido e o cérebro é que apruma o foco. Agora me diga: O mundo está de cabeça para baixo ou de cabeça para cima?

Sian Ribeiro Sene, meu novo e bom amigo fotografo, já faz dias que você e a maravilhosa Laura Branco botaram os pés por aqui. Que tal começarem a aprumar os passos de retorno? Aqueles retratos que você deixou em exposição já estão amarelando e todos os dias olhos para eles com saudades, mas sabendo que são registros da vida e a vida amarela com o tempo.

Venha, meu amigo, venha provar do sabor dos frutos da semente que você plantou. Não foram muitos frutos, mas toda plantação começa assim.

Grande abraço,

Nelson Mattos Filho