Arquivo da categoria: Cartas de Enxu

Observando o mundo através da varandinha de uma casinha de praia.

Cartas de Enxu 29

4 Abril (164)

Enxu Queimado/RN, 09 de julho de 2018

Mas Governador, porque danado você não veio a Enxu Queimado, homem de Deus? Se foi pelo motivo alegado, na entrevista a um blogueiro da região do Mato Grande, acho que foi fraqueza de sua parte. Onde já se viu um governador se intimidar com protestos, ainda mais protestos que impedem a passagem da mais alta autoridade de um Estado em viagem oficial para cumprir compromissos? Sei não viu! Se eram baderneiros, como você falou, mandasse a polícia desobstruir a via. Se eram moradores, reclamando melhorias prometidas e nunca realizadas, fizesse valer o bom diálogo democrático e desse por resolvido a peleja, mas não pisar no lugar, dando meia volta enquanto estava a mais de 60 quilômetros de distância, foi surreal. Será que o senhor estava de olho no regabofe da fama em São Miguel do Gostoso, para onde se dirigiu após decidir não vir aqui?

Mas tudo bem, ou tudo mal, sei lá, aquele 4 de julho era mesmo dedicado a São Tomé, o israelita, aquele que só acreditava vendo, e sendo assim: Eu não estava acreditando que o Governador do Rio Grande do Norte não viria a Enxu inaugurar uma obra tão importante para a população, tão significativa em termos de ganho para a saúde pública. Obra que esse pequeno povoado praieiro esperava há mais de 40 anos e que deve ter custado uma bagatela do orçamento do Estado. Pois é, o senhor não veio e água encanada de boa qualidade foi liberado sem o tradicional “batismo” oficial. Dizem que quem não é batizado vira pagão. Será que o senhor vai permitir que a água encanada de Enxu Queimado, liberada em 04 de julho de 2018, siga pela história com essa mácula? Água pagã? Faça isso não governador Robinson Farias, deixe de birra e venha cumprir sua obrigação.

Dizem que certa vez o presidente Juscelino recebeu uma sonora vaia ao chegar a uma cerimônia oficial, mas não perdeu a pose e nem sua condição de líder popular, que sabia decifrar a linguagem do povo, ao declarar: “feliz é a nação que pode vaiar seu presidente”. Bastou dizer isso para os aplausos comerem no centro. Governador, tem um ditado que diz que “triste é o poder que não pode”. Não o poder de fazer e meter os pés pelas mãos em atos escusos, mas o poder do bem fazer, de proporcionar melhorias, de caminhar de cabeça erguida em meio a população sem ser apontado por algum dedo acusador, de ter a alegria de prestar contas de seus atos e esses estarem limpos e transparentes. Pois é Governador, o presidente Juscelino Kubitschek, com maestria, mudou o rumo de um momento delicado, pois tinha absoluta certeza do poder que tinha. Não que a história do mito de Diamantina não tivesse fases obscuras, mas ele entrou para a história de cabeça erguida e desfazendo obstáculos.

Claro que o senhor lembra do episódio com o deputado Ulisses Guimarães, oposicionista e líder do MDB em plena ditadura militar, quando caminhava com o grupo de campanha pelo centro de Salvador/BA e deu de cara com uma barreira formada por soldados armados de fuzis e segurando cachorros. Sem aliviar os passos, Ulisses disparou: “Respeitem o presidente da oposição”. Sendo assim, empurrou o cano de um fuzil para o lado, abriu caminho e seguiu em frente com o grupo que o acompanhava.

Pois é, governador Robinson, fico aqui pensando na sua não vinda a Enxu Queimado com medo de enfrentar manifestantes, que nem eram tantos assim. O que terá passado por sua cabeça? Será mesmo que o senhor achava que a população dessa praia linda e maravilhosa iria rechaçar sua vinda, ainda mais sendo para dar vida a um sonho antigo? Os meninos que estavam na “barreira” têm suas magoas, mas não são meninos maus a ponto de pretender agredir um governador. No máximo o senhor levaria uma sonora vaia e quem sabe uma chuva de ovos, porém, isso faz parte do enredo dos regimes democráticos. Dizem, que não ouvi, que uma de suas promessas de campanha por aqui, foi que traria a água e faria o asfalto na estrada que liga Enxu a Pedra Grande, sede do município. A promessa da água está cumprida, mesmo sendo uma água pagã, mas o asfalto foi esquecido e é justamente aí que o bicho pegou, porque a estrada, que o senhor não viu porque desistiu de vir, está em estado lastimável, para não dizer outra coisa. Aliás, não viu a estrada e também não viu as belezas da região, não viu o maravilhoso parque eólico, a fábrica de torres, não viu a beira mar que precisa de ações urgentes, pois Netuno ameaça invadir com seus exércitos, não visitou uma comunidade alegre e em paz. Em paz sim, pois neste paraíso ainda não chegou a tal violência que assombra seu governo. Não sentou na beira mar, sobre uma jangada, para bater um papo descontraído com essa gente feliz. E o pior, não sentiu o sabor de uma suculenta posta do peixe serra, acompanhado de uma cerveja gelada. Eita que é bom demais, homi!

Venha governador Robinson Faria. Venha sem medo e inaugure a obra por seu governo construída. Se o povo tiver de cara feia, desça do carro, abra um sorriso e chame os meninos para uma conversa de pé de ouvido, que garanto que serás bem-sucedido.

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 28

1 Janeiro (182)

Enxu Queimado/RN, 03 de julho de 2018

Sabe, Doutor Virgílio, estava aqui pensando, enquanto me espicho na rede armada na varanda, que até hoje não consegui definir o que o senhor representa para mim e meus irmãos, pois amigo é pouco para o tanto que você é. Quem sabe tio, mas há quem diga que tio é parente! – O que? – Pronto, achei a palavra certa: Tio. Tio Virgílio, porque sua amizade com meu Pai e Tio Emídio, meu segundo pai, se dava numa fronteira onde parentesco e amizade é retórica. Mas nem pense que vou me avexar a lhe chamar de tio no decorrer dessa missiva, viu! E vou tratar de entrar nos detalhes dos ocorridos nessa Enxu mais bela, pois a noite já vai longa. E tem moído que nem presta!

Antes que esqueça: Quando vem por aqui para saborear uma cioba gorda? Dr. Liu, o mar aqui é bom de peixe e dá de tudo. Lagosta tem também, mas os tempos estão cruéis para aqueles pescadores que se aventuram a mergulhar em busca das bichinhas. A pesca abriu no começo de junho, porém, até agora, o que foi pego não deu nem para o gasto. Lembro de quando pisei pela primeira vez os pés nessas areias, coisa de mais de 29 anos, que na época da lagosta era festa muita. Tinha caboco que tomava banho de cerveja e depois tirava o excesso com água mineral. Era um tal de chegar caminhão carregado de móveis e utensílios novos para casa, que era bonito de se ver. Carro zero quilômetro, então, vixi! Eram tempos de fartura e sabe o que se dava? No ano seguinte recomeçava o reboliço. Cansei de sentar na calçada da casa de Dona Tita e Seu Nilo, durante a noite, para saborear caldeirões de lagostas no bafo, acompanhado de cerveja, como diria o rei do baião, escumando. Nessa peleja virávamos a noite e ainda sobrava para o dia que vinha. – E acabou porquê? – Vai saber! É tanto disse me disse que é melhor deixar quieto.

Dr. Liu, sabe o que eu queria ver? Queria ver Nelson Mattos e Emídio Mattos batendo pernas por esse paraíso praia. Papai munido com o trombone de vara e Tio Emídio com aquela vasilha de sorvete que ele levava para a casa de Ponta Negra. Eita que a meninada ia adorar!

Liu, venha aqui, homem de Deus, que garanto um estoque novinho de piadas, causos e afins para sua enorme coleção de moídos. Venha sentar sobre uma jangada, na beira mar, para jogar conversa fora com Seu Neném Correia e a galera que não perde um bom bate papo. Durante o falatório você vai alegrar a turma com aqueles causos que só você sabe contar. Eita que vai ser bom! Mas, peraí, esqueça a história daquele “bicho” que Moquinho matou no banheiro, viu!

Dr. Liu, mudando de pau para cacete, tenho achado um bocado de graça com as coisas que me chegam pelas ondas da internet. Por aqui o sinal da internet é bom, apesar de alguns pormenores básicos, e basta piscar o olho para a tela se encher de novidades. Tem umas coisas cabeludas que bem cabiam nas atrações dos velhos trens fantasmas, mas dessa eu tiro de letra, pois danado e quem se mete a discutir os pormenores dessa politicalha barata, aliada aos destrambelhos de uma justiça sem freio. Pois bem, já que pulo essa casa, vou me arvorar da seguinte que é bem mais engraçada. Tempos atrás ouvimos ecos, vindos do planalto central, que afirmava que iriamos estocar ventos e o eco rendeu boas piadas e charges. Agora vejo que um general iraniano está acusando Israel de roubar nuvens. – Como assim? O militar ajuntou a impressa e declarou em alto e bom som, como assim fazem os generais quando querem mandar recado, que os meninos de Netanyahu estão “manipulando as condições meteorológicas” com o intuito de evitar que caia chuva no Irã. – Pode isso, Arnaldo?

Segundo o soldado do aiatolá, as mudanças climáticas no Irã são suspeitas e Israel e outro país da região, trabalham juntos para que as nuvens que entrem no território dos antigos reis aquemênidas não produzam chuvas. Diante dessa conversa mole do general, fico matutando: Quem danado está manipulando as nuvens desse Nordeste velho de guerras? E desse sertão sofrido do Rio Grande do Norte? Será que foi praga de Lampião e seus cabras da peste? Pense num povo amalucado! Deus é mais!

Dr. Liu, e por falar em água, pois num é que amanhã, 04/07, dia do israelita São Tomé, aquele que só acreditava vendo e por isso tomou uma reprimenda do Senhor, chega por essa prainha linda, o Excelentíssimo Governador do Estado, Robinson Faria, para inaugurar e dar vasão ao bem da vida nas torneiras de Enxu. Doutor, dizem que o povo está se manifestando para dar nó em pingo de água diante da presença do homem. Vamos ver, mas tomara que ele saia daqui com boa impressão, pois esse paraíso merece muito mais e o povo é ordeiro.

Doutor Virgílio Alexandrino Neto, Liu, meu tio por querença, pegue Dona Nair pelo braço e venha tomar uns banhos de praia no mar daqui, pois é bom demais da conta. Venha deitar o esqueleto numa rede armada embaixo da varanda dessa cabaninha de praia e ver o mundo de um jeito encantador.

Grande abraço,

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 27

10 Outubro (151)

Enxu Queimado/RN, 24 de junho de 2018

Sabe, Lucrécio, o tempo bem que poderia, de vez em quando, dá um retornê em vez ficar ligado direto no alavantú, pois seria bom demais. Na verdade, o “bom demais” é um desejo, até porque acho que tiraria um pouco do encanto dos momentos de ouro que um dia vivemos na infância e adolescência, fases mágicas da vida e que a mocidade de hoje tem feito de tudo para pular essas casas. – O que você acha?

Estava eu aqui curtindo as estrelas da noite, que nessa Enxu mais bela fazem um espetáculo à parte, quando recebo mensagem de minha irmã Bebete falando da saudade dos ensaios das quadrilhas de Dona Iaponira e Zé Carvalho, o casal baluarte daquele pedacinho do céu, formado pelas ruas Almirante Teotônio de Carvalho, Conselheiro Brito Guerra e Hemetério Fernandes. Claro que aquele céu se estendia por outras ruas, mas essas três formavam uma trinca quase perfeita. – Quase? – Sim, quase, pois a perfeição não é coisa do nosso mundinho metido a besta. Rapaz, as quadrilhas de D. Iaponira fizeram história e duvido que algum daqueles felizes brincantes tenha esquecido. Pois bem, bateu saudade em Bebete, que estava no forte apache de Ceminha, e mais do que depressa ela tratou desencadear o turbilhão através das ondas ligeiras do “zapzap”. E num é que conseguiu! Eita tempo bom da mulesta!

Queço, era ela falando e minha cabeça de vento se danando em vasculhar nos arquivos da memória em busca das velhas e vivas imagens, os sons, os cheiros, as cores, os sorrisos, as alegrias, os choros, os sabores e mais uma danação de coisas que espero jamais se desbotem. E você sabe o que pedi a ela, já que estava no pedaço? Pedi que tirasse um retrato da Rua Teotônio de Carvalho naquele momento e ela o fez, com receio mas fez! – Receio? – Sim, meu amigo, receio, pois os tempos de hoje, naquele outrora céu, já não permitem que fiquemos marcando bobeira no meio da rua. E ainda vem “zé bonitinho” abrir a boca para declarar que está tudo normal. Pense num caba de peia!

Pois é meu amigo, o retrato veio e veio também, além da saudade, o silêncio, a tristeza e a melancolia que realçavam em cada pedacinho da imagem. O que fizeram daquele nosso céu? Quem deletou a alegria que pairava sobre aquele pedacinho de paraíso? Por onde andam o Cego, Trimegisto, Barriga, Curumim, Sarará, Jorge Pilha, Gambéu, Berís, Bolinha, Ci, Beta, as Jacks, Lila, Paulinho, Juninho, Seu Murilo, Ana, Maninho, Tiana, Mingo, Tutu, Ieié, personagens da turma menor? Esqueci alguém? Claro que sim, pois se assim não fosse, não era assim! E os maiores, Maninha, Dodora, Zé Filho, Ricardo, Nanã, Bebete, Rose, o Bárbaro, Fernandinho, Jussara, Raíssa e mais os que me faltam na memória? Lucrécio, no retrato não tem fogueira, não tem bandeirinhas, não tem balão, não tem fogos, não tem sanfoneiro, não tem milho assado, não tem pamonha, canjica, bolo pé de moleque, bolo de milho, de carimã, de macaxeira, não tem nem fumaça, meu amigo! Cadê Dona Iaponira? Porque será que ela não veio lá do Céu de Nosso Senhor para botar fogo na festança? É triste, Queço, mas o tempo é cruel, deixa marcas e o pior, não tem anarriê, se muito um balancê.

Mas meu amigo, não fique triste por causa das minhas saudades, pois as saudades daqueles dias levarei com alegria ao longo de minha caminhada. Aqui acolá largarei umas pedrinhas, que é para não perder o rumo da volta. – Volta? Sim, homi, volta aos arquivos! – Ei, Nelsinho, está cartinha não é de Enxu, porque danado você tá falando tanto das bandas do Tirol? – Eita, num é mesmo! Vou mudar o rumo da prosa, porém, tem um negócio que sempre me encasquetou: Quem foi o Almirante Teotônio de Carvalho? Alguém dá de conta? Será que o homem era almirante de Marinha ou de marujada? – Pronto, agora mudo o rumo!

Lucrécio, não sei como andam as coisas pela sua praia da Pipa, mas por aqui vai tudo bem e até bem demais. Tem umas faltinhas aqui, ali, porém, nada que desagrade um observador do cotidiano da vida. Meu amigo, só em ter a bendita paz já vale um mundo, e aqui tem, viu! Claro que não é aquela paz que tanto sonhamos, mas é paz. Para você ver, o “delegado” Marcelo passa prá lá, passa prá cá e volta para o quartel feliz da vida, pois aqui a tal da violência desenfreada que assola o Brasil, ainda não deu as caras. Tem uns gaiatinhos que se metem a besta, mas não passam de bestas e tudo se resolve com um aceno de mão ou com um olhar travante por parte do delegado.

Meu querido amigo, Lucrécio Siminea de Araújo, ouvi dizer que você continua nas ondas do surf e digo que aqui também tem uns surfistas. Não temos aquelas ondas de campeonato, mas dá para matar a tara da garotada. – Ei e o futebol? – Você era bom de bola e todos gostavam de jogar no seu time. – Você ainda dá uma botinadas na pelota? A turma aqui bate um bolão e tem gente que se quisesse teria futuro em time profissional. Mas o tempo voa, a bola sai pela lateral e se perde no vazio da vida.

Lucrécio, poderia muito bem falar dos festejos juninos daqui e até da Copa, porém, vou deixar para comentar com outro amigo, pois já ocupei demais seu tempo.

Ei, venha aqui homem de Deus, precisamos emendar os bigodes nos bate papos, pois faz tempo que a gente não se vê e adoro sua alegria contagiante.

Grande abraço.

Nelson Mattos Filho

Agradecimento

IMG-20180624-WA0004_1Pois num é que a Carta de Enxu 12, escrita em 25 de março de 2017, foi parar nas mãos do destinatário e o mesmo sapecou os escritos na coluna de WM, no jornal Tribuna do Norte. Pois foi e está lá bem bonitinha neste  domingo, 24/06. E para agradece a deferência, me avexei assim no “imeio” de Seu Woden: Caro jornalista, você não sabe como foi bom para a alma, e para curar a ressaca brava das fartas doses de Papary, tomadas na beira da fogueira em homenagem a Seu João, ver a Carta de Enxu 12 fazendo fita na coluna do WM. Obrigado pelas palavras iniciais e fico aqui na esperança de um dia vê-lo sob as sombras da cabaninha de praia que tomo conta.

Cartas de Enxu 26

10 Outubro (14)

Enxu Queimado/RN, 06 de Junho de 2018

Eh, meu amigo Venício, acho que chegamos finalmente ao tão sonhado século XXI. Você lembra, claro que lembra, das invencionices contadas pelos nossos pais de como seria o mundo quando chegássemos ao ano 2000? Falavam em carros voadores, passeios espaciais, moradias em Marte e outras milongas mais. Seríamos os Jetsons em carne e osso. Eita que era bom ouvir aqueles moídos e sonhar com a vida daquela família que era o futuro puro e simples. Pois é meu amigo, com dezoito anos de atraso, nada demais em se tratando de ciência, finalmente vemos os primeiros carros voadores tomarem os céus das cidades e, por incrível que pareça, sem chofer. Rapaz, é muita onda, viu!

Aí você irá pensar assim: – Onde danado Nelson tá vendo essas coisas? Será que em Enxu já tem carro voador? – Hahaha, tem não meu amigo, me assunto mesmo é pela tal da internet, que tomou conta desse planetinha azul, de cabo a rabo. Deito na rede, acessando a grande rede, que esqueço do mundo, enquanto os assuntos mundo afora chegam avexado que nem ontem. – Entendeu? – Nem eu, vôti!

Pois bem, abri a telinha e lá estava dizendo que o povo do Google tá nos finalmente para fazer um carro levantar voo e a geringonça se chamará Flyer. Só não vi se terá modelo L, LX, LG, XL ou 1000. Vou perguntar a Luciano de Tita ou a Rodrigo de Paula, os dois mecânicos mais afamados daqui, pois eles devem de saber alguma coisa. Mecânico sabe tudo e um pouco mais! Tomara que eles saibam, pois senão souberem vão é rir da minha cara. – Onde danado tu ouvisse essa mentira Nelson? – Onde já se viu carro voar? – Quem voa é avião! Parece que estou vendo a resenha!

Mas Venício, não é só o doutor Google que se meteu a fazer carro avoar, não, pois os meninos do Uber fizeram pareia com os galegos do 7 a 1, se adiantaram na trapizonga e até botaram os xeiques das arábias para voar num carro drone, cheinho de ventilador no teto. Meu amigo, ria não, pois se os homens das arábias se ariscam em tapetes voadores, imagine num carro que avoa! Isso é besteira pouca! Homi, agora eu vou contar: Dia desses, me chega um amigo, vindo lá das alagoas, e tira do bisaco um drone, dizendo ele que iria bater uns retratos. Ligou o bicho, as hélices começaram a giram fazendo um zumbido que nem uma ruma de muriçoca, as luzes começaram a piscar, meu amigo testou os controles remotos e lá se foi o estranhento pegando altura. Pois quando o bicho emparelhou com as cachadas de cocos do coqueiro, deu um pé de vento que se não fosse a ligeireza do controlador, em trazer o mosquito de volta ao terreiro, era bem capaz do danado ter ido parar nos quintos do judas. – Meu amigo, ninguém tira brincadeira com os alísios do Nordeste quando eles estão apoquentados, não! Vai brincar pra tu ver a cor da chita!

Ei, mudando de voo de carro para voador, você sabia que em Enxu tem caviar? Pois tem! E dizem que o caviar tem o mesmo sabor do que é produzido no estrangeiro, só que o de lá vem da ova do esturjão, peixe que nada nas águas da Rússia e do Irã, e são os mais famosos e mais caros do mundo. O nosso é o primo pobre e vem da ova do peixe voador, peixe que no mar entre Enxu Queimado e Caiçara do Norte, dá que só peste. A ova é pega, pelo menos aqui é assim, com uma armadilha feita com os galhos que sobram dos cachos de cocos, que são lançadas ao mar para os peixes depositarem as ovas. Tem barco que chega com mais de 500 quilos de ova em cada viagem, e entregam o produto aos atravessadores na faixa entre R$ 7,00 e R$ 10,00 o quilo. O que acho estranho é que nessa região ninguém sabe como beneficiar o produto para consumo, o que para mim é um pecado. A ova do voador é uma iguaria rica na cozinha japonesa, que eles chamam de Tobiko, e são comumente utilizados para rechear sushis e outros pratos. Mas fazer o que, num é? As coisas são como são e quem sabe um dia apareça um filho de Deus por essa região para ensinar os segredos dessa iguaria.

Pois é, meu amigo Venício Gama Pacheco, por aqui as coisas vão indo assim e vou contando aqui, acolá como elas são. Fico imaginando no dia em que chegar por aqui os carros voadores e dentro de um deles, buzinando aos quatro ventos, meu amigo Pedrinho de Lucinha aboletado em um deles. Vai ser onda, viu! Quanto ao caviar do voador, até já comi uns sushis com aquelas bolinhas coloridas, só não sabia de onde saía aquela delícia, mas agora já sei e juro que gostei pra valer. Do caviar do esturjão já provei e digo que nem achei lá esse babado todo, mas parodiando Zeca Pagodinho, “…já tirei essa chinfra…”.

Caro amigo, vou ficando por aqui viu, porque a noite já vai alta e Lucia já está com os olhinhos miúdo de sono. Beijo em Sandroca e outro para tu.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 25

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Enxu Queimado/RN, 03 de junho de 2018

Caro amigo Peralta, que danado de mundo é esse tão cheio de peraltices? Pois é, meu amigo, a coisa está esquisita, como bem disse um amigo, morador dessa Enxu mais bela. E por falar nisso: Quando você dará o ar da graça por aqui? Já se foi tempo que botasse os pés nessas areias, viu! Tá bom de se achegar novamente para ver como as coisas mudaram e nem as dunas são mais as mesma, pois deram um chega para lá nos montes de areia e plantaram uma colossal floresta de cata-ventos. Ficou uma paisagem surreal, que enche os olhos do povo que adora falar em progresso, mas para um saudosista inveterado como eu, restou apenas lembranças e interrogações sem respostas.

Velejador, você bem sabe que esse negócio de deitar o esqueleto numa rede para ver o tempo passar e coisa medonha de boa, mas deixa o caboco cheinho de confabulança, porém, assim mesmo que é bom, ainda mais quando a redinha, macia e cheirosa, está esparramada numa varandinha ventilada e perfumada pelas palhas verdes de um coqueiral. Pois é nessas horas que me avexo em curiar os noticiados deste planetinha azul e foi daí que li na coluna do jornalista Woden Madruga, assentada no jornal Tribuna do Norte, periódico que em tempos idos rabisquei páginas e páginas do Diário do Avoante, de que o mercado de livros no Brasil está caminhando avexado para o volume morto e no período entre 2006 e 2017 encolheu 21%, com os escritos de obras de ficção e não ficção liderando a queda com 42%. O povo num lê mais não, meu amigo! Só quer saber de zap zap e, como diz Woden, “faicebuqui”, e mesmo assim se for texto com, no máximo, duas linhas e com fundo colorido.

E por falar em livros, nas calmarias dessa prainha gostosa tenho lido um bocado e até dei por fim o primeiro volume da biografia do inglês Winston Churchill, caboco bem colocado nos anais da história do século XX. O inglês era bom e assinou o jamegão em uma ruma de passagens históricas do mundo em meio ao reboliço de duas grandes guerras. Agora estou pegado com os pecados e mistérios de Pilar, uma maranhense arretada e personagem principal do livro, A mãe, a filha e o espírito da santa, do autor PJ Pereira. Sei não, viu meu amigo, mas esse mundo da fé é meio desvairado!

A rede deu um balanço e dei de cara com notícias estelares insinuando que o mundo das estrelas tem, por baixo, uns 100 planetas habitáveis. – Será verdade, professor? Se assim for, o futuro será o céu e as estrelas. O problema vai ser fazer os homenzinhos verdes acostumar com nossas maruagens. Os estudiosos terráqueos apostam que em menos de 15 anos teremos a resposta se os orelhudos verdes existem de verdade ou tudo não passa da nossa fértil imaginação. – Será que tem funk? – E batidão? – Vixe, se não tiver eu pego o primeiro foguete!

A rede foi, voltou, a página virou e as notícias continuaram nas estrelas e dessa vez anunciando que a lixeira espacial está de vento em popa, com mais de 500 mil detritos vagando sem rumo sobre nosso quengo. O problema é sério, pois não tem ninguém na Terra com vontade de resolver a bronca. Os sabidos só sabem jogar as gerigonças para cima, mas nenhum tem o discernimento de saber quando, como e se um dia o rebolo volta. Ainda bem que Enxu fica num pedacinho quase invisível do mapa do mundo e acertar um alvo tão pequeno, só mesmo se for por azar.

Peralta, e a greve dos caminhoneiros? Seu menino, até aqui nessa vilazinha de pecadores a coisa deu ruim e até hoje, 03/05, dias depois que os polícias engrossaram a voz, ainda tem prateleira vazia. A padaria já anunciou que vai parar por falta de farinha, a batata inglesa virou pepita de ouro e assim vai a reza. A gasolina nem se fala, pois para falar tem que pagar. E o diesel, motivo maior da greve, ninguém sabe, ninguém viu e ninguém aposta que vá baixar de vera. As más línguas dizem que baixa e o governo vai pagar a conta inteirando o valor que faltar, e como ele é nós, quem paga é nós. Dizem que a Petrobras é nossa. – Como nossa, cara pálida? – Minha parte é só para pagar pelo prejuízo, é? – Vots, pode me tirar dessa sociedade!

João Jorge Peralta, velejador e professor arretado, desculpe encher seus miolos com esses moídos sem pé, nem cabeça, mas é, como disse no início dessa missiva, confabulações criadas enquanto balanço nessa redinha aconchegante e observo o balé do coqueiral. Venha aqui meu amigo, venha ver a vida por uma visão mais humana, mais simples e sem os cacoetes das grandes cidades. Venha espichar o corpo numa rede para esperar as respostas da alma. Venha saber com quantos paus se faz uma jangada e se inteirar dos segredos existentes na trama das costuras das redes de pesca. Venha, meu amigo, e venha logo, pois estamos na abertura da temporada da pesca da lagosta e por aqui a produção é decente. Quem sabe sobra algumas para enfeitar a churrasqueira!

Abraços.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 24

4 Abril (164)

Enxu Queimado/RN, 09 de maio de 2018

Lourdinha, fico aqui na maciota dos balanços da rede e de olhos vidrados no sacolejo delirante das palhas dos coqueirais, que a vida passa e nem vejo. Mas fique com inveja não, pois esse aparente desestresse é coisa de minha cabeça de vento, pois o que mais tem sob o teto dessa minha cabaninha de praia é trabalho, porque se assim não fosse, como danado você iria comer aquelas saltenhas deliciosas, os nhoques, os quiches, as pizzas, tudo feito com o mais refinado carinho do mundo, pelas mãos abençoadas de Lucia. Ceminha diz assim: – Tudo que Lucia faz eu acho bom! Pois se é bom mesmo, eu vou dizer o que, num é não?

Amiga, quando será que você vai dar o ar da graça por aqui? Se adiante e venha logo, para ver que nesse Rio Grande do Norte ainda tem uns lugarzinhos gostosos que nem os descritos nos livros que falam do paraíso. Claro que não tem aquela maça apetitosa e nem o casalzinho que deu início ao falatório do pecado, mas tem peixe que só vendo e prosa tão boa, que faz a gente esquecer as maldades do mundo. Para animar sua vontade, e sabendo que você aprecia história dos povos, vou contar um tiquinho sobre o lugar que estou vivendo.

O município de Pedra Grande, do qual faz parte Enxu Queimado, tem a minha idade, aliás, dizem que 1962 foi o ano que nasceu as lendas. – Se foi não sei, mas já que dizem, vou por aí cheio de pretensões. Mas amiga, se inteirar sobre a história dos municípios brasileiros, e nem sei se mundo afora é igual, é uma aventura desgastante e que nos deixa com aquela velha cara de sei lá. É tanta desinformação, tanto disse me disse, tanto chafurdo, tanto foi não foi, que no fim das contas é como se quer que seja e ponto final. Bem, o conto é que o povoamento daqui teve início em 1919, pela insistência do agricultor João Victor, que cercou umas terrinhas para montar um sítio em homenagem a São João. Vendo a fazendinha criar marra e querendo marcar terreno, vieram da localidade de Canto de Baixo, que pertencia ao município de Touros, os trabalhadores rurais Manoel Felix de Morais, Januário Pedro da Silva, Manoel Gabi, Januário Lucas e Manuel Pulu, daí se foi o tempo, o povoamento cresceu e de um pulo virou distrito de São Bento do Norte, até que em 1962, o governador Aluízio Alves, meu padrinho, fez correr os papeis e numa canetada só criou o município de Pedra Grande.

Aí você haverá de perguntar: – E de onde saiu o nome? Respondo, mas antes preciso dizer que pesquei a maioria das informações, aqui contidas, no blog Pedra Grande, assinado por Jota Maria, que não conheço e nem sabia que existisse o blog. Tentei me inteirar no site da prefeitura local, mas não existe nada sobre o assunto. Pois bem, Jota diz que antigamente existia uma grande pedra nos arredores do povoado e os moradores começaram a chamá-la de Pedra Grande e assim ficou, pois a voz do povo é a voz de Deus e não se fala mais nisso. O moído é bom, né não? E tem mais e o mais nos arremete de encontro a umas Naus e Caravelas que andaram errantes pelos mares de Netuno, mas aí é conto longo e que deixarei para outra carta, para não apoquentar seu juízo.

Lourdinha, o município cinquentão, bem novinho por sinal, tem, segundo o censo de 2010, polução de 3.521 habitantes e densidade demográfica de quase 16 habitantes por quilômetros quadrados, mas o que me chama atenção é que no gráfico do Índice de Desenvolvimento Humano, ele está no nível 0,559, baixíssimo para um município que ostenta, se você não sabia, um enorme parque de energia dos ventos e este está dentro da área que engloba, talvez, o maior parque eólico brasileiro. Viva o paquistanês Mahbub ul Haq, que acreditou e fez o mundo ver que o desenvolvimento não se mede apenas pelos avanços econômicos, mas também pelas melhorias do bem-estar humano. – Sabe o que me deixa abismado, amiga? – E que em pleno século XXI os administradores públicos não aprenderam, ou não querem aprender, uma lição tão simples.

Lourdes Gonçalves Oliveira, minha amiga pesquisadora e letrada, que tal debater esses assuntos sob a sombra da minha varandinha, debruçada diante do coqueiral e comendo peixe frito acompanhado de uma deliciosa tapioca com coco? Por aqui tem muita coisa para ser oferecida nos reclames turísticos do RN, apesar de muito se encontrar invisível ou camuflado entre os desejos dos homens. Venha aqui mulher de Deus! Traga seu caderninho de anotações para recheá-lo de causos e quem sabe consiga garimpar provérbios sertanejos e praieiros para um novo livro.

Lucia manda um beijo e promete ensinar-lhe a preparar os nhoques.

Nelson Mattos Filho