Arquivo da categoria: Cartas de Enxu

Observando o mundo através da varandinha de uma casinha de praia.

Cartas de Enxu 13

10 Outubro (188)

Enxu Queimado/RN, 17 de abril de 2017

Meu caro Pinauna, antes de me avexar em escrevinhar as linhas dessa carta, digo que por aqui está tudo nos conformes, mas ainda muito longe dos dias que passamos sobre as verdades verdadeiras do mar, mas tirando os nove fora e como diria um garotinho que certo dia nos serviu de guia pelas trilhas da serra de Martins, município localizado no alto oeste potiguar, lá na tromba do elefante: “Tá mais bom do que ruim! ”.

E já que falei em Martins e como você é um geólogo bom que só a mulesta e de vez em quando se arvora em fazer rastro pelas estradas do sertão brasileiro, vou dar a dica para na sua próxima viagem, incluir a Princesa Serrana e seus 700 metros de altura em relação ao mar, em seu caderninho. Lá tem frio que só vendo para crer e todos os anos a turma da alta gastronomia monta barracas, fogões e se dana a produzir gostosuras. Dizem que é o maior festival gastronômico de rua do Brasil. Dizem, viu! E tem também umas cavernas boas para o olhar de quem estudou pedras e buracos. Mas vou parar por aqui, pois já fiz propaganda demais da terra alheia e como diz o título, a carta e de Enxu, que fica no beiço da praia e um bocado de légua longe das serras do Oeste.

Pinauna, meu amigo, você pode até ficar matutando sobre o motivo dessa cartinha, mas digo que fique não, pois sempre lembro daquelas prosas boas nas varandas do Aratu Iate Clube, diante de um pôr do sol lindo sem igual, onde de vez quando você chegava com um livro debaixo do braço e perguntava: – Tem esse comandante? Se tiver passe para outro, se não tiver é seu. Rapaz, você me presenteou com cada raridade de fazer inveja a um monte de gente boa. Aquele sobre os Saveiros e aquele outro sobre as embarcações brasileira, foi demais da conta. Pense em dois livros que me renderam um punhado de conhecimento! Sempre que vou à praia, para uma caminhada ou comer um escaldaréu embaixo de uma cabaninha de palha, fico sentado e em silêncio em frente as jangadas e viajo em pensamento pelos oceanos do mundo. Tudo que vejo ao vivo está naqueles livros. As formas, o tabuado, as velas, as ferragens, a entrada do vento, a saída da água, as histórias e os causos contados em sussurros por interlocutores invisíveis. Eita coisa boa que muitos nem imaginam existir! Lembro de uma frase do Teatro Mágico que diz assim: “É simples ser feliz. Difícil é ser tão simples”.

Velejador, as jangadas de Enxu são bonitas, viu! Num tem muitas não, mas o suficiente para encher os olhos de um amante do mar. É gostoso observar suas idas para a lida e a hora da volta do mar. A velinha branca crescendo no horizonte, os cestos carregados, o olhar de cansaço do jangadeiro, a troca de palavras que somente eles entendem, a puxada do barco sobre troncos de coqueiro, a lavagem do convés e a caminhada do homem levando para casa o seu quinhão. Tudo meio mágico, tudo meio rude, tudo muito belo e dotado de muita sabença. Dizem que o povo do mar é encantado. Será verdade comandante? Um dia tentarei descobrir.

E as chuvas, meu amigo? Por aqui está assim meio sei lá e até já li nos jornais que a seca continua firme, forte e tá nem aí para o volume de chuva que São Pedro já mandou. Os homens do tempo dizem que falta pouco menos de 40 dias para as nuvens secarem de vez pelas bandas do Nordeste e se não houver uma reviravolta milagrosa, a chapa vai esquentar. Tomará que São João venha chuvoso e São Pedro assine em baixo, que é para o forró ser animado e tenha milho para a canjica e a pamonha. Por enquanto, chuva para valer é promessa santa e a seca, agouro da turma do quanto pior melhor. Agora me diga como está nas terras do Senhor da Colina Sagrada?

E por falar em chuva: Vi uma matéria num site daqui que uma pesquisadora da UFRN anda escavacando o semiárido potiguar em busca de respostas para a elevada incidência de câncer no pequeno município de Lages Pintada, que apresentou 415,2 casos para uma população de 4.614 habitantes. O estudo aponta para a péssima qualidade da água retirada do açude que abastece parte do lugar, mas também mira nos afloramentos rochosos que cercam a cidade, e na presença de ionizantes naturais que liberam gás radônio, que libera o chumbo para o meio ambiente. A cidade que fica a 135 quilômetros da capital, a mesma distância que separa Enxu Queimado de Natal, convive com a seca, mas é abastecida em parte por uma adutora. Aí você há de perguntar: – E para que beber água do açude? Meu amigo, as coisas das politicagens são como são e não como é para ser. Rapaz, eu nem te disse que em Enxu a água vem de poços artesianos meia boca. Pois é, um dia ia ter água encanada e teve até cano enterrado, mas aí é outra história e nessa prosa cada um que conte um conto.

Pois é eu amigo Sérgio Netto, Pinauna, desculpe lhe avexar com os percalços de minha terra, mas queria enviar notícias e falar um pouquinho do cotidiano da minha vida de praieiro. Mando um abraço para Dona Mila e Lucia manda um beijo para os dois.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 12

2 Fevereiro (165)

Enxu Queimado, 25 de março de 2017

Sabe meu caro Woden, não o conheço pessoalmente, mas admiro seu trabalho, sua resistência jornalística e leio assiduamente a Coluna do WM nas páginas do jornal papa jerimum Tribuna do Norte, sei que isso não me credencia a sua amizade, porém, me sinto seu amigo pela via do seu filho, Woden Junior, parceiro “derna” dos bons tempos de uma Natal apaixonante e que deixou saudades em quem a viveu. Como dizia o personagem Lilico, o “Homem do Bumbo”, do programa A praça é Nossa: “Tempo bom, não volta mais, saudade… de outros tempos iguais! ”. Depois dessa breve e simplória apresentação, sigo em frente no rastro da chuva que acompanho de minha cabaninha de praia.

O texto de sua coluna do dia 24 de março, depois de discorrer sobre os meandros e segredos do tempo, coisa que os meteorologistas andam mais perdidos do que cego em tiroteio, você fechou o firo com a frase “O Nordeste é mesmo uma Academia”. Pois digo que é mesmo e os estudiosos do clima precisam tirar um tiquinho a atenção dos satélites e computadores para dar um passeio pelas Academias das feiras livres e bancos de praça do interior, pois é ali que se passam as verdades verdadeiras e as esperanças tomam ciência do sim ou do não. E tem mais, esse negócio de “normal” e “abaixo da média” e palavreado de arrodeio.

Seu Woden, não sou do campo, gosto mesmo é das diabruras do mar, pois é nos verdes campos de Netuno e Iemanjá que a vida conta léguas para tirar a prova dos nove daqueles que dizem saber das coisas das navegações. Já vi muito valente acabrunhado diante de uns torinhos de mar, mas também já vi muitos grumetes de alma lavada, pois na lei dos oceanos o que vale mais é o reconhecimento do medo e a vontade do constante aprendizado. Porém, digo que no terreiro dessa cabaninha de praia, que vim ficar debaixo depois que desembarquei do Avoante, me arvorei a espalhar umas sementinhas pelo chão e não me canso de procurar nuvens de chuva nos quadrantes do céu. O feijão já tá bota, não bota. O milho, que plantei um dia desse, já apontou, o inhame está bonito que só vendo e as fruteiras estão faceiras e botando safra. Para quem até uns dias passados estava balançando num veleirinho no meio do mar, até que estou indo bem.

Fico vendo suas notícias de volume de chuva pelo Rio Grande do Norte afora e fico imaginando onde danado você consegue esses números tão milimétricos. Por aqui, nessa Enxu Queimado de uma pequena Pedra Grande, essas informações estão mais raras do que onça brava. E por falar em onça, de vez em quando algumas davam as caras por aqui, mas depois que os parques de energia dos ventos tomaram conta da caatinga, passando o trator em tudo que é pé de jurema, os bichanos se escafederam. Jornalista, se fosse só na mata nativa do sertão estava até bom, mas o trator passou raspando tudo que é duna e daqui uns dias vamos saber apenas que existiu umas tais areias andantes que engoliam cidades.

Mas voltando a frase que fechou sua coluna do dia 24 de março, comentei com Lucia, a dona do meu ser, e como ela pergunta tudo ao pé da letra, tratou logo de interrogar: – Academia de que? Respondi que era Academia de ensino e que seu artigo falava dos erros e acertos dos homens que estudam o tempo. Ela deu um gole no café e disparou: – Eles erram porque não se apegam nos ventos, se prestassem atenção no que dizem os ventos não errariam tanto. Eu ainda quis argumentar falando nos “meninos” dos Andes, mas fiquei quieto. Em nosso tempo de vida a bordo eu nunca acertei uma quando o assunto era se iria chover ou não. Quando eu dizia que vinha chuva, Lucia botava a cabeça fora da gaiuta, olhava para o poente e sentenciava: – Vem não! Aí eu dizia: – Mas amor, o vento está vindo de lá e vem trazendo muitas nuvens escuras. – Mas não vai e pode tratar de terminar o serviço que começou ontem, viu! Pronto, acabava o assunto e a chuva.

Meu caro jornalista Woden Madruga, não sei onde fica Queimada de Baixo, recantinho de terra que você tem tanto carinho e que acolhe uns rebanhos de bodes manhosos, mas um dia vou dar um passeio por lá. Agora, se quiser comer umas postas de bicuda gorda e uns galos do alto mimosos, apareça em Enxu Queimado que garanto que Dona Lucia prepara um pirão de fazer pareia com o da Comadre. Minha casa é fácil de achar, basta chegar e perguntar, porém, se ninguém souber é porque você não está em Enxu.

Eita que já ia esquecendo de assuntar que o tempo hoje, 25 de março, sábado de quaresma, foi de Sol forte e poucas nuvens, porém, o chão está bem chovido. Anote no seu caderninho da chuva, viu!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 11

3 Março (7)

Enxu Queimado, 19 de março de 2017

Fernando meu amigo, como vão as coisas por aí nesse dia de São José? Por aqui estou com um olhar que beira o pessimismo, porque sempre ouvi falar que quando não cai chuva boa no dia do Santo anunciador de esperança, a vida tende a ser difícil para os lados do sertanejo, como se já não fosse sempre, pois sertanejo é povo sofrido, mas trabalhador que só vendo. Quando eu andava pelo meio do mundo aboletado em um veleiro, as esperançosas chuvas de 19 de março passavam meio que despercebidas, apesar de ser uma data em que os ventos vindos do Sul começam a tomar gosto e era chegada a hora de rever rotas e aprimorar as regras de navegação, pois vento do quadrante das terras geladas são malcriados que só vendo, pelo menos para quem navega pelos maravilhosos mares nordestinos é assim.

Mas continuando na mesma linha da esperança, continuo apostando pesado que o inverno será mais invernoso do que o dos últimos cinco anos, e tem que ser, porque faz tempo que São Pedro não lembrava do Nordeste e nesse 2017 ele de vez em quando abre uma torneirinha mais à vontade. Só espero que ele não venha com a aquela normalidade tão anunciada pelos homens que estudam o tempo, pois sendo assim o milho de São João não vinga. E por falar em milho, pois num é que me arvorei a espalhar uns leirões pelo terreno da nossa cabaninha de praia e lá plantei feijão, inhame, batata doce e milho. Lucia pegou gosto e ainda fez uma horta com coentro, cebolinha, alface, espinafre, tomate e mais um bocado de coisa boa. A fartura vai ser grande e já estou preocupado com o tamanho do caminhão para carregar a produção. Se for pequeno, não dá! Não ria que a coisa é séria!

Meu amigo, estou curtindo essa nova vida meio praieira, meio do campo, porém, juro que a saudade do veleiro é grande e tomara um dia voltar para o seio de Iemanjá e seu reinado acolhedor. Tem quem diga que em terra a vida é mais segura, mas eu os perdoo, pois eles não sabem o que dizem.

Sim, diga aí como vai Dona Marta, espero que tudo esteja nas mil maravilhas e até prometemos tomar um vinho ao sabor de um gostoso bate papo. E por falar em bate papo, você tem visto como anda as coisas pelas terras da ordem e do progresso? De ordem eu não tenho visto muita coisa e de progresso, ainda estão nos devendo, é com juros. Ei a conta é grande! Estamos caminhando igualmente aqueles jogos que mandam pular uma casa e na jogada seguinte os dados mandam retornar três. Rapaz, está complicado. Você já viu o cara soltar uma ruma de caranguejo na calçada, para tanger? Meu amigo, num é serviço bom não, viu! Pois assim está sendo escrita as recentes páginas de nossa história. Porém, os intelectuais apostam que é assim, e assim será! E por falar em intelectual: Você viu quantos tem espalhados por esse Brasil de meu Deus? Dia desses vi uma lista que fiquei espantado com as figuras que colocaram o jamegão. Bordo!!!

Meu doutor, o que você me diz dessa minha mania de fazer um churrasquinho básico? Será que ainda dará quórum para aquelas picanhas suculentas? Homi, colocaram até a cervejinha gelada na fritura. Agora condenou tudo! A carne é podre e já inventaram que colocam tanta milacria na cerveja que sei não, viu! Até pombo moído! Vots! Mas também, o que danado aqueles pombinhos vão fazer na boca de um sugador de cereais? Será brincadeira de roleta russa? Sei lá, cada pombo com sua mania, né! Sim meu amigo, e as águas do Velho Chico? No começo todo mundo protestava diante do projeto e até um bispo quase morre de fome, agora cada um que queira assumir a paternidade da criança. Como diz o velho sábio: Casamento quando é novo tudo é bom, o problema é quando surgem os arranhões. E eu ainda estou para ver uma obra nas terras dos pindoramas que não esteja corroída nas estruturas. Quando surgir o primeiro processo de “pensão alimentícia” aí sim, veremos quem é o pai dessa transposição. Por enquanto é só festa, falatório e banho de rio.

Rapaz, ontem à noite fizemos mais uma rodada de escaldaréu, na beira da praia, e o bicho estava bom que só a peste. Era para o comandante Flávio, mas ele mordeu a corda e não apareceu, sendo assim, e já que estava programado, metemos o sarrafo na panela e fomos dormir de bucho cheio.

Caro amigo Fernando Luiz, estamos sentindo a falta de vocês por aqui e é sempre uma alegria tê-los sob o teto de nossa cabaninha. Apareçam mais vezes que prometo servir, além dos deliciosos pescados saídos das águas de Enxu, umas deliciosas saltenhas produzidas por Lucia, que por sinal são divinas. As encomendas não param e estou até ensaiando pedir um salário de degustador e um auxíliozinho extra para justificar e reparar o aumento da protuberância na barriga.

Até mais ver.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 10

10 Outubro (21)

Enxu Queimado/RN, 06 de março de 2017

Flávio meu amigo, como vão as coisas por essa Natal mais bela e incompreendida? Espero que esteja tudo na tranquilidade. Aqui, nessa Enxu mais bonita, estamos numa vidinha até mais ou menos e de vez em sempre tem batido aquela velha preguiça, que só não vou dizer que é baiana para não mexer com os sentimentos do Senhor do Bonfim, mas é bem por aí e além do que, dizem que preguiça é pecado, e inveja também, viu meu amigo.

Rapaz, deixando a preguiça de lado, pois você bem sabe que Lucia não deixa barato e nem ninguém quieto, ando por aqui mandando ver na madeira, mas não vá pensar coisa feia e nem além da imaginação, pois minha ocupação tem sido lixar, pintar e envernizar cadeiras e tamboretes, para os amigos, quando aparecerem para uma visita, se aboletarem nuns bancos bonitos e coloridos, pois tem para todo gosto e modelo. Pois num é que esse trabalhinho maneiro tem me ajudado a esquecer, por alguns segundinhos, daquele veleirinho aconchegante e manhoso que entreguei nas mãos do Jandir Junior! Por falar nele, tenho visto, no moído das redes sociais, que ele continua atrevido e fazendo rastro nas águas dos Orixás. Eita barquinho arretado! Tenho saudade do bichinho, mas saudade é bom, porque dá e passa.

Comandante, você viu os retratos do panelão de escaldaréu que fizemos na beira da praia dia desses? Rapaz, foi de reiar. Foi numa noite linda, estrelada e praticamente sem Lua. Já fiz promessa que uma semana antes da Semana Santa repetiremos a dose. Ei, que tal dar um pulinho aqui nessa noite? Garanto que o programa é bom e a iguaria é de comer de joelho. Me perguntaram se escaldaréu é feito que nem moqueca, mas tem nada a ver, pois ele é feito com farinha escaldada com o caldo do peixe. Portanto, escaldaréu é o pirão e o peixe entra como convidado especial. Como sei que você gosta, garanto providenciar duas garrafas de cachaça mineira, pois uma só não deu nem para peruar na brincadeira passada.

Meu amigo, sem querer mudar de assunto, mas mudando, tenho acompanhado com tristeza os alaridos que chegam da capital dos Magos e desse Brasilzão afora. Me diga homem, o que danado tão fazendo dessa terra que tomamos a força da mão dos índios? Num era melhor ter deixado tudo com os pajés? Certo mesmo estão aqueles índios que vivem escondido na selva amazônica e querem matar na lança e na flecha os papangus da Funai que teimam em tirar retrato deles. Para que danado eles vão querer se misturar com a gente, se só fazemos besteira, para não falar outra coisa? Diga aí se a turma do Planalto chegar até aquelas criaturas inocentes? Tão fu….. .

Flávio meu amigo, hoje vi uma notícia que me doeu o coração e fiquei matutando até onde vai a hipocrisia dos nossos pares. Um rapaz especial, como meu Nelsinho mais lindo, órfão de pai e mãe, de pouco mais de trinta anos, foi abandonado pela família, ficou sendo jogado entre um albergue noturno e outro, até que um órgão de assistência social o recolheu e levou para uma clínica, mas ainda não sabem o que fazer com ele, porque ele é altamente dependente e incapaz. Me diga aí meu amigo: O que pensar dessa família? Ter pena? Raiva? O que, me diga? Garanto que a grande maioria desses familiares estão nas redes sociais postando mensagens de alto ajuda, religiosas ou outras baboseiras quaisquer. Como bem disse a amiga Eliana Palma: “E o mais engraçado é que se fosse com um cachorro teria mil lugares e soluções para ele! É uma inversão de valores! Fico indignada com uma coisa dessa! Um ser humano! Meu Deus, que horror! ” Aonde vamos parar meu amigo? Enquanto isso uns cafajestes desgraçados disputam o poder central e ainda tem gente para aplaudir e defender. Desculpe o palavrão, puta que pariu!

Desanuviando, me diga se tem velejado? Eu, por enquanto estou somente assistindo as jangadas saírem e chegarem no porto e cada uma mais bonita do que a outra. Pense nuns barquinhos que acho fantásticos! Pescador é cabra tinhoso e corajoso, pois os caras não temem mar e nem vento, porque o coração vai em busca do alimento que eles sabem onde tem e trazem, nem que seja umas poucas sardinhas para fazer a mistura na panela. Meu amigo, venha passar uns dias por aqui que é para a gente sentar na areia da praia e bater um gostoso papo com a turma do mar. Garanto que dificilmente você se lembrará do conforto da cadeira do seu escritório. Ei, aqui é pé no chão e traga apenas uma bermuda, duas camisas, um chapéu, um calção de banho e uma sandália de borracha, pois isso cabe num bisaco.

E já que falei nas jangadas, o peixe que está morrendo por aqui é o Pampo Garabebéu, que eu nem gosto, nem desgosto, mas que Lucia já fez boas peixadas com ele. A natureza do mar tem seus segredos e o pescador sabe tudo e cada semana tem correção de um tipo de pescado e já tem aparecido uma Arabaianas gordas e bonitas. Pois é assim a vida em praia de pescador.

Meu amigo Flávio Alcides, estou com saudade dos nossos bate papos divertidos, sem compromisso e por isso resolvi escrever para dar notícias. Dê um abraço em Dona Gerana, nos meninos, nas netas e nos fi da peste dos genros. Agora vou armar a rede na varanda para escutar o silêncio da noite que já vai alta.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 09

10 Outubro (5)

Enxu Queimado/RN, 04 de março de 2017

Sabe meu amigo Maracatu, dia desses o comandante Érico, um lobo do mar arrochado que só vendo, me escreveu em resposta a Carta 06 e lembrou uma frase de um grande amigo dele ao qual reclamava pelo seu silêncio: “O meu silêncio não é importante pois por mais que dure não abalará nossa amizade”. A frase foi proferida em meados dos anos 60 e o autor, pelos contorcionismos que a vida dá, hoje em dia é sogro de uma das minhas lindas sobrinhas. Linda sim, pois lá em casa só tem gente bonita. Num é não Dr. Wilson Cleto? Pois bem meu amigo paraioca, faz tempo que não nos falamos, mas a amizade é a mesma, viu?

Rapaz, você sabe que aquela nossa ida ao circo aqui em Enxu, na companhia de Mara, Orion e Neca, para assistir a incrível mulher que vira cachorro, ainda dá ibope na mesa da cervejada? Pedrinho ainda lembra, depois de sei lá quanto tempo, da sua cara de espanto quando a dançarina Érica surgiu no picadeiro com um cachorrinho embaixo do braço e, sob o rufar dos tambores, fez a plateia silenciosa vir abaixo em gargalhadas. Bons tempos!

Mudando de assunto, pois assunto não falta, tenho acompanhado pelo Facebook suas pedaladas pelas serras cariocas e as vezes me sinto cansado só em olhar o retrato da ladeira que você diz que subiu. Rapaz, o que me encasqueta é que nas imagens você só aparece com uma latinha numa mão e segurando a magrela com a outra. Tu pega carona ou sobe pegando morcego em algum caminhão? Homi, conta essa história direito! Sim, me dê notícias daquelas deliciosas pancetas servidas pelo mestre Breves? Rapaz, aquilo é bom demais! E com cerveja gelada! Vixi!!! Nunca mais esqueci. Aliás, já fez um ano e uns tantinhos e o sabor daquele “Jesus te chama” não me sai da boca. Um dia eu volto, não prometo, mas volto!

Catu, como foi o Carnaval pelas bandas do canal do Bracuhy? Por aqui foi um show arretado de tranquilo e sem nenhum azedume dessa violência toda que varre esse país destituído de dignidade. Rapaz, na segunda-feira de Carnaval, organizamos um bloco, convidamos meio mundo de gente, ensaiamos os passos, aguamos a cabeça com umas “marditas” e na hora do frevo arrochar o nó: Cadê a orquestra? Mas homi, não é que a banda atravessou a partitura e escafedeu-se! Resultado: Já que estávamos esperando mesmo e lá vinha o bloco As Putas de Segunda, olhamos uns para os outros, brindamos e fomos atrás marcando o passo. Pense numa brincadeira boa!

Ei pedaleiro, você está vendo como estou comportado e ainda não lhe chamei por aquele apelido que Lucia te batizou? Se preocupe não que treinei os dedos para não passar nem triscando pelas teclas que juntam as letras do apelido. Onde danado já se viu apelidar um amigo com aquele nome esquisito? Só Lucia mesmo! E você ainda lembra onde se deu o batizado? Se você soubesse que iria ser assim não tinha chamado para comer aquele acarajé no Pelourinho, né não? Também, você pegou pesado com a cearense. Bem feito! Mas quem tem culpa no cartório é a Cláudia Bohn, que deu com a língua nos dentes, e a Mara, que em vez de desmentir, acendeu um cigarro e sorriu. E você bem sabe como Lucia é. Sobrou pra tu, maracatu!

Meu amigo, dia desses li uma postagem da Guta do Fausto – ou será Fausto de Guta? –, em que ela estava toda jururu com o rumo a tomar depois que retornaram da volta ao mundo e lembrei da sua entrevista com o Marçal Ceccon, velejador indo e voltando, onde ele falou dos detalhes entristecidos para desembarcar de vez do Rapunzel e do rumo que a vida tomou no sítio em que ele e a Eneida foram morar. Confesso que li aquela entrevista centenas de vezes, até ouvi os duendes de bordo cochicharem baixinho pelos cantos que eu estava próximo de desembarcar. Fiz até uma crônica sobre a entrevista e qualquer dia lhe mostrarei. Mas o que eu quero dizer é que, o Marçal, para desanuviar o pensamento do Rapunzel, se meteu a reformar um velho jipe e isso o estava ajudando a traçar novos rumos e descobrir novos e felizes horizontes.

Meu amigo Hélio Viana, hoje faz oito meses que deixei o Avoante para trás e juro que todos os dias acordo como se ainda estivesse a bordo e até sonho com a caminha de proa aconchegante e as vezes sufocante demais, mas sigo em frente de cabeça erguida e sempre de olho nos ventos e horizontes, que a cada dia se transformam. Não tenho um jipe a reformar, mas uma cabaninha de praia alegre e bonita que estava precisando de um trato. No quintal plantei umas plantinhas que águo diariamente, o que para mim é o momento de pensar na vida e criar o mote dos meus escritos. Sabe o que eu digo a Guta? Que ela não se avexe!

Catu, dê um beijão na Mara. Hoje por aqui o Céu está nublado, a Lua quarto crescente e o vento é Leste/Sueste

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 08

1 Janeiro (15)

Enxu Queimado/RN, 13 de fevereiro de 2017

Tem coisas que custo a entender, ainda mais quando me deparo com manchetes de jornais e revistas que mais confundem do que tentam informar. E o que acho mais danado é que hoje em dia o leitor nem se dá ao trabalho de ler o primeiro parágrafo do corpo matéria, que geralmente traça o rumo da informação, e prefere espalhar aos quatro ventos whatsappianos uma desgraceira, que na grande maioria das vezes não passa de nadica de nada.

Pois é meu amigo Milito, essa semana vi uma manchete, em um jornal da capital dos Magos, que dizia que a barragem Armando Ribeiro Gonçalves, a maior do Rio Grande do Norte, começaria a captar água do desafamado volume morto, porém, os técnicos afirmavam que o tal volume não era tão desabonado assim e que nem tudo é o que se fala. Na hora lembrei das inúmeras manchetes apocalípticas sobre o volume morto do paulistano Cantareira, onde nenhum repórter e nem ninguém queriam saber o que diziam os técnicos e pegue pau na moleira de quem estava autoridade para distribuir as gotinhas de água. Agora eu lhe pergunto meu amigo: – Será que o volume morto de lá é mais morto do que o de cá, ou será que nem uma coisa nem outra? Mas tudo bem, se não souber a resposta – como também não sei – fique quieto e se dê por respondido, porque nesse meio de mês, de um fevereiro carnavalesco, São Pedro resolver abrir um tiquinho as torneiras do Céu e deixou cair água nas cabeceiras dos rios que abastecem as barragens potiguares e o morto parece que abriu os olhos novamente. Só tomara que o santo da chuva dê um longo cochilo e esqueça as torneiras ligadas.

Agora mudando os punhos da rede para outro armador, para poder observar, pela posição dos geradores eólicos do parque da Serveng energia, a direção de onde está vindo o vento, lembrei que li algo sobre o potencial energético dos campos eólicos brasileiros e até gostei das informações. Na matéria estava escrito que subimos uma posição no ranking mundial e passamos do décimo para o nono degrau e agora estamos na frente dos italianos. Meu amigo, dizem que no quesito pizzaria há muito ultrapassamos os seus conterrâneos, pois aqui em cada recantinho de pé de serra tem pizza a torto e a direito e em sabores que vai de galinha caipira a x-tudo, basta o cliente querer. Se continuar nessa pisadinha de ganhar tudo dos italianos em breve nem o macarrão será deles, basta ver o tamanho da fábrica do Vitarella nas terras do maracatu.

Sim “Melito” – como chama o comandante Flávio Alcides – me dê notícias do português Luiz. Será que tem pescado muita sardinha? Rapaz, ainda não esqueci daquele churrasco de peixe que você tanta comenta. Qualquer dia, quando Pedrinho chegar por aqui com uns cestos sortidos e carregados de escamudos, farei uma churrascada como a que você falou. Claro que você e Dona Zoraide serão convidados. Me aguarde!

Eita que já ia esquecendo do assunto do vento. Pois é, nosso país, mesmo caminhando em chão de brasa de fogo, está com mais de 10 mil Megawatt de energia eólica instalada e em breve outros tantos se somarão, pois o governo promete lançar novos leilões em 2017 e já tem empresa com consultas de projetos pré-aprovadas para os municípios de Pedra Grande e São Miguel do Gostoso, região que tem vento para dar, vender e emprestar. Só aí serão gerados, além da energia de Éolo, mais de 680 empregos diretos. E assim a banda vai tocando!

E por falar em banda: Me diga como está sua preparação para o Carnaval? Tenho escudo que em Natal vai ter folia, não aquela folia que teve lá por cima das dunas de Pium, mas folia de Mono de verdade, com direito ao frevo de Morais Moreira, Elba Ramalho e uma trupe de gente boa. Uns reclamam da gastança, outros dizem vivas, mas o que seria da alegria se não existisse o circo, né não? Eu adoro Carnaval, pois assim vou seguindo na linha que meu pai traçou. Rapaz, Nelson Mattos era um trombonista arretado da molesta! E Ceminha, a essas alturas do campeonato já estava com as fantasias da família e dos amigos prontas. Pense num povo festeiro!

Nas ruas entre a Redinha e Ponta Negra, soube que vai ter bandinha para todo gosto e mania, tem até uma tal de Cadê Xoxó, Xoxó taí? Essa deve ser das boas e se me der na telha vou dar uns pulos no meio de Xoxó. Aqui por Enxu vai ter folia, mas os baticuns ainda estão meio que inibidos e os trompetes tocando baixo, mas que vai ter, vai. Só tomara que em todo lugar os festejos de Momo sejam nos braços da paz que tanto necessitamos.

Meu caro amigo Hélio Milito, por enquanto é o que lembro para escrever essa prosa, mas digo ainda que não esqueci do seu convite para dar uns bordos no Blue Jeans. Um dia darei o ar da graça e quando for levo umas cervas geladas para aplacar o calor e ajustar as velas com mais precisão.

Até mais!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 06

Agosto (12)

Enxu Queimado, 21 de Janeiro de 2017

Comandante Érico, como vai essa vida dividida entre as barras do Potengi e do Cunhaú? Por aqui a vidinha é levada ao sabor dos alísios e do balançar das palhas do coqueiral, que por sinal estão bem sofridos diante dessa seca que já vai entrando para história, de mala, cuia e tristeza. Da varanda assisto o tempo passar e ouço o eco surdo dos reclames do nosso povo que há muito deixou de espanto diante das desgraceiras desse mundo sem freio e sem dó. De vez em quando, mais de vez do que de quando, me abasteço de uma cervejinha abençoada ou de um whiskinho básico e vou sonhar com o mar. Como é gostoso sonhar com o mar! E por falar em mar: Como vai a Musa, das poesias e regalos velejáveis etílicos?

Sabe comandante, tenho sentido falta do mar, mas também não é para menos, pois essa danação chamada cidade está cada dia mais esquisita e indecifrável. A vontade é de definir essa zona com um longo palavrão, mas o que seria um PQP diante do caos? Nada né!

Não sei você, mas estou me escondendo das últimas notícias vindas das dunas de Pium, aliás, escondendo não seria a palavra certa, porque fica difícil sair na rua e não dar de cara com essa falta de pulso das ditas autoridades, pois em cada recantinho, embaixo de qualquer sombra de árvore, por trás de qualquer muro assombreado, no pé de balcão de qualquer bar de esquina, sempre tem alguém louco para anunciar a barbárie. Aliás, nesse mundo amalucado em que estamos vivendo fica difícil manter uma agenda positiva. Mas veja bem: Não precisa concordar comigo, pois nem sei prumode me danei a assuntar sobre esse assunto.

Sim homem, e o ministro Teori? O que você acha? Por aqui, nessa lonjura de lugar, fica complicado opinar e nem quero mesmo meter o bedelho nessa seara, pois nas nuvens internéticas já tem tantas teorias e certezas que mais uma seria repetição. Mas que foi, foi, só não sei o que.

Sabe de uma coisa comandante, acho melhor falar de cachaça, pois esse é um assunto bom de assuntar e mesmo sem ser expert nesse líquido dos deuses, gosto de dar umas bicadas das boas, e se for na companhia de um caju, vixi! Pense numa pareia arretada! Por falar em caju e cachaça, dia desse fui visitar o amigo Eugênio Vilar, que veraneava na praia de Cajueiro, localizada no lado de lá da esquina do Brasil, e depois de uma recepção cinco estrelas, lá pras tantas o Eugênio pai perguntou se eu gostaria de provar uma cachaça da boa – agora diga aí se isso é pergunta que se faça? – e sem pestanejar respondi que adoraria. Rapaz, o homem trouxe uma garrafa de uma tal cachaça Doministro que de boa não tem nada, porque a danada é para se lascar de deliciosa. E para terminar de completar ainda fui presenteado com uma garrafa e saí todo faceiro com o troféu. Como diria Dona Laurinha, amiga de minha Mãe: Pronto, não faltou mais nada!

Claro que você deve estar doidinho para tomar um trago, mas digo que Doministro só resta um pezinho de garrafa e se você não vier logo, fazer a visita que prometeu faz tempo, vai passar batido. Mas tem nada não, pois tenho umas garrafas da paraibana Rainha, aliás, uma ganhei de presente do amigo Zé Maria, que estava fazendo umas trilhas entre Canoa Quebrada e Natal, montado em uma motoca que mais parece um trator, e passou por aqui só para me presentear. Sinceramente comandante, não sei porque danado os amigos acham que gosto de cachaça? Ainda bem que Ceminha não sabe desses presentes!

Meu amigo, tenho uma confissão a fazer, pois tenho andado meio escalafobético com as coisas desse mundo velho. Não estou conseguindo me situar em meio a esse desajustamento de conduta das nossas autoridades constituídas. Que bixiga é isso meu amigo? Não aparece um filho de Deus para colocar ordem nesse cabaré. Só aparece cabra para tocar fogo no palheiro e ainda tirar o dele da reta. Pense num magote de covarde! Me diga aí comandante: Será besteira minha? E se for, qual será a minha penitência? Mas não se avexe não que vou dar um bordo nessa prosa.

Rapaz, por aqui tem dado uma correção de bicudas e galos do alto que dá gosto ver. Os bichos são gordos que só filho de fazendeiro e tem dado cada moqueca de fazer inveja a panela de baiano. Dia desses estive em Caiçara do Norte e me avexei em comprar uns pares de avoadores. Entrei em beco, sai de beco e me indicaram um frigorífico que tinha acabado de receber um carregamento de avoador. Comprei uma ruma e lógico que lembrei de você, mas chegado em Enxu pedi para uma amiga tratar, acendi a churrasqueira, abri umas cervejas e nem lembrei mais de levar uns para seu agrado. Isso não se faz, né não?

Pois é comandante Érico Amorim das Virgens, navegador, poeta, boêmio, apaixonado, festejador e semeador das boas amizades, por enquanto é isso e a Lua é minguante.

Nelson Mattos Filho