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Prosa de uma noite de verão

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Tem coisas que nós, pobres mortais, custamos a entender e por mais que queimemos os neurônios, mais ficamos batendo cabeça no velho e gostoso, as vezes insosso, papo de dar jeito nas coisas do mundo, mesmo sem saber para que lado fica a porta de entrada e muito menos a de saída. Mas enquanto tiver uma “gela”, uma meiota de cachaça, um pratinho de farofa e um caldinho para rebater, a coisa vai que vai longe.

Pois foi assim que dia desses sentei embaixo da sombra da árvore, que dá frescor ao Cantinho do Ivo, uma esquina divertida onde o moído corre solto, no povoado de Enxu Queimado, e entre uma latinha gelada e outra, alguém puxou do balaio dos assuntos a carta marcada com o consumo de combustível dos automóveis. De pronto e sem pestanejar e antes que eu desse um gole no néctar da latinha em que a esfinge de uma moça faz pose provocante, o ronco dos motores já ia alto e tinha deles fazendo pecaminosos três quilômetros por litro, o que achei uma aberração, pois meu Unozinho me agrada e dá conforto percorrendo 17 km/l. Eita carrinho arretado e valente!!

Rapaz, a discussão foi acalorada, animada, engraçada e incrementada com marcas de carros que dificilmente alguns deles cruzarão as estradas, ruas e becos de Enxu, se bem que de vez em quando passam levas de super possantes riscando as trilhas a beira mar, para cima e para baixo, mas antes que novo assunto caísse sobre a mesa, alguém lascou a frase: “Homi deixe de ser besta, carro bebedor é carro de pobre, carro de rico é econômico”. Pronto, foi a senha para mais uma rodada de cerveja, mas daí, sem mais nem pra que, lembrei de um almoço em São Paulo, quando estive presidente da Associação de Supermercado do Rio Grande do Norte, e que sentei em uma mesa com sete dos maiores empresários supermercadista do país, e lá para as tantas um deles falou da pretensão de comprar um helicóptero e após indicações de marcas e modelos, pois quase todos ali possuía um, logicamente que eu não fazia parte do grupo dos “quase”, o pretendente ventilou saber qual o salário médio de um piloto. Após breve fração de segundos de silêncio, um integrante do grupo dos “quase” sentenciou: “Caro amigo, esqueça, pois você nunca irá possuir um. Qualquer aeronave dessas indicadas nessa mesa custa mais de 4 milhões de dólares e você está preocupado com o salário do piloto!”. Novo silêncio e ainda bem que o garçom chegou com a bandeja de whisky para espalhar o sangue e desanuviar o ambiente.

Hoje vi nas folhas digitais que o magnata Bill Gates, criador dos duendes, fadas e dragões que dão vida a essa ferramenta que escrevo, tirou a carteira – será que ele usa isso? – do bolso e comprou um iatezinho maneiro por, segundo os fuxiqueiros, 600 milhões de euros. Pechincha! O brinquedinho de Bill, quando sair do estaleiro, terá 112 metros de comprimento, cinco andares, capacidade para acomodar 14 passageiros, 31 tripulantes e autonomia para navegar 3.750 milhas náuticas com as 56 toneladas de hidrogênio líquido distribuídos em 2 tanques selados a vácuo e resfriados a -253º C. Isso mesmo, hidrogênio! Será o primeiro iate do mundo movido com esse combustível, ou melhor, um barco, segundo o estaleiro, que pretende construir um futuro melhor e criar inspirações.

Agora me diga: Se o barco for mesmo do Bill Gates, parece que não é, pois o estaleiro construtor já se adiantou em negar, mas cruzando os dedos para que seja verdade, ele quer lá saber quanto custa um litro de hidrogênio líquido? E o salário do comandante? Porém, o Bill pode não querer saber, mas os frequentadores do Cantinho do Ivo, com certeza querem, além de ser um bom motivo para tomar umas cervas geladas, e por isso já vou me assuntar e me danar a fazer a conta para puxar a carta no próximo encontro. Se um litro de hidrogênio líquido, na Europa, custa em torno de 3 euros, para Bill encher o tanque irá desembolsar, no barato, um prêmio acumulado de Mega-Sena para soltar as amarras no Porto de Natal e atracar em algum porto argentino. – Ah, sim, o salário do comandante: Se ele me convidar, faço um desconto e fecho baratinho. – E ele pagaria? – Sei lá, acho que sim, pois acho que Bill faz conta disso não, além do mais, acho que ele ficaria tiririca da vida se um colega de mesa fizesse a mesma sentença que fez o outro do helicóptero.

Quanto ao consumo, sei dizer nada não, porque meu negócio é barco a vela, mas parodiando o amigo da mesa do Cantinho, digo: – Homi, barco bebedor é barco de metido, barco de rico de verdade, consome pouco! Foi assim que certa vez estava com o Avoante no píer da marina de Itaparica/BA, e atracou uma lancha com cinco motores de popa, com 225 Hp cada um, vindo de uma pescaria. Como quem não quer nada cheguei perto e para matar a curiosidade, perguntei ao proprietário: – Essa lancha consome muito? Ele respondeu sem nem olhar para mim: – Sei não, só mando encher e pago! Pegue besta!

Nelson Mattos Filho

Um retrato triste de um lindo vale

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Os que apostam que o Rio Grande do Norte não tem história interessante a ser contada podem jogar mais fichas sobre a mesa e sair contando vitória, porque o que se fez e o que se faz, com fatos, monumentos e personagens históricos, não permite outra leitura. – Duvida? – Pois então bote um par de alpercatas nos pés e saia batendo pernas pelas veredas potiguares e tire a prova dos nove. Se quiser traçar um rumo comece pelo começo, indo até a Praia do Marco, onde foi chantado o Marco de Posse, em 1501. Em seguida vá até o Cabo de São Roque, litoral do munícipio de Barra do Maxaranguape e de lá pegue descendo até se deparar com as grossas paredes do Forte dos Reis Magos, na foz do Rio Potengi, em plena capital potiguar. – E depois? – Depois, se você não ficar entristecido com o que viu, passe em qualquer banca de revista e compre um roteiro turístico de bolso e vá em frente com muita fé, pois se tiver fé de menos você desiste no meio do caminho. Os acostamentos dos caminhos que tentam contar a história das terras de Poti são lastimosos.

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Dia desses fui a praia de Muriú, litoral Norte, e após uma noitada de bons papos e vinhos, na casa de um amigo, pela manhã retornei a Enxu Queimado, porém, em vez de pegar a BR 101 até o município de Touros, seguir para São Miguel do Gostoso e de lá trafegar no arremedo de estrada vicinal até Enxu, decidi seguir pela antiga estrada que liga Muriú a sede do município de Ceará Mirim, pegar a BR 406 até João Câmara, e de lá seguir pela RN 120 até Pedra Grande e daí mais uma vez me indignar nos 11 quilômetros de descaso que é a estrada entre Pedra Grande e Enxu. Aliás, se a estradinha de Enxu recebesse apenas uma lasquinha das verbas públicas que ultimamente vem sendo gasto com festas e shows, se não desse para asfaltar, chegaria bem perto disso.

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Pois bem, voltemos ao Vale do Ceará Mirim. Havia anos que não andava naquela estrada que outrora serviu de único acesso a bela praia de Muriú e que sempre me encantou, devido a beleza dos engenhos e pelo magistral casario que engendrava a cena canavieira em um mundo emoldurado por uma áurea de fascínio e lamentos de uma riqueza histórica que, já naquele tempo, pedia socorro para não ser esquecida em algum recanto do futuro, e foi.

1 Janeiro (87)

Dos grandes engenhos praticamente nada restou e a história agoniza em meio ao abandono e escombros fantasmagóricos. Placas enferrujadas indicam a existência de um certo Caminho dos Engenhos, roteiro turístico do Governo do Estado, mas diante do que está posto, duvido muito que ainda exista algum documento da criação ou mesmo que normatize o tal programa. Ora, se o Marco de Touros, o Cabo de São Roque, a Fortaleza dos Reis Magos, pedra fundamental da capital potiguar, estão jogados ao deus dará, imagine uns engenhos de cana de açúcar, símbolos da aristocracia, localizados em um município interiorano de médio porte!

1 Janeiro (90)

Com muita justeza e propriedade alguém ira alegar que não foi apenas o Rio Grande do Norte que jogou a história na lata do lixo. Claro que não, porque isso é um mal que sempre se viu em toda parte desse Brasil desvairado e eternamente mergulhado no caos, mas apesar de tudo fiquei feliz, mesmo diante da desilusão, em voltar a trafegar pela velha estrada de Muriú, que pelo estado em que se encontra, parece ter recebido recentemente uma fina camada de lama asfáltica, porém, esqueceram os acostamentos e a sinalização, e indicarei o caminho para todos que queiram saber um pouco mais sobre o esquecido Rio Grande do Norte, um Estado lindo, mas tão cruelmente maltratado e dilacerado pelos seus governantes.

Nelson Mattos Filho

Curta metragem

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Necessitando bater, sem trocadilho, uma chapa periapical dos dentes superiores 14 e 15, a pedidos do Dr. Jorge Rezende, cabra bom indo e voltando, deixei os encantos de minha Enxu mais bela e me danei nas estradas do Mato Grande, portal de entrada do sertão, para sentar pouso na casa de Ceminha, situada no pezinho dos morros do Tirol, cinturão verde oliva que ainda resiste ao tempo, as incertezas dos desmandos dos homens e que dá beleza a uma cidade linda, porém, incompreendida. Ah, Natal, em qual quadrante dos riscados de Palumbo se escondeu, envergonhada, sua alma outrora tão alegre e tão ricamente cheia de vida?

Acordei cedo, mas não tão cedo assim, deixei o possante no lava jato, para jogar por terra a poeira avermelhada das paragens de Enxu Queimado e sob um sol de lascar moleira de caboco descuidado, pois o Sol que dá quentura a Noiva cascudiana, não é manso, não senhor, peguei descendo a bater pernas até o local da clínica, situada nos terreiros da antiga fazenda Solidão, sítio esquecido de uma cidade que já foi tudo, inclusive nada.

Juro que não consigo entender o funcionamento desse cérebro que caminha a passos largos para abrir a porta enigmática dos sessenta, porque nunca consegui definir a sequência dos pensamentos e das lembranças da saudade. No caminho de ida até a clínica, a mente teimava em se ocupar a observar a nova cidade que se forma entre traços estrambólicos de uma arquitetura sem brilho, sem alma e sem sentido lógico e logo me vi assobiando a música Bienal, do Zeca Baleiro. Aliás, sempre me pego cantarolando Bienal quando cruzo as ruas de algum condomínio bacana, “… Pra entender um trabalho tão moderno/É preciso ler o segundo caderno/Calcular o produto bruto interno/Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone/Rodopiando na fúria do ciclone/Reinvento o céu e o inferno…”.

Já no caminho da volta, o cérebro se danou a cascavear lembranças e aí nem me avexei com os castigos dos raios solares, pois me meti em um turbilhão do tempo e assim a caminhada foi toda assistindo um breve filme da minha vida. Ao passar em frente ao portão da Escola Doméstica, que agora perdeu a identidade, lá estava Lucrécio, numa noite de sexta-feira, se aliviando da água No joelho no para-lama de um fusca, e de repente surge a figura crescente de um fuzileiro naval, saído da guarita do 3º Distrito Naval, que dá uma rasteira no Cego, que cai estatelado no chão e diante do sangue que escorre de sua boca, o fuzileiro o solta e lá vai nós, uma ruma de meninos, resolver a bronca na urgência do Walfredo Gurgel. O pior não foi o fuzileiro, não foi a rasteira e muito menos a ida às pressas ao hospital. O pior foi ter que inventar uma história que caísse bem nas graças de Dona Ivone e Seu Artur. Pois num é que deu certo!

Os passos seguiam e lá estava eu diante da AABB lembrando do cheiro e do sabor do filé com fritas que era servido no restaurante do clube. Era bom demais e quase sempre a iguaria era patrocinada por Seu Chico Araújo, pai de Mário. Mais alguns passos me encontrei com a turma do Posto Patotas, Iran, Zé zuada, Cortez Júnior, Brote seco, Gagau, Táta, Tisso, Dudu barbudo, Dadá, Porcino, Prefeito, Junior Gurgel e mais um bocado. Me vi comendo um hot dog, no trailer de lanche na esquina, e até senti o sabor da maionese caseira ali servida. Olhei para o lado direito e lá estava a turma do STOP, bar comandando por Joaquim Amorim, que servia umas coxinhas dos deuses. O bar STOP que durante as noites de quinta, sexta e sábado recebia tanta gente que a rua Ângelo Varela era literalmente fechada, mas na esquina com a rua Ipanguassu ainda sobrava uma brechinha de espaço para Júnior Jaeci dar seus famosos cavalos de pau.

Subi a Rua Brito Guerra, vendo a imagem do Galaxie de Marcelão, ouvindo as estórias de Bolinha, ouvindo o ronco do Gordini de Álvaro Gordo, rindo da alegria que vinha da calçada de Willame Boy, do aconchego do sobrado de Dr. Fernando Rezende, vendo a sisudez no rosto do Dr. Aldo, vi seu Wiliam me acenando do batente da calçada, vibrei com a boa energia que exalava pelos poros da casa de Dona Iaponira e Zé Carvalho, vi Eugênio descendo a ladeira, escutei a buzina da DKW de Dr. Gilvan Trigueiro, que apitava desde que entrava na rua Teotônio de Carvalho. Cruzei a calçada de Seu Artur e juro que escutei ele falar: – Bom dia, Nelsinho! Dei um sorriso, olhei para trás e vi que estava sozinho naquele grande cinema ao ar livre, mas ao me voltar, a fita havia soltado do carretel e as luzes do cinema estavam acesas, porém, ainda deu tempo de ver, em uma pontinha dos créditos, o velho campo de peladas sobre o terreno em frente à casa de Dona Dazinha.

Parei em frente à casa de Ceminha, novamente olhei para trás e senti o coração bater mais forte diante da felicidade de ter assistido cenas tão mágicas de um mundo real tão distante, mas ainda tão vibrante. Juro que ainda relutei em entrar, mas quando apertei a cigarra vi que o mundo era outro, pois lá de dentro Lucia apertou o botão do portão automático e olhei para cima para observar os fios da armação da cerca elétrica e falei baixinho: Estou na vida moderna!

Poderia até chorar de emoção, mas não o fiz, porque foi alegria demais!

Nelson Mattos Filho

Ódio

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O ódio é assim: Mansamente se instala no coração, vai sendo destilado, afinado, lapidado, vai lentamente se espelhando pela alma, pelas veias e assim, quando atinge o cérebro e os músculos, explode atingindo tudo e todos a sua volta, sem distinção de cor, raça, gênero, credo, amizade, família. O ódio é ódio e com ele não existe razão, paixão, amor, reconhecimento, gratidão, não existe nada além dele mesmo. O que ele quer é destruir, massacrar, matar, comer as entranhas do odiado despejando sua verve feroz entre labaredas de cuspes e babas. O ódio vibra com a palavra falada, mas seu deleite está na palavra escrita, porque é aí que ele se perpetua. Dizem que só o amor vence o ódio. Mentira! O amor é superficial, se inibe e foge diante do ódio que é o grande manipulador da vida humana e é com ele que o homem mostra toda a sua verdade. O ódio não é de Deus e muito menos do Satanás, o ódio é do homem, o frágil hospedeiro e fiel multiplicador. Triste sina da espécie humana!

O papelzinho de bombom

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Não, não vou falar sobre a Amazônia, porque não sei o que acontece por lá, não conheço a selva, nunca naveguei em seus rios e sinceramente, nem quero saber os segredos escamoteados nas declarações dos seus defensores, porque fala e ação passam longe dos caminhos da floresta e da verdade. Se ela queima, como sempre queimou, deve queimar com o consentimento de todos que se dizem seus defensores. Se é desmatada, idem. Se é ultrajada, idem. Ela pertence ao mundo, pertence não, pois ela é tão nossa como o papelzinho de bombom que ilustra esse texto e como sempre, ninguém o repara jogado nas ruas. O mundo não conhece a Amazônia, o mundo deseja a Amazônia, localizada em uma grande república, como eles dizem, de bananas. Vixi, pois num é que falei sobre o que não queria falar! Danou-se!

Mas o papelzinho estava lá, jogado ao chão…

Nelson Mattos Filho

Escritos de uma segunda de Carnaval

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O Carnaval já vai alto pelas dunas e coqueirais de Enxu Queimado e pelo eco das músicas – músicas? – que invadem o povoado, poderíamos até dizer que é mais um Carnaval que se vai sem deixar saudades, mas aí seria demais, porque cada geração tem suas músicas preferidas, porém, nem todas tiveram a alegria de ter vivido os tempos dourados dos geniais compositores e letristas. Mas tem nada não, enquanto os gênios ficam esquecidos, sem querer, vamos cantarolando uma tal de Tu Tá na Gaiola, com “versos” que dizem assim: “…Ei, tu tá na gaiola….Cheiro de maconha boa….Várias piranha jogando….Ei, tu tá na gaiola….Vem sentando na piroca….Ei, tu tá na gaiola….Vai descendo a buc….tá na gaiola…”. Enquanto o tal Mc Kevin, emplaca sua loa de violação, as novinhas e os defensores dos direitos da mulherada, fazem coreografias em frente aos palcos e paredões Brasil afora! – E depois? – Ora, depois é outro dia!

Eita que esse mundão tá virado num traque e o Mc Kevin é apenas um tiquinho de nadica de nada em meio ao fogaréu da fuleragem e sua “música” foi feita apenas para um verão e ponto final e quem achou ruim, é porque nem advinha o que virá amanhã. Deus é mais, ou menos, já nem sei mais!

E por falar em fogaréu, os meninos das ciências do tempo anunciam que o mundo está bem pertinho de pegar fogo. Eles apostam que lá pras bandas de 2100 – bem pertinho, viu! – o Sol vai torrar o juízo de quase 50% da população do “planetinha azul”. Dizem que será uma onda de calor tão monstruosa que nem o “tinhoso” jamais imaginou. – Sabe em quem eles põem a culpa? – Pois é, em nós mesmo, mas nos acusam de uma forma tão relativista que a sentença entra por um ouvido e sai ligeiro pelo outro. Tomara que Santo Antão do ventilador ponha as barbas de molho e bote as ideias para funcionar, senão, os nossos netinhos tão ferrados, ou melhor, torrados. Mas vou logo avisando, viu Seu Sol: – Já deixei de usar os famigerados canudinhos, não jogo lixo na rua, não poluo os oceanos, nem os rios, gosto de cerveja gelada e de umas cachacinhas para esquentar o pé da orelha. “….tu tá na gaiola…” Homi, vai pra lá! Pense numa bixiga insistente!

E por falar nas coisas do tempo, pois num é que São Pedro resolveu abrir as torneiras do Céu durante o Carnaval. O Céu está bonito que só vendo e a chuva tem dado o ar da graça todos os dias. A mata da caatinga que cerca essa Enxu mais bela está uma boniteza sem igual. As borboletas fazem a festa em meios as flores do mato e a bicharada tem andado com riso de orelha a orelha. E os barreiros? Eita que tão de água de ponta a ponta. É tanta água que não chega um carro por aqui que não venha pintado de marrom. Já ontem mesmo, o amigo Lutero convidou para tomar leite no curral, diretamente do peito da vaca, mas foi logo avisando que a estrada estava difícil. Deixei quieto e guardei o convite para usar mais na frente. Tem tempo, tem tempo!

Mudando o ar da graça, nesses dias de reinado de momo tenho navegado pouco pelos portais de notícias e mais pelas estripulias das trincheiras das redes sociais, para saber os moídos dos pierrôs e colombinas e tenho comprovado que esses personagens não são mais os mesmos e nem deveriam ser, pois caíram no alçapão da gaiola e perderam o passo do frevo e das velhas marchinhas. Aliás, sempre que passo a vista pelas manchetes da grande mídia, me apego no mesmo mantra de mané luiz, que dá até uma dor de tanta falta de criatividade jornalística. Será que os velhos mananciais do jornalismo também entraram na onda da gaiola? Os caras estão batendo na mesma tecla e nem se dão por conta. Não tem ninguém pensando diferente e todos estão agindo que nem cartomante, tentando adivinhar o futuro pelas cartas, ou melhor, por colunas mais ideológicas impossível. Quer saber: Com toda milacria, as redes sociais estão mil anos à frente das redações e prontinhas para jogar a pá de cal sobre a carniça. – Quer apostar? – Aposte não, pois quem apostou perdeu a última eleição!

Pensa que esqueci do Mc Kevin, esqueci não, e nem posso, seus sucessos comandam os paredões. Se não gostou da Gaiola, que tal Sobe balão e Desce B…..? Isso mesmo, Desce B…..! E ele “canta” assim: “…No baile da Colômbia/Hoje eu como uma ninfeta/No baile da Colômbia/Hoje eu como uma ninfeta…”.

Mas tudo bem, o Carnaval está no terceiro dia e hoje em Enxu Queimado é dia do bloco As Putas de Segunda, mas antes que você fique imaginando o reboliço, digo que é um dos blocos mais tradicionais do lugar, onde donzelos se vestem de donzelas e saem pelas ruas espalhando alegria, paz e amor. – E a música? – Bem, a música não é preciso puxar muito pelo juízo para apostar no estilo do Mc Kevin!

E lá vem as Putas! “…tu tá na gaiola…/…e não para não novinha…”

Nelson Mattos Filho

O buraco do tatu

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O jornalista, escritor, romancista, teatrólogo, cronista e colecionador de mais um bocado de ocupações, Nelson Rodrigues, desnudou a cena urbana brasileira, em todas as suas cores, trejeitos e costumes, na série de crônicas A Vida como Ela é, que faz sucesso até os dias atuais, pois a vida é como é e por mais que a modernidade queira assumir o comando, jamais conseguirá alterar o mecanismo que move a cabeça do homem. O cenário pode até mudar, mas o roteiro jamais! Se vivo fosse, meu Xará estaria produzindo verdadeiras pérolas, pois o moído é grande!

Dia desses estava bem sentado sob a sombra da varandinha de minha cabaninha de praia, quando chegou a notícia que um amigo do alheio havia visitado uma casa da comunidade e levado, por engano, uma carteira recheada de cédulas de garoupas e onças-pintadas. Como sempre, a rádio-peão tratou do caso com as mais diferentes versões e o que sobrou foi uma boa cervejada para comemorar os dedos que ficaram. Porém, no rebojo da notícia veio o moído que da casa de um vizinho da cena da carteira, um tatu gordo, que estava sendo cevado para os festejos de fim de ano, havia sido afanado. – Como é? – Um tatu? – Isso mesmo, um tatu! – Mas num é pecado ambiental criar tatu em casa, ainda mais com o objetivo de comer o bichinho? – É, rapaz, mas se avexe não e me deixe continuar! – Pois vá!

Pois bem, o delegado foi chamado para tratar do desaparecimento das “garoupas” e das “onças”, e como não podia fazer mais nada, pois dinheiro na mão é vendaval, entrou no possante para retornar no rumo da vinda, quando apareceu o ex-dono do tatu – ou seja, o roubado -, prestando queixa do desaparecimento do bicho. O delegado ouviu a reclamação, se penalizou com o choro do homem, mas entre o sim e o não, balançou a cabeça, olhou para o Céu, a espera de um sinal de Nosso Senhor, e resolveu se fazer de surdo, porque assim a vida fica mais amena e se fosse para decifrar um crime com outro crime, era melhor que a conversa entrasse por um ouvido e saísse pelo outro e assim, todos seguiriam a vida em paz. E assim foi!

Aí, enquanto navego pelo mundão de sites do oceano internético, para me assuntar das coisas do tempo, bati o olho numa notícia, saída dos reservatórios das ciências, anunciando que comer tatu enche o sujeito com milacrias de doenças que dá até medo. O anuncio veio assinado embaixo pelos meninos do IBAMA e estes lembram que degustar a iguaria pode deixar a pessoa com uma bruta dor de cabeça, pois, se for pego com a boca na botija, a bronca é grande.

Diz a matéria do Portal Notícias, que tatu, animal silvestres muito consumido nos recantos do sertão nordestino, é um depósito de micróbios transmissor de hanseníase, doenças de chagas, micose pulmonar e outras verminoses. Porém, os apreciadores rebatem dizendo que uma cachacinha boa, pareia elementar da iguaria, cura todos os males por ventura existentes. – O que não duvido, porque palavra de sertanejo é sentença verdadeira, mas também jamais deixaria de acreditar nas certezas dos estudiosos, porque uma mão lava a outra e as crenças nascem do que se ouve dizer.

Segundo os meninos das ciências e das causas ambientais, os tatus se alimentam de insetos e contribuem para o equilíbrio de populações de formigas e cupins. Os estudos afirmam que apenas um tatu, da espécie mulita, é capaz de comer em uma noite quase 9 mil invertebrados. – Aí me pergunto: Se treinássemos dois tatus-mulita para se alimentarem de papangus e soltássemos num certo planalto central, será que os bichos dariam conta da tarefa?

Pois é, a cena urbana brasileira é rica, hilária e basta uma nesguinha de olhar meio de lado para deparamos com causos, contos, estórias e histórias que enchem folhas e linhas com a criatividade de cronistas como o impagável, amado, criticado e querido Nelson Rodrigues, que assim se definia: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino). ”

Mas antes de findar a prosa, vale lembrar que, além das enfermidades relatadas pelos pesquisadores, dizem por aí que comer tatu dá dor nas costas, viu!

“…O cachorro quando late no buraco do tatu/Sai espuma pela boca e chocolate pela orelha…”

Nelson Mattos Filho

Uma ponte atravessada no caminho

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Juro que nunca entendi o motivo que levou o criador de nomes a batizar o meu Rio Grande do Norte com um nome tão pomposo. Se foi por causa do rio que nasce no município de Cerro Corá e segue serpenteando boa parte do Estado, por 176 quilômetros, até desaguar nas águas do Atlântico, imagino que não foi, pois apesar da beleza de suas pinturas e do romantismo de suas poesias, ele não é tão grande assim e desde que o Potengi entrou nessa história que vem sendo diminuído ano após ano. Se foi pela grandeza das suas terras, também não, porque o elefante não aprendeu a crescer. Se foi pela riqueza do solo, até que poderia ser, pois aqui, se plantando tudo dá, porém, tem alguns poréns para atrapalhar. Será que foi pelas jazidas minerais e os recursos naturais? Quem sabe! Mas se foi, já foi, pois como diz a piada: “Tá se acabando tudo! ”. E pela grandeza dos nossos governantes? Com certeza não foi e definitivamente não, pois pense numa turma apequenada! Mas já que batizaram assim, assim será e ponto final e vamos seguir com a prosa.

No dia da festa maior em homenagem a Nossa Senhora da Apresentação, padroeira de Natal, o jornal Tribuna do Norte publicou matéria, mais uma, sobre o empecilho criado pela Ponte de Todos Newton Navarro para melhor desenvolvimento do turismo potiguar. Mas não foi por falta de aviso, foi por falta de visão e pelo grande mal causado pelo endeusamento político que a tudo corrói e destrói. Segundo a matéria, que é uma verdade, a Ponte é uma barreira para que o RN receba a maioria dos navios de cruzeiro que fazem a festa e levam alegria a outros portos Brasil afora, porque a altura do vão central, em torno de 54 metros, e a falta criminosa das proteções nas pilastras de sustentação, impedem a entrada de navios maiores e mais modernos. Na Copa 2014, jogo dos desmandos e do nosso maior fracasso futebolístico, Natal deixou de receber dois ou três transatlânticos e no verão que se avizinha, apenas assistirá à passagem deles ao largo e apenas um ou outro aproará a Barra do Potengi.

O mais engraçado é que recentemente foram gastos uns bons milhares de dólares para a construção de um terminal de passageiros, que de tão jogado as moscas, baratas e ratos do porto, está sendo oferecido a qualquer troco para realização de eventos diversos. Há quem diga que está certo e até defenda o uso para outros fins. – E sabe de uma coisa? – Eles é que estão certo, pois se não serve para uma coisa, que sirva para outra antes que venha abaixo por falta do que fazer.

O secretário de turismo, falando pelo governo do Estado, governo este que já está com as gavetas desocupadas, se apressa em dizer que está batalhando para mudar o quadro. A Codern, Companhia Docas do Rio Grande do Norte, diz que não está medindo esforços e até anuncia que o porto tem batido recordes de embarques de container. A classe política, deputados e senadores, se faz de desentendida, porque para ela tudo são flores e palanque. O governo que vai assumir, prometendo transformar o RN em um mar de rosas, vermelhas, continua prometendo, porém, ainda não orientou suas fileiras a pastorar o horizonte.

– E o que eu quero com essa prosa? – Digo! Sou defensor do turismo náutico em todos os níveis e o Rio Grande do Norte tem potencial para navegar em mar de almirante nesse segmento. O turismo náutico está entre os que mais crescem no mundo e que trazem excelentes benefícios e recursos. O RN está aproado e é porto estratégico para os destinos mais procurados do mundo e basta dar uma folheada na história para ver essa verdade. Somos beneficiados pelos ventos, pelas correntes marinhas, por um litoral belíssimo, por praia maravilhosas e viramos as costas para a lógica e nos agarramos com falácias de burocratas cegos, mal-amados e por uma politicagem barata. Recentemente enfiamos na lama a ideia maravilhosa de uma marina, que traria a esperança de bons resultados. Projeto que não passou pelo ranço e a acidez de mentes ferinas e ideologicamente transloucadas. Batemos palmas na construção e festejamos loucamente a inauguração da Ponte de Todos como um marco de desenvolvimento, o que não é. A obra é linda, as fotos são lindas, os festejos de fim de ano ganharam novos ares, mas a Ponte está posta em local errado e seus construtores e gestores públicos não vislumbraram o futuro, olharam apenas para o próprio umbigo, acenaram para os afagos, cortaram a fita, condenaram a praia da Redinha a ficar embaixo da ponte e saíram de cena. O futuro a Deus pertence!

O turismo náutico empancou diante da Ponte Newton Navarro, logo ele, que tanto amou e retratou Natal. Agora, parodiando as autoridades, vamos batalhar essa batalha perdida! A história conta que por mais de 300 anos, Natal virou as costas para o mar e somente pela visão de um dos seus prefeitos, no início do século XX, passou a apreciá-lo. Será que a construção da “ponte do futuro” deu início a uma viagem ao passado? Os fantasmas dos guerreiros do velho Forte dos Reis Magos observam tudo sobre as muradas, dão risadas e se perguntam: – Foi por esse povo esquisito que brigamos tanto?

Nelson Mattos Filho

O artífice

8 Agosto (122)8 Agosto (123)

João Maria de Lima, o Joca, é um cara irrequieto, desses que quando pensamos que ele está indo, está indo mesmo, só que já voltou várias vezes e a gente nem viu. O conheci quando certa vez estava realizando uma obra no Avoante, no pátio do Iate Clube do Natal, e ao me ver enfrentando dificuldades para colocar o esticador de proa – que traciona o estai do mastro – sem pedir licença, subiu a bordo, tomou a peça de minha mão, fez o serviço e saiu rindo, como quem pergunta: – Aprendeu? Joca faz de tudo e mais um pouco, mas o que ele gosta mesmo é de marcenaria e navegação, duas áreas que domina como poucos. Nos últimos anos,  Joca tem se dividido entre Natal, Rio de Janeiro e Noruega. Natal, onde reside, Rio de Janeiro, onde cultiva amizades e faz trabalhos para grandes amigos, entre eles o medalhista olímpico, Kiko Pelicano, e a Noruega, como tripulante do lendário veleiro Saga. Coleciono boas histórias na companhia desse amigo e algumas estão registradas neste Diário, com os títulos, Receita de Peixe Ensopado e Peixe Ensopado – A Receita. Recentemente esteve em Enxu Queimado, nos fazendo uma visita para colocar o papo em dia e falar do veleiro que está construindo, em Natal, projeto e execução dele mesmo, batizado – por enquanto – de Nômade. No veleiro, que é um primor de construção e terá 26 pés de comprimento, ele pretende embarcar a família e dar um giro pelos mares do mundo. Para quem conhece Joca, essa é uma tarefa das mais fáceis. No primeiro retrato, ele posa ao lado do filho, não menos irrequieto, Erik, o “joquinha”.  

As pescadoras de Enxu Queimado

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– Hoje teve pescaria? – Teve sim, senhor, e da melhor qualidade! As pescadoras da praia de Enxu Queimado, acordaram cedo e foram lançar rede ao mar. Foi uma manhã de alegria que encheu de beleza e formosura as areias de uma das mais belas praias do Rio Grande do Norte. Foram três lances de arrastão e uma bela produção, com direito até a camarão bem nutrido! Viva e parabéns as pescadoras de Enxu!

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