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Escritos de uma segunda de Carnaval

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O Carnaval já vai alto pelas dunas e coqueirais de Enxu Queimado e pelo eco das músicas – músicas? – que invadem o povoado, poderíamos até dizer que é mais um Carnaval que se vai sem deixar saudades, mas aí seria demais, porque cada geração tem suas músicas preferidas, porém, nem todas tiveram a alegria de ter vivido os tempos dourados dos geniais compositores e letristas. Mas tem nada não, enquanto os gênios ficam esquecidos, sem querer, vamos cantarolando uma tal de Tu Tá na Gaiola, com “versos” que dizem assim: “…Ei, tu tá na gaiola….Cheiro de maconha boa….Várias piranha jogando….Ei, tu tá na gaiola….Vem sentando na piroca….Ei, tu tá na gaiola….Vai descendo a buc….tá na gaiola…”. Enquanto o tal Mc Kevin, emplaca sua loa de violação, as novinhas e os defensores dos direitos da mulherada, fazem coreografias em frente aos palcos e paredões Brasil afora! – E depois? – Ora, depois é outro dia!

Eita que esse mundão tá virado num traque e o Mc Kevin é apenas um tiquinho de nadica de nada em meio ao fogaréu da fuleragem e sua “música” foi feita apenas para um verão e ponto final e quem achou ruim, é porque nem advinha o que virá amanhã. Deus é mais, ou menos, já nem sei mais!

E por falar em fogaréu, os meninos das ciências do tempo anunciam que o mundo está bem pertinho de pegar fogo. Eles apostam que lá pras bandas de 2100 – bem pertinho, viu! – o Sol vai torrar o juízo de quase 50% da população do “planetinha azul”. Dizem que será uma onda de calor tão monstruosa que nem o “tinhoso” jamais imaginou. – Sabe em quem eles põem a culpa? – Pois é, em nós mesmo, mas nos acusam de uma forma tão relativista que a sentença entra por um ouvido e sai ligeiro pelo outro. Tomara que Santo Antão do ventilador ponha as barbas de molho e bote as ideias para funcionar, senão, os nossos netinhos tão ferrados, ou melhor, torrados. Mas vou logo avisando, viu Seu Sol: – Já deixei de usar os famigerados canudinhos, não jogo lixo na rua, não poluo os oceanos, nem os rios, gosto de cerveja gelada e de umas cachacinhas para esquentar o pé da orelha. “….tu tá na gaiola…” Homi, vai pra lá! Pense numa bixiga insistente!

E por falar nas coisas do tempo, pois num é que São Pedro resolveu abrir as torneiras do Céu durante o Carnaval. O Céu está bonito que só vendo e a chuva tem dado o ar da graça todos os dias. A mata da caatinga que cerca essa Enxu mais bela está uma boniteza sem igual. As borboletas fazem a festa em meios as flores do mato e a bicharada tem andado com riso de orelha a orelha. E os barreiros? Eita que tão de água de ponta a ponta. É tanta água que não chega um carro por aqui que não venha pintado de marrom. Já ontem mesmo, o amigo Lutero convidou para tomar leite no curral, diretamente do peito da vaca, mas foi logo avisando que a estrada estava difícil. Deixei quieto e guardei o convite para usar mais na frente. Tem tempo, tem tempo!

Mudando o ar da graça, nesses dias de reinado de momo tenho navegado pouco pelos portais de notícias e mais pelas estripulias das trincheiras das redes sociais, para saber os moídos dos pierrôs e colombinas e tenho comprovado que esses personagens não são mais os mesmos e nem deveriam ser, pois caíram no alçapão da gaiola e perderam o passo do frevo e das velhas marchinhas. Aliás, sempre que passo a vista pelas manchetes da grande mídia, me apego no mesmo mantra de mané luiz, que dá até uma dor de tanta falta de criatividade jornalística. Será que os velhos mananciais do jornalismo também entraram na onda da gaiola? Os caras estão batendo na mesma tecla e nem se dão por conta. Não tem ninguém pensando diferente e todos estão agindo que nem cartomante, tentando adivinhar o futuro pelas cartas, ou melhor, por colunas mais ideológicas impossível. Quer saber: Com toda milacria, as redes sociais estão mil anos à frente das redações e prontinhas para jogar a pá de cal sobre a carniça. – Quer apostar? – Aposte não, pois quem apostou perdeu a última eleição!

Pensa que esqueci do Mc Kevin, esqueci não, e nem posso, seus sucessos comandam os paredões. Se não gostou da Gaiola, que tal Sobe balão e Desce B…..? Isso mesmo, Desce B…..! E ele “canta” assim: “…No baile da Colômbia/Hoje eu como uma ninfeta/No baile da Colômbia/Hoje eu como uma ninfeta…”.

Mas tudo bem, o Carnaval está no terceiro dia e hoje em Enxu Queimado é dia do bloco As Putas de Segunda, mas antes que você fique imaginando o reboliço, digo que é um dos blocos mais tradicionais do lugar, onde donzelos se vestem de donzelas e saem pelas ruas espalhando alegria, paz e amor. – E a música? – Bem, a música não é preciso puxar muito pelo juízo para apostar no estilo do Mc Kevin!

E lá vem as Putas! “…tu tá na gaiola…/…e não para não novinha…”

Nelson Mattos Filho

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O buraco do tatu

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O jornalista, escritor, romancista, teatrólogo, cronista e colecionador de mais um bocado de ocupações, Nelson Rodrigues, desnudou a cena urbana brasileira, em todas as suas cores, trejeitos e costumes, na série de crônicas A Vida como Ela é, que faz sucesso até os dias atuais, pois a vida é como é e por mais que a modernidade queira assumir o comando, jamais conseguirá alterar o mecanismo que move a cabeça do homem. O cenário pode até mudar, mas o roteiro jamais! Se vivo fosse, meu Xará estaria produzindo verdadeiras pérolas, pois o moído é grande!

Dia desses estava bem sentado sob a sombra da varandinha de minha cabaninha de praia, quando chegou a notícia que um amigo do alheio havia visitado uma casa da comunidade e levado, por engano, uma carteira recheada de cédulas de garoupas e onças-pintadas. Como sempre, a rádio-peão tratou do caso com as mais diferentes versões e o que sobrou foi uma boa cervejada para comemorar os dedos que ficaram. Porém, no rebojo da notícia veio o moído que da casa de um vizinho da cena da carteira, um tatu gordo, que estava sendo cevado para os festejos de fim de ano, havia sido afanado. – Como é? – Um tatu? – Isso mesmo, um tatu! – Mas num é pecado ambiental criar tatu em casa, ainda mais com o objetivo de comer o bichinho? – É, rapaz, mas se avexe não e me deixe continuar! – Pois vá!

Pois bem, o delegado foi chamado para tratar do desaparecimento das “garoupas” e das “onças”, e como não podia fazer mais nada, pois dinheiro na mão é vendaval, entrou no possante para retornar no rumo da vinda, quando apareceu o ex-dono do tatu – ou seja, o roubado -, prestando queixa do desaparecimento do bicho. O delegado ouviu a reclamação, se penalizou com o choro do homem, mas entre o sim e o não, balançou a cabeça, olhou para o Céu, a espera de um sinal de Nosso Senhor, e resolveu se fazer de surdo, porque assim a vida fica mais amena e se fosse para decifrar um crime com outro crime, era melhor que a conversa entrasse por um ouvido e saísse pelo outro e assim, todos seguiriam a vida em paz. E assim foi!

Aí, enquanto navego pelo mundão de sites do oceano internético, para me assuntar das coisas do tempo, bati o olho numa notícia, saída dos reservatórios das ciências, anunciando que comer tatu enche o sujeito com milacrias de doenças que dá até medo. O anuncio veio assinado embaixo pelos meninos do IBAMA e estes lembram que degustar a iguaria pode deixar a pessoa com uma bruta dor de cabeça, pois, se for pego com a boca na botija, a bronca é grande.

Diz a matéria do Portal Notícias, que tatu, animal silvestres muito consumido nos recantos do sertão nordestino, é um depósito de micróbios transmissor de hanseníase, doenças de chagas, micose pulmonar e outras verminoses. Porém, os apreciadores rebatem dizendo que uma cachacinha boa, pareia elementar da iguaria, cura todos os males por ventura existentes. – O que não duvido, porque palavra de sertanejo é sentença verdadeira, mas também jamais deixaria de acreditar nas certezas dos estudiosos, porque uma mão lava a outra e as crenças nascem do que se ouve dizer.

Segundo os meninos das ciências e das causas ambientais, os tatus se alimentam de insetos e contribuem para o equilíbrio de populações de formigas e cupins. Os estudos afirmam que apenas um tatu, da espécie mulita, é capaz de comer em uma noite quase 9 mil invertebrados. – Aí me pergunto: Se treinássemos dois tatus-mulita para se alimentarem de papangus e soltássemos num certo planalto central, será que os bichos dariam conta da tarefa?

Pois é, a cena urbana brasileira é rica, hilária e basta uma nesguinha de olhar meio de lado para deparamos com causos, contos, estórias e histórias que enchem folhas e linhas com a criatividade de cronistas como o impagável, amado, criticado e querido Nelson Rodrigues, que assim se definia: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino). ”

Mas antes de findar a prosa, vale lembrar que, além das enfermidades relatadas pelos pesquisadores, dizem por aí que comer tatu dá dor nas costas, viu!

“…O cachorro quando late no buraco do tatu/Sai espuma pela boca e chocolate pela orelha…”

Nelson Mattos Filho

Uma ponte atravessada no caminho

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Juro que nunca entendi o motivo que levou o criador de nomes a batizar o meu Rio Grande do Norte com um nome tão pomposo. Se foi por causa do rio que nasce no município de Cerro Corá e segue serpenteando boa parte do Estado, por 176 quilômetros, até desaguar nas águas do Atlântico, imagino que não foi, pois apesar da beleza de suas pinturas e do romantismo de suas poesias, ele não é tão grande assim e desde que o Potengi entrou nessa história que vem sendo diminuído ano após ano. Se foi pela grandeza das suas terras, também não, porque o elefante não aprendeu a crescer. Se foi pela riqueza do solo, até que poderia ser, pois aqui, se plantando tudo dá, porém, tem alguns poréns para atrapalhar. Será que foi pelas jazidas minerais e os recursos naturais? Quem sabe! Mas se foi, já foi, pois como diz a piada: “Tá se acabando tudo! ”. E pela grandeza dos nossos governantes? Com certeza não foi e definitivamente não, pois pense numa turma apequenada! Mas já que batizaram assim, assim será e ponto final e vamos seguir com a prosa.

No dia da festa maior em homenagem a Nossa Senhora da Apresentação, padroeira de Natal, o jornal Tribuna do Norte publicou matéria, mais uma, sobre o empecilho criado pela Ponte de Todos Newton Navarro para melhor desenvolvimento do turismo potiguar. Mas não foi por falta de aviso, foi por falta de visão e pelo grande mal causado pelo endeusamento político que a tudo corrói e destrói. Segundo a matéria, que é uma verdade, a Ponte é uma barreira para que o RN receba a maioria dos navios de cruzeiro que fazem a festa e levam alegria a outros portos Brasil afora, porque a altura do vão central, em torno de 54 metros, e a falta criminosa das proteções nas pilastras de sustentação, impedem a entrada de navios maiores e mais modernos. Na Copa 2014, jogo dos desmandos e do nosso maior fracasso futebolístico, Natal deixou de receber dois ou três transatlânticos e no verão que se avizinha, apenas assistirá à passagem deles ao largo e apenas um ou outro aproará a Barra do Potengi.

O mais engraçado é que recentemente foram gastos uns bons milhares de dólares para a construção de um terminal de passageiros, que de tão jogado as moscas, baratas e ratos do porto, está sendo oferecido a qualquer troco para realização de eventos diversos. Há quem diga que está certo e até defenda o uso para outros fins. – E sabe de uma coisa? – Eles é que estão certo, pois se não serve para uma coisa, que sirva para outra antes que venha abaixo por falta do que fazer.

O secretário de turismo, falando pelo governo do Estado, governo este que já está com as gavetas desocupadas, se apressa em dizer que está batalhando para mudar o quadro. A Codern, Companhia Docas do Rio Grande do Norte, diz que não está medindo esforços e até anuncia que o porto tem batido recordes de embarques de container. A classe política, deputados e senadores, se faz de desentendida, porque para ela tudo são flores e palanque. O governo que vai assumir, prometendo transformar o RN em um mar de rosas, vermelhas, continua prometendo, porém, ainda não orientou suas fileiras a pastorar o horizonte.

– E o que eu quero com essa prosa? – Digo! Sou defensor do turismo náutico em todos os níveis e o Rio Grande do Norte tem potencial para navegar em mar de almirante nesse segmento. O turismo náutico está entre os que mais crescem no mundo e que trazem excelentes benefícios e recursos. O RN está aproado e é porto estratégico para os destinos mais procurados do mundo e basta dar uma folheada na história para ver essa verdade. Somos beneficiados pelos ventos, pelas correntes marinhas, por um litoral belíssimo, por praia maravilhosas e viramos as costas para a lógica e nos agarramos com falácias de burocratas cegos, mal-amados e por uma politicagem barata. Recentemente enfiamos na lama a ideia maravilhosa de uma marina, que traria a esperança de bons resultados. Projeto que não passou pelo ranço e a acidez de mentes ferinas e ideologicamente transloucadas. Batemos palmas na construção e festejamos loucamente a inauguração da Ponte de Todos como um marco de desenvolvimento, o que não é. A obra é linda, as fotos são lindas, os festejos de fim de ano ganharam novos ares, mas a Ponte está posta em local errado e seus construtores e gestores públicos não vislumbraram o futuro, olharam apenas para o próprio umbigo, acenaram para os afagos, cortaram a fita, condenaram a praia da Redinha a ficar embaixo da ponte e saíram de cena. O futuro a Deus pertence!

O turismo náutico empancou diante da Ponte Newton Navarro, logo ele, que tanto amou e retratou Natal. Agora, parodiando as autoridades, vamos batalhar essa batalha perdida! A história conta que por mais de 300 anos, Natal virou as costas para o mar e somente pela visão de um dos seus prefeitos, no início do século XX, passou a apreciá-lo. Será que a construção da “ponte do futuro” deu início a uma viagem ao passado? Os fantasmas dos guerreiros do velho Forte dos Reis Magos observam tudo sobre as muradas, dão risadas e se perguntam: – Foi por esse povo esquisito que brigamos tanto?

Nelson Mattos Filho

O artífice

8 Agosto (122)8 Agosto (123)

João Maria de Lima, o Joca, é um cara irrequieto, desses que quando pensamos que ele está indo, está indo mesmo, só que já voltou várias vezes e a gente nem viu. O conheci quando certa vez estava realizando uma obra no Avoante, no pátio do Iate Clube do Natal, e ao me ver enfrentando dificuldades para colocar o esticador de proa – que traciona o estai do mastro – sem pedir licença, subiu a bordo, tomou a peça de minha mão, fez o serviço e saiu rindo, como quem pergunta: – Aprendeu? Joca faz de tudo e mais um pouco, mas o que ele gosta mesmo é de marcenaria e navegação, duas áreas que domina como poucos. Nos últimos anos,  Joca tem se dividido entre Natal, Rio de Janeiro e Noruega. Natal, onde reside, Rio de Janeiro, onde cultiva amizades e faz trabalhos para grandes amigos, entre eles o medalhista olímpico, Kiko Pelicano, e a Noruega, como tripulante do lendário veleiro Saga. Coleciono boas histórias na companhia desse amigo e algumas estão registradas neste Diário, com os títulos, Receita de Peixe Ensopado e Peixe Ensopado – A Receita. Recentemente esteve em Enxu Queimado, nos fazendo uma visita para colocar o papo em dia e falar do veleiro que está construindo, em Natal, projeto e execução dele mesmo, batizado – por enquanto – de Nômade. No veleiro, que é um primor de construção e terá 26 pés de comprimento, ele pretende embarcar a família e dar um giro pelos mares do mundo. Para quem conhece Joca, essa é uma tarefa das mais fáceis. No primeiro retrato, ele posa ao lado do filho, não menos irrequieto, Erik, o “joquinha”.  

As pescadoras de Enxu Queimado

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– Hoje teve pescaria? – Teve sim, senhor, e da melhor qualidade! As pescadoras da praia de Enxu Queimado, acordaram cedo e foram lançar rede ao mar. Foi uma manhã de alegria que encheu de beleza e formosura as areias de uma das mais belas praias do Rio Grande do Norte. Foram três lances de arrastão e uma bela produção, com direito até a camarão bem nutrido! Viva e parabéns as pescadoras de Enxu!

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Reminicências

2 Fevereiro (191)

O que falar nesses primeiros dias de um outono que se apresenta com um horizonte tão enuviado? – Sei lá, vou ajuntar as letras e antes de colocar o ponto final, passarei a vista para ver no que deu.

O outono abaixo da linha do Equador é uma estação interessante e sempre gostei de vivenciar durante a longa temporada em que morei a bordo de um veleiro. O céu se apresenta com uma roupagem cinza enigmática, o mar adquire feições apaixonantes e os ventos bailam ao compasso de um velho e gostoso blue. É nessa época, algumas horas para lá, outras para cá, a depender dos volteios planetários do astro-rei, que os doutores e os adeptos das coisas da astronomia, festejam e discorrem loas sobre o equinócio, que acontece duas vezes por ano – uma em março, outra em setembro – que em breves palavras, é o período em que os dois hemisférios da Terra estão igualmente iluminados pelo Sol e assim os dias e as noites duram tempos iguais. – Só isso? – Não, tem mais tempero nesse angu orbital, mas conto apenas os contos que sei, pois dos pormenores, os entendidos se encarregam de destrinchar!

E o dia de São José, que é santo esperançoso, passou praticamente sem um molhadinho sequer pelos terreiros nordestinos. Teve missas, rezas, foguetórios, promessas prometidas, promessas pagas e mais alguns folguedos animando praças e átrios das igrejas, mas o Santo se fez de rogado e seu dia passou em brancas nuvens. Porém, sertanejo é cabra forte, quando reza, reza pra valer e quando acredita, acredita acreditando e botando fé. A chuva está prometida, só não sei se hoje ou amanhã, mas que ela vem, vem. E tomara que venha logo, pois os barreiros estão secando ligeiro e os açudes nem pegaram água. Agora, saindo dos caminhos da fé e entrando na variante da ciência, pelas imagens transmitidas pelos satélites, a chuvarada está tomando forma. Que venha!

Seu menino, e o tal apagão da quarta-feira, 21? Precisa dizer alguma coisa, ou tudo já foi dito e desdito? Mas já que todo mundo deu um pitaco, vou dar o meu também: Acho que a causa foi falta de peia no lombo de quem precisa levar e nada mais. Pense num desmazelo destrambelhado! Num tem um filho de Deus, na seara das “autoridades”, para falar coisa com coisa ou coisa que se aproveite. É um tal de não sei, não fui, não sabia, não vi, que chega dá um reboliço nos miolos da gente e não tem paciência que fique quieta. Mal ligaram as luzes da quarta-feira, apagou-se novamente na quinta-feira, na “casa do céu”. – Casa do céu? – Sim, homem, aquele tribunal do planalto onde os pares se acham deuses, fazem beicinho um para o outro, enchem a carteira como se fossem xeiques das arábias e se arvoram a botar “ordem” até em jogo de biloca. Nem que eu quisesse entraria no mérito da questão não decidida, ou decidida, sei lá, pois o juízo ainda me resta um tiquinho e danado é quem quer emendar os bigodes com entrincheirados de plantão, mas o que houve por baixo das vestes da moça que segura a balança, só os mosquitos é quem sabem. Eita Brasil cheio de munganga e ainda sobra uma ruma de mungangueiro para tocar fogo no circo!

E as novidades não param de chegar e pelo zapzap a coisa se espalha mais ligeiro que fogo em palheiro, mas se tirar os nove fora não sobra nada, a não ser a parte sexo-educativa e as piadas. Eita ruma de caboco pra gostar de sacanagem! Tem aparelho de celular que o dono já mandou trocar umas três telinhas, pois o vidro gasta de tanto ele passar o dedo para cima e para baixo. Dizem que o primo, da prima do primo de uma amiga distante, gastou a impressão digital de tanto passar o dedo na tela do celular.

E a Semana Santa já vem despontando por aí e com ela as velhas notícias sobre o preço do peixe, a falta do mesmo e as enfadonhas entrevistas com os fiscais sobre as normas de comercialização. Como se o beabá desse jeito nos balaios! Qualquer dia vão inventar que peixe tem que ser vendido sem catinga e ai daquele que se abestalhar a vender! – Duvida? – Pois num duvide não, que nesse mundo tudo pode e quando é para arrancar dinheiro do contribuinte, a lei surge que nem faísca.

– E o Rio em? – Rapaz, só não digo que está igualmente a casa de mãe joana, porque na tal casa todo mundo manda e no Rio de Janeiro ninguém manda em nada. Nem a soldadesca verde oliva escapa e nem sei onde diabo os quatro estrelas estavam com a cabeça de se meter naquele fuzuê. Tome tento general e bata em retirada enquanto é tempo. Aliás, será que nos quarteis já escutaram Fernando Abreu cantando assim: …O Rio é uma cidade/De cidades misturadas/O Rio é uma cidade/De cidades camufladas/Com governos misturados/Camuflados, paralelos/Sorrateiros/Ocultando comandos…

Eh, acho que chove sim!

Nelson Mattos Filho

O parque e o mangue

P_20170914_112902Um mutirão coordenado pela administração do Parque das Dunas, um dos mais belos cartões postais de Natal/RN, que nas caminhadas da infância e adolescência, conheci boa parte, pretende retirar todas as plantas exóticas existentes na maravilhosa área de Mata Atlântica, e que, segundo os botânicos, estão ameaçando a fauna e flora. Plantas como Espada de São Jorge, Comigo Ninguém Pode, Dracena e outras, devem ser arrancadas e se possível, transferidas para outros locais. Olhando essa notícia nas páginas online do site Portal no Ar, lembrei de uma situação parecida e que virou tabu entre os defensores e instituições que cuidam do meio ambiente. Tempos atrás a Prefeitura do Natal esteve em contato com um grupo empresarial que pretendia construir uma marina, no Rio Potengi, próximo a fortaleza dos Reis Magos, na boca da Barra da capital potiguar, o que gerou gritaria, esperneio, afetação, discursões acaloradas e que culminou com a Câmara Municipal, erroneamente, botando uma par de cal sobre o assunto e a cidade perdeu uma excelente oportunidade de receber um grande portal turístico. Não defendo que o projeto daquela época fosse o mais correto e nem digo que aquele grupo fosse o que tinha melhores intenções, mas a discursão seguiu por uma rota totalmente adversa aos interesses da sociedade, a começar pela insistência dos militantes das coisas da ecologia em dizer que a marina iria destruir parte do mangue e coisa e tal. Ora, naquela época surgiram, e submergiram inexplicavelmente, estudos que afirmavam que o mangue em questão é composto de uma vegetação invasora e sendo assim, interfere na fauna e flora. – Será mesmo? Deve ser por isso que se diz, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Mas é assim!