Arquivo do mês: abril 2019

Cartas de Enxu 38

10 Outubro (29)

Enxu Queimado/RN, 29 de abril de 2019

Caro amigo, Marcelo, faz dias que estou para escrever-lhe essa missiva, mas a vida vai indo, os assuntos vão se alternando em meio ao cotidiano dessa vilazinha de pescadores e quando dou por conta, estou pegado rabiscando linhas para outro endereçado. Mas se apoquente não que não esqueço de você, viu! Ainda mais quando vejo o estirado de plantações, principalmente feijão, batata doce e milho, pelas cercanias dessa Enxu mais bela, porque caboco bom a entendedor de plantação só tem tu mesmo!

Ei, Flor, como estão as coisas pela Baixa do Sapateiro, lugar de uma Bahia verdadeira e cheia de gingado? Por aqui a vida vai marcando os passos de pouquinho em pouquinho, mas segue em frente sem precisar de muita correria. Correria mesmo somente das motos e carros que trafegam sem muitas precauções de segurança pelas ruas estreitas do povoado. Aliás, nem sei porque os “pilotos” têm tanta pressa em um lugar tão pequeno que se brincar, nem precisaria de locomoção automotiva! Meu amigo, para dar um breque na correria, muitos moradores constroem, por conta própria, o que não é legal, verdadeiras muralhas em formato de lombadas, mas nem isso resolve, porque os motoqueiros – ou seria motociclistas? – aproveitam as “muralhas” para praticar motocross. Sei não viu!

E por falar em ruas, no final de 2018 circulou a notícia que a estrada que liga Pedra Grande, sede do município, a Enxu Queimado, já havia sido aprovada e o dinheiro já estava dormindo em uma conta. Fiquei assim meio sei lá, pois não gosto de dar asas a caboco falante, mas resolvi plantar um pé de cá te espero. Diziam que a estrada estaria pronta em no máximo três meses, e meio, e acho que o que atrapalhou foi o tal do “meio”. Para que danado incluíram “meio” em uma obra tão curta? Pois bem, pelas minhas contas, e levando em consideração o “meio”, a obra estaria pronta agora, final de abril, porém, nadica de nada e até os arautos esqueceram o que tinham dito e hoje fazem ouvidos de mercador. Como diria o jornalista Flávio Rezende: Que situação, rapaz…

Marcelão, mudando de pau para peixe, a pesca por aqui, lugar de pescador, tem andado mais fraca do que caldo de batata. Não sei o que danada o barbudo Netuno está aprontando, mas os peixinhos têm dado trabalho para cair nas redes. A Semana Santa foi praticamente sem peixe e se não fosse a boa vontade do prefeito, em distribuir umas postinhas de atum, acho a turma iria enveredar pelo pecado da carne. Nos buchichos na beira mar os pescadores acreditam que a produção logo, logo vai melhorar e que tudo são os desígnios de Deus, o que acredito e dou fé, porque nos últimos dias já tem pescador com riso mais à vontade. Hoje mesmo, 29/04, Pedrinho mandou notícia que o barco dele havia chegado bem sortido e que tinha umas postinhas de bicuda e garabebel preparadas para mim. Eita que vai ter moqueca na panela de barro!

Ei, primo, e a chuva não para por aqui. Já estamos na soleira da porta do mês de Maio e só se avista nuvens escuras e bem carregadas desfilando pelo Céu de Nosso Senhor. Ano passado foi bem chovido, mas não é de minha lembrança que foi igualmente esse 2019 que caminha a passos largos. Fazia tempo que no Rio Grande do Norte não se ouvia falar em açude estourado e água carregando pedaços de estrada e destruindo pontes. A última chuvada pelos aceiros do Sertão deu o que falar e tirou o sono os meninos da Defesa Civil. Foi um tal de corre daqui, pastora dali, que tem gente com os mocotós doído de tanta correria desenfreada. Dizem que os principais reservatórios do Estado estão tomando água de montão e se continuar nessa pisadinha, vai ser alegria por mais dois anos. Veremos! Meu amigo, Beto de Bia, mandou recado de que o açude Gargalheiras, em Acari, está com promessa encaminhada. Respondi e prometi, que se o bicho despejar água por riba da parede, sairei de Enxu para dar uns mergulhos no velho açude e depois comer uma galinha caipira com pirão e arroz de graxa, sob a guarda de Nossa Senhora da Guia. Claro que vai ter uma “branquinha” para molhar a goela, pois ninguém é de ferro e a Santinha abençoa de todo agrado!

Marcelo Guimarães Flor, quando você voltará para dar uns passeios por aqui, homem de Deus? Dá última vez você veio num pinote e voltou no outro, mas me alegrei porque veio, ainda mais acompanhado do mano Marcelino que ficou feliz demais. Venha, rapaz, venha aproveitar das postas de bicuda e garabebel que Pedrinho reservou, que Lucia garante fazer uma moqueca, caprichada na pimenta, de torar. Aliás, se não quiser vir para a moqueca, venha no começo do mês de São João, pelo menos dança um forrozinho, que sei que você é bom, e aproveita do período da pesca da lagosta que por aqui é bem servido.

Beijo grande, meu amigo!

Nelson Mattos Filho

Tradições Navais

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‘ROSCA FINA’, ‘VOGA LARGA’, E ‘VOGA PICADA’

Na gíria maruja, muitas expressões externam o universal bom humor ou espirituosidade que caracterizam os homens do mar. As expressões “rosca fina”, “voga picada” e “voga larga” são alguns exemplos:

“Rosca fina” (ou ainda “voga picada”) denomina o superior, Oficial ou Praça, que é exigente na observância das normas e regulamentos, bem como na execução das fainas e tarefas, por si e pelos subordinados. O antônimo é o “voga larga”.

A origem do primeiro está no “aperto”, na “pressão” impressa pelo chefe, comparada pelo marinheiro a do parafuso com rosca fina – que “aperta mais”. A segunda vem de “voga”, que é a velocidade da remada ditada pelo patrão aos remadores em uma embarcação a remos. Pode ser uma “voga picada” (regime de velocidade maior, portanto mais exaustivo para os remadores) ou “voga larga” (velocidade amena, mais calma, mais tranquila).

Fonte: Marinha do Brasil

Cartas de Enxu 37

8 Agosto (76)

Enxu Queimado/RN, 25 de abril de 2019

Caro Odilon, as coisas por essa Enxu mais bela estão indo daquele jeito que você viu quando esteve por aqui em 2018, na paz e caminhando em passos lentos, mas caminhando. É uma pena que nosso amigo Chaguinhas ainda não pisou os pés por essas areias de dunas brancas, mas tem nada não, porque um dia ele chega e quando chegar, você vai escutar o barulho daí de São Paulo, porque o coronel tem pareia não. No dia que ele vier, vou pedir para Dona Voreta e os filhos, que moram na rua por trás de minha casa, para colocarem protetores de ouvido. Pense num caboco barulhento!

Brodinho, lembra aquele papo-cabeça que você teve com Lindemberg, filho de Pedrinho, sobre Beethoven, na sombra da varada da nossa cabaninha? Caso você não lembre, vou avivar sua memória: Lindemberg, 4 anos de idade, disse que tinha um cachorro e ele se chamava Beethoven. Você perguntou se ele sabia quem foi Beethoven e ele reafirmou que era o cachorro. Foi aí que você descambou a falar sobre o famoso compositor alemão, um dos principais pilares da música ocidental e autor de nove sinfonias, sendo a Nona a mais famosa, que o consagrou no mundo e mais uma lista de qualidades do gênio alemão, que inclusive perdeu a audição na fase adulta, mas devido a sua fenomenal memória auditiva, conseguia criar as composições em sua mente e executá-las. Berguinho, escutou sua preleção, com aquele ar de quem estava entendendo tudo, e quando você terminou, ele disparou: – Já sei, Beethoven é um cachorro que canta! Naquele dia demos boas gargalhadas e dobramos a dose de cervejas geladas. Pois bem, o “cachorro que canta”, dias depois que você foi embora, saiu para um passeio na mata, foi mordido por uma cobra e bateu a caçuleta.

Eh, amigo, estava aqui pensado em como os interesses mudaram no mundo desde o final do século XX. Até lá éramos um povo entusiasmado com a história e tirávamos lições que norteavam a jornada a ser seguida, mas agora tudo é tão efêmero que dificilmente as preocupações, os interesses, as alegrias, as tristezas duram mais do que longas doze horas. Claro que não estou falando das ideias e fantasias de uma criança e seu “cachorro que canta”, mas sim da deformação que atinge a mente dos adultos. Perdemos o senso e tateamos desgovernados em meio a um oceano tempestuoso, onde a tempestade é criada por nós mesmos. A história que há muito vinha sendo jogada as traças, agora está recebendo toneladas de pás de cal. A história vive apenas de furtivos e festivo interesses de alguns espertalhões.

Brodinho, dia 22 de abril de 2019 marcou a data do 513º aniversário do descobrimento das terras de pindorama, mas a data não mereceu muitas deferências, a não ser, pequenas notinhas em cantinhos de páginas de jornais e míseros segundos nos noticiários televisivos. Se houve festejos, o que deve ter havido, nas paragens da baiana “Costa do Descobrimento”, não dou notícias, mas pelo meu Rio Grande do Norte e principalmente na esquecida e abandonada Praia do Marco, parede e meia com Enxu, lugar que alguns historiadores apostam fichas como sendo o local exato em que Cabral aportou com sua esquadra, não teve nem o pipoco de um traque sequer. E sabe o que é mais engraçado: Os municípios de Pedra Grande e São Miguel do Gostoso, divididos pela réplica amarela do Marco de Touros e sua igrejinha povoada de santos e fé, travam verdadeiras batalhas de bastidores para saber qual dos dois merecem estampar em seus pórticos o brasão do reino de Portugal. E sabe o que mais: As escolas da região ainda se avexam a ensinar uma história errônea, até agora sem muitos embasamentos, como sendo a mais pura verdade.

Odilon, alguns amigos que me identificam como navegador, sem saber, eles, que sou apenas um aprendiz de marinheiro, as vezes perguntam o que acho da peleja do Descobrimento, respondo que não aposto uma cerveja gelada nesse assunto, mas até comeria uma posta de peixe frito, para acompanhar a cerveja, em alguma mesa de bate papo onde a peleja fosse posta, pois no mar não tem estrada lógica e Netuno é mestre em desmontar verdades. Porém, tenho apenas uma ressalva nesse moído: Avistar prontamente, do mar, o Monte Pascoal é preciso que o caboco esteja há muitos dias de castigo na “casa do caralho”, pois se não for assim é um grande exercício de paciência. Aí você pergunta: – E o Pico do Cabugi? – Pois é, ele está bem visto e altaneiro a quem se aproxima da costa Norte potiguar, entre Guamaré e Touros, a partir das 20 milhas.

Pois é Odilon Gibertone Leão, entre cachorros que cantam e as estripulias além-mar de Seu Cabral, estou dando notícias daqui e convidando você e Dona Estela para virem armar novamente a rede sob a sombra da varanda dessa cabaninha de praia. Venha, homem de Deus, e venha logo, pois as chuvas caídas por aqui estão dotando a região com uma beleza ímpar. Venha ver a chuva e aproveitar para molhar o corpo com o sal refrescante do mar de Enxu.

Nelson Mattos Filho

E assim caminham as palavras

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a função do escritor é:

(…) é transmitir a essência sempre em mutação da mente, por maior que seja a complexidade ou o intrincado das suas manifestações, com o menor número possível de elementos estranhos ou alheios a ela.”

Virginia Woolf

Cidadania

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“Não é a primeira vez e nem será a última”, assim diz o ditado e assim vamos levando a vida entre trancos e barrancos, mas sem esquecer de sermos felizes, pois se assim não for, seremos engolidos pela máquina de moer paciência.

A praia de Enxu Queimado/RN é sim uma comunidade pacífica e extremamente condescendente com aqueles que não lhe doam um mínimo de atenção – a não ser quando estes estão a vislumbrar a purpurina dos resultados das urnas eleitoras -, mas se não fosse esse relativismo, poderia, com toda propriedade, fazer parte do seletíssimo grupo de lugares no mundo em que se colhem os frutos do turismo consciente, amadurecido, diferenciado, respeitoso, educado, de bem com as causas ambientais e que norteia o bem estar da população local. A praia é dotada de beleza ímpar e áurea inspiradora, mas a moldura está maltratada e corroída pela falta de zelo.

Há anos a comunidade convive com o fantasma de uma tragédia anunciada e que até já ceifou uma vida, mas a morte passou sorridente, o choro cessou, a piedade esmoreceu, o medo se foi e o fantasma continua tranquilamente na espreita.

Como em todo e qualquer pequeno povoado brasileiro – juro que não sei se o problema é recorrente mundo afora – a fiação elétrica dos postes não tem o padrão de altura determinado pelos manuais de segurança. Cada empresa de serviço que utiliza os postes, coloca sua fiação de acordo com a cabeça oca de quem executa o serviço e dificilmente aparece algum responsável pela ordem pública para conferir o que foi feito. O que mais se vê por aí são ruas, becos, vielas e avenidas, cruzadas por fios tão baixos que se brincar servem até como varal de roupas e Enxu Queimado não foge à regra, mas deveria, porque é uma praia de enorme potencial pesqueiro, e por isso recebe diariamente caminhões baús refrigerados, e tem sobre suas dunas e matas de caatinga um gigantesco parque eólico e por isso em suas ruas estreitas circulam, irresponsavelmente, grandes carretas e monstruosos equipamentos de guindastes. Quando não é isso, de vez em quando ainda aparecem enormes ônibus que servem a cantores e bandas de forró e aí a zorra está formada!

Pois bem, em um período de quinze dias a fiação de telefonia, estirada irresponsavelmente sem padronização de altura sobre a rua principal de Enxu Queimado, foi arrancada por enormes caminhões e graças a Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira do lugar, não foi fiação elétrica, porque se assim fosse, o desastre estava feito, porque no primeiro acidente, que nem foi notado pelo caminhoneiro e mesmo se fosse ele teria ido embora do mesmo jeito que foi, sem dar satisfação a ninguém, porque não tinha a quem, a fiação ficou estendida no chão por uma semana. Mal a bagaceira foi concertada, outro caminhão, seguindo o mesmo modus operandi do primeiro, arrancou novamente a fiação, que assim permanece até o dia de hoje, 22/04/2019. – Denunciar a quem? – Rapaz, tenha fé em Deus!

Claro que a administração pública não fará o serviço, até porque não tem pessoas especializadas e nem a fiação lhe pertence, mas bem que poderia mandar uma equipe para isolar a área e acionar os responsáveis para que vidas sejam preservadas e alguma tragédia não venha a acontecer. Uma fiação arriada sobre qualquer via de circulação de pessoas ou automóveis, representa perigo eminente, mesmo que não seja energizada. Basta que um motociclista seja atingido, um carro esbarre, uma pessoa seja enlaçada ou por outros motivos o poste seja derrubado, os responsáveis, diretos e indiretos, serão denunciados e pagarão por suas faltas.

Que Nossa Senhora dos Navegantes nos proteja e ilumine a mente dos homens!

Nelson Mattos Filho

De olho na previsão do tempo

br1A Semana Santa foi de chuvas intensas em boa parte do Rio Grande do Norte, com açudes estourados, estradas transformadas em rios e um município isolado por causa de uma ponte destruída pelas águas. –É chuva, seu menino, é chuva! A semana que se inicia tem promessa de mais chuvas pelo Brasil e os técnicos do CPTEC/INPE dizem assim:

Nesta segunda-feira (22/04), áreas de instabilidade atuarão principalmente sobre grande parte da Região Sul, onde a previsão é de muitas nuvens e pancadas de chuva localmente forte. Na Região Norte, no MT e no norte do Nordeste persiste a condição para pancadas de chuva que localmente poderão ser intensas.

As nuvens vão clareando para velejadores brasileiros

velejaEh, tudo indica que acabou a agonia dos brasileiros e do francês, comandante da embarcação, que foram presos no arquipélago de Cabo Verde, África, em agosto de 2017, sob suspeita de tráfico internacional de droga, quando a polícia encontrou 1 tonelada de cocaína no porão do veleiro em que eles navegavam. O inglês Robert James Delbos, preso em 2018, confessou que foi o responsável pela reforma do veleiro, pelo embarque da droga e afirmou que o comandante e tripulantes não tinham conhecimento da droga. O inglês, preso na Espanha em 2018 e  extraditado para o Brasil em junho de 2018, disse no depoimento que o também inglês, conhecido por George Fox, seria o verdadeiro dono do barco. Fonte: G1