Arquivo do mês: outubro 2019

É crime

janeiro a junho (354)

Olhando esse retrato, convidativo para um dia de sol e mar nas encantadoras praias nordestinas, fico impávido para escrever sobre o óleo que criminosamente mancha as areias de um litoral tão lindo, mas prefiro recolher o destemor até que meus dedos tomem ciência para encontrar palavras decentes, porque por enquanto eles só querem juntar letras de indecências.

Dos reinados poéticos

Enxu Queimado julho 2017 - Erico Amorim (2)

A poesia é multifacetada, assim como são as imagens retratadas pelos poetas.  – E o que dizem elas? – O que eu quiser!  Érico Amorim das Virgens é um poeta!

Projeto Uma Palavra

10 Outubro (205)

Há algum tempo que idealizo “usar e abusar” dos conhecimentos profissionais dos amigos que nos visitam em nossa cabaninha de praia, para levar boas informações aos moradores da aconchegante comunidade de Enxu Queimado/RN, que sempre nos acolheu tão carinhosamente. Além de ser uma forma de agradecimento, o Projeto Uma Palavra, seria uma maneira de proporcionar a pequena comunidade informações de campos das ciências do conhecimento que muitas vezes passam, quando passam, ao longe.

10 Outubro (211)

Foi assim que quando recebi mensagem do amigo Afonso Melo, querendo vir passar uns dias com a gente, respondi que poderia vir, mas teria uma condição: Ministrar uma palestra na Colônia de Pescadores. Falei da proposta e disse que ele enfunaria as velas para que a ideia navegasse em busca de novos horizontes. Ele aceitou de pronto!

Afonso é funcionário da Petrobrás, mergulhador e instrutor de mergulho profissional e recreativo, tarefa que exerce com enorme paixão. A escolha de seu nome para abrir o projeto não foi por acaso, porque desde o começo ele estava em minha alça de mira, apenas faltava a oportunidade e as visitas prometidas não eram concretizadas, mas como bem diz o ditado: Tudo tem seu tempo. E acredito que sim, pois Afonso está de mudança para Vitória/ES, e sua visita, aproveitando uma semana de folga do trabalho, seria talvez o último abraço, da grande amizade que sempre nos uniu, antes de sua partida para as terras capixabas.

Não digo que a palestra foi casa cheia, porque foi tudo decidido de última hora e o amigo Xará, presidente da Colônia de Pescadores de Enxu Queimado, só teve um dia para convocar a turma e perguntou se o evento poderia começar às 19 horas, do dia, 23/10, porque mais tarde teria o jogo entre Flamengo e Grêmio, e ninguém queria perder. Aliás, o time carioca, que deu uma lavagem nos gaúchos, por aqui falta pouquíssimo para se tornar unanimidade. Foi um bate papo gostoso, descontraído e balizado pelas boas regras e normas de segurança que o mergulhador jamais deve deixar de observar. Foi tão bom que no dia seguinte recebemos diversos pedidos, daqueles que não puderam comparecer, para que a palestra fosse repetida, mas infelizmente não foi.

10 Outubro (202)

Pronto, o projeto já navega em mares tranquilos e vamos aguardar que outros amigos venham nos visitar, mas já sabendo eles que terão uma prenda a pagar. Como bem disse Afonso, a semente foi plantada, agora vamos regar para colher os frutos.

Caro e bom amigo, em nome da comunidade, especialmente da Colônia de Pescadores, dessa prainha maravilha, agradeço o carinho de sua atenção com essa causa social e muito obrigado por dividir com a gente um pouco dos seus valiosos conhecimentos.

Nelson Mattos Filho

25/Outubro/2019

Astúcia do navegador

7 Julho (64)

Em 1504 o navegador italiano Cristóvão Colombo usou de muita artimanha para se ver livre da fome que ameaçava sua tripulação, durante um encalhe na ilha da Jamaica. O navegador que tinha em mãos o almanaque de Regiomontano, que previa com exatidão quando aconteceria eclipse lunar, e pelo almanaque naquele ano aconteceria um, chamou os nativos, que se negavam a ajudar, e ameaçou desligar a luz da lua. Na medida que o eclipse foi avançado os nativos concordaram em auxiliar o navegador.

Reviver é que são elas

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Num claro sinal de “vazamento” controlado de informação, para amaciar o ego de parte da mídia que se declara antenada, vigilante e vazadora, o Governo Federal anuncia implementar nessas terras de além-mar um projeto criado pelo governo lusitano e denominado Programa Revive, que por lá tem a finalidade de recuperar, valorizar o patrimônio cultural e histórico e alavancar ativos econômicos para o país. O Revive dos patrícios, que deverá servir de base, se assim permitir a ciumeira parlamentar, para o Revive brazuca, abre o patrimônio histórico e abandonado até onde a vista alcança, para que investidores privados desenvolvam projetos turísticos através de concursos públicos. Ideia salutar em um país escandalosamente negligente com o legado e os resquícios que a história nos deixou e quem quiser atestar a negligencia, basta meter um par de conga nos pés, ou uma alpercata boa, colocar um caderninho de anotação na mão, pegar uma máquina de tirar retratos e sair batendo perna por aí.

Os jornais e blogs desse meu Rio Grande do Norte já estão ouriçados que nem enxames de abelhas com a informação de que o Revive brasileiro vai pintar pelas terras de Poti, e o Forte dos Reis Magos, na porta de entrada do rio Potengi, a Árvore do Amor, em Maxaranguape, um tal Parque dos Mangues, em Natal, e a Praia do Marco, em São Miguel do Gostoso, estão na lista para a exploração comercial e se assim for, torço para que seja verdade verdadeira e que o projeto saia do papel antes que os sítios se acabem para sempre. Sobre o Forte não existe palavras para definir a sacanagem gerencial que empapuça de lama as paredes da velha fortaleza que continua milagrosamente resistindo ao fogo da discórdia e ao ciscado de pavões emplumados, só não se sabe até quando.

Quanto a Árvore do Amor, plantada sobre as falésias da praia de Caraúbas, ao meu ver a história está chantada ao lado, no Farol de São Roque, e não no arco de coração desenhado pela natureza, mas já que o “amor” foi inserido na lista, vamos torcer para o que o Farol receba pelo menos uma lambuja de investimento. Do Parque dos Mangues, que só existe na cabeça dos desenhadores de maluquices ecológicas, pois o que se vê das margens é apenas miragem, porque ao vivo e a cores é tudo devastação, abandono e refúgio para todo tipo milacrias, vamos torcer e batalhar. Porém, como diz Dr. Virgílio Alexandrino, quando escuta um jogador de futebol, durante entrevista, após o jogo, em que a equipe foi derrotada, falar que vão batalhar: “- Pronto, é a pá de cal que faltava para terminar de afundar o time! ”.

E a Praia do Marco? Pois é, no relatório diz que ela pertencer ao município de São Miguel do Gostoso e não está errado de todo, mas também tem parte de suas areias e dunas nos domínios do município de Pedra Grande. O Marco, como é popularmente chamada, está abandonada desde que os marinheiros do Rei atracaram suas Naus por lá, chafurdaram nas areias, se atreveram a trocar espelho por apito com os nativos, chantaram um Marco de Posse e pegaram o beco descendo para cantar de galo em outras freguesias. A prainha linda, digo sem medo de errar, uma das mais lindas do litoral do RN, é um abandono só e não é pior porque alguns abnegados, entre eles Dona Tânia Teixeira, que até dia desses mantinha uma pousada na região, outrora tentaram manter acesa a chama histórica, mas depois de tanta falta de reconhecimento, restaram apenas promessas e o famoso seja o que Deus quiser.

Mas não pense que estou rabiscando essas linhas com a faca nos dentes para criticar o programa Revive Brasil, porque gostaria muito que o projeto tivesse andamento e desse valor ao que está jogado a própria sorte, pois se depender daqueles que até os dias atuais estão dando as cartas e se refestelando no sombreiro das verbas públicas, num futuro próximo sobrarão apenas retratos amarelados no fundo de algum arquivo enferrujado. Aliás, a velha fortaleza dos Reis Magos é forte sim senhor, porque resistir a fúria desenfreada da briga de egos dos “ilustres”, não é coisa para qualquer estrutura meia boca.

Mas diante de todo esse moído e da incrível ausência da boa informação jornalística que desapareceu completamente do ambiente das redações, oficialmente o que se tem de verdade sobre o programa Revive Brasil, é que em 10 de abril de 2019 foi publicado a Portaria Interministerial 151 e algumas áreas mereceram indicação, mas, segundo o superintendente regional do Patrimônio da União no RN, não significa que serão cedidas. Segundo o superintendente, o caso da Fortaleza dos Reis Magos é exemplar, porque já existe um contrato de cessão ao Governo do Estado e não existe a intenção de quebra contratual por parte do Governo Federal. O mesmo acontece com a Praia do Marco, em que um contrato de gestão entre a SPU e a Prefeitura de São Miguel do Gostoso, dá autonomia ao município cobrar pela utilização da orla.

No mais, é aguardar pelos pontos no is!

Nelson Mattos Filho

Imagem

É melhor não arriscar

O NÁUFRAGO

Cartas de Enxu 52

7 Julho (32)

Enxu Queimado/RN, 08 de outubro de 2019

“…não é só falar de seca, não tem só seca no sertão…”.

Pois é, caro amigo Bardou, assim cantou o poeta cearense enquanto olhava o açudão impanzinar, e hoje, vendo a seca medonha que se avizinha sobre a barra do nascente, estendendo tentáculos em brasa pelos cantos, recantos até se adeitar nas nuvens acolchoadas do poente da terra seca, coberta de uma mata ainda levemente colorida com as cores verdes das chuvas que já vão ao longe, reconheço como uma reza as palavras do poetinha cantador lá das bandas do Orós. Aí você diria: – Mas o que danado tem esse praieiro, aboletado em uma rede sob a sombra de uma varadinha de praia, para se avexar a falar de seca? Falo sim, meu amigo gaúcho, pois é nas paragens desse tiquinho de Nordeste, chamado Enxu Queimado, que se abrem as porteiras de um sertão brabo como espinho de jurema preta, afogueado feito rosto de vaqueiro valente, povoado de boi tinhoso, curtido no sol e no suor do sangue quente, mas entupido de um povo carinhoso que nem manteiga escorregando sobre miolo de pão quentinho.

Navegador, nesse 08 de outubro, que no calendário está marcado como Dia do Nordestino, depois de tomar umas goladas de café, acompanhado de uma pratada de cuscuz com ovo, peguei a estrada poeirenta e me danei no rumo de Caiçara do Norte, terra juramentada e afamada como sendo a capital da pesca artesanal desse Brasil brasileiro, na intenção de comprar uns quilinhos de camarões para Lucia produzir suas delícias gastronômicas. E deu tudo nos conformes, viu, mas ao longo da viagem me vi perdido em pensamentos diante da brabeza do Sol inclemente feito açoite de cipó de broxa. Seu menino, é tanta quentura que chega a tapar os buracos da venta e sem falar nos rodopios dos sacis que riscam o chão espalhando poeira amarronzada no meio do mundo. É bonito ver o ciscado, numa perna só, dos moleques travessos assustando os desavisados e fazendo rir os que reconhecem e respeitam suas estripulias. Tem até quem sinta o cheiro da fumaça do cachimbo e escute o eco dos seus risos. Eu até que tento, mas tem jeito não, fico só na beleza do rebuliço do vento sobre o chão de barro.

Amigo, e por falar em Saci e em pé de vento, digo que os alísios que varrem as praias desse litoral Norte, este ano estão meio desembestados e tem deixando muitos jangadeiros com as barbas de molho. E o mar? Vixi, tem pareia não! Rapaz, o senhor do tridente está mandando ver na festança e os carneirinhos estão tomando conta do oceano até o horizonte que a vista alcança. Éolo ligou os moinhos que sopram do Sul e Sudeste numa velocidade de fazer inveja a madame cruviana e Netuno, rei do reino do mar, puxou a prateleira de vinil e atochou rock pesado na vitrola. A brincadeira, para eles, está boa, mas para o povo do mar, a coisa está esquisita. Dia desses ouvi dizer que os comandantes das belonaves inscritas na REFENO 2019 estão apostando numa velejada gostosa e macia, de Recife até a ilha maravilha, dia 12/10, e tomara que eles estejam certos, pois como diria o velejador pernambucano Guga, talvez o maior colecionador de troféus da REFENO, comandando a fera Ave Rara: – Acho que vai ser punk!

E por falar em REFENO, este ano até que recebi convite, mas olhei para a sombra dessa cabaninha de praia, para a rede espichada na varanda, pedi conselho ao coqueiral, me confessei com os encantados que protegem os navegantes e depois de banhar a alma com umas doses de Rum, preferi ficar quieto e escutar apenas os moídos e festejos que os ventos oceânicos devem trazer de lá para cá. Se a brincadeira vai ser boa? Tenho certeza que sim, pois sempre é!

Eita, meu amigo, agora que estou me dando conta que já dei uma ruma de bordo nessa prosa. Comecei falando em seca, embrenhei pela floresta da caatinga, me deparei com sacis, cruzei a fronteira praticamente inexistente entre as cidades de São Bento e Caiçara do Norte, divididas apenas pelo passar da perna, cutuquei os encantados do mar, me vi diante dos assopros dos deuses dos ventos e temporais, Éolo e Cruviana, e até me avexei a caçar as velas das Naus dos iatistas que em breve cruzaram as águas mornas nordestinas, mas tudo bem, pois a intenção dessa missiva é mandar notícias daqui e entre um papo e outro tem um bocado de trilhas e veredas.

Luiz Achylles Petiz Bardou, amigo que recebi de presente do mar e que guardo com carinho no coração, já completou mais de uma década que você riscou traçado pelas cercanias dessa prainha dos domínios de Poti e já é chegada a hora de vir conferir o que um dia você viu. Venha meu amigo, venha ver a seca que canta, encanta, traz dor, lamento, alegria, esperança, resignação, fé, descrença e como num passe de mágica, transforma tudo em poesia.

Venha ver o mar, o mar do Nordeste, o mar dos alísios, o mar de dunas brancas, mar que encanta e por encanto, transforma tudo em melodia nos acordes de uma viola chorosa sombreada pelas palhas de um coqueiral.

“…se não é seca é enchente/Ai, ai, como somo sofredô/Eu só queria saber/O que foi que o Norte fez/Pra vivê nesse pena…” E assim vai Raimundo Fagner, o poeta cantador.

Nelson Mattos Filho