Arquivo do mês: fevereiro 2019

O buraco do tatu

tatu

O jornalista, escritor, romancista, teatrólogo, cronista e colecionador de mais um bocado de ocupações, Nelson Rodrigues, desnudou a cena urbana brasileira, em todas as suas cores, trejeitos e costumes, na série de crônicas A Vida como Ela é, que faz sucesso até os dias atuais, pois a vida é como é e por mais que a modernidade queira assumir o comando, jamais conseguirá alterar o mecanismo que move a cabeça do homem. O cenário pode até mudar, mas o roteiro jamais! Se vivo fosse, meu Xará estaria produzindo verdadeiras pérolas, pois o moído é grande!

Dia desses estava bem sentado sob a sombra da varandinha de minha cabaninha de praia, quando chegou a notícia que um amigo do alheio havia visitado uma casa da comunidade e levado, por engano, uma carteira recheada de cédulas de garoupas e onças-pintadas. Como sempre, a rádio-peão tratou do caso com as mais diferentes versões e o que sobrou foi uma boa cervejada para comemorar os dedos que ficaram. Porém, no rebojo da notícia veio o moído que da casa de um vizinho da cena da carteira, um tatu gordo, que estava sendo cevado para os festejos de fim de ano, havia sido afanado. – Como é? – Um tatu? – Isso mesmo, um tatu! – Mas num é pecado ambiental criar tatu em casa, ainda mais com o objetivo de comer o bichinho? – É, rapaz, mas se avexe não e me deixe continuar! – Pois vá!

Pois bem, o delegado foi chamado para tratar do desaparecimento das “garoupas” e das “onças”, e como não podia fazer mais nada, pois dinheiro na mão é vendaval, entrou no possante para retornar no rumo da vinda, quando apareceu o ex-dono do tatu – ou seja, o roubado -, prestando queixa do desaparecimento do bicho. O delegado ouviu a reclamação, se penalizou com o choro do homem, mas entre o sim e o não, balançou a cabeça, olhou para o Céu, a espera de um sinal de Nosso Senhor, e resolveu se fazer de surdo, porque assim a vida fica mais amena e se fosse para decifrar um crime com outro crime, era melhor que a conversa entrasse por um ouvido e saísse pelo outro e assim, todos seguiriam a vida em paz. E assim foi!

Aí, enquanto navego pelo mundão de sites do oceano internético, para me assuntar das coisas do tempo, bati o olho numa notícia, saída dos reservatórios das ciências, anunciando que comer tatu enche o sujeito com milacrias de doenças que dá até medo. O anuncio veio assinado embaixo pelos meninos do IBAMA e estes lembram que degustar a iguaria pode deixar a pessoa com uma bruta dor de cabeça, pois, se for pego com a boca na botija, a bronca é grande.

Diz a matéria do Portal Notícias, que tatu, animal silvestres muito consumido nos recantos do sertão nordestino, é um depósito de micróbios transmissor de hanseníase, doenças de chagas, micose pulmonar e outras verminoses. Porém, os apreciadores rebatem dizendo que uma cachacinha boa, pareia elementar da iguaria, cura todos os males por ventura existentes. – O que não duvido, porque palavra de sertanejo é sentença verdadeira, mas também jamais deixaria de acreditar nas certezas dos estudiosos, porque uma mão lava a outra e as crenças nascem do que se ouve dizer.

Segundo os meninos das ciências e das causas ambientais, os tatus se alimentam de insetos e contribuem para o equilíbrio de populações de formigas e cupins. Os estudos afirmam que apenas um tatu, da espécie mulita, é capaz de comer em uma noite quase 9 mil invertebrados. – Aí me pergunto: Se treinássemos dois tatus-mulita para se alimentarem de papangus e soltássemos num certo planalto central, será que os bichos dariam conta da tarefa?

Pois é, a cena urbana brasileira é rica, hilária e basta uma nesguinha de olhar meio de lado para deparamos com causos, contos, estórias e histórias que enchem folhas e linhas com a criatividade de cronistas como o impagável, amado, criticado e querido Nelson Rodrigues, que assim se definia: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino). ”

Mas antes de findar a prosa, vale lembrar que, além das enfermidades relatadas pelos pesquisadores, dizem por aí que comer tatu dá dor nas costas, viu!

“…O cachorro quando late no buraco do tatu/Sai espuma pela boca e chocolate pela orelha…”

Nelson Mattos Filho

Previsão do tempo – nuvens escuras

br1Após 11 dias aproveitando um período voluntário de “férias” da edição do blog, amanheci o dia na esperança de navegar por entre os sites meteorológicos e tentar descobrir o que se passa na cabeça dos deuses que controlam o tempo, porque os elementos da natureza têm andado de cara bonita pelas cercanias e campos brasileiros. Da varandinha de minha cabaninha de praia acompanho o desfile de nuvens e no finalzinho da tarde, e restante da noite, me alegro com o tracejado alumiado dos coriscos cortando o céu do poente e com o eco dos trovões que alegram as noites em roncados distantes. Porém, ao abrir o computador, deparei com a triste notícia da morte do jornalista Ricardo Boechat, o que me deixou momentaneamente em estado de choque. Sinceramente: O Brasil não merece esse amontoado de tragédias. É desgraceira demais para um país que se auto-intitula “abençoado por Deus”. Brumadinho, Ninho do Urubu, Boechat! Qual será a próxima tempestade? – Deus, lembre-se da nossa benção, viu! Quanto a previsão do tempo: A semana será de chuvas em boa parte do Brasil e o mar deve se agitar a partir da quinta-feira,  14/02, devido a fortes ondulações vindas do Sul e Norte. – E a temperatura? – Vixi, tem passarinho voando só com uma asa, pois a outra é para se abanar!