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Além da realidade

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Surreal: que denota estranheza, transgressão da verdade sensível, da razão, ou que pertence ao domínio do sonho, da imaginação, do absurdo

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Cartas de Enxu 20

9 Setembro (9)

Enxu Queimado/RN, 16 de outubro de 2017

Sergipano, hoje dei por fé que há muito parei de escrever as cartas contando das coisas daqui e fazendo moído das coisas desse mundão de Nosso Senhor. Mas não foi por querer, pois querer eu queria, mas digo que esse negócio de WhatsApp e Facebook ainda vai destruir esse planetinha mal amado. Rapaz, a gente fica tão vidrado nos fuxicos da telinha que esquece da vida. E por falar em Nosso Senhor, você viu que o Rio Grande do Norte superlotou os altares e andores com 30 novos santos mártires de Cunhaú e Uruaçu? É santo seu menino, é santo! É tanto que o governador papa jerimum, com o sorriso de orelha a orelha, temperou o gogó e sob as bênçãos do Papa Francisco afirmou que o RN agora era exportador de santos. Meu amigo, o homem estava tão eufórico que vi a hora ele anunciar que era obra do seu programa de governo. Mas se não foi, um dia vai ser, porque político não deixa uma oportunidade assim passar em branco.

Os mártires de Cunhaú foram assassinados, em 16 de junho de 1645 por soldados holandeses e índios tapuias, enquanto assistiam a missa dominical na Capela do Engenho Cunhaú. Os mártires de Uruaçu foram perseguidos e presos pelo mesmo grupo e mortos em 3 de outubro do mesmo ano, nas margens do rio Uruaçu. Cronistas da época contam que o massacre se deu por motivo religioso, porque os invasores holandeses eram de religião Calvinista e traziam em sua tropa um pastor protestante para converter os invadidos. Porém, há quem diga que tudo se deu por briga pela posse da terra, pois holandeses e portugueses, naqueles tempos, sempre trocaram farpas e sopapos pelo bem bom dessa terrinha chamada Brasil.

Sergipano, saindo dos redutos da fé, as coisas por aqui vão indo do jeito que dá. Este ano a pesca da lagosta está sendo mais fraca do que caldo de batata e o peixe também tem nadado meio desconfiado com as redes. Deve ser a tal da crise que estendeu seus tentáculos pelo mar. Será? Os ventos também não estão ajudando e tem soprado com intensidades bem acima da média de anos anteriores. Quem acha bom é a turma dos geradores eólicos, que aqui tem que nem peste. Olhando de longe é um paliteiro só! O mar, com essa ventania desenfreada, se arrepia todo e assim fica difícil para o pescador correr atrás do sustento. Não é que não tenha peixe e nem lagosta, tem, mas tem pouco. Tudo isso, alinhado com a seca que se apresenta a cada dia com uma cara mais feia do que a outra, tem trazido um ar de incerteza com o futuro próximo.

E por falar em eólico, juro que não me conformo com as coisas desse país sem controle, onde uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os fiscais do meio ambiente rangem os dentes e partem para pegar no mocotó do desafortunado que se arvorar em pegar um bichinho qualquer do mato para servir de mistura no almoço dos bruguelos, mas se abrem em sorrisos permissivos quando da liberação para destruição das matas da caatinga, onde moram os tatus, os camaleões, os veados, as avoantes, em prol de construir parques eólicos. – E as dunas? – Se o caboclo se abestalhar e for tirar uma pá de areia do beiço de uma duna e for pego pelos homens, é papo para uns tantos dias de cadeia e uma multinha a ser paga até a quarta geração da família. Porém, as torres geradoras de energia eólica estão lá como se nada fosse com elas. E não é mesmo!

Sabe meu amigo, deitado em minha rede na varanda e vendo a danação de cata vento espalhado, fico pensando se essa seria mesmo a forma mais limpa para gerar energia. Olhando para as vastas extensões de terras ocupadas pelos parques, não acredito que essa conta seja tão limpa assim. Como diz o ditado: Só o tempo dirá!

Ei, sergipano, diga aí como vão as coisas na sua Terra Caída? Como vai o velho e bom Toma Burro? Rapaz, estou com saudades de comer aquelas sapecas deliciosas, acompanhado de uma branquinha. E as canoas? Estou saudoso de sentar na beira do píer e jogar conversa fora olhando as estrelas e escutando o marulhar das águas do rio. Do pôr do sol esplendoroso. Do incrível tapete de caranguejos chama-marés e dos massunins da ilha da Sogra. Estou saudoso sim, meu amigo, mas qualquer dia darei sossego aos punhas da minha rede e botarei o pé na estrada no rumo da Bahia, onde tenho aquele maravilhoso casal de filhos mais lindos do mundo.

Pois é meu bom amigo Gileno Borges, navegador dos sete mares e o sergipano mais baiano que conheço, a vida nessa minha cabaninha de praia está assim, com um olho no coqueiral e outro nas coisas do mundo. Largue sua preguiça de lado e venha aqui, homem de Deus. Você vai gostar e Cassinha gostará mais ainda.

Um cheiro nos dois e que os santos mártires nos abençoe.

Nelson Mattos Filho

Veredas

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Há muito planejo levar esse blog por estradas não tão salgadas, mas sempre que tento apertar o passo, bate um certo rebuliço nos miolos e retorno correndo para as veredas oceânicas, onde as coisas são mais normais e menos letais. – Mas por que não? – Pois é, por que não? – Bem, vou tentar! O Rio Grande do Norte, o meu torrão natal, tem algumas particularidades que merecem estudos relevantes, mas antes que baixe o santo guerreiro na alma dos caboclos bairristas, digo que o Brasil inteiro precisa sim de um reestudo e esse precisa vasculhar as entranhas. Porém, para não meter a bota no terreno de ninguém e cada um que cuide do seu terreiro, vou me apegar apenas aos limites do mapa do elefante, pois isso já me basta. Rapaz, o ufanismo papa jerimum é delirante e ai de quem duvidar. Dia desses, observado a discussão de um grupo de cidadãos, escutei a seguinte pérola dita com um entusiasmo sem precedentes: “…meu amigo, o RN é um estado rico, tão rico que estamos em primeiro lugar em violência.” Levantei a vista, respirei fundo e saí de fininho para não ter que falar besteira. – Sim, mais e aí? – Calma que isso foi só para engrenar! – Agora vou passar a segunda. A imagem que abre essa postagem desinteressante é da estrada RN 120, que corta os sertões da região do Mato Grande, bastaria ela para mostrar o descaso que estou cheio de dedos para comentar. – Homi, deixe de coisa e desembuche logo! Pois bem, a RN 120 é o próprio descaso , ou melhor, é o retrato da “importância”, para não dizer o contrário, que nossos governantes dão ao festejado progresso. As margens dessa rodovia está sendo erguido um dos maiores parques eólicos do país e por ela circulam diariamente dezenas de super carretas, carregadas de monstruosos equipamentos. Além das carretas, centenas de caminhões menores e outra centena de automóveis disputam o mísero espaço de uma estrada que não oferece a mínima segurança para o tráfego a que está submetida. Não tem acostamento, é estreita, não tem sinalização adequada, precisa urgentemente de recapeamento, animais pastam nas margens ou passeiam no meio da pista, não tem policiamento e tudo funciona ao deus dará. É uma lástima! Na minha singela e desimportante opinião, a melhoria da estrada era ponto primordial para a instalação do gigantesco parque eólico e não submeter os usuários as agruras dos inevitáveis acidentes e sustos. O que acontece na RN 120 é um desrespeito, uma irresponsabilidade, uma falta de vergonha na cara, um desgoverno e tudo aliado a leniência dos órgãos de fiscalização. Pronto, falei!        

Chineses inauguram parque solar flutuante

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Os chineses, que são considerados o povo mais poluidor do mundo, dá mostra que deseja acabar com essa má fama e passa a bola para os americanos, do galego do topete, que arrota verborragia contra os recentes acordos para melhorar o clima do planeta. Pois bem, os chinas mostram ao mundo a sua segunda usina flutuante de energia solar e a maior delas, com capacidade de produzir 40 Megawatt, energia que pode facilmente abastecer uma cidade com 15 mil residências.  Além de utilizarem águas dos lagos para a implantação de parques solar, os chineses já construíram a maior usina solar do mundo que é o  Parque Solar Longyangxia Dam, com uma área instalada de 25 quilômetros quadrados. Recentemente um grupo chinês assinou protocolo de intenção com o governo do Rio Grande do Norte para construção de uma fábrica de painéis para um futuro parque solar na região do Mato Grande, que tem instalado em suas terras o maior parque eólico do Brasil.  Pois é, apesar de toda desgraceira que se noticia por aí, muitos países sonham com um futuro melhor. Agora uma dúvida do meu amigo Paulo Menezes Guedes: “E o impacto ambiental desses parques flutuantes? Será que eles não criam zonas de sombras para o bom desenvolvimento da vida marinha?” Boa pergunta! Fonte: O Globo       

Cartas de Enxu 03

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Enxu Queimado, 30 de setembro de 2016

Meu caro Afonso, bem que a vidinha por aqui poderia ter seguido na mesma mesmice que você viu há uma semana, porém, a campanha eleitoral entre os vermelhos e os laranjas – é preciso dizer que por aqui laranja é a cor de um partido – andou mexendo com o ânimo dos eleitores e pelas delongas dos palanques, a coisa vai ser decidida no pau a pau. Um lado diz que é liso, o outro fala em dar lapada a torto e a direito, enquanto isso, o povo sai doido em um pula pula quase que sem fim. Tomará que chegue logo os finalmente para ver o resultado da prova dos nove. Meu amigo, por aqui chegaram notícias entristecidas que dão conta que pelos recantos desse Brasil sem rumo os caras estão matando um político e deixando outro amarrado para o outro dia. O que danado é isso homem de Deus? Será que já chegou o dito tempo do retorno, onde os homens se engalfinhavam até por um alegre bom dia? Está parecendo aqueles velhos filmes de Django. Pois é, a bala está comendo no centro e ainda não vi ninguém fazer um pantim para ir as ruas reclamar.

Amigo, pois não é que o violão que você me deu de presente está fazendo o maior sucesso entre os passantes. Rapaz, eu sento na varandinha da choupana e fico naquele moído do, pan, pan, pan/pan, pan, pan, pan/pan, pan e quando a turma passa, comenta: – Eita Nelson, tirando um som aí né? Eu, fazendo pose de quem já sabe, respondo: – Estou ensaiando uns acordes novos!

Sim, já ia esquecendo, pois não é que eu voltei a caminhar, e em plena sexta-feira. Onde já se viu alguém começar a caminhar numa sexta-feira? Pois começamos e tudo indica que já iremos parar amanhã. Tudo indica, mas não é certeza. Pelo menos as estatísticas dizem que sim. Qual estatística? Sei lá, mas deve ter algum estudo sobre isso por aí. Deixando de lado a matemática, eu adoro caminhar e pensar na vida, porque acho que tudo se acomoda em nossa cabeça enquanto caminhamos e os pensamentos ficam oxigenados e mais libertos – com essa agora lembrei do amigo Flávio Rezende. Até os médicos juram de pés juntos que não existe nada melhor para o coração do que uma boa caminhada diária. Eu também acho, mas a danada da preguiça não acha e quando dou por mim ela assume o controle, e eu é que não vou discutir com ela. Se ela quer assim, assim será!

Você viu falar que hoje é dia de uma tal Lua Negra? Pois é! Os cabocos não têm mais o que inventar no mundo aí se danam a pintar a Lua. Um dia é azul, outro é vermelha e agora é negra. Os homens das ciências lunares dizem que quando calha de ter duas Luas novas durante o mesmo mês, a segunda é negra, mas como ninguém enxerga mesmo a Lua nova, fica tudo como está e o dito pelo não dito. Já teve gente dizendo que quando isso acontece, e acontece a cada dois anos, a besta fera corre solta no meio do mundo e tem quem diga que até o chupa cabra dá as caras. Eu andei assuntando por aqui, porém, ninguém sabe desse assunto de Lua negra, por isso resolvi ficar quieto e vou tentar escutar se algum pocotó ecoará pela noite.

Amigo, a caminhada de hoje foi longa e aproveitando a maré baixa, que estava baixa mesmo, deu para pensar um monte de arezia. Você sabia que as paisagens das nossas praias estão mais desfocadas do que retrato de piquenique. Rapaz, as torres dos geradores eólicos já estão quase no beicinho da praia e do jeito que vai, basta Netuno acordar com o tridente virado para engolir tudo. Até as dunas móveis, outrora tão defendidas pela turma verde, já se foram dessa para uma melhor. Aliás, os informes jornalísticos dizem que pelos países primeiro mundista as torres já avançaram mar adentro e já devem estar servindo até de baliza para tirar carteira de marítimo. Pense aí o instrutor dizendo ao aluno: “Encoste o navio de ré entre aquelas duas torres”. Ei, se o cara não for bom não bota nem a pau!

– Você está rindo? Pois não ria não, porque daqui uns dias, quando acabarem as dunas e as caatingas do nordeste, você vai ver o cancão cantar nas hostes de Iemanjá. Vai ser tanto resmungo, tanto amuo, tanto arranca rabo da turma do verde, mas tudo vai entrar num ouvido e sair no outro, pois a turma do progresso é mais arroxada do que dindin. Duvida? Duvide não, pois está tudo aí para provar a verdade! Eu só fico pensando é na turma da vela. Você já pensou a peleja que será ficar dando bordo aqui acolá para se livrar daquelas palhetas gigantescas? E por falar em palhetas: Você sabia que uma pazinha daquelas, que gira nas torres eólicas, pesa mais de 7 toneladas? – E daí? Sei lá, mas eu soube e quis espalhar!

Pois é Afonso, os assuntos são muitos, mas se falar tudo, falta assunto mais para frente. Bem agora vou armar a rede na varanda e tentar ver a sombra dessa Lua negra.

Até mais.

Nelson Mattos Filho

Energia

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Energia: fontes e distribuição

 

 

Energia limpa?

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Negar os benefícios da energia limpa é difícil, mas justificar dizendo que ela é a redenção para o futuro da humanidade, é um pouco demais diante desses tempos estranhos. Ecologistas, dublês de ecologistas, ONGs, órgãos ambientais e pitaqueiros, batem tambores e emitem sinais sonoros para festejar as florestas de torres de geradores eólicos que se espalham aos quatro ventos pelo mundo. No nordeste brasileiro a energia eólica tem trazido esperanças de melhores dias para pequenos municípios e mudado a vida de muita gente. Imensas áreas são disputadas palmo a palmo por investidores antenados na força dos sopros de éolo. No litoral do Rio Grande do Norte e do Ceará, encontrar uma área desocupada para erguer uma torre eólica é o mesmo que procurar agulha em palheiro. Acho até que tem mais torres do que chão, tamanho é a grandeza do parque já em funcionamento. Os técnicos festejam e anunciam que a energia limpa já responde por 5,8% da produção brasileira e até o Greenpace já canta a bola dizendo que a partir de 2050 o Brasil terá toda a sua matriz energética oriunda das fontes limpas. Quem sou eu para dizer o contrário, mas noto uma cegueira danosa nas palavras dos técnicos e dos ecologistas, porque eles esquecem, ou viram o rosto para não ver, ou se fazem de doidos, ou sei lá o que, de observar e falar do mal, presente e futuro, que os campos de geradores eólicos vem causando as dunas, matas da caatinga, fauna, flora e paisagens brasileiras. As dunas praticamente foram dizimadas do mapa e a caatinga está em terrível e acelerado processo de extermínio. Quem irá pagar essa conta? Vale lembrar que a Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro e seu patrimônio biológico não é encontrado em nenhum outro lugar do mundo. No site do Ministério do Meio Ambiente está escrito assim: “A caatinga tem um imenso potencial para a conservação de serviços ambientais, uso sustentável e bioprospecção que, se bem explorado, será decisivo para o desenvolvimento da região e do país. A biodiversidade da caatinga ampara diversas atividades econômicas voltadas para fins agrosilvopastoris e industriais, especialmente nos ramos farmacêutico, de cosméticos, químico e de alimentos”. Eh, a mistura “científica” entre ecologistas, conglomerados financeiros/empresariais, diretrizes governamentais e interesses multifacetados, dá uma mistura esquisita danada! A imagem que ilustra essa postagem é do blogueiro André Correia, blog Folha de Pedra Grande, e reflete dunas devastadas na praia de Enxu Queimado, litoral norte do Rio Grande do Norte.