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Cartas de Enxu 40

8 Agosto (37)

Enxu Queimado/RN, 16 de maio de 2019

Mauricio, hoje ao escutar o zumbido do silêncio que faz eco por entre as palhas dos coqueirais que varrem as sobras da noite, enveredei por minhas filosofias de varanda e me enganchei pelas veredas que levam ao nada. Das janelas da cabaninha de praia olho para a floresta de geradores eólicos que cercam essa Enxu mais bela e fico matutando em que lugar do tempo e do espaço mora o futuro. Será que algum dia a humanidade encontrará com ele? Qual a cara do futuro? Será que é novo, será que tem meia idade ou será que ele é um velho rabugento, metido a novo e pinta os cabelos de acaju? Meu amigo, vejo o futuro como um ser tão arisco que quando pensamos que chegamos a ele, o danado se vai e só nos resta olhar para frente e mirar o passado. Pois é Maurição, pense nuns pensamentos amalucados que fui achar de pensar! Mas como você faz parte do grupo de pessoas que escavaca as novidades do mundo computacional, me avexei a escrever esta carta, pois sei que de futuro você entende.

Mauricio, cabra bom, antes de continuar com meu moído filosófico, futurista e amalucado, vou mandar um cheiro para Dona Regina e quando você tiver um tempinho para tomar aquela gela na varanda do Aratu Iate Clube, olhando para o maravilhoso pôr do sol, tome uma por mim e dê um abraço na baianada que por lá se deleita. Pois bem, vamos falar do futuro.

Rapaz, desde que o Brasil se danou a estocar vento, que se não estou enganado tudo começou nas terras da Iracema, pelo menos foi lá que vi os primeiros cata-ventos, escuto falar que enfim chegamos ao futuro. Os primeiros totens cearenses deram cria e hoje seus descendentes se espalham pelo país, produzindo feito coelhos. O Rio Grande do Norte tomou gosto pela coisa e, segundo dizem, fincou o pé e tomou a dianteira na produção de energia eólica. Dizem que pelas terras de Poti está implantado o que existe de mais moderno na seara eólica e foi daí que fiquei criando interrogação no juízo. Escarafunchando pelos atalhos da “grande rede” fiquei sabendo que os galegos da Holanda estão fabricando uma turbina de energia eólica que é uma monstra e tem pareia não. Os holandeses garantem que a bichiguenta, apenas umazinha, terá capacidade de produzir energia para alumiar umas dezesseis mil residências e mais uma danação de bico de luz. Danou-se! A monstra terá 260 metros de altura, o rotor 220 metros, cada hélice terá 107 metros de comprimento e produzirá 45% mais do que qualquer turbina que esteja hoje em funcionamento. Foi aí que ao terminar de ler sobre a holandesa comedora de vento, mirei o parque eólico de Enxu e não vi nem a sombra e nem o vento do futuro.

Eh, Mauricio, esse tal futuro é mesmo escalafobético e ai daquele que tentar passar-lhe a perna! Dia desses chegaram por aqui umas Naus tripuladas com uns marinheiros fantasiados de bacanas, que se diziam donos do mundo e da razão, só prumode tinham nas mãos uns trabucos que pipocavam fogo e amostravam um tal brazão de um tal reino de além-mar e num papo torto para entortar cabeça de índio, meteram os pés pelas mãos e nesse blá, blá, blá, entre uma cachimbada e outra, afirmaram que vinham do futuro, mas nas cartas que enviavam para lá diziam que o futuro era aqui e ele estava nu. Pois é, meu amigo, no espaço entre o passado, o presente e o futuro dessa história meio engembrada, cabe todo tipo de conto e até hoje – que não sei mais se é presente, futuro ou passado – quem conta o conto aumenta um ponto e o que era futuro virou passado e tudo indica que continuará passado e malpassado, pois do que foi passado ninguém conta e do futuro ninguém quer saber, porque todos vivem o presente e este não tem passado e nem futuro. Vixi, agora lascou em banda e nem eu estou entendendo mais nada!

Maurição, hoje a Lua está crescente e toda mimosa fazendo fita no céu. Ei, amigo, o luar por aqui é bonito de se ver, viu! Se eu fosse tu, pegava o beco e vinha dar uns bordos por aqui para comer umas postas de peixe fresquinho da silva. Se bem que os escamudos estão meio arredios e as produções andam poucas. Mas pelo menos dá para a gente arranjar uma dúzia de caíco para colocar na panela do escaldaréu, para comer na mesma moda que os pescadores comiam antigamente, sentados no chão da praia, com uma garrafa de cachaça enfeitando a areia e a Lua luminosa prateando o arredor. Eh, moonlight, curto o presente, adoro a vida que se vivia no passado, pois não conheço o futuro. Se for aquele que está chantado na Praia do Marco, não vale, porque futuro ele nunca teve. Homi, deixa pra lá!

Luis Mauricio Vila, cabra arretado de uma Bahia de mar e cantorias, estou com saudades da sua alegria e das boas risadas. Pegue sua Regina e venha ligeiro ver a vida como ela é e merecer ser. Venha, meu amigo, e venha logo, pois Enxu Queimado fica de cara e de peito aberto para o paraíso.

Vou botar a cerveja no gelo, viu!

Nelson Mattos Filho

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Cartas de Enxu 39

11 Novembro (107)

Enxu Queimado/RN, 09 de maio de 2019

Caro amigo, Fernando, bem que poderia juntar letras e escrevinhar sobre jangadas, paquetes, botes, redes e balaios de bicudas gordas, coisas que em Enxu são de belezas infinitas. Poderia falar sobre a imensidão de dunas brancas que cercam o lugar ou ainda dos quilômetros a fio de belas praias encantadas que se estendem até onde a vista alcança. Poderia falar das paneladas de escaldaréu degustadas nas noites a beira mar, acompanhado de deliciosos bate papos e cerveja, como diria o rei do baião, escumando, porque diante da força da brisa noturna dos alísios daqui, não tem gelo que dê conta. Quem quiser tomar cerveja gelada que adiante o passo nas goladas. Poderia falar sobre muitas coisas do cotidiano desse povoado praieiro tão mágico e tão incompreendido, mas vou me atrever a falar de coisas que me enchem de tristeza e desalento, porém, não se avexe e nem me queira mal por carregar essa cartinha com coisas dos pecados dos homens.

Amigo, você ainda lembra daquele dezembro de 2018, quando esteve por aqui? Pois é, naqueles dias andamos um bocado pelas estradas vicinais que traçam picadas por entre os lugarejos que povoam essa região de porta de entrada do sertão e lhe mostramos um Brasil que o Brasil desconhece, mas que é o mais simples e desnudo Brasil real, onde tudo é nada e nada é tudo. Você gostou tanto do “tour” que no dia seguinte embarcou no bugre bala de Luciano e foi ter um passeio de certezas e incertezas pelas dunas até a paradisíaca praia de Galinhos. Agora cá pra nós: Aquele bugre merecia uma participação especial nos filmes de Mad Max, num é não? Pois é, Fernando, aquelas estradas continuam igualmente você viu e irão continuar iguais por muito tempo, porque foram condenadas a uma vida de promessas e quando entra nesse departamento é difícil achar a saída.

Fernando, sei que você gostou daqui e até confessou em um áudio que me deixou feliz e emocionado, pois colocou Enxu um degrau acima de Gostoso, dois degraus arriba de Galinhos e quase emparelhou nossa prainha com a mutante praia de Pipa, afamada que só a peste. Claro que você queria nós agradar com as palavras de altivez e agradou tanto, que até hoje, sempre que tenho oportunidade, faço ecoar seu testemunho. Ei, você sabia que o município de Pedra Grande, do qual Enxu Queimado é distrito, completou neste mês de maio 57 anos de emancipação? Pois foi! Em maio de 2018 escrevi a Carta de Enxu 24, a amiga Lourdinha, e depois de relê-la posso dizer que em um ano nada de novo foi acrescentando e muito foi diminuído, apesar da monstruosidade do parque eólico que aqui gera energia, impostos e empregos. Aliás, comparo as empresas eólicas que usufruem das benesses dos ventos que varrem essa região, com gigantescas sanguessugas, porque sugam até as entranhas do que podem e em troca oferecem míseras migalhas em benefícios e ações sociais. Se os governantes não abrirem os olhos, muito em breve não teremos nem a estrada RN 120, que está praticamente intrafegável, insegura, sem sinalização, sem um mínimo de fiscalização e diariamente recebe dezenas de carretas com largura suficiente para tomar todo o espaço da estrada e carregadass com pesos desaconselháveis para uma via tão precária.

Rapaz, de vez em quando escuto falar em um tal Motores do Desenvolvimento do RN e fico a matutar o que danado é esse bicho! Será que os tais motores bateram biela antes de funcionar? Se a região que dizem ser a maior geradora de energia eólica do País está em situação periclitante, imagine o restante. Não dá para acreditar que paragens com tanta importância em uma área segurança nacional, que emprega milhares de funcionários, ocupada por gigantescas corporações industriais, não conte com um hospital bem equipado, não mantenha suas cidades, cercanias e estradas bem policiadas, não tenha um projeto bem elaborado de capacitação profissional e todas as cidades envolvidas estão situadas no Índice de Desenvolvimento Humano baixo. Pedra Grande ocupa a 5066ª posição entre os 5.565 municípios brasileiros.

Eh, meu amigo Fernando Rabello Sessler, velejador de primeira linhagem, como disse na abertura dessa missiva, queria falar de coisas belas e encantos praieiros, porém, hoje acordei meio sei lá e ao olhar o coqueiral de fronte a minha cabaninha de praia, senti que o bailar das palhas estava com cadência entristecida. A natureza é sabia e mestre em emitir razões em forma de sinais. Nada passa despercebida de suas leis e suas sentenças são enigmáticas. Na história de Adão e Eva o paraíso foi oferecido e bastava que zelassem pela sua manutenção, mas o Casal botou tudo a perder ao sentir o cheiro e provar do sabor de uma doce e apetitosa maçã.

Fernando, não se deixe levar por estas palavras de desabafo pecaminoso, porque elas não levarão a nada. Venha passar mais alguns dias se refrescando nos alísios desse litoral encantador para colher novas experiências de um Brasil quase esquecido. Venha meu amigo, venha que garanto nova rodada de escaldaréu e a velha rede armada na varanda!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 36

2 Fevereiro (165)

Ângela, não sei se é verdadeiro o conto de que nascemos com o plano de vida traçado em algum lugar entre o Céu e a Terra e por mais que tentemos mudar nosso destino, não tem como. Mas como duvidar do conto, se quando começamos a caminhar no labirinto, o máximo que conseguimos é chegar a uma imensa e indecifrável clareira onde tudo casa com tudo sem nem sabermos o porquê? Amiga, aquele carequinha era o máximo e não tem como deixar de agradecer Aquele que traça o destino das pessoas, em ter cruzado o de vocês com o nosso.

Sabe, amiga, a vida nessa praia paraíso continua caminhando na paz e na tranquilidade e lembra um pouco Terra Caída/SE, aquele pedacinho do Céu debruçado sobre os rios Piauí e Cajazeiras, só não tem o Zé de Teca, porém, tem uma trinca de cabocos resenheiros que se brincar, deixa Zé segurando o queixo. Pois veja só: Certa manhã, depois de uma madrugada de relâmpagos e trovoadas, sentei para papear com uns amigos e o assunto não poderia ser outro a não ser o riscado dos coriscos que lumiaram a noite e o ronco surdo de Thor. Lá pras tantas, alguém afirmou que primeiro vinha o trovão e em seguida o clarão do relâmpago. Tentei corrigir a crença do amigo e por mais que eu argumentasse que primeiro vinha o relâmpago e logo após o trovão, porque a luz é mais rápida do que o som, não teve jeito, pois naquela roda de bate papo todos estavam convencidos que o som vem primeiro do que a luz. Teve até quem dissesse assim: – Menino, quando a gente solta um peido de velha primeiro vem o pipoco e só depois aparece o fogo do traque. E vou confessar uma coisa, viu amiga: Pois num é que saí daquela resenha quase convencido que eu estava errado, tamanha era certeza dos debatedores. No próximo encontro vou perguntar se a Terra é redonda ou plana só para ver o circo pegar fogo. Vai ser onda, viu!

Amiga, nesse mundão sem fronteiras e com a rede de computadores emitindo dados e notícias a cada milionésimo de segundo, por mais isolado que seja o recantinho do planeta o zumbido chega e chega ligeiro e nem uma redinha preguiçosa e despretensiosa, estirada em uma varandinha de praia, serve de trincheira para um vivente se esconder. Pois veja só, estava eu sobre a varandinha, maravilhado com a história de São Lucas, no livro Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldell, quando me deu na telha de pegar o celular, bicho anunciador de boas e más, e na telinha apareceu a notícia de que o presidente dos ianques, Donald Trump, em discurso cutucou os defensores da energia eólica e disse que o barulho emitido pelas pás e turbinas geram câncer. Não é preciso dizer que a largada do galego deu o que falar mundo afora, mas da minha varandinha fiquei a matutar ao olhar para a floresta de “moinhos de vento” que por aqui se estende além de onde a vista alcança e mais um pouco: – Agora danou-se, e se esse “topetudo” estiver certo? Dia desses uma amiga que mora no povoado do Alto da Aroreira, parede e meia com Enxu, disse que tinha horror do barulho constante das torres de eólico, que cercam o lugar. Disse que aquele zumbido surdo dava até dor de cabeça e que muitas vezes não conseguia dormir. – Vai vendo, amiga, vai vendo!

Pois bem, deixei o alerta do galego para lá, pois o danado é dado a falar pelos cotovelos, se bem que acerta quase todas. Lembra do atentado na Suécia? O bixiga só errou a data! Pulei a tela e diante da notícia seguinte encolhi os olhos para ler o que achava que não estava lendo. O STF, que agora se avexou a cesurar a boca e os dedos do povo e a emitir ameaças veladas a torto e a direita, deu carta branca para o sacrifício de animais nos terreiros de umbanda, sob alegação de cunho religioso, cultural e histórico. Cada qual com sua fé, mesmo que seja torta! Agora me diga, Ângela: – E se o santo pedir o sangue, como tem acontecido por aí, de uma pessoa, será que também está dentro da permissão dado pelos senhores supremos?

Eh, amiga, esse mundo está virado de ponta cabeça, ou melhor, sempre esteve. E falando de sacrifícios de humanos: – Você viu que nos Andes encontraram centenas de esqueletos de crianças, coisa feita pelos Incas? Os estudiosos relativizam e dizem que as crianças eram sacrificadas para que os deuses abrandassem os efeitos do El Niño. Será que naquela época tinha STF naquelas montanhas de frente para o Pacífico? Sei lá! E pior é que o danadinho do El Niño e sua irmãzinha querida, continuam dando as cartas e mandando ver nas coisas do tempo, isso quer dizer que as crianças incas morreram por nada. Tem muito pecado em meio a fé!

Pois é, Ângela Cheloni, essa missiva era para falar das coisas dessa Enxu mais bela, mas fui inventar de curiar o celular e me perdi por entre as vias marginais das histórias mal contadas, mas tudo bem porque tudo vale quando se quer puxar conversa com uma amiga.

Beijo e não demore a voltar por aqui, viu!

Nelson Mattos Filho

Além da realidade

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Surreal: que denota estranheza, transgressão da verdade sensível, da razão, ou que pertence ao domínio do sonho, da imaginação, do absurdo

Cartas de Enxu 20

9 Setembro (9)

Enxu Queimado/RN, 16 de outubro de 2017

Sergipano, hoje dei por fé que há muito parei de escrever as cartas contando das coisas daqui e fazendo moído das coisas desse mundão de Nosso Senhor. Mas não foi por querer, pois querer eu queria, mas digo que esse negócio de WhatsApp e Facebook ainda vai destruir esse planetinha mal amado. Rapaz, a gente fica tão vidrado nos fuxicos da telinha que esquece da vida. E por falar em Nosso Senhor, você viu que o Rio Grande do Norte superlotou os altares e andores com 30 novos santos mártires de Cunhaú e Uruaçu? É santo seu menino, é santo! É tanto que o governador papa jerimum, com o sorriso de orelha a orelha, temperou o gogó e sob as bênçãos do Papa Francisco afirmou que o RN agora era exportador de santos. Meu amigo, o homem estava tão eufórico que vi a hora ele anunciar que era obra do seu programa de governo. Mas se não foi, um dia vai ser, porque político não deixa uma oportunidade assim passar em branco.

Os mártires de Cunhaú foram assassinados, em 16 de junho de 1645 por soldados holandeses e índios tapuias, enquanto assistiam a missa dominical na Capela do Engenho Cunhaú. Os mártires de Uruaçu foram perseguidos e presos pelo mesmo grupo e mortos em 3 de outubro do mesmo ano, nas margens do rio Uruaçu. Cronistas da época contam que o massacre se deu por motivo religioso, porque os invasores holandeses eram de religião Calvinista e traziam em sua tropa um pastor protestante para converter os invadidos. Porém, há quem diga que tudo se deu por briga pela posse da terra, pois holandeses e portugueses, naqueles tempos, sempre trocaram farpas e sopapos pelo bem bom dessa terrinha chamada Brasil.

Sergipano, saindo dos redutos da fé, as coisas por aqui vão indo do jeito que dá. Este ano a pesca da lagosta está sendo mais fraca do que caldo de batata e o peixe também tem nadado meio desconfiado com as redes. Deve ser a tal da crise que estendeu seus tentáculos pelo mar. Será? Os ventos também não estão ajudando e tem soprado com intensidades bem acima da média de anos anteriores. Quem acha bom é a turma dos geradores eólicos, que aqui tem que nem peste. Olhando de longe é um paliteiro só! O mar, com essa ventania desenfreada, se arrepia todo e assim fica difícil para o pescador correr atrás do sustento. Não é que não tenha peixe e nem lagosta, tem, mas tem pouco. Tudo isso, alinhado com a seca que se apresenta a cada dia com uma cara mais feia do que a outra, tem trazido um ar de incerteza com o futuro próximo.

E por falar em eólico, juro que não me conformo com as coisas desse país sem controle, onde uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os fiscais do meio ambiente rangem os dentes e partem para pegar no mocotó do desafortunado que se arvorar em pegar um bichinho qualquer do mato para servir de mistura no almoço dos bruguelos, mas se abrem em sorrisos permissivos quando da liberação para destruição das matas da caatinga, onde moram os tatus, os camaleões, os veados, as avoantes, em prol de construir parques eólicos. – E as dunas? – Se o caboclo se abestalhar e for tirar uma pá de areia do beiço de uma duna e for pego pelos homens, é papo para uns tantos dias de cadeia e uma multinha a ser paga até a quarta geração da família. Porém, as torres geradoras de energia eólica estão lá como se nada fosse com elas. E não é mesmo!

Sabe meu amigo, deitado em minha rede na varanda e vendo a danação de cata vento espalhado, fico pensando se essa seria mesmo a forma mais limpa para gerar energia. Olhando para as vastas extensões de terras ocupadas pelos parques, não acredito que essa conta seja tão limpa assim. Como diz o ditado: Só o tempo dirá!

Ei, sergipano, diga aí como vão as coisas na sua Terra Caída? Como vai o velho e bom Toma Burro? Rapaz, estou com saudades de comer aquelas sapecas deliciosas, acompanhado de uma branquinha. E as canoas? Estou saudoso de sentar na beira do píer e jogar conversa fora olhando as estrelas e escutando o marulhar das águas do rio. Do pôr do sol esplendoroso. Do incrível tapete de caranguejos chama-marés e dos massunins da ilha da Sogra. Estou saudoso sim, meu amigo, mas qualquer dia darei sossego aos punhas da minha rede e botarei o pé na estrada no rumo da Bahia, onde tenho aquele maravilhoso casal de filhos mais lindos do mundo.

Pois é meu bom amigo Gileno Borges, navegador dos sete mares e o sergipano mais baiano que conheço, a vida nessa minha cabaninha de praia está assim, com um olho no coqueiral e outro nas coisas do mundo. Largue sua preguiça de lado e venha aqui, homem de Deus. Você vai gostar e Cassinha gostará mais ainda.

Um cheiro nos dois e que os santos mártires nos abençoe.

Nelson Mattos Filho

Veredas

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Há muito planejo levar esse blog por estradas não tão salgadas, mas sempre que tento apertar o passo, bate um certo rebuliço nos miolos e retorno correndo para as veredas oceânicas, onde as coisas são mais normais e menos letais. – Mas por que não? – Pois é, por que não? – Bem, vou tentar! O Rio Grande do Norte, o meu torrão natal, tem algumas particularidades que merecem estudos relevantes, mas antes que baixe o santo guerreiro na alma dos caboclos bairristas, digo que o Brasil inteiro precisa sim de um reestudo e esse precisa vasculhar as entranhas. Porém, para não meter a bota no terreno de ninguém e cada um que cuide do seu terreiro, vou me apegar apenas aos limites do mapa do elefante, pois isso já me basta. Rapaz, o ufanismo papa jerimum é delirante e ai de quem duvidar. Dia desses, observado a discussão de um grupo de cidadãos, escutei a seguinte pérola dita com um entusiasmo sem precedentes: “…meu amigo, o RN é um estado rico, tão rico que estamos em primeiro lugar em violência.” Levantei a vista, respirei fundo e saí de fininho para não ter que falar besteira. – Sim, mais e aí? – Calma que isso foi só para engrenar! – Agora vou passar a segunda. A imagem que abre essa postagem desinteressante é da estrada RN 120, que corta os sertões da região do Mato Grande, bastaria ela para mostrar o descaso que estou cheio de dedos para comentar. – Homi, deixe de coisa e desembuche logo! Pois bem, a RN 120 é o próprio descaso , ou melhor, é o retrato da “importância”, para não dizer o contrário, que nossos governantes dão ao festejado progresso. As margens dessa rodovia está sendo erguido um dos maiores parques eólicos do país e por ela circulam diariamente dezenas de super carretas, carregadas de monstruosos equipamentos. Além das carretas, centenas de caminhões menores e outra centena de automóveis disputam o mísero espaço de uma estrada que não oferece a mínima segurança para o tráfego a que está submetida. Não tem acostamento, é estreita, não tem sinalização adequada, precisa urgentemente de recapeamento, animais pastam nas margens ou passeiam no meio da pista, não tem policiamento e tudo funciona ao deus dará. É uma lástima! Na minha singela e desimportante opinião, a melhoria da estrada era ponto primordial para a instalação do gigantesco parque eólico e não submeter os usuários as agruras dos inevitáveis acidentes e sustos. O que acontece na RN 120 é um desrespeito, uma irresponsabilidade, uma falta de vergonha na cara, um desgoverno e tudo aliado a leniência dos órgãos de fiscalização. Pronto, falei!        

Chineses inauguram parque solar flutuante

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Os chineses, que são considerados o povo mais poluidor do mundo, dá mostra que deseja acabar com essa má fama e passa a bola para os americanos, do galego do topete, que arrota verborragia contra os recentes acordos para melhorar o clima do planeta. Pois bem, os chinas mostram ao mundo a sua segunda usina flutuante de energia solar e a maior delas, com capacidade de produzir 40 Megawatt, energia que pode facilmente abastecer uma cidade com 15 mil residências.  Além de utilizarem águas dos lagos para a implantação de parques solar, os chineses já construíram a maior usina solar do mundo que é o  Parque Solar Longyangxia Dam, com uma área instalada de 25 quilômetros quadrados. Recentemente um grupo chinês assinou protocolo de intenção com o governo do Rio Grande do Norte para construção de uma fábrica de painéis para um futuro parque solar na região do Mato Grande, que tem instalado em suas terras o maior parque eólico do Brasil.  Pois é, apesar de toda desgraceira que se noticia por aí, muitos países sonham com um futuro melhor. Agora uma dúvida do meu amigo Paulo Menezes Guedes: “E o impacto ambiental desses parques flutuantes? Será que eles não criam zonas de sombras para o bom desenvolvimento da vida marinha?” Boa pergunta! Fonte: O Globo