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Lembram do naufrágio na Baía de Todos os Santos?

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Segundo entendimento dos nobres e respeitados ministros do Supremo, a justiça tem que andar lenta, gradual e quem quiser que esperneie, pois não foram eles que inventaram as leis e estas dão plena guarida de liberdade aos réus, até que se esgotem as disposições em contrário, ou, como dizem as más línguas, “o dinheiro necessário para a ação seguir em frente”. Vixi! Mas ainda bem que existe o desentendimento e é ele quem faz a justiça caminhar cambaleante que nem bêbado: Um passo pra frente, dois para trás, três pra frente e vez em quando um tropeção e assim vamos nós. Oito meses depois do naufrágio do barco de passageiros Cavalo Marinho I, que matou 19 pessoas numa manhã chuvosa na Baía de Todos os Santos, a polícia concluiu o inquérito do caso e indiciou, por homicídio culposo e lesão corporal culposa, o comandante da embarcação, o proprietário da empresa e o engenheiro naval que assinou o laudo atestando a navegabilidade do barco. A Marinha do Brasil e a Agerba (Agência reguladora que cuida também dos transportes na Bahia), foram isentadas de responsabilidade. Aos indiciados, resta esperar que o MP-BA analise as provas e os fatos, e leve, ou não, o caso as barras dos tribunais, onde a história é longa para uns e para outros nem tanto.  – Lembram do Bateau Mouche?Lembram dos intermináveis naufrágios com os barcos que fazem transporte na Amazônia?  – Lembram de alguns dos diversos acidentes  com vítimas fatais que acontecem sistematicamente em nossas águas, dois, inclusive, bem recentes nos mares do Sudeste? – E do acidente que mutilou o fantástico velejador Lars Grael? – Lembram? – Lembram também o que aconteceu com algum dos indiciados, ou réus? Pois bem, diz o ditado que quem morre é quem paga a conta. Que o Senhor do Bonfim, que a tudo observa do alto da Colina Sagrada, perdoe os nossos pecados.   

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Minha primeira noite em mar aberto

IMG-20180222-WA0070A palavra hoje está com o velejador Anselmo Pereira, comandante em chefe do veleiro Solaris, contando um pouquinho – e deixando em mim uma imensa saudade – do que foi sua primeira navegada em mar aberto, nas águas abençoadas pelo Senhor do Bonfim, a bordo do veleiro Pappi. Vamos embarcar nessa aventura!

Nosso amigo, comandante Jorjão, veterano velejador, nos convidou a participar da regata Salvador/Ilhéus. Não nos sobrou muito tempo para os preparos, devido a semana muito corrida que tivemos, resolvendo alguns dos problemas no barco, mas aceitamos de imediato.

Sexta feira, 2 de fevereiro de 2018, a ansiedade transborda, para mim, uma experiência única, além de uma excelente aula prática. São quase sete horas da manhã, dia ensolarado a cara do verão da Bahia. Saímos de casa bem cedo, demos uma passada no mercadinho da ilha, para complementar umas coisas de cozinha. Chegamos ao Aratu Iate clube, antes das sete horas, o comandante Ferreira, já estava a bordo do seu veleiro PAPPI, um Delta 36. Eu e Sandra éramos seus convidados e sua tripulação.

Como de costume, fizemos as verificações dos equipamentos de navegação, maré, vento, cartas, condições meteorológicas e mantimentos. Nossa travessia era estimada em um dia, e uma noite até o destino. No retorno não tínhamos data preestabelecida, passaríamos alguns dias em Camamu, em Canavieirinhas, Morro de São Paulo, e arredores, os locais mais cobiçados da costa sul da Bahia.

Velas içadas, 07h20min saímos do Aratu com destino ao porto da barra. O mar estava calmo como uma lagoa, os barcos ainda dormiam imóveis agarrados as suas poitas e vagas, o silencio só era quebrado pelo barulho no nosso motor, e um bando de garças que passavam sobre os veleiros grasnando. As águas verdes esmeralda e cristalinas, o vento era apenas uma leve brisa fresca. Após atravessarmos o canal de Cotegipe deixando para trás, os gigantes navios atracados aos terminais, seguimos com a proa na barra. O grande espelho de água refletia a imagem dos morros dos subúrbios a nosso bombordo. Após cerca de três horas de navegação, chegamos ao ponto de partida, em frente ao Iate Clube da Bahia, próximo do farol da Barra, ali seria dada a largada. Após a chegada de todos, e informações necessárias, exatamente às 11h20minh foi dada a largada. Todos se apressaram em alinhar a proa, de acordo a sua rota e estratégia.

Coração a mil, avançamos em direção ao mar aberto, aos poucos, as águas mudam de volume e cor, mais intensas e intimidadoras. O vento aumentou a intensidade, tal qual a euforia da tripulação. Depois de muitos ajustes e reajustes nas velas, nos concentramos na rota. À medida que às horas passavam e nos afastávamos da costa, ficávamos mais rápidos. O moral da tripulação estava alto e animado com a aventura.

A cada instante que olhávamos para a cidade, era como se estivéssemos nos apegando ao último pedacinho de terra, sabíamos que em breve desapareceria completamente. Após umas cinco horas navegadas, olhei nostalgicamente para trás na esperança de ver algo entre as ondas, porém o que vi foi apenas um pontinho que aparecia e desaparecia no horizonte líquido. Agora em nossa volta, as águas do oceano, eram de um azul impressionante. Daí em diante começamos a relaxar e passamos a desfrutar da maravilhosa e suntuosa paisagem marítima. Os nossos concorrentes espalharam-se como patos na lagoa, cada um seguia para uma posição tentando ficar a frente. Para mim, participar já era bom, ganhar seria o máximo, mas, apesar do desejo, tinha consciência do degrau que aquela experiência me proporcionaria. O tempo passa como um filme em câmera lenta, o mar ficou maior, suas ondas se transformaram em gigantes azuis. Diante da majestosa força, me dei conta da nossa pequenez. O oceano é fascinante, mas, provoca certo frio na barriga. O valente PAPPI demonstra que é realmente um valoroso marinheiro, sua proa cortava as ondas como uma navalha, deixando para trás, uma trilha de espumas brancas sobre o profundo azul. Naquele momento, a confiança se torna um laço estreito entre o barco e sua tripulação. Antes do anoitecer, já no finalzinho da tarde, fomos premiados, uma família de golfinhos nos acompanhou durante um bom tempo, vieram nos dar as boas vindas. Tão rápido como apareceram, desapareceram na imensidão, e assim a noite abraçou o PAPPI, e sua audaz tripulação.

As tripulações eram compostas por três membros. No PAPPI, comandante Ferreira, eu e Sandra. No NABOA, comandante Jorjão, Kathia e Bené. As tripulantes femininas, além de nos ajudarem bastante em outras tarefas, nos proporcionaram saborear deliciosos pratos. Por exemplo, não sabemos como Sandra consegue fazer café, mesmo com veleiro em movimento ou adernado, certamente elas são marinizadas.

À noite a paisagem ficou surreal, céu e mar se confundem, dando a impressão que flutuávamos sobre as estrelas. Já navegávamos a cerca de dez horas. Na escuridão, tudo que enxergávamos eram as luzes de navegação dos outros barcos. O frio apertou, coloquei meu blusão, e assumi o comando dando um merecido descanso ao capitão Ferreira, muito embora, ele não arredasse o pé do cockpit nem por um segundo. Um verdadeiro Comandante! Por volta das 4 horas da madrugada, o mar se agitou um pouco, passamos pela retaguarda de uma pancada de chuva, mas foi muito rápido e o PAPI seguiu estável e incólume. Cerca das 04h30minh da matina, o dia se manifestava através da tênue luz solar. Nesse momento o vento simplesmente evadiu-se. O barco parou, são mil emoções. Tentamos diversas manobras possíveis, mas não conseguimos avançar… Será que o vento ficou chateado com alguma coisa? Literalmente ficamos à deriva. Já navegávamos por mais de dezessete horas, e os sinais da juventude acumulada já se manifestavam. A situação ficou bastante desagradável, e de certa forma um pouco arriscada. A agitação e os balanços desencontrados das ondas jogavam violentamente a retranca do mastro de um lado para outro.

Após cessarem todas as tentativas, chegamos ao nosso limite e precisávamos de uma saída, e a única alternativa naquele momento, seria ligar o motor, ou ficar, não se sabe por quanto tempo naquela situação. Em consenso com a tripulação, o comandante tomou a decisão: Ligar o motor e seguir em frente. Após uma hora navegando o cretino vento retornou, mas, já havíamos decidido. Com o motor ligado, cruzamos a comissão de regatas, e consequentemente fomos desclassificados como previsto, porém, com nossa honra intacta.

Ancorados e relaxados, mais tarde fomos recebidos pelos membros do Iate Clube de Ilhéus, onde saborearam uma bela feijoada, ao sabor de umas geladas, assistimos a entrega dos troféus aos vencedores. Entre eles, em primeiro lugar na sua categoria, como não poderia deixar de ser, o NABOA. Ao final das comemorações, o capitão Ferreira foi chamado pelos organizadores e lhe foi conferido o troféu honestidade. Ficamos felizes e cheirando as nuvens.

Após uma rápida visita a cidade, retornamos ao aconchego do PAPPI, e dormimos como anjos. Mas, nem tudo são flores… O dia ainda não havia amanhecido, acordamos sob uma tremenda borrasca, os sacolejos das agitadas águas do porto, quase me jogaram no assoalho. Firme e forte, o nosso otimista comandante Ferreira e seu guerreiro PAPPI, saímos em direção ao mar aberto, seguindo o NABOA. O comandante Ferreira, além de ser ponderado, tem uma característica que lhe é peculiar… Otimismo, isso mesmo, pra ele uma borrasca é uma garoa, uma ventania é uma brisa, ou seja, não tem tempo ruim. O comandante Jorjão possui outra característica também peculiar… Habilidade e conhecimento. Navegando em mar aberto, ou em rasos e estreitos canais, seu Delta 36, se torna uma extensão do seu corpo, é impressionante. Assim ambos provaram que, quem é do mar não enjoa. Assim, partimos para mais aventuras.

Anselmo Pereira 

Agradecimento

01 - Janeiro (188)

Não sou baiano, mas vivi nas águas da Bahia um sonho de vida, de aprendizados, de observações e me encantei por aquele mar tão cheio de segredos, mistérios e fé. A Baía de Todos os Santos é um mundo ainda a ser descoberto, um mundo de histórias onde a historia do Brasil é contada em prosa, verso, samba de roda e no graminho dos saveiros e seus mestre de sabedoria infinita. Um mundo dentro de um mundo em constante ebulição, mas incrivelmente ensopado de ternura. Quem vai ao mar da Bahia tem sim que seguir o aviso para sorrir, porque ali a vida é incrivelmente mais bela e feliz.

raimundoSexta-Feira, 23/03, não tive a oportunidade de assistir o Globo Repórter que falaria sobre a Baía de Todos os Santos, que naveguei e conheci como poucos, porém, me apressei em procurar na internet, já no sábado, 25, o vídeo do programa e me achei nas palavras, imagens e personagens tão bem, e carinhosamente, mostrado pelo excepcional repórter José Raimundo, um baiano  da gema que estava super a vontade na matéria e que faz pose na imagem ao lado de Dona Cadu, famosa ceramista de Maragogipinho. Tenho sim que agradecer ao Zé Raimundo, toda a equipe que o acompanhou e a Rede Globo, por nos presentear com uma reportagem tão arretada, que me trouxe boas recordações e saudades. O triste foi ver que o abandono dos patrimônios materiais e imateriais continua a caminhar a passos largos, coisa que sempre denunciei aqui.              

Votos renovados com o mar – IV

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Naveguei no mar da Bahia durante boa parte dos meus onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante e acho que tenho o direito de dizer que o mar do Senhor do Bonfim e seu séquito de Orixás é simplesmente fantástico, inebriante e que todos os elementos da natureza conspiram em favor do povo do mar, porém, existe sim um escabroso e indecifrável abandono das autoridades com aquele mundo tão fascinante. Não canso e jamais cansarei de afirmar que não existe no mundo um lugar melhor para navegar e curtir a vida de velejador cruzeirista, do que o mar cantado em verso e prosa por diversos compositores e escritores mundo afora, sem falar nos maiorais Amado e Caymmi. O mar azeitado de dendê, adocicado de cocadas, dourado com a crocância do acarajé e embebecido com o sabor inigualável do jenipapo, tem segredos e enredos infinitos, basta olhar para ele e ter a sensibilidade de pescar um pouco das essências que ali afloram. Escrevendo assim, muitos podem achar que sou mais um baiano bairrista, mas sou não, sou sim um apaixonado papa jerimum que tem o coração e duas belas joias, do melhor quilate, encravados no chão da filha de Oxum Mãe Menininha do Gantois.

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A noite corria alta e eu observava as sombras que dançavam sobre o manhoso Rio Paraguaçu. Das sombras ouvi ecos surdos de penosos lamentos do velho rio, denunciando a descortesia dos homens diante de sua grandeza e importância histórica. Dizem que os velhos reclamam de tudo e de todos, mas dizem também que a mocidade não gosta de ouvir verdades. Ouvindo aquele lamento surdo e quase inaudível, fechei os olhos e sonhei com as canoas de um tempo passado, carregadas de felizes e barulhentos Tupinambás. Como deve ter sido bom aqueles dias de índio de outrora, até o dia em que chegaram uns homens brancos, com vestimentas cravejadas de brilhantes e marcadas com o símbolo de uma cruz que a tudo proibia e condenava, e o que era bom se acabou.

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Dia claro, hora de levantar âncora e aproar o catamarã Tranquilidade para adentrar um pouco mais o Paraguaçu até o povoado de São Tiago do Iguape, uma lindeza de fundeadouro abençoado pela visão de mais uma belíssima igreja matriz debruçada sobre as águas. Jogamos âncora, porém, demoramos pouco, apenas o tempo de respirar o ar daquelas paragens e registrar mais uma vez nossa passagem por São Tiago, lugar que temos os bons amigos, Dona Calú, Seu Jarinho e o pescador Lito. Com a maré de vazante saímos do Paraguaçu para ancorar em Salinas da Margarida, outro fundeadouro bom demais da conta e onde passamos a noite.

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Se aproximava o dia da nossa despedida daquele mar de bondades e mais uma vez retornamos à Praia da Viração, que o comandante Flávio marcou em seu cardeninho de anotações como uma delícia de praia. Lucia, como sempre, preparou um almoço dos deuses e ficamos ali, olhando a paisagem e jogando conversa fora, como se o tempo não existisse, mas ele existe e tínhamos que seguir viagem. Para onde? Que tal ir até o Aratu Iate Clube para saborear aqueles pasteis fora de série? Boa ideia, vamos lá! Bem, os pasteis não degustamos, porque o Wilson estava fazendo manutenção no restaurante, porém, lá nos esperavam o Paulo e o Maurício, para festeja nossa estadia com uma rodada da mais gelada cerveja sob as cores do pôr do sol, que das varandas do Aratu é imbatível.

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Mais uma noite se passou e pela manhã voltamos para o local de nossa partida no Angra dos Veleiros, na Península de Itapagipe, bairro da Ribeira. Com as energias e os votos renovados no mar da Baía de Todos os Santos, festejamos a boa vida que tivemos naqueles sete dias a bordo do Tranquilidade, um modelo BV 43 construído pelo estaleiro maranhense Bate Vento. Como se diz na Bahia: Um barco da porra!

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No dia seguinte levamos o comandante Flávio e Gerana para um tour pela cidade de Salvador. Visitamos o Mercado Modelo, o Pelourinho, a Ponta de Humaitá, o Rio Vermelho, o Mercado do Rio Vermelho e o Farol da Barra. Turistar pela capital baiana é caminhar sobre a história de um Brasil mais encantador impossível. Apresentar aos amigos o mundo que tivemos a alegria de viver por tantos anos e que tantas alegrias nos trouxe, é para nós uma felicidade imensurável.

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Os nossos anfitriões do Tranquilidade voltaram para Natal e nós ficamos mais um dia para ver as duas joias que citei lá em cima. Nelsinho e Amanda, o melhor de toda essa viagem, em dezembro de 2016, foi poder mais uma vez abraçá-los e beijá-los. Que o Senhor do Bonfim sempre os proteja.

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P_20161214_102809“Nessa cidade todo mundo é de Oxum/…Toda essa gente irradia magia/…eu vou navegar, nas ondas do mar, eu vou navegar…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

Votos renovados com o mar – III

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Na página anterior desse relato estávamos com o catamarã Tranquilidade ancorado em frente a Praia de Mutá, uma gostosa baía no canal interno da Ilha de Itaparica, e prontos para degustar umas garrafas de Muvuca, Saruaba, Tribufu e Retada, produtos da cervejaria ED3, de nomes bem abaianados e que levam prazer aos amantes de uma boa loura gelada. Tive o prazer de experimentar algumas garrafas das ditas cervejas logo no início da produção, no veleiro Guma, do casal Davi e Vera Hermida, e essa prova deixou um gosto de quero mais, porém, o tempo passou, mas a vontade não. Quando o comandante Flávio nos convidou para o passeio no Tranquilidade, no início de dezembro de 2016, disse que eu incluísse no roteiro a visita a cervejaria de Mutá, o que fiz mais do que depressa. E lá estávamos nós, desembarcando para a visita.

P_20161208_182654A ED3 teve início com o sonho de três casais, entre eles Almir e Simone, que queriam produzir cerveja para desfrute da família, que não é pequena, e do time dos amigos, que é maior ainda, porém, o que era sonho de bons bebedores, virou um excelente negócio, pois a cerveja logo no primeiro gole deixava no ar o sabor do sucesso. Hoje o maquinário cresceu, o galpão aumentou, mas o que continua o mesmo é o sabor das cervas e a acolhida maravilhosa com que os proprietários recebem os visitantes, com direito a roda de samba, bons papos e tudo mais. O difícil é querer deixar o galpão e voltar para o barco, mas depois que deixamos vazias algumas dezenas de garrafas, foi o que fizemos e ainda trazendo na garupa algumas caixas para festejar num futuro próximo. A direção da cervejaria está em vias de fato para colocar a praia de Mutá no roteiro turístico náutico da Bahia e com certeza os visitantes saíram encantados e bem animados.

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Após uma noite das mais tranquilas, acordamos cedo, levantamos âncora e prosseguimos em nosso roteiro pela Baía de Todos os Santos. Voltamos a Itaparica para reabastecer os tanques com água e rumamos para a praia de Loreto, outro fundeadouro inigualável, por trás da Ilha do Frade, e onde a vida a bordo é mais gostosa. Loreto estava coalhada de veleiros de amigos, que tomara não vejam essa minha declaração, pois ficarei com um débito impagável por não tê-los visitado, contudo, antes de receber a primeira cobrança, peço perdão pela falta grave e prometo não cometer outra, pois todos eles moram em nossos corações.

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O comandante Flávio e Gerana ficaram fascinados por Loreto e no dia seguinte, quando seguimos viagem, disseram que voltariam o mais breve possível, porque nunca imaginaram que ali existisse um lugar tão lindo e com uma natureza tão exuberante. Na verdade quando tracei o roteiro queria mesmo visitar lugares que sempre me acolheram bem, porque era o meu reencontro, depois de cinco meses afastado, com um mar que amo de paixão.

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De Loreto rumamos para a Praia da Viração, vizinho a Ponta de Nossa Senhora, do lado sul da Ilha do Frade. A Viração é de uma lindeza sem igual e para muitos é o Caribe na Bahia, com águas cristalinas, onde se avista a âncora no fundo do mar, e uma faixa de areias brancas emoldurada por uma mata em estado praticamente nativo. Viração é uma APA e como todas, tem regras que regulam sua visitação, porém, ainda se pode ver alguns deslizes da nossa falta de educação ambiental. A praia recentemente recebeu alguns créditos a mais de fama, por ter sido destino de constantes banhos de mar da presidente Dilma, em suas férias na capital baiana. A praia é linda sim, mas pouco frequentada pelos velejadores.

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Da Praia da Viração aproamos o Rio Paraguaçu e fomos jogar âncora em frente ao povoado de São Francisco do Paraguaçu e seu Convento enigmático. Era hora do pôr do sol e abrimos um vinho para comemorar o dia que se ia e festeja a noite que tomava espaço. Entre um gole e outro com o líquido de Baco, fiquei matutando nas várias visitas que fiz aquele rio histórico e nas páginas do Diário que preenchi denunciando o descaso existente em tão belo cenário. Tudo continua na mesma, ou pior, mais maltratado ainda. Durante nossa velejada vespertina não encontramos nenhum veleiro, apesar de sido em período de um longo feriadão. Se o Paraguaçu fosse em um país europeu, americano do norte ou mesmo em alguns países orientais, garanto que seria tratado com toda importância e zelo que merece. Infelizmente tratamos nossas riquezas naturais da mesma forma como tratamos todo o restante de nossas causas, sem o mínimo de interesse em ver os bons resultados. Temos leis para tudo e para todo gosto, mas nenhuma serve além de sua escrita. São feitas apenas com o intuito de acalmar ânimos e nada mais, pois em suas entranhas, propositalmente, faltam princípios.

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O Convento de São Francisco do Paraguaçu, assim como a grande maioria dos monumentos as margens do Rio Paraguaçu, está sob os domínios da lei do patrimônio histórico, acho que seria melhor que não estivesse.

E a noite cobriu o rio!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Rio 40 graus

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Dizem que o Rio continua lindo e ainda entorpecido pelo clima das Olimpíadas 2016, porém, o que mais chama atenção são alguns detalhezinhos escusos de certos senhores decentes e umas trocas de balas entre uma gurizada travessa. Agora chegam notícias nas ondas do rádio que no mar da Baía da Guanabara, assim como na Baía de Todos os Santos, lá na Bahia de Amado, a pirataria tomou forma para fazer valer um salve geral e tem guri montado em bote inflável e armado até os dentes, com fuzil e tudo mais, parando lanchas para fazer uma limpezinha básica nos pobres cidadãos desavisado que querem apenas tirar um sossego no mar. Um dia a Fernanda Abreu cantou assim:  O Rio é uma cidade/De cidades misturadas/O Rio é uma cidade/De cidades camufladas/Com governos misturados/Camuflados, paralelos/Sorrateiros/Ocultando comandos…/ Rio 40 graus…. Está ficando difícil e dizem que nem piorou ainda.

Votos renovados com o mar – II

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Talvez possa dizer que esses Votos Renovados com o Mar, com o mar da Bahia, seja uma retrospectiva de tudo o que vivi na Baía de Todos os Santos, mas talvez não, porque no mar não tem talvez. No mar não existe sorte e nem azar. Aventura, jamais. Quem sabe destino, porque o mar não é dos valentes e muito menos dos inconsequentes, ele é daqueles que o respeitam, que tem na alma uma rota traçada, que tem no sonho o destino. O mar não se enfrenta, a não ser que se queira perder a luta. O mar se navega e com bem querer navegança, pois só passa por ele quem ele deixar.

Tenho uma paixão com o mar, daquelas que não se conta para não enciumar, pois no reino de Iemanjá segredo é segredo e ai de quem duvidar. Conto tudo por cima e quem sabe alguns floreios, mas se quer saber a verdade, vá você navegar. Experimento de um tudo e não deixo nada faltar, não me acho professor, pois essa é profissão dos encantados de lá. Navego com o coração aberto, alma livre e saio colhendo frutos, alguns doces outros amargos, mas todos são frutos que alimentam meus sonhos e me ensinam que no mar não existem nem flores e nem espinhos, e sim o amor de querer navegar. O mar do Senhor do Bonfim me acalma os sentidos e dita as regras de minha razão. Não consigo definir minha relação com ele, mas sei que é coisa de encanto.

E foi numa tarde faceira de final da primavera de 2016, que soltamos as amarras que prendiam o Tranquilidade ao píer da marina e fomos navegar. Fui até a proa e deixei ser tomado por aquele momento tão delicioso que vivi durante anos. Fechei os olhos e pedi bênçãos, pois é assim que sempre fiz. O mar me altera os sentidos e sou tomado por uma gostosa sensação de alerta, de prioridade, de responsabilidade. O mar me alimenta e faz minha alma sorrir com uma infinita alegria, a alegria de uma vida que alguns dizem de sonho. – Sonho? – Ah sim, o melhor deles, o sonho sonhado e vivido.

O mestre-saveirista olha o vento e segue para onde ele for, o mar é seu caminho e Iemanjá sua rainha, quando ela não deixa ele fica no caís. Não se briga com o mar e nem com os percalços que se apresentam, pois ali estão ensinamentos que muitas vezes valem alegrias, e vida, porém, não se desiste, muda-se o rumo, porque o vento e o mar são sempre mais carinhosos quando seguimos ao lado deles. E foi assim que fizemos ao cruzar a boia da Ribeira, que por sinal está indicando um canal cada vez mais raso, olhamos as condições, checamos os equipamentos e sem muito insistir aproamos a ilha de Itaparica e seu fundeio maravilhoso. Inicialmente queríamos ir a Canavieirinhas, lá no final do canal de Tinharé, região do famoso Morro de São Paulo, mas o piloto automático resolveu reclamar e os lemes estavam muito endurecidos – barco não gosta de ficar parado – e seguir assim durante mais de 50 milhas era uma tarefa árdua demais para quem só queria a sombra e a água fresca oferecida pelo Senhor da Colina Sagrada.

O fundeio de Itaparica continua lindo, maravilhoso e cativante. A paisagem que se descortina ao nosso redor é um bálsamo para aliviar as tensões de um mundo cada vez mais desumano. Podem dizer o que quiserem da Ilha, mas nunca neguem a poesia que está escrita no traçado das linhas de sua paisagem. Brindamos a noite com um bom vinho e uns quitutes da minha chef das chef e dormimos o sono dos justos naquele balanço de entorpecer e que somente um veleiro é capaz de proporcionar. A manhã seguinte levantamos a âncora e seguimos pelo canal interno da ilha, até a Fonte do Tororó, outro fundeadouro imperdível e lindo que só vendo. Um banho de mar para lavar a alma, uns bate-papos gostosos e despreocupados, um almoço fora de série e assim seguimos para a Praia de Mutá, outro fundeadouro maravilhoso e onde iriamos conhecer a Cervejaria ED3, que posso dizer, mesmo sem ter autoridade de conhecimento para tal, que é a melhor cerveja da Bahia.

A Praia de Mutá é um povoado pertencente ao município de Jaguaripe, que em tupi é îagûarype e significa “no rio das onças”. Mutá tem no traçado de suas ruas a origem da velha e boa Bahia, com ruas e becos que desaguam inevitavelmente na praça da igreja ou na rua que a praça leva. A beira mar é uma pequena baía de águas preguiçosas e rasas e nas areias se estendem alguns bares e restaurantes que ultimamente estão até bem educados no quesito altura do som. Tem na produção de mariscos, que por sinal por lá se prepara divinamente, uma excelente parcela de sua renda. É em Mutá o destino final de uma das boas regatas da Bahia, a Regata da Primavera, que a cidade recebe com muito carinho e festança.

– Sim, e a cerveja? – Tenha paciência meu rei, que falarei na próxima página.

Nelson Mattos Filho/Velejador