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Votos renovados com o mar – IV

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Naveguei no mar da Bahia durante boa parte dos meus onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante e acho que tenho o direito de dizer que o mar do Senhor do Bonfim e seu séquito de Orixás é simplesmente fantástico, inebriante e que todos os elementos da natureza conspiram em favor do povo do mar, porém, existe sim um escabroso e indecifrável abandono das autoridades com aquele mundo tão fascinante. Não canso e jamais cansarei de afirmar que não existe no mundo um lugar melhor para navegar e curtir a vida de velejador cruzeirista, do que o mar cantado em verso e prosa por diversos compositores e escritores mundo afora, sem falar nos maiorais Amado e Caymmi. O mar azeitado de dendê, adocicado de cocadas, dourado com a crocância do acarajé e embebecido com o sabor inigualável do jenipapo, tem segredos e enredos infinitos, basta olhar para ele e ter a sensibilidade de pescar um pouco das essências que ali afloram. Escrevendo assim, muitos podem achar que sou mais um baiano bairrista, mas sou não, sou sim um apaixonado papa jerimum que tem o coração e duas belas joias, do melhor quilate, encravados no chão da filha de Oxum Mãe Menininha do Gantois.

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A noite corria alta e eu observava as sombras que dançavam sobre o manhoso Rio Paraguaçu. Das sombras ouvi ecos surdos de penosos lamentos do velho rio, denunciando a descortesia dos homens diante de sua grandeza e importância histórica. Dizem que os velhos reclamam de tudo e de todos, mas dizem também que a mocidade não gosta de ouvir verdades. Ouvindo aquele lamento surdo e quase inaudível, fechei os olhos e sonhei com as canoas de um tempo passado, carregadas de felizes e barulhentos Tupinambás. Como deve ter sido bom aqueles dias de índio de outrora, até o dia em que chegaram uns homens brancos, com vestimentas cravejadas de brilhantes e marcadas com o símbolo de uma cruz que a tudo proibia e condenava, e o que era bom se acabou.

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Dia claro, hora de levantar âncora e aproar o catamarã Tranquilidade para adentrar um pouco mais o Paraguaçu até o povoado de São Tiago do Iguape, uma lindeza de fundeadouro abençoado pela visão de mais uma belíssima igreja matriz debruçada sobre as águas. Jogamos âncora, porém, demoramos pouco, apenas o tempo de respirar o ar daquelas paragens e registrar mais uma vez nossa passagem por São Tiago, lugar que temos os bons amigos, Dona Calú, Seu Jarinho e o pescador Lito. Com a maré de vazante saímos do Paraguaçu para ancorar em Salinas da Margarida, outro fundeadouro bom demais da conta e onde passamos a noite.

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Se aproximava o dia da nossa despedida daquele mar de bondades e mais uma vez retornamos à Praia da Viração, que o comandante Flávio marcou em seu cardeninho de anotações como uma delícia de praia. Lucia, como sempre, preparou um almoço dos deuses e ficamos ali, olhando a paisagem e jogando conversa fora, como se o tempo não existisse, mas ele existe e tínhamos que seguir viagem. Para onde? Que tal ir até o Aratu Iate Clube para saborear aqueles pasteis fora de série? Boa ideia, vamos lá! Bem, os pasteis não degustamos, porque o Wilson estava fazendo manutenção no restaurante, porém, lá nos esperavam o Paulo e o Maurício, para festeja nossa estadia com uma rodada da mais gelada cerveja sob as cores do pôr do sol, que das varandas do Aratu é imbatível.

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Mais uma noite se passou e pela manhã voltamos para o local de nossa partida no Angra dos Veleiros, na Península de Itapagipe, bairro da Ribeira. Com as energias e os votos renovados no mar da Baía de Todos os Santos, festejamos a boa vida que tivemos naqueles sete dias a bordo do Tranquilidade, um modelo BV 43 construído pelo estaleiro maranhense Bate Vento. Como se diz na Bahia: Um barco da porra!

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No dia seguinte levamos o comandante Flávio e Gerana para um tour pela cidade de Salvador. Visitamos o Mercado Modelo, o Pelourinho, a Ponta de Humaitá, o Rio Vermelho, o Mercado do Rio Vermelho e o Farol da Barra. Turistar pela capital baiana é caminhar sobre a história de um Brasil mais encantador impossível. Apresentar aos amigos o mundo que tivemos a alegria de viver por tantos anos e que tantas alegrias nos trouxe, é para nós uma felicidade imensurável.

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Os nossos anfitriões do Tranquilidade voltaram para Natal e nós ficamos mais um dia para ver as duas joias que citei lá em cima. Nelsinho e Amanda, o melhor de toda essa viagem, em dezembro de 2016, foi poder mais uma vez abraçá-los e beijá-los. Que o Senhor do Bonfim sempre os proteja.

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P_20161214_102809“Nessa cidade todo mundo é de Oxum/…Toda essa gente irradia magia/…eu vou navegar, nas ondas do mar, eu vou navegar…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

E nem choveu

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Sabe de uma coisa, a postagem Entre uma Chuva e Outra me deixou com uma pontinha de culpa, porque nunca achei que chuva fosse empecilho para deixar de velejar, a não ser, quando o vento resolve acelerar a música para animar a festa. Claro que se for aquele toró de lascar o cano, o melhor a fazer é pegar um bom livro, sentar e esperar o bicho acalmar. Depois que desliguei o computador, fui para o cockpit, olhei em volta, me indaguei e perguntei para Lucia: – Vamos sair? A resposta foi a mesma de sempre, porque para ela nada impede de velejar, alias, nada é empecilho para se deixar de fazer alguma coisa: – A hora que você quiser! Como eu já disse, a resposta eu já sabia, apenas perguntei para ouvir novamente. Recolhi o toldo, subi a vela grande, recolhi a âncora e deixamos Salinas da Margarida para trás e aproei o Rio Paraguaçu, numa velejada de lavar a alma, com o Avoante navegando na estonteante velocidade média de 2 nós – para que a pressa –, até que o sol se retirou de cena e jogamos âncora novamente em frente ao paraíso que ilustra essa postagem. E nem choveu. Quer saber que lugar é esse? Claro que muitos vão se adiantar em contar, mas mesmo assim vou atiçar a sua curiosidade. Depois eu conto!

 

Entre uma chuva e outra

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Nesse período junino queríamos ter navegado por algumas cidades que margeiam o Recôncavo Baiano, não seria uma viagem para balançar o esqueleto nos muitos forrós espalhados por ai, mas sim para rever lugares que nos encantou em um passado recente, para saber se o encanto ainda prevalece. Apos ancorar em Itaparica e festejar uma noite de São João chuvosa, aproamos o Avoante para a cidade de Salinas da Margarida para uma breve parada antes de subir o histórico Rio Paraguaçu. Pois é, a breve parada se estendeu além da conta, os santos forrozeiros já recolheram as sanfonas e hoje, 30/06, ainda estamos ancorados em frente a bela cidade de Salinas. Mas juro que não foi por vontade própria e sim por força das chuvas que castigaram o Recôncavo. Não foram chuvas torrenciais que duravam o dia todo, mas pancadas insistentes, que deixavam o céu muito nublado e que despejavam água a qualquer momento, trazendo um friozinho gostoso durante a noite. Esse é justamente o quadro meteorológico que o velejador de cruzeiro adora, porque dá aquela velha vontade de ficar um pouquinho a mais da conta. Dá uma preguiça!

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E já que estávamos na companhia dos amigos dos veleiros Ondine e Tô Indo, Gomes e Lia, Gerson e Lili, tirávamos os dias chuvosos para nos reunirmos cada dia em um veleiro diferente em seções gastronômicas de engorda magro, como mostra as imagens a bordo do Ondine. Os amigos já retornaram a Salvador e nos continuamos aqui olhando para o tempo parcialmente nublado e de vez em quando batendo perna pelas ruas largas e limpas da cidade de Salinas da Margarida. 

Viva São João!

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Uma vez me perguntaram se velejador comemora o São João. Lógico que sim, principalmente quando estamos navegando em águas nordestinas, pois o São João é considerada a maior festa do nordeste brasileiro, animada com muito forró, mesas fartas de comidas típicas, meninos soltando fogos e fogueiras acesas em frente as casas. O São João é uma alegria que só vendo! E foi com essa alegria que saímos traçando rumos entre as cidades do Recôncavo Baiano para sentir a pulsação dessa festa colorida e iluminada. Começamos por Itaparica – que vem perdendo o encanto e em breve falarei sobre isso – onde ancoramos dois dias antes das comemorações juninas e não perdemos tempo para reunir os amigos que dividíamos a ancoragem. Um dia foi a bordo do Acauã, do casal Webber e Mirian, e no outro a recepção foi no Avoante, onde tivemos também a companhia de Fernando e Erika, veleiro Ati Ati, em noitadas que renderam bons papos e boas gargalhadas.

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Na véspera do São João recebemos o convite do casal Rocha e Keli, veleiro Aquários, que também tem casa na Ilha, para comemoramos ao redor de uma fogueira. Foi uma noitada de alegria saboreando muita canjica, bolos típicas, milhos cozido, milho assado na fogueira, forró e até churrasco no fogo de chão, feito pelo bom gaúcho Webber. Eita São João bom da peste!

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No dia 24 já estávamos novamente navegando e no rumo de Salinas da Margarida, para encontrar os amigos Cláudio e Anne, veleiro Anni, Gerson e Lili, veleiro Tô Indo, Gomes e Lia, veleiro Ondine e Wilson e Cassia, Vinicinho e a pequena marinheira Helena, de apenas 7 meses.

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Como a flotilha havia crescido, desembarcamos e fizemos a confraternização no restaurante A Gaúcha com uma deliciosa feijoada regada com cerveja gelada. E como São João sem chuva não vale, a noite caiu um toró de fazer inveja a muito sertanejo e até hoje, 26, a chuva está igual a marcação de quadrilha: Alavantú; Anarriê; Balancê; Olha a chuva; É mentira; É verdade. E assim vamos levando essa vidinha mais ou menos. Viva São João! Viva! E que venha o São Pedro!

Por que tem que ser assim?

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A cidade de Salinas da Margarida, localizada defronte a foz do histórico Rio Paraguaçu, é uma das joias do Recôncavo Baiano. A bela cidade/praia, de águas tranquilas e por isso dotada de um fundeadouro maravilhoso, é reconhecida por retirar de suas areias brancas uma boa parcela da produção de mariscos que abastece a capital baiana. Adoro ancorar o Avoante em suas águas para me deleitar da paz e tranquilidade que paira sobre o lugar. Mas ultimamente tenho ficado entristecido ao jogar âncora por lá e sinceramente não entendo por que as coisas tem que ser assim. O problema é com a última foto que ilustra essa postagem, em que aparece o píer da cidade praticamente destruído. Há mais de um ano tapumes de madeira cercavam toda a passarela da ponte dando a entender que o equipamento estava passando por reforma. Os tapumes foram retirados e para minha surpresa tudo continuou como estava: Passarela e píer abandonados, perigosamente sendo utilizado pela população e por navegantes que chegam a cidade. Um píer flutuante como o que equipa a ponte de Salinas custa uma pequena fortuna e vê-lo abandonado e jogado ao deus dará é no mínimo um crime que precisa ser reparado e combatido pelas autoridades competentes. Por que as coisas em nosso país tem que ser assim?

Para que a pressa?

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Ontem, 23/03, navegávamos de Salinas da Margarida/BA até o Aratu Iate Clube, numa velejada gostosa de vento Leste/Sueste com o Avoante voando baixo a 4 nós de velocidade, quando no través da Ilha de Maré Éolo cismou e resolveu cruzar os braços. O resultado está ai na imagem da tela do GPS, velocidade 0,9. Fazer o que? Lucia botou a mesa e fomos almoçar. 

Foi culpa da VIVO

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Caros leitores, nem sempre as coisas funcionam de acordo com a nossa vontade e planos, por isso peço desculpas por esses dias sem notícias. Mas é que, estávamos com o Avoante ancorado em Salinas da Margarida/BA e descobrimos que a informação de que a VIVO era a única operadora em que a internet funcionava maravilhosamente bem em toda a Bahia não procede. Alias, nem os celulares da VIVO funcionam lá. Bem feito, quem manda acreditar em contos de carochinha! Saí da CLARO por achar que a vida lá fora era mais iluminada e agora estou abraçado com um VIVO quase morto. Mas tem nada não, vamos seguir em frente e deixar esses abusos com a boa vontade do consumidor para quem tem o dever e a obrigação de resolver. Se é que um dia eles vão resolver!