Arquivo do mês: setembro 2015

Eita Brasil lindo!

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Hoje estamos com o Avoante ancorado nesse paraíso – Galeão, localizado na Ilha de Tinharé, distrito de Cairu/BA. Um lugarzinho maravilhoso, aconchegante e cheio de boas histórias. Mas não é agora que irei falar sobre essa ancoragem fantástica. Espere só mais um pouquinho.

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Hoje a noite é da Super Lua e madrugada de Eclipse total

3 Março (89)

Hoje é dia de apreciar mais uma Super Lua, que é o momento em que o satélite natural estará mais próximo da Terra e por isso 14% maior e 30% mais brilhante, que é denominado pelos homens das ciências como perigeu. Para dar mais charme ao evento, a natureza programou mais um alinhamento entre o Sol, Terra e Lua e assim, além da Super Lua, poderemos apreciar um Eclipse total, onde o satélite será pintado de vermelho, devido as refrações dos raios solares na atmosfera. A última vez que aconteceu os dois fenômenos juntinhos foi em 1982 e quem não conseguir observar hoje a noite, terá que esperar até 2033, segundo a NASA. Bem, eu já estou prontinho para apreciar os dois eventos, com o Avoante ancorado em frente a Gamboa do Morro/BA, tomará que São Pedro colabore, pois o dia hoje por aqui amanheceu assim meio sei lá.

  

Uma vidinha assim…

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Depois de uma velejada maravilhosa entre Salvador/BA e Morro de São Paulo, com vento leste, mar de contra-almirante, peixe na linha –  depois na frigideira – e pôr do sol, ancoramos na noite de ontem, 24/09, em frente a Gamboa do Morro. Não foi uma ancoragem das melhores, porque com a Lua cheia, o vento leste entrou forte e o fundeio foi bem balançado, mas não impediu que festejássemos a velejada com alguns goles de vinho sob o brilho prateada da Lua.

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O dia amanheceu e fomos despertados pela sinfonia de um quarteto de Bem-te-vis, que se equilibrava entre os estais e biruta do Avoante. A vida a bordo de um veleiro é assim mesmo: Cheia de encantos!

De olho no tempo para a Refeno 2015

O quadro do tempo para a Refeno 2015 está sendo pintado em tintas moderadas para o estado do mar, com ondas de 2.1 metros e ventos ESE na média dos 15 nós durante a largada e enquanto a flotilha estiver navegando próximo a costa pernambucana. Na chegada em Fernando de Noronha, o velejador deve se preparar para encarar ondas de 2.4 metros e vento SE na faixa dos 19 nós. Pode até ser que ainda seja cedo para ter essa certeza, mas o acompanhamento das imagens e gráficos apresentados durante toda essa semana pelo CPTEC/INPE, leva a essa leitura. Resumindo: Não será uma regata no ritmo manhoso da ciranda e nem no passo alucinado do frevo, mas sim na marcação dos bumbos do maracatu.    

Recife/PE

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Fernando de Noronha/PE

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Um veleiro para dar uns bordos por aí

iate A.iate AEsse veleirinho batizado de Yacht A, com 468 pés de comprimento e mastreação com 300 pés de altura, construído na Alemanha para um bilionário russo, passa a ser o maior barco a vela do mundo e já está em fase de teste de mar. O veleiro é enorme em tudo e segundo as línguas ferinas, o potentoso custou mais de 450 milhões de euros e será comandando apenas pelo toque dos dedos do comandante sobre uma telinha de computador. – E se o computador pifar? Se vai velejar eu não sei, mas duvido muito que não vá, porque bilionário nenhum iria jogar dinheiro fora em três monstruosos mastros apenas para tirar onda de velejador. Acho eu né! Porém, se não tiver vento para empurrar o potentoso, dois motores de 3600 kW MTU, que funcionaram a eletricidade e a diesel,  poderão levar o veleirinho a navegar até 16 nós de velocidade, com autonomia de mais de 5 mil milhas. Vai deixar muita gente com inveja e água na boca por aí afora. Como no mundo das excentricidades nada é eterno, vamos aguardar o próximo!    

Novamente o Cruzeiro do Sul

BANDEIRA DO BRASILCruzeiro do Sul

A postagem, O Cruzeiro do Sul – E Apois!, em que fala da impressão invertida da constelação do Cruzeiro do Sul na Bandeira do Brasil e consequentemente na capa novo passaporte brasileiro, rendeu alguns comentários a favor, contra e outros que referendam a genialidade dos idealizadores da nossa Bandeira. Porém, o assunto instigou alguns leitores a um melhor aprofundamento no tema e vez ou outra me vejo em meio a um gostoso bate papo estelar. O velejador e professor de navegação astronômica Elson Fernandes, que ensina os segredos dos astros nas águas candangas do Lago Paranoá, disse em seu comentário que foi uma sacada genial de quem idealizou a imagem. Mas o leitor Otavio Almeida enviou email indicando dois links da biblioteca livre Wikipédia que falam sobre o tema e diz acreditar que o Cruzeiro do Sul invertido foi um erro de impressão. No link Uranometria, em parte do texto, está escrito: For reasons unknown, many of the human constellations are engraved as figures seen from behind whereas they had traditionally been rendered as facing the Earth. This oddity led to some confusion… Traduzindo: ” Por motivo desconhecido, muitas das constelações foram gravadas como figuras vistas por trás enquanto que tradicionalmente eram retratadas encarando a Terra. Esta anomalia levou a alguma confusão. ..” . Já no link Bandeira do Brasil está assim escrito e foi assim que aprendemos nos bancos escolares: O círculo azul com 27 estrelas brancas de cinco pontas substituiu o brasão de armas do Império. As estrelas, cuja posição na bandeira refletem o céu visto no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1889,… . Pois é, o Céu foi visto e não imaginado. Vem mais peleja por aí!

Só na boreste

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Algumas expressões aparecem quase do nada e passam a fazer parte do linguajar cotidiano das pessoas. São palavras que surgem muitas vezes no rastro de situações vividas e por não se achar nada mais adequado para descrever o momento, recorrem-se às derivações e essas caem inevitavelmente no gostoso reino do palavreado popular. Nesse rastro vieram pérolas como: frigir dos ovos; alho por bugalho; de boa; da hora; só o filé; olho gordo e outras que são ditas pelo Brasil velho de guerra. O brasileiro tem um dom especial para ajuntar palavras e transformá-las em gírias que proliferam na rapidez de uma piscadela nesse mundão de meu Deus.

Até o jargão náutico, que tem um rígido dicionário de alcance mundial, no Brasil a coisa navega por bordos que dificilmente um almirante inglês conseguiria decifrar mensagens que o levasse a conquistar uma batalha. Queria mesmo ver a cara de espanto de um gringo ao se aproximar de um paquete e escutar o pescador gritar para o parceiro: – Molhe os panos e atoche no cabo pra nós tirar uma pareia com aquele bote que vem ali.

Certa vez navegando de Enxú Queimado, uma bela e deliciosa praia no litoral norte do Rio Grande do Norte, para Natal, na companhia de Pedrinho e Abraão, – dois irmãos e amigos que tenho guardado no peito – pedi que algum deles caçasse a escota da genoa. Genoa é a vela da frente da embarcação e escota o cabo que estica essa vela. Quando Abrão olhou para mim e perguntou: – Caçar Agenor? Eu respondi que não era Agenor e sim genoa. Ele pegou a escota e sem pestanejar treplicou: – Se essa vela é Agenor essa outra é Liquinha. E caiu na gargalhada. Eu sem entender perguntei: – Quem danado é Agenor e quem é Liquinha? Ainda na gargalhada ele respondeu: – Lá em Enxu Queimado, Agenor é o marido de Liquinha. Então tá, pode caçar os dois!

Já se aproximando da Barra de Natal Abrão falou: – Nelson, quando chegar vamos almoçar no tóro. Mais uma vez fiquei a ver navios e perguntei onde ficava o tóro. Ele respondeu com uma pergunta: – Que danado é isso desse homem não saber onde fica o tóro? O tóro fica ali embaixo da ladeira da praia. É aquele restaurante que serve carne de sol. Apurei a memória e perguntei se era o Farol Bar. Ele disse que era esse mesmo e perguntei por que ele chamava de tóro. Ele estendeu os braços, esticou as mãos – naquele gesto característico de dimensão – e disparou: – Porque serve um tóro de carne desse tamanho! Fomos ao tóro.

As velas Liquinha e Agenor, assim como toro, hoje fazem parte do dicionário de bordo do Avoante e vez por outra estou palavreando elas por aí para espanto e risos de interlocutores ávidos por boas histórias. Foi assim que durante um curso de vela de cruzeiro, que ministramos, e depois de repassar os fundamentos que fazem da navegação arte de infinita beleza, aprendi mais uma palavrinha que pode até não dizer nada, mas pronunciada do jeito e no momento que foi nos encheu de boas energias.

Expliquei o que é bombordo, boreste, proa, popa, meia nau, través, bochecha, alheta, rota, derrota, amuras. Ensinei os segredos da boa leitura de uma Carta Náutica e como o estudo aprimorado de uma rota é determinante para uma navegação segura. Latitude, longitude, rosa dos ventos, declinação magnética, rumo verdadeiro, agulha, graus, minutos, segundos, milhas e cheguei até a tal da navegação estimada, em que as marcações se cruzam e diante de tantas estimativas possíveis, o que sobra mesmo é a certeza de estar perdido. Mas se avexe não que navegar é fácil sim senhor!

Depois dos estudos teóricos soltamos as amarras e nos lançamos ao mar. Os alunos eram dois cearenses da gema, Fabrício e Isabela, que estão doidinhos para sair pelo mundo a bordo de um veleiro e vieram ao Avoante para tirar a prova dos nove. Com a derrota sendo seguida em cima da risca, tomamos o rumo do Saco do Suarez, um fundeadouro delicioso e que já comentei aqui em várias oportunidades. Ancoramos diante de um belo pôr do sol, apreciamos a noite chegar mansa e tranquila. Na manhã seguinte, depois de traçar e estudar uma nova rota, levantamos âncora e fomos navegar.

Vento brando, navegando na maciota, deixamos o fundeadouro com Fabrício se deliciando no comando do Avoante. – Isso é bom demais! Vou comprar um veleiro o mais breve possível! Falava com brilho nos olhos e um sorriso de orelha a orelha. Perguntei se Isabela também estava gostado e ela respondeu com a cabeça que sim e deu um sorriso. Traduzi que estava tudo bem. Lá pras tantas pedi que ela timoneasse um pouquinho e para minha surpresa recebi como resposta: – Precisa não, tá bom assim, estou só na boreste! Olhei para Lucia e demos uma boa gargalhada.

Só na boreste, mais uma maneira arretada de dizer tudo bem a bordo. Pelo menos traduzi assim. Valeu Isabela!

Nelson Mattos Filho/Velejador