Arquivo da tag: Iate Clube do Natal

Fim de um pesadelo

 

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O STF pôs fim a uma peleja que se estendia há cinco anos nos tribunais federais, desde que o belo veleiro que ilustra essa postagem, modelo Beneteou 47, foi apreendido pela Receita Federal, em Natal/RN, sob alegação que o proprietário, italiano, estaria tentando nacionalizar a embarcação, apesar do mesmo provar que estava apenas de passagem pelo Brasil, em rumo para Cancún, Miami e Nova York. O proprietário, que ganhou a causa no Supremo, havia deixado o barco em Natal, sob os cuidados do Iate Clube do Natal, e retornou ao seu país, mas ao voltar, soube que o veleiro estava lacrado pela Receita e que seria encaminhado a leilão. Fico matutando com meus botões: Quem danado irá indenizar o infeliz proprietário pelos gastos com advogados, desgastes emocionais e com a manutenção necessária em um barco que ficou parado durante cinco anos? Quando digo que o Brasil é administrado de costas para o mar alguns amigos dizem que é exagero. Como bem diz uma amiga: “Então tá!” 

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Sabigati – Parte II

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Existe uma máxima em meio aos velejadores que diz assim: Veleiro é bom, mas o motor é que atrapalha.

O Sabigate II é um catamarã, modelo BV36, construído pelo estaleiro Bate Vento, do Maranhão, e como todos os BVs, tem pedigree de barco marinheiro, e isso eu atesto e dou fé.

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Soltamos as amarras do píer do Iate Clube do Natal na manhã do sábado, 16/02, depois de um longo quiproquó com o motor de boreste, que teimava em não beber o combustível oferecido pelo reservatório que lhe daria o sustento. Por obra e graça de algum duende que sempre povoam embarcações, o combustível não passava – e não passou mesmo – pela mangueira nem com reza braba e muito menos com os armengues testados por Pedrinho, e que não foram poucos. Por sorte, o ex-proprietário havia instalado reservatórios reservas, com 20 litros, para cada motor e isso foi a nossa redenção diante da presepada dos duendes. – Ei, Nelson, e o Sabigati num é um barco a vela? – É, rapaz, e precisava fazer essa pergunta capciosa? Pois é, um motor tira o velejador do sério e dois então…!

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Velas em cima, motores funcionando, fomos deixando para trás a cidade dos Reis Magos e ao cruzar a boca da barra os duendes mexeram mais uma vez no caldeirão, retiraram uma porção de maldades e lá se foi o piloto automático. A correia do piloto era nova, mas desintegrou-se. Tínhamos uma sobressalente, porém, não tínhamos as ferramentas necessárias para a substituí-la. Poderíamos improvisar com as ferramentas que tínhamos a bordo, mas poderíamos estragar a peça. Como éramos quatro para dividir o comando, resolvemos deixar que os duendes festejassem a vitória e tocamos o barco em frente, em um mar que mais parecia um tapete e vento Leste/Nordeste tão carinhoso impossível. Se não fossem os motores…!

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Me surpreendi com o BV36, pois já tinha navegado no BV42 e no BV43 e achei o 36 um barco mais na mão, incrivelmente fácil de navegar e não desperdiça energia da tripulação. Foi nessa tocada suave que após 42 horas de navegada, a partir de Natal, ancoramos na alagoana Maceió. Mas não pensem que a nossa navegada foi exclusivamente na força dos motores, porque a partir do Cabo Branco/PB, que aliás não tem mais os lampejos do farol, o vento entrou com vontade e somente abandonou o posto no través da praia de Tamandaré/PE, que infelizmente também está com o farol apagado. Foi uma tristeza ver que a maioria dos faróis na costa entre o Rio Grande do Norte e a Bahia estão desativados e sobre esse assunto comentarei em outro texto.

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Tivemos 42 horas de puro deleite, com quatro peixes embarcados e só não pegamos mais, porque perdemos a rapala e o carretel de linha, numa bobeira do pescador. Mas os peixes que embarcados, quatro Serras deliciosos, fez a alegria das nossas refeições e ainda sobrou umas postinhas para presentear o novo proprietário do barco. Tivemos momentos de deliciosos bate papos naquela nossa pracinha navegante e fizemos, garanto por mim e por todos os tripulantes, uma das mais gostosas navegadas em uma fração de oceano Atlântico que nem sempre – pelo menos na faixa entre o RN e PE – é bondoso com os navegantes.

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Em Maceió paramos apenas o tempo necessário para desembarque do comandante Érico Amorim, que retornaria a Natal para aniversário do filho, e abraçar os amigos que estavam na Federação Alagoana de Vela e Motor – FAVM. A parada em Maceió é uma alegria, mas a tristeza continua sendo a sujeira que se estende na praia da ancoragem. Antigamente diziam que a podridão era causada pela comunidade que ocupava um terreno entre o Porto e a FAVM, mas a comunidade foi retirada e o problema continuou. Todos sabem muito bem de onde vem o lixo que invade aquele belo recanto, que se fosse bem cuidado seria um dos pontos de maior atração na cidade do mar de esmeralda. O lixo é levado até ali pelo Salgadinho, um rio imundo que cruza a cidade e onde boa parte da população joga todo tipo de milacrias. Maceió é linda demais para suportar a falta de zelo com o Salgadinho. Mas quem sou eu para estar falando da cidade alheia! Logo eu, nascido em uma cidade banhada pela imundice histórica do Rio Potengi! Não, não poderia falar, mas falo sim, do Salgadinho, do Potengi, do Capibaribe, do Paraíba, do Rio Vermelho e de tantos outros rios jogados ao desleixo nesse Brasil sem leis, sem ordem e sem comando.

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Três horas após de ter ancorado em Maceió, levantamos velas e ao sabor dos ventos, nos despedimos daquela terra bonita, que ainda preserva os lampejos do seu lindo farol, apesar de camuflado pelos prédios que o cercam.

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A Bahia é logo ali!

Nelson Mattos Filho/Velejador 

Navegada em Maragogi nos porões da memória

IMG-20171128-WA0032O navegador Érico Amorim das Virgens, lenda viva do iatismo potiguar e uma das maiores autoridades na faixa de mar entre o Rio Grande do Norte e Alagoas, tem um arquivo de memórias para preencher páginas e páginas de livros e se for para emendar os bigodes em um gostoso bate papo, não tem pareia. Adoro sentar com o comandante para escutar suas histórias e assim vou enriquecendo meus conhecimentos sobre as coisas do mar. O autor de três  maravilhosos livros, o último Um Mar de Memórias, enviou um pedacinho de suas lembranças sobre a regata Maragogi-Maceió, da qual participou da primeira a última edição.      

Navegar nem sempre é tão simples quanto imaginamos ao ver passar  aquele veleirinho no horizonte azul.  A navegação em barco a vela,  esporte prazeroso e desafiador, sempre tem um probleminha a resolver: compor a tripulação.
É explicado por exigir dias para se  fazer uma simples travessia de Natal até Recife e nem todos tem o privilégio de se ausentar de seus  afazeres por dias seguidos. Normalmente levaria 2 dias no mínimo. Imagine meu caso em 2009 para ir a regata Maragogi-Maceió, da qual  participava quase todos os anos desde 1992, em sua primeira edição. O fato de a regata ter sido sempre em janeiro facilitava muito, pois  meus companheiros geralmente estavam em férias. Não sei o que  aconteceu naquele ano que meus tripulantes sumiram do mapa.
Aprontei o barco e fiquei enchendo o saco de um e de outro até que  Cláudio Almeida concordou em ir até João Pessoa. Dito e feito, lá  chegando arrumou a trouxa e se mandou de volta. Em lá estando comecei  novamente a minha batalha. E aí diante das negativas eu insistia: e só  até Recife?  Findei pagando a um rapaz que se dizia homem do mar e na  hora H meu amigo Luiz Dantas resolveu aderir. Afinal seria só uma  noite no mar. Resultado do trajeto: o marinheiro vomitou a noite toda  e Luiz achou bom termos pescado uns dois ou três peixes.
Em Recife eu estava bem mais perto do meu destino, mas continuava com  o mesmo problema: sem tripulante para a regata de Maragogi. Na semana anterior à minha chegada, o pessoal de Recife havia  realizado uma regata até a praia de Tamandaré e o barco de JP lá se  encontrava exatamente para participar da regata de Maragogi,  uma vez  que as praias são próximas. Com aquela conversa de palhoção  que todo  iate clube tem, fiquei sabendo que Alfredão e Evelin iriam com JP  pegar o barco em Tamandaré. Não foi difícil convencê-los a ir comigo e eu os deixaria em Tamandaré. Assim aconteceu e nós três levantamos as  velas na noite de sexta-feira e tivemos uma navegada maravilhosa, com  ventos brandos e favoráveis. Sem esquecer que os dois fizeram questão  de me deixar dormir a noite toda. Ao amanhecer Alfredão nos guiou com  segurança até o local de fundeio e aproveitamos para fazer um café com  tudo que tinha direito; o barco estava devidamente abastecido.
Agora eu estava bem próximo de meu destino e com outro problema: como  sair de Tamandaré contornando todos aqueles parrachos? Depois do café, nada mais a fazer, ficamos no barco conversando e  dando tempo ao tempo. Diversas ligações foram feitas até que JP disse  que se fosse para Tamandaré, seria a noite ou no outro dia. Aí enchi o  peito e propus que continuassem comigo este pequeno trecho e estava  tudo resolvido. Caberia a mim tão somente trazê-los de volta. Foi uma  pequena navegada e lá pelo meio dia contornamos os parrahos coloridos  de Maragogi. Fechamos o sábado com chave de ouro no restaurante “Frutos do Mar” do amigo Gilberto. À noite, já no clima festivo, fiquei sabendo que a regata seria  corrida em frente, em mar aberto e que não haveria a tradicional  Maragogi-Maceió, nem feijoada e muito menos tripulante para que eu  pudesse voltar. Tive como companheiros na regata Eugênio Cunha e um  velejador de Laser, seu amigo. Nossa participação foi um sucesso e a regata um tremendo fracasso:  apenas 3 barcos, se não me falha a memória. Lembro-me bem do Resgate,  do comandante JP, com Alfredão e Evelin em sua tripulação; Musa e um  barco sob o comando de Daniel, amigo lá de Maceió que faleceu agora em  2018. Se havia mais alguém não lembro.
Terminada a regata o problema de arranjar companhia para sair da praia  de Maragogi continuava. Por sugestão de Eugênio fui bater à porta de  Zé Fernando que no seu “Mestre Fura” tinha feito a comissão de regata.  Cedeu-me Zezé, velho amigo da Federação de Alagoas. Como é originário  daquelas bandas solicitou ir visitar uns parentes e já à tardinha  retornou para irmos até Maceió. Sendo já quase noite optou por sair  por entre os parrachos, cantando as profundidades: vai dá 2m, vai dá  1,80 e meu coração querendo saltar pela boca, pois mais e mais me  afastava da rota tantas vezes percorrida. Aí ele falou: pronto agora  passamos todos os cabeços. Parece até que foi o barco que ouviu, pois  desembestou rumo a Maceió e lá pela meia noite estava tudo no visual.  Uma e meia da manhã  de segunda-feira o barco estava fundeado e  dormimos ali mesmo.
Recapitulemos pois os trechos e as tripulações: NTL-JPS (Cláudio  Almeida); JPS-REC (Luiz Dantas e o marinheiro bu..ta); REC-Tamandaré  (Alfredão e Evelin); Tamandaré-Maragogi,idem; Maragogi-Maceió(Zezé).Zezé, meu companheiro no trecho Maragogi-Maceió e também navegamos  juntos na regata dos 500 anos. Aí é outra história.

Érico Amorim

Memórias do mar

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Sophie Bely, que nesse retrato de recordação posa ao lado do amigo Fabio Tossi, era uma navegadora como poucas, mas tão poucas que se juntassem todas a bordo de um veleiro de 20 pés, acho que sobraria espaço e seria um veleiro sem a figura central de um comandante, porque todas, ou melhor, a seletíssima tripulação não necessitaria de comando. Na última quarta-feira, 06/03, Sophie, a mitológica esposa do navegador Oleg Bely, falecido em maio de 2016, caiu e desapareceu no mar, junto com o comandante Arnout, do veleiro polar Paradise, após o barco ser atingido de lado por uma onda, enquanto atravessavam o oceano austral de volta ao continente sul americano. Mas esse acidente quem vai relatar é o João Lara Mesquita, no link que copiei e colei logo abaixo. A história que quero contar é que conheci a Sophie e o Oleg, durante uma passagem tumultuada e quase trágica do veleiro Kotic II, do casal, no Iate Clube do Natal, se não me engano, no final dos anos 90. O Kotic II estava em rumo cravado para os EUA e ao passar ao largo da capital potiguar, Oleg desejou dar um abraço no amigo e também navegador Zeca Martino, e assim fez. Ao adentrar o Rio Potengi, com a tripulação ansiosa para rever os amigos e reconhecer o local de ancoragem, todos se posicionaram no convéns e nem perceberam um princípio de incêndio que acontecia no sistema elétrico de acionamento da bolina retrátil. Enquanto o Kotic II desfilava em frente ao clube, o marinheiro Galego, que Deus o tenha, que estava fazendo manutenção no alto do mastro de um veleiro no píer, notou a fumaça que saia de dentro do Kotic e entre gestos e gritos chamou atenção da tripulação que já não podia fazer muita coisa, a não ser salvar o que pudessem. A tragédia só não se confirmou, porque a marinharia do Clube acionou o Corpo de Bombeiros, que tinha uma base em um terminal da Petrobras, nas proximidades, e quando o caminhão dos Bombeiros chegou, entrou direto em uma das balsas que na época faziam a travessia o Potengi, e numa manobra ágil e arriscada o comandante da balsa conseguiu atracar ao lado do Kotic II e debelar o fogo. Grande parte do interior do veleiro foi consumido pelo fogo e a gata de estimação do casal não resistiu. Foi uma comoção, porém, Oleg e Sophie não se deram por vencidos e já no dia seguinte iniciaram os trabalhos de reconstrução, que durou uns três meses, e receberam total apoio do Iate Clube, onde deixaram bons amigos e boas lembranças.  

Mar Sem Fim: Sophie Bely, a morte trágica de uma navegadora

Réquiem

1 Janeiro (151)Caro e bom amigo, Dibe, em respeito ao seu ato, recolho-me ao silêncio, mas antes preciso dizer que foi maravilhoso ter vivido essa amizade. Descanse em paz, Comandante!

O iatismo potiguar de vento em popa

IMG-20180917-WA0028IMG-20180917-WA0030O Iate Clube do Natal (ICN) realizou entre os dias 7, 8 e 9 de setembro, o 41º Campeonato Nordeste da Classe Laser, sob o comando do Diretor de Vela, Ricardo Barbosa. O evento aconteceu na Lagoa do Bonfim, um dos mais belos recantos do Rio Grande do Norte, onde o clube tem uma sub-sede. Trinta e seis embarcações, representando os estados do RN, PB, PE, AL, SE, CE, RJ e DF, se alinharam na raia do Bonfim que tem um regime de ventos incrivelmente apropriado para a classe Laser. É gostoso ver o Iate Clube do Natal retomar o rumo dos grandes campeonatos de iatismo, rumo esse que glorificou a história do clube náutico potiguar. É preciso lembrar que o ICN foi fundado por abnegados snipista, velejadores da classe Snipe, que outrora fizeram das águas do Rio Potengi, palco de  badaladas regatas do circuito nacional.  

Lendas, boatos e mistérios

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O mar é um poço de segredos e parafraseando o comandante Érico Amorim das Virgens, digo assim: “Depois que um barco sai do porto, muita coisa é lenda”.

Não é difícil encontrar histórias mal contadas sobre desaparecidos no mar e muitas delas com ecos e vestígios de violência. Em cada porto, em cada iate clube ou rodas de bate papos de navegantes, casos assim são relatados com tantos detalhes e certezas, que quem escuta é capaz de jurar de joelhos que testemunhou. Desculpem o meio tom de brincadeira, foi apenas para amenizar um pouco a sisudez do texto que segue.

Em abril de 2018 o mundo náutico amador foi sacudido pelo desaparecimento do velejador argentino Ewin Rosenthal, 83 anos, nas águas da carioca e linda Angra dos Reis. Segundo foi apurado, em um inquérito sem rumo, como são quase todos que tratam de casos semelhantes, o velejador teria partido de Angra, em 8 de abril, navegando em solitário e misteriosamente sumiu. Nome do veleiro: Misteriosa. No dia seguinte o veleiro foi avistado por um comandante de um pesqueiro e esse alertou as autoridades que um barco estava navegando em círculos no canal de acesso a Guaratiba e a Baía de Sepetiba, mais ou menos 50 milhas do local que havia zarpado, e tudo indicava não ter ninguém a bordo, fato constatado pelo Navio-Patrulha que foi atender ao chamado.

Os peritos verificaram que o interior estava revirado, deram por falta de equipamentos, folhagens secas estavam espalhadas pelo piso do barco misturadas com areia de mata, mas o que mais chamou atenção foi que no centro da cabine existia um botijão de gás atrelado a dois sinalizadores, não detonados, tudo indicando ser uma bomba de fabricação caseira. E o inquérito foi rolando, rolando, demorando, um corpo em decomposição foi encontrado próximo de onde o veleiro levantou ferro, exames foram feitos e na quarta-feira, 01/08, quatro meses após o ocorrido, a família enterrou o corpo, como sendo de Ewin, em Buenos Aires, sem saber mais nada além de nada.

No ano de 2005, não recordo o mês, o marinheiro do Iate Clube do Natal, Sebastião da Cunha Lima, conhecido como Galego, embarcou em um veleiro de 23 pés, para mostrar a embarcação a dois possíveis compradores, de nacionalidade holandesa, e nunca mais retornou. Um inquérito foi aberto, anos depois os holandeses foram identificados, após muitas lutas, foram julgados e condenados, na Holanda, pelo crime de terem jogado o Galego no mar. O corpo nunca apareceu, o veleiro também não e assim ficou o conto sendo contado com pontos acrescentados.

Janeiro de 2017, dois pescadores embarcam em uma lancha, no píer do Iate Clube do Natal, para uma alegre pescaria a poucas milhas de distância da costa de Natal e desaparecem. Um dos pescadores era oficial da Aeronáutica e o outro, Toinho Doido, uma figura arretada, um homem que nunca temeu o mar e jamais deixou de ter respeito. Toinho vivia no mar, sonhava com o mar, amava o mar e morreu no mar. – E o que aconteceu? Aconteceu que mais de uma semana depois de terem zarpado do clube, o corpo do oficial foi encontrado por pescadores da praia de Caiçara do Norte, quase 100 milhas de Natal, e o de Toinho foi encontrado em Canoa Quebrada/CE, quase 100 milhas um do outro. E o barco? Nada! Nem barco, nem apetrechos, nem nada! E o inquérito? – Não dou notícias, mas acho que parou por aí.

É fácil transformar o mar em palco de segredos e ter a, quase, certeza que tudo se manterá guardado para sempre, porque muitos inquéritos esbarram no jogo de empurra e naufragam numa palavrinha chamada jurisdição. Quem é responsável pela jurisdição do mar? A Marinha do Brasil? A Polícia Federal? A Polícia Civil? A Polícia Militar? Os Orixás? O Senhor, ou Nossa Senhora dos Navegantes? Talvez os três últimos sejam os mais cotados. A Marinha faz a salvaguarda, mas não é polícia. A polícia, faz o policiamento, mas não é Marinha. O navegante é violentado, mas não sabe a quem recorrer. O meliante sabendo de tudo isso, faz, acontece, mata, esfola, sai rindo do tempo e com a cara mais limpa do mundo.

A fiscalização da Marinha se resume a conferir documentos, equipamentos, capacidade de tripulantes e, se tudo estiver em ordem, geralmente está, a embarcação segue seu rumo. Se a embarcação a partir dali for usada para a prática de um crime, o problema passa a ser de outro órgão, mas esse outro órgão não tem como agir no mar e nem isso está definido em suas obrigações. – Mas a Polícia Federal está! – Está, mas não está e muito pelo contrário!

Sim, e daí? Daí fica assim: Ewin, Galego, Toinho e tantos outros ficam com seus nomes atrelados os números das estatísticas e os inquéritos sem solução vão servir de alimento as traças.

Bem disse o comandante Érico: “…depois que o barco saiu do píer, tudo é boato”.

Nelson Mattos Filho