Arquivo da tag: praia de mutá

Votos renovados com o mar – III

P_20161208_181348

Na página anterior desse relato estávamos com o catamarã Tranquilidade ancorado em frente a Praia de Mutá, uma gostosa baía no canal interno da Ilha de Itaparica, e prontos para degustar umas garrafas de Muvuca, Saruaba, Tribufu e Retada, produtos da cervejaria ED3, de nomes bem abaianados e que levam prazer aos amantes de uma boa loura gelada. Tive o prazer de experimentar algumas garrafas das ditas cervejas logo no início da produção, no veleiro Guma, do casal Davi e Vera Hermida, e essa prova deixou um gosto de quero mais, porém, o tempo passou, mas a vontade não. Quando o comandante Flávio nos convidou para o passeio no Tranquilidade, no início de dezembro de 2016, disse que eu incluísse no roteiro a visita a cervejaria de Mutá, o que fiz mais do que depressa. E lá estávamos nós, desembarcando para a visita.

P_20161208_182654A ED3 teve início com o sonho de três casais, entre eles Almir e Simone, que queriam produzir cerveja para desfrute da família, que não é pequena, e do time dos amigos, que é maior ainda, porém, o que era sonho de bons bebedores, virou um excelente negócio, pois a cerveja logo no primeiro gole deixava no ar o sabor do sucesso. Hoje o maquinário cresceu, o galpão aumentou, mas o que continua o mesmo é o sabor das cervas e a acolhida maravilhosa com que os proprietários recebem os visitantes, com direito a roda de samba, bons papos e tudo mais. O difícil é querer deixar o galpão e voltar para o barco, mas depois que deixamos vazias algumas dezenas de garrafas, foi o que fizemos e ainda trazendo na garupa algumas caixas para festejar num futuro próximo. A direção da cervejaria está em vias de fato para colocar a praia de Mutá no roteiro turístico náutico da Bahia e com certeza os visitantes saíram encantados e bem animados.

IMG_0032

Após uma noite das mais tranquilas, acordamos cedo, levantamos âncora e prosseguimos em nosso roteiro pela Baía de Todos os Santos. Voltamos a Itaparica para reabastecer os tanques com água e rumamos para a praia de Loreto, outro fundeadouro inigualável, por trás da Ilha do Frade, e onde a vida a bordo é mais gostosa. Loreto estava coalhada de veleiros de amigos, que tomara não vejam essa minha declaração, pois ficarei com um débito impagável por não tê-los visitado, contudo, antes de receber a primeira cobrança, peço perdão pela falta grave e prometo não cometer outra, pois todos eles moram em nossos corações.

IMG_0044

O comandante Flávio e Gerana ficaram fascinados por Loreto e no dia seguinte, quando seguimos viagem, disseram que voltariam o mais breve possível, porque nunca imaginaram que ali existisse um lugar tão lindo e com uma natureza tão exuberante. Na verdade quando tracei o roteiro queria mesmo visitar lugares que sempre me acolheram bem, porque era o meu reencontro, depois de cinco meses afastado, com um mar que amo de paixão.

IMG_0065

De Loreto rumamos para a Praia da Viração, vizinho a Ponta de Nossa Senhora, do lado sul da Ilha do Frade. A Viração é de uma lindeza sem igual e para muitos é o Caribe na Bahia, com águas cristalinas, onde se avista a âncora no fundo do mar, e uma faixa de areias brancas emoldurada por uma mata em estado praticamente nativo. Viração é uma APA e como todas, tem regras que regulam sua visitação, porém, ainda se pode ver alguns deslizes da nossa falta de educação ambiental. A praia recentemente recebeu alguns créditos a mais de fama, por ter sido destino de constantes banhos de mar da presidente Dilma, em suas férias na capital baiana. A praia é linda sim, mas pouco frequentada pelos velejadores.

IMG_0090

Da Praia da Viração aproamos o Rio Paraguaçu e fomos jogar âncora em frente ao povoado de São Francisco do Paraguaçu e seu Convento enigmático. Era hora do pôr do sol e abrimos um vinho para comemorar o dia que se ia e festeja a noite que tomava espaço. Entre um gole e outro com o líquido de Baco, fiquei matutando nas várias visitas que fiz aquele rio histórico e nas páginas do Diário que preenchi denunciando o descaso existente em tão belo cenário. Tudo continua na mesma, ou pior, mais maltratado ainda. Durante nossa velejada vespertina não encontramos nenhum veleiro, apesar de sido em período de um longo feriadão. Se o Paraguaçu fosse em um país europeu, americano do norte ou mesmo em alguns países orientais, garanto que seria tratado com toda importância e zelo que merece. Infelizmente tratamos nossas riquezas naturais da mesma forma como tratamos todo o restante de nossas causas, sem o mínimo de interesse em ver os bons resultados. Temos leis para tudo e para todo gosto, mas nenhuma serve além de sua escrita. São feitas apenas com o intuito de acalmar ânimos e nada mais, pois em suas entranhas, propositalmente, faltam princípios.

IMG_0099

O Convento de São Francisco do Paraguaçu, assim como a grande maioria dos monumentos as margens do Rio Paraguaçu, está sob os domínios da lei do patrimônio histórico, acho que seria melhor que não estivesse.

E a noite cobriu o rio!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Anúncios

Votos renovados com o mar – II

P_20161208_181358

Talvez possa dizer que esses Votos Renovados com o Mar, com o mar da Bahia, seja uma retrospectiva de tudo o que vivi na Baía de Todos os Santos, mas talvez não, porque no mar não tem talvez. No mar não existe sorte e nem azar. Aventura, jamais. Quem sabe destino, porque o mar não é dos valentes e muito menos dos inconsequentes, ele é daqueles que o respeitam, que tem na alma uma rota traçada, que tem no sonho o destino. O mar não se enfrenta, a não ser que se queira perder a luta. O mar se navega e com bem querer navegança, pois só passa por ele quem ele deixar.

Tenho uma paixão com o mar, daquelas que não se conta para não enciumar, pois no reino de Iemanjá segredo é segredo e ai de quem duvidar. Conto tudo por cima e quem sabe alguns floreios, mas se quer saber a verdade, vá você navegar. Experimento de um tudo e não deixo nada faltar, não me acho professor, pois essa é profissão dos encantados de lá. Navego com o coração aberto, alma livre e saio colhendo frutos, alguns doces outros amargos, mas todos são frutos que alimentam meus sonhos e me ensinam que no mar não existem nem flores e nem espinhos, e sim o amor de querer navegar. O mar do Senhor do Bonfim me acalma os sentidos e dita as regras de minha razão. Não consigo definir minha relação com ele, mas sei que é coisa de encanto.

E foi numa tarde faceira de final da primavera de 2016, que soltamos as amarras que prendiam o Tranquilidade ao píer da marina e fomos navegar. Fui até a proa e deixei ser tomado por aquele momento tão delicioso que vivi durante anos. Fechei os olhos e pedi bênçãos, pois é assim que sempre fiz. O mar me altera os sentidos e sou tomado por uma gostosa sensação de alerta, de prioridade, de responsabilidade. O mar me alimenta e faz minha alma sorrir com uma infinita alegria, a alegria de uma vida que alguns dizem de sonho. – Sonho? – Ah sim, o melhor deles, o sonho sonhado e vivido.

O mestre-saveirista olha o vento e segue para onde ele for, o mar é seu caminho e Iemanjá sua rainha, quando ela não deixa ele fica no caís. Não se briga com o mar e nem com os percalços que se apresentam, pois ali estão ensinamentos que muitas vezes valem alegrias, e vida, porém, não se desiste, muda-se o rumo, porque o vento e o mar são sempre mais carinhosos quando seguimos ao lado deles. E foi assim que fizemos ao cruzar a boia da Ribeira, que por sinal está indicando um canal cada vez mais raso, olhamos as condições, checamos os equipamentos e sem muito insistir aproamos a ilha de Itaparica e seu fundeio maravilhoso. Inicialmente queríamos ir a Canavieirinhas, lá no final do canal de Tinharé, região do famoso Morro de São Paulo, mas o piloto automático resolveu reclamar e os lemes estavam muito endurecidos – barco não gosta de ficar parado – e seguir assim durante mais de 50 milhas era uma tarefa árdua demais para quem só queria a sombra e a água fresca oferecida pelo Senhor da Colina Sagrada.

O fundeio de Itaparica continua lindo, maravilhoso e cativante. A paisagem que se descortina ao nosso redor é um bálsamo para aliviar as tensões de um mundo cada vez mais desumano. Podem dizer o que quiserem da Ilha, mas nunca neguem a poesia que está escrita no traçado das linhas de sua paisagem. Brindamos a noite com um bom vinho e uns quitutes da minha chef das chef e dormimos o sono dos justos naquele balanço de entorpecer e que somente um veleiro é capaz de proporcionar. A manhã seguinte levantamos a âncora e seguimos pelo canal interno da ilha, até a Fonte do Tororó, outro fundeadouro imperdível e lindo que só vendo. Um banho de mar para lavar a alma, uns bate-papos gostosos e despreocupados, um almoço fora de série e assim seguimos para a Praia de Mutá, outro fundeadouro maravilhoso e onde iriamos conhecer a Cervejaria ED3, que posso dizer, mesmo sem ter autoridade de conhecimento para tal, que é a melhor cerveja da Bahia.

A Praia de Mutá é um povoado pertencente ao município de Jaguaripe, que em tupi é îagûarype e significa “no rio das onças”. Mutá tem no traçado de suas ruas a origem da velha e boa Bahia, com ruas e becos que desaguam inevitavelmente na praça da igreja ou na rua que a praça leva. A beira mar é uma pequena baía de águas preguiçosas e rasas e nas areias se estendem alguns bares e restaurantes que ultimamente estão até bem educados no quesito altura do som. Tem na produção de mariscos, que por sinal por lá se prepara divinamente, uma excelente parcela de sua renda. É em Mutá o destino final de uma das boas regatas da Bahia, a Regata da Primavera, que a cidade recebe com muito carinho e festança.

– Sim, e a cerveja? – Tenha paciência meu rei, que falarei na próxima página.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O mar da Bahia é de festa

14650536_1758047811121517_3134667356984493729_nSe a turma da vela Brasil afora acha que no mar da Bahia festa boa somente a regata Aratu/Maragojipe, pode ir tirando o cavalinho da chuva, porque regata na Bahia tem uma atrás da outra e cada uma gostosa que só vendo. Pois bem, dia 22 de outubro, sábado próximo, tem uma das mais tradicionais e animadas que é a Regata da Primavera, que esse ano comemora a 41ª edição.

14494868_1752933068299658_3782309122621197546_nA regata larga da Ponta de Humaitá, um dos mais belos cartões postais de Salvador, e tem a linha de chegada na praia de Mutá, um pequeno paraíso no Canal Interno de Itaparica. A festa da premiação, em Mutá, será animada pela banda Diamba, pois na Bahia regata tem que ter festa, e festa para valer. As inscrições podem ser feitas no Saveiro Clube da Bahia – clube promotor do evento, Aratu Iate Clube e Marina Aratu. Rapaz, essa regata é das boas!

Velejando no Canal de Itaparica

Imagens 034 Navegar pela Bahia é uma festa! Para onde aproamos o barco surge uma paisagem de sonhos, vento a favor, mar de fazer inveja e ancoragens belíssimas. Na semana passada navegamos pelo canal interno da Ilha de Itaparica, junto com dois veleiros: O argentino Aventurero e o alagoano Tike Take. Na primeira noite ancoramos na Fonte do Tororó, uma ancoragem excelente para uma noite tranquila, mas a fonte que é bom, só existe mesmo no nome. Dizem que uma empresa represa a água e por isso a fonte secou, mas mesmo assim o banho de mar é uma delícia. No dia seguinte rumamos para a Praia de Mutá, muito próximo de Tororó e outro fundeio perfeito.  Hoje Mutá é um ponto de encontro de velejadores baianos.   Uma das atrações de Mutá, além do banho de mar e da praia muito bonita, é o Restaurante Sabor de Mutá com uma culinária muito especial e comandado pelo casal velejador Almir e Simone. Mesmo se não gostar Imagens 036da comida você não vai sair falando, pois o Almir tem conversa para muitas horas de um bom bate-papo. Dessa vez não fomos ao Restaurante Sabor de Mutá, pois no dia seguinte, a nossa chegada, o Aventurero e o Tike Take resolveram levantar âncoras e retornar a Salvador. Nós ficamos sozinhos e aproveitamos para descer o canal até a Praia de Catu, outro fundeio sensacional, já próximo a Barra Falsa de Itaparica. Imagens 064Dois dias depois retornamos a Itaparica e no meio da navegada ficamos sabendo através do velejador Davi Hermida que no Sábado, 26/02, o Saveiro Vendaval estaria em Itaparica para um passeio, e no mesmo dia haveria a lavagem da Coroa do Limo, uma faixa de areia que descobre na maré baixa, em frente a Marina de Itaparica.Imagens 102 Em busca da festa aproamos o fundeio de Itaparica! Velejar em um Saveiro é o mesmo que velejar na história da Bahia. Já velejei no Vendaval em outras oportunidades, mas nunca matei a vontade. Sempre que ele esta disponível para velejar, e estou na Bahia, eu me convido. A lavagem da Coroa do Limo é uma festa organizada por velejadores do Aratu Iate Clube, bastante informal e animada. A turma se reúne na Coroa e contratam uma bandinha de sopro para animar a festa. Os que estão com os barcos ancorados ao largo, vão desembarcando e a festa acontece na maior alegria. Churrasco, feijoada em dingue, muita cerveja gelada e as marchinhas carnavalescas dão o tom a festa, que só termina quando o mar resolve tomar conta novamente da Coroa do Limo. Lavagem da Coroa  de Itaparica (37) Lavagem da Coroa  de Itaparica (17)Lavagem da Coroa  de Itaparica (18) Um detalhe chamou nossa atenção em toda essa folia: No final não existia nenhuma sujeira nas areias e nem na água. A festa foi grande e animada, mas a consciência ecológica da turma foi ainda maior. Valeu!