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Cartas de Enxu 53

10 Outubro (226)

Enxu Queimado/RN, 12 de novembro de 2019

Parodiando o poeta, pergunto e respondo: – A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? – Os dois!

Pois é, Kátia, dizem por aí, e com toda propriedade, que o Rio Grande do Norte poderia se chamar “Já Teve” e seria até interessante, porque já que existe um município na região Oeste potiguar chamado Venha Ver, as peças publicitárias poderiam incrementar frases assim: “Venha ver o que tem em Já Teve”; “Já Teve, mas venha ver assim mesmo”; “Conheça Já Teve antes que não tenha mais”, e por aí caminharia a nação dos potiguares. Aliás, seria bom a gente se apressar para conhecer Venha Ver antes que ele se torne “Já Teve”, porque o município de pouco mais de 4 mil habitantes, segundo os bruxos da imprensa, está na lista de extinção, como também está o município de Pedra Grande, com 3.275 habitantes, do qual faz parte o pequenino distrito praieiro de Enxu Queimado, pedacinho de chão de onde escrevo essas missivas.

Cunhada, conheci Enxu há mais de trinta anos e de cara me apaixonei pela vidinha simples que se levava por aqui, com os pés pisando ruas de fina areia branca, coberta por leve camada de piçarro, e no final do dia mergulhando o corpo no mar para retirar a poeira avermelhada soprada pelos alísios que acariciavam as dunas e desciam correndo soltos pelas vielas. Eram bons tempos de fartura de lagosta, cestos e mais cestos de serras, garachumbas, galos do alto, guarajubas, ciobas, cavalas, bicudas, ariacós e mais uma ruma de espécies de fazer inveja a um bocado de pescador afamado. – E as galinhas? – Vixi, vou nem contar, mas em todo caso, fizemos muitas estripulias em busca das galinhas alheias. Enxu era uma festa nos idos anos 90. Aí você pergunta: – E não é mais? – É e não é, e acho até que é menos do que mais! – Entendeu? – Nem eu! Rsrsrsr…

Na década de 90 Enxu era um arruado de casas, muitas delas de taipa e com uma dúzia de casas de veranistas, quase todos oriundos do município de João Câmara, e o verão era uma festa de cores, alegria e tinha uma beira mar de fazer valer a fama que os poucos turistas que a conheciam alardeavam aos quatro ventos. A pequena localidade de pescadores recebia reflexos de um futuro promissor e com as antenas ligadas no turismo que avançava pelas praias do Rio Grande do Norte. Ora, não podia ser diferente, pois foi nas areias desse litoral que desembarcaram os enviados do Rei D. Manoel I para fincar a pedra fundamental da criação do país chamado Brasil, em 7 de agosto de 1501. A data, inclusive, está registrada como sendo, além da posse oficial do Brasil, aniversário do Rio Grande do Norte. Como bem diz a frase estampada em todos os documentos da Prefeitura de Pedra Grande: O Brasil começou aqui. E começou mesmo, mas por aqui estancou de repente, e o país seguiu, aos trancos e barrancos, em frente, deixando para trás a história esquecida em um Marco de Posse que até hoje ninguém decidiu o que fazer com ele.

Kátia, como você bem sabe, a Enxu do século XXI é uma praia bela, com um litoral paradisíaco, mas que merecia mais: Mais atenção, mais cuidado, mais carinho, mais investimentos, mais amor, mais responsabilidade com o desenvolvimento sustentável e mais respeito com sua população. O município de Pedra Grande está inserido entre aqueles que receberam fabulosos investimentos oriundos dos empreendedores da energia dos ventos e ostenta em suas terras um vultuoso parque eólico, além de uma gigantesca fábrica de torres. – E só isso basta? – Não, não basta, mas se toda essa pujança for bem aproveitada, adiantaria mais da metade da viagem rumo ao progresso sustentável e Enxu Queimado, como pórtico de entrada ao mar e a grande visibilidade que o mar proporciona, ganharia nova visão turística e quem sabe, tiraria o município da fatídica lista de abate.

Lembro de uma conversa que tive na época, com o então prefeito Chico Vitor, para mim um homem de visão, e ele falava que iria construir a Estrada da Palmeira, uma via ligando Enxu Queimado a Praia do Marco, em um traçado mais curto do que aquele que existia até então. Ele apostava que a estrada seria a redenção das duas praias, porque daria incentivo ao Governo do Estado para continuar com a estrada até São Miguel do Gostoso e no futuro ligar Gostoso, Marco, Enxu e Galinhos. Chico Vitor cumpriu a promessa, mas a Estrada da Palmeira, uma estrada piçarrada, nos padrões das RNs, hoje está praticamente abandonada, com o mato tomando parte da via e muito lixo jogando nas margens.

Pois é, Kátia, olhando o bonde que vai passando e assistindo essa bela prainha ficar empancada na estação, apesar de ter um dos mais lindos cenários litorâneos do Nordeste, não me vem em mente outra palavra a não ser já teve. Palavra essa tão bem apropriada para um Estado que já foi tudo, inclusive fonte originária de um país inesgotável.

Kátia Suely Silva dos Santos, minha cunhada querida, fico triste em ver que essa antiga vilazinha de pescadores perdeu o rumo da Estrada da Palmeira, via que foi pensada vislumbrando os ventos do futuro. Mas não é tanta tristeza assim, porque apesar de tudo, olhando da varanda dessa cabaninha, vislumbro e me sinto vivendo na comunidade que me recebeu carinhosamente há trinta anos. Só não existe mais a inocência e os perigos que rodam essa beirinha de praia são outros!

Nelson Mattos Filho

Reviver é que são elas

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Num claro sinal de “vazamento” controlado de informação, para amaciar o ego de parte da mídia que se declara antenada, vigilante e vazadora, o Governo Federal anuncia implementar nessas terras de além-mar um projeto criado pelo governo lusitano e denominado Programa Revive, que por lá tem a finalidade de recuperar, valorizar o patrimônio cultural e histórico e alavancar ativos econômicos para o país. O Revive dos patrícios, que deverá servir de base, se assim permitir a ciumeira parlamentar, para o Revive brazuca, abre o patrimônio histórico e abandonado até onde a vista alcança, para que investidores privados desenvolvam projetos turísticos através de concursos públicos. Ideia salutar em um país escandalosamente negligente com o legado e os resquícios que a história nos deixou e quem quiser atestar a negligencia, basta meter um par de conga nos pés, ou uma alpercata boa, colocar um caderninho de anotação na mão, pegar uma máquina de tirar retratos e sair batendo perna por aí.

Os jornais e blogs desse meu Rio Grande do Norte já estão ouriçados que nem enxames de abelhas com a informação de que o Revive brasileiro vai pintar pelas terras de Poti, e o Forte dos Reis Magos, na porta de entrada do rio Potengi, a Árvore do Amor, em Maxaranguape, um tal Parque dos Mangues, em Natal, e a Praia do Marco, em São Miguel do Gostoso, estão na lista para a exploração comercial e se assim for, torço para que seja verdade verdadeira e que o projeto saia do papel antes que os sítios se acabem para sempre. Sobre o Forte não existe palavras para definir a sacanagem gerencial que empapuça de lama as paredes da velha fortaleza que continua milagrosamente resistindo ao fogo da discórdia e ao ciscado de pavões emplumados, só não se sabe até quando.

Quanto a Árvore do Amor, plantada sobre as falésias da praia de Caraúbas, ao meu ver a história está chantada ao lado, no Farol de São Roque, e não no arco de coração desenhado pela natureza, mas já que o “amor” foi inserido na lista, vamos torcer para o que o Farol receba pelo menos uma lambuja de investimento. Do Parque dos Mangues, que só existe na cabeça dos desenhadores de maluquices ecológicas, pois o que se vê das margens é apenas miragem, porque ao vivo e a cores é tudo devastação, abandono e refúgio para todo tipo milacrias, vamos torcer e batalhar. Porém, como diz Dr. Virgílio Alexandrino, quando escuta um jogador de futebol, durante entrevista, após o jogo, em que a equipe foi derrotada, falar que vão batalhar: “- Pronto, é a pá de cal que faltava para terminar de afundar o time! ”.

E a Praia do Marco? Pois é, no relatório diz que ela pertencer ao município de São Miguel do Gostoso e não está errado de todo, mas também tem parte de suas areias e dunas nos domínios do município de Pedra Grande. O Marco, como é popularmente chamada, está abandonada desde que os marinheiros do Rei atracaram suas Naus por lá, chafurdaram nas areias, se atreveram a trocar espelho por apito com os nativos, chantaram um Marco de Posse e pegaram o beco descendo para cantar de galo em outras freguesias. A prainha linda, digo sem medo de errar, uma das mais lindas do litoral do RN, é um abandono só e não é pior porque alguns abnegados, entre eles Dona Tânia Teixeira, que até dia desses mantinha uma pousada na região, outrora tentaram manter acesa a chama histórica, mas depois de tanta falta de reconhecimento, restaram apenas promessas e o famoso seja o que Deus quiser.

Mas não pense que estou rabiscando essas linhas com a faca nos dentes para criticar o programa Revive Brasil, porque gostaria muito que o projeto tivesse andamento e desse valor ao que está jogado a própria sorte, pois se depender daqueles que até os dias atuais estão dando as cartas e se refestelando no sombreiro das verbas públicas, num futuro próximo sobrarão apenas retratos amarelados no fundo de algum arquivo enferrujado. Aliás, a velha fortaleza dos Reis Magos é forte sim senhor, porque resistir a fúria desenfreada da briga de egos dos “ilustres”, não é coisa para qualquer estrutura meia boca.

Mas diante de todo esse moído e da incrível ausência da boa informação jornalística que desapareceu completamente do ambiente das redações, oficialmente o que se tem de verdade sobre o programa Revive Brasil, é que em 10 de abril de 2019 foi publicado a Portaria Interministerial 151 e algumas áreas mereceram indicação, mas, segundo o superintendente regional do Patrimônio da União no RN, não significa que serão cedidas. Segundo o superintendente, o caso da Fortaleza dos Reis Magos é exemplar, porque já existe um contrato de cessão ao Governo do Estado e não existe a intenção de quebra contratual por parte do Governo Federal. O mesmo acontece com a Praia do Marco, em que um contrato de gestão entre a SPU e a Prefeitura de São Miguel do Gostoso, dá autonomia ao município cobrar pela utilização da orla.

No mais, é aguardar pelos pontos no is!

Nelson Mattos Filho

Cidadania

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“Não é a primeira vez e nem será a última”, assim diz o ditado e assim vamos levando a vida entre trancos e barrancos, mas sem esquecer de sermos felizes, pois se assim não for, seremos engolidos pela máquina de moer paciência.

A praia de Enxu Queimado/RN é sim uma comunidade pacífica e extremamente condescendente com aqueles que não lhe doam um mínimo de atenção – a não ser quando estes estão a vislumbrar a purpurina dos resultados das urnas eleitoras -, mas se não fosse esse relativismo, poderia, com toda propriedade, fazer parte do seletíssimo grupo de lugares no mundo em que se colhem os frutos do turismo consciente, amadurecido, diferenciado, respeitoso, educado, de bem com as causas ambientais e que norteia o bem estar da população local. A praia é dotada de beleza ímpar e áurea inspiradora, mas a moldura está maltratada e corroída pela falta de zelo.

Há anos a comunidade convive com o fantasma de uma tragédia anunciada e que até já ceifou uma vida, mas a morte passou sorridente, o choro cessou, a piedade esmoreceu, o medo se foi e o fantasma continua tranquilamente na espreita.

Como em todo e qualquer pequeno povoado brasileiro – juro que não sei se o problema é recorrente mundo afora – a fiação elétrica dos postes não tem o padrão de altura determinado pelos manuais de segurança. Cada empresa de serviço que utiliza os postes, coloca sua fiação de acordo com a cabeça oca de quem executa o serviço e dificilmente aparece algum responsável pela ordem pública para conferir o que foi feito. O que mais se vê por aí são ruas, becos, vielas e avenidas, cruzadas por fios tão baixos que se brincar servem até como varal de roupas e Enxu Queimado não foge à regra, mas deveria, porque é uma praia de enorme potencial pesqueiro, e por isso recebe diariamente caminhões baús refrigerados, e tem sobre suas dunas e matas de caatinga um gigantesco parque eólico e por isso em suas ruas estreitas circulam, irresponsavelmente, grandes carretas e monstruosos equipamentos de guindastes. Quando não é isso, de vez em quando ainda aparecem enormes ônibus que servem a cantores e bandas de forró e aí a zorra está formada!

Pois bem, em um período de quinze dias a fiação de telefonia, estirada irresponsavelmente sem padronização de altura sobre a rua principal de Enxu Queimado, foi arrancada por enormes caminhões e graças a Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira do lugar, não foi fiação elétrica, porque se assim fosse, o desastre estava feito, porque no primeiro acidente, que nem foi notado pelo caminhoneiro e mesmo se fosse ele teria ido embora do mesmo jeito que foi, sem dar satisfação a ninguém, porque não tinha a quem, a fiação ficou estendida no chão por uma semana. Mal a bagaceira foi concertada, outro caminhão, seguindo o mesmo modus operandi do primeiro, arrancou novamente a fiação, que assim permanece até o dia de hoje, 22/04/2019. – Denunciar a quem? – Rapaz, tenha fé em Deus!

Claro que a administração pública não fará o serviço, até porque não tem pessoas especializadas e nem a fiação lhe pertence, mas bem que poderia mandar uma equipe para isolar a área e acionar os responsáveis para que vidas sejam preservadas e alguma tragédia não venha a acontecer. Uma fiação arriada sobre qualquer via de circulação de pessoas ou automóveis, representa perigo eminente, mesmo que não seja energizada. Basta que um motociclista seja atingido, um carro esbarre, uma pessoa seja enlaçada ou por outros motivos o poste seja derrubado, os responsáveis, diretos e indiretos, serão denunciados e pagarão por suas faltas.

Que Nossa Senhora dos Navegantes nos proteja e ilumine a mente dos homens!

Nelson Mattos Filho

A ponte que caiu e o descaso

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Sábado, 06/04, uma balsa abalroou um pilar de uma ponte no Rio Moju, na Pará, e com o impacto parte da estrutura veio abaixo. Esse é mais um acidente que poderia ter sido evitado, se as coisas nesse país maravilha funcionassem como deveriam, se os órgãos fiscalizadores fizessem seu papel, se as autoridades não fossem autoridades apenas para receber gordos salários e tirar fotos, se os poderes públicos tivessem um mínimo de atenção com a segurança das pessoas, enfim, se todo aquele que prevaricasse fosse punido exemplarmente, sem choro e nem vela. – Sim, e o que tem haver o retrato da Ponte Newton Navarro, Rio Potengi, com a ponte que caiu – sem trocadilho – no Pará? – Tudo! Porque desde que foi inaugurada que as autoridades prometem, prometem, prometem, a colocação dos dolfins de proteção dos pilares e até agora a estrutura conta apenas com a proteção de Nossa Senhora da Apresentação. Mas basta a Santa tirar um cochilo, no instante em que um navio derivar sobre um pilar,  que a desgraça está feita. Oremos!    

Cartas de Enxu 35

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Enxu Queimado/RN, 12 de março de 2019

Olá, filhota, espero que essa cartinha chegue até você e a encontre em paz e com aquele sorriso lindo que me derrete de paixão. Bem que poderia ficar horas e horas ajuntando letras nesse teclado confidente, falando do amor que sinto e derramando loas e loas sobre a beleza que estonteia os olhos e enche de alegria o coração de um pai que está a milhas e milhas de distância. Mas não vou não, porque quero falar do cotidiano da vida vivida nessa vilazinha praieira que me acolhe e me dá carinho. Como você é linda e maravilhosa, Filha! Benza Deus!

Filha, o Carnaval por aqui foi bom, tranquilo e na paz que merece a festa de Momo, se bem que as músicas deixam a desejar, mas fazer o que se a batida é mesma de Norte a Sul. Andei lendo e vendo os moídos da sua Salvador amada e vi que a coisa por aí foi bem animada. Gosto de dizer que é preciso viver a Bahia para falar sobre ela. Eita terra boa e abençoada. Também, com todos os Santos no comando e um exército de Orixás dando proteção, não tem quem se atreva a meter água no azeite!

Aqui teve uns buchichos na beira mar, onde se apresentaram umas bandas tipo xerox. Digo assim, porque entrava uma, saía outra e o repertório era o mesmo. Não fomos nem um dia dar uma bisbilhotada no fuzuê, até porque a pizzaria estava funcionando a todo vapor e quando a labuta terminava, abríamos uma cervejinha gelada e cadê a coragem de sair. Tomara que Momo me desculpe por essa, mas foi assim. Papai gostava de dizer que ninguém podia perder um Carnaval, pois não recuperava mais nunca. Pense num homem arretado e que gostava de festa!

Filhota, as chuvas por aqui estão bem chovidas e a pequena floresta do quintal está rindo à toa e verdinha que só vendo. Tem acerola, pinha, graviola, pitanga, seriguela, laranja, coco, fruta-pão, caju, mamão – doce que faz inveja a açúcar –, berinjela, cajá, cajá-manga, banana e até uns pés de pimenta, para temperar moqueca e espantar mau-olhado. Tá pensando! Estou até pensando em virar exportador! Margareeeeth!

Loura Linda, diga aí se você já ouviu falar na palavra “serigóia”. Pois é, estava hoje na varanda e escutei alguém xingar outro de “serigóia” e me avexei a pesquisar no doutor Google para saber o que danado é isso, e no que cheguei mais perto foi da “sericóia”, que é a Saracura-três-potes, uma espécie de ave que vive em áreas alagadas do pantanal mato-grossense e também México e Argentina. Fiquei matutando como danado chegou essa sericóia por aqui e não sosseguei enquanto a danada não voltou. Pois num é que a pessoa tinha as pernas longas e era magra que só uma sericóia! Sei não, viu! Pedrinho de Lucinha certa vez me disse que no fundo do mar tem toda espécie de criatura igualmente em terra. Perguntei: – Pedrinho, e tem gente? – Tem veio, eu num mergulho lá! – Eh, tem mesmo! Qualquer dia vou perguntar se tem sericóia e parece que estou vendo a resposta!

Por aqui apelido é que não falta e tem cada um que nem nos melhores dicionários do mundo se consegue a tradução. Meu amigo Zé Mago, que agora ganhou mais um apelido, que depois eu conto esse moído, é quem mais bota apelido no povo. O cabra é bom de ajuntar letras e basta olhar para uma pessoa que o apelido já vem na ponta da língua. Dia desse chamei Zé Mago para um bate papo na mesa que tenho embaixo do pé de nim e pedi que destrinchasse os apelidos de Enxu. Foram tantos que enchi três folhas de caderno e só não enchi mais porque Zé recentemente teve um AVC e segundo ele, a doença fez a cabeça esquecer de uma ruma. Tem um, que foi goleiro do time, que tem dezenove apelidos e quando Zé irradiava o jogo, dizia tudinho numa tacada só.

Amandinha, Enxu Queimado é uma graça de se viver e um paraíso de encantos. É difícil encontrar um recantinho no litoral brasileiro mais gostoso do que esse. Tem suas necessidades, suas mazelas como em todo lugar, mas no final da conta o que sobra é uma riqueza enorme de grande. Só em ter paz e as pessoas poderem andar despreocupadamente a qualquer hora do dia ou da noite, já é uma riqueza que não tem preço. – Quer ver eu criar ciumeira e dar o que falar? – Gostoso fica aqui bem pertinho, mas nem de longe tem a gostosura que tem Enxu!

Amanda Isabella Palma Mattos, a Loura linda de Nelsinho, venha aqui filhota. Venha conhecer um lugar que dificilmente as pessoas deixam de se apaixonar. Venha ver as belezas encantadoras das dunas e do coqueiral que declama poesias ao vento. Venha sentir o frescor dos alísios do Nordeste que por aqui declaram amores ao mar. Venha se banhar em um mar de águas mágicas e caminhar em um infinito de praias de areias branquinhas e livres de poluição. Venha ver as jangadas em seus belos bailados. Venha ver a Lua mais bela. Venha filhota, venha viver um mundo que só tem em Enxu.

Beijo, Filha e não demore!

Nelson Mattos Filho

Uma ponte atravessada no caminho

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Juro que nunca entendi o motivo que levou o criador de nomes a batizar o meu Rio Grande do Norte com um nome tão pomposo. Se foi por causa do rio que nasce no município de Cerro Corá e segue serpenteando boa parte do Estado, por 176 quilômetros, até desaguar nas águas do Atlântico, imagino que não foi, pois apesar da beleza de suas pinturas e do romantismo de suas poesias, ele não é tão grande assim e desde que o Potengi entrou nessa história que vem sendo diminuído ano após ano. Se foi pela grandeza das suas terras, também não, porque o elefante não aprendeu a crescer. Se foi pela riqueza do solo, até que poderia ser, pois aqui, se plantando tudo dá, porém, tem alguns poréns para atrapalhar. Será que foi pelas jazidas minerais e os recursos naturais? Quem sabe! Mas se foi, já foi, pois como diz a piada: “Tá se acabando tudo! ”. E pela grandeza dos nossos governantes? Com certeza não foi e definitivamente não, pois pense numa turma apequenada! Mas já que batizaram assim, assim será e ponto final e vamos seguir com a prosa.

No dia da festa maior em homenagem a Nossa Senhora da Apresentação, padroeira de Natal, o jornal Tribuna do Norte publicou matéria, mais uma, sobre o empecilho criado pela Ponte de Todos Newton Navarro para melhor desenvolvimento do turismo potiguar. Mas não foi por falta de aviso, foi por falta de visão e pelo grande mal causado pelo endeusamento político que a tudo corrói e destrói. Segundo a matéria, que é uma verdade, a Ponte é uma barreira para que o RN receba a maioria dos navios de cruzeiro que fazem a festa e levam alegria a outros portos Brasil afora, porque a altura do vão central, em torno de 54 metros, e a falta criminosa das proteções nas pilastras de sustentação, impedem a entrada de navios maiores e mais modernos. Na Copa 2014, jogo dos desmandos e do nosso maior fracasso futebolístico, Natal deixou de receber dois ou três transatlânticos e no verão que se avizinha, apenas assistirá à passagem deles ao largo e apenas um ou outro aproará a Barra do Potengi.

O mais engraçado é que recentemente foram gastos uns bons milhares de dólares para a construção de um terminal de passageiros, que de tão jogado as moscas, baratas e ratos do porto, está sendo oferecido a qualquer troco para realização de eventos diversos. Há quem diga que está certo e até defenda o uso para outros fins. – E sabe de uma coisa? – Eles é que estão certo, pois se não serve para uma coisa, que sirva para outra antes que venha abaixo por falta do que fazer.

O secretário de turismo, falando pelo governo do Estado, governo este que já está com as gavetas desocupadas, se apressa em dizer que está batalhando para mudar o quadro. A Codern, Companhia Docas do Rio Grande do Norte, diz que não está medindo esforços e até anuncia que o porto tem batido recordes de embarques de container. A classe política, deputados e senadores, se faz de desentendida, porque para ela tudo são flores e palanque. O governo que vai assumir, prometendo transformar o RN em um mar de rosas, vermelhas, continua prometendo, porém, ainda não orientou suas fileiras a pastorar o horizonte.

– E o que eu quero com essa prosa? – Digo! Sou defensor do turismo náutico em todos os níveis e o Rio Grande do Norte tem potencial para navegar em mar de almirante nesse segmento. O turismo náutico está entre os que mais crescem no mundo e que trazem excelentes benefícios e recursos. O RN está aproado e é porto estratégico para os destinos mais procurados do mundo e basta dar uma folheada na história para ver essa verdade. Somos beneficiados pelos ventos, pelas correntes marinhas, por um litoral belíssimo, por praia maravilhosas e viramos as costas para a lógica e nos agarramos com falácias de burocratas cegos, mal-amados e por uma politicagem barata. Recentemente enfiamos na lama a ideia maravilhosa de uma marina, que traria a esperança de bons resultados. Projeto que não passou pelo ranço e a acidez de mentes ferinas e ideologicamente transloucadas. Batemos palmas na construção e festejamos loucamente a inauguração da Ponte de Todos como um marco de desenvolvimento, o que não é. A obra é linda, as fotos são lindas, os festejos de fim de ano ganharam novos ares, mas a Ponte está posta em local errado e seus construtores e gestores públicos não vislumbraram o futuro, olharam apenas para o próprio umbigo, acenaram para os afagos, cortaram a fita, condenaram a praia da Redinha a ficar embaixo da ponte e saíram de cena. O futuro a Deus pertence!

O turismo náutico empancou diante da Ponte Newton Navarro, logo ele, que tanto amou e retratou Natal. Agora, parodiando as autoridades, vamos batalhar essa batalha perdida! A história conta que por mais de 300 anos, Natal virou as costas para o mar e somente pela visão de um dos seus prefeitos, no início do século XX, passou a apreciá-lo. Será que a construção da “ponte do futuro” deu início a uma viagem ao passado? Os fantasmas dos guerreiros do velho Forte dos Reis Magos observam tudo sobre as muradas, dão risadas e se perguntam: – Foi por esse povo esquisito que brigamos tanto?

Nelson Mattos Filho

O iatismo potiguar de vento em popa

IMG-20180917-WA0028IMG-20180917-WA0030O Iate Clube do Natal (ICN) realizou entre os dias 7, 8 e 9 de setembro, o 41º Campeonato Nordeste da Classe Laser, sob o comando do Diretor de Vela, Ricardo Barbosa. O evento aconteceu na Lagoa do Bonfim, um dos mais belos recantos do Rio Grande do Norte, onde o clube tem uma sub-sede. Trinta e seis embarcações, representando os estados do RN, PB, PE, AL, SE, CE, RJ e DF, se alinharam na raia do Bonfim que tem um regime de ventos incrivelmente apropriado para a classe Laser. É gostoso ver o Iate Clube do Natal retomar o rumo dos grandes campeonatos de iatismo, rumo esse que glorificou a história do clube náutico potiguar. É preciso lembrar que o ICN foi fundado por abnegados snipista, velejadores da classe Snipe, que outrora fizeram das águas do Rio Potengi, palco de  badaladas regatas do circuito nacional.