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O litoral potiguar

20160823_165541280px-RioGrandedoNorte_Municip_CaicaradoNorte.svgEssa praia apetitosa, coalhada de barcos de pesca e com um bonito farol em sua ponta mais vistosa é Caiçara do Norte, localizada no litoral norte do Rio Grande do Norte e distante 149 quilômetros de Natal. Caiçara, como é carinhosamente chamada pelo povo da região, já foi tema de outras postagem aqui, entre elas a que falamos sobre o Farol de Santo Alberto, que rende até hoje bons debates. Aliás, o Farol é tema de calorosas discursões entre os moradores de Caiçara e São Bento do Norte, municípios tão ligados que custa ao visitante identificar onde começa um e termina o outro. Brevemente falaremos mais sobre essa praia que se enche de orgulho em possuir a maior flotilha de barcos de pesca do Brasil. Eita litoral para ter história!

Lagoa da Cotia

Janeiro (21)Janeiro (22)

Esse Brasil é mesmo cheio de segredos, claro que nem todos são bons e tem alguns que extrapolam a razão e faz aflorar a nossa desimpaciência como o descaratismos de certas figurinhas carimbadas, mas no almanaque das paisagens deslumbrantes, duvideodó que algum lugar nesse planeta incompreendido, ameaçado e castigado, exista um conjunto tão interminável de belezas naturais. Claro também que em algumas paisagens a beleza se restringem apenas a uma velha e desbotada fotografia jogada num cantinho empoeirado, porém, basta uns passinhos a mais para darmos de cara com recantinhos meio que intocados irradiando boniteza nos ares. Foi dando uns passinhos a mais, na companhia dos amigos Venício e Sandra Gama, que cheguei a beira da Lagoa da Cotia e sem pestanejar mergulhei em suas águas convidativas, transparentes e mornas. A Lagoa da Cotia fica no município praieiro de Rio do Fogo/RN – que há muito perdeu seus encantos para o progresso sem freios e sem rédeas – e é um lugar que vale ser conhecido enquanto existe, nem que seja para tirar um retrato.  

 

Na margem esquerda do Potengi tem uma linda praia

Praia da Redinha

“Do cais, você olha a boca-da-barra. Do lado de cá, o pontal escuro, com um farol sinaleiro. Braço de pedra, mar a dentro, ajudando navios e barcos maiores nas aperturas do canal. Do lado de lá, o dorso branco de praias e morros, manchas vermelho-azuis do casario irregular. Uma torre humilde de igreja. Os cocares impacientes do coqueiral. O território livre da Redinha”, escreveu em crônica o poeta e pintor Newton Navarro. Era a década de 1970 e a Redinha começava a mudar.

A Praia da Redinha é sinônimo de reino encantado – encravado nas dunas que circundam a cidade do Natal – das paixões, dos seresteiros, poetas, pintores, boêmios, praieiros, pescadores e amantes de uma vida plena de alegria, tudo temperado com o sabor de deliciosos cajus, cachaça, peixe frito e tapioca. Sob a sombra dos seus alpendres a cidade dos Reis Magos foi sendo forjada nas rimas, prosas, letras e melodias maravilhosas que embalaram sonhos de vida e vida de sonhos. A Redinha de hoje perdeu muito dos seus encantos, mas sobrevive na lembrança de seus velhos moradores e veranistas que enchem os olhos de lágrimas ao lembrar de um tempo que se foi na maciez dos alísios nordestinos. A velha Redinha é poesia bruta embalada por melodias entristecidas carregadas de magia. O poeta e pintor Newton Navarro, o mesmo que cedeu o nome para batizar a modernosa ponte que atravessa o Potengi, era um apaixonado pela velha praia. No veraneio do pé na areia e da simplicidade espantosa da Redinha, aprendi que a vida tinha outros horizontes e a humanidade outro sentido. Da convivência com personagens históricos da velha praia, pessoas do naipe de um Bianor e Terezinha Medeiros, Candinho, Seu Humberto e tantos outros, hoje trago na memoria momentos felizes de uma vida em que a alegria era a ordem geral e unida. Hoje, ao ler a matéria, Redinha e margem esquerda do Potengi, publicada no jornal Tribuna do Norte, bateu saudade e passearam em minha frente cenas de um passado que jamais esquecerei. Tudo isso eu não poderia deixar de dividir com você leitor.“…Praieira dos meus amores/Encanto do meu olhar…”

Rainhas dos oceanos

8 Agosto (245)

Texto publicado em 16/08/2015, na coluna Diário do Avoante, jornal Tribuna do Norte. A coluna é publicada aos domingos e em 2015 completou 8 anos. 

A velejadora brasileira Izabel Pimentel é uma mulher guerreira, corajosa e, como diz o baiano, arretada. Conheci Izabel em 2006, quando de sua primeira travessia oceânica do Atlântico, a bordo do Petit Bateau, um modelo Mini Transat – veleirinho muito rápido com 6,5 metros de comprimento e que é utilizado em regatas em solitário transoceânicas. Na ocasião ela tentava conseguir o passaporte para a regata Mini Transat e chegou a Natal com o Petit Bateau mais capenga do que lutador que sofre um nocaute, mas apesar da fragilidade aparente do barco e da própria comandante, ela olhou para mim, sorriu, como quem tem a certeza do dever cumprido, e em vez de jogar a tolha falou: – Você tem uma toalha?

Ela estava completamente molhada, com os cabelos duros de cristais de sal, precisava de um banho de água doce e a bordo do Petit tudo estava virado pelo avesso e úmido. – Tenho sim! Izabel estava ali na condição de primeira mulher brasileira a ter atravessado o Oceano Atlântico em um veleiro numa navegação em solitário. Ela vinha de Fortaleza/CE, onde havia concluído a travessia, e na velejada do Ceará para o Rio Grande do Norte o barco sofreu a dureza do que é considerado o pior pedaço de mar do litoral do Brasil para quem navega contra ele.

Os inspetores da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte, que estavam ali em total apoio a velejadora, olhavam com semblantes de incredulidade aquele barquinho machucado e sua franzina comandante cansada, porém, feliz. Escutei da boca do inspetor William uma frase que nunca esqueci: – Nelson, essa é mesmo uma mulher de coragem e só temos que aplaudir!

Pois é, Izabel é uma velejadora de fibra e nunca jogou a tolha para o mar. Depois dessa primeira travessia vieram outras e até uma volta ao mundo, com escalas, concluída em 2014. A volta ao mundo foi em um veleiro de 33 pés, em que sofreu uma capotada no temível Cabo Horn, o terror de todo marinheiro, deu meia volta e dias depois aproou novamente o Cabo para atravessar em grande estilo. Ela é assim e não desiste nunca.

O mar foi desbravado ao custo de muito desafio e até hoje é assim, mesmo com o homem conhecendo quase todas as fronteiras navegáveis. Mas, conhecer é uma coisa e navegar é outra. Muitos homens já embarcaram na aventura que desafiou o sonho de Izabel e o pioneiro foi Joshua Slocum, a quem a velejadora fez a promessa que faria a mesma coisa. Porém, mulheres foram poucas e até se conta nos dedos.

A pioneira na circum-navegação com escalas foi à polonesa Krystina Chojnowska, em 1976 e retornando para casa dois anos depois. Em seguida, e no mesmo ano que a polonesa retornou, partiu a neozelandesa Naomi James. Uma curiosidade é que Naomi não tinha nenhuma experiência com navegação e o desejo aflorou durante lua de mel. Dizem que ela chegou a trocar latitude por longitude nos cálculos de posição, quase perdeu o mastro do veleiro no Cabo Horn – sempre ele -, capotou, ameaçou abandonar a aventura e no afã de vencer, seguiu em frente e concluiu a viagem. Só não sei se o marido esperou para concluir a lua. Também em 1978 a inglesa Brigitte Oudry perambulou pelos oceanos durante 20 meses e também esculpiu seu nome nos arquivos de Netuno.

Essas mulheres navegaram os oceanos com escalas em alguns portos e entre elas se alinharam duas adolescentes australianas, que até comentei aqui nesse Diário sem rotina. Mas teve quem apostasse em não parar em lugar nenhum e seguir em frente sem eira, nem beira e sem assistência. A pioneira dessa categoria foi à australiana Kay Cotter, em 1988, a bordo de um veleiro de 37 pés – pouco mais de 11 metros – e levou 189 dias para rodar o mundo, numa viagem azeitada com aventuras e capotadas. Numa dessas capotadas, Kay foi jogada no mar e devolvida a bordo por força de uma onda caridosa, mas seguiu em frente desdenhando da cara feia do medo.

No livro “First Lady”, escrito pela australiana e que tem o mesmo nome do seu veleiro, ela conta que em uma travessia teve que emendar um dente com epóxi, depois de um pequeno acidente. O veleiro de Kay hoje faz parte de um museu na cidade de Sidney. Eh, por ai afora essas façanhas são reconhecidas e preservadas!

Mulheres como Izabel, Krystina, Naomi, Brigitte, Kay e tantas outras que se fazem ao mar em busca de novos horizontes e novos sonhos, é um exemplo para gerações futuras. Elas são a prova de que somos o que queremos ser e não podemos ter medo e nem criar fantasmas sobre o caminho a ser percorrido. O homem foi concebido para ser livre, pensar livre e caminhar sempre no rumo da liberdade. Ficar enfurnado em planos e sonhos que nunca se realizam é a mais cruel das prisões.

Tem pessoas que se fecham em castelos de areia e diante de histórias de vida como a das velejadoras se apressam em perguntar: – Sim, e dai? E eu respondo: – Dai nada né!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Iate Clube Barra do Cunhau em festa

1 Janeiro (31)1 Janeiro (59)

O Iate Clube Barra do Cunhau, timoneado pelo comandante Érico Amorim das Virgens, promove no próximo domingo, 06/09, mais uma edição da tradicional Regata Dr. Getúlio Sales e promete reviver os bons tempos da vela potiguar, com disputas entre velejadores da Paraíba e Rio Grande do Norte. A regata é uma homenagem ao saudoso veranista e grande apaixonado pelas belezas da Barra do Cunhau. Infelizmente nos últimos anos a prova havia sido deixada de lado, mas com o retorno do Comodoro Érico Amorim – que foi fundador e primeiro Comodoro do clube – a festa será reativada e torcemos que seja para o sempre. A Barra do Cunhau, que é distrito do município de Canguaretama, é uma das mais belas praias do Rio Grande do Norte e está localizada no litoral Sul, a 80 quilômetros de Natal e 110 de João Pessoa/PB. Vai ser festa muita!

A Fortaleza dos Reis Magos e a incompetência

FORTE DOS REIS MAGOS

Nas postagens – divididas nos cinco capítulos de O Grande Mar – sobre o Rio Paraguaçu e sua bela Baía do Iguape, falei sobre o abandono de monumentos históricos e todos eles sobre a guarda da Lei do IPHAN, que deveria protegê-los. Infelizmente a Lei parece ser apenas coisa – como diz o ditado – para inglês ver, porque o que mais se ver por ai são prédios jogados a própria sorte diante das agruras do tempo. Infelizmente o abandono não se restringe apenas as antigas construções, pois a nossa cultura popular, dotada de tanta beleza e também “acobertada” pelo IPHAN, está dilacerada e sendo disputada na tapa, aos berros e nos chiliques dos fantasiosos e emplumados gestores. Tomem ciência cambada de incompetentes deslumbrados! Hoje lendo uma matéria do jornalista Yuno Silva, nas páginas do jornal potiguar Tribuna do Norte, vejo com tristeza que uma das mais belas construções militares do Brasil colônia, marco da cidade do Natal, cartão postal mais retratado de uma cidade que foi berço do grande Luís da Câmara Cascudo, está jogado aos ratos. Ratos no sentido amplo e irrestrito. O que é isso gente! Botem suas barbas de molho e a ideologia no saco e vão procurar uma lavagem de roupa, porque de cultura e patrimônio público vocês não entendem nada.

Serra Negra do Norte, uma cidade brasileira

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Nem só de vento e mar vive um velejador de cruzeiro, porque na vida são infinitos os horizontes a serem navegados. No final do mês de maio deixamos o Avoante descansando nas águas da Bahia e pegamos a estrada para uma viagem entre roteiros que cortam dunas do litoral, serras, campos e caatingas do sertão brasileiro. Uma viagem que reflete a imagem de um pais multifacetado e que passa muito distante das certezas. O Brasil é lindo, o que é feio é a esperteza encravada e cultuada entre as paredes enlameadas dos seus palácios.

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Serra Negra do Norte, município localizado na região do Seridó do estado do Rio Grande do Norte, distante 330 quilômetros de Natal, com uma população de pouco mais de 7.500 habitantes e dotado de clima semi-árido. Cercada de serras, que lhe dá um charme especial, e de vegetação com predominância da caatinga. A cidade se formou nas margens do Rio Espinharas e sob a proteção de Nossa Senhora do Ó, padroeira da cidade. Chegar até lá partindo de Natal é muito fácil: Basta seguir pela BR 226 até a cidade de Currais Novos e de lá pegar a BR 427, que cruza a cidade de Caicó, numa viagem de pouco mais de quatro horas. Ficamos hospedados no Hotel Fazenda Chácara Nova Vida, que dispõe de uma excelente infraestrutura.

Localização de Serra Negra do Norte Essa imagem copiada do Wikipédia mostra a localização da cidade no mapa do Rio Grande do Norte e que fica parede e meia com a Paraíba.  E para a turma da exatidão, ai vai o waypoint: 6° 39′ 57″ S, 37° 23′ 49″ W

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Fomos até lá para assistir o casamento de um sobrinho e fiquei encantado com a pequena cidade seridoense. Limpa, bem organizada e valorizando seus antepassados, que tem como um dos principais personagens Dinarte de Medeiros Mariz, ex-governador do Rio Grande do Norte, ex-senador da república e que por mais da metade do século XX foi um dos mais influentes políticos do estado. Dinarte Mariz, faleceu em 1984, aos 84 anos. Os alpendres da fazenda Solidão, de sua propriedade, são testemunhas de boa parte da história do RN. Já disse aqui que sou um apaixonado pela história e ao caminhar por paisagens como o Seridó, me vejo diante do futuro.

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Gosto de fazer os caminhos do interior mesmo reconhecendo que a paisagem e a vida do campo estão descaracterizadas por um modernismo destoante. Caminho com os olhos atentos em busca da pureza que um dia era exposta e hoje resiste apenas na saudade. Gosto de sentir o cheiro do chão, do mato, dos animais, da chuva, do estrume do gado, do calor e do frio. Gosto do silêncio da paisagem e do voo livre dos pássaros. Gosto daquela visão que parece parada no tempo, mas que conta um enredo maravilhoso e tão cheio de personagens. Adoro a paisagem do interior! Passei pouco menos de vinte e quatro horas em Serra Negra, mas deu para ver um pouco de sua história e saber um pouco de suas lendas. Tudo começou com uma grande sesmaria doada ao capitão Francisco de Oliveira Toledo e que foi sendo repassada de mão em mão, entre parentes e aderentes, até chegar nas mãos de um certo Francisco Solteirão, que devido a sua grande religiosidade doou tudo para os domínios da igreja nos idos anos 1700, que já havia erguido a capela de Nossa Senhora do Ó. Dizem que o nome da cidade veio da vegetação rasteira e escura que domina o contorno montanhoso, porém, existe uma lenda que conta ter existido uma negra mestiça, de má índole e nômade, que havia sido trazida por Manoel Pereira Monteiro, um dos fundadores da cidade, e que certo dia foi morta por uma onça. Por isso chamavam o lugar de Serra da Negra. É sempre assim: Entre verdades e lendas existe um mundo obscuro e incrivelmente verdadeiro.    

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Me encantei sim com Serra Negra do Norte e sua geografia típica de um nordeste mais belo. Tive a felicidade de sentir a alegria do sertanejo diante de uma chuva inesperada, bem vinda e que refrescou a nossa noite. Estive a poucos metros de um magestoso, generalista e oportunista Carcará, ave imortalizada nos versos do saudoso compositor João do Vale e desejei um dia rever tudo isso.

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Temos um projeto de conhecer todo o estado do Rio Grande do Norte e consequentemente o Brasil como um todo, principalmente as pequenas cidades. Não queremos seguir pelas veredas oficiais, desejamos ter uma visão mais real e que passe distante dos reclames publicitários turísticos. Queremos o simples, o natural, o verdadeiro, caminhar com o pé no chão, sentir o sabor da culinária, o calor da feira livre, o povo em sua mais pura essência. Quem sabe um dia… ! Por enquanto vamos seguindo assim.