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A Copa e a Ponte

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Nada como colocar o rosto no vento e escutar os sussurros que chegam como uma grande algazarra festejando o infortúnio que vem no rastro das grandes decisões equivocadas dos homens. Somos mesmo uma raça orgulhosa e cheia de vaidade tola quando temos a nosso favor a caneta da decisão. Mais vaidosos ficamos quando somos convidados para aplaudir em primeira mão as benesses que algum poderoso de plantão arma para nos iludir.

Sempre falamos mal dos famosos dribles governamentais apelidados de pão e circo, mas basta um afago qualquer que escancaramos a cara em um largo sorriso de aprovação, enquanto brindamos a cada copo servido com o líquido dos melhores rótulos. Somos bons nisso e aposto uma boa dose de cachaça Rainha se alguém me provar que nunca enveredou nessa seara.

Com a chuva caindo lá fora e o Avoante ancorado há muitas milhas de distância, numa breve férias de outono, passo horas do meu ócio voluntário a futucar notícias pela internet e me espanto a cada segundo com a ligeireza do mundo digital. É tudo num piscar de olhos e quem quiser que se meta a besta de tentar por um cabresto na fera.

Se um esquimó pula a cerca e entra numa fria lá no fim do mundo, no segundo seguinte um piauiense, de um Piauí mais quente, fica sabendo da fofoca gelada. Eita mundinho que ficou pequeno!

Mas com tanta ligeireza e com tanta informação rodando o mundo e se cruzando nas vias imaginárias da informática, ainda me abestalho com algumas notícias estampadas nas capas dos jornais como se fosse a maior das novidades do mundo. Tem mais novidade não homem de Deus, o que falta é uma boa investigação jornalista para se chegar aos fatos sem paixão ou ideologia.

Em uma dessas minhas navegadas pelas páginas da web me deparei com a história de um belo transatlântico mexicano que pretendia ancorar em Natal para desembarcar torcedores desejosos em assistir a Copa do Mundo. Pretendia, pois a altura da Ponte Newton Navarro não permite. Alias, não permite e todo mundo que flutua nas águas governamentais e turísticas já estão cansados de saber que não permite. Só não entendi o porquê do espanto!

Certa vez fui taxado de opositor e reacionário por dizer que a Ponte estava sendo construída em local errado. Para não perder a alegria apenas sorri e deixei o assunto morrer em cima da mesa. Novamente fui rebatido quando falei que a Ponte não estava concluída e não entendia o porquê da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte liberar a navegação sob ela. Dessa vez foi um Deus nos acuda e meu interlocutor ainda me fez duas perguntas instigantes: “Não está pronta?” “E aqueles carros passando ali em cima é miragem?”.

Como gosto de cutucar o cão com vara curta emendei: Não está pronta e ainda limitou o acesso ao Porto. Pronto, fechou o tempo!

Bem, a Copa do Mundo já está dando seus dribles pelas arenas construídas Brasil afora, mesmo sem a bola estar rolando, e a cada dia vamos assistindo o festival de faltas e penalidades máximas se esparramando pelos gramados dos noticiários. Se são fatos verídicos ou simples imaginação da mente fértil de opositores eu não sei, mas que tem muito lance merecendo um tira teima isso tem.

O lance do navio mexicano em Natal não vai precisar de tira teima, pois acho que não aparecerá nenhuma viva alma, nem mesmo os deuses da FIFA, para autorizar o teste. Os mexicanos vão rumar direto para a capital pernambucana e depois de dançar frevo e maracatu, os chapelões pegaram um buzão pelas estradas da vida.

Mas o problema maior da Ponte de Todos não é sua altura, já que no Brasil nunca se ligou mesmo para a altura das pontes e isso vem dos tempos do Império. Quem tiver seus vasos flutuantes que se lixe. O problema são as defensas de proteção dos pilares, que até hoje ninguém se interessou em resolver. Acho que nem o capeta queria estar na pele de um Capitão dos Portos se por um descuido qualquer um navio triscar na estrutura das pilastras.

Numa hora dessas vai ser tanta frase começando com “eu não sabia de nada” e tantos “vamos averiguar” que no final vai sobrar mesmo para quem tiver a infelicidade de estar passando no momento de um acidente.

No mês de Março uma balsa carregada de óleo de dendê se chocou com um pilar de uma ponte no estado do Pará e tudo veio abaixo. E olhem que por lá a FIFA não apita nada.

Eh, até a bola da Copa receber o primeiro ponta pé, muita água ainda vai passar por baixo da ponte.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Praia de Enxu Queimado

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Essa é a bela praia de Enxu Queimado, que abriga uma pequena comunidade pesqueira no litoral norte do Rio Grande do Norte, e que é responsável por boa parte do abastecimento de lagosta e peixes nos muitos frigoríficos do mundo. Enxu, como é carinhosamente chamada, tem lugar de destaque no meu coração e no de Lucia. Lá temos grandes e fieis amigos e é lá que depositamos todas as nossas esperanças em um mundo melhor, talvez por isso, nos mais de vinte anos que frequentamos a praia, tenha sido escolhido como destino por nós para várias viradas de anos, inclusive esse último. Por isso deixei o Avoante ancorado lá na Bahia do Senhor do Bonfim e peguei a estrada.

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Enxu Queimado é linda por natureza e tomara que o destino lhe conserve assim por longos anos, apesar do progresso já ter batido com força em sua porta na forma de gigantescos geradores eólicos, que deixam a paisagem com jeitão de filme de ficção. Para mim, a energia eólica ainda é uma grande e medonha ficção que me assusta os sentidos. Quisera eu estar enganado com esse meu ceticismo barato.

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Deixando de lado as monstruosas torres e seus gigantescos cata-ventos, Enxu Queimado continua quase a mesma coisa de quando a conheci. Digo quase porque, por lá o mar também tem tomado atitudes mais sinceras do que as dos homens. Netuno, em sua bravura, está engolindo um pouquinho de terra a cada mudança de suas marés e parece que por enquanto ninguém consegue frear seu ímpeto. Porém, a natureza é soberana e o homem jamais vai conseguir compreendê-la e muito menos domá-la. Resta ao homem sentar e observar, como bem faz o velho pescador sobre a jangada que descansa sobre a areia. Na simplicidade do olhar de um pescador tudo o que vem da natureza é a mais pura verdade.

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Pois é, na simplicidade da vidinha mansa de Enxu Queimado, convivendo mais uma vez com a alegria de amigos que nos acolhe com todo o carinho do mundo, assisti ao último pôr do sol de 2013 e desejei que 2014 traga muita paz para esse mundo velho tão incompreendido. A noite foi de festa e confraternização na beira do mar, mas isso eu conto em outra postagem.

Como é rico e saboroso o nosso nordeste

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Vento soprando na medida certa, tempo com céu claro e rumo traçado no sentido Leste/Oeste. Mas não se avexe, pensando que vou contar mais uma história das nossas velejadas por ai. Poderia até continuar narrando à navegada que fizemos com o veleiro Naumi, e que encerrei o texto passado encalhado lá em Vitória/ES. Mas não, hoje vamos pegar a estrada e seguir por uma região em que o Sol faz questão de mostrar quem manda no pedaço e que é porta de entrada para o Sertão do Rio Grande do Norte. Uma zona temperada pela caatinga e dona de uma riqueza natural tão a mostra, que o homem não consegue enxergar.

Foi por essa região que o cangaceiro Lampião andou chafurdando e dizem que saiu fugido com o rabo entre as pernas debaixo de uma chuva de balas. Mas por falar em Lampião, hoje em dia, andam contando umas coisas esquisitas e uns maus costumes do cangaceiro que é difícil de acreditar. Queria mesmo ver o cabra corajoso contando esses boatos quando o homem ainda era vivo!

Mas e o Avoante? Bem, o nosso veleirinho ficou descansando lá nas águas da Bahia e nós viemos a Natal/RN para umas férias. Isso mesmo: Férias. Porém, lá na Bahia, ouvi falar de uma fruta apresentada na televisão e que na cidade de Angicos/RN uma idealista estava utilizando como matéria prima para deliciosos sorvetes. A fruta era o Pelo da Palma, conhecida no mundo como Figo da Índia ou Fruta de Palma. Aquilo me deu água na boca e Lucia falou assim: – Quando formos a Natal vamos lá provar essa delícia. E fomos mesmo! Continue lendo

Marina de Natal

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Sobre a Marina de Natal, parece que a coisa começa a tomar rumo. Pelo menos foi essa notícia que li no site Portal no Ar e que trago através do link: Prefeito recebe grupo francês interessado em construir marina em Natal.

O Farol e a história

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Não se atenha na falta de enquadramento da foto com o horizonte deixando o mar escorrer para a esquerda, isso são percalços que acontecem na vida de qualquer imitador de dublê de fotografo amador, pois o que eu quero mostrar mesmo é essa estrutura nas cores branca e vermelha. Esse é o Farol de Cabo de Roque, localizado no Cabo de São Roque, município de Barra de Maranguape/RN. Lógico que todo mundo deve saber o que eu vou dizer, mas em todo caso vou dizer assim mesmo: O Cabo de São Roque é o ponto do continente brasileiro mais próximo do continente africano, reparem que falei continente brasileiro. Foi desse ponto do litoral que o explorador português André Gonçalves e o navegador Américo Vespúcio, deram início a primeira exploração detalhada da costa do Brasil, mas eles não navegaram direto de Portugal para esse ponto, se fosse hoje era waypoint. A expedição da declarada exploração, naquele tempo não existia Direitos Humanos, era composta de três Naus e deram com os costados na Latitude 5º3’41”, naquele tempo os homens não conheciam o que danado era a tal da Longitude que vivia martelando na cabeça dura deles. Pois é, as três Naus trazendo nossos exploradores ancoraram em plena Praia do Marco, bem longe de Porto Seguro/BA, no dia 7 de Agosto de 1501. E para quem não sabe, essa data foi oficializada pelos explorados para se comemorar o aniversário do estado do Rio Grande do Norte. Mas e o Cabo de São Roque? Bem, o Cabo fica 45 milhas ao Sul de onde os cabras da peste ancoraram e marcaram território com um Marco de Posse, uma pedra calcária, medindo 1,20 metros de altura e com a Cruz da Ordem de Cristo e  as armas do Rei de Portugal gravadas em alto relevo. Posse é posse! Mas, vamos voltar ao Cabo de São Roque: Depois da posse, os portugueses saíram num contravento dos diabos em pleno mês de Agosto, e ainda tem amigo afirmando que aqueles barcos não orçavam, somente na vela e chegaram no Cabo, local em que a história segue o rumo, navegando entre contos, conversas desencontradas, mentiras e verdades verdadeiras. Muitos anos depois a Marinha do Brasil construiu o Farol de São Roque, uma estrutura de vigas de concreto armado e alvenaria, com 50 metros de altura, pintado com faixas horizontais encarnadas e brancas, com alcance visual luminoso de 21 milhas e geográfico de 17 milhas. Esse é o Farol que você avista na foto acima e que se um dia você passar por lá, não esqueça que o Brasil, segundo o que está escrito nos anais da história, começou a ser mapeado por ali. E ainda posso dizer que o Cabo de São Roque é um dos mais belos recantos do litoral potiguar.  

Seja bem vindo a bordo do Museu das Naus

A inauguração do Museu das Naus que aconteceu nessa Sexta-Feira, 24/08, cravou um novo marco na história do Iate Clube do Natal, que poderia muito bem, e com muita grandeza, ser  classificado como patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Norte, se já não bastasse o seu valor de instituição responsável pelo desenvolvimento náutico e esportivo do Estado. O Museu das Naus, uma criação do arquiteto João Maurício, tem um acervo único e da mais alta qualidade, detalhando com perfeição a história das grandes navegações e seus barcos maravilhosos. A inauguração contou com a presença da Governadora do Estado Rosalba Ciarline, do Vice-Almirante Bernardo Gambôa e de autoridades representativas do Estado e Município. O Evento foi abrilhando por uma apresentação especial do Projeto Por do Sol no Potengi. O Museu abre a partir das Terças-Feira, das 8:30 às 12 horas e das 14:00 às 17:30 horas. 

Um rio vivo, soberano e esquecido

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A princesa estava lá, soberana sobre as águas de um belo rio que os homens teimam em destruir. Rio marcado por conquistas, batalhas, poesias, amores, contos, fatos e que um dia já foi trampolim para vôos irracionais e suas cargas de destruição. Rio que sente a cidade se debruçar sobre o seu leito caudaloso e em sussurros inaudíveis conversam incrédulos. Rio de história e que trás no próprio nome a origem de um povo que lhe vira as costas.

Rio que um dia apresentou uma Nossa Senhora que prometia trazer paz, saúde e proteção. A promessa bem que foi tentada a ser cumprida, mas os homens de pouco valor, não deram paz e nem proteção a essa Senhora de boa apresentação.

Mas a princesa estava lá, tranquila e majestosa sobre um mar de cores e luzes de um belo pôr do sol, que todos os dias encanta e desencanta a alma de homens livres de espírito e alma. Continue lendo

Um passeio de belezas e boas surpresas

O passeio pelas águas do Rio Potengi que aconteceu nesse Domingo,15/07, e organizado pelo multinavegador Fernando Luiz, foi um evento recheado de belezas e boas surpresas. Por enquanto vou deixar vocês com essas imagens que contam um pouco do que foi o passeio e em breve contarei em texto tudo o que senti. De uma coisa tenho certeza: O Rio Grande do Norte não sabe o potencial turístico que possui.

Um recanto bem potiguar

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O Domingo, 18/03, estava perfeito para uma boa velejada em Natal/RN. Vento Leste/Sueste; Sol na medida certa e o Mar tão macio que chegava a dar inveja a qualquer almirante. Até que tentamos convencer alguns amigos a virem navegar com a gente no Avoante, mas como ninguém aceitou a proposta, nossos planos foram mudando e resolvemos fazer um programa que há muitos anos não fazíamos. Pegamos o carro e saímos sem muita obrigação pelas praias do litoral sul do Estado, até ter vontade de parar e tomar um banho de mar. Como estávamos meio enferrujados desses passeios, esquecemos de levar o kit farofada: churrasqueira, isopor e cadeiras de praia. Paramos justamente num belo recanto do litoral entre as praias de Tabatinga e Camurupim. Um lugar onde a natureza fez questão de caprichar nos traços e aproveitamos para caminhar e fazer comparações com o passado recente. O homem vai ser sempre o homem! Mas essa parte eu acho melhor pular, e ficar com a beleza desse pedacinho do litoral potiguar que vale ser conhecido. Quem for por lá não esqueça de visitar a Pedra Oca, que aparece na maré seca, por baixo dos arrecifes, e que faz a alegria dos banhistas e já embelezou paisagem de novela global. Tabatinga é famosa pelo mirante em cima das falésias onde se avistam golfinhos, mas tem também as deliciosas tapiocas feitas em forno de pedra e restaurantes que servem  galinha caipira com arroz de graxa para tirar qualquer pessoa do regime. Se quiser conferir tudo o que eu escrevi, basta programar um passeio e tirar a prova dos nove. 

Coisas velhas ou falta de vergonha?

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Na última Quarta-Feira, 09/11, assistimos uma palestra do engenheiro, pesquisador e velejador Manoel Fernandes de Negreiros Neto, durante o Encontro Semanal de Velejadores que acontece no Iate Clube do Natal, que balança as estruturas sentimentais de qualquer povo nesse mundo, mas que no nosso caso, a coisa é vista apenas como o capricho de alguns românticos que tem no passado a fonte de suas inspirações. Somos um país de esquecidos e displicentemente desapegados a coisas e fatos que fizeram histórias. Se essa coisa for uma bela e esplêndida obra de engenharia e que desafia as mentes atuais mais delirantes e endiabradas, a ordem é derrubar e quem quiser que faça outra. Ou melhor, quem quiser que bote mais lenha, em forma de verdinha, na fornalha de contratos programados para dizer sim e amém. Aspectos Históricos e Técnicos da Construção da Ponte Metálica Sobre o Rio Potengi”, esse foi o tema da palestra e que é uma verdadeira aula de pesquisa e história da melhor qualidade. A Ponte Velha de Igapó, como é popularmente conhecida no Rio Grande do Norte, projetada pelo engenheiro francês Georges Camille Imbault e inaugurada em 1916, tem a beleza até hoje incrustada atrás da ferrugem que corrói suas estruturas abandonadas e jogadas a quem quiser pegar. Sem o menor interesse governamental em reavivá-la ela está praticamente condenada a mergulhar no fundo do rio que um dia ela atravessou faceira e esbelta. Acho até que nenhum governante que nos últimos 40 anos passou pelos palácios governamentais, sequer olhou para aquela bela estrutura metálica que agonizava e pedia perdão por um dia ter servido tão bem ao Estado. Ficamos sabendo, pelas palavras emocionadas do palestrante, que por ai a fora outras pontes iguais a nossa, e da mesma época, ainda estão ativas, embelezando paisagens e mostrando ao mundo que a boa engenharia é para sempre. Não pude deixar de fazer comparações com os belos estádios de futebol que foram jogados a escanteio para dar vez ao gol de malandros oficiais travestidos de anjos de uma fantasiosa mobilidade social, numa copa do mundo que vai transformar o Brasil num país sem mando de campo. Mas ai é outra história! Parabéns Manoel Negreiros pela sua brilhante palestra e por nos fazer ver que vivemos num país sem história. Vou encerar esse texto com as palavras iniciais do palestrante: “Por ai a fora se conserva coisas velhas”.