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A ponte

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Nossos governantes são assim: Quando a administração desanda no lamaçal da incompetência, ou na falta de tino até para gerenciar um cabaré,  eles tiram da cartola alguma ideia espalhafatosa para dar o que falar. Falem de mim, mesmo que seja de mal. Pois bem, vejo nas folhas  de notícias que o governador do Rio Grande do Norte, mais atrapalhado do que marido que chega em casa de madrugada, anunciou mais uma ponte sobre o Rio Potengi, segundo ele, a terceira. Ora pois, o governo do Zé bonitinho num tem bufunfa nem para comprar uma tora de doce, prumode comer com uma taiada de queijo de manteiga, imagine dinheiro para estirar ponte! Alias, a danada da ponte e que nem arroz de festa na boca de político, cada um quer fazer uma para cravar o nome nos tratados do futuro. E a cantilena é uma só, do Oiapoque ao Chuí. Mas digo que a que tem mais fuxico é a tão anunciada ponte ligando as baianas Salvador e Itaparica, que todo ano eleitoral ressurge quente que nem pimenta. Dizem que já tem até baiana de acarajé disputando ponto para botar tabuleiro. O Senhor do Bonfim tá só de olho! Quanto a ponte dos potiguares, li na coluna do jornalista Woden Madruga, na Tribuna do Norte, que o bonitinho errou na conta – pense num caboco pra num acertar uma! Não será a terceira, será a  sétima – conta de mentiroso –, pois o “rio de camarão” nasce no sertão do município de Cerro Corá e sai serpenteando o “mapa do elefante”, por 176 quilômetros, até se esparramar no mar e no caminho passa sob seis pontes. E tem mais, se contar com a velha e abandonada ponte de ferro, de Igapó, uma obra histórica, a soma será oito.  Tome tento, governador, e vá tratar de pagar seu povo que é o melhor que tu faz. O retrato que ilustra essa tirada é da Ponte Newton Navarro, a sexta

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E a seca medonha arrumou o bisaco

mapservÉ chuva seu menino, é chuva! O tempo fechou na grande maioria do território brasileiro e depois das lapadas de chuva sobre o Rio de Janeiro, após o Carnaval, São Pedro abriu as torneiras sobre o Rio Grande do Norte, que andava bem sofrido. O que é de açude e barreiro já deve está botando água pelo ladrão, e o que tem de trator cortando terra para plantar milho e feijão é coisa arretada de ver. Se for nessa pisadinha, o São João vai ser animado que só vendo! E que venha mais chuvas, coriscos e trovões, e parece que vem, pois as imagens dos satélites estão animadoras.

O baleal potiguar

jubarteÉ sabido que as águas amenas e mornas do litoral brasileiro proporcionam um excelente território para namoros e acasalamentos de baleias. É sabido também que o arquipélago sagrado de Abrolhos, na tórrida e azeitada Bahia, é um excelente mirante de observação dos cetáceos. É sabido também que o povo do Senhor do Bonfim aproveita como pode, e como deve ser, a presença anual dos gigantes em seus reclames publicitários e com isso enchem hotéis e lotam embarcações com os interessados em tirar um retrato de um rabo de baleia. O que pouco se sabe, pouco se diz e pouco se fala, é que em todo litoral nordestino o gigante se faz presente, e com força. Na praia de Enxu Queimado, litoral norte do Rio Grande do Norte, os pescadores estão abismados com o grande número de baleias que estão fazendo fita por lá  este ano. Dizem, os pescadores, que nunca se viu tantas, tão grandes e até entoam mirabolantes teorias para o aparecimento do enorme baleal. Como diz meu amigo Pedrinho, pescador dos mais afamados de Enxu: Homem, são tantas que abusam com aqueles gritos estridentes. É quase um agouro! Pois bem, ainda não vi uma linha sequer sobre o assunto na mídia potiguar e muito menos nos ditames dos publicitários papa-jerimuns.

Era uma vez nas dunas

Passeio-de-Dromedários-no-RN-Foto-Dromedunas-2Olhe, não tenho nada com isso e nem sei quem tem razão na história, mas vou dar meu pitaco para não perder o passeio. Dromedários, como os da imagem, há muito fazem parte da paisagem das dunas de Genipabu, praia famosa do Rio Grande do Norte e que até já fez pose em algumas novelas brasileiras, porém, segundo matéria no site potiguar Portal no Ar, tudo indica que os dias dos bichinhos das arábias, em solo papa jerimum, estão contados, tudo por causa de um arranca rabo, temperado por delações de fuxiqueiros, entre a empresa turística que aluga os dromedários e os fiscais do Idema, Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente. Por enquanto, ou até que acabe a peleja, o passeio desengonçado dos camelos estão suspensos em Genipabu e a turistada terá que seguir por outros roteiros. Dizem que o problema é o descuido com o bem estar dos animais e “otras cositas mas” , porém, cada lado conta um conto. Quem perde com isso, e já não bastam os altos níveis de violência e a vergonhosa situação da saúde pública, é o turismo, talvez o único setor que tem mostrado bons resultados para o estado. Pronto, agora os guias turísticos mirins podem acrescentar mais um item no quesito “já teve”. O antropólogo  Luís da Câmara Cascudo dizia que Natal não consagra, nem desconsagra ninguém. Nem dromedário escapou da sentença.

Cartas de Enxu 01

Agosto (11)

Antes de começar a escrevinhar a primeira das Cartas vou dizer que não será preciso você se benzer três vezes e nem se arvorar de um crucifixo para ler, pois o enxu aqui não se refere ao Orixá Exú e sim, a praia de Enxu Queimado, um pedacinho delicioso do litoral norte do Rio Grande do Norte, onde a vida ainda insiste em caminhar sobre um cotidiano bucólico, apesar da presença ameaçadora de gigantescos totens eólicos, que mais parecem mamulengos transformadores de belíssimas paisagens em cenários devastados de filmes futuristas, em que personagens disputam o reinado da brutalidade.

Após onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante, um veleirinho arretado de bom, e escrevendo o cotidiano da vida sobre o mar nos textos Vida Bordo, que ultrapassou o número quinhentos – cinquenta deles publicados no livro Diário do Avoante, lançado em 2013, – decidimos passar uma temporada em terra firme e escolhemos a praia potiguar para seguir no novo rumo. Essa mudança se deu em junho de 2016, porém, não havia criado coragem para escrever sobre ela, porque não tem sido fácil digerir essa mudança e nesse primeiro momento, tenho andando meio assustado com o que tenho presenciado nas ruas das cidades. Na verdade, os primeiros dois meses foram de tratamento de choque, pois viramos prisioneiros forçados numa Natal sem dono, sem Lei, sem alma, sem essência e sem esperança.

– Oh Natal, cidade cascudiana de Poti, povoado que acolheu com fervor o codinome dos Reis Magos – comunicadores das boas novas. Pedaço de terra defendido com arcos, flechas e tacapes pela nação Tupi. Noiva do Sol. Cidade trampolim da vitória de uma guerra absurda e desumana. Vilarejo entre o rio e o mar e abençoado por Nossa Senhora da Apresentação. O que fizeram como você Natal? Quem a descaminhou pelas brisas errantes? Logo você Natal, que tanto se orgulhou dos alísios que a acariciam. Hoje você é uma cidade retraída, cabisbaixa, esmaecida, amedrontada, desiludida e desapartada do seu maravilhoso sorriso largo. Seus abraços já não são os mesmos, pois existe um que de desconfiança entre você e o abraçado. Suas ruas já não nos acolhem com alegria. Em qual das suas esquinas ficou para trás a musa e poética linda baby? Oh Natal, você não merecia tanta desfeita e tanto abandono!

Pois bem, Cartas de Enxu não é para desabonar cidades e muito menos relatar as tristezas da vida, mas sim, deixar algo escrito, mesmo que em linhas desalinhavadas, da riqueza de costumes e valores de um pequeno povoado, e suas vizinhanças, encravado entre o mar e o sertão. Um lugar de gente alegre, extremamente acolhedora e que, mesmo diante das adversidades, consegue olhar para o mundo com um olhar de inocência. Uma prainha que há mais de 25 anos flechou meu coração e passei a amar. É nessa prainha praieira que me instalei depois de desembarcar de uma vida de sonhos e será da varandinha da minha choupaninha, cercada de coqueiros, que olharei para o mundo e talvez passe batido em temas que desassossega o país e o resto do planeta, pois as coisas por aqui ainda caminham lenta e com os pés na areia. O cotidiano por aqui ainda segue os princípios do mar, apesar dos ventos terem trazidos boas novas nas pás de um progresso meio atrapalhado. É na poeira avermelhada das ruas e becos de Enxu, que buscarei a vitamina para azeitar meus escritos e quem sabe, deixar material para quem um dia quiser pesquisar o passado olhado da varandinha de uma casinha de praia.

A Terra é um vulcão em permanente estado de erupção e nada melhor do que a gostosura de uma rede armada, diante do frescor de uma sombra macia, para servir de camarote de observação. É com o passar dos dias bucólicos nessa prainha ainda nativa, que conserva as origens de sua colônia de pescadores, que olharei as lavas fumegantes do vulcão. Será através de uma lente desnuda dos malabarismos das modernosas ferramentas de edição que me transportarei pelos caminhos dos escrevinhadores. Posso até cometer os costumeiros erros crassos, que sempre cometi nas crônicas Vida a Bordo, mas seguirei.

Aliás, sobre a palavra crasso, que passou a estar presente em minha mente, não tenho muito o que falar, a não ser relembrar: – Certo dia um leitor, ao encontrar-se comigo em um evento, puxou-me pelo braço e disse como se segredasse um pecado: – Gosto de sua escrita e é a primeira coisa que leio ao abrir a Tribuna do Norte, aos domingos. Gosto muito, mas você é muito crasso! Sorri, agradeci, apertei sua mão e sai matutando. – O que danado é isso? Socorri-me aos universitários que estavam na mesa e ao chegar em casa tratei de conferir no pai dos burros. E lá estava: “Crasso: Grosso, denso, espesso, rude. Falha, erro grave”.

Pois é, escrever não é fácil.

Nelson Mattos Filho

O litoral potiguar

20160823_165541280px-RioGrandedoNorte_Municip_CaicaradoNorte.svgEssa praia apetitosa, coalhada de barcos de pesca e com um bonito farol em sua ponta mais vistosa é Caiçara do Norte, localizada no litoral norte do Rio Grande do Norte e distante 149 quilômetros de Natal. Caiçara, como é carinhosamente chamada pelo povo da região, já foi tema de outras postagem aqui, entre elas a que falamos sobre o Farol de Santo Alberto, que rende até hoje bons debates. Aliás, o Farol é tema de calorosas discursões entre os moradores de Caiçara e São Bento do Norte, municípios tão ligados que custa ao visitante identificar onde começa um e termina o outro. Brevemente falaremos mais sobre essa praia que se enche de orgulho em possuir a maior flotilha de barcos de pesca do Brasil. Eita litoral para ter história!

Lagoa da Cotia

Janeiro (21)Janeiro (22)

Esse Brasil é mesmo cheio de segredos, claro que nem todos são bons e tem alguns que extrapolam a razão e faz aflorar a nossa desimpaciência como o descaratismos de certas figurinhas carimbadas, mas no almanaque das paisagens deslumbrantes, duvideodó que algum lugar nesse planeta incompreendido, ameaçado e castigado, exista um conjunto tão interminável de belezas naturais. Claro também que em algumas paisagens a beleza se restringem apenas a uma velha e desbotada fotografia jogada num cantinho empoeirado, porém, basta uns passinhos a mais para darmos de cara com recantinhos meio que intocados irradiando boniteza nos ares. Foi dando uns passinhos a mais, na companhia dos amigos Venício e Sandra Gama, que cheguei a beira da Lagoa da Cotia e sem pestanejar mergulhei em suas águas convidativas, transparentes e mornas. A Lagoa da Cotia fica no município praieiro de Rio do Fogo/RN – que há muito perdeu seus encantos para o progresso sem freios e sem rédeas – e é um lugar que vale ser conhecido enquanto existe, nem que seja para tirar um retrato.