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Cartas de Enxu 31

11 Novembro (291)

Enxu Queimado/RN, 04 de setembro de 2018

Caro amigo, Daniel, como é fácil gostar de você! Guardo com carinho aquele dia, na Federação Alagoana de Vela e Motor, em que fomos apresentados e, sem nenhum sequer, viramos fraternos e bons amigos. Não preciso falar da confiança que tenho em suas palavras e ações, pois se não fosse assim, não teria aproado o Avoante na esteira do Cahethel, para adentrar a fascinante e periculosa Barra do Rio Real, que separa Sergipe e Bahia. Aquele dia foi demais, não foi? O Cahethel sem motor, apenas na vela, e o Avoante coladinho em sua popa, encolhendo o casco para não ser colhido pelos ameaçadores bancos de areia.

Pois é meu amigo, desde aqueles dias, muitas luas e marés já se passaram, algumas tempestades cruzaram em nosso rumo e o Senhor do tempo, da razão e dos segredos fez rodar a roleta da vida várias vezes e aqui estamos nós, vivendo saudades e apostando que nas próximas rodadas, a roleta nos reserve boas novas.

Mas Daniel, não pense que essa carta é para falar de nuvens negras e tempestades, pois se assim fosse não o faria, porque são duas coisas que não combinam com você. Para mim você é um farol de alegria, conhecimento, apaziguamento, amizade, boas palavras, sorrisos e bom humor, se bem que Ângela afirma que seu humor e causticante. Será mesmo? Vou perguntar a Lucia! Ou melhor, vou perguntar não, pois já sei a resposta.

Rapaz, por falar em farol, você viu o farol que Lucia pintou e eu chantei no terreiro da nossa cabaninha de praia? O bicho ficou bonito que só vendo e por solicitação de Gil e Alípio, do veleiro Bar a Vento, fiz até a marcação do waypoint na Latitude S 05º 04.296’ / Longitude W 035º 50.956. Acho bom você anotar, para quando pegar o beco naquela Land Rover bala, em direção as terras frias do Alasca, dar uma passadinha por aqui. Garanto que Lucia prepara uma deliciosa moqueca de fruta-pão e umas saltenhas maravilhosas que vocês adoram.

E por falar em virem aqui, coisas que vocês já fizeram em 2016, vou contar um pouco das últimas desse povoado praieiro. Rapaz, os alísios do Nordeste este ano estão de vento em popa, com rajadas que chegam fácil aos 25 nós. É tanto assopro que está difícil os coqueiros manterem a carga lá no alto e o chão do meu terreiro amanhece coalhado. Ou seria encocado? Baiano aqui ia lavar a burra, pois nem precisaria esperar muito pelo coco de temperar a moqueca.

Não sei se você sabe, mas a água encanada deu as caras por aqui, mas do mesmo jeito que chegou, se foi e nem me pergunte o motivo, pois você já sabe de cor e salteado. Coisas das promessas dos homens. Promessas sem vida, sem alma e sem um futuro lógico e certo. Promessas jogadas sobre as tábuas frias de um palanque meia boca e atabalhoado de sorrisos falsos e largos. Mas tem nada não, pois dizem que a vida é assim e os homens do palanque sabem direitinho nos encantar com palavreado bonito. É tanto verbo largado ao vento, que quando damos por conta, estamos aplaudindo e gritando vivas. Eita povo cheio de lábia!

Você lembra do imenso parque eólico que estavam montando por aqui? Pois é, a parafernália está pronta e produzindo energia a todo vapor, mas a população anda num resmungo que dá o que pensar. Como em todo empreendimento de tal porte, enquanto a obra anda, os empregos caminham junto, porém, quando a obra termina, os empregos se esvaem e os que restam, restam apenas para tocar a coisa funcionando. E a população ganha o que? Ganha com os impostos gerados para o município que transforma em benefícios para a população. Com um pouquinho de boa vontade a regra é fácil de ser compreendida, porém, compreender é fácil, o difícil é fazer valer.

Daniel, nos últimos dias tenho andado pensativo com as coisas amalucadas que tem ditado as regras neste “planetinha errante”. Não sei se é coisa minha, que há muito tento levar a vida em um modo off, como disse certa vez meu amigo Afonso, ou realmente as coisas se bandearam de vez para tomar rumos ousados e extremos. Sob a sombra da varanda dessa cabaninha de praia, escuto ecoar o sussurro de decisões atabalhoadas sem o mínimo de praticidade e conforto para a humanidade. A regra das decisões atuais é confundir, chocar, tornar vazio, desmerecer. Estamos sob o signo da ditadura do “não devo nada a ninguém e muito menos a mim mesmo”. Nada é o que é! Nada é o que pode ser! Nada é nada e é tudo como cada um queira que tenha que ser e ponto final! Eh, meu amigo, acho que envelheci! Mas tem nada não, vou seguindo assim, driblando os solavancos e tentando me adaptar à nova ordem mundial.

Meu amigo, Daniel Cheloni, vou encerrando por aqui essa prosa meio sem rumo, mas antes de colocar o ponto: Como homem do mar, você bem sabe da crueza de se enfrentar as tempestades, porém, quando elas passam, deixam de presente os mais lindos e fascinantes mares a serem navegados e uma bela história para ser contada.

Anotou o waypoint do Farol? Pois bem, lhe espero aqui!

Nelson Mattos Filho

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As pescadoras de Enxu Queimado

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– Hoje teve pescaria? – Teve sim, senhor, e da melhor qualidade! As pescadoras da praia de Enxu Queimado, acordaram cedo e foram lançar rede ao mar. Foi uma manhã de alegria que encheu de beleza e formosura as areias de uma das mais belas praias do Rio Grande do Norte. Foram três lances de arrastão e uma bela produção, com direito até a camarão bem nutrido! Viva e parabéns as pescadoras de Enxu!

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Cartas de Enxu 24

4 Abril (164)

Enxu Queimado/RN, 09 de maio de 2018

Lourdinha, fico aqui na maciota dos balanços da rede e de olhos vidrados no sacolejo delirante das palhas dos coqueirais, que a vida passa e nem vejo. Mas fique com inveja não, pois esse aparente desestresse é coisa de minha cabeça de vento, pois o que mais tem sob o teto dessa minha cabaninha de praia é trabalho, porque se assim não fosse, como danado você iria comer aquelas saltenhas deliciosas, os nhoques, os quiches, as pizzas, tudo feito com o mais refinado carinho do mundo, pelas mãos abençoadas de Lucia. Ceminha diz assim: – Tudo que Lucia faz eu acho bom! Pois se é bom mesmo, eu vou dizer o que, num é não?

Amiga, quando será que você vai dar o ar da graça por aqui? Se adiante e venha logo, para ver que nesse Rio Grande do Norte ainda tem uns lugarzinhos gostosos que nem os descritos nos livros que falam do paraíso. Claro que não tem aquela maça apetitosa e nem o casalzinho que deu início ao falatório do pecado, mas tem peixe que só vendo e prosa tão boa, que faz a gente esquecer as maldades do mundo. Para animar sua vontade, e sabendo que você aprecia história dos povos, vou contar um tiquinho sobre o lugar que estou vivendo.

O município de Pedra Grande, do qual faz parte Enxu Queimado, tem a minha idade, aliás, dizem que 1962 foi o ano que nasceu as lendas. – Se foi não sei, mas já que dizem, vou por aí cheio de pretensões. Mas amiga, se inteirar sobre a história dos municípios brasileiros, e nem sei se mundo afora é igual, é uma aventura desgastante e que nos deixa com aquela velha cara de sei lá. É tanta desinformação, tanto disse me disse, tanto chafurdo, tanto foi não foi, que no fim das contas é como se quer que seja e ponto final. Bem, o conto é que o povoamento daqui teve início em 1919, pela insistência do agricultor João Victor, que cercou umas terrinhas para montar um sítio em homenagem a São João. Vendo a fazendinha criar marra e querendo marcar terreno, vieram da localidade de Canto de Baixo, que pertencia ao município de Touros, os trabalhadores rurais Manoel Felix de Morais, Januário Pedro da Silva, Manoel Gabi, Januário Lucas e Manuel Pulu, daí se foi o tempo, o povoamento cresceu e de um pulo virou distrito de São Bento do Norte, até que em 1962, o governador Aluízio Alves, meu padrinho, fez correr os papeis e numa canetada só criou o município de Pedra Grande.

Aí você haverá de perguntar: – E de onde saiu o nome? Respondo, mas antes preciso dizer que pesquei a maioria das informações, aqui contidas, no blog Pedra Grande, assinado por Jota Maria, que não conheço e nem sabia que existisse o blog. Tentei me inteirar no site da prefeitura local, mas não existe nada sobre o assunto. Pois bem, Jota diz que antigamente existia uma grande pedra nos arredores do povoado e os moradores começaram a chamá-la de Pedra Grande e assim ficou, pois a voz do povo é a voz de Deus e não se fala mais nisso. O moído é bom, né não? E tem mais e o mais nos arremete de encontro a umas Naus e Caravelas que andaram errantes pelos mares de Netuno, mas aí é conto longo e que deixarei para outra carta, para não apoquentar seu juízo.

Lourdinha, o município cinquentão, bem novinho por sinal, tem, segundo o censo de 2010, polução de 3.521 habitantes e densidade demográfica de quase 16 habitantes por quilômetros quadrados, mas o que me chama atenção é que no gráfico do Índice de Desenvolvimento Humano, ele está no nível 0,559, baixíssimo para um município que ostenta, se você não sabia, um enorme parque de energia dos ventos e este está dentro da área que engloba, talvez, o maior parque eólico brasileiro. Viva o paquistanês Mahbub ul Haq, que acreditou e fez o mundo ver que o desenvolvimento não se mede apenas pelos avanços econômicos, mas também pelas melhorias do bem-estar humano. – Sabe o que me deixa abismado, amiga? – E que em pleno século XXI os administradores públicos não aprenderam, ou não querem aprender, uma lição tão simples.

Lourdes Gonçalves Oliveira, minha amiga pesquisadora e letrada, que tal debater esses assuntos sob a sombra da minha varandinha, debruçada diante do coqueiral e comendo peixe frito acompanhado de uma deliciosa tapioca com coco? Por aqui tem muita coisa para ser oferecida nos reclames turísticos do RN, apesar de muito se encontrar invisível ou camuflado entre os desejos dos homens. Venha aqui mulher de Deus! Traga seu caderninho de anotações para recheá-lo de causos e quem sabe consiga garimpar provérbios sertanejos e praieiros para um novo livro.

Lucia manda um beijo e promete ensinar-lhe a preparar os nhoques.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 23

3 Março (65)

Enxu Queimado/RN, 14 de abril de 2018

Caro amigo Gerson, como vão as coisas nessa sua Bahia resguardada por Orixás e pelo venerado Senhor do Bonfim? Depois conte um pouco, até para matar minhas saudades, das suas peripécias pelas águas abençoadas de uma baía tão lindamente apaixonante. Por aqui as coisas estão indo como tem que ir e vou contar-lhe um pouquinho dessa vidinha de praieiro, que escolhi viver um tempo.

Pois é meu amigo, nesses tempos modernosos, onde as redes sociais emparedam tudo e a todos, tem sido uma graça observar o cotidiano dessa vilazinha de pescadores que adoro. Claro que os padrões estão bem distantes dos que encontrei há quase trinta anos e tenho visto alguns momentos de esquecimento com as raízes, mas as gerações são assim mesmo e a vida caminha para frente sem parar e o que seria de nós se ainda vivêssemos os costumes dos antepassados! Tem quem ache que tudo deveria voltar ao passado e tem momentos que comungo desse sonho, mas tudo é sonho, né não? Mas que seria bom, seria! Pelo menos viveríamos mais livres e sem esse medo destrambelhado que a tudo corrói.

Meu amigo, e por falar em medo, as notícias que circulam por aí é que o meu Rio Grande do Norte está entre os três Estados mais violentos do Brasil e está figurando entre as cidades mais violentas do mundo. – Será mesmo verdade? Hoje em dia é difícil acreditar nos números que se infestam por aí transvestidos de seriedade e passeiam como se verdadeiros fossem. Porém, digo que essa prainha que tem nome de casa de maribondo queimada e dotada de um conjunto de dunas espetacular, sem falar na gostosura do banho de mar, a vida é bem tranquila e não tem nem aparência com o restante das paragens do “mapa do elefante”. Sim, escuta-se o eco dos traumas em que vive o abandonado e mal-amado Rio Grande do Norte, mas o vírus do mal ainda não vingou por aqui e tomara que os deuses que a tudo protegem, não se descuidem tão cedo desse pedacinho do paraíso.

E por falar em vírus, e como no paraíso nem tudo é perfeito, pois se assim fosse, Adão e Eva não haviam comido aquela maça deliciosa, o mosquito da dengue tem azucrinado os ouvidos do povo, porém, tem voado silencioso pelas oiças dos administradores públicos. Aliás, eles, os mosquitos, e eles, os administradores, sempre agem assim quando o assunto requer para eles uma posição firme. Os mosquitos, porque não querem perder o alimento diário e os administradores, porque são descarados mesmo e tão nem aí para lamurias e sofrimento alheio. Sofrimento para eles e só quando abrem as urnas e o “apurado” não corresponde aos desejos. Pois bem, o general dos mosquitos antes de chegar mandou recado e como ninguém entendeu, ou se fez de desentendido, o danadinho armou o reinado e ordenou aos seus guerreiros para atacar. Ordem dada, ordem cumprida, e assim, a perigosa doença se alastra aos quatro ventos. Mas, Gerson, não pense que é só aqui não, viu, porque o descaso com a saúde pública é escrachado em todo esse torrão chamado Brasil e há quem diga que a culpa é da população que se descuida perigosamente da limpeza dos seus domínios. Digo que também é verdade e basta caminhar despreocupadamente por entre becos e coqueirais, que flagraremos a verdade nua e crua. Mas se não existe uma cobrança firme por conta das autoridades, e está passa a mão abonadora sobre a cabeça de quem não tem limites e nem zelo com a limpeza, a zorra descamba e quando é chegada a hora de recolocar o barco no rumo, a tempestade assopra de lá para cá, e seja o que Deus quiser!

Rapaz, agora que dei por fé que devo estar apoquentado seu juízo de velejador, com esse papo maledicente, ainda mais você, acostumado com os recantos saudáveis da Baía de Todos os Santos, em que a vida caminha lenta. – Tem ido ao Suarez? – Eita lugar bonito da mulesta! Meu amigo, por aqui também tem uns lugarzinhos apaixonantes e que você precisa vir conhecer, para riscar aquelas rotas que só você sabe fazer. Vixi como ia ser bom ver a praia do Marco, Enxu Queimado, Ponta de Tourinho, Serafim e outras tantas por aqui, figurando nas cartas náuticas digitalizadas. Mas vou logo avisando que são todas praias de mar aberto, porém, convidativas para uma boa ancoragem, apreciando um peixe frito acompanhado de tapioca com coco. Você deve estar se perguntando: – E a cachaça? – Tem, e tem da boa!

Pois é, meu caro e bom amigo, Gerson Silva, ou melhor, Gerson do Tô Indo, velejador cabra da peste, não se avexe com meus escrito, pois eles são apenas para lhe dar notícias e contar um tiquinho da vida desse lugar que me acolhe tão carinhosamente. Lucia manda um beijo para Lili, outro para você, e manda recado para que venham aqui o quanto mais breve. Sabe de uma coisa, para apressar a vinda, vou já ali na mercearia de Evilma comprar um quilo de goma para esperar vocês com uma maravilhosa tapioca dos deuses.

Grande abraço, com as graças da Lua Nova.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 20

9 Setembro (9)

Enxu Queimado/RN, 16 de outubro de 2017

Sergipano, hoje dei por fé que há muito parei de escrever as cartas contando das coisas daqui e fazendo moído das coisas desse mundão de Nosso Senhor. Mas não foi por querer, pois querer eu queria, mas digo que esse negócio de WhatsApp e Facebook ainda vai destruir esse planetinha mal amado. Rapaz, a gente fica tão vidrado nos fuxicos da telinha que esquece da vida. E por falar em Nosso Senhor, você viu que o Rio Grande do Norte superlotou os altares e andores com 30 novos santos mártires de Cunhaú e Uruaçu? É santo seu menino, é santo! É tanto que o governador papa jerimum, com o sorriso de orelha a orelha, temperou o gogó e sob as bênçãos do Papa Francisco afirmou que o RN agora era exportador de santos. Meu amigo, o homem estava tão eufórico que vi a hora ele anunciar que era obra do seu programa de governo. Mas se não foi, um dia vai ser, porque político não deixa uma oportunidade assim passar em branco.

Os mártires de Cunhaú foram assassinados, em 16 de junho de 1645 por soldados holandeses e índios tapuias, enquanto assistiam a missa dominical na Capela do Engenho Cunhaú. Os mártires de Uruaçu foram perseguidos e presos pelo mesmo grupo e mortos em 3 de outubro do mesmo ano, nas margens do rio Uruaçu. Cronistas da época contam que o massacre se deu por motivo religioso, porque os invasores holandeses eram de religião Calvinista e traziam em sua tropa um pastor protestante para converter os invadidos. Porém, há quem diga que tudo se deu por briga pela posse da terra, pois holandeses e portugueses, naqueles tempos, sempre trocaram farpas e sopapos pelo bem bom dessa terrinha chamada Brasil.

Sergipano, saindo dos redutos da fé, as coisas por aqui vão indo do jeito que dá. Este ano a pesca da lagosta está sendo mais fraca do que caldo de batata e o peixe também tem nadado meio desconfiado com as redes. Deve ser a tal da crise que estendeu seus tentáculos pelo mar. Será? Os ventos também não estão ajudando e tem soprado com intensidades bem acima da média de anos anteriores. Quem acha bom é a turma dos geradores eólicos, que aqui tem que nem peste. Olhando de longe é um paliteiro só! O mar, com essa ventania desenfreada, se arrepia todo e assim fica difícil para o pescador correr atrás do sustento. Não é que não tenha peixe e nem lagosta, tem, mas tem pouco. Tudo isso, alinhado com a seca que se apresenta a cada dia com uma cara mais feia do que a outra, tem trazido um ar de incerteza com o futuro próximo.

E por falar em eólico, juro que não me conformo com as coisas desse país sem controle, onde uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os fiscais do meio ambiente rangem os dentes e partem para pegar no mocotó do desafortunado que se arvorar em pegar um bichinho qualquer do mato para servir de mistura no almoço dos bruguelos, mas se abrem em sorrisos permissivos quando da liberação para destruição das matas da caatinga, onde moram os tatus, os camaleões, os veados, as avoantes, em prol de construir parques eólicos. – E as dunas? – Se o caboclo se abestalhar e for tirar uma pá de areia do beiço de uma duna e for pego pelos homens, é papo para uns tantos dias de cadeia e uma multinha a ser paga até a quarta geração da família. Porém, as torres geradoras de energia eólica estão lá como se nada fosse com elas. E não é mesmo!

Sabe meu amigo, deitado em minha rede na varanda e vendo a danação de cata vento espalhado, fico pensando se essa seria mesmo a forma mais limpa para gerar energia. Olhando para as vastas extensões de terras ocupadas pelos parques, não acredito que essa conta seja tão limpa assim. Como diz o ditado: Só o tempo dirá!

Ei, sergipano, diga aí como vão as coisas na sua Terra Caída? Como vai o velho e bom Toma Burro? Rapaz, estou com saudades de comer aquelas sapecas deliciosas, acompanhado de uma branquinha. E as canoas? Estou saudoso de sentar na beira do píer e jogar conversa fora olhando as estrelas e escutando o marulhar das águas do rio. Do pôr do sol esplendoroso. Do incrível tapete de caranguejos chama-marés e dos massunins da ilha da Sogra. Estou saudoso sim, meu amigo, mas qualquer dia darei sossego aos punhas da minha rede e botarei o pé na estrada no rumo da Bahia, onde tenho aquele maravilhoso casal de filhos mais lindos do mundo.

Pois é meu bom amigo Gileno Borges, navegador dos sete mares e o sergipano mais baiano que conheço, a vida nessa minha cabaninha de praia está assim, com um olho no coqueiral e outro nas coisas do mundo. Largue sua preguiça de lado e venha aqui, homem de Deus. Você vai gostar e Cassinha gostará mais ainda.

Um cheiro nos dois e que os santos mártires nos abençoe.

Nelson Mattos Filho

Veredas

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Há muito planejo levar esse blog por estradas não tão salgadas, mas sempre que tento apertar o passo, bate um certo rebuliço nos miolos e retorno correndo para as veredas oceânicas, onde as coisas são mais normais e menos letais. – Mas por que não? – Pois é, por que não? – Bem, vou tentar! O Rio Grande do Norte, o meu torrão natal, tem algumas particularidades que merecem estudos relevantes, mas antes que baixe o santo guerreiro na alma dos caboclos bairristas, digo que o Brasil inteiro precisa sim de um reestudo e esse precisa vasculhar as entranhas. Porém, para não meter a bota no terreno de ninguém e cada um que cuide do seu terreiro, vou me apegar apenas aos limites do mapa do elefante, pois isso já me basta. Rapaz, o ufanismo papa jerimum é delirante e ai de quem duvidar. Dia desses, observado a discussão de um grupo de cidadãos, escutei a seguinte pérola dita com um entusiasmo sem precedentes: “…meu amigo, o RN é um estado rico, tão rico que estamos em primeiro lugar em violência.” Levantei a vista, respirei fundo e saí de fininho para não ter que falar besteira. – Sim, mais e aí? – Calma que isso foi só para engrenar! – Agora vou passar a segunda. A imagem que abre essa postagem desinteressante é da estrada RN 120, que corta os sertões da região do Mato Grande, bastaria ela para mostrar o descaso que estou cheio de dedos para comentar. – Homi, deixe de coisa e desembuche logo! Pois bem, a RN 120 é o próprio descaso , ou melhor, é o retrato da “importância”, para não dizer o contrário, que nossos governantes dão ao festejado progresso. As margens dessa rodovia está sendo erguido um dos maiores parques eólicos do país e por ela circulam diariamente dezenas de super carretas, carregadas de monstruosos equipamentos. Além das carretas, centenas de caminhões menores e outra centena de automóveis disputam o mísero espaço de uma estrada que não oferece a mínima segurança para o tráfego a que está submetida. Não tem acostamento, é estreita, não tem sinalização adequada, precisa urgentemente de recapeamento, animais pastam nas margens ou passeiam no meio da pista, não tem policiamento e tudo funciona ao deus dará. É uma lástima! Na minha singela e desimportante opinião, a melhoria da estrada era ponto primordial para a instalação do gigantesco parque eólico e não submeter os usuários as agruras dos inevitáveis acidentes e sustos. O que acontece na RN 120 é um desrespeito, uma irresponsabilidade, uma falta de vergonha na cara, um desgoverno e tudo aliado a leniência dos órgãos de fiscalização. Pronto, falei!        

Cartas de Enxu 15

4 Abril (145)

Enxu Queimado/RN, 14 de maio de 2017

Sabe Ceminha, se Deus me concedeu uma graça, essa foi ser seu filho e de todas as alegrias que já tive na vida, a mais maravilhosa é poder continuar te abraçando, acariciando seus cabelos e beijando seu rosto. Sei que não sou aquele filho tão presente, como a senhora queria, porque minha sede de aventura sempre me leva a apostar em rumos que transbordam em dolorosos lamentos em seu coração, mas sei que mesmo assim sigo abençoado, porque sinto a força de sua presença em cada passo que dou.

Ceminha, sei que poderia passar horas e horas escrevendo palavras de ternura e carinho e mesmo assim não falaria tudo o que sinto pela Senhora, justamente porque são palavras vindas de um poço de amor sem fim, mas não vou, pois preciso lhe contar coisas dessa vidinha que escolhi, sob as sombras dos coqueirais de uma Enxu mais bela.

Sabe Mãe, não é difícil e nem complicado optar pelas coisas simples da vida e isso eu aprendi quando aproei pela primeira vez meu Avoante para as águas da Baía de Camamu. Aquela entrada de barra meio enigmática, meio mágica, meio assustadora e bastante interrogativa, foi como a abertura das cortinas de um teatro encantado em que luzes, cores e cenário nos leva a um fascinante delírio de emoções. Aquele momento me transformou e nunca mais consegui ver o mundo através de outras lentes, outras cores, outros cenários e outras certezas, pois aquilo era a vida em seu mais lindo e fiel esplendor. Mas Camamu ficou para trás e um dia voltarei a navegar sobre os segredos de suas águas e com o sonho sonhado de por lá permanecer para sempre. Mas não se avexe minha Ceminha, pois isso são planos de um sonho de vida.

Hoje estou aqui, sobre as sombras da varandinha de uma cabaninha de praia, olhando o mundo pelas lentes com que vi pela primeira vez a linda baía mágica da costa do dendê e sabendo que, apesar dos pesares e das vontades dos homens, a simplicidade, a humildade, o bem querer e o amor, fazem parte de uma só força. – Sabe onde aprendi isso, minha Mãe? – Com a Senhora, com os seus atos, com seus princípios, com a sua ética, com a sua força de Mãe, com a sua determinação, com a sua amizade explicita pelos amigos, com a sua fé em Jesus Cristo e na Virgem Santíssima, com as honras com que recebes os que a procuram, com o carinho de seu olhar para com todos que a cercam, com seus ensinamentos, com a paixão com que abraça suas causas e com todos os doces e saudáveis frutos que a Senhora espalha ao seu redor.

Está vendo Cema, como é fácil deixar que palavras e emoções fluam quando queremos falar de Mãe? Basta deixar os dedos sobre o teclado que eles sabem direitinho juntar as letrinhas, sem esforço algum. O que eu queria mesmo contar era sobre a homenagem que recebi da vereadora Lucia de Pedrinho, assinada em baixo por todos os vereadores que compõem a Câmara de Vereadores de Pedra Grande, na gestão 2017 – 2020, me indicando para receber o Título de Cidadão Pedragrandense. Foi emoção sim, foi uma festa inesquecível, desejo participar de outras com o mesmo fim e queria muito que a Senhora e Tia Cecília estivessem ao meu lado naquela noite. Mas tudo bem, nem tudo que a gente quer a gente pode, recebi o Título, fiz meu agradecimento e voltei para minha cadeira para presenciar a glória e o reconhecimento de uma dama do amor ao próximo.

Cema, foi com lágrimas nos olhos que vi Dona Nerize, com seu andar vacilante, caminhar para receber seu título de cidadã. Ela é um anjo que foi indicada para servir e morar em Enxu Queimado e durante décadas faz a vida florescer sobre a comunidade. Mulher simples, de fala mansa, de mãos abençoadas e que estava, e está, sempre pronta para trazer ao mundo os bebes que ali nascem, unicamente com o propósito de fazer valer sua missão na terra. Basta vê-la caminhando pelas ruas e recebendo os pedidos de bênçãos de adultos e crianças e ela com a voz mais carinhosa abençoado a todos. Seu agradecimento na tribuna da Câmara deixou no ar a leveza e a grandeza de um coração de luz e paz. Foi difícil segurar as lágrimas, e não consegui.

Ceminha, como é gostoso viver em um mundo onde a realidade está ali nua e crua em nossa frente. Como é gostoso abrir os olhos e ver que o a vida continua linda, a paz continua a reinar, os pássaros voam soltos e as pessoas caminham despreocupadas nas ruas e a velha e linda parteira é a personalidade mais importante do lugar. Mas não era assim que deveria ser sempre?

Iracema Lopes Mattos, minha Mãe, minha Rainha, hoje, Dia das Mães, peço sua benção e lhe desejo muito amor, mas peço que me deixe também render homenagens a essa senhora que é Mãe de quase uma cidade inteira, Dona Nerize.

Nelson Mattos Filho