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Projeto Uma Palavra

10 Outubro (205)

Há algum tempo que idealizo “usar e abusar” dos conhecimentos profissionais dos amigos que nos visitam em nossa cabaninha de praia, para levar boas informações aos moradores da aconchegante comunidade de Enxu Queimado/RN, que sempre nos acolheu tão carinhosamente. Além de ser uma forma de agradecimento, o Projeto Uma Palavra, seria uma maneira de proporcionar a pequena comunidade informações de campos das ciências do conhecimento que muitas vezes passam, quando passam, ao longe.

10 Outubro (211)

Foi assim que quando recebi mensagem do amigo Afonso Melo, querendo vir passar uns dias com a gente, respondi que poderia vir, mas teria uma condição: Ministrar uma palestra na Colônia de Pescadores. Falei da proposta e disse que ele enfunaria as velas para que a ideia navegasse em busca de novos horizontes. Ele aceitou de pronto!

Afonso é funcionário da Petrobrás, mergulhador e instrutor de mergulho profissional e recreativo, tarefa que exerce com enorme paixão. A escolha de seu nome para abrir o projeto não foi por acaso, porque desde o começo ele estava em minha alça de mira, apenas faltava a oportunidade e as visitas prometidas não eram concretizadas, mas como bem diz o ditado: Tudo tem seu tempo. E acredito que sim, pois Afonso está de mudança para Vitória/ES, e sua visita, aproveitando uma semana de folga do trabalho, seria talvez o último abraço, da grande amizade que sempre nos uniu, antes de sua partida para as terras capixabas.

Não digo que a palestra foi casa cheia, porque foi tudo decidido de última hora e o amigo Xará, presidente da Colônia de Pescadores de Enxu Queimado, só teve um dia para convocar a turma e perguntou se o evento poderia começar às 19 horas, do dia, 23/10, porque mais tarde teria o jogo entre Flamengo e Grêmio, e ninguém queria perder. Aliás, o time carioca, que deu uma lavagem nos gaúchos, por aqui falta pouquíssimo para se tornar unanimidade. Foi um bate papo gostoso, descontraído e balizado pelas boas regras e normas de segurança que o mergulhador jamais deve deixar de observar. Foi tão bom que no dia seguinte recebemos diversos pedidos, daqueles que não puderam comparecer, para que a palestra fosse repetida, mas infelizmente não foi.

10 Outubro (202)

Pronto, o projeto já navega em mares tranquilos e vamos aguardar que outros amigos venham nos visitar, mas já sabendo eles que terão uma prenda a pagar. Como bem disse Afonso, a semente foi plantada, agora vamos regar para colher os frutos.

Caro e bom amigo, em nome da comunidade, especialmente da Colônia de Pescadores, dessa prainha maravilha, agradeço o carinho de sua atenção com essa causa social e muito obrigado por dividir com a gente um pouco dos seus valiosos conhecimentos.

Nelson Mattos Filho

25/Outubro/2019

Cartas de Enxu 52

7 Julho (32)

Enxu Queimado/RN, 08 de outubro de 2019

“…não é só falar de seca, não tem só seca no sertão…”.

Pois é, caro amigo Bardou, assim cantou o poeta cearense enquanto olhava o açudão impanzinar, e hoje, vendo a seca medonha que se avizinha sobre a barra do nascente, estendendo tentáculos em brasa pelos cantos, recantos até se adeitar nas nuvens acolchoadas do poente da terra seca, coberta de uma mata ainda levemente colorida com as cores verdes das chuvas que já vão ao longe, reconheço como uma reza as palavras do poetinha cantador lá das bandas do Orós. Aí você diria: – Mas o que danado tem esse praieiro, aboletado em uma rede sob a sombra de uma varadinha de praia, para se avexar a falar de seca? Falo sim, meu amigo gaúcho, pois é nas paragens desse tiquinho de Nordeste, chamado Enxu Queimado, que se abrem as porteiras de um sertão brabo como espinho de jurema preta, afogueado feito rosto de vaqueiro valente, povoado de boi tinhoso, curtido no sol e no suor do sangue quente, mas entupido de um povo carinhoso que nem manteiga escorregando sobre miolo de pão quentinho.

Navegador, nesse 08 de outubro, que no calendário está marcado como Dia do Nordestino, depois de tomar umas goladas de café, acompanhado de uma pratada de cuscuz com ovo, peguei a estrada poeirenta e me danei no rumo de Caiçara do Norte, terra juramentada e afamada como sendo a capital da pesca artesanal desse Brasil brasileiro, na intenção de comprar uns quilinhos de camarões para Lucia produzir suas delícias gastronômicas. E deu tudo nos conformes, viu, mas ao longo da viagem me vi perdido em pensamentos diante da brabeza do Sol inclemente feito açoite de cipó de broxa. Seu menino, é tanta quentura que chega a tapar os buracos da venta e sem falar nos rodopios dos sacis que riscam o chão espalhando poeira amarronzada no meio do mundo. É bonito ver o ciscado, numa perna só, dos moleques travessos assustando os desavisados e fazendo rir os que reconhecem e respeitam suas estripulias. Tem até quem sinta o cheiro da fumaça do cachimbo e escute o eco dos seus risos. Eu até que tento, mas tem jeito não, fico só na beleza do rebuliço do vento sobre o chão de barro.

Amigo, e por falar em Saci e em pé de vento, digo que os alísios que varrem as praias desse litoral Norte, este ano estão meio desembestados e tem deixando muitos jangadeiros com as barbas de molho. E o mar? Vixi, tem pareia não! Rapaz, o senhor do tridente está mandando ver na festança e os carneirinhos estão tomando conta do oceano até o horizonte que a vista alcança. Éolo ligou os moinhos que sopram do Sul e Sudeste numa velocidade de fazer inveja a madame cruviana e Netuno, rei do reino do mar, puxou a prateleira de vinil e atochou rock pesado na vitrola. A brincadeira, para eles, está boa, mas para o povo do mar, a coisa está esquisita. Dia desses ouvi dizer que os comandantes das belonaves inscritas na REFENO 2019 estão apostando numa velejada gostosa e macia, de Recife até a ilha maravilha, dia 12/10, e tomara que eles estejam certos, pois como diria o velejador pernambucano Guga, talvez o maior colecionador de troféus da REFENO, comandando a fera Ave Rara: – Acho que vai ser punk!

E por falar em REFENO, este ano até que recebi convite, mas olhei para a sombra dessa cabaninha de praia, para a rede espichada na varanda, pedi conselho ao coqueiral, me confessei com os encantados que protegem os navegantes e depois de banhar a alma com umas doses de Rum, preferi ficar quieto e escutar apenas os moídos e festejos que os ventos oceânicos devem trazer de lá para cá. Se a brincadeira vai ser boa? Tenho certeza que sim, pois sempre é!

Eita, meu amigo, agora que estou me dando conta que já dei uma ruma de bordo nessa prosa. Comecei falando em seca, embrenhei pela floresta da caatinga, me deparei com sacis, cruzei a fronteira praticamente inexistente entre as cidades de São Bento e Caiçara do Norte, divididas apenas pelo passar da perna, cutuquei os encantados do mar, me vi diante dos assopros dos deuses dos ventos e temporais, Éolo e Cruviana, e até me avexei a caçar as velas das Naus dos iatistas que em breve cruzaram as águas mornas nordestinas, mas tudo bem, pois a intenção dessa missiva é mandar notícias daqui e entre um papo e outro tem um bocado de trilhas e veredas.

Luiz Achylles Petiz Bardou, amigo que recebi de presente do mar e que guardo com carinho no coração, já completou mais de uma década que você riscou traçado pelas cercanias dessa prainha dos domínios de Poti e já é chegada a hora de vir conferir o que um dia você viu. Venha meu amigo, venha ver a seca que canta, encanta, traz dor, lamento, alegria, esperança, resignação, fé, descrença e como num passe de mágica, transforma tudo em poesia.

Venha ver o mar, o mar do Nordeste, o mar dos alísios, o mar de dunas brancas, mar que encanta e por encanto, transforma tudo em melodia nos acordes de uma viola chorosa sombreada pelas palhas de um coqueiral.

“…se não é seca é enchente/Ai, ai, como somo sofredô/Eu só queria saber/O que foi que o Norte fez/Pra vivê nesse pena…” E assim vai Raimundo Fagner, o poeta cantador.

Nelson Mattos Filho

 

Cartas de Enxu 51

8 Agosto (6)

Enxu Queimado/RN, 21 de setembro de 2019

Waltão, como vão as coisas com você e com os seus, meu amigo? Por aqui tudo indo e vindo, porém, mais indo do que vindo e não me pergunte os motivos, porque por mais que observe e tente decifrar os teoremas, mais perdido fico. Como disse um amigo: “Nelson, as coisas são o que são e quando não são, não são, entende?” Rapaz, preferi responder que entendia, pois vai que ele resolvesse explicar!

Amigo, nunca esqueci aquele dia, do ano 2000, quando saímos da Praia do Marco, onde eu tinha uma cabaninha de praia e juntamos aquela turma boa de velejadores, e viemos a Enxu Queimado, eu, Lucia, você e Baleia, tomar um café da manhã, no bar de Dona Tita, regado a cerveja, aliás, mais cerveja e menos café. Naquele tempo a fartura de lagosta por essas bandas ainda era coisa de fazer valer uma boa matéria jornalística e você sabendo disso incentivou a vinda – como desculpa para a cerveja – para bater uns retratos e registrar no bloquinho de anotações algumas informações. Pois saiba que aqueles meninos que carregavam dois carros de mão carregados, até a borda, de lagosta, e que tremeram nas bases e afrouxaram o intestino quando você pediu que eles parassem um pouco, porque você queria bater uma foto, aqueles meninos hoje são adultos, pais de família e ainda lembram do cheiro do “material pastoso” que escorreu por entre as pernas deles. Eles pensaram que você era fiscal do IBAMA. Vez em quando, em conversas de varandas, damos boas risadas lembrando daquele episódio. Mas Waltão, para mim o mais engraçado foi sua tentativa de aprender a subir em um pé de coqueiro. Sei não, viu! Pense num caboco desajeitado e ainda bem que você desistiu antes de receber a segunda lição, pois eu já estava imaginando a cena quando fosse para você descer.

Jornalista, sob a sombra dessa cabaninha de praia fico ouvindo os moídos do mundo, apesar da cacofonia que ecoa das trincheiras da grande rede e que as mídias tracionais teimam em comer corda, e não tenho como refestelar os miolos do juízo. Pense numa bandalheira desenfreada e sem direção lógica! Está todo mundo tão amalucado com a tal mídia social, que ninguém quer mais saber a verdade de nada, basta postar, ou ler o que os “influenciadores” publicam, apertar a tecla de encaminhar e pronto, a “verdade” está confirmada e prontinha para fazer estrago na vida do alheio por intermináveis dois dias até cair no ralo do assunto antigo e sem mais interesse. Waltão, quanto a isso, o navegador Amyr Klink falou assim, em uma entrevista sobre a comemoração dos 35 anos da travessia do Atlântico em um barco a remo: “…Se fosse hoje, eu estaria no Instagram uma boa parte do tempo, nas mídias sociais, provavelmente eu teria uns 2 ou 3 milhões de seguidores e, em uma semana, nenhum. Eu não ia ter mais nada pra falar porque todo mundo já acompanhou o que aconteceu. Então eu teria tido milhões de caras torrando minha vida a bordo na última semana e na primeira semana de volta ao Brasil eu não teria mais nada para contar…”. É assim, amigo!

Rapaz, por falar em mídias sociais, faz dias que escuto os ruídos que hoje, 21/09, é o dia reservado a Limpeza Mundial e sinceramente ainda não consegui entender o que danado isso quer dizer, pois o planetinha azul nunca esteve tão sujo, em todos os sentidos da palavra. Pois bem, acordei neste sábado de Limpeza Mundial, disposto a pegar uma pá, uma vassoura, alguns sacos para juntar lixo e sair em busca da turma que estava imbuída da tal limpeza. Já na cama apurei os ouvidos na tentativa de escurar o ciscado das vassouras e o arrastado das pás, e nada. Levantei, abri a janela, e nem sinal dos voluntários. Pensei com meus botões: Deve ser mais tarde! Tomei café, acompanhado de umas bolachas molhadas no leite, salteadas com queijo, e fui na calçada procurar saber onde estavam todos, e mais uma vez não consegui resposta. Foi aí que passou Dona Leonete, ativista de causas sociais, e perguntei de pronto: Amiga, a Limpeza Mundial já começou por aqui? Ela deu uma risada e respondeu: – Já teve! Olhei para um lado, para o outro e repliquei: E foi? Waltão, você acredita que mundo afora foi diferente daqui? Eu mesmo é que não acredito, pois se quisessem mesmo limpar o planeta, bastava incentivar que cada um limpasse a sua casa e chamasse o vizinho para conferir. Vizinho é bicho fuxiqueiro!

Pois é Walter Garcia, jornalista e velejador arretado, diante do coqueiral e do mar que me acena, fico escutando as loas e matutando nas batalhas travadas sobre as paragens desse planetinha metido a besta e muitas vezes prefiro fechar os olhos, os ouvidos e me calar, pois assim a vida se torna mais salutar. Mas como gosto de ver, ouvir e falar pelos cotovelos, vou seguindo feito balanço de rede: Meio lá, meio cá!

Velejador, que tal voltar a pisar os pés nas areias dessa prainha paraíso? Venha, homem, mas não garanto que terá outros carros de mão com a fartura de lagosta como naquele ano de virada de século. O que foi já era e o que já era, já era mesmo. Entendeu? Se não entendeu, venha que explicarei aqui!

Lucia manda um cheiro!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 50

7 Julho (218)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2019

Luciano, meu amigo, como andam as coisas na sua Bahia mais bela? Por aqui vamos caminhando, cantando, seguindo a canção e achando graça, porque se faltar o riso o bicho pega. E por falar em bicho: Como vai seu ninho de cobras? Pelas bandas daqui, tenho notado que a criação de ovelhas e carneiros diminuiu um pouco, pois faz dias que não avisto os bichinhos caminhando livre, leve e solto pelas ruas e avenidas dessa Enxu querida. – Avenida? Isso mesmo, meu amigo, avenida, pois assim está escrito no endereço da conta de energia elétrica. E por falar em conta de energia, por mais que os encantadores de gente se esmerem em explicar, juro que não consigo entender essa troca de bandeiras. Tem tempo que é verde, tem tempo que a danada amarela e nesse mês de setembro o troço veio num tom encarnado, mais esfomeado do que a molesta. Seu menino, eu ia até falar, mas vou parar por aqui para não “elogiar” a senhora Mãe dos outros.

Amigo, sobre essa troca de bandeiras o que me intriga é ver, da minha varandinha, a danação de torres catadoras de ventos espalhadas a torto e a direito sobre dunas e matas, gritando promessas engabeladoras, e nem sinal das tais bandeiras perderem o ímpeto. Ei, baiano, não se avexe com minhas observações amalucadas, pois são apenas visões de um praieiro que em vez de ficar catando nuvens no belo e infinito céu dessa prainha paraíso, fica dando pitaco em coisas que não entende.

Rapaz, essa semana estive na casa de Ceminha e ao folhear o jornal Tribuna do Norte, cravei a vista numa matéria que falava da nossa falta de interesse nas benesses do grande mar Atlântico, que nos banha. Pois bem, a nota dava conta de que um economista português ajuntou um punhado de interessados, ou desinteressados, sei lá, para dizer uma coisa que seus patrícios de 500 anos atrás já haviam descoberto e até hoje não demos de conta. O portuga disse em alto e bom som, que o potencial costeiro do Rio Grande do Norte é enorme e que até os dias de hoje, por mais que tenhamos trocado o comando do timão, não aproveitamos, ou melhor, desaproveitamos por completo. Ao ler a matéria lembrei de uma palestra que assisti no Sesc, em Natal, com o economista Delfim Neto, na época ministro todo poderoso, em que ele disse que o RN estava lutando uma luta inglória – e hoje está provado -, ao pleitear a implantação de uma refinaria de petróleo, porque a grande redenção desse Estado estava no turismo e no maravilhoso mar que acaricia suas praias. Eh, meu amigo, olhando da minha varandinha o mar emoldurado pelos troncos e palhas dos coqueirais não posso e nem devo deixar de aceitar as palavras do economista português, Miguel Marques, e muitos menos do grande professor Antônio Delfim Neto. Como seria bom se nossos governantes tivessem pelo menos um tiquinho de tempo e vontade para ouvir e falar verdades. Aliás, o tão proclamado Marco de Posse, chantado na praia do Marco/RN, que o diga, porque mais abandono é impossível.

Luciano, mudando o rumo dessa prosa, você acompanhou o moído sobre os “inocentes” livrinhos infantis lançados na feira literária sob as bênçãos de São Sebastião? Se acompanhou, fez bem, pois assim não será pego desprevenido quando algum neto lhe indagar sobre a vida. Se não acompanhou, fez mal, pois perdeu de dar boas risadas com as palavras ditas, escritas e com as afetações de quem canta a música sem nem saber a letra, nem o tom e só sabe entoar o coro. Me contaram que um cabocolinho que comprou, todo falante, um exemplar do tal livrinho, quando chegou em casa o filhinho quis folhear e levou um tapa nas orelhas, pois aquilo não era leitura para uma criança, ainda mais a dele. Vai vendo, viu! Mas fiquei sabendo que quem ficou brabo mesmo foi Seu Quinzinho da Burra, um antigo morador de um povoado distante daqui, pois na adolescência ele sentiu uma queda pela jumentinha mimosa que andava faceira pelas baixas, e depois de ganhar a confiança da bichinha, partiu confiante para uns afagos, amassos e daí para os finalmente foi apenas questão de minutos e um “Ih” mais carinhoso do que o normal. Depois de uns meses o amancebo foi descoberto pelos outros pretendentes da burrinha faceira e a fofoca caiu nos ouvidos do delegado que não contou conversa, mandou chamar Quinzinho e entre perguntas e cacete, fez o pobre namorado entregar o serviço contando coisas de A a Z. O namorador passou uns dias enjaulado, ganhou o agregado no apelido e até os dias de hoje nunca mais passou nem próximo das baixas, mas a saudade é grande daquela a quem tanto carinho dispensou. Pois bem, Seu Quinzinho soube que tem um livrinho ensinando os meninos a chamar uma coelhinha na chincha e que depois de uns alaridos, os senhores do conselho superior deram tudo como certo, justo e encerraram a peleja com pontos para o autor. Agora, Seu Quinzinho, no alto dos seus 90 anos, quer saber quem vai indenizar a desgraça amorosa sofrida nos seus 18 anos. Procede!

Luciano Lopes Guimarães, cabra aventureiro da gota serena, faz tempo que você e a sua mandante Arlene, não dão as caras por essa prainha bela e preguiçosa. Venha, homem de Deus, venha para a gente emendar os bigodes nos bons papos que rolam sob a sobra dessa cabaninha de praia. Venha aproveitar os assopros dos bons alísios de um setembro soprador. Venha que prometo arranjar uma jangada para você traçar rumo até o abençoado e produtivo Cabeço de André, lugar que deixa qualquer pescador abestalhado diante de tanta fartura.

Estou esperando, viu, e já vou colocar as cervejas no gelo!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 49

10 Outubro (26)

Enxu Queimado/RN, 03 de setembro de 2019

Saulo, estava aqui pensando nas coisas dessa Enxu mais bela, enquanto dava umas bicadas numas doses da dita, bendita ou “mardita”, melhor cachaça do mundo, produzida lá no pé da serra seridoense de Samanaú, e rindo sozinho com os muitos moídos que já vivi e presenciei por aqui e foi aí que dei conta que faz tempo que você não dá o ar da sua graça sob a sombra dessa cabaninha de praia. Lembrei de você e também do saudoso e inesquecível Campeão, que adorava ouvir os causos acontecidos nas quebradas dessa prainha arretada de boa. Pois é, meu amigo, o tempo passa, passa ligeiro, segue em frente e deixa o fascínio em forma de lembranças e saudades, algumas boas, outras más, mas quando misturadas, dão o sentido que rege a vida.

Saulo Júnior, como não mirar o maravilhoso coqueiral esparramado sobre a beira mar, e não lembrar das estripulias caridosas de Dona Ana, uma das muitas figuras folclóricas do álbum de Enxu? Dona Ana era avançada demais para uma época em que a inocência nem se dava conta que um dia perderia a razão diante das ideias beligerantes e filosóficas dos intelectuais modernosos. Conta a lenda, que a velha madame, apaziguadora da alma curiosa e irrequieta dos meninos de então, quando o assunto era sobre as formas libidinosas do amor, ela não deixava ponto sem volta. Pois bem, certa vez estávamos em um grupo de bate papos sob a sombra de uma árvore, e ela passa caminhando nos passinhos curtos e lentos dos seus oitenta e tantos anos bem vividos. Ao vê-la passar, Seu Neném fala: – Dona Ana! Ela para, olha e pergunta: – Que foi Neném? – Os meninos estão dizendo que a senhora não dá mais no couro! Ela põe as mãos no quadril, dá uma rabissaca, olha por cima do ombro e desdenha: – Aí, uhuuuuu!!!!! E seguiu sua caminhada, deixando a turma em boas gargalhadas.

Mais uma dose e lá vem a cena acontecida numa noite de Lua nova na estrada que liga Enxu a Pedra Grande. Alma era um rapaz que vivia de comprar pequenos peixes em Enxu Queimado para revendê-los nos povoados mais distantes. Quando terminavam as vendas, Alma se encostava no primeiro balcão de boteco que encontrasse na beira da estrada e entre uma cachacinha e outra ficava de olho aboticado na estrada na esperança de pegar uma carona que o levasse no rumo da volta. Naquela noite o tempo passou rápido na localidade do Alto da Aroeira e nada de aparecer a sonhada carona e assim a cachaça foi duplicando nas ideias, pois fazia poucos dias que Santo, seu velho pai, havia falecido e a branquinha tanto aliviava a dor, quanto aumentava a saudade. Lá para as tantas ele escutou o ronco de um trator e se posicionou na beira da rodagem. O trator, puxando uma carroça, foi chegando, ele pediu parada, mas, Zeca, o tratorista, que vinha guiando no piloto automático, mais bêbado do que o caronista, nem notou sua presença e seguiu em frente. Alma, macaco velho nas artes da carona, apressou o passo e pulou para dentro da carroça, suspirando aliviado, porque já estava perto da meia-noite e a possibilidade de passar outro veículo por ali era difícil.

Quando as luzes do pequeno povoado ficaram para trás, Zeca, de relance, notou a presença de alguém sobre a carroça e gritou: – Quem vem lá? – É Alma! – Alma de quem? – De finado Santo! Saulo, os cabelos de Zeca arrepiaram, ele acelerou o trator até o motor sair do tom e se danou a dar rabos de arraia pela estrada, jogando o trator de um lado para outro, tirando fino nos galhos de jurema preta e nada da Alma desaparecer. E assim foi a correria e o desespero até chegar em Enxu, quando Zeca, já bonzinho da cachaça, meteu o pé no freio, pulou do trator ainda em movimento, olhou para trás e lá estava Alma com os olhos aboticados e gritando; – Zeca, você está ficando doido? Quase me mata, homi! Zeca, quase sem fala e já recuperando a cor, respondeu puxando o que restava de ar dos pulmões: – Fii de uma égua, você que quase mata de susto, seu desgraçado! Segundo contam, depois desse dia Zeca perdeu todos os cabelos da cabeça. Pense num medo!

Pois é, Saulo Andrade dos Santos Junior, meu cunhado e irmão de querer bem, se for contar todos os causos, contos e fatos que fazem parte da história dessa prainha paraíso, é de fazer uma ruma bonita e cheia de graça. Tenho muita coisa guardada na cachola, outras em borrões de anotações e você bem sabe de um bocado, pois entre umas e outras já escutou muitas e riu boas risadas. Mas não custa vir aqui para escutar tudo de novo e rir novamente, pois assim são as coisas boas dessa vida. Aliás, daquela garrafa de Samanaú, a melhor do mundo, deixei sobrar um pezinho de uns quatro dedos, viu! Venha pra gente fechar a contabilidade e venha logo, senão a danada evapora!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 48

5 Maio (34)

Enxu Queimado/RN, 19 de agosto de 2019

Sabe, Maurício, hoje, na paz do luar que derrama fios prateados sobre a noite dessa Enxu mais bela, me peguei fazendo uma retrospectiva de vida e desatei a lembrar dos bons momentos vividos a bordo do veleiro Avoante, subindo e descendo o litoral do Nordeste, plantando, regando e colhendo amizades. Em uma das passagens da fita, veio a imagem de um tripulante, que estava fazendo um dos nossos charters pelos encantos e segredos da bela e colorida Baía de Todos os Santos, e as palavras por ele proferida enquanto degustávamos um vinho, saboreando um risoto de limão siciliano, na enigmática ancoragem do Saco do Suarez, por traz da Ilha do Bom Jesus dos Passos e de frente para a mata atlântica que cobre a Ilha do Frade, ancoragem que segundo contam os livros de história, os holandeses se esconderam durante 60 anos dos olhos e ouvidos dos portugueses, até que em um 2 de julho a brincadeira acabou e até hoje o baiano festeja.

“Nelson e Lucia, vocês não vendem charter e nem curso de vela, vocês vendem sonhos e uma maravilhosa história de vida”. Pois é, Maurício, durante o resto da noite e boa parte da madrugada, a frase cutucou meu juízo e no silêncio e na paz daquela ancoragem tão mágica, adormeci, os circuitos internos do cérebro levaram a frase para o arquivo e assim ela permaneceu esquecida até que hoje, uma velinha branca de paquete cruzou o pedacinho de mar que vislumbro dos domínios de minha varandinha de praia, e pronto, estou aqui a matutar. Pois num é que dia desses, Gilberto da Farmácia, um amigo cultivado sob os alísios que sopram por essa paragens, disse que adorava vir aqui para entabular um conversê, porque, segundo ele, os horizontes se abriam em sua frente. Agora danou-se, um disse que eu vendia sonhos e agora o outro diz que vendo horizontes. Sei não, viu! Rapaz, aqui eu vendo é pizza e saltenhas, e segundo uma criança que passou na calçada, a melhor pizza do universo.

Maurição, pois num é que a tal retrospectiva me fez ver coisas que diante do moído da vida urbana deixei esquecer. Durante onze anos tive uma casa com a varanda de frente para o nascente, o poente e de cara para todos os ventos que se arvorassem a soprar. Foram dias de intensa conjugação com os elementos da natureza e seguindo os ditames de deuses encantados. Por mais que me fizesse de rogado, jamais pude deixar de sorrir e pedir bênçãos diante da magia e das cores do pôr do sol, que nunca se apresentou igualmente o anterior. Via o pôr do sol como um grande livro de páginas infinitas, de versos e crônicas em escritos, desenhos e cores que jamais se repetirão. Hoje, meu amigo, mesmo sabendo da bela maquiagem que as dunas de Enxu produzem para o final da tarde, não consigo tempo para assistir os últimos passos diários do astro rei. Quando consigo, tenho o mesmo deslumbramento e a mesma emoção de sempre, mas sinto minha alma entristecida. Maurício, será que a vida urbana consome a alma das pessoas?

– E a Lua? Pois é amigo, a Lua daqui é linda como a Lua dos outros lugares, mas também não a tenho diante dos meus olhos e nem mantenho a intimidade que tive noutros tempos. Conheço os passos do seu caminhar, sei os segredos de suas cores, consigo sentir seu cheiro e as vezes escuto seus lamentos, mas perdi a intimidade. Aí você pergunta: – Como assim? – Você mora em um paraíso, em uma praia linda, com paisagens belíssimas, com um mar encantador, diante de um coqueiral deslumbrante, cercado de pessoas maravilhosas e sob o teto de uma aconchegante cabaninha praieira, o que falta mais? Pois é, tenho sonhos, horizontes, amigos, família presente e unida, mas falta a intimidade com os elementos da natureza, com a Lua, com o Sol, com os ventos, as correntes marinhas, as ondas, as nuvens, as gotas de sal sobre a face, o balanço do oceano, as vozes do mundo, os sons que ecoam do fundo do mar. Falta o calor do abraço de um mundo que sei que está bem ali, mas um pouco distante demais da mão. Eh, amigo, acho que é isso, a vida urbana consome a alma da gente e fecha os nossos olhos para as maravilhas que somente a natureza pode dar.

Maurício Silva Rosa, você que um dia viveu conosco alguns dias a bordo daquele belo veleirinho avoado, avoando lentamente pelos mares do Senhor do Bonfim, sentindo a natureza correr nas veias e piscando os olhos diante da paisagem desnudada a cada fração de milha navegada, sabe das lamurias que me trazem essa incrível e saudosa retrospectiva, mas não se avexe com essas linhas escritas, porque tudo passa entre um balanço e outro da rede. Além de que, os encantos dessa prainha paraíso é um fabuloso remédio para aplacar minhas saudades.

Amigo, agora me responda: Será que eu ainda consigo vender sonhos ou os tais horizontes que encantam Gilberto? Não, Maurício, não vendo sonhos, nem horizontes, quero mais é dar alegria e mostrar para aqueles que se interessam, que o mundo pode ser melhor, infinitamente melhor, do que este que estamos vivendo. E para isso, nada melhor do que ir ao pomar e colher uma muda de bons amigos.

Venha aqui, amigo, e venha sem pressa, porque embaixo dessa varandinha cabe uma montanha de boas conversas.

– O vinho? – Claro, tem vinho!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 46

janeiro a junho (233)

Enxu Queimado/RN, 05 de agosto de 2019

“ Seja bem-vindo ao caos, comandante! ”

Zé, meu amigo, nunca esqueci suas palavras quando lhe informei que estava deixando o mar, habitat que vivi, a bordo do veleiro Avoante, por onze anos e uns meses de lambuja, para retornar ao cotidiano das cidades. Naquele dia suas palavras soaram como uma sentença e até imaginei que seria assim, mas sinceramente, não sabia que a extensão do caos fosse tão grande. Está feia a coisa, meu amigo, e tem horas que a vontade é de largar tudo novamente, mergulhar de cabeça nas águas de Iemanjá e sair por aí cortando as ondas dos oceanos.

Comandante, confesso que fazia uma ruma de tempo que não caminhava pelas paragens inebriantes do Blogueio Maldade, mas juro que não foi por falta de tempo, pois desde que tenho sentado praça nos meandros dessa Enxu mais bela que o tempo não me falta, mesmo envolvido que estou em produzir e servir a melhor pizza do universo, sempre me sobra umas horazinhas para cultivar ramos de flores de ócio. Pois bem, essa semana acertei na tecla do eu e o maldade e lavei a alma com sua verve arretada de boa. Aliás, sob a sombra dessa minha cabaninha de praia, de frente para o coqueiral, tenho lido muita coisa boa e até já perdi as contas dos personagens que saíram das páginas para dar um passeio comigo sobre a imensidão de praia que por aqui se estende.

Mauro, vou te contar um segredo, a personagem que mais desejei que o passeio não terminasse nunca foi uma tal de Pilar, maranhense arretada da cidade de Codó, filha de uma mãe de santo do terecô, uma doidivana dos sete costados e que um dia se tornou a líder espiritual mais poderosa do país. É difícil esquece as estripulias de Pilar, figura saída das ideias do escritor PJ Pereira, no livro A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa, e mais difícil ainda não se apaixonar por essa mulher que descabela os mistérios da fé.

Zé Mauro, adoro os livros, mas tenho uma verdadeira paixão por crônicas, principalmente aquelas escritas nos recantinhos das páginas dos periódicos e digo mais, aposto todas as fichas que nos dias de hoje não existe um jornal brasileiro tão bem servido de bons cronistas como o potiguar Tribuna do Norte. Os cabocos que aportaram por lá ultimamente são conhecedores do riscado e deixam a gente com as bilocas dos olhos aboticados e o juízo tremendo de felicidade. Rapaz, Seu Henrique botou para reiar na escalação do time e não tem timeco espanhol que consiga trocar passes e nem passar do meio de campo. Veja aí a escalação: O meio de campo é comandado por Seu Woden; na cabeça de área quem manda é Seu Vicente que não dá mole para ninguém; na zaga central tem o danado do Cassiano; na ponta direita, avançando pelo meio tem um magro chamado Alex e na ponta esquerda o titular indo e voltado é o menino Rubinho. – Centro avante? – Tem não, pois tudinho sabe fazer gol, e só gol de voleio! Sabe, Zé, tempos atrás fui convocado para o time da Tribuna, mas só consegui vaga como reserva de gandula.

Ei, amigo, você viu que lá em riba falei que minhas pizzas eram as melhores do universo? Pois é, as danadas são boas sim, mas não sabia que era tanto até que um menino passou caminhando com o pai e afirmou: “- Pai, a pizza daqui é a melhor do universo”. Pois bem, como criança não mente, fiquei todo faceiro com a nota recebida. E por falar em universo, dia desse ouvi dizer que ele tinha 90 bilhões de anos-luz de extensão e na mesma hora minha cachola se danou a fazer contas e quando viu que não tinha capacidade para um numeral tão avantajado, deu um pânico. Isso mesmo, pânico e depois eu explico o prumode, mais antes vou tentar refazer essa conta, em um papel de pão, que deve ser assim: Se 1 ano-luz tem nove vírgula tantos trilhões de quilômetros e, segundo o caboco que estava anunciando a novidade, o universo tem 90 bilhões de anos-luz de tamanho, o resultado da conta é 873 trilhões. Vixe, vou é parar por aqui pois já estou vendo estrelas.

Tá bom, Zé, vou falar no pânico. Dia desses Lucia disse a uma amiga que havia ligado várias vezes e ela não atendia o telefone. Ela respondeu que o celular estava em pânico. – Em pânico? – Quem danado fez medo a esse aparelho? – Não, minha filha, o bicho caiu no chão e espatifou-se!

José Mauro Nogueira, que tal vir dar um passeio nesse paraíso praia para trocar as relíquias da morte e usar sem moderação a pedra da ressureição? Aqui é um dos poucos lugares sagrados guardados a sete chaves pelos bons feiticeiros e por todos os anjos do Céu. Aqui a vida caminha lenta, mas tem todos os desejos que você procura para aposentar de vez a capa da invisibilidade.

Antes de colocar o ponto final e antes que você fique a matutar nos escritos até aqui, vou em busca dos versos do jornalista Alex Medeiros, quando ele diz assim: “Meus escritos são momentos/de alegrias ou de desertos/nada mais que sentimentos/algo bem maior do que versos”.

Nelson Mattos Filho