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É assim!

03 - março (441)

“Navegar é uma atividade que não convém aos impostores. Em muitas profissões, podemos iludir os outros e blefar com toda a impunidade. Em um barco, sabe-se ou não. Azar daqueles que querem se enganar. O oceano não tem piedade.” Eric Tabarly, em Memórias do Mar

Copiado do Facebook do velejador Ricardo Amatucci

O novo timoneiro da ABVC

DSC_0313DSC_0341DSC_0350Em noite de festa e confraternização a Associação Brasileira de Velejadores de Cruzeiro – ABVC, diplomou sua nova diretoria para o biênio 2017-2018 tendo o paulista Paulo Fax como novo presidente, que terá como missão manter o barco no rumo e dar seguimento a dos mais desejados produtos, dessa entidade que fortaleceu a vela cruzeiro no Brasil, que é o Cruzeiro Costa Leste. Desejemos bons ventos e mares tranquilos ao novo timoneiro.

O mundo perde um grande navegador

Oleg Belly - capitão gutemberg.blogspot

“O homem do mar deixa pegadas sobre os oceanos que jamais se apagarão”. Oleg Belly, lendário e mitológico velejador, desembarcou do veleiro Kotik para traçar rotas nos oceanos celestiais. Oleg faleceu sexta-feira, 20/05/2016, vítima de câncer. O velejador deixa um legado maravilhoso para a vela de cruzeiro, principalmente para quem pretenda navegar pelo oceano austral. A bordo do Kotik, um veleiro fantástico, ele foi inúmeras vezes a Antártida e era um especialista na travessia do estreito de Drake, um dos mares mais amuados do planeta. Conheci Oleg em Natal/RN no final dos anos 90, quando de minha iniciação no mundo náutico. Ele navegava ao largo da costa do Rio Grande do Norte em direção aos EUA, quando decidiu alterar o rumo e adentrar em Natal para rever e abraçar o velejador Zeca Martino, veleiro Borandá. Ao se aproximar do Iate Clube do Natal, ele, a esposa Sophia e um dos filhos estavam no convés e olhavam para o clube, quando o saudoso marinheiro Galego, que estava fazendo manutenção no alto do mastro de um veleiro no píer do clube, deu o alarme que o KotiK estava pegando fogo e a tripulação não havia notado. Foi um corre corre geral. Naquela época existia uma balsa que fazia a travessia dos automóveis entre a zona leste e norte da cidade do Natal e por sorte existia uma base do corpo de bombeiros em um terminal da Petrobras, nas proximidades do porto. O clube acionou os bombeiros e uma das balsas ficou a espera do caminhão para apagar o incêndio do Kotik, tudo numa rapidez espantosa. O interior do veleiro queimou quase que por inteiro e a única vítima foi o gato de estimação de bordo que morreu queimado. O fogo foi causado por um curto-circuito no motor elétrico que suspende a quilha do veleiro. O Kotic teve que permanecer em Natal por vários meses e Oleg refez pessoalmente todo o interior do barco. A imagem que ilustra essa portagem foi retirada do blog Capitão Gutemberg, onde o autor conta relato de uma viagem feita a bordo do Kotic para a Antártida.    

Mais um velejador para singrar os mares do mundo

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Um amigo sempre diz que eu não tenho nada que pedir desculpas por passar alguns dias sem aparecer pelo blog, mas acho que tenho sim, porque compromisso é compromisso e quando me propus a por o Diário do Avoante no ar, foi com a ideia que ele teria atualização diária, mas como nem sempre é possível, vou navegando e dando bordos entre uma desculpa e outra. A desculpa dessa vez foi que estávamos mostrando a um novo aluno do nosso curso de vela de cruzeiro, como é a vida a bordo de um veleiro de oceano e quanto ela é prazerosa.

20160402_083426Pois bem, o Ricardo de Brasília, chegou e de cara já sentiu que a vida de velejador de cruzeiro é cheia de alegrias, boas amizades, extremamente irreverente e que nem sempre a turma está afim de dar uns bordos por aí, porém, é uma vida maravilhosa e que passa bem distante dos estresses produzidos pelas cidades.

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Como primeira aula, participou do churrasco de inauguração da churrasqueira do veleiro Intuição, do comandante Chaguinhas, que começou pela manhã, se estendeu pela tarde e culminou com o início da segunda aula, numa velejada noturna do Aratu Iate Clube até o Suarez, ou portinho da ilha de Bom Jesus – como queiram – , um dos mais gostosos e tranquilos fundeadouros da Baía de Todos os Santos. Foi uma velejada em flotilha, porque tivemos a companhia do veleiro Luar de Prata, do comandante Paulo, num percurso de pouco mais de 14 milhas.

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No segundo dia de aula, navegamos do Suarez até a ilha de Itaparica, num través gostoso, onde dividimos a ancoragem com os veleiros Ati Ati, do comandante Fernando e da grumete Erica, e do veleiro Remelexo, comandante Claudio e imediata Giordana. A noite foi de festa a bordo do Remelexo e mais uma vez o Ricardo sentiu a força da amizade que tempera a alma dos velejadores de cruzeiro.

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O terceiro de dia de curso para Ricardo foi uma navegada pelo Canal Interno de Itaparica, diante de uma paisagem de encantar, até a Fonte do Tororó, uma pequena cachoeira quase sem água, mas que oferece um banho de mar sensacional. Depois do almoço a bordo, emoldurado pela mata exuberante do Tororó, levantamos as velas e tomamos o rumo do fundeadouro da ilha da Cal, outro paraíso da Baía de Todos os Santos, onde passamos a noite. Aliás, na ancoragem da ilha da Cal não precisamos nem olhar para o Céu para ver as estrelas, basta olhar o mar para vê-las refletidas.

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No quarto dia voltamos a Ilha de Itaparica, onde o Ricardo desembarcou, para seguir para Morro de São Paulo, e nos fizemos o rumo do Aratu Iate Clube, navegando sob as cores de um belíssimo pôr do sol. Ricardo foi mais um aluno aplicado que desembarcou do Avoante focado no sonho de singrar os mares do mundo a bordo de um veleiro. Tudo que viu e viveu durante os quatro dias de curso temos certeza que ficará marcado em sua memória como dias maravilhosos e que jamais ele imaginou que teria. Fizemos questão de montar uma grade de curso em que a vivencia sobressaísse sobre os ensinamentos técnicos, porque assim ele veria que a vida a bordo de um veleiro não tem segredos e tudo não passa de um novo olhar sobre a vida, onde se busca a verdadeira interação entre homem e natureza. Desejamos sempre bons ventos e mares tranquilos ao novo velejador e desejamos um dia ancorar nosso veleirinho ao lado do seu em algum recantinho gostoso desse mundão de oceano.

29ª Regata da Redenção do Aratu Iate Clube

regata da redeçãO Aratu Iate Clube promove no próximo sábado, 19/03, a 29ª Regata da Redenção, uma das mais tradicionais do iatismo baiano e um marco na história do clube da Ilha de São João. As inscrições podem ser feitas em qualquer clube náutico de Salvador até as 18 horas do dia 18/03 ou na secretaria do Aratu Iate Clube até 10 horas do dia 19, ao custo de R$ 20,00 por tripulante. A largada está marcada para 12 horas e 30 minutos do sábado e a cerimonia de premiação as 18 horas na sede do clube.

Do muro das lamentações – II

3 Março (260)

No muro das lamentações anterior embrenhei-me entre fios, condutores e terminais que fazem as conexões elétrica e eletrônica das embarcações. Um mundo complexo e incrivelmente fantástico e que enche de orgulho a alma de muito comandante mundo afora, mas que é um prato cheio para o humor azedo dos duendes que povoam os porões dos barcos. Vale salientar que não tenho nada contra equipar um veleiro com as últimas novidades eletrônicas do momento, porém, algumas novidades servem mais para criar problemas do que para ajudar na navegação. E como bem disse meu amigo Fábio Constantino: Quanto mais simples um veleiro for equipado, mais prazer e alegria ele dará ao seu comandante.

Certa feita um amigo me questionou para saber se no Avoante eu usava gaxeta ou selo mecânico – duas formas de resfriamento do eixo quando o motor está em movimento. Claro que entendi a sua pergunta, porque sabia que ele usava o selo mecânico, mas sabia também que a pergunta vinha carregada de alguma crítica sobre minha opção. Respondi que utilizava gaxeta por ser mais simples, de fácil manutenção, barato, seguro e eu mesmo fazia a troca quando necessário. Ele me olhou com a cara de quem estava com o discurso pronto e discorreu uma série interminável de vantagens a favor do selo mecânico, que ele usava em seu veleiro. Porém, estava com sérios problemas de vazamento, não tinha como resolver sem a ajuda de um técnico, e este só estaria disponível na semana seguinte. Disse ainda que estava preocupado em deixar o barco sem ninguém a bordo e que do jeito que estava não tinha como navegar. Para finalizar, acrescentou que Deus o livrasse de nunca ter que utilizar gaxeta em seu veleiro e não sabia como eu, um velejador tão conhecido, ainda utilizava um equipamento tão ultrapassado.

Baixei a cabeça, respirei fundo, concordei piamente com suas palavras e quase lhe dou um beijo de agradecimento por me torrar a paciência. Cá para nós: Ele raramente dava duas velejadas por ano e quando saía, o barco apresentava algum defeito, além de que, a briga dele com o selo mecânico era antiga. Deus é mais!

Em um grupo de mídia social os participantes trocavam informações sobre manutenção nos sanitários e eu lia com um sorriso no rosto os tratados de como proceder para manter um sanitário de barco funcionando a contento. Uns usavam graxa, outros silicone, outros desmontavam tudo a cada semana e passava um paninho fino entre as tubulações, teve até quem cheirava a encanação para sentir algum vestígio estranho e como sempre, apareceu aquele que só utilizava água doce, porque era assim que tinha que ser. Teve até quem detalhasse a técnica de sentar no vaso e como fazer força na hora do vai ou racha. Diante de tantas “técnicas científicas” não vi ninguém dizer assim: Gente, a melhor maneira de manter um sanitário de barco funcionado maravilhosamente bem, basta despejar semanalmente um copinho de óleo comestível, de preferência, aqueles que se joga fora depois de alguma fritura. Simples assim!

Eita, e já que falei em fritura, vou contar um segredo e peço que não espalhem: No Avoante Lucia frita peixe, bolinhos de arroz, batatinhas ou qualquer outra gostosura do mundo maravilhoso da gastronomia. Aí alguém vai se arrepiar e questionar: – Como é? Fritura a bordo? Isso é uma aberração desaconselhável por todos os manuais da navegação! O mau cheiro da fritura nunca mais vai sair! Vai entranhar nas anteparas! Vai fazer todo mundo enjoar! Fritura a bordo, jamais! No Avoante nunca existiu essa preocupação com frituras e fazemos questão de propagandear que usamos sim e sem medo.

Grande parcela dos problemas de manutenção a bordo nasce na cabeça do proprietário e na maneira de como ele se propõe a resolvê-los. Muitos se revolvem com um balde de água, bucha e sabão, mas como bons humanos que somos, procuramos a saída pelos tortuosos corredores de um intricado labirinto.

Nas minhas conversas com amigos e companheiros de velejadas, muitas vezes meus conselhos passam despercebidos ou são sumariamente descartados de tão simplórios que são. Mas como o ditado ensina que se conselho fosse bom era muito bem vendido, vou seguido em frente e assistindo do cockpit o temporal cair lá fora. Às vezes vejo um ou outro velejador passar descabelado pelo píer, soltado impropérios ao vento, porém, nem tudo são flores e nem adianta o observador se meter a dar um pitaco, senão, é arriscado levar um sonoro xingamento e a mãe da gente não tem nada com isso.

Nelson Mattos Filho

Velejador

Sobre velejadores e índios

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Claro que ninguém imagina que morador de veleiro viva apenas nos circuitos ligados pelos oceanos, porque se assim fosse a vida a bordo não teria sentido. Já escutei velejador abri a boca para dizer que não tem para que conhecer as paisagens e cidades do interior, porque tudo é a mesma coisa e ele já soltou as amarras da vida urbana e não pretende retornar tão cedo. Ele encerrou o assunto dizendo que o negócio dele é o mar e ponto final. Pois não!

Tem velejador que chega ao destino, se aboleta dentro do barco e nem nada para o resto do mundo e ainda tem a petulância de dizer que conheceu tudo e sinceramente não viu graça. Não poderia ter visto! Tem alguns que aprumam o barco no rumo do Caribe e passam a toque de caixa pela costa brasileira afirmando que aqui não tem nada de bom.

Certa vez conheci um em Itaparica que dizia conhecer a Bahia de cabo a rabo. Perguntei se ele havia passado em Camamu e ele disse que sim. Perguntei se havia conhecido a Ilha de Campinho, as ilhas de Goio e Sapinho, se havia navegado até Marau. Ele disse que tinha ido somente até Campinho e que já estava de bom tamanho, pois tudo aquilo é uma coisa só. Danou-se!

Sem querer ser chato, perguntei o que ele havia conhecido na Baía de Todos os Santos. O cara olhou para mim e respondeu com um ar de quem é o rei da cocada preta: – Nelson, eu tenho dezenas de anos no mar e tenho experiência para dar e vender. Não preciso sair de Itaparica para saber o que é bom, porque se eu quiser conhecer basta acessar o Google. Além de que, essa Baía de Todos os Santos é pequena para a bagagem que eu tenho. Cabra bom!

Gostamos de bater perna pelos locais que jogamos âncora, conhecer pessoas, interagir com os nativos e principalmente conhecer a feira livre, mesmo que está seja apenas uma pequena banca. Se tiver uma padaria então! Esse é um costume que trouxemos das nossas andanças pelas BRs que cortam o nordeste. Entravámos em uma estradinha qualquer apenas para ver até onde ela iria. Tivemos um monte de surpresas, boas e ruins, mas tudo valeu a pena.

Na Baía de Todos os Santos podemos dizer que conhecermos bastante coisa, mas tem muito ainda a ser conhecido. Cada lugarzinho é único e nada se parece com o outro. Fico intrigado quando escuto alguns velejadores baianos denegrindo alguns fundeadouros, dizendo que tal lugar não merece ser visitado, que é sujo, que a água é barrenta, que venta muito, que o barco balança, que não tem o que fazer, que a água é fria, que venta pouco e mais uma série interminável de desculpas esfarrapadas. E tem até quem se vira para a gente para dizer que falamos bem dos lugares porque não somos baianos e não conhecemos bem. Alguns chegam a empinar o nariz na tentativa de nos desmentir. Deus é mais!

Rapaz, comecei o texto falando de uma coisa e agora já estou enchafurdando em outra. Acho melhor tomar o rumo de volta antes que caia sobre mim um temporal vindo das bandas do noroeste. Eu queria mesmo era falar de um bordo que demos quando pegamos a estrada, montados em nosso Unozinho de apoio, e fomos parar num lugar pitoresco batizado de Cachoeira dos Índios, localizado na estrada da Linha Verde, que liga Sergipe a Bahia, a 100 quilômetros de Salvador.

A placa indicativa sempre chamou minha atenção e várias vezes quis entrar para conhecer, mas foi a partir de um bate papo com o marinheiro Serrinha, no Angra dos Veleiros, que a vontade aflorou de vez. Serrinha disse que conhecia a Cachoeira, que vez por outra ia até lá com os familiares e que o banho era muito gostoso. Perguntei se havia índio mesmo e ele respondeu que tinha um que ficava cobrando a entrada dos visitantes. Vou lá! E fui.

Chegando a porteira demos de cara com três figuras com a cara que haviam tomado à última dose fazia poucos segundos. Um deles se apressou em mostrar a placa que indicava o valor de R$ 3,00 o ingresso por pessoa. Pagamos, procuramos saber quem dos três era índio e foi uma risadagem geral. O mais velho disse que de índio não entendia nada, mas de cachaça ele era bom. Tiramos algumas fotos com os “índios papa mé”, pegamos algumas, ou quase nenhuma, informações e aceleramos o carro pela estradinha de terra. Antes de seguir, um deles disse que mais na frente encontraríamos o “índio prefeito” e que esse nos diria tudo. Beleza!

Não seguimos nem 200 metros e tivemos que parar, porque a estradinha de terra estava sendo restaurada e veio um senhor perguntado se iriamos conhecer a Cachoeira, informou que era o proprietário e que esperasse um pouco que ele levaria a gente até lá. Olhei para Lucia e disse: – Pense numa tribo arretada! E Lucia disparou: – Aqui tem índio não. Onde já se viu índio com cabelo crespo!

Uma pausa para respirar.

Nelson Mattos Filho/Velejador