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Do reino dos oceanos

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Claro que você tem todo direito de querer, ter e sonhar com um veleiro high-tech e beleza se discute sim, mas não vou discutir, prefiro olhar a imagem, fechar os olhos e navegar em sonhos!

Zanzibah – Parte II

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Enquanto o Zanzibah cruzava as águas da Baía de Todos os Santos, buscando a luminosidade avermelhada do Farol da Barra, eu aproveitava o conforto do piloto automático para ficar à espreita com os sentidos antenados em pressentir a movimentação das sombras da noite, porém, era como diz o ditado, um olho no peixe outro gato, pois não tem como navegar as águas encantadas da terra de todos os santos, emoldurada por uma rica biblioteca ao ar livre, da mais pura história de um povo varonil, e ficar indiferente. Navegar no mar da Bahia é show! Certa vez, na Ilha de Itaparica, em conversa com um velejador alemão, que já havia dado várias voltas ao mundo, ele apontou um veleiro que se dirigia para o canal interno da Ilha e disparou: “Quer saber? Não existe, no mundo, lugar melhor para velejar do que a Baía de Todos os Santos…”. Não sou bairrista, não sou baiano e nem conheço os mares do mundo, mas não duvido e boto fé nas palavras do alemão.

E foi nesse cenário de reciclagens e lembranças que cruzamos a Boca da Barra de Salvador, agradeci os lampejos do belo farol e posicionei a proa do Zanzibah para navegar entre o estreito canal entre o Banco de Santo Antônio e a praia da Barra, mas uma novidade me deixou encucado e até hoje fico a me perguntar: Onde danado foi parar a boia luminosa, lampejo amarelo, que outrora estava ali para orientar os navegantes quanto a ponta Norte do famoso banco de areia? Será que me confundi? Não, não pode ter sido! A boia não estava lá, porque passei próximo do ponto, diminui a velocidade, olhei em volta e nada da danada. Bom, deixa pra lá e vamos seguir viagem!

Desde que enveredei pelos caminhos do mar fiquei condicionado a acompanhar as previsões do tempo, na esperança de me antecipar aos amuos da natureza e ter com isso navegadas sem muitas surpresas. Mas confesso que nem sempre a coisa funciona como prometem os satélites, gráficos e os analistas, e é daí que temos de tirar da cartola a paciência e fazer uso dos ensinamentos aprendidos na lida náutica, entre eles, que previsão é apenas previsão. Ao observar os gráficos para os dias dessa navegada entre Salvador e Recife, vi que seria de vento Nordeste e, em certas horas do dia, suaves refrescos de Leste. Nada mal, pois bastaria motorar até a ponta de Itapuã e dali abrir as velas e curtir o momento. Ora, estávamos saindo a noite, período de tradicionais ventos brandos, ou nenhum, na Bahia, mas tudo bem, estenderíamos o uso do motor até o dia amanhecer e assim que entrasse a viração, velas ao vento.

O dia amanheceu, foi passando, passando e nada do Leste dar sinal de vida e o planejamento de chegar a Recife depois de 60 horas de navegada foi sendo refeito, outro dia chegou e nada do nordestão abandonar o posto. – E o mar? – Bem, o mar era de amante de almirante! – Como assim? – Rapaz, é aquele mar que mais parece um tapete persa de tão macio. Mar feito para fazer todos os desejos da amada. – E não poderia ser mar de esposa de almirante? – Pode ser, né, mas as vezes o cara quer descontar algumas pelejas caseiras e sendo assim, quanto pior, melhor!

Foi somente no terceiro dia de navegada, já no litoral de Alagoas, que o Leste resolveu retornar das férias de verão. Desligamos o motor e apaguei a luz encarnada que vinha acesa em minha cabeça, pois dificilmente conseguiríamos motorar até o Porto de Maceió com a quantidade de diesel que restava. – E não se veleja com vento Nordeste? – Claro que sim, mas com quatro ou cinco nós de vento, para empurrar um barco de cinco toneladas, ninguém merece, né!

Em Maceió, porto que adoro e onde temos grandes e bons amigos na Federação Alagoana de Vela e Motor – FAVM, nosso tripulante, Jorge Rezende, desembarcou e voltou para Natal de ônibus, na mesma noite em que chegamos, porque o tempo que ele havia reservado para a viagem havia se esgotado. Jorginho foi um excelente parceiro, um exímio pescador, excelente papo e fez os dias de vento nordeste ficar mais divertidos a bordo. Sem nosso tripulante, Lucia preparou o jantar e desmaiamos na cama nos embalos das águas mansas do porto do Jaraguá.

Pela manhã, com a ajuda providencial dos amigos Plínio Buenos Aires, Ângela Cheloni, Paulinho Cerqueira e Pinto de Luna, conseguimos que o barqueiro Jó viesse nos dá apoio para comprar diesel e depois seguir viagem. Manobra feita, barco abastecido, agradecemos ao Jó e ao tocar na chave para ligar o motor, nada. Resultado: Entrada de ar! Tentei os truques básicos e nada. Mais uma vez, pedi ajuda aos amigos para me indicarem um mecânico, acionei também a turma online do grupo Velejar, e no finalzinho da tarde chegou um marinheiro da força tarefa da FAVM para colocar ordem na máquina.

Dezoito horas, do dia 06/03, sexta-feira, tomamos o rumo da capital do frevo. – Vento? – Nordeste soprando a 4 nós!

Nelson Mattos Filho

Zanzibah – Parte I

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O Arquipélago de Zanzibar é um paraíso exótico da Tanzânia, costa leste africana, formado por duas ilhas, Zanzibar e Pemba, e é considerado ponto de fusão entre a África e a Arábia, recebendo forte influência muçulmana. Em swahili, língua banto mais falada na região, o Arquipélago é conhecido por Unguja, porém, os muçulmanos deram-lhe o nome de Zanj-Bar, que significa costa dos negros, e daí Zanzibar. O paraíso africano tem praias de azul turquesa, areias brancas e finas e um povo de sorriso largo. – Se eu conheço? – Conheço não, mas fui escavacar no maravilhoso mundo Google e encontrei na Wikipédia e no site Catraca Livre as informações que abrem o diário da navegada que fiz a bordo do veleiro Zanzibah, entre Salvador/BA e Recife/PE, no início de março de 2020.

– Ei, peraí, Nelson – O que foi? – Você começou explicando o que danado é Zanzibar e agora vem falando em Zanzibah? – Sim e daí? – E daí o que? – Homem, deixe de coisa “coisada” só por causa de um “r” ou um “h”, pois digo que vamos navegar que é o melhor a gente faz, viu!

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E foi assim que dois dias antes do Carnaval me ligou o velejador João Maria de Lima, o grande Joca, para saber o que eu estava fazendo. Respondi que estava dando um treinamento especial no “figueredo” para enfrentar com bom rendimento o reinado de Momo. Logo em seguido ele passou a senha que faz brilhar os olhos de qualquer velejador apaixonado: “Que tal ir pegar um veleiro na Bahia e levá-lo a Recife? ”. – Quando? – Ontem! – Oxente, meu bichim, tais com brincadeira? – Estou não, Nelsão, é coisa de embarcar, levantar as velas e seguir rumo! – Só tenho condições após o Carnaval? – Pronto, fechado, marque o dia! – Na primeira segunda-feira após calarem os batuques! – Pois boa viagem, Nelson, vou falar com o Galego e tudo certo. – Que Galego? – Vicente Gallo, homem, porque é ele que está no comando da transação. – Ok, beleza!

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O Carnaval chegou, os blocos passaram diante da varandinha da nossa cabaninha de praia e entre uma gelada e outra eu aproveitava para acompanhar as previsões de tempo, colocando na cachola os dados e gráficos dos satélites e a partir deles, traçar minhas impressões e estratégias de navegada. Na tela o cenário não mudava: Vento Nordeste e mar cheio de amor para dar. Maravilha!

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Como sempre faço em minhas navegadas, convidei alguns amigos que gostam de mar para embarcar nessa onda, mas não senti firmeza nas respostas e assim a tripulação seria apenas eu e Lucia. Liguei para meu dentista, Jorge Rezende, pedindo para adiar uma consulta que estava marcada, expliquei o motivo, porém, ele disse que adiaria, mas eu teria que levá-lo. Bora nessa!

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Sábado, 29 de fevereiro, desembarcamos no aeroporto 2 de Julho e antes de chegar na marina Angra dos Veleiros, no bairro da Ribeira, em Salvador, passamos pela Igreja do Bonfim, para pedir benção ao Senhor da Colina Sagrada, depois paramos em uma banca de acarajé e após matar a vontade da iguaria baiana, fomos nos apresentar ao barco, um modelo Delta 32, muito bem cuidado e pronto para velejar. Umas cervejas depois, com o pretexto de comemorar o breve retorno ao mar, voltamos a bordo para dormir o sono dos justos, embalados pelo balanço suave das águas que banham a Península de Itapagipe.

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O domingo, 01/03, foi de verificar os detalhes do barco, fazer inventário dos equipamentos de bordo e segurança, ver documentação, checar a rota a ser seguida, abraçar meus filhos e genro, Nelsinho, Amanda e João, que moram em Salvador, comer pastel, que Nelsinho adora, e fechar a noite saboreando o delicioso sorvete da Ribeira, que Nelsinho também adora. Aliás, quando o assunto é comida, ele gosta de tudo.

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Segunda-feira, 02/03, barco pronto, abastecido e ficamos à espera da liberação do seguro total, que até então estava pendente e o Vicente pediu para aguardarmos um pouco. Pretendíamos soltar as amarras às 9 horas da manhã, aproveitando a maré de enchente que na baía de Itapagipe deve ser bem observada. Como a liberação não chegou, abortamos a saída, fechamos o barco, pegamos um “buzão” e fomos bater perna pelo centro da cidade. Salvador é uma festa de cores e sabores, emoldurada por paisagens belíssimas!

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À tardinha estávamos de volta ao clube e com a mensagem informando que poderíamos soltar as amarras. Às 18 horas, com o Sol começando a clarear o outro lado mundo, maré com duas horas de enchente, o Zanzibah cruzava a boia da Ribeira, ponto crítico, e aproava a boca da Barra.

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Olhei para o alto da Colina Sagrada, pedi proteção ao Senhor do Bonfim e falei baixinho: Recife, aí vamos nós!

Nelson Mattos Filho

Sobre barcos e barcos

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Existem barcos que vão ali, outros vão alhures e alguns que são verdadeiras obras-primas da engenharia marinheira e que tornam infinitos sonhos e horizontes

Sinistro

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Não, não foram fatalidades os recentes incêndios que consumiram embarcações em marinas brasileiras e qualquer um que frequente as garagens e píeres das marinas e clubes náuticos espalhados pelo Brasil, sabe que é alto o grau de risco para que novos casos ocorram.

Aviso aos navegantes e afins

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A Associação Brasileira de Velejadores de Cruzeiro, faz o lançamento dos principais eventos do seu calendário oficial, o Encontro Nacional, em sua 17ª edição, e o Cruzeiro Costa Leste, edição 2019. Não perca o rumo!

Ensinamentos do Rapunzel

IMG-20190121-WA0002O velejador Marçal Ceccon, gente de dez, certa vez embarcou a família no veleiro Rapunzel e se mandou pelos mares do mundo, numa das viagens mais fantásticas e maravilhosas de um brazuca, numa época em que os meninos que idealizariam e criariam as redes sociais nem pensavam em nascer. Não quero dizer com isso que o Velejador, amigo que tenho muito carinho, seja velho, pois no máximo é um pouquinho desgastado, apenas quero dizer que nos dias de hoje a volta ao mundo de Ceccon, aliás, as voltas ao mundo, porque depois da primeira vieram outras, seria viral, como se diz no jargão “internético”. As viagens do Rapunzel renderam livros que fazem parte da biblioteca de boa parte dos amantes da boa leitura, sem contar os apaixonados por barcos a vela, porque os escritos de Marçal são deliciosos, verdadeiros ensinamentos sobre as coisas do mar e fonte de observação sobre o cotidiano dos países e ancoragens por onde passou. Foi do livro Rapunzel nos Mares do Sul que pesquei, com ajuda do “potiucho” Antônio Carpes, a frase atualíssima:  

“Para se dar bem nessa vida de nômades lembrem-se, quando chegarem a algum lugar vocês serão apenas visitantes, meros espectadores. Tudo o que acaso virem, representa apenas o último instante da história do local. Julgar os fatos e emitir opiniões radiais a luz dessa visão parcial não é, definitivamente, uma boa ideia.”