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De conspiradores e malucos

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Uma notícia que acaba de chegar por entre as marolas do grande mar virtual me remeteu a um episódio que se passou numa tarde ensolarada na Baía de Camamu em 2005, enquanto batíamos papo, regado a umas cervejinhas estupidamente geladas. Mas antes de contar o bafafá, vou comentar o que me fez lembrar o caso.

Os jornais online dessa quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016, dão conta que um casal de velejadores dos EUA pediu ajuda a Guarda Costeira na terça-feira, 16, enquanto navegava nas proximidades da costa cubana e foi resgatado por um navio da Disney que seguia para Miami, mas ao atracar no porto, o velejador foi preso pelo FBI sob a acusação de conspiração. As autoridades dizem que ele participou de um ataque aos computadores de um hospital em Boston, em 2014, e quando surgiu seu nome como um dos resgatados, não tiveram duvidas em colocar o homem atrás das grades.

No mar tem todo tipo de gente e os barcos a vela ultimamente tem servido para um bocado de maruagem. Não duvido nada se algum dia aparecer alguma autoridade querendo impor regras de fiscalização para todo veleiro que deixar ou chegar ao porto, nos mesmos moldes que acontecem com os navios.

Certa vez fui recriminado em um certo clube náutico por dar ouvidos e acolher de bom grado todo velejador de passagem pela cidade. Defendi-me com a alegação de ser também um velejador de cruzeiro e por isso saber das dificuldades que um viajante do mar tem por aí afora, onde nem sempre a recepção é amistosa. Claro que minhas alegações foram motivos de muxoxos, mas eram as mais verdadeiras e dificilmente aqueles que recriminam estão a fim de ouvir justificativas. Se o cara é gente boa ou não, até que ele mostre sua face sinistra eu estou pronto a ajudar.

A história do velejador conspirador puxou minhas lembranças para baixo daquela palhoça em Camamu, porque naquele dia ficamos cara a cara com uma valente e raivosa militante de um dos grupos terroristas que atuam na Espanha. Estávamos já na sei lá quantas cervejas, quando ancorou um veleiro de bandeira espanhola e de lá desembarcou um casal que se dirigiu para onde estávamos e sentou em uma mesa vizinha a nossa. Lucia, como boa anfitriã, convidou o casal a sentar com a gente, pois estávamos junto com o casal Breno (que Deus o tenha) e Lau e os dois sabiam falar fluentemente vários idiomas. O convite foi aceito de pronto.

Naquele tempo havia acontecido um grande atentado na Espanha e o Breno comentou sobre o ocorrido, condenando o grupo que havia assumido o ato terrorista. A mulher, que havia acabado de chegar, fechou a cara e o homem acendeu um cigarro e deu um sorriso pelo canto da boca. O Breno insistiu no tema e a Lau atiçou o fogo soltando impropérios contra os terroristas. Sem conseguir segurar à ira, a mulher levantou, deu um soco na mesa e gritou palavras em um dialeto espanhol que fez o Breno corar. A Lau, que não é de ficar calada, soltou os cachorros para cima da mulher e assim o bafafá foi aumentando e eu já começando a achar que teria que centrar fileiras na turma do deixa disso.

Breno levantou e apontou o dedo para o rosto da mulher e respondeu gritando no mesmo dialeto que ela falava. A mulher puxou o marido pela camisa, saiu gritando alguma coisa, fazendo gestos como se estivesse apontando uma arma em nossa direção e voltaram para o barco.

Perguntei ao Breno o que havia acontecido e ele disse que a mulher era militante ao grupo terrorista do atentado na Espanha e não admitia que ele e Lau incriminassem o ocorrido e que se tivesse uma metralhadora ali acabaria com a gente sem piedade. Breno ameaçou denunciá-los a Polícia Federal e assim o casal se retirou soltando palavras de ordem e fazendo ameaças.

Para aliviar a tensão, peguei outra cerveja e ficamos ali observando o veleiro dos estranhos, mas a Lau não sossegava o facho e de vez em quando soltava palavrões em direção ao barco. A noite chegou, o sono bateu, os ânimos acalmaram e fomos dormir o sono dos justos. No dia seguinte, procurei o veleiro do casal na ancoragem e nem sinal. Como não vimos o nome do barco e não perguntamos os nomes da dupla, pois o moído aconteceu rápido e não tivemos tempo para as apresentações de praxe, até hoje a história navega em minhas recordações e tremo só em pensar que podia ter sido metralhado por uma terrorista braba que só um raio.

Aí você pergunta: – O que danado isso tem a ver com o conspirador preso nos EUA? Eu respondo: – Sei lá, mas no maravilhoso cruzamento de informações que ocorre em nosso cérebro, muitas vezes alguns arquivos se relacionam sem que nem mais.

Nelson Mattos Filho/Velejador

O Noroeste

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Quem navega pelas bandas da Bahia, entre um bordo e outro, já deve ter escutado falar do vento noroeste que deixa o mar dos Orixás com forte sabor de pimenta ardida e que atinge facilmente velocidades de mais 40 nós. Os navegadores baianos falam do noroeste a boca pequena para não acordar a fera adormecida, mas sempre que se escuta trovoada pelos lados do quadrante norte, o que mais se vê é gente se apegando com todos os Santos em busca da proteção divina. Deus é mais!

Eu navego pelas águas do Senhor do Bonfim há um bom tempo e já presenciei a força desse vento na Baía de Camamu e em Salvador, mas nunca havia me enganchado com ele enquanto navegando e até achava que a fama de durão do bicho fosse mais assombro do que verdade, porque sempre apostei que quem navega entre o Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba – mar de gente grande -, estava vacinado contra um bocado de trapizomba. Pois num é que eu estava bem enganadinho da silva!

Uma coisa é você está com o veleiro ancorado – bem ancorado – e ver com olhos arregalados a chegada da fera e escutar incrédulo o bicho zoar nos estais. Nessas horas a gente não sabe se fica dentro da cabine, se fica fora, se pula na água, se vai ao banheiro ou se faz tudo ao mesmo tempo. São cerca de meia hora de reza braba e promessas que nem de longe lembramos depois quais foram mesmo, porque a cabeça e coração vão a mil. E quando a âncora da o primeiro sinal que vai garrar? Aí lascou tudo e ai daquele tripulante que se atrever a perguntar o que está havendo. Primeiro que a resposta não sai e segundo que é arriscado ele servir de depósito de impropérios saídos da boca de um comandante amalucado e sem controle da situação. É bronca, mas depois que a festança acaba e certificamos que continuamos ancorados, a primeira coisa que se faz é soltar um longo suspiro e correr para pegar uma cerveja bem gelada, que é para espalhar o sangue. O passo seguinte é colocar as ideias em ordem e escolher a melhor forma de contar para os amigos o que se assucedeu. Continuar lendo

Da mesa dos deuses

12 Dezembro (221)

A Moqueca de Banana com Camarão é uma das especialidades de Lucia na cozinha e sinceramente eu sou suspeito para falar, pois como diz minha Mãe: “– Tudo que Lucia faz eu digo que é bom”. E apois! Ela aprendeu a receita da moqueca de banana em nossa primeira ida a Baía de Camamu e num passeio que fizemos para conhecer a Barra do Sirinhaém. Quem ensinou foi a saudosa Dona Lourdes, proprietária de um restaurante no local e que servia esse prato como carro chefe de sua cozinha. Lucia – comunicativa e indagadora como boa cearense – provou o prato, detalhando os ingredientes, e depois do almoço foi até a cozinha do restaurante pedir para Dona Lourdes ensinar os segredos. Não deu outra! Lucia incrementou o camarão a receita e o resultado foi saborosíssimo. Certo dia ela soube que o programa de Ana Maria Braga estava fazendo chamadas para o quadro Mande sua Receita e as melhores seriam produzidas ao vivo. A receita foi enviada e constou no site do programa. No final de 2015 Lucia fez a moqueca em três oportunidades e em cada uma delas saiu com uma configuração diferentes: Um dia foi só banana; no outro, banana com robalo e no terceiro, Banana com Camarão. Foi difícil saber qual ficou mais delicioso, porém, se você quiser provar um deles aí vai a receita:

MOQUECA DE BANANA COM CAMARÃO

– INGREDIENTES:

6 Bananas da Terra, maduras cortadas em rodelas;

400g de camarão fresco sem casca;

1 cx de leite de coco;

suco de três limões;

1 cebola grande, 2 tomates, 1 pimentão – todos cortados a gosto;

1 xícara de coentro e cebolinha;

uma pimenta de cheiro, duas pimentas malaguetas, um dente de alho socado;

1 colher de chá de pimenta do reino moída;

2 colheres de sopa de azeite de oliva;

2 colheres de sopa de azeite de dendê.

– MODO DE FAZER:

. Reserve o leite de coco e os camarões.

. Em uma panela coloque os outros ingredientes, misture bem, deixe descansar no mínimo por 30 minutos.

. Coloque o leite de coco e ponha no fogo. Deixe cozinhar até as bananas ficarem macias. Acrescente os camarões e azeite de dendê. Quando os camarões ficarem rosa, retire do fogo.

. Sirva acompanhado com arroz e farofa.

Bom Apetite!!!!

Uma prosinha de nada

Outubro (21)

Os tempos não estão fáceis nesse começo de século. Situações que pareciam resolvidas e que pensávamos fazer parte apenas dos registros empoeirados e adormecidos nas estantes de uma silenciosa e antiga biblioteca, ressurgem travestidos em terríveis e imagináveis tentações. A barbárie, a intolerância, a covardia, a crueldade, a brutalidade, a guerra, a maldade, os conflitos religiosos, a demagogia barata, a canalhice politiqueira, as tragédias ambientais e a falta inclemente de justiça desassossega o mundo, espalhando terror e montado na besta fera do caos.

Acho melhor me recolher à insignificância desse mundinho embarcado, que aposto há onze anos, e deixar que os “reis, rainhas e valetes” decidam o destino do mundo. Do cockpit aconchegante do meu veleirinho vejo o mundo com outras cores, mas não deixo de escutar os lamentos das cidades. Não tem como não ouvir, porque é um grito alto, insistente e que nos remete ao papel de bobos da corte.

Não quero pintar meu rosto brasileiro com as cores de outra nação, até porque soaria falso em minha cara lavada. Quero mesmo as cores do azul, branco, verde e amarelo, pois assim serei eu mesmo e não outro. Mas cá pra nós, a nossa bandeira está com uma coloração amarronzada muito estranha.

A lama que escorre pelos salões do “reinado” transbordou, destruiu barragens e espalhou vítimas indefesas no rastro de sua viagem criminosa rumo ao oceano, que é onde toda porcaria sempre deságua. Nada de novo no front e Netuno que faça sua parte o mais rápido possível, pois temos que virar a página e a fila criminosa anda ligeiro.

Pois é, hoje acordei assim meio sei lá e estou achando que é esse calor do Sol inclemente da Bahia que tem cozinhado meu juízo desajuizado. Mas pode ser também porque passei boa parte da noite passando o olhar abobalhado nas últimas canalhices do reino. Como diria minha avó: É muita canalhice junta!

Mas sabe de uma coisa, é melhor me ater com o reino de Netuno, onde as coisas são o que são, e deixar a cabrueira do planalto de lado, para não me apegar com a ira dos seguradores de bandeiras.

Então, para não meter a mão em cumbuca ideológica, vamos navegar e aproveitar esses dias de final de primavera ensolarada das terras do Senhor do Bonfim e seu séquito de Orixás. O tempo está excelente e convidando para uma cerveja estupidamente gelada, daquelas que Lucia batiza de “cu de foca”. Eita que agora deu água na boca!

E por falar nas partes baixas da foca, lembrei-me de uma boa que aconteceu na Ilha do Goio, na apaixonante Baía de Camamu. Estava eu tirando uns retratos paisagísticos dos encantos do lugar, quando me aparece Lucia perguntando se poderíamos tomar uma cerveja. Claro que sim! Fechei a máquina e nos encaminhamos para as mesas de madeira rústica que ficam embaixo de uma grande arvore sombreira. Eita vidinha difícil!

No caminho demos de frente com um rapaz que vinha do bar, mas eu já havia notado que ele era cliente. Lucia pensando que era o garçom tratou de perguntar: – Você tem cu de foca? O rapaz arregalou os olhos, olhou para os lados, olhou para mim e fez aquele gesto com os ombros que não estava entendendo a pergunta indiscreta. Rindo da presepada, informei a Lucia que o rapaz era cliente e não o garçom. Ela tratou logo de se explicar, traduzindo a expressão e todos caíram numa sonora gargalhada. Uma senhora que ouviu a conversa não perdeu tempo e gritou para o dono do bar: – Eu também quero o cu do bicho!

E por falar em cerveja gelada, se você pensa em navegar por aí empunhando uma latinha do líquido refrescante é bom ficar alerta, ou chamar um abstêmio para conduzir a embarcação. Assim como acontece nas ruas, a Marinha do Brasil está empenhada em fazer valer a Lei Seca no mar e para isso intensificará a fiscalização nesse verão que chega quente que nem brasa. Tem quem reclame e tem quem ache certo, eu mesmo faço as duas coisas, pois tem muito condutor de lanchas e motos aquáticas fazendo miséria por aí. E os velejadores? Pois é, mas esses navegam quase parando e raramente se metem em barca furada. Quando a sede aperta, o povo da vela prefere jogar âncora e curtir a paisagem com os amigos. Nessas horas não tem estoque de cerveja que consiga aguentar o tranco.

Eita que hoje eu misturei assunto para dedéu e até me perdi nos bordos. Mas também com esse calor de lascar moleira de desavisado num tem quem consiga concatenar as ideias. Os miolos se misturam dentro do quengo feito manteiga.

Acho que preciso de uma cerveja!

Nelson Mattos Filho /Velejador

Registros e lembranças de uma velejada

Outubro (80)

VIAGEM NO VELEIRO COMPAGNA

DIÁRIO DE BORDO

No final de outubro de 2015 embarcamos no veleiro Compagna, um Delta 36, a convite do comandante Braz, para levá-lo de Salvador a Paraty. Foi uma viagem maravilhosa em que registrei dia a dia em um diário.

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1º dia – 24/10

Saída do Aratu Iate Clube às 8horas e 40 minutos no rumo de Camamu/BA. A bordo os proprietários Braz e Cris, eu e Lucia. Vento ESE e mar de almirante. Velejada tranquila, porém, Braz e Cris tiveram leve desconforto com o fatídico enjoo, mas nada que tirasse o sossego de nossa velejada. Afinal de contas era o primeiro contato deles com o mar aberto e era de se esperar que o enjoo desse o ar da graça. Um peixe se encantou com a isca artificial e teve que ser embarcado. Chegamos à barra de Camamu com maré de enchente e às 21h20minutos jogamos âncora em frente à casa da saudosa Dona Onília Ventura, na Ilha de Campinho.

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2º dia – 25/10

Acordamos cedo, tomamos café e desembarcamos para rever e abraçar Aurora, uma das pilastras da Ilha de Campinho e, para mim, a melhor referência da Baía de Camamu. Em seguida fomos de botinho até a Ilha de Goio, onde passamos bons momentos entre banhos de mar e bate papo com o proprietário do único restaurante da pequena ilha, mais conhecido como Sr. Goio, que é uma figura. Retornamos ao Compagna para almoçar uma moqueca, preparada por Lucia com o peixe que pescamos. No fim da tarde eu e Lucia desembarcamos para despedir de Aurora e retornamos ao Compagna para o sono dos justos. Continuar lendo

Notícias do mar – II

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Depois de passar por Camamu, Ilhéus e Abrolhos, atracamos hoje o veleiro Compagna no Iate Clube do Espírito Santo. Até aqui os ventos e o mar foram maravilhosos com a gente e nem uma pauleira que nos pegou de surpresa na segunda noite em que dormimos fundeados em Abrolhos, como também a proibição sem nenhum sentindo para o desembarque na ilha Santa Bárbara, conseguiu tirar o brilho de nossa navegada. Amanhã vamos ganhar novamente o mar no rumo do Rio de Janeiro e tomara que o tempo continue a nos acariciar.   

Vai uma banana aí?

(25) Fevereiro

Fico encantado quando vejo cenas como essa nos barcos de bandeira estrangeira. O “gringo” sabe como aproveitar o melhor da vida de cruzeirista, em que a simplicidade de hábitos faz toda a diferença para quem pretende navegar a toa por ai. Um cacho de bananas pendurando no estai. Isso é bem típico em barcos estrangeiros navegando pelo litoral da Bahia. Principalmente quando eles dão uns bordos pela Baía de Camamu/BA.