Arquivo da tag: homenagem as mães

Cartas de Enxu 15

4 Abril (145)

Enxu Queimado/RN, 14 de maio de 2017

Sabe Ceminha, se Deus me concedeu uma graça, essa foi ser seu filho e de todas as alegrias que já tive na vida, a mais maravilhosa é poder continuar te abraçando, acariciando seus cabelos e beijando seu rosto. Sei que não sou aquele filho tão presente, como a senhora queria, porque minha sede de aventura sempre me leva a apostar em rumos que transbordam em dolorosos lamentos em seu coração, mas sei que mesmo assim sigo abençoado, porque sinto a força de sua presença em cada passo que dou.

Ceminha, sei que poderia passar horas e horas escrevendo palavras de ternura e carinho e mesmo assim não falaria tudo o que sinto pela Senhora, justamente porque são palavras vindas de um poço de amor sem fim, mas não vou, pois preciso lhe contar coisas dessa vidinha que escolhi, sob as sombras dos coqueirais de uma Enxu mais bela.

Sabe Mãe, não é difícil e nem complicado optar pelas coisas simples da vida e isso eu aprendi quando aproei pela primeira vez meu Avoante para as águas da Baía de Camamu. Aquela entrada de barra meio enigmática, meio mágica, meio assustadora e bastante interrogativa, foi como a abertura das cortinas de um teatro encantado em que luzes, cores e cenário nos leva a um fascinante delírio de emoções. Aquele momento me transformou e nunca mais consegui ver o mundo através de outras lentes, outras cores, outros cenários e outras certezas, pois aquilo era a vida em seu mais lindo e fiel esplendor. Mas Camamu ficou para trás e um dia voltarei a navegar sobre os segredos de suas águas e com o sonho sonhado de por lá permanecer para sempre. Mas não se avexe minha Ceminha, pois isso são planos de um sonho de vida.

Hoje estou aqui, sobre as sombras da varandinha de uma cabaninha de praia, olhando o mundo pelas lentes com que vi pela primeira vez a linda baía mágica da costa do dendê e sabendo que, apesar dos pesares e das vontades dos homens, a simplicidade, a humildade, o bem querer e o amor, fazem parte de uma só força. – Sabe onde aprendi isso, minha Mãe? – Com a Senhora, com os seus atos, com seus princípios, com a sua ética, com a sua força de Mãe, com a sua determinação, com a sua amizade explicita pelos amigos, com a sua fé em Jesus Cristo e na Virgem Santíssima, com as honras com que recebes os que a procuram, com o carinho de seu olhar para com todos que a cercam, com seus ensinamentos, com a paixão com que abraça suas causas e com todos os doces e saudáveis frutos que a Senhora espalha ao seu redor.

Está vendo Cema, como é fácil deixar que palavras e emoções fluam quando queremos falar de Mãe? Basta deixar os dedos sobre o teclado que eles sabem direitinho juntar as letrinhas, sem esforço algum. O que eu queria mesmo contar era sobre a homenagem que recebi da vereadora Lucia de Pedrinho, assinada em baixo por todos os vereadores que compõem a Câmara de Vereadores de Pedra Grande, na gestão 2017 – 2020, me indicando para receber o Título de Cidadão Pedragrandense. Foi emoção sim, foi uma festa inesquecível, desejo participar de outras com o mesmo fim e queria muito que a Senhora e Tia Cecília estivessem ao meu lado naquela noite. Mas tudo bem, nem tudo que a gente quer a gente pode, recebi o Título, fiz meu agradecimento e voltei para minha cadeira para presenciar a glória e o reconhecimento de uma dama do amor ao próximo.

Cema, foi com lágrimas nos olhos que vi Dona Nerize, com seu andar vacilante, caminhar para receber seu título de cidadã. Ela é um anjo que foi indicada para servir e morar em Enxu Queimado e durante décadas faz a vida florescer sobre a comunidade. Mulher simples, de fala mansa, de mãos abençoadas e que estava, e está, sempre pronta para trazer ao mundo os bebes que ali nascem, unicamente com o propósito de fazer valer sua missão na terra. Basta vê-la caminhando pelas ruas e recebendo os pedidos de bênçãos de adultos e crianças e ela com a voz mais carinhosa abençoado a todos. Seu agradecimento na tribuna da Câmara deixou no ar a leveza e a grandeza de um coração de luz e paz. Foi difícil segurar as lágrimas, e não consegui.

Ceminha, como é gostoso viver em um mundo onde a realidade está ali nua e crua em nossa frente. Como é gostoso abrir os olhos e ver que o a vida continua linda, a paz continua a reinar, os pássaros voam soltos e as pessoas caminham despreocupadas nas ruas e a velha e linda parteira é a personalidade mais importante do lugar. Mas não era assim que deveria ser sempre?

Iracema Lopes Mattos, minha Mãe, minha Rainha, hoje, Dia das Mães, peço sua benção e lhe desejo muito amor, mas peço que me deixe também render homenagens a essa senhora que é Mãe de quase uma cidade inteira, Dona Nerize.

Nelson Mattos Filho

Anúncios

Hoje não tem mar

IMG_0136

Quando queremos brincar com sentimentos que insistem em aflorar do fundo de nossa alma, desdenhamos deles na vã tentativa de apagá-los de nossa mente, porém, nos arquivos do coração, marcas vão sendo adicionadas para o sempre. Quantas vezes tergiversamos em cima da dor de uma saudade, com frases forjadas em mesas ornamentadas com copos em que se mergulham filosofias de botequins. Saudade é bom porque dá e passa… . Como seria bom se assim fosse!

Hoje é mais um dia das Mães e mais uma vez estou distantes daquela que é para mim a fonte de um amor sem precedentes e sem a menor exigência de reciprocidade. Amor de Mãe não requer troca e muito menos reconhecimento, amor de Mãe é simplesmente amor e nada mais. Amo minha Ceminha e mantenho, e manterei, acesa a chama da saudade por toda minha vida. É um amor incondicional e rogo a Deus a todo segundo em poder escutar a sua voz, sentir seu cheiro e receber o abraço de seu corpo frágil, mas incrivelmente dotado de uma força fenomenal.

Minha Mãe é a maior expressão de paz, amor, amizade e compreensão que carrego comigo. A dor da saudade que sinto hoje não passa apenas com um simples telefonema ou mensagens trocadas via redes sociais, pois é uma dor diferente. É a dor da necessidade do abraço, do beijo, do afago, do alisar do cabelo, do olhar, do sorriso, do pegar em suas mãos e sentir a pele vibrante e os nevos vacilantes. E a dor por não sentir a respiração e nem me emocionar em ver seus olhinhos cheios de lágrimas quando marco o dia de ir embora.

Quanta felicidade tê-la ainda ao meu lado. Quanta felicidade em poder dizer que a amo e receber seu sorriso angelical. Quanta felicidade em ouvir seus carões para mostrar os erros que cometo. Quanta felicidade quando sento em sua infinita mesa de almoço e degusto o prazer de tanta alegria irradiada. Minha Mãe é o máximo!

Ceminha, hoje mais uma vez desejei feliz dia das Mães por telefone, mas saiba que meu coração está sofrido pela saudade. Suas palavras me soaram firmes, mas senti pingos de tristeza em sua voz, talvez a mesma tristeza que senti. Meu desejo era o abraço, o beijo e a presença, porém, a vida edita roteiros impensáveis e improváveis. Em breve estarei ao seu lado para festejar muitos dias mais, porque entre Mãe e filho não existe um dia marcado, todos devem ser comemorados intensamente. Triste do filho que assim não proceder!

Ceminha, a saudade que sinto da Senhora é enorme, mas nunca igual à de minha amada Lucia. A dela é a saudade que doe e machuca sem cessar. É a saudade da perda sem fim e que faz o coração chorar para o sempre. É a dor sem cura, mas que ensina o caminho para se buscar o placebo que conforta a alma. É a dor que daríamos a vida para não ter. A dor de uma saudade sem precedentes e que por mais que tentem nos explicar, não conseguimos compreender o porquê.

Dona Lindalva é hoje um anjo que ilumina os caminhos de nossas navegadas e que um dia traçou a rota que cruzaria nosso destino. Era a outra pilastra de sentimentos que sustentava nossa vida, mas que um dia Papai do Céu levou para fortalecer o Conselho Celestial. Restou-nos a dor da saudade eterna e as lágrimas involuntárias transbordadas pelo coração.

Dizem que saudade passa e contam até que ela não existe em outras línguas e em outras culturas. Será verdade? Se assim for, como deve ser triste viver sem saudade.

Minha Ceminha, estou morrendo de saudades e parabéns por esse dia tão carregado de emoções. Dona Lindalva, o calor que emana de sua alma nos conforta o coração e são demonstrados pelas gotas de lágrimas que escorrem em nossa face e obrigado por ter me dado uma companheira tão maravilhosa, e como bem disse um dia um tripulante de nosso veleirinho: – Valiosa!

Desejo a todos as Mães do mundo um dia de paz e alegria.

Ah! Mãe se escreve com letra maiúscula!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Minha Mãe não é uma figura

IMG_0153

“Defina a figura de uma mãe e concorra a brindes.” Li essa frase em um desses folhetos publicitários que emporcalham as calçadas das nossas cidades e sinceramente não entendi o que a “genialidade” daquele anuncio queria dizer. Estava sentado num banco de uma praça central, observando a cidade desfilar em minha frente, enquanto Lucia fazia compras em um armarinho próximo. Adoro viver esses momentos e sentir a pulsação que emana das ruas. Mas aquele folheto me encucou.

Definir a figura de uma Mãe? Definir a figura? Os dicionários dizem assim: Figura e a forma exterior de um corpo, de um ser. Aspecto, aparência, estatura, configuração de pessoa humana: uma bela figura. Personalidade marcante, vulto. Imagem, símbolo, emblema. Mãe não é figura. Mãe é Mãe! Assim mesmo com “M” maiúsculo. Não me queiram mal, mas é assim que vejo.

Não posso definir minha Mãe apenas como uma pessoa amada, corajosa, atenciosa, humilde, amiga, valente, forte, sincera, solidária, acolhedora, festeira, temente a Cristo e a todo seu séquito de santos, porque ela é muito mais do que isso para mim. Minha Mãe é tudo e me desespero somente em imaginar sua falta. Não consigo definir minha Mãe, porque amor de Mãe não se define.

Mamãe, como é gostoso festejar mais um dia sabendo que a Senhora está ai, pronta a me receber de braços abertos e a qualquer hora do dia. Como é gostoso sentir o seu cheiro mesmo estando à milhas de distância de sua presença. Como é bom sentir o contato de sua pele e alisar seus cabelos através da fantástica magia telepática que se faz presente na mente de um filho.

Festejo sim o dia das Mães, mas saiba que o festejo todos os dias de minha vida e em nenhum milésimo de segundo a Senhora é esquecida. Sua imagem me sorri a cada passo que dou e por isso vacilo em alguns quando não a vejo sorrindo. Seu exemplo de vida é uma fortaleza de energia e a cada rasteira que a vida tenta lhe impor, mais a Senhora se agiganta.

Há pouco menos de um ano a visitei em uma UTI de hospital e aquilo para mim foi um choque. Minha alma pedia para que não entrasse, mas a mente bateu pé e entrei. Quanta tristeza! Quanta emoção! Quantas lágrimas tive que segurar em ver a Senhora me olhando e sem falar nada me pedir para retirá-la dali. Saí daquela UTI com o coração dilacerado e ouvindo a alma me sussurrar: Eu pedi para que não entrasse, agora seja forte! A enfermidade passou e a Senhora voltou a usar seus trajes de Rainha. Minha Rainha! Por favor Ceminha, nunca mais me assuste assim.

Claro, essa é minha Mãe, minha Ceminha, a pilastra mestra de minha estrutura. Não tenho como sentir diferente, pois é isso que sinto. Não estou a definindo, mas mesmo que assim fosse, estaria definindo a minha Mãe e ela é diferente da Mãe dos meus irmãos. Cada um sente do seu jeito. Cada um ama de uma forma. Cada um tem seus sentimentos. E sei que todos a idolatram, mas a minha Mãe é a minha Mãe.

Outras pilastras compõe o corpo de um homem, mas nenhuma tão forte e estruturalmente tão bem concretada como a que uma Mãe representa. Olhando para elas parecem frágeis, mas são dotadas do material que compõem as mais duras rochas produzidas na natureza. Não as subestimem

Mas e o panfleto? Pois é, ele ainda continua a me incomodar e acho até que poderia participar daquele concurso. Poderia muito bem escrever apenas a palavra amor e esperar pelo resultado. Mas tenho quase certeza que nem ficaria entre os últimos colocados. Talvez sim, porém, amor nos dias de hoje é um sentimento muito comum e até banal. Os marqueteiros querem coisas novas, palavras novas, sentimentos novos. Não, amor não ganha nada!

Poderia até escrever tudo que escrevi ai em cima, mas acho que ficaria muito longo. Será que os jurados teriam paciência para ler? Hoje as pessoas não gostam de ler mais do que cem caracteres. Não, não vou participar daquela promoção que transforma Mãe em figura. Estou decidido e nem sei onde coloquei o panfleto e nem lembro o nome da loja.

Minha Ceminha, desejo que nesse dia a Senhora tenha todas as alegrias do mundo e vou apenas lhe fazer alguns pedidos, porque sei que serei atendido: Em suas orações peça por todas as Mães do mundo e também por aquelas que já não estão entre nós. Peça também conforto para o coração das Mães daqueles velejadores, que como seu filho, navegam loucos pelos oceanos do mundo.

Um grande beijo minha Ceminha e fique em paz.

Nelson Mattos Filho/Velejador