Arquivo da categoria: Crônicas

Uma noite ao luar

P_20171201_082619Ontem, 30 de novembro, foi dia de celebrar as águas passadas sob o casco das embarcações, águas, e bons tempos, que marcaram a história do Iate Clube do Natal. Foi uma noite prateada com os encantos de uma bela Lua crescente que iluminou as varandas debruçadas sobre as águas do velho Potengi amado e cantado em verso, prosa e poesia. Noite de bons papos, afagos, abraços calorosos e renovação de amizades. Noite viva e memorável. Noite do comandante Érico Amorim das Virgens,  professor, poeta, escritor, navegador e dono de uma verve sem igual. Noite de Um Mar de Memórias, novo livro do Érico, que enfunou as velas das lembranças e trás a flor d’água sonhos adormecidos. Para quem não teve o prazer e a alegria de vivenciar essa noite, última de mais um novembro que entrou para história, Um Mar de Memórias está a venda na secretária do Iate Clube do Natal, ou com o autor.  

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Água rasa

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Zé Mauro Nogueira é um irrequieto, tão irrequieto que quando chegou a bordo do Avoante, em 2013, sorriu, olhou para cima, olhou para os lados, olhou para o mar e falou: – Vamos nessa comandante! Senti que a frase havia sido pronunciada como sentença de libertação e que todo tipo de preocupação ficaria abandonado sobre as tábuas do píer. E assim foi durante quatros dias maravilhosos e assim Zé virou um grande e bom amigo, que gosta de escrever e mantém um blog, chamado Blogueio Maldade. Eu: – Porque blogueio? Ele: – É a junção das letras, Blog eu e o maldade, porque tenho uma mente ferina. – Ah tá! Pois bem, fui até o blogueio maldade e, sem pedir licença e nem perdão, copiei uma das últimas postagens, instigante como as outras, para tentar mexer com os brios do cronista bissexto que há muito esqueceu o caminho das letras. – Vamos nessa Zé!

Muito antes de Zygmunt Bauman alardear que a vida é líquida na pós modernidade, Marshall Berman já nos lembrou que tudo que é sólido desmancha no ar.

Mas o que isso quer dizer, essa fluidez, essa evanescência? Onde as observamos? Cotidianamente, em todas as nossas relações, sejam afetivas ou profissionais.

Uma das ideias básicas por trás do conceito é a de que as coisas se personificam e as pessoas se coisificam. Ou seja, passamos a atribuir valor demasiado às coisas, criando apego ao que é mera mercadoria, e passamos a tratar as pessoas como coisas, itens descartáveis, consumíveis.

Essa característica leva a uma outra, a transitoriedade das relações. Como tudo é consumo, até mesmo os outros seres humanos, mesmo as relações tradicionalmente mais importantes passam a ser efêmeras, descartáveis, duráveis apenas na medida em que cumpram uma utilidade. Por isso líquidas, porque não duram o tempo de se tornarem sólidas, não chegam a criar vínculo efetivo, muito menos compromisso real.

No ambiente online, de amigos de Facebook ou de grupos de whatsapp, isso fica explícito. A facilidade com que se fica “amigo” de alguém é proporcional à de terminar a “amizade”. Basta um click. Sem afeições ou explicações. Números de uma organização social que mede sucesso e felicidade estatisticamente, através de contadores de redes sociais.

Essa facilidade com o que as coisas acontecem num mundo líquido, essa velocidade de uma sociedade conectada, 24×7, tornam-se ditames, gabarito para todo o resto. Quase ninguém mais está disposto a investir tempo em se dedicar a alguma coisa para colher resultados futuros, quase ninguém mais quer se esforçar verdadeiramente para conseguir algo de valor.

Infelizmente, essa expectativa de facilidade e velocidade, vai formando uma sociedade além de líquida, rasa, superficial, óbvia. Contraditoriamente, é a sociedade do conhecimento formada por indivíduos que, em sua maioria, não querem perder tempo ou se esforçar para obtê-lo.

O sucesso e a riqueza devem acontecer de forma rápida e sem maiores esforços. Na velocidade de realizar uma transação eletrônica, na facilidade de encontrar uma explicação no Google, sem o desafio real da complexidade da vida.

Alunos universitários que, em sua maioria, não querem teoria, que não têm tempo a perder estudando nem estão dispostos a se esforçar para ler os autores no original; preferem as apostilas, os resumos. Querem o conhecimento colocado em suas cabeças de forma fácil e rápida, como um download de arquivo via Dropbox. Que acabarão por se tornar profissionais que vivem à base de citações da revista VOCÊ S/A ou do que ouviram no FANTÁSTICO, que repetem o que a massa diz num control C, control V frenético, e que usam “filosofia” como expressão pejorativa.

Mercado farto para os livros de autoajuda, que prometem receitas simples para a felicidade, para o sucesso profissional e para qualquer outro desafio humano. Bom também para os livros que prometem a fórmula mágica, em sete ou dez passos, para ser um gerente eficaz ou para ser um Líder de verdade, só precisando encontrar quem mexeu no seu queijo ou um monge não executivo.

Ou, como a última moda, demanda inesgotável para coaches e, agora, masters coaches. Alguém que promete “desenvolver” o outro, transformar-lhe, de maneira personalizada, objetiva, prática, tudo como o mundo atual exige.

Quem está familiarizado com a proposta da caracterização das gerações e sua classificação, poderá enxergar o z, o y ou o x em cada ponto do discurso, seja no objeto ou no sujeito que o pronuncia. Isso porque o conhecimento, a ciência, partem da observação do mesmo fenômeno, usando abordagens diferentes: o indivíduo (psicologia), o homem em sociedade (sociologia) ou como garante sua sobrevivência (economia), por exemplo.

Ter a capacidade de sentir-se confortável no maelstrom, nesse turbilhão potente de relações efêmeras, de mudanças hipervelozes e de predominância do que é superficial e óbvio, é característica adaptativa relevante dos seres humanos, absolutamente útil à sobrevivência.
Para os mergulhadores, resta aprender a se divertir em água rasa.

             Zé Mauro Nogueira

Planetas, estrelas e arisias

planeta monstroGosto de olhar as estrelas e imaginar o que tem além das nuvens do nosso planetinha azul. Aliás, nunca vi uma foto da Terra em outras cores senão o azul que emana dos oceanos. Será porque nossos satélites e naves espaciais não conseguem ir além da distância dominada pelas cores de Nossa Senhora da Conceição, ou será que somos azuis de verdade? Será que entre as galáxias somos conhecidos como os azuis? Se for assim, será bem feito, pois quem manda chamarmos os outros de verdes! Afinal, apelido se paga com apelido e nem me venha falar em bulingue, que no meu tempo de criança tinha isso não e não lembro de ter visto ninguém com esses ditos traumas modernosos e nem sair por aí matando e degolando os outros por simplesmente ser chamada de gordinho, vara pau, três penas ou outro apelido qualquer. O nome disso é falta de peia! Virgem Maria Santíssima, vou é voltar para o tema dos planetas que é o melhor que faço.

Pois bem, soube que os homens das ciências planetárias descobriram um novo super planeta, que eles batizaram pelo código NGTS-1b e apelidaram o bicho de “planeta monstro”, em uma constelação conhecida como Columba, localizada a cerca de 600 anos-luz da Terra. – Seu menino, é longe viu! Um ano-luz equivale a uma quilometragem que se alguém fosse se meter a caminhar, iria gastar uma ruma tão grande de alpercata que não tinha dinheiro que pagasse. – Quer saber? – Um ano-luz é a medida de comprimento que corresponde a distância percorrida pela luz em um ano, o que significa algo em torno de 9,5 trilhões de quilômetros. Danou-se! Como diria D. Inácia, que trabalhou na casa de meus pais: “Foi que inventaram, num foi?”

O planeta monstro, descoberto pelas lentes dos telescópios do Next-Generation Transit Survey, de onde saiu o nome de batismo NGTS-1b, localizado no deserto de Atacama, no Chile, chamou atenção dos homens por orbitar uma fraca estrela anã, o que teoricamente não tem lógica, ou não tinha. O novo planeta tem quase o tamanho de Júpiter e pelos livros, ele não poderia se formar onde se formou. Vai entender a lógica, vai!

Só sei que se formou um moído grande entre os observadores do espaço sideral e muito furdunço deve surgir nas veredas espaciais. Será que a estrela anã tem algum babado quente entocado em suas entranhas? Só o tempo e as más línguas dirão. Enquanto isso vamos ficar olhando as estrelas e se contentando com um fuxico aqui, outro acolá, até que toda a verdade venha à tona.

Mas o que me deixou encucado e me fez meter o bedelho nessa seara, foi que dia desses li uma entrevista de um astrônomo das “oropa” que dizia que tudo que acontece no espaço está muito bem monitorado e que nada poderia passar despercebido das lentes curiosas da ciência. Segundo ele, a teia de satélites, telescópicos e estações espaciais não deixaria nada invisível. – Sabe nada, inocente! De vez em quando escuto o zum, zum, zum de que um cometa mais ousado surgiu no céu e recentemente um pedregulho vindo sei lá de onde, tirou onda no meio do sistema solar, fez piruetas e se mandou para o infinito. Dizem que o xêxo era um invasor e que veio apenas bagunçar o coreto e nada mais. – Pois sim!

A natureza tem coisas que por mais que a ciência avance ainda não consegue explicar. Se diante de toda parafernália que dispomos ainda não conseguimos colocar os pés em Marte, nosso vizinho solar do lado direito, ou esquerdo, sei lá, e pouco sabemos do que se passa no rabo de um cometa, imagine aí o nó para dar conta do que acontece a mais de 9 trilhões de distância. – E a Lua? Pois é, e a Lua? Os meninos de Tio San já cascaviaram por lá nos tempos dos bons rock in roll, deixaram até uma bandeira encravada e tomaram o rumo de volta nas asas de um paraquedas. Não sei o que São Jorge achou das empreitadas dos galegos, mas boa coisa não foi, pois eles nunca mais acharam o caminho de volta.

Dizem que o galego do topete vai botar novamente lenha nos foguetes norte americanos e enviar uma galera para tomar conta do terreiro de Jorge, só não sei se é mais um blefe do galego. Pense num topetudo invocado! Só perde mesmo para o baixinho coreano, que ri de tudo e de todos. E por falar no baixinho, os fuxiqueiros de plantão dizem que ele está pegando uma súdita bem jeitosinha. Pelas fotos, o cara tem bom gosto! – Ei, Nelson, que danado isso tem a ver com estrelas e planetas? – Sei lá, só sei que é assim!

Bem, vou dar um fim nessa prosa, pois já estou até misturando as bolas, mas antes de mais nada é preciso dizer que a penúltima Lua cheia de 2017 vem aí e é um bom momento para olhar para o céu e sonhar com uma viagem até o distante NGTS-1b, pois quem sabe encontraremos novos horizontes e novos rumos para nosso planetinha tão sofrido, maltratado, incompreendido e que nós acolhe tão carinhosamente bem.

Eita, já ia esquecendo, hoje é dia de Todos os Santos. É nós!

Nelson Mattos Filho

A tartaruga ninja

xjonathan.jpg.pagespeed.ic.6Spo_t8QW_Como diz Dona Laurinha: Pronto, não falta mais nada!

Pois num é que os cuidadores da tartaruga Jonathan, de 186 anos, considerado o exemplar da espécie gigante mais velho do mundo, estão espalhando a fofoca que ela vive dentro do armário! Pois é, os cuidadores fuxiqueiros descobriram que Frederica, a companheira de Jonathan, é na verdade outro macho, ou melhor, um “tartarugo”.

A novidade, que veio das praias da ilha de Santa Helena, território ultramarino britânico, foi descoberta quando Frederica, ou Frederico, com 150 anos de idade, adoeceu e ao chegar ao veterinário, o caboco, ao examinar os possuídos do quelônio, se viu diante de um pé de mesa e quase cai para trás. Os cuidadores dizem que já existia uma suspeita, porque o casal se relaciona há mais de 26 anos e nunca tiveram filhotes, apesar de Frederica se comportar como o esperado para uma boa fêmea. O casalzinho só andava, nadava, comia e dormia juntinhos, espalhando carinho e ciumeira aos que observavam de longe. Dou por visto a fofoca das tartarugas vizinhas e agora não vai ter quem segure as más-línguas. É por isso que se diz que onde tem fumaça, tem fogo.

Jonathan agora está sendo chamado, nas redes sociais, de tartaruga homossexual e o governo da Ilha até emitiu comunicado abençoando a relação e dizendo que o carinho com que o casal se trata serve de exemplo para o mundo. A relação é tão forte que enquanto Frederica recebia cuidados médicos, Jonathan não saiu um segundo do seu lado.

Jonathan chegou a Ilha de Santa Helena em 1882, como presente do governo da Austrália. Devido a seu temperamento irritado e de difícil trato, os cuidadores tiveram a ideia de apresentá-lo a uma fêmea, e foi aí que Frederica entrou no babado e assim vivem felizes e sorrido até os dias de hoje.

Lendo essa história lembrei do gato do meu amigo Pedrinho, que todos diziam que era homossexual e ele apostava que não. Certo dia, logo que o dia clareou, os amigos foram chamá-lo para ver um negócio. Quando Pedrinho botou a cabeça do lado de fora, viu Tufão, o gato, em colóquio amoroso com outro gato, na maior algazarra. Pedrinho olhou a cena, meio entristecido, porém, deu a ordem para que ninguém atrapalhasse aquele romance e assim foi feito. Quando tudo terminou, Tufão se recompôs e veio todo desconfiado para os braços de Pedrinho, que o acolheu com todo zelo e carinho.

Após tomar o café da manhã, de cara fechada, com Tufão deitado aos seus pés, Pedrinho levantou, pegou o gato, colocou no carro e se mandou para a praia de Diogo Lopes/RN. Chegando lá, entregou Tufão nas mãos de um amigo e disse: – É seu! O amigo pegou o gato, abraçou, perguntou o nome e quando Pedrinho respondeu que se chamava Tufão, o amigo disse: – Gostei, nome de cabra macho!

Nelson Mattos Filho

Pense num moído

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Tem coisas que nos lembram outras e foi assim que ao ler uma matéria sobre um rasante de um Airbus A330, da empresa aérea Air Berlin, sobre a pista do aeroporto de Düsseldorf, acontecido recentemente, dei uma gargalhada.

Os pilotos do A330 fizeram uma manobra arriscada para comemorar a despedida do voo, porque a empresa, que é a segunda maior empresa de aviação da Alemanha, está passando por dificuldades financeira e está se retirando da rota Miami – Alemanha. Segundo as autoridades, os pilotos colocaram em risco os 200 passageiros em manobras que não se enquadram nos procedimentos de segurança de voo e segundo foi divulgado na impressa alemã, o avião da Air Berlin voou baixo ao longo da pista de pouso, subiu e se inclinou bruscamente para a esquerda em direção a torre de controle e só depois das piruetas, pousou normalmente.

No mínimo alguns passageiros desembarcaram com as calças meladas e xingando a mãe do comandante. Os engraçadinhos agora vão sentar na frente das autoridades para tentar contar uma historinha que soe bem aos ouvidos dos homens da lei.

Pois bem, daí lembrei da viagem de uns amigos para o velho continente, onde foi toda a família. No retorno a Salvador o avião entrou em um vácuo que despencou no vazio, causando quebra de copos, machucões em passageiros e quedas nos comissários de bordo. Foi um Deus nos acuda, porém, tudo voltou a normalidade, ou melhor, quase normalidade, até a chegada à capital baiana.

No desembarque, alguns passageiros ainda com cara de assustados, outros sorrindo amarelo e outros atropelando as palavras para contar todo o ocorrido para parentes e amigos que esperavam ansiosos, pois ficou um zum zum zum no saguão do aeroporto e como cada conto é aumentado em um ponto, a coisa estava descambando para um desenlace de consequências inimagináveis.

Em meio aos passageiros vem a mãe do meu amigo e quando avista o neto foi logo contado sua versão dos fatos. Como ela é bastante religiosa, disse do susto que passaram e finalizou agradecendo a Nossa Senhora por tê-los livrado do mal Amém. Em seguida vem meu amigo, abraça o filho, com os olhos marejados, e conta tudo, tim tim, por tim tim e ainda faz os trejeitos do aperreio e finaliza agradecendo aos céus a benção de estarem relatando aquela perigosa situação.

Nisso, vem o irmão do meu amigo, com dois carrinhos carregados de malas, bolsas e sacolas, e ao avistar o sobrinho, que nessas alturas do campeonato estava com os olhos mais arregalados do que coruja e com algumas lágrimas escorrendo nas bochechas. O tio abre os braços, solta quatros sacolas, que não couberam no carrinho de bagagem, e grita ainda de dentro do salão de desembarque: Meu sobrinho, quase que nós tudinho toma no centro do c. . Ei, o salão do aeroporto quase vem abaixo de tanta risadagem.

Será que aconteceu o mesmo com algum passageiro alemão? Acho que não, pois eles são muito formais para tanto. Mas que um bocado correu para o sanitário, isso eu não tenho dúvidas.

Nelson Mattos Filho

A apóstola da educação

10 Outubro (400)“A educação formando a cultura, é o elemento maravilhoso para garantir ao espírito a perpetuidade na terra. Resiste ao tempo e a onda adversa não abaterá sua vitalidade. A luz brilhará sempre, alta e pura, ensinando o caminho para as estrelas” assim foi escrito, pelo paraninfo Luiz da Câmara Cascudo, na placa de conclusão da turma de 1949, do Curso Técnico em Contabilidade no Colégio Nossa Senhora das Neves, em Natal/RN. A frase faz parte de um trabalho das pesquisadoras da UFRN, Maria Claudia Lemos Morais do Nascimento e Maria Arisnete Câmara de Morais, sobre a professora Crisan Siminéa.

Quando criança conheci a professora Crisan Siminéa, ela era tia de quatro grandes amigos e depois de um tempo passou a residir em frente à casa dos meus pais. Gostava de ver aquela mulher de passos firmes, ligeiros e decididos, caminhar todos os dias, durante várias vezes ao dia, até a casa de sua mãe. Muitas vezes me perguntei o motivo de tantas idas e vindas, porém, descobri que era amor e cuidado exacerbado para com a mãe.

Tia Crisan era professora, como se diz no popular, indo e voltando. Por todos os colégios e entidades educacionais por onde passou e fundou, deixou a marca de uma formidável profissional, que tinha na educação sua maior bandeira. Em 1988 foi agraciada com a comenda de apóstola da educação pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte e o seu nome batiza a Biblioteca do Instituto de Formação de Professores Presidente Kennedy. Homenagem mais do que justa para quem dedicou a vida aos livros. O nome da professora também foi lembrado para batizar uma escola no bairro Nova Natal, zona Norte da capital potiguar, a Escola Estadual Crisan Siminéa.

Pois bem, o nome da apóstola da educação, que deu a vida para ensinar crianças e adultos, hoje figura entristecido nas páginas policiais de um Estado inepto, governado por um governante inepto e fiscalizado por um legislativo inepto. Enveredei pelos sites de pesquisa da grande rede, para saber mais sobre a premiada professora e a única boa referência que encontrei foi o trabalho das pesquisadoras Maria Claudia e Maria Arisnete. O restante são notícias da invasão e depredação da Escola Estadual Crisan Siminéa, por parte de um grupo de marginais, que na certeza da impunidade, também picharam as paredes das salas com ameaças de morte a funcionários e alunos durante a aula.

A professora Crisan, onde ela estiver, com certeza no Céu, não merecia uma tristeza dessa. Logo ela que tanto primou e zelou pelo bom ensino. O Governo Rio Grande do Norte, que lhe concedeu a comenda de apóstola da educação, deveria sentir vergonha, pedir desculpas a sociedade por tal descalabro e mau zelo com a educação e a segurança pública. As associações de classe dos educadores, sempre tão ciosas em suas greves e reclamações salariais, deveriam ao menos emitir uma notinha de pé de folha de jornal denunciando mais uma destruição de escola no Estado. Mais uma, pois recentemente o mesmo aconteceu com uma escola pública na cidade de Parnamirim e ficou tudo por isso mesmo.

A frase de Luiz da Câmara Cascudo, cravada na placa de conclusão da turma de 1949, do Curso Técnico em Contabilidade no Colégio Nossa Senhora das Neves, turma essa que tinha como participante a aluna Crisan Siminéa, pode até está esquecida na parede, porém, resiste ao tempo e a onda adversa não a tornará desatualizada. O país perdeu o rumo da educação, da cultura, da boa administração e das boas causas, mas o farol continua a piscar indicando o caminho a seguir. Se seguiremos, não sei, mas seguiremos. Câmara Cascudo era grande e na sua grandeza observava sempre o futuro distante. Crisan Siminéa, concluinte da turma do paraninfo folclorista, gravou, bem gravadas, as palavras do mestre.

No trabalho das pesquisadoras da UFRN, estão as palavras da professora Dalva Cunha, em 1995, homenageando a apóstola da educação: “Ela foi o jardineiro que plantou, retirou as ervas daninhas, dando amor, incentivando, exigindo o melhor, realizando o seu projeto com perfeição…. Para ela era um compromisso de honra encaminhar as jovens na retidão, lealdade, responsabilidade, preparando-as para o imprevisível, isto é, desenvolvendo a capacidade de resolverem problemas, aptidões para enfrentarem a realidade lógica das coisas, e, naturalmente, serem educadas para poderem educar. Sua energia transbordava e transformava o comportamento das futuras professoras. Ela não desejava o bom, exigia o ótimo. ”

Cascudo um dia falou que Natal não consagra, nem desconsagra ninguém, mas eu, um sofrível escrevinhador, não poderia deixar que o nome da professora Crisan Siminéa, apóstola da educação, fosse desconsagrado apenas por batizar uma escola depredada por marginais e jogada ao léu por aqueles que tinham por obrigação mantê-la viva e saudável.

Professora Crisan, não fique triste. Um dia, quem sabe, aprenderemos o caminho para as estrelas.

Nelson Mattos Filho

Cotidiano

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O TREMOR, A CIDADE E O TEMOR

Conheci o município de João Câmara/RN, conhecido também pelo nome de Baixa Verde – não sei o porquê, mas simpatizo mais com o segundo -, há mais de 25 anos, durante minhas andanças em busca das praias do Rio Grande do Norte. De lá para cá, a visita virou caso de amor e durante seis anos passei a residir na cidade como proprietário de uma padaria, que logo virou um delicioso ponto de encontro, a Pão de Mel, e como reconhecimento, o vereador, na época, Marcelo Barrinha propôs ao plenário da Câmara Municipal que eu e Lucia fossemos agraciados com o Título de Cidadão Camarense, o que aconteceu em uma bonita cerimonia. Título que muito nos honra. A Pão de Mel ainda segue na vida comercial da cidade, sob a batuta do seu novo proprietário e nós, fomos navegar por aí, até que, depois de onze anos, resolvemos desembarcar para morar na praia de Enxu Queimado, parede e meia com João Câmara. Os segredos da paixão são indecifráveis.

Toda essa introdução é apenas para situar você no contexto deste texto, que tem os terremotos como pano de fundo, pois Baixa Verde ficou conhecida mundialmente como a cidade dos tremores e quase foi riscada do mapa em 30 de novembro de 1986, quando um abalo sísmico, de magnitude 5.1 na escala Richter, trouxe a face do terror aos moradores.

Pois bem, em 1994 quando falei para os familiares e amigos que iriamos morar em João Câmara todos olharam com incredulidade. – Na cidade do tremor? – Vocês estão malucos? Enquanto moramos, sentimos os efeitos de alguns tremores e até acordamos durante a noite com a cama sendo sacudida, mas tudo não passou de pequenos sustos e no decorrer do dia, a preocupação ia sendo apaziguada pelo humor embutido em frases engraçadas. Aliás, os estudiosos afirmam que o município nunca deixou de sofrer abalos, pois está situado em cima de uma falha geológica batizada de Samambaia, que é permanentemente monitorada por uma estação sismológica da UFRN. Em 2016, uma série de dezessete tremores, de magnitude leve, foram registrados num espaço de seis horas, mas felizmente não provocou danos.

Tem cidades mundo afora que aproveitam os efeitos de uma catástrofe natural para angariar com turismo e na época do primeiro abalo, com João Câmara não foi diferente. Muita gente foi ver a destruição de perto e alguns viraram morador. O Exército Brasileiro reconstruiu as casas, todo ano a cidade relembra o fato e a vida segue. A cidade hoje festeja o incremento da energia eólica que trouxe enormes ganhos ao município, porque Baixa Verde é conhecida como a capital do Mato Grande. Dá gosto andar por suas ruas e ver o movimento frenético de um comércio pujante, porém, o progresso trouxe o carma da violência desenfreada que destrói a sociedade brasileira com uma fúria implacável e que deixará marcas para o sempre. Os números da violência na região do Mato Grande são de assustar, mas o governo estadual continua fazendo ouvidos de mercador e virando a cara para o problema. Na maioria das cidades o destacamento policial não passa de dois soldados e quando muito chega a três. – Vergonha? – Que nada, é incompetência, descaramento, desfaçatez e falta de zelo com a população!

Ontem, dia 18/06, nas barbas de São João, Baixa Verde foi novamente sacudida por um tremor de magnitude 2.1. Não teve danos maiores do que o susto, mas ficou no ar a incerteza e voltaram as lembranças da desgraça ocorrida há 31 anos. Será que o fato merecerá uma visita do governador e do séquito de assessores que o acompanha? Acho que não! Se toda essa violência que já ceifou mais de mil vidas no RN este ano não tira o sossego do governador, imagine um terremotozinho de nada, numa cidade de interior! Alguém haverá de perguntar: – E o que o governo tem com isso? Resposta: – Se fosse um governo comprometido com a sociedade e que buscasse levar alento para as mazelas, ele já estaria em campo. Penso eu, né!

A falha de Samambaia está viva e fazendo ecoar o urro dos seus amuos pelas terras do Mato Grande. A violência está viva, incrivelmente cruel e sem ouvir o clamor dos nossos lamentos. Qual o pior do dois é difícil de avaliar, porém, acho a violência como um mal maior, porque vem no rastro do desgoverno e da falta de escrúpulo. Para acalmar o povo os governantes apostam nas melhores e maiores fogueiras. E aja foguetão e forró! – Forró?? – Homi, sei lá e deixe de pergunta besta!

Nelson Mattos Filho