Arquivo da categoria: Crônicas

Pense num moído

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Tem coisas que nos lembram outras e foi assim que ao ler uma matéria sobre um rasante de um Airbus A330, da empresa aérea Air Berlin, sobre a pista do aeroporto de Düsseldorf, acontecido recentemente, dei uma gargalhada.

Os pilotos do A330 fizeram uma manobra arriscada para comemorar a despedida do voo, porque a empresa, que é a segunda maior empresa de aviação da Alemanha, está passando por dificuldades financeira e está se retirando da rota Miami – Alemanha. Segundo as autoridades, os pilotos colocaram em risco os 200 passageiros em manobras que não se enquadram nos procedimentos de segurança de voo e segundo foi divulgado na impressa alemã, o avião da Air Berlin voou baixo ao longo da pista de pouso, subiu e se inclinou bruscamente para a esquerda em direção a torre de controle e só depois das piruetas, pousou normalmente.

No mínimo alguns passageiros desembarcaram com as calças meladas e xingando a mãe do comandante. Os engraçadinhos agora vão sentar na frente das autoridades para tentar contar uma historinha que soe bem aos ouvidos dos homens da lei.

Pois bem, daí lembrei da viagem de uns amigos para o velho continente, onde foi toda a família. No retorno a Salvador o avião entrou em um vácuo que despencou no vazio, causando quebra de copos, machucões em passageiros e quedas nos comissários de bordo. Foi um Deus nos acuda, porém, tudo voltou a normalidade, ou melhor, quase normalidade, até a chegada à capital baiana.

No desembarque, alguns passageiros ainda com cara de assustados, outros sorrindo amarelo e outros atropelando as palavras para contar todo o ocorrido para parentes e amigos que esperavam ansiosos, pois ficou um zum zum zum no saguão do aeroporto e como cada conto é aumentado em um ponto, a coisa estava descambando para um desenlace de consequências inimagináveis.

Em meio aos passageiros vem a mãe do meu amigo e quando avista o neto foi logo contado sua versão dos fatos. Como ela é bastante religiosa, disse do susto que passaram e finalizou agradecendo a Nossa Senhora por tê-los livrado do mal Amém. Em seguida vem meu amigo, abraça o filho, com os olhos marejados, e conta tudo, tim tim, por tim tim e ainda faz os trejeitos do aperreio e finaliza agradecendo aos céus a benção de estarem relatando aquela perigosa situação.

Nisso, vem o irmão do meu amigo, com dois carrinhos carregados de malas, bolsas e sacolas, e ao avistar o sobrinho, que nessas alturas do campeonato estava com os olhos mais arregalados do que coruja e com algumas lágrimas escorrendo nas bochechas. O tio abre os braços, solta quatros sacolas, que não couberam no carrinho de bagagem, e grita ainda de dentro do salão de desembarque: Meu sobrinho, quase que nós tudinho toma no centro do c. . Ei, o salão do aeroporto quase vem abaixo de tanta risadagem.

Será que aconteceu o mesmo com algum passageiro alemão? Acho que não, pois eles são muito formais para tanto. Mas que um bocado correu para o sanitário, isso eu não tenho dúvidas.

Nelson Mattos Filho

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A apóstola da educação

10 Outubro (400)“A educação formando a cultura, é o elemento maravilhoso para garantir ao espírito a perpetuidade na terra. Resiste ao tempo e a onda adversa não abaterá sua vitalidade. A luz brilhará sempre, alta e pura, ensinando o caminho para as estrelas” assim foi escrito, pelo paraninfo Luiz da Câmara Cascudo, na placa de conclusão da turma de 1949, do Curso Técnico em Contabilidade no Colégio Nossa Senhora das Neves, em Natal/RN. A frase faz parte de um trabalho das pesquisadoras da UFRN, Maria Claudia Lemos Morais do Nascimento e Maria Arisnete Câmara de Morais, sobre a professora Crisan Siminéa.

Quando criança conheci a professora Crisan Siminéa, ela era tia de quatro grandes amigos e depois de um tempo passou a residir em frente à casa dos meus pais. Gostava de ver aquela mulher de passos firmes, ligeiros e decididos, caminhar todos os dias, durante várias vezes ao dia, até a casa de sua mãe. Muitas vezes me perguntei o motivo de tantas idas e vindas, porém, descobri que era amor e cuidado exacerbado para com a mãe.

Tia Crisan era professora, como se diz no popular, indo e voltando. Por todos os colégios e entidades educacionais por onde passou e fundou, deixou a marca de uma formidável profissional, que tinha na educação sua maior bandeira. Em 1988 foi agraciada com a comenda de apóstola da educação pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte e o seu nome batiza a Biblioteca do Instituto de Formação de Professores Presidente Kennedy. Homenagem mais do que justa para quem dedicou a vida aos livros. O nome da professora também foi lembrado para batizar uma escola no bairro Nova Natal, zona Norte da capital potiguar, a Escola Estadual Crisan Siminéa.

Pois bem, o nome da apóstola da educação, que deu a vida para ensinar crianças e adultos, hoje figura entristecido nas páginas policiais de um Estado inepto, governado por um governante inepto e fiscalizado por um legislativo inepto. Enveredei pelos sites de pesquisa da grande rede, para saber mais sobre a premiada professora e a única boa referência que encontrei foi o trabalho das pesquisadoras Maria Claudia e Maria Arisnete. O restante são notícias da invasão e depredação da Escola Estadual Crisan Siminéa, por parte de um grupo de marginais, que na certeza da impunidade, também picharam as paredes das salas com ameaças de morte a funcionários e alunos durante a aula.

A professora Crisan, onde ela estiver, com certeza no Céu, não merecia uma tristeza dessa. Logo ela que tanto primou e zelou pelo bom ensino. O Governo Rio Grande do Norte, que lhe concedeu a comenda de apóstola da educação, deveria sentir vergonha, pedir desculpas a sociedade por tal descalabro e mau zelo com a educação e a segurança pública. As associações de classe dos educadores, sempre tão ciosas em suas greves e reclamações salariais, deveriam ao menos emitir uma notinha de pé de folha de jornal denunciando mais uma destruição de escola no Estado. Mais uma, pois recentemente o mesmo aconteceu com uma escola pública na cidade de Parnamirim e ficou tudo por isso mesmo.

A frase de Luiz da Câmara Cascudo, cravada na placa de conclusão da turma de 1949, do Curso Técnico em Contabilidade no Colégio Nossa Senhora das Neves, turma essa que tinha como participante a aluna Crisan Siminéa, pode até está esquecida na parede, porém, resiste ao tempo e a onda adversa não a tornará desatualizada. O país perdeu o rumo da educação, da cultura, da boa administração e das boas causas, mas o farol continua a piscar indicando o caminho a seguir. Se seguiremos, não sei, mas seguiremos. Câmara Cascudo era grande e na sua grandeza observava sempre o futuro distante. Crisan Siminéa, concluinte da turma do paraninfo folclorista, gravou, bem gravadas, as palavras do mestre.

No trabalho das pesquisadoras da UFRN, estão as palavras da professora Dalva Cunha, em 1995, homenageando a apóstola da educação: “Ela foi o jardineiro que plantou, retirou as ervas daninhas, dando amor, incentivando, exigindo o melhor, realizando o seu projeto com perfeição…. Para ela era um compromisso de honra encaminhar as jovens na retidão, lealdade, responsabilidade, preparando-as para o imprevisível, isto é, desenvolvendo a capacidade de resolverem problemas, aptidões para enfrentarem a realidade lógica das coisas, e, naturalmente, serem educadas para poderem educar. Sua energia transbordava e transformava o comportamento das futuras professoras. Ela não desejava o bom, exigia o ótimo. ”

Cascudo um dia falou que Natal não consagra, nem desconsagra ninguém, mas eu, um sofrível escrevinhador, não poderia deixar que o nome da professora Crisan Siminéa, apóstola da educação, fosse desconsagrado apenas por batizar uma escola depredada por marginais e jogada ao léu por aqueles que tinham por obrigação mantê-la viva e saudável.

Professora Crisan, não fique triste. Um dia, quem sabe, aprenderemos o caminho para as estrelas.

Nelson Mattos Filho

Cotidiano

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O TREMOR, A CIDADE E O TEMOR

Conheci o município de João Câmara/RN, conhecido também pelo nome de Baixa Verde – não sei o porquê, mas simpatizo mais com o segundo -, há mais de 25 anos, durante minhas andanças em busca das praias do Rio Grande do Norte. De lá para cá, a visita virou caso de amor e durante seis anos passei a residir na cidade como proprietário de uma padaria, que logo virou um delicioso ponto de encontro, a Pão de Mel, e como reconhecimento, o vereador, na época, Marcelo Barrinha propôs ao plenário da Câmara Municipal que eu e Lucia fossemos agraciados com o Título de Cidadão Camarense, o que aconteceu em uma bonita cerimonia. Título que muito nos honra. A Pão de Mel ainda segue na vida comercial da cidade, sob a batuta do seu novo proprietário e nós, fomos navegar por aí, até que, depois de onze anos, resolvemos desembarcar para morar na praia de Enxu Queimado, parede e meia com João Câmara. Os segredos da paixão são indecifráveis.

Toda essa introdução é apenas para situar você no contexto deste texto, que tem os terremotos como pano de fundo, pois Baixa Verde ficou conhecida mundialmente como a cidade dos tremores e quase foi riscada do mapa em 30 de novembro de 1986, quando um abalo sísmico, de magnitude 5.1 na escala Richter, trouxe a face do terror aos moradores.

Pois bem, em 1994 quando falei para os familiares e amigos que iriamos morar em João Câmara todos olharam com incredulidade. – Na cidade do tremor? – Vocês estão malucos? Enquanto moramos, sentimos os efeitos de alguns tremores e até acordamos durante a noite com a cama sendo sacudida, mas tudo não passou de pequenos sustos e no decorrer do dia, a preocupação ia sendo apaziguada pelo humor embutido em frases engraçadas. Aliás, os estudiosos afirmam que o município nunca deixou de sofrer abalos, pois está situado em cima de uma falha geológica batizada de Samambaia, que é permanentemente monitorada por uma estação sismológica da UFRN. Em 2016, uma série de dezessete tremores, de magnitude leve, foram registrados num espaço de seis horas, mas felizmente não provocou danos.

Tem cidades mundo afora que aproveitam os efeitos de uma catástrofe natural para angariar com turismo e na época do primeiro abalo, com João Câmara não foi diferente. Muita gente foi ver a destruição de perto e alguns viraram morador. O Exército Brasileiro reconstruiu as casas, todo ano a cidade relembra o fato e a vida segue. A cidade hoje festeja o incremento da energia eólica que trouxe enormes ganhos ao município, porque Baixa Verde é conhecida como a capital do Mato Grande. Dá gosto andar por suas ruas e ver o movimento frenético de um comércio pujante, porém, o progresso trouxe o carma da violência desenfreada que destrói a sociedade brasileira com uma fúria implacável e que deixará marcas para o sempre. Os números da violência na região do Mato Grande são de assustar, mas o governo estadual continua fazendo ouvidos de mercador e virando a cara para o problema. Na maioria das cidades o destacamento policial não passa de dois soldados e quando muito chega a três. – Vergonha? – Que nada, é incompetência, descaramento, desfaçatez e falta de zelo com a população!

Ontem, dia 18/06, nas barbas de São João, Baixa Verde foi novamente sacudida por um tremor de magnitude 2.1. Não teve danos maiores do que o susto, mas ficou no ar a incerteza e voltaram as lembranças da desgraça ocorrida há 31 anos. Será que o fato merecerá uma visita do governador e do séquito de assessores que o acompanha? Acho que não! Se toda essa violência que já ceifou mais de mil vidas no RN este ano não tira o sossego do governador, imagine um terremotozinho de nada, numa cidade de interior! Alguém haverá de perguntar: – E o que o governo tem com isso? Resposta: – Se fosse um governo comprometido com a sociedade e que buscasse levar alento para as mazelas, ele já estaria em campo. Penso eu, né!

A falha de Samambaia está viva e fazendo ecoar o urro dos seus amuos pelas terras do Mato Grande. A violência está viva, incrivelmente cruel e sem ouvir o clamor dos nossos lamentos. Qual o pior do dois é difícil de avaliar, porém, acho a violência como um mal maior, porque vem no rastro do desgoverno e da falta de escrúpulo. Para acalmar o povo os governantes apostam nas melhores e maiores fogueiras. E aja foguetão e forró! – Forró?? – Homi, sei lá e deixe de pergunta besta!

Nelson Mattos Filho

O que é felicidade?

2 Fevereiro (170)

O amigo João Vianey, enviou uma bela crônica, da escritora cearense Socorro Acioli, e ofereço a todos aqueles que batem o mundo a procura da felicidade e não encontram.

“Sobre os felizes”

Existem pessoas admiráveis andando em passos firmes sobre a face da Terra. Grandes homens, grandes mulheres, sujeitos exemplares que superam toda desesperança. Tenho a sorte de conhecer vários deles, de ter muitos como amigos e costumo observar suas ações com dedicada atenção. Tento compreender como conseguem levar a vida de maneira tão superior à maioria, busco onde está o mistério, tento ler seus gestos e aprendo muito com eles.

De tanto observar, consegui descobrir alguns pontos em comum entre todos e o que mais me impressiona é que são felizes. A felicidade, essa meta por vezes impossível, é parte deles, está intrínseco. Vivem um dia após o outro desfrutando de uma alegria genuína, leve, discreta, plantada na alma como uma árvore de raízes que força nenhuma consegue arrancar.

Dos felizes que conheço, nenhum leva uma vida perfeita. Não são famosos. Nenhum é milionário, alguns vivem com muito pouco, inclusive. Nenhum tem saúde impecável, ou uma família sem problemas. Todos enfrentam e enfrentaram dissabores de várias ordens. Mas continuam discretamente felizes.

O primeiro hábito que eles têm em comum é a generosidade. Mais que isso: eles têm prazer em ajudar, dividir, doar. Ajudam com um sorriso imenso no rosto, com desejo verdadeiro e sentem-se bem o suficiente para nunca relembrar ou cobrar o que foi feito e jamais pedir algo em troca.

Os felizes costumam oferecer ajuda antes que se peça. Ficam inquietos com a dor do outro, querem colaborar de alguma maneira. São sensíveis e identificam as necessidades alheias mesmo antes de receber qualquer pedido. Os felizes, sobretudo, doam o próprio tempo, suas horas de vida, às vezes dividem o que têm, mesmo quando é muito pouco.

Eu também observo os infelizes e já fiz a contraprova: eles costumam ser egoístas. Negam qualquer pequeno favor. Reagem com irritação ao mínimo pedido. Quando fazem, não perdem a oportunidade de relembrar, quase cobram medalhas e passam o recibo. Não gostam de ter a rotina perturbada por solicitações dos outros. Se fazem uma bondade qualquer, calculam o benefício próprio e seguem assim, infelizes. Cada vez mais.

O segundo hábito notável dos felizes é a capacidade de explodir de alegria com o êxito dos outros. Os felizes vibram tanto com o sorriso alheio que parece um contágio. Eles costumam dizer: estou tão contente como se fosse comigo. Talvez seja um segredo de felicidade, até porque os infelizes fazem o contrário. Tratam rapidamente de encontrar um defeito no júbilo do outro, ou de ignorar a boa nova que acabaram de ouvir. E seguem infelizes.

O terceiro hábito dos felizes é saber aceitar. Principalmente aceitar o outro, com todas as suas imperfeições. Sabem ouvir sem julgar. Sabem opinar sem diminuir e sabem a hora de calar. Sobretudo, sabem rir do jeito de ser de seus amigos. Sorrir é uma forma sublime de dizer: amo você e todas as suas pequenas loucuras.

Escrevo essa crônica, grata e emocionada, relembrando o rosto dos homens e mulheres sublimes que passaram e que estão na minha vida, entoando seus nomes com a devoção de quem reza. Ainda não sou um dos felizes, mas sigo tentando. Sigo buscando aprender com eles a acender a luz genuína e perene de alegria na alma. Sigamos os felizes, pois eles sabem o caminho…

(Autora: Socorro Acioli – Escritora)

Lembranças

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De que é feito a saudade se não de lembranças? Sou sim um saudosista e faço disso um alimento para nortear minha alma. Vivo minhas lembranças como se fosse o presente e muitas vezes fecho os olhos para não sentir tanta dor, mas se tudo isso são devaneios de loucura, desejo continuar louco.

Ontem tentei dormir e os olhos teimavam em abrir, mas na insistência do cansaço mergulhei naquele estágio em que o corpo levita e a mente se aproxima da cortina dos sonhos, porém, de repente não existia cortina, não existia sonho, não existia nada, apenas eu, com os olhos vidrados no teto, procurando entender o porquê daquele fugaz prazer. Foi nessa hora que escutei o eco da frase entrecortada de soluços, “…a partir de hoje nossa vida vai mudar…”, e como uma fita em alta rotação, o filme retrocedeu e lá estava eu, atendendo um chamado pelo interfone, onde a pessoa dizia: “Nelsinho, corra aqui que seu pai está passando mal”. Sinceramente não lembro da fração de segundos que se passaram entre a colocação do interfone no gancho – e nem sei se o coloquei – e minha entrada naquele escritório que parecia paralisado no tempo. As pessoas estavam imóveis, os olhos arregalados e ninguém falava nada, porque a boca não fechava e nem emitia som. Era como se ali a vida não existisse. Aquela sala parecia um museu de cera em que os personagens estavam retratados em suas mais terríveis expressões. Quando a porta se fechou, a sala tomou vida e lá estava meu pai, com a camisa entreaberta, os braços caídos para os lados, o rosto disforme e a boca emitindo palavras indecifráveis, como se quisesse retomar o controle da situação, mas já não dava. Ali estava um homem que me pedia ajuda e eu, seu filho, seu nome, apenas gritei: Espere aí papai, não me deixe agora que vou pegar o carro. Ao cruzar a porta de volta, cruzei com alguém e pedi que desse a ele água com açúcar e nesse momento o mundo parou novamente, até que me vi dentro do carro, saindo a toda pelo portão e parando em frente ao prédio de onde meu pai já vinha carregado nos braços do funcionário Campos, que tinha o apelido de Campo Redondo. Colocamos ele no carro e saí a toda. Novamente o mundo parou, apesar da minha correria louca pelas ruas da cidade, e apenas voltou a se movimentar em frente a uma loja de materiais de construção, localizada na avenida dois, porém, o mundo se movimentava, mas o carro curiosamente não saía do lugar. – O que houve? Gritei em meio ao nada. Olhei para meu pai, peguei em sua mão, ele me olhou com o olhar distante e lhe falei: Papai, fique comigo e não morra que vou pedir ajuda. – Preciso de um carro. Preciso de ajuda. Meu pai está morrendo lá fora. Todos me olhavam e ninguém esboçava nenhuma reação de ajuda. Corri ao vendedor, que tantas vezes atendeu meu pai naquela loja, e ele apenas disse que não tinha carro a disposição. Corri de volta. Novamente olhei para meu pai e lá estava ele balbuciando palavras incompreensíveis. Novamente peguei em sua mão e ele me olhou como se soubesse tudo que iria acontecer. Um taxi parou e voltamos a correria pelas ruas até o hospital. Dessa vez não larguei sua mão e não parei de falar com ele, pedindo que aguentasse firme que iria ficar bom. Novamente ele me olhou e fechou os olhos, mas sua mão apertava a minha e isso era o que eu queria, pois aquilo era sinal de vida, aquilo era sinal que ele estava comigo. Chegamos ao hospital, ele foi colocado em uma maca, levaram para a urgência e fui junto, mas o médico não aparecia. Deixei ele na sala e corri pelos corredores do hospital Walfredo Gurgel a procura do médico e disseram que ele estava em atendimento, entrei na sala e o puxei pelo braço, – Corra que meu pai está morrendo. O médico pediu calma, levantou e saiu caminhando calmamente. – Doutor, por favor, corra! Cheguei a sala onde meu pai estava na maca, peguei em sua mão, rezei e pedi ao meu irmão, Iranildo, que havia falecido há dez anos, que o socorresse e de repente me vi sentado no corredor de espera do hospital. – Seu pai vai ser transferido para outro hospital, mas estamos providenciando uma ambulância. Disse o médico ao sair do atendimento. – Como providenciando? Nessa hora minha mãe chegou, a ambulância chegou, colocaram meu pai e fomos atrás em outro carro. Na saída do hospital, ao ouvir a sirene da ambulância que o levava para o Hospital São Lucas, minha mãe sentenciou: “- Meu filho, a partir de hoje nossa vida vai mudar! ”. E mudou! Hoje meu pai é a melhor lembrança, a melhor saudade e o melhor dos entreatos que alegram meus sonhos. Aonde ele está eu sei, aonde ele vai eu sei. Quando ele está triste eu sei. Quando ele está alegre, quase sempre, eu sei. Quando ele não está junto a mim eu sei. Não tem um dia que ao abrir os olhos não pense nele. Ele é meu anjo da guarda, mas tem uma coisa que sempre me atormenta: – O que será que ele me dizia naqueles momentos que segurava minha mão e me olhava. Tio Emídio, que também já não está entre nós, certa vez me perguntou qual recado que meu pai mandou para minha Mãe. – Recado? – Sim recado, porque sua Mãe ontem sonhou com ele dizendo que havia deixado um recado com você. Pois é, até hoje tento decifrar aquele olhar e ouvir o eco dos sons disformes que saiam de sua boca e não consigo. Quem sabe uma noite, em que o sono entrar naquele estágio entre a levitação e as profundezas eu consiga escutar.

O eco das palavras de minha Mãe soou por alguns bons momentos entre as paredes do quarto e foi ouvindo-as que peguei na mão de Lucia, dei um beijo e dormi. É assim há 35 anos! Hoje, 22 de maio, Nelson Mattos, meu Pai, o melhor trombonista do mundo, o melhor entre todos os homens, o mais lindo e amado, faria 94 anos e logo cedo minha Mãe passou-me uma mensagem perguntando se ele fosse vivo ainda estaria tocando trombone. – Ceminha, tocando eu não sei, mas a nossa casa hoje estaria cheia e ornamentada de belas e inesquecíveis melodias.

Parabéns meu Pai!

Nelson Mattos Filho

Lua cavaiando

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Olhando para imagem dessa bela Lua crescente, que craveja o Céu da praia de Enxu Queimado, lembrei do texto postado abaixo, que escrevi em 2014 para a coluna Diário do Avoante, que mantive por nove anos no jornal Tribuna do Norte. 

Essa imagem da lua riscando o céu com um fino e perfeito traço é para mim uma das mais belas. A lua cheia encanta pela luminosidade e pela força magnetizante que mexe com nossos sentidos e com as engrenagens que regem o nosso planeta, mas a lua crescente, em seus primeiros dias, é mágica. Para mim é um presente da natureza navegar com o risco da lua enfeitando o poente. Isso me dá a feliz sensação da grandeza, transformação, mudanças e do incrível poder da natureza em nos encantar.

O manto negro celeste cravejado de pontinhos brancos e uma finíssima lua risonha se encaminhando para o crepúsculo está presente até nas roupas dos magos, duendes, feiticeiras e outros encantados que povoam sonhos infantis. Porém, a lua crescente tem alguns encantos bem mais originais que mexe com a crendice popular e deixa muito marmanjo de saia justa perante os amigos.

Todo esse moído entre lua e crendice me faz lembrar um encontro de velejadores nas varandas do Iate Clube do Natal, quando o amigo Elder Monteiro olhou para a lua e disparou: – Eita, a lua está cavaiando! Todos se entreolharam sem saber o que danado Elder queria dizer com aquela palavra esquisita e depois de alguns minutos ele explicou.

Disse ele que certa vez estava em sua fazenda, vacinando o gado, e depois do dia de luta com a boiada, teve a ideia de convidar o vaqueiro e o ajudante para irem até a cidade mais próxima tomar uma cerveja bem gelada, para limpar a poeira da garganta. O convite foi aceito de pronto e assim embarcaram no carro e lá se foram pelas veredas escuras.

Ao chegarem à porteira da propriedade, deram de cara com a esposa do vaqueiro que vinha da igreja, caminhando sozinha na escuridão da noite. O vaqueiro pediu para Elder parar o carro, para comunicar à esposa que iria demorar um pouco, pois estava indo a cidade tomar uma cerveja com os amigos.

Sem descer do carro, e já prevendo a negativa, o vaqueiro comunicou a esposa, mas depois que ela olhou para o céu disparou: – Desça daí cabra sem vergonha, pois a lua está cavaiando e hoje você não vai a lugar nenhum.

Sem discutir, o vaqueiro desceu do carro, meio desconfiado, e disse a Elder que não poderia ir junto com eles. Elder ficou meio entristecido e sem entender nada, mas no minuto seguinte a esposa do vaqueiro falou o motivo de não permitir o passeio noturno das três criaturas inocentes. – Seu Elder não me leve a mal, mas não posso permitir que ele vá junto com o senhor. Sei que vosmicê é uma boa pessoa, mas não deixo de maneira nenhuma, pois a lua está cavaiando.

Elder olhou para a lua sem notar diferença alguma no satélite natural, além da fase de crescimento, que por sinal estava uma belezura, e continuou na mesma.

– Dona Maria, o que danado é esse tal de cavaiando? – Seu Elder, quando a lua está nessa fase à gente não pode largar homem sozinho de maneira nenhuma, ainda mais para ir até a cidade durante a noite. Deus que me livre e guarde desse descaminho. Nesses tempos de lua cavaiando seu Elder, as mulheres estão todas no cio e doidinhas para chafurdar e por isso eu não deixo não senhor. Deixe ele aqui no meu poder, pois assim eu não terei surpresa desagradável. Pode seguir sua viagem e tenha cuidado o senhor também, pois tem muita mulher querendo chafurdo por aí. Se fosse em outra lua não teria problema nenhum, mas hoje ele fica em casa e bem guardadinho embaixo de minha asa. Cio é cio seu Elder!

Elder olhou novamente para a lua, gravou a conversa na cachola e acelerou o carro noite adentro, mas sem antes deixar de dar uma boa gargalhada que durou o resto da noite. De vez em quando ele olhava para a lua e ficava se perguntado se aquele moído todo era verdade.

Quem estava no encontro de velejadores naquela noite de lua cavaiando e ouviu a história de Elder, não esquece até hoje e teve até quem jurasse que a profecia é verdadeira. Quer dizer: Sabem, mas não sabem e muito pelo contrário.

Portanto, quando avistar aquele risco de lua risonha caminhando pelo céu, saiba que ali está o segredo de alguns mistérios indecifráveis do mundo das paixões.

Lua cavaiando. Vale a pena ficar de olho nela.

Nelson Mattos Filho/Velejador

De loucuras, quadradices e barcos

Um barco legal

“… A loucura é estigmatizada. Falta amor para se dedicar aos loucos… Só há mundo para os “saudáveis” e suas quadradices… Pouco se quer perceber sobre a profundidade criativa que nela, na loucura, há…”. Estava à procura de palavras para expressar meus sentimentos diante das inúmeras regras daqueles que se declaram politicamente corretos querem nos impor. Ao ler o artigo, nas páginas da Tribuna do Norte, assinado pelo poeta e advogado Lívio Oliveira, encontrei o fio da meada da minha prosa. Mas antes de seguir em frente, quero parabenizar o poeta pela crônica e pedir perdão por ter copiado suas palavras.

Mas será que é mesmo de loucura que eu quero falar? Será que os “loucos” que deixam tudo para trás e caminham sem direção pelos vastos horizontes do mundo, a procura de nada além da felicidade de viver a vida, podem ser considerados loucos? Quem avalia os loucos? Somos nós, que vivemos no desespero de ter mais, juntar mais, querer mais, exigir mais e sonhar menos? Machado de Assis um dia escreveu sobre a loucura e espantou o mundo com suas palavras, porém, o espanto virou reflexão, depois virou verdades, passou a ser imaginação, descambou para espasmos literários e hoje o livro está abandonado em alguma estante empoeirada. De vez em quando, as palavras do escritor são lembradas e ditas como verdadeiras por algum cronista ou crítico literário afamado, em seguida a página é virada, o livro e novamente fechado e volta à prateleira empoeirada.

Certa feita, ao participar de uma conversa entre uma senhora e um velejador, me ative quando a mulher perguntou ao homem qual o objetivo dele com o barco que havia comprado. O velejador respondeu que pretendia dar uma volta ao mundo. A mulher se espantou e disse: – O senhor é muito louco e aventureiro! O velejador perguntou quantos filhos ela teve e a mulher respondeu que tinha três. Foi aí que o velejador devolveu a pergunta: – E o louco e aventureiro sou eu é?

Somos assim mesmo e estamos sempre querendo padronizar a vida dos outros olhando exclusivamente para a nossa. Chamamos de loucos aqueles que nem de longe desejam caminhar pelos nossos caminhos, como se estes não tivessem espinhos e nem pedras. Avistamos o certo apenas quando os padrões estabelecidos por alguém guiam nossos olhos. Temos que ficar calados diante daqueles que discordam das nossas crenças para não atiçar a fúria desenfreada através de palavras e agressões físicas. Deve ser por essas e outras que taxamos de loucos aqueles que não aceitam como verdades as nossas certezas, ou aqueles que querem dançar na rua, que sorriem e falam sozinhos, que andam sujos, que dormem nas ruas, que comem migalhas apanhadas do lixo, que andam nus ou que simplesmente falam verdades que não queremos ouvir. Afinal o que é a loucura?

Mas minha prosa não era essa, pois o que queria mesmo era achar um mote para esmiuçar a fotografia que ilustra esse texto meio amalucado. Isso mesmo, essa imagem para mim escancara um mundo de sonhos possíveis e imagináveis e me leva a varar os oceanos em busca dos infinitos horizontes. A imagem desse barquinho fora do comum é a síntese que sempre busquei a bordo do meu Avoante, em que vivi uma vida de sonhos, apesar de ter viver fora dos padrões das “quadradices”.

Quanto mais olho para o retrato desse barquinho navegando suavemente sobre as águas mansas e com sua chaminé soltando lufadas de fumaça branca no ar, mais me vejo como seu tripulante. Na loucura de minha imaginação me vejo cruzando oceanos, acenando para outros barcos, chegando a uma ilha deserta, fazendo planos para novos rumos ou simplesmente sentado na popa e olhando para o mundo em minha volta. Imagino o que pensariam os “saudáveis” envolvidos em suas lógicas ao me ver navegando nesse barquinho encantado. Será que perguntariam quais equipamentos eletrônicos que eu usava? Será que perguntariam pela potência do motor? Será que perguntariam pelos equipamentos de salvatagem? E o tipo de âncora? E sobre as baterias? E o modelo? Qual o projetista? Qual a marca das velas? – Não, acho que não perguntariam nada! Acho até que teriam pena de mim por está navegando em uma embarcação tão rústica. Talvez tirassem uma foto para mostrar aos amigos nos grupos sociais. Talvez um aceno de cabeça para aliviar o desconforto em me vê navegando ali em coisa tão imprópria e ele em um barco tão maravilhoso.

Pois é, a cada olhada na imagem minha imaginação flutua no espaço e sai em busca de novos horizontes. A cada nova olhada, novos sonhos se somam aos outros e me alegro por estar vivendo aquela viagem naquele barquinho. Recordo das muitas vezes em que fui taxado de alienado porque vivia a bordo de um veleiro lindo e que me deu infinitas alegrias. O Avoante não tinha o luxo desejado e buscado por tantos sonhadores com a vida sobre o mar, mas me deu tudo o que eu queria ter, enquanto assistia calado e espantado o filme dos desejos sem fim do delírio dos sonhadores.

A imagem desse barquinho sem nada e com tudo do que o homem necessita me abre o coração, e deixa minha mente aberta para novamente viver o sonho.

Quanta loucura! Quanta “quadradice”!

Nelson Mattos Fillho/Velejador