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Escritos da alma

flavioOntem, 03/06, recebemos em nossa cabaninha de praia os irmãos, Flávio e Jorge Rezende, almas pra lá de boas, e entre um papo e outro, Flávio, jornalista e escritor indo e voltando, nos dedicou um dos seus escritos. Os escritos do jornalista podem ser acompanhados diariamente no blog Flavio Rezende. 

Almas desafiadoras de um horizonte desconhecido

Marco dentista na sexta de tarde e para minha surpresa, recebo convite do meu mano odontológo Jorge, para aventura nos próximos dias em São São Miguel do Gostoso e adjacências.
Topei e fomos. Depois de incursões de pescaria e fotos recebemos convite do casal Lúcia/Nelsinho para pagamento de uma velha promessa a ser executada em Enxu Queimado.
Assim mesmo Enxu, pelas peculiaridades do lugar. Fomos avançando pelo litoral e chegamos a Avoante Pizzas e Saltenhas, onde o casal nos abraçou, revelou uma história incrível de mudanças, desafios, com eles deixando situações de vida confortáveis para novos   horizontes, tendo Nelsinho herança material significativa e aderente a onde estar e, Lúcia, idem, decidindo o casal por mergulhar no mundo náutico, adquirindo embarcação e partindo para modus vivendi em cidades litorâneas como na Bahia, estando hoje em Enxu Queimado usufruindo de uma vida diferente, alternativa e despojada.
São seres leves, sensíveis, maravilhosos. Convivência saudável, dotados de histórias, emoldurados por vivências, sedentos de pessoas que queiram compartilhar esse lado lúdico da vida, sentir o ar, fotografar o mar, se embriagar com as cores dos frutos, das flores, alugar o chalé, estar no bem bom do amar.
Estou vivendo um momento de pura magia, espaço farto,  cores democráticas, natureza diversa, algo que os melhores sonhos anseiam, que as divindades recomendam, que os médicos prescrevem.
Sou feliz quando diante de pessoas como Nelsinho, Lúcia e Jorge celebro a vida, me sinto gente, ser, humano.
Que situação, rapaz…

Flávio Rezende aos três dias, mês seis, ano dois mil e dezenove.  12h47.

Praia de Enxu Queimado

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Nelson e Lucia – amigos

nelson luciaA palavra hoje está com o amigo José Mauro, cabra arretado e dono de uma verve que só vendo, basta ver as letras que ele destrincha no blog Eu e o maldade, e foi lá que ele postou o texto e enfeitou com um retrato, dos bonitinhos aqui, tirado lá na fascinante Ilha do Sapinho, uma das joias encravadas na Baía de Camamu. Fala aí, , e obrigado pelas palavras abonitadas.

Isso deve ter uns 4 anos. Tudo em mim pedia por uma parada geral, por um desligamento do mundo. Alguém então me falou de Nelson, Lúcia e o Avoante. Um casal que vivia em um veleiro e que poderia nos acolher por uns dias à bordo.

Em um píer no bairro da Ribeira, em Salvador, embarquei no Avoante, uma embarcação pequena, mas valente, aconchegante como casa de mãe, para 4 dias de velejadas pela Baía de Todos os Santos.

Paixão à primeira vista. Pela vela, pelo veleiro, por Nelson e Lúcia e por aquela vida tão simples e diferente da minha e que eu nem sabia que existia. Dormir ao balanço do mar, olhando apenas o clarão das estrelas, foi algo que me tocou profundamente. E a partir dali o mar da Bahia virou meu destino sempre que a correria da vida em terra permitia. A ponto de eu mesmo comprar um veleiro e acalentar sonhos de libertação por quase um ano.

Certo dia, recebo a notícia de que haviam vendido o Avoante. Tinham vivido nele por mais de 10 anos, mas era necessário. Aquele não era apenas um barco, era um pedaço de suas almas, era o ente tangível que lhes ancorava um modo de vida.

A tristeza me bateu. Não conseguia ver Nelson e Lúcia em terra firme. Temi por sua felicidade, desconfiei que não conseguiriam mais se adaptar.

Hoje, vez por outra, entra uma mensagem de WhatsApp do “Comandante”, direto de sua casa na praia de Enxu Queimado, no litoral do Rio Grande do Norte. Às vezes é uma foto das delícias preparadas por Lúcia, às vezes um post do preservado e ativo Diário do Avoante (diariodoavoante.wordpress.com), ou às vezes apenas uma bela foto da natureza deslumbrante do lugar com um sincero “Bom dia, meu amigo”.

Nunca senti uma ponta de ressentimento. Nunca um tom de melancolia, nunca um maldizer a vida, sempre a mesma alegria, generosidade e simplicidade que conheci e aprendi a admirar a bordo do Avoante.

Obrigado por mais uma lição, além da vela, Comandante!

Zé Mauro Nogueira

Água rasa

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Zé Mauro Nogueira é um irrequieto, tão irrequieto que quando chegou a bordo do Avoante, em 2013, sorriu, olhou para cima, olhou para os lados, olhou para o mar e falou: – Vamos nessa comandante! Senti que a frase havia sido pronunciada como sentença de libertação e que todo tipo de preocupação ficaria abandonado sobre as tábuas do píer. E assim foi durante quatros dias maravilhosos e assim Zé virou um grande e bom amigo, que gosta de escrever e mantém um blog, chamado Blogueio Maldade. Eu: – Porque blogueio? Ele: – É a junção das letras, Blog eu e o maldade, porque tenho uma mente ferina. – Ah tá! Pois bem, fui até o blogueio maldade e, sem pedir licença e nem perdão, copiei uma das últimas postagens, instigante como as outras, para tentar mexer com os brios do cronista bissexto que há muito esqueceu o caminho das letras. – Vamos nessa Zé!

Muito antes de Zygmunt Bauman alardear que a vida é líquida na pós modernidade, Marshall Berman já nos lembrou que tudo que é sólido desmancha no ar.

Mas o que isso quer dizer, essa fluidez, essa evanescência? Onde as observamos? Cotidianamente, em todas as nossas relações, sejam afetivas ou profissionais.

Uma das ideias básicas por trás do conceito é a de que as coisas se personificam e as pessoas se coisificam. Ou seja, passamos a atribuir valor demasiado às coisas, criando apego ao que é mera mercadoria, e passamos a tratar as pessoas como coisas, itens descartáveis, consumíveis.

Essa característica leva a uma outra, a transitoriedade das relações. Como tudo é consumo, até mesmo os outros seres humanos, mesmo as relações tradicionalmente mais importantes passam a ser efêmeras, descartáveis, duráveis apenas na medida em que cumpram uma utilidade. Por isso líquidas, porque não duram o tempo de se tornarem sólidas, não chegam a criar vínculo efetivo, muito menos compromisso real.

No ambiente online, de amigos de Facebook ou de grupos de whatsapp, isso fica explícito. A facilidade com que se fica “amigo” de alguém é proporcional à de terminar a “amizade”. Basta um click. Sem afeições ou explicações. Números de uma organização social que mede sucesso e felicidade estatisticamente, através de contadores de redes sociais.

Essa facilidade com o que as coisas acontecem num mundo líquido, essa velocidade de uma sociedade conectada, 24×7, tornam-se ditames, gabarito para todo o resto. Quase ninguém mais está disposto a investir tempo em se dedicar a alguma coisa para colher resultados futuros, quase ninguém mais quer se esforçar verdadeiramente para conseguir algo de valor.

Infelizmente, essa expectativa de facilidade e velocidade, vai formando uma sociedade além de líquida, rasa, superficial, óbvia. Contraditoriamente, é a sociedade do conhecimento formada por indivíduos que, em sua maioria, não querem perder tempo ou se esforçar para obtê-lo.

O sucesso e a riqueza devem acontecer de forma rápida e sem maiores esforços. Na velocidade de realizar uma transação eletrônica, na facilidade de encontrar uma explicação no Google, sem o desafio real da complexidade da vida.

Alunos universitários que, em sua maioria, não querem teoria, que não têm tempo a perder estudando nem estão dispostos a se esforçar para ler os autores no original; preferem as apostilas, os resumos. Querem o conhecimento colocado em suas cabeças de forma fácil e rápida, como um download de arquivo via Dropbox. Que acabarão por se tornar profissionais que vivem à base de citações da revista VOCÊ S/A ou do que ouviram no FANTÁSTICO, que repetem o que a massa diz num control C, control V frenético, e que usam “filosofia” como expressão pejorativa.

Mercado farto para os livros de autoajuda, que prometem receitas simples para a felicidade, para o sucesso profissional e para qualquer outro desafio humano. Bom também para os livros que prometem a fórmula mágica, em sete ou dez passos, para ser um gerente eficaz ou para ser um Líder de verdade, só precisando encontrar quem mexeu no seu queijo ou um monge não executivo.

Ou, como a última moda, demanda inesgotável para coaches e, agora, masters coaches. Alguém que promete “desenvolver” o outro, transformar-lhe, de maneira personalizada, objetiva, prática, tudo como o mundo atual exige.

Quem está familiarizado com a proposta da caracterização das gerações e sua classificação, poderá enxergar o z, o y ou o x em cada ponto do discurso, seja no objeto ou no sujeito que o pronuncia. Isso porque o conhecimento, a ciência, partem da observação do mesmo fenômeno, usando abordagens diferentes: o indivíduo (psicologia), o homem em sociedade (sociologia) ou como garante sua sobrevivência (economia), por exemplo.

Ter a capacidade de sentir-se confortável no maelstrom, nesse turbilhão potente de relações efêmeras, de mudanças hipervelozes e de predominância do que é superficial e óbvio, é característica adaptativa relevante dos seres humanos, absolutamente útil à sobrevivência.
Para os mergulhadores, resta aprender a se divertir em água rasa.

             Zé Mauro Nogueira

Furacão Irma chega ao topo da escala

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O furacão Irma, que avança sobre o mar do Caribe no sentido da costa dos EUA, está sendo considerado, segundo os cientistas do tempo, o de maior poder de destruição dos últimos anos e chegou a categoria 5, topo da escala Saffir-Simpsonque, que mede a intensidade dos furacões.    O bicho é feio, tenebroso, extremamente violento e produzindo ventos de mais de 251 km/h. É a natureza mais uma vez demostrando sua força diante de meia dúzia de homens sem noção e “donos” de nações, que se acham deuses e arrotam o poderio avassalador de suas bombas, como se nada pudessem intimidá-los. Torcemos que a mãe natureza tenha piedade daqueles que estão no caminho do Irma e que após sua passagem o mundo possa refletir suas ações, coisa difícil de acontecer, mas a gente pede. Nas redes sociais, moradores e visitantes das áreas a serem atingidas pedem clemência em postagem assustadas e aflitivas, como a do casal Mauriane e Luiz, do veleiro Cascalho, que estão nas Ilhas Virgens Britânicas. Desejamos paz, tranquilidade ao casal e que a mãe natureza seja complacente. 

“É esse o cara que tá chegando, sem ser convidado, sem ter visto de entrada, e que tá bagunçando a vida de todos por aqui. É um furacão de categoria 4 e nominado Irma. Ele chega trazendo ventos fortíssimos de mais de 235 quilômetros por hora, que se movimentam de maneira circular, no sentido anti horário e ao redor de um centro chamado olho com quase 50 quilômetros de diâmetro neste caso. Chega trazendo muita chuva e ondas muito grandes. As Ilhas Virgens Britânicas onde estamos devem ser severamente atingidas.
Estamos preparados da melhor maneira na medida do possível.
Nos dobramos a força e a fúria da mãe natureza e rogamos a Deus pelas vidas de todos os que estão no caminho deste monstro. Que possamos acordar sãos e salvos desse pesadelo. Amém!” Luiz e Mauriane

Mais dois cruzeiristas prontos para o mar

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Em meados de Março, enquanto o verão se esforçava para dar seus últimos suspiros, mesmo com um Sol de rachar moleira dos mais desavisados, recebemos mais dois alunos para o Curso de Vela de Cruzeiro. Os amigos Edson Bonfim e Mário Hilsenrath embarcaram no Avoante para sentir na pele como vivem aqueles que optam em morar a bordo de um veleiro de oceano. Foram quatro dias navegando pela Baía de Todos os Santos, ancorando a cada noite em fundeadouros diferentes, se aprofundando nos assuntos de navegação e curtindo a vida, pois essa é a melhor parte.

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Fazia tempo que Edson queria embarcar no Avoante, mas os astros teimavam em não alinhar. Dia desses ele apareceu na marina Angra dos Veleiro, onde estávamos, e teve a sorte de chegar justamente no dia em que reuníamos um grupo de velejadores e afins em torno de uma churrasqueira. Ele saiu dali animado e prometeu antecipar a decisão. Em conversa com seu amigo Mário, que também tem o sonho de sair pelo mundo durante dois anos, de barco ou não, combinaram vir fazer o curso. No Avoante eles viram que nem tudo são flores, mas que também nem sempre as teorias se encaixam com a realidade. Cartas Náuticas, meteorologia, planejamento, arrumação, ventos, velas, condições do mar, GPS, rotas, ancoragem e tudo o mais que gira em torno do povo do mar foi motivo de bate papo, regado a café da manhã, pastéis fritos na hora – pois é, no Avoante tem fritura sim – bolo quente e mais um rosário de delícias do cardápio de Lucia.

O Avoante em Salinas da Margarida      

O nosso Curso de Vela de Cruzeiro tem o objetivo de mostrar a vida em um veleiro sem segredos, sem mistérios, sem medos e com a simplicidade que ela requer. E foi isso que apresentamos aos novos velejadores cruzeiristas Edson e Mário, aos quais desejamos bons ventos e mares tranquilos.     

Navegação em solitário

VITO DUMAS 2 Os navegadores solitários enfrentam quatro problemas, que numa primeira abordagem nos surgem parcialmente apavorantes:

– a arte de navegar

– a preparação física e psicológica;

– o mar alto; e

– a solidão.

Numa postagem recente sobre um veleiro comandando por um velejador solitário de 71 anos, que havia garrado e encalhado em Cabo Frio, litoral do Rio de Janeiro, falei que admirava a bravura daqueles que se lançam ao mar sozinhos em busca do sonho, de um ideal, de respostas, de aventura, de se encontrar ou simplesmente de curtir a vida ao sabor das ondas e dos ventos. Alguns leitores comentaram o acidente em Cabo Frio e deram vivas quando o veleiro voltou a navegar, desejaram bons ventos e sorte ao velejador. Outros preferiram se armar com o rol das teorias que habitam as sombras aconchegantes dos palhoções de clubes e marinas e ficaram no bem bom das acusações. Hoje, depois de seguir uma dica do velejador Jorge Dino, me deparei com uma postagem no blog Mare Nostrum, de José Maria Alves, que se diz Pelegrino da Terra e Mendigo dos Céu, de onde copiei as letras em itálico, acima, e que abrem o texto Navegação em Solitário.  “…O solitário é um marinheiro por excelência, um amante do mar, que com ele intenta viver para sempre, até que a morte os separe – ou una… – percorrendo os oceanos com as suas velas aladas…”

Construindo o sonho

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Construir um veleiro não é tão simples assim e acho até que quando o amigo e velejador Jovito Melo estava a procura de um bom título para seu blog, ele sabia o que o esperava. Porém, esse é um assunto que rende muitas garrafas vazias de cerveja e longas horas de discursão em qualquer mesa onde estiver reunido menos de meia dúzia de velejadores. E olhe que é um bom assunto! Bem, Jovito que mora em Arapiraca, cidade alagoana conhecida como grande produtora de fumo e um pouquinho distante do mar, comprou um projeto do POP 25, do Roberto Barros (Cabinho), e no Blog Simples assim conta todos os percalços, acertos, traumas e experiências que vem adquirindo ao longo da jornada de construtor naval amador. Ele pede que as pessoas não se acanhem em dar um pitaco ou mesmo uma simples espiadela de quem não quer nada, mas querendo, pois o que ele quer mesmo é aprender, corrigir os desacertos e quando tudo acabar, levar seu veleiro para singrar os mares. Simples assim!