Arquivo da tag: história da vela

O velejador e a galinha. Ou será o contrário?

1466007101236

Na época das grandes navegações e dos descobrimentos os navios saiam do porto abarrotados de bichos para que servissem de alimento aos marujos e quando chegavam em terras errantes parte da fauna era desembarcada para ajudar na invasão e encher os olhos alarmados dos nativos. A bicharada servia também de moeda de troca e nem duvido que o troca troca era grande. Devia ser um tal de trocar galinha por apito, apito por porco, porco por aranha, aranha por cobra e assim por diante, até chegar na confusão que é hoje. No mundo da navegação moderna a bicharada continua servindo a bordo, mas não – pelo menos eu acredito – pelo aspecto culinário e sim de companhia. Cachorro, gato e papagaio são os mais requisitados, porém, tem quem convoque outras espécies e já soube que tem até cobra passeando de veleiro pelos sete mares. O papagaio de pirata é o mais famoso, até pelas estripulias de seus donos e também por posar para a eternidade em um rótulo de rum. Agora quem deseja tomar a fama do papagaio e a galinha Monique, que navega serelepe pelo mundo a bordo do veleiro Yvenic, com seu comandante e faz o maior sucesso nas redes sociais. Ela já foi vista toda agasalhada caminhando sobre a neve do Ártico, já tomou banho de sol nas praias caribenhas, já fez bossa em Saint Bart e até carcarejou nas Ilhas Canárias. Monique é o bicho, ou melhor a ave! O velejador Guirec Soudée, francês que decidiu ganhar os mares em 2014, diz que optou em levar uma galinha a bordo pensando, além da boa companhia, nos ovos que colheria diariamente. Por isso que o povo diz que no mar tem maluco pra tudo e ainda sobra um bocado pra tocar gaita. Tomará que Guirec não ancore seu veleiro em Enxu Queimado, minha praia do coração lá no Rio Grande do Norte, em um sábado de aleluia. A história da galinha Monique e seu comandante está na página do Facebook do velejador e é arretada.   

Anúncios

De conspiradores e malucos

IMG_0212

Uma notícia que acaba de chegar por entre as marolas do grande mar virtual me remeteu a um episódio que se passou numa tarde ensolarada na Baía de Camamu em 2005, enquanto batíamos papo, regado a umas cervejinhas estupidamente geladas. Mas antes de contar o bafafá, vou comentar o que me fez lembrar o caso.

Os jornais online dessa quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016, dão conta que um casal de velejadores dos EUA pediu ajuda a Guarda Costeira na terça-feira, 16, enquanto navegava nas proximidades da costa cubana e foi resgatado por um navio da Disney que seguia para Miami, mas ao atracar no porto, o velejador foi preso pelo FBI sob a acusação de conspiração. As autoridades dizem que ele participou de um ataque aos computadores de um hospital em Boston, em 2014, e quando surgiu seu nome como um dos resgatados, não tiveram duvidas em colocar o homem atrás das grades.

No mar tem todo tipo de gente e os barcos a vela ultimamente tem servido para um bocado de maruagem. Não duvido nada se algum dia aparecer alguma autoridade querendo impor regras de fiscalização para todo veleiro que deixar ou chegar ao porto, nos mesmos moldes que acontecem com os navios.

Certa vez fui recriminado em um certo clube náutico por dar ouvidos e acolher de bom grado todo velejador de passagem pela cidade. Defendi-me com a alegação de ser também um velejador de cruzeiro e por isso saber das dificuldades que um viajante do mar tem por aí afora, onde nem sempre a recepção é amistosa. Claro que minhas alegações foram motivos de muxoxos, mas eram as mais verdadeiras e dificilmente aqueles que recriminam estão a fim de ouvir justificativas. Se o cara é gente boa ou não, até que ele mostre sua face sinistra eu estou pronto a ajudar.

A história do velejador conspirador puxou minhas lembranças para baixo daquela palhoça em Camamu, porque naquele dia ficamos cara a cara com uma valente e raivosa militante de um dos grupos terroristas que atuam na Espanha. Estávamos já na sei lá quantas cervejas, quando ancorou um veleiro de bandeira espanhola e de lá desembarcou um casal que se dirigiu para onde estávamos e sentou em uma mesa vizinha a nossa. Lucia, como boa anfitriã, convidou o casal a sentar com a gente, pois estávamos junto com o casal Breno (que Deus o tenha) e Lau e os dois sabiam falar fluentemente vários idiomas. O convite foi aceito de pronto.

Naquele tempo havia acontecido um grande atentado na Espanha e o Breno comentou sobre o ocorrido, condenando o grupo que havia assumido o ato terrorista. A mulher, que havia acabado de chegar, fechou a cara e o homem acendeu um cigarro e deu um sorriso pelo canto da boca. O Breno insistiu no tema e a Lau atiçou o fogo soltando impropérios contra os terroristas. Sem conseguir segurar à ira, a mulher levantou, deu um soco na mesa e gritou palavras em um dialeto espanhol que fez o Breno corar. A Lau, que não é de ficar calada, soltou os cachorros para cima da mulher e assim o bafafá foi aumentando e eu já começando a achar que teria que centrar fileiras na turma do deixa disso.

Breno levantou e apontou o dedo para o rosto da mulher e respondeu gritando no mesmo dialeto que ela falava. A mulher puxou o marido pela camisa, saiu gritando alguma coisa, fazendo gestos como se estivesse apontando uma arma em nossa direção e voltaram para o barco.

Perguntei ao Breno o que havia acontecido e ele disse que a mulher era militante ao grupo terrorista do atentado na Espanha e não admitia que ele e Lau incriminassem o ocorrido e que se tivesse uma metralhadora ali acabaria com a gente sem piedade. Breno ameaçou denunciá-los a Polícia Federal e assim o casal se retirou soltando palavras de ordem e fazendo ameaças.

Para aliviar a tensão, peguei outra cerveja e ficamos ali observando o veleiro dos estranhos, mas a Lau não sossegava o facho e de vez em quando soltava palavrões em direção ao barco. A noite chegou, o sono bateu, os ânimos acalmaram e fomos dormir o sono dos justos. No dia seguinte, procurei o veleiro do casal na ancoragem e nem sinal. Como não vimos o nome do barco e não perguntamos os nomes da dupla, pois o moído aconteceu rápido e não tivemos tempo para as apresentações de praxe, até hoje a história navega em minhas recordações e tremo só em pensar que podia ter sido metralhado por uma terrorista braba que só um raio.

Aí você pergunta: – O que danado isso tem a ver com o conspirador preso nos EUA? Eu respondo: – Sei lá, mas no maravilhoso cruzamento de informações que ocorre em nosso cérebro, muitas vezes alguns arquivos se relacionam sem que nem mais.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A Tempestade – Epílogo

Michael Gruchalski (1)Depois de longos, tenebrosos e quase intermináveis dias de angústias, avexamento e desesperança dos leitores, chega ao fim a série A Tempestade, escrita pelo velejador de longo curso Michael Gruchalski. Do mesmo modo que começou, o final deixa na gente um gostinho de quero mais, pois o Michael é um exímio contador de histórias e causos tendo o mar como pano de fundo. Não preciso me estender em mais delongas, porque tudo já foi dito nos 20 capítulos que se seguiram, porém, é preciso sim agradecer ao autor por ter brindado nossos leitores com tão fascinante história.

A TEMPESTADE

EPÍLOGO

A história é verdadeira e foi contada em forma de crônicas, por partes, cada uma objetivando realçar um aspecto da aventura. Dei destaque à beleza e a magia das cores, sons e sentidos quando a força da natureza desnuda e põe à mostra a pequenez do homem. Procurei dar destaque também àqueles elementos incontroláveis, o medo, o terror e a desesperança que surgem durante uma aventura quando ela sai do controle e desanda rumo ao grande desconhecido.

A perda do leme de um barco é, de longe, a pior, a mais funesta coisa que pode acontecer. Por ser um problema sem solução, nada é comparável com o tamanho e a natureza das dificuldades encontradas. Para todos os outros acidentes, exceto ao do naufrágio repentino, há soluções que levam o barco avariado e sua tripulação a algum lugar. Sem leme, não se vai a lugar algum. E ponto final.

——————————————————————————-

Com um erro de uma a duas milhas de raio, as duas bandas do leme de fibra do veleiro Panoramix estão hoje enterradas na areia, no fundo do oceano, a uma profundidade de 50 metros. Bem na costa norte de Sergipe. Bem lá, na posição S 10º 42’, W 36º 26’, onde, navegando no rumo 60º, a proa aponta para o Nordeste, visando o waypoint Rio São Francisco a 23 milhas a leste da foz do velho Chico. Nossa rota, até Maceió, fecharia o rumo em 40º a partir dali, seguindo mais 65 milhas para o norte com o waypoint Coruripe no meio do caminho.

Duas placas enormes, abauladas, com um metro e setenta de comprimento, de fibra de vidro e resina poliéster com oito a dez milímetros de espessura, literalmente indestrutíveis naquele ambiente de água salgada. Ficarão lá por muitos séculos ainda, zombando da passagem do tempo, das correntes marítimas e gerações e gerações de peixes e crustáceos. Chegaram lá depois de se separarem do eixo do leme do nosso veleiro, mergulhando naquelas aguas turvas da costa sergipana para nunca mais voltar, no início da madrugada de sábado da última semana de setembro de 1997. Portanto, há quase vinte anos. Em linha reta, a 34 milhas da foz do rio Sergipe, 19 milhas da costa, e a 18 milhas do waypoint rio São Francisco.

Julgamos hoje que foram duas placas mal coladas uma à outra durante o processo de fabricação e que, por isso, quase tiraram a vida de três velejadores experientes durante a subida para Recife com a intenção de participar da Refeno. É evidente que a perda do leme por si só não representou perigo de vida à tripulação, mas sim a combinação do acidente com a ocorrência da tempestade na noite seguinte.

—————————————————————————

Nosso CAL 9,2, fabricado doze anos antes pela Mariner de Porto Alegre, havia sofrido, no verão de 1995, um acidente ficando preso por um bom tempo nas pedras da ilha de Maré. Fazendo água, foi trazido às pressas para o clube onde verificou-se que o eixo do leme havia entortado. As batidas constantes nas pedras também haviam inutilizado a bucha inferior do eixo além de fazer um furo bem na junção do telescópio com o casco, motivo da grande entrada de água.

Nada mais fácil de consertar do que isso. Um bom torno e um bom torneiro para aproveitar o mesmo eixo. Uma boa resina e um bom fibrador para aproveitar o mesmo leme. Vinte dias depois, o barco já estava navegando de novo. E, diga-se de passagem, à venda, pelo antigo dono.

O comprador foi meu amigo Marcos Marcellino, na época, morador de Feira de Santana, que passou de um Ranger 22 para um poderoso veleiro de 30 pés. Acho que sem saber que o barco tinha sofrido aquele acidente. Após muitas velejadas pela baia com a família e amigos, um ano depois, o desejo de ampliar seus conhecimentos náuticos partindo para novos horizontes falou mais alto. Recebi o convite para acompanha-lo na Refeno de 1997 em agosto e não me fiz de rogado. Estivera lá, pela primeira vez, em 1995 com um Samoa 29 numa viagem dura e cheia de problemas. Esperava agora, sombra e água fresca como compensação e tudo indicava que seria assim com aquele barco quase novo, quase em perfeito estado de conservação. Seu filho, Ildefonso, o Ildé, de 16 anos que, apesar da escola, encontrou uma maneira de nos acompanhar, pelo menos ajudando-nos a levar o barco até Recife.

E, lá fomos nós.

Largamos as amarras as quatro da tarde de uma quinta-feira de sol e vento leste/nordeste do píer do Aratu Iate Clube em Salvador. Destino: Recife. Geladeira cheia, despensas mais cheias ainda, água nos tanques, diesel de reserva nos bojões, bote inflável recém-comprado desinflado no porão, motor e refrigeração revisados uma centena de vezes, um bom estoque de pilhas para nosso GPS comilão, enfim, tudo pronto para a grande viagem.

E, deu no que deu.

Na minha opinião e na do comandante também, exclusivamente por causa da colagem malfeita das duas bandas de fibra por cima do eixo e suas costelas de aço, dois anos antes. Elas se separaram devido a infiltração continua de água nos orifícios deixados pela má colagem. Com a pressão da água passando com maior velocidade naquela viagem mais longa até Recife, os pequenos furos se tornaram rombos que permitiram a entrada de mais e mais água no leme. O isopor que compõe a maior parte do seu interior ficou encharcado, começou a se despedaçar e a pesar muito. O peso excessivo, a pressão e a vibração do conjunto causado pela velocidade do barco fragilizaram o leme até aquele ponto em que as muitas fissuras se tornaram uma fenda contínua, inicialmente estreita, mas comprida ao longo de toda a parte frontal do leme. Mais água, mais pressão e o leme não resistiu. Abriu em leque separando suas duas bandas de fibra, uma para cada lado, uma para cada canto, ambas em direção das profundezas do oceano, esse depósito de segredos que lhe serviria, dali em diante, de sepultura eterna.

————————————————————————————-

Ainda a cronologia:

– Aratu Iate Clube-Salvador ao ponto do acidente: das 16:00 da quinta a 01:00 da madrugada do sábado ou 175 –milhas em 33 horas com média de 5,3 nós por hora.

– Trabalhos de construção e instalação do leme de fortuna: 14 horas, das 03:00 às 17:00 horas do sábado. Derivando para o leste-sudeste.

– Inicio do deslocamento com o leme de fortuna: 17:00 do sábado até a tempestade por volta das 23:00 horas.

– Retomada de navegação com o leme de fortuna e chegada em Aracaju: das 03:00 da madrugada as 18:00 do domingo, ou 15 horas para vencer aproximadamente 30 milhas a média de 2 milhas por hora.

——————————————————————————

Enfim, são e salvos e atracados no pequeno píer de madeira do Iate Clube de Aracaju, tratamos de encontrar uma solução para sair dali.

Navegando. E conseguimos.

Mas, isso já é outra estória.

Por: Michael Gruchalski

Um caso aqui, outro acolá

IMG_0319

Numa rodada de violão a bordo do Avoante, numa noite de lua nova sobre o mar da Ilha de Itaparica, surgiu à história do velejador que tinha em seu barco um motor super econômico que nem ele sabia avaliar o consumo.

Saíram dois amigos navegando cada um em seu veleiro com vento macio e mar de almirante, quando sem ter nem pra que, um deles decidiu ligar o motor. Diz ele que era para dar uma carga nas baterias, mas o outro acha que era para conseguir navegar um pouquinho mais rápido. Fica assim o dito pelo não dito.

Depois de uns quinze minutos em que o motor zoava em meio à noite, o bicho deu um piripaque e parou. Sem entender o que se passava o velejador tocou novamente na chave e escutou apenas um suspiro de reclamação. Ele arregalou os olhos e quando se virou para a esposa ela estava com os olhos mais aboticados do que os dele e já na eminencia de puxar os cabelos.

O velejador respirou fundo para retomar a razão, olhou em volta e correu para a cabina para acionar o rádio VHF e pedir socorro ao amigo que navegava um pouco mais a frente. As primeiras palavras saíram meio atrapalhadas e quase aos berros, mas depois de outra respirada forte as palavras fluíram para ele conseguir explicar a situação: – Amigo, meu motor parou e agora? O outro não contou conversa e deu a solução: – Rapaz, seu barco é a vela, então vá velejar e se acalme! Pois num é que era verdade!

Respirou fundo novamente, enxugou o suor que a essas alturas do campeonato escorria em sua testa e partiu para regular as velas e tentar chegar ao local da ancoragem. Fez tudo certinho, com a calma que o momento exigia, e conseguiu.

O amigo veio até o seu barco e juntos foram tentar achar o motivo do problema. Mexeram daqui, sacudiram de lá, apertaram parafusos, bateram no motor, sopraram mangueiras, ficaram na iminência de virar o motor de cabeça para baixo e entre um aperto e outro o amigo perguntava se tinha combustível. A resposta era sempre a mesma: – Tem e esse motor é super econômico.

Sem mais o que fazer, sem mais onde mexer, o amigo insistiu na pergunta do combustível e foi quando o velejador respondeu que sabia que tinha, pois havia enchido o tanque há oito meses, mas sabia que o motor era econômico e tinha certeza absoluta que ainda havia combustível no tanque.

O amigo deu uma olhada de través para ele e pediu para verificar a afirmação. Amararam um parafuso em um cabinho e quando jogaram dentro do tanque o danado ficou pulando e fazendo barulho por quase dez minutos, anunciado a secura do tanque. O velejador arregalou os olhos novamente e disse: – Mas homi, eu jurava que ainda havia diesel, pois esse motor é super econômico. O outro respondeu: – Eu sei, mas de vez em quando é bom você colocar nem que seja um pouquinho.

Depois da história do combustível o violão voltou a tocar e após duas músicas parou novamente para alguém contar outro caso.

Outro velejador brabo que nem um siri numa lata estava com o veleiro ancorado na Baía de Tínhare/BA, quando na boquinha da noite deitou para dar um cochilo no cockpit enquanto a esposa fazia uma arrumação na cabine.

Com o sono quase ferrado escutou bem longe o barulho do motor de uma escuna se aproximando e em seguida o marulhar de alguma coisa caindo na água. Com os olhos fecha não fecha e o sono tomando conta do seu pensar, escutou a escuna indo embora bem devagar e novamente o marulhar de águas em movimento bem próximo ao veleiro.

Num segundo ele abriu os olhos e ficou atento ao barulho, mas como não escutou mais nada, fechou novamente os olhos e tentou pegar no sono. Uma pulga beliscou seu juízo e ele levantou para dar uma olhada ao redor e nessa hora viu um homem remando um bote inflável se dirigindo para um igarapé. Num lampejo sua vista procurou pelo seu bote e viu o canto mais limpo do mundo. Ele deu um gritou e somente recebeu como resposta uma risada e o grito de: Perdeu!

Brabo como ele é, teve que engolir a brabeza e se contentar com a perda e ter ainda que ouvir a gozação dos amigos que não deixam barato. Até hoje quando alguém pergunta pelo ocorrido, ele insiste em dizer que estava dormindo e que nem viu quando levaram o bote. Mas o interlocutor pergunta de propósito apenas para ver a sua face vermelha da raiva, que depois de quase dez anos ainda não passou.

Tem outra boa sobre inflável que aconteceu durante a reunião de comandantes para a regata Aratu/Maragogipe, mas essa vai ficar para outra página desse diário, porque o moído é grande.

Nelson Mattos Filho/Velejador

A Tempestade – parte 18

8 Agosto (5)

Ufa! Depois de um longo e tenebroso inverno Michael resolveu nos mandar mais um capítulo de A Tempestade, uma aventura eletrizante no mar de Sergipe. 

A TEMPESTADE

A BARRA DE ARACAJÚ

Michael Gruchalski

Não havia muito a fazer.

Acordamos do sonho de sermos rebocados. Lentamente, como saindo de uma anestesia geral. A alegria de vermos os nossos problemas resolvidos durou pouco e deixou-nos frustrados. De repente, o destino que parecia tão perto, tornou-se distante, quase inatingível pelas dúvidas e dificuldades de se transpor, sem cartas ou ajuda externa, uma barra rasa e desconhecida. E havia ainda catorze milhas de mar a nossa frente. Uma viagem de três a quatro horas por águas de cor barrenta, espetadas por duas dezenas de plataformas, das quais só a metade ativa, com gente e barcos de apoio em volta. A outra metade eram restos de estruturas disformes, esqueletos enferrujados, sacudidos e maltratados ao longo dos anos pelo vento, mar e abandono pelo homem. Uma luz vermelha, solitária, no ponto mais alto, alimentada por placas solares, era o único aviso de perigo para os eventuais navegantes noturnos incautos que se aventuravam por ali, tão próximos da costa. Isso, quando não estivesse apagada ou tão fraca ou suja de excrementos de gaivotas depositadas sobre a placa solar…

Apertei os cabinhos da cana do leme, vesti o pé esquerdo com tênis do filho do capitão, prendi a adriça da mestra no mosquetão do meu cinto peitoral e fui para o trapézio controlar o rumo do barco. O capitão pediu para deitar um pouco e o filho do capitão lembrou-se da nossa fome e foi preparar sanduiches. Nosso estado físico era lastimável, minhas costas doíam, a pele, exposta ao sol forte da manhã, queimava. Havia um dedo de água salobra no piso da cabine e quatro vezes isso no banheiro. Tudo balançava para lá e para cá. Vi o filho do capitão abaixado com uma caneca de sopa, recolhendo o que podia de água.

Minha visão do conjunto, barco, mar e céu era privilegiada. De pé, do alto do espelho de popa, via o deck, o bico de proa, o interior do barco pela gaiuta do salão, as pequenas marolas laterais formadas pelo avanço a quatro nós aparentes de velocidade do barco, a mastreação e a cruzeta balançando debaixo de um céu azul e nuvens de flocos brancos.

Via também alguma coisa no horizonte. Outro barco de pesca? Proa de um navio? A primeira torre de petróleo? Não era um ponto em terra porque ela já estava bem visível no nosso través, pelo oeste. O continente era uma linha tênue, mas de cor bem definida, cinza escura, que já nos acompanhava desde o raiar do dia. Continuar lendo

A Tempestade – Parte 17

nat rec 2012 (12)

A conta gotas! É assim que defino a Tempestade contada aqui pelo amigo e velejador Michael Gruchalski, mas nem por isso deixa de ser uma história fantástica, já que o Michael sabe como prender a atenção do leitor. O último capítulo da Tempestade foi publicado aqui em 29/03, VEJA, e naquela postagem torci para que o velejador não resolvesse hibernar durante o Outono. Faltou pouco! Há, ia esquecendo de dizer que a imagem que ilustra esse texto é do amigo, velejador e fotografo Marcelo Barreto, feita durante uma dura velejada a bordo do Avoante entre Natal/RN e Recife/PE.

A TEMPESTADE

A APROXIMAÇÃO DA COSTA – Michael Gruchalski

Seis hora da manhã. A vela de proa não trabalhava mais por falta de vento. A escota batia nos brandais com um ruído metálico que ecoava na mastreação. Nosso motor funcionava bem, quase em marcha lenta, empurrando o barco a apenas dois nós. Como o mar estava relativamente calmo, naquela velocidade, ainda dava para segurar a cana de leme por dentro sem que o conjunto derrapasse e saísse da água. Na descarga, pela popa, aquele som seco e ritmado dos gases e da água de refrigeração. Transmitia uma sensação de conforto para meus amigos que dormiam no cockpit e outra sensação de segurança em mim que segurava a cana de leme.

Dali a pouco, para acelerar e aumentar a velocidade, alguém teria de ir para o trapézio e manter com a força da perna o leme para baixo. O sol jorrava seu calor por cima dos nossos corpos cansados. Nuvens altas, bem brancas e soltas vinham agora do sudeste. Denunciavam um dia de calor intenso. Como nós, o mar, cinco horas depois da tempestade, decidiu descansar também. Havia, entretanto, ainda pequenas ondas desencontradas. Algumas, mais teimosas, batiam secas no costado e sacolejavam o barco. Elas eram o resultado direto da mudança da direção do vento que girara de madrugada exatos cento e oitenta graus, de noroeste para sudeste. Dentro de duas ou três horas, até elas, dormiriam.

Nosso rumo era sudoeste, quase oeste. O gps indicava que estávamos a onze milhas das primeiras plataformas de petróleo e dezessete do farolete na entrada do rio Sergipe em Aracaju. Não dava para ver nada no horizonte pelo nossa proa, mas mais à direita, bem no leste, reconheci, na bruma da manhã, uma tênue faixa de terra cinza clara. Que bom, pensei. Sergipe estava ali. Terras, praias e cidades do norte do estado, bem próximas à capital. Perto, mas longe.

Em condições normais, três horas de viagem. Uma vez lá, aguardava-nos a temida barra rasa do rio Sergipe onde ficava o Iate Clube. Sem ajuda de algum barco piloto, com certeza, uma aventura no escuro. Nossas cartas eram confiáveis, claro, mas elas não tinham nenhuma ideia de como haviam sido as movimentações aleatórias dos bancos de areia do canal desde os tempos em que haviam sido impressas ou digitalizadas. Investir pela barra de um rio, encontrar e seguir pelo canal profundo que sempre existe, é uma arte reservada a navegadores locais. Poucos metros fazem a diferença entre encalhar ou passar. Forasteiros, como nós, devem ficar ao largo, aguardar socorro de reboque ou procurar um porto seguro em outro lugar.

Eu vi primeiro.

Debruçado no leme, procurando descansar, vi, pelo leste, um ponto preto na linha do horizonte. Um barco! Um barco de pesca, com certeza. Não havia dúvidas, era um barco de pesca. Pequeno demais para ser um navio, próximo demais para ser um ponto em terra e muito definido nos contornos para ser a ponta de uma plataforma. Só não dava para definir se estava vindo em nossa direção. Precisava esperar um pouco. Não acordei meus amigos. Eram sete e meia. Viesse de onde viesse, havia saído de madrugada para pescar, logo após a tempestade o que significava garantia de tempo bom. Continuar lendo

Velejando de Salvador às Granadinas – I

 

image Hoje vamos dar início a mais uma história do mundo da vela e mais uma vez ela vem com a assinatura do velejador baiano Sergio Netto, Pinauna, que, para nossa alegria, decidiu abrir seus arquivos para nos presentear com seus belos e educativos textos. Dessa vez navegaremos, através das letras e sonhos, de Salvador até às Granadinas a bordo do catamarã Blooper, um luxuoso Lagoon 41. Publicarei essa “fofoca náutica”, como batizou o autor, em quatro capítulos.

VELEJANDO DE SALVADOR ÀS GRANADINAS – I

Em setembro de 2003 a BYC – Brasil Yacht Charter resolveu desativar sua filial de Salvador porque o retorno do investimento era baixo, e a Policia Federal deu um prazo para pagamento do imposto de importação dos veleiros que ela trouxe em comodato. Jairo Zollinger, meu vizinho de atracação na Bahia Marina e gerente da BYC me comunicou que estava procurando um skipper para devolver os barcos para os Estados Unidos. Já que ele não queria levar, eu achei que era uma oportunidade velejar um Lagoon 41 e disse que levaria grátis, isto é, como se estivesse fazendo um charter com as despesas pagas e passagem de volta para dois tripulantes.

Ele consultou os proprietários que aceitaram a proposta, desde que eu saísse imediatamente, mesmo nesta época de furacão no Caribe. Dia 26 de setembro assumi como comandante, e foi feita a saida na receita federal, policia federal e capitania. Dia 28 visitei Beto Correia Ribeiro e Fafá e peguei as cartas do Caribe e os conselhos de onde parar e por onde navegar. No dia 1 de outubro fui com Jairo, Joba e Bruno, filho de Joba, recém-chegado da Austrália, de lancha para a Ilha das Canas ver o Blopper. Fiz orçamento para as despesas da viagem, US$4250 (menos da metade do que eles pagariam a um profissional) que me foi adiantado; testamos o barco e Bruno foi aprovado para ir até o Caribe. Igor estava revisando o piloto automático.

Dia 4 de outubro recebi o catamarã às 11:30 na Bahia Marina, levado por Gordon – gerente de náutica da Ilha das Canas, e o filho dele. André, Gilca, Liana e Lara chegaram ao meio dia para se despedirem. Igor ainda estava em cima do mastro concluindo a revisão do anemômetro. Larguei às 14 horas, com Joba, Bruno, Pedro Mutti e Adriana. Nenhum deles tinha visto de entrada para os EUA. Ficou combinado que deve embarcar pelo menos um tripulante, com minha aprovação, lá pelo Caribe. O Sereno acompanhou até o Iate. A tripulação com ótimo astral e cheia de entusiasmo. Continuar lendo