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Agora vou pegar pesado

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Agora vou falar e quem quiser que diga que a Bahia é terra de moqueca, o que não duvido e não nego, porém, o que duvido mesmo é que exista uma baiana arretada para fazer moquecas melhores do que as de Lucia. A danada aprendeu os segredos que foram repassados por Dona Aurora, nêga velha da nação independente da Ilha do Campinho, na enigmática e fascinante Baía de Camamu, e entre toques e retoques, aprumou a mão para produzir as melhores moquecas do mundo. A imagem aí em cima é de uma moqueca de peixe, que estava boa que só a mulesta. Há quem diga que sou suspeito para falar e pode até ser verdade, mas que é assim é. Tenho dito!

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A CULINÁRIA DE CAMAMÚ

Esse artigo foi publicado em 2007 no Jornal TRIBUNA DO NORTE, onde escrevo aos Domingos a coluna DIÁRIO DO AVOANTE.                                

 

                                     Nesses dois anos de velejadas, tivemos boas surpresas e descobrimos vários lugares maravilhosos de difícil acesso por terra, mas facilmente acessíveis pela água. Em todos esses lugares nos deparamos com uma culinária rica e farta. Pratos deliciosos feitos por pessoas simples, mas com um toque de sabor que só os deuses da culinária sabem. Pessoas humildes, muitas vezes sem instrução, mas que colocam todo amor nos pratos que preparam. Os resultados são verdadeiras maravilhas culinárias.

                                   Um desses lugares que pega pela boca é a casa de Dona Aurora, na ilha de Campinho, Baía de Camamú/BA. Dona Aurora, uma senhora de 76 anos, prepara uma moqueca de deixar qualquer um triste de comer. Todos os dias ela vai pescar em sua canoa ou numa gamboa que ela tem em frente de casa. Todos os dias comem-se moqueca na casa de Dona Aurora. Moqueca de peixe. Moqueca de siri. Moqueca de polvo. Moqueca de sururu. Moqueca de tudo. Todas com bastante azeite de dendê e muita pimenta. Em Camamú/BA, se produz o melhor azeite de dendê do mundo. Em Campinho conheci a borra do dendê. Uma pasta de sabor exótico que colocada na moqueca da um sabor inigualável. Para os desavisados é bom primeiro saber onde fica o banheiro. O bicho é bom mais é brabo. A borra do dendê também é consumida com farinha ou pão.

                                   A moqueca de fruta pão, uma especialidade de Dona Onilía irmã da Aurora, é de deixar qualquer um extasiado. Onilía não gosta de ensinar a ninguém, mas a amizade que fizemos com essas senhoras foi tão estreita e fraternal que Lucia foi das poucas privilegiadas a aprender essa receita, pelas mãos da Onilia.

                                   Lucia aprendeu fazer uma moqueca de banana, que é uma coisa de outro mundo, ou melhor, do mundo culinário de Camamú. Ela aprendeu e aperfeiçoou com camarão. O resultado eu não tenho como descrever aqui, porque faltam palavras. A moqueca de banana é servida na Barra de Serinhanhém, Baía de Camamú/BA.  A de banana com camarão só pedindo a Lucia.      

                                   Na Ponta da Ingazeira, em Campinho, existe o barzinho do Ronrem, esse não é o nome do bar, mais o apelido do dono. Lucia insiste em chamá-lo de fifonho. Romrem serve um file de agulha, frito no dendê, que é dos sonhos. A técnica de retirar a espinha da agulha é muito interessante. O peixe fica inteiro e não perde nenhuma característica.

                                   Na ilha do Sapinho, eles preparam uma moqueca de lagosta ou a lagosta na casca, que faz a delicia dos poucos turistas privilegiados.

                                   Em Camamú, também se come moqueca de baiacu que um amigo velejador batizou de Pividi da Abissínia. O prato é uma delicia, mas o peixe precisa ser tratado por quem conhece, pois o baiacu é um peixe venenoso. Na Ilha do Campinho só tem um tratador confiável e o apelido dele é bordado, uma figura.

                                   A Lambreta, marisco encontrado em quase toda Bahia, em Camamú ele ganha um toque especial. Lucia prepara um espaguete com lambreta que é de lascar meio mundo.

                                   Em todos esses lugares as mesas são fartas e deliciosas. Os ambientes são muito simples. Alguns são pequenos bares e restaurantes. Outros como na casa de Dona Aurora a comida é uma forma de receber bem o visitante. As receitas são passadas com muita boa vontade. A não ser que a dona da receita seja Dona Onilia.

                                   Um dia recebi um convite de Dona Aurora para ir comer uma moqueca. O convite veio com uma advertência. A minha moqueca não teria muita pimenta, seria feita em separado. “- Dona Aurora, não mereço essa atenção”. “- Claro que merece você é do meu coração…”. Lucia, que gosta muito de pimenta, iria comer da mesma moqueca da Aurora. Chegamos um pouco antes da hora combinada, porque tinha umas cervejas geladas esperando é isso não e coisa que se deixe esperar. A moqueca da Aurora é feita no fogo à lenha embaixo de uma mangueira, tudo ao ar livre no meio do terreiro. A mesa fica embaixo de outra mangueira, também ao ar livre. Que saudade!

                                   Chegou à hora do almoço e lá vem minha moqueca. Quando coloquei na boca saiu fogo até pelos ouvidos. Dona Aurora olhou aquela cena endiabrada e falou “Nelson, deixe de ser fraco homem, não coloquei nem pimenta na sua moqueca, experimente um pouquinho da minha..” Bem, a moqueca, embora “quente” estava uma delicia. Pimenta tem uma magia, quanto mais você come mais tem vontade de comer. Hoje já não me surpreendo com as moquecas de Dona Aurora. Muitas vezes até coloco mais uma pimentinha. Quanto ao dendê, meu intestino teve de se acostumar, senão tinha que parar de comer aquelas delicias, isso é impensável.

 Nelson Mattos Filho

Velejador