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O pequeno príncipe e a princesa do Campinho

O Príncipe de Maraú, que chamo de “príncipe de Onília”, é uma das muitas e boas histórias da enigmática Ilha do Campinho, recantinho apaixonante da poética Baía de Camamu. Este pequeno e belo documentário, publicado no YouTube, em março de 2010, carregou-me nas asas da saudades para relembrar o maravilhoso, mágico e encantado mundo que tive a alegria de viver por fascinantes cinco meses quando embarquei para morar a bordo do veleiro Avoante.  Tive a alegria de escutar dezenas de vezes, e gostaria muito de continuar ouvindo, a história do namorico da “baianinha” com o aviador, escritor, Antonie de Saint-Exupéry, contada pela própria Dona Onília sob a sombra da varandinha da casinha amarela debruçada sobre as águas macias do rio Maraú. Quanta saudade, querida e boa amiga. Agora me diga: Por acaso, a senhora já encontrou seu “pé de fumaça” aí no Céu? 

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Sinais

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A natureza tem mistérios que não se explicam, e não venha de lá com as teorias das ciências e nem com os ditames das sagradas escrituras, porque nem um, nem outro chegam nem próximo dos segredos guardados a sete chaves. Agora, se você disser que o homem do campo e o pescador, povo danado de sabedor, tem a palavra certa, eu confirmo e dou fé. – Não entendeu? – Pois lá vai o moído!

Digo o que disse aí em riba, depois de ver a chuva cair, nessa quinta-feira, 17/05, nos terreiros de Enxu Queimado e ver nos noticiários que tem chuva molhando as areias do litoral e parte do Agreste potiguar. Aí Lucia perguntou: – Amor, você que viu a previsão ontem, essa chuva estava programada? – Se estava eu não sei, mas se estava, as lentes dos satélites dormiram no ponto. Após a pergunta de Lucia me avexei a curiar no site do CPTE/INPE, coisa que faço diariamente, e lá estava um amontoado de nuvens carregadas avançando sobre os domínios de Poti. – E ontem? – Bem, ontem, à noite, tinha umas formações sobre o oceano que banha o RN, mas com indicativos que continuariam passando ao largo. – E o vento? – O vento era e continua sudeste, que “teoricamente” empurraria as nuvens para os quadrantes do Norte. – Mais “minino”, quem danado sou eu para dar pitaco em coisa que não entendo? Mas foi assim e a chuva nesta quinta-feira está boa que só vendo. Só não sei se choverá onde precisa, pois dizem que pras bandas das florestas de caatinga do Seridó, a secura está de meter medo em bicho brabo.

Todo esse bolodório foi porque vi nuvens carregadinhas de chuva farta e, sabendo que nada havia sido “combinado” com os homens que anunciam as previsões, lembrei dos bate papos que tinha com Dona Aurora, sob as sombras das mangueiras debruçadas nas margens da Ilha de Campinho, Baía de Camamu/BA. Foi lá que em um belo dia, Aurora, com fala mansa e andar mais manso ainda, apontou para o brilho prateado do Sol, refletido sobre as águas, e anunciou que choveria no dia seguinte ou mais tardar no segundo dia, a partir dali. Pedi que indicasse outros sinais e ela disse que só mostraria no fim da tarde. Voltamos para sua casa, comemos uma moqueca dos deuses, cozinhada em fogo de lenha, preparada em panela de barro e terrivelmente apimentada. Proseamos e demos boas risadas com os babados do lugar e quando o Sol esfriou, caminhamos pela picada aberta por entre as árvores até as margens do rio. Quando o astro rei tomou rumo para desmaiar sobre o poente, com cores incrivelmente alaranjadas, Aurora falou: – Tá vendo Nelson, vai chover e muito, pois o Sol está muito puxado para o vermelho e aquele brilho que estava na água pela manhã já anunciava a chuva. Sorri por dentro e fiquei ali viajando em reflexões e pensamentos: – Dessa vez tiro a prova?

O Sol se foi, despedimos de Aurora e voltamos ao Avoante que descansava nas águas de um cenário paradisíaco. A Baía de Camamu é um paraíso! A noitinha, mirei o céu e fiquei maravilhado com o brilho intenso das estrelas. Era um brilho diferente e limpo. Parecia que as estrelas haviam sido polidas e mais vez me voltei em lembranças, dessa vez das palavras do velejador Bernard Moitessier, autor de uma bíblia para o povo do mar, intitulado “O Longo Caminho”. Moitessier, disse que aprendeu com os navegadores orientais, que quando as estrelas estavam muito brilhantes era sinal de temporal nos dias seguintes. Pronto, o firo estava fechado! – Choveu e choveu bonito por dois dias seguidos no paraíso!

Aí você pergunta: – Sim, e daí? – Pois bem, já que ajuntei um monte de história soltas e nem de longe disse o que queria dizer, vou arrematar para dar fim a prosa. Ontem, quarta-feira, 16/05, fui registrar em retratos a pescaria de arrastão das mulheres pescadoras de Enxu Queimado. Entre um foco e outro, observei que aquele sol de rachar moleira, refletindo na água os ensinamentos de Aurora e aquele céu azul com poucas nuvens, estavam trazendo recado. A pescaria das meninas ocupou minhas atenções e deixei para lá o recado da natureza. Na noite bem adiantada, fui para minha tradicional volta pelo quintal e notei que as estrelas de Moitessier estavam lá, brilhantes que só elas. – Vai chover, mas porque os satélites que estão lá em cima não dizem que sim? Choveu e com direito a relâmpagos e trovões, para ficar mais bonito!

Eh, Aurora, seus ensinamentos nunca esqueci e dificilmente esquecerei, como jamais esquecerei os dias maravilhosos que passei na Baía de Camamu, especialmente na sua Ilha de Campinho. Foi aí que escutei pela primeira vez a voz e vi o rosto da natureza. – Sabe de uma coisa, querida amiga? – Acho melhor não dizer o que ouvi, nem descrever os traços daquele rosto, pois vai que acreditam!

São 4 horas da tarde e o tempo anuncia mais chuva.

Os sinais, pare e observe os sinais!

Nelson Mattos Filho

De conspiradores e malucos

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Uma notícia que acaba de chegar por entre as marolas do grande mar virtual me remeteu a um episódio que se passou numa tarde ensolarada na Baía de Camamu em 2005, enquanto batíamos papo, regado a umas cervejinhas estupidamente geladas. Mas antes de contar o bafafá, vou comentar o que me fez lembrar o caso.

Os jornais online dessa quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016, dão conta que um casal de velejadores dos EUA pediu ajuda a Guarda Costeira na terça-feira, 16, enquanto navegava nas proximidades da costa cubana e foi resgatado por um navio da Disney que seguia para Miami, mas ao atracar no porto, o velejador foi preso pelo FBI sob a acusação de conspiração. As autoridades dizem que ele participou de um ataque aos computadores de um hospital em Boston, em 2014, e quando surgiu seu nome como um dos resgatados, não tiveram duvidas em colocar o homem atrás das grades.

No mar tem todo tipo de gente e os barcos a vela ultimamente tem servido para um bocado de maruagem. Não duvido nada se algum dia aparecer alguma autoridade querendo impor regras de fiscalização para todo veleiro que deixar ou chegar ao porto, nos mesmos moldes que acontecem com os navios.

Certa vez fui recriminado em um certo clube náutico por dar ouvidos e acolher de bom grado todo velejador de passagem pela cidade. Defendi-me com a alegação de ser também um velejador de cruzeiro e por isso saber das dificuldades que um viajante do mar tem por aí afora, onde nem sempre a recepção é amistosa. Claro que minhas alegações foram motivos de muxoxos, mas eram as mais verdadeiras e dificilmente aqueles que recriminam estão a fim de ouvir justificativas. Se o cara é gente boa ou não, até que ele mostre sua face sinistra eu estou pronto a ajudar.

A história do velejador conspirador puxou minhas lembranças para baixo daquela palhoça em Camamu, porque naquele dia ficamos cara a cara com uma valente e raivosa militante de um dos grupos terroristas que atuam na Espanha. Estávamos já na sei lá quantas cervejas, quando ancorou um veleiro de bandeira espanhola e de lá desembarcou um casal que se dirigiu para onde estávamos e sentou em uma mesa vizinha a nossa. Lucia, como boa anfitriã, convidou o casal a sentar com a gente, pois estávamos junto com o casal Breno (que Deus o tenha) e Lau e os dois sabiam falar fluentemente vários idiomas. O convite foi aceito de pronto.

Naquele tempo havia acontecido um grande atentado na Espanha e o Breno comentou sobre o ocorrido, condenando o grupo que havia assumido o ato terrorista. A mulher, que havia acabado de chegar, fechou a cara e o homem acendeu um cigarro e deu um sorriso pelo canto da boca. O Breno insistiu no tema e a Lau atiçou o fogo soltando impropérios contra os terroristas. Sem conseguir segurar à ira, a mulher levantou, deu um soco na mesa e gritou palavras em um dialeto espanhol que fez o Breno corar. A Lau, que não é de ficar calada, soltou os cachorros para cima da mulher e assim o bafafá foi aumentando e eu já começando a achar que teria que centrar fileiras na turma do deixa disso.

Breno levantou e apontou o dedo para o rosto da mulher e respondeu gritando no mesmo dialeto que ela falava. A mulher puxou o marido pela camisa, saiu gritando alguma coisa, fazendo gestos como se estivesse apontando uma arma em nossa direção e voltaram para o barco.

Perguntei ao Breno o que havia acontecido e ele disse que a mulher era militante ao grupo terrorista do atentado na Espanha e não admitia que ele e Lau incriminassem o ocorrido e que se tivesse uma metralhadora ali acabaria com a gente sem piedade. Breno ameaçou denunciá-los a Polícia Federal e assim o casal se retirou soltando palavras de ordem e fazendo ameaças.

Para aliviar a tensão, peguei outra cerveja e ficamos ali observando o veleiro dos estranhos, mas a Lau não sossegava o facho e de vez em quando soltava palavrões em direção ao barco. A noite chegou, o sono bateu, os ânimos acalmaram e fomos dormir o sono dos justos. No dia seguinte, procurei o veleiro do casal na ancoragem e nem sinal. Como não vimos o nome do barco e não perguntamos os nomes da dupla, pois o moído aconteceu rápido e não tivemos tempo para as apresentações de praxe, até hoje a história navega em minhas recordações e tremo só em pensar que podia ter sido metralhado por uma terrorista braba que só um raio.

Aí você pergunta: – O que danado isso tem a ver com o conspirador preso nos EUA? Eu respondo: – Sei lá, mas no maravilhoso cruzamento de informações que ocorre em nosso cérebro, muitas vezes alguns arquivos se relacionam sem que nem mais.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Da mesa dos deuses

12 Dezembro (221)

A Moqueca de Banana com Camarão é uma das especialidades de Lucia na cozinha e sinceramente eu sou suspeito para falar, pois como diz minha Mãe: “– Tudo que Lucia faz eu digo que é bom”. E apois! Ela aprendeu a receita da moqueca de banana em nossa primeira ida a Baía de Camamu e num passeio que fizemos para conhecer a Barra do Sirinhaém. Quem ensinou foi a saudosa Dona Lourdes, proprietária de um restaurante no local e que servia esse prato como carro chefe de sua cozinha. Lucia – comunicativa e indagadora como boa cearense – provou o prato, detalhando os ingredientes, e depois do almoço foi até a cozinha do restaurante pedir para Dona Lourdes ensinar os segredos. Não deu outra! Lucia incrementou o camarão a receita e o resultado foi saborosíssimo. Certo dia ela soube que o programa de Ana Maria Braga estava fazendo chamadas para o quadro Mande sua Receita e as melhores seriam produzidas ao vivo. A receita foi enviada e constou no site do programa. No final de 2015 Lucia fez a moqueca em três oportunidades e em cada uma delas saiu com uma configuração diferentes: Um dia foi só banana; no outro, banana com robalo e no terceiro, Banana com Camarão. Foi difícil saber qual ficou mais delicioso, porém, se você quiser provar um deles aí vai a receita:

MOQUECA DE BANANA COM CAMARÃO

– INGREDIENTES:

6 Bananas da Terra, maduras cortadas em rodelas;

400g de camarão fresco sem casca;

1 cx de leite de coco;

suco de três limões;

1 cebola grande, 2 tomates, 1 pimentão – todos cortados a gosto;

1 xícara de coentro e cebolinha;

uma pimenta de cheiro, duas pimentas malaguetas, um dente de alho socado;

1 colher de chá de pimenta do reino moída;

2 colheres de sopa de azeite de oliva;

2 colheres de sopa de azeite de dendê.

– MODO DE FAZER:

. Reserve o leite de coco e os camarões.

. Em uma panela coloque os outros ingredientes, misture bem, deixe descansar no mínimo por 30 minutos.

. Coloque o leite de coco e ponha no fogo. Deixe cozinhar até as bananas ficarem macias. Acrescente os camarões e azeite de dendê. Quando os camarões ficarem rosa, retire do fogo.

. Sirva acompanhado com arroz e farofa.

Bom Apetite!!!!

Registros e lembranças de uma velejada

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VIAGEM NO VELEIRO COMPAGNA

DIÁRIO DE BORDO

No final de outubro de 2015 embarcamos no veleiro Compagna, um Delta 36, a convite do comandante Braz, para levá-lo de Salvador a Paraty. Foi uma viagem maravilhosa em que registrei dia a dia em um diário.

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1º dia – 24/10

Saída do Aratu Iate Clube às 8horas e 40 minutos no rumo de Camamu/BA. A bordo os proprietários Braz e Cris, eu e Lucia. Vento ESE e mar de almirante. Velejada tranquila, porém, Braz e Cris tiveram leve desconforto com o fatídico enjoo, mas nada que tirasse o sossego de nossa velejada. Afinal de contas era o primeiro contato deles com o mar aberto e era de se esperar que o enjoo desse o ar da graça. Um peixe se encantou com a isca artificial e teve que ser embarcado. Chegamos à barra de Camamu com maré de enchente e às 21h20minutos jogamos âncora em frente à casa da saudosa Dona Onília Ventura, na Ilha de Campinho.

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2º dia – 25/10

Acordamos cedo, tomamos café e desembarcamos para rever e abraçar Aurora, uma das pilastras da Ilha de Campinho e, para mim, a melhor referência da Baía de Camamu. Em seguida fomos de botinho até a Ilha de Goio, onde passamos bons momentos entre banhos de mar e bate papo com o proprietário do único restaurante da pequena ilha, mais conhecido como Sr. Goio, que é uma figura. Retornamos ao Compagna para almoçar uma moqueca, preparada por Lucia com o peixe que pescamos. No fim da tarde eu e Lucia desembarcamos para despedir de Aurora e retornamos ao Compagna para o sono dos justos. Continuar lendo

Notícias do mar – II

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Depois de passar por Camamu, Ilhéus e Abrolhos, atracamos hoje o veleiro Compagna no Iate Clube do Espírito Santo. Até aqui os ventos e o mar foram maravilhosos com a gente e nem uma pauleira que nos pegou de surpresa na segunda noite em que dormimos fundeados em Abrolhos, como também a proibição sem nenhum sentindo para o desembarque na ilha Santa Bárbara, conseguiu tirar o brilho de nossa navegada. Amanhã vamos ganhar novamente o mar no rumo do Rio de Janeiro e tomara que o tempo continue a nos acariciar.   

Nas estradas da vida e da gastronomia

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Nem só de mar vive um velejador de cruzeiro, muitas vezes queremos desenfastiar do sal que impregna a alma e botamos o pé na estrada, ou melhor, embarcamos no Avoante rodoviário, um Uno Fire, presente de Mãe – quando Mãe quer é assim – e saímos por aí. Nesse último final de semana deixamos o Avoante muito bem guardado no fundeadouro nota mil do Aratu Iate Clube e fomos escutar a pulsação dos tambores do maracatu e dos metais do frevo pernambucano. Essa viagem que deu muitos panos pras mangas vai render boas histórias por aqui, mas essa postagem é apenas para deixar muita gente com água na boca e falar do cardápio do almoço dessa segunda-feira preguiçosa de outubro, em que estamos sendo recepcionados na casa dos amigos Daniel e Ângela Cheloni, alagoanos de coração e proprietários do Del Popollo, o melhor restaurante de Maceió. Porém, não foi do cardápio do Del Popollo que saiu nosso almoço, e sim das magias gastronômicas de Lucia.

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O menu foi uma mistura de sabores oriundos das cozinhas brasileira e britânica, alias, brasileira da Ilha de Campinho, Baía de Camamu/BA. Moqueca de Fruta-Pão com sobremesa de Crumble de Frutas com sorvete de creme. A moqueca Lucia apreendeu com a saudosa Onília Ventura, uma das pilastras do Campinho, que segundo ela mesmo, foi namorada do Saint-Exupéry quando esse aterrissou seu avião nos redutos da ilha há muitos anos. Essa história é bem conhecida em Camamu e a casa onde o aviador/escritor usou como base de apoio, até hoje faz parte da história e está plenamente preservada. Pois é, por enquanto é só e desculpe por deixá-los com água na boca. Sabe o que mais: Essa moqueca raramente você terá a oportunidade de degustar produzida por outra pessoa, a não ser por Lucia.