O Noroeste


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Quem navega pelas bandas da Bahia, entre um bordo e outro, já deve ter escutado falar do vento noroeste que deixa o mar dos Orixás com forte sabor de pimenta ardida e que atinge facilmente velocidades de mais 40 nós. Os navegadores baianos falam do noroeste a boca pequena para não acordar a fera adormecida, mas sempre que se escuta trovoada pelos lados do quadrante norte, o que mais se vê é gente se apegando com todos os Santos em busca da proteção divina. Deus é mais!

Eu navego pelas águas do Senhor do Bonfim há um bom tempo e já presenciei a força desse vento na Baía de Camamu e em Salvador, mas nunca havia me enganchado com ele enquanto navegando e até achava que a fama de durão do bicho fosse mais assombro do que verdade, porque sempre apostei que quem navega entre o Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba – mar de gente grande -, estava vacinado contra um bocado de trapizomba. Pois num é que eu estava bem enganadinho da silva!

Uma coisa é você está com o veleiro ancorado – bem ancorado – e ver com olhos arregalados a chegada da fera e escutar incrédulo o bicho zoar nos estais. Nessas horas a gente não sabe se fica dentro da cabine, se fica fora, se pula na água, se vai ao banheiro ou se faz tudo ao mesmo tempo. São cerca de meia hora de reza braba e promessas que nem de longe lembramos depois quais foram mesmo, porque a cabeça e coração vão a mil. E quando a âncora da o primeiro sinal que vai garrar? Aí lascou tudo e ai daquele tripulante que se atrever a perguntar o que está havendo. Primeiro que a resposta não sai e segundo que é arriscado ele servir de depósito de impropérios saídos da boca de um comandante amalucado e sem controle da situação. É bronca, mas depois que a festança acaba e certificamos que continuamos ancorados, a primeira coisa que se faz é soltar um longo suspiro e correr para pegar uma cerveja bem gelada, que é para espalhar o sangue. O passo seguinte é colocar as ideias em ordem e escolher a melhor forma de contar para os amigos o que se assucedeu.

Outra coisa é quando o monstro pega a gente no meio de uma alegre velejada de verão – porque ele só amedronta durante o verão – e temos que pegar o bicho pelo chifre para tentar escapar contando vantagens embaixo dos palhoções dos clubes. Pois foi isso mesmo que nos aconteceu na primeira segunda-feira de janeiro de 2016. Ainda bem que não foi numa sexta!

O moído foi assim: Saímos do Aratu Iate Clube no comecinho da manhã em direção ao Clube Angra dos Veleiros, no bairro da Ribeira, numa navegada tranquila e sem velas em cima – coisa que raramente faço – porque não existia nem sinal de vento e a preguiça da manhã ajudou na escolha e essa foi à decisão mais acertada que tomei. Na saída do canal do Aratu, em frente ao Porto, escutei a primeira trovoada e ao olhar por cima da Ilha de Maré vi uma enorme nuvem escura e ameaçadora. A segunda trovoada sacudiu o mundo e raios começaram a chover sem dar tréguas aos roncos do trovão. Fiz cara de valente e acelerei o motor do Avoante para seguir em frente até a Ribeira. A gente faz cada besteira na vida que só vendo!

Na altura da praia de Inema – reduto para descanso de reis, rainhas, valetes e espadas – uma enorme revoada de pássaros cruzou a proa do Avoante em busca dos abrigos em terra e me vi com cara de abestalhado e me perguntei o porquê que não fiz a mesma coisa enquanto tive tempo. Olhei para trás e vi o fundeadouro da Ilha de Maré acenando e me oferecendo abrigo, porém, minha valentia cresceu e segui em frente. Não naveguei nem dois minutos e a primeira parede de vento fez o Avoante adernar para bombordo e sem pestanejar dei meia volta e aproei a Ilha de Maré. A segunda parede de vento chegou para ficar e com ela o mar cresceu e encarneirou todo. O Avoante sentiu a ameaça, adernou para boreste e num reflexo virei à proa para o vento e acelerei o motor para mantê-lo de cara para a fera. O barco não saia do lugar e fiquei ali na batalha para domá-lo diante de tanta brabeza da natureza. Um colete, que estava preso à cobertura, sentiu a barra e resolveu desembarcar. Outro tentou fazer o mesmo, mas consegui interceder para que não o fizesse. O vento assobiava, os raios ameaçavam, os relâmpagos clareavam o dia, os trovões rocavam e eu ali engolindo em seco e tentando manter o controle do Avoante que mais parecia um cavalo dando saltos para escapar da baia.

Virei à proa, na tentativa de seguir com o vento, mas nem assim senti firmeza e fiquei rodopiando para um lado, para o outro e assim o noroeste foi acalmando, meus pensamentos clareando e o coração voltou a bater num compasso aceitável para os padrões universais da cardiologia. Ufa!

Eh, depois de tanta tensão e já que a proa estava novamente para o Canal do Aratu, botei o rabinho entre as pernas e voltei para onde não deveria ter saído naquele dia, que é o fundeadouro tranquilo do Aratu Iate Clube.

Foi assim e quem quiser que conte outra!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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8 Respostas para “O Noroeste

  1. A teimosia nos enfia em cada uma kakkka, belo relato Nelson a propósito o que significa a âncora garrar? Sempre leio esse termo e não entendi exatamente ainda o real significado

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  2. Cicero Carlos de Farias

    Eu gosto de gente corajosa como Você que se aventura para ter histórias como essas pra contar. Assim nós como simples mortais conseguimos navegar no mar das imaginações como se estivéssemos a bordo do valente avoante. Nelson já passei por uma dessas e escrevi a Crônica “Um dia de aventuras no mar”

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  3. Pôxa, essa foi das boas, heim comandante?
    Acho que eu sou meio doido, porque isto me dá uma vontade danada de embarcar nessas horas, desde que sem o leozinho…
    Mas, falando nisso, onde é que se escondeu o restante d’A tempestade do Michael?

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    • diariodoavoante

      Rapaaaaz, o homem escafedeu-se e deixou a gente com aquela velha cara de paisagem. Quanto ao noroeste: queira se apegar com um bicho desse não que é bronca! Grande abraço,

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