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Avoante avoou

3 Março (258)

Voa Avoante, voa e vai fazer seu ninho em outro coração, mas saiba, e sei que você sabe, que meu coração é seu e dentro dele ficaram os galhinhos secos onde você deitava o corpo e se aninhava para me encher de alegria e paz.

Obrigado por tudo meu amigo. Obrigado pelo carinho, pelo conforto, pela segurança, pela paz, pela alegria, pelo prazer, pelos risos, pelos choros, pelas aflições, pelos ensinamentos e por ter me mostrado horizontes que jamais imaginei existir.

Foram dezesseis anos de cumplicidade, desses, onze anos e cinco meses morando a bordo. Uma vida recheada de alegrias, felicidades, amizades, aventuras, histórias, causos, navegadas – algumas boas outras nem tanto – e muito companheirismo, aconchego e carinho recíproco. Essa foi a nossa vida a bordo do Avoante durante todos esses anos. Agora chegou a hora de dizer adeus para seguirmos caminhos opostos. Nós tomaremos o rumo de terra, ele segue sua sina de bom marinheiro e tornará a fazer a alegria de novos companheiros, pois essa sempre foi sua missão.

Pois é gente, o Avoante não é mais nosso e não tenham dúvidas que foi a decisão mais difícil e complicada que já tomamos. Depois de onze anos e cinco meses precisávamos retornar para a loucura das cidades e tentar zerar pendências que foram sendo deixadas de lado. O mundo cobra, a vida cobra, o corpo cobra, a cidade cobra e diante de tanta sincronia de cobranças, as amarras voltam a ser lançadas sobre o caís.

– Planos de retornar ao mar? – Claro que sim, pois sobre o mar a vida é mais sensata, lógica, simples, descomplicada, desapegada e feliz, muito mais feliz! Demos sim uma guinada de 180 graus, mas é assim que faz o povo do mar quando precisa navegar para frente e por mais que tente orçar os ventos não permitem.

Continuarei aqui nesse cantinho a falar não somente do mundo fascinante que é o mar e tentando repassar os ensinamentos que aprendi, porque, assim como as fragrâncias e os sabores, os temas da vida são diversos. Continuarei com sempre fiz: Escrevinhando sobre o cotidiano da vida, das cidades, das coisas, dos mistérios, dos segredos, dos homens, da natureza e tudo de forma livre e desapegada, como bem me ensinou os deuses e seres do mar.

Avoante, avoete, arribação, pomba-de-bando, arribacã – nomes populares para a ave Zenaida Auriculata – é ave migratória que está sempre a se deslocar entre as Antilhas e a Terra do Fogo, tendo a caatinga brasileira região de pouso preferido. O Avoante migrava pelos mares e dele sempre recebeu carinho e permissão para seguir adiante.

Voa avoante, voa e faz seu ninho em outras paragens, mas não deixe nunca de ouvir o chamado do mar, porque lá estão as verdades do mundo. É no mar que a vida se refaz e o homem se recria.

Outros rumos virão, mas por enquanto o bordo é de terra!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Conversa alinhavada

03 - março (88)

Nas ondas de um vento que de tão sem pressa mal assanhava as penas das pequeninas gaivotas que voavam despretensiosas sobre um cardume de peixes, o Avoante navegava em câmera lenta e em sua esteira espumas brancas teimavam em não se afastar. Das sombras da velha ilha dos tupinambás ecoavam sons abafados de uma humanidade tão sem causas e extremamente inquieta. Por que será que temos tanta pressa?

Olhando do meu cantinho no cockpit aquele quadro estático e flagrantemente vivo, meu coração se enchia de boas e felizes recordações e sonhos futuros, mas uma pontada de estranheza me cutucava o juízo diante de lembranças de conversas alinhavadas entre felizes homens do mar. E lá ia o meu veleirinho sem nenhum rancor diante daquela brisa que era nadica de nada, que o fazia patinar de um lado para outro a procura do sopro que o levasse a seguir o rumo que eu, seu amigo quase fiel, havia indicado.

Das lembranças das conversas surgiam resquícios de frases, fugidas da destemperança de velhos e novos navegantes, que no afã de adiantar a pressa, a sorte e razão, hasteavam a bandeira da ligeireza, sem ao menos pedirem perdão aos seus veleiros, e cravavam no peito o broche da velocidade mínima para o bom conforto a bordo. Com o eco de palavras tão atabalhoadas e me achando um infeliz abandonado pela sorte da boa velocidade, busquei no branco das velas a leitura para aquele vento tão sem graça que fazia o Avoante estacionar no espaço entre a proa e a popa.

Uma lancha cruzou a nossa proa rasgando água e de suas entranhas vieram gritos de festejos e brindes pela vida. Do meu cantinho observei a demonstração de velocidade e a fugaz alegria que ela proporciona. Na popa surgiu uma velinha branca, mais outra e mais outra, agora formávamos uma flotilha com quatro veleiros navegando na maciota daquele oceano sem vento.

Na segunda visada no rumo da popa as velas aumentaram de tamanho e antes que pudesse observa a terceira vez, elas já seguiam serelepes na proa do meu veleirinho quase parando. Seriam aqueles adeptos da velocidade mínima ou seria eu que insistia em ser agraciado pelas lufadas, que não vinha, do grandioso deus dos ventos e teimosamente ficava ali a ver navios, lanchas e veleiros estranhamente velozes?

Assim como quem não avisa, um ventinho foi chegando displicentemente e sem pestanejar o Avoante avançou com as velas ainda se espreguiçando e forçando um alongamento sem nenhuma intenção. A direção agora era outra e o que era perto o bastante para ser sonhado, ficou longe que nem uma saudade. E lá vai o veleirinho em busca de boas novas e tentando apressar o passo para o sei lá onde.

Olhei em volta e nem sinal das três velinhas que navegavam entristecidas pelos ventos quentes de um porão apertado. Não tinha o que reclamar e muito menos maldizer a minha sina de homem do mar e dos ventos. Era essa a minha escolha e nada no mundo iria tirar de mim aquele prazer amalucado de navegar para um lado na esperança de ir para outro. Pronto! Era disso que eu estava precisando para fazer meu veleirinho navegar em paz e com satisfação. De pensamentos de compreensão. De buscar na incógnita a força motriz que me moveria para frente. De sair do marasmo do ócio, encarar o vento e colher a essência de sua alma.

Precisava sim estar navegando em rumo oposto para ter a certeza que estava no rumo certo, porque é assim que fazem os vencedores, os idealistas, os reacionários, os amantes, os loucos, os vivos, os valentes e todos aqueles que trazem no sangue o antídoto para curar as adversidades. No mar não existe o mínimo e muito menos o máximo, porque o mar não respeita valores exacerbados. O mar só tem uma razão e essa é sem rosto, sem emoção e tão fria quanto o gelo dos polos. O mar não reconhece os valentes e sim os dotados de inteligência para reconhecer o medo. E o vento? O vento é aliado fiel do mar e grande maestro da orquestra de Netuno. É de sua batuta que saem os acordes, os sons, os rufos dos tambores e a maciez da sonoridade.

Precisava saber que estava longe para entender que estava tão perto de mim. Precisava ver meu destino se afastando para reconhecer que minha alma estava feliz e meu coração pulsava forte de alegria. Precisava sentir as velas enfunadas para espantar de minha mente aquelas conversas alinhavadas que falavam de velocidade mínima e máxima. Precisava ter chegado à hora de dar o bordo para lembrar a letra da música que diz: …De jangada leva uma eternidade/De saveiro leva uma encarnação…

Para que a pressa se a vida é tão sem lógica? Para que a pressa? Para que embarcar em um veleiro sabendo que ele é um fiel escudeiro dos ventos, um servo obediente das águas e tentar corromper sua alma?

Depois de oito horas dei por encerrada as quinze milhas navegadas e estava feliz e em paz ao lado do meu Avoante. “…Antes longe era distante/Perto, só quando dava…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

O velejador e a galinha. Ou será o contrário?

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Na época das grandes navegações e dos descobrimentos os navios saiam do porto abarrotados de bichos para que servissem de alimento aos marujos e quando chegavam em terras errantes parte da fauna era desembarcada para ajudar na invasão e encher os olhos alarmados dos nativos. A bicharada servia também de moeda de troca e nem duvido que o troca troca era grande. Devia ser um tal de trocar galinha por apito, apito por porco, porco por aranha, aranha por cobra e assim por diante, até chegar na confusão que é hoje. No mundo da navegação moderna a bicharada continua servindo a bordo, mas não – pelo menos eu acredito – pelo aspecto culinário e sim de companhia. Cachorro, gato e papagaio são os mais requisitados, porém, tem quem convoque outras espécies e já soube que tem até cobra passeando de veleiro pelos sete mares. O papagaio de pirata é o mais famoso, até pelas estripulias de seus donos e também por posar para a eternidade em um rótulo de rum. Agora quem deseja tomar a fama do papagaio e a galinha Monique, que navega serelepe pelo mundo a bordo do veleiro Yvenic, com seu comandante e faz o maior sucesso nas redes sociais. Ela já foi vista toda agasalhada caminhando sobre a neve do Ártico, já tomou banho de sol nas praias caribenhas, já fez bossa em Saint Bart e até carcarejou nas Ilhas Canárias. Monique é o bicho, ou melhor a ave! O velejador Guirec Soudée, francês que decidiu ganhar os mares em 2014, diz que optou em levar uma galinha a bordo pensando, além da boa companhia, nos ovos que colheria diariamente. Por isso que o povo diz que no mar tem maluco pra tudo e ainda sobra um bocado pra tocar gaita. Tomará que Guirec não ancore seu veleiro em Enxu Queimado, minha praia do coração lá no Rio Grande do Norte, em um sábado de aleluia. A história da galinha Monique e seu comandante está na página do Facebook do velejador e é arretada.   

Segredos que o mar não conta

01 - Janeiro (1)

“…que liberdade é essa que aprisiona a alma?”

Marçal Ceccon

Encontro Nacional da ABVC

abvc..abvcA ABVC – Associação Brasileira de Velejadores de Cruzeiro – realizará entre os dias 26 e 28 de maio, na Marina Bracuhy, Angra dos Reis, o seu 14º Encontro Nacional. O evento é aberto a todos que desejarem participar e não somente a associados da entidade. As inscrições podem ser feitas diretamente no site: abvc.com.br

Programação

Palestras

  • Volta da América do Sul – José Zanella e Eduardo Zanella – Volta da América do Sul no sentido anti-horário no veleiro Guga Buy, com contorno do Cabo Horn.
  • Ubatuba à Argentina em um 33 pés e a conserva de alimentos – José Spinelli Neto – Relato da navegação à vela feita pelo velejador José Spinelli Neto de Ubatuba até a Argentina no final de 2015. Também irá comentar as técnicas de conserva de alimentos que utilizou.
  • Pintura de barco: obras vivas e mortas – Raymond Granthan – Como identificar as necessidades de reparo em cascos de fibra de vidro bem como realizar a sua manutenção. A palestra abordará de forma prática as melhores técnicas para realizar a pintura de costados, decks e a pintura do fundo (obras vivas).
  • Velas em ventos de través a popa – Gabriel Borgstrom – Nesta palestra serão apresentadas as velas que podem ser utilizadas em ventos de través, alheta e popa e sua regulagem. Além disso, serão apresentadas dicas de manutenção de vela com vista a aumentar sua durabilidade.
  • Homem ao mar e velejada em capa – José Spinelli Neto – Nesta apresentação em auditório, serão apresentadas as técnicas de capear e de resgate de home ao mar.
  • As aventuras do veleiro Red Max (palestra em ingles) – Bastiaan Van Rijswijk – Bate papo com os tripulantes do veleiro RedMax sobre as aventuras e descobertas realizadas a bordo.
  • Combulstível para embarcações – Décio Magioli Maia – Quais as diferenças do diesel rodoviário para o marítimo? Quais as implicações do uso de biodiesel no mundo náutico? O que é o número de cetano do diesel? DIESEL VERANA, sua aditivação exclusiva, seus benefícios para o usuário e sua embarcação. Ensaios de campo com o Diesel Verana. Cuidados com o óleo diesel. Lubrificantes LUBRAX linha náutica.

Oficinas

  • Equipamentos eletrônicos de navegação – Walter Jean Claude Michel – Conheça os equipamentos eletrônicos para navegação 
  • Instrumentação náutica opensource – José Eduardo de Mello Freire – Graças a navegadores do mundo todo, uma infinidade de projetos livres torna possível montar sua própria instrumentação, com Chartploter, Sonda, Anemômetro, AIS, VHF, piloto automático etc.  Nesta oficina serão mostrados alguns projetos úteis e acessíveis aos navegadores de cruzeiro. Laptops, tablets, e celulares são bem vindos para, na medida do possível, testar os projetos.
  • Motor de popa 3,3 HP: cuidados e manutenção – Toninho Lopes – O participante terá dicas e explicações de como realizar a manutenção de motor de popa de 3,3 HP. O participante que desejar, pode também trazer seu motor de popa e realizar junto sua manutenção (neste caso deve trazer: suporte do motor, pote, pincel, pano e ferramentas).

Oficina embarcada

  • Homem ao mar e velejada em capa – José Spinelli Neto – Embarcado em um veleiro será realizada a técnica de capear e simulada a técnica de resgate de tripulante (homem ao mar).

Confraternização:

  • Jantar de abertura (26/maio)
  • Jantar de encerramento (28/maio)

Recreação:

  • Gincana com botes
  • Quizz náutico
  • Karaokê
  • Recreação para as crianças até 10 anos (dias 27 e 28, das 9h00 as 13h00 e 13h00 as 18h00)
Expositores
  • North Sails
  • Coninco
  • Dream Yacht Charter
  • Latitude Charter & Guias
  • International
  • CSL Marinharia
  • Sailabout

A Regata de Casais do Aratu Iate Clube foi sucesso

148Foi uma festa bonita a 12ª Regata de Casais promovida pelo Aratu Iate Clube no dia 14/05. Os trinta e seis barcos que alinharam na largada coloriram a Baía de Aratu e encheram de alegria o percurso de pouco mais de oito milhas. Não foi uma prova das mais fáceis, porque o vento contra, no canal, e a maré de vazante obrigaram os comandantes e suas imediatas a colocarem em prática toda a técnica de aprendizado acumulada ao longo dos anos de mar. O canal do Aratu é uma excelente sala de aula para o velejador. O veleiro Marujos, do comandante Gerald Wicks, levou mais uma vez o troféu Fita Azul – o primeiro barco a cruzar a linha de chegada.

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Como o que é bom no mar tem que continuar em terra, a festa de premiação, nas dependências do clube, foi simplesmente maravilhosa, com um delicioso jantar de comidas italianas e música ao vivo que fez aflorar todo o romantismo deste dia que deve ficar marcado na história do clube.

O Resultado foi assim:

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O catamarã de velocidade – II

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Antes reiniciar essa prosa é preciso dizer por que batizei de “O catamarã de velocidade” essa série de crônicas: O nome é uma referencia ao nosso companheiro de tripulação Myltson Assunção, pois é assim que ele chama o Tranquilidade. Myltson é um regateiro apaixonado, saudosista e em qualquer barco que embarca ele vê velocidade, porém, ver é uma coisa e ter é outra. Claro que o Tranquilidade não é um barco lento, mas também não é um regateiro puro sangue. Ele é sim um catamarã super confortável e navegava maravilhosamente bem em mar aberto. Durante a nossa velejada eu escutei tanto essa expressão que resolvi nominar assim o relato da velejada.

Bem, como tudo foi explicado, vamos continuar nossa labuta com o mar, mas antes de seguir em frente vou lembrar que terminei a página passada comendo paçoca, arroz de leite, feijão verde, batata doce e regando a goela com uma cachacinha da boa.

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Ancorado na praia do Jacaré, lugar na Paraíba onde se festeja o pôr do sol, ao som de um sax, me ative nos sites meteorológicos para destrinchar os segredos do tempo, porque até ali a coisa estava bem esquisita. Dei uma olhada em vários sites e todos prometiam que o mar e o vento seriam os mesmos que havíamos pegado até então. Se é assim, tá bom!

No dia seguinte acordamos cedo, ligamos os motores, novamente abdicamos das velas e pegamos o beco em direção ao oceano. Em frente ao porto de Cabedelo tive a certeza que tudo seria igual ou pior do que tinha sido, porque o vento no raiar do sol já beirava a casa dos 22 nós de velocidade. Ao entrar no canal que leva barra afora, as ondas estouravam na proa e lavavam tudo por cima do barco. Pensei com meus botões: – Vai começar tudo outra vez!

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Para ser sincero: a coisa foi muito pior, porque de Cabedelo até próximo ao través da ilha de Itamaracá navegamos em um mar amalucado, com ondas entre 2,5 e 4 metros de altura e incrivelmente desencontradas. Mas não era um mar em que eu não estivesse acostumado a navegar nessa região, apenas estava esquecido, pois navegar na maciez do mar da Bahia deixa a gente assim meio sei lá. Porém, o BV 43 é um barco valente e tirou de letra os amuos de Netuno, até que o rei dos oceanos resolveu sossegar e nos deixou navegar com um tiquinho de paz até a barra sul da ilha da ciranda de Lia. Resultado, saímos de Cabedelo as cinco da matina e jogamos ancora na Barrinha dos Marcos as 19 horas e 30 minutos. Quatorze horas e meia para vencer pouco mais de 40 milhas entre os dois pontos. Achou muito? Eu também! Mas foi assim e aquele mar estava endiabrado.

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Bem, o ditado diz que depois da tempestade vem à bonança. Quem escreveu essa máxima eu não sei, mas sempre é assim. A Barrinha dos Marcos, no canal de Santa Cruz/PE é um lugar arretado de gostoso e um fundeadouro fantástico. É lá que mora um grande amigo, o navegador, fazendeiro e fazedor de bons amigos Elder Monteiro e sua amada Dulcinha. O casal quando soube que iríamos aportar por ali preparou uma recepção que dificilmente esqueceremos.

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Depois de jogar ancora, numa operação cheia de pra que isso, desembarcamos e embarcamos no possante branco do Elder para ir jantar na fazenda Belo Horizonte, onde Dulcinha esperava com uma mesa farta, como toda mesa de fazenda. O cardápio foi assim: Ensopado de caranguejo na entrada; arroz de pato e galo torrado como prato principal e para a sobremesa foi servido doce de leite de lamber os beiços. Foi uma noitada maravilhosa! Quando o sono começou a pesar sobre os olhos, pegamos a estrada e voltamos ao Tranquilidade que descansava preguiçosamente nas águas históricas do canal de Santa Cruz.

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Na manhã seguinte Elder colocou a lancha na água e foi nos ciceronear pelas belezas da região. Fomos a Coroa do Avião, saborear agulhinhas fritas, camarão e cerveja gelada. Apreciamos a beleza da arquitetura do Forte Orange, avistamos o casario de Vila Velha, onde Duarte Coelho mandou e desmandou, aceleramos a lancha próximo aos manguezais bem preservados da Ilha e desaguamos na praça de alimentação de Igarassu para saborear uma deliciosa e imperdível caldeirada, servida nos pitorescos restaurantes do lugar.

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Voltamos a bordo do Tranquilidade no finzinho da tarde para descansar o sono dos justos e preparar o ambiente de bordo para receber nossos anfitriões nas terras pernambucanas. Lucia preparou costela de porco ao molho agridoce, acompanhada de risoto de jerimum. Claro que vou dizer que o jantar foi delicioso. Mais uma noitada sensacional de bons papos e boas amizades.

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A madrugada foi de chuva fina, vento brando e sonhos. A Barrinha é o lugar!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Retrato de um passeio pela Baía de Aratu – III

03 - março (360)

Não me levem a mal quanto aos comentários ousados escritos nas primeiras duas páginas desse retrato, porque foram visões de um simplório escrevinhador metido a besta. Mas tenho aprendido que tem coisas que não devemos deixar passar em brancas nuvens e muito menos ficar calado diante dos desmandos dos reis. Dor de consciência não é fácil!

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A Baía de Aratu é sim um mundão de águas lindo de ser ver, apesar do descaso que existe em sua volta, mas quanto a isso, a natureza soube e sabe contornar os deslizes do homem, mesmo que as coisas não sejam mais como antes. Navegar em suas águas tranquilas e abrigadas foi para mim uma salada de euforia, prazer e encantamento, temperado com ingredientes que somente a natureza sabe dosar.

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Quando deixamos para trás as maledicências dos antigos e novos donos do poder e suas deslavadas caras de inocentes infernais, passamos a navegar em um paraíso de águas silenciosas, cercado de campos verdejantes e manguezais apaixonantes. Aqui acolá éramos despertados pelo piado de um pássaro ou pelo esvoaçar de asas agitadas ao vento. Sem palavras para expressar minha alegria, apenas repetia: – Que que coisa linda!

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O comandante Fróes, nosso cicerone, descrevia os detalhes daquele mundo que se abria em cortinas cada vez mais deslumbrantes e assim fomos entrando em um vasto e inacreditável manguezal, entrecortados por igarapés que nem de longe imaginei existir tão próximo de uma metrópole como Salvador. Nem tudo está perdido!

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O canal foi estreitando e apareceram algumas palafitas sobre o mangue e crianças vieram às margens para acenar aos intrépidos navegantes daquela tarde de um domingo de fim de verão. Talvez se perguntando o que queriam aqueles homens em um lugar tão esquecido.

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O canal continuou estreitando até não mais permitir o avanço de nosso barquinho de alumínio e foi à hora do comandante desligar o motor, embaixo das copas das arvores do mangue, para escutarmos o silêncio. Isso mesmo: Escutar o silêncio! A paz que reinava naquela floresta encantada não tem como ser descrita, muito menos a alegria em está vivendo aquilo. Apontava minha câmera em várias direções na tentativa inglória de registrar o impensável, porém, não conseguia distinguir nas imagens capturadas a alma daquele mundo tão fascinante.

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Depois de uns minutos em silêncio, o comandante acionou o motor e iniciamos o caminho de volta. Margeamos novamente as palafitas, acenamos para as crianças e entre curvas e desvios, para livrar coroas e bancos de areias, chegamos embaixo da velha ponte com uma dúvida: E aí, voltamos ao clube ao pegamos o rumo da direita em direção a uma igrejinha que aparecia no alto do morro? Pegamos a direita!

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Mais um canalzinho estreito e sinuoso, mais manguezais, mais natureza e quando tomamos ciência, estávamos diante do município de Passagem dos Teixeiras e sua igrejinha bela que só vendo. Navegamos por mais um bom tempo e novamente paramos diante de um fim de linha para nosso barquinho. A maré começava a vazar e o Sol iniciava caminhada para o ocaso. Tínhamos que voltar ao Aratu Iate Clube e dar por encerrado nosso passeio dominical.

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Seu Fróes passou o comando da Panela – nome de batismo da nossa embarcação – para o Ney e veio sentar ao meu lado. De início perguntou o que achei do passeio e respondi sem pestanejar que foi fantástico. Ele apontou outros canais em meio ao mangue e disse que tudo aquilo era navegável, mas pelo adiantado da hora não poderíamos ir. Lucia apenas sorria e matutava na ideia de um dia ancorar o Avoante naqueles recantos tão convidativos. O caminho de volta foi breve, porém, envolvido em sonhos e frases entrecortadas de deslumbramento.

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O mar da Bahia cada dia me surpreende e fico a perguntar o que será que passa na cabeça dos homens do poder para deixa-lo tão a míngua. Se regiões como a Baía de Aratu fizesse parte de algum país que leve a sério suas paragens e natureza exuberante, jamais estaria tão esquecido. As páginas da história que por ali vivem jogadas ao leu, acabrunhadas pela vergonha do abandono, passam em nossa cara a imagem de um mal sem precedentes.

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O que vi está lá para todo mundo ver e o retrato que mostro aqui é apenas uma pequena imagem de uma navegada que me deixou encantado. Agradeço ao Everton Fróes e ao Ney, veleiro Malagô, por nos ter proporcionado uma tarde de verão tão maravilhosa.

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Não me canso de dizer: Não existe lugar no mundo melhor para navegar do que a Baía de Todos os Santos e seus afluentes.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Mais um velejador para singrar os mares do mundo

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Um amigo sempre diz que eu não tenho nada que pedir desculpas por passar alguns dias sem aparecer pelo blog, mas acho que tenho sim, porque compromisso é compromisso e quando me propus a por o Diário do Avoante no ar, foi com a ideia que ele teria atualização diária, mas como nem sempre é possível, vou navegando e dando bordos entre uma desculpa e outra. A desculpa dessa vez foi que estávamos mostrando a um novo aluno do nosso curso de vela de cruzeiro, como é a vida a bordo de um veleiro de oceano e quanto ela é prazerosa.

20160402_083426Pois bem, o Ricardo de Brasília, chegou e de cara já sentiu que a vida de velejador de cruzeiro é cheia de alegrias, boas amizades, extremamente irreverente e que nem sempre a turma está afim de dar uns bordos por aí, porém, é uma vida maravilhosa e que passa bem distante dos estresses produzidos pelas cidades.

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Como primeira aula, participou do churrasco de inauguração da churrasqueira do veleiro Intuição, do comandante Chaguinhas, que começou pela manhã, se estendeu pela tarde e culminou com o início da segunda aula, numa velejada noturna do Aratu Iate Clube até o Suarez, ou portinho da ilha de Bom Jesus – como queiram – , um dos mais gostosos e tranquilos fundeadouros da Baía de Todos os Santos. Foi uma velejada em flotilha, porque tivemos a companhia do veleiro Luar de Prata, do comandante Paulo, num percurso de pouco mais de 14 milhas.

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No segundo dia de aula, navegamos do Suarez até a ilha de Itaparica, num través gostoso, onde dividimos a ancoragem com os veleiros Ati Ati, do comandante Fernando e da grumete Erica, e do veleiro Remelexo, comandante Claudio e imediata Giordana. A noite foi de festa a bordo do Remelexo e mais uma vez o Ricardo sentiu a força da amizade que tempera a alma dos velejadores de cruzeiro.

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O terceiro de dia de curso para Ricardo foi uma navegada pelo Canal Interno de Itaparica, diante de uma paisagem de encantar, até a Fonte do Tororó, uma pequena cachoeira quase sem água, mas que oferece um banho de mar sensacional. Depois do almoço a bordo, emoldurado pela mata exuberante do Tororó, levantamos as velas e tomamos o rumo do fundeadouro da ilha da Cal, outro paraíso da Baía de Todos os Santos, onde passamos a noite. Aliás, na ancoragem da ilha da Cal não precisamos nem olhar para o Céu para ver as estrelas, basta olhar o mar para vê-las refletidas.

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No quarto dia voltamos a Ilha de Itaparica, onde o Ricardo desembarcou, para seguir para Morro de São Paulo, e nos fizemos o rumo do Aratu Iate Clube, navegando sob as cores de um belíssimo pôr do sol. Ricardo foi mais um aluno aplicado que desembarcou do Avoante focado no sonho de singrar os mares do mundo a bordo de um veleiro. Tudo que viu e viveu durante os quatro dias de curso temos certeza que ficará marcado em sua memória como dias maravilhosos e que jamais ele imaginou que teria. Fizemos questão de montar uma grade de curso em que a vivencia sobressaísse sobre os ensinamentos técnicos, porque assim ele veria que a vida a bordo de um veleiro não tem segredos e tudo não passa de um novo olhar sobre a vida, onde se busca a verdadeira interação entre homem e natureza. Desejamos sempre bons ventos e mares tranquilos ao novo velejador e desejamos um dia ancorar nosso veleirinho ao lado do seu em algum recantinho gostoso desse mundão de oceano.

Um passeio em família

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Tivemos a alegria de receber a bordo durante a Semana Santa os sobrinhos Gilmar, Grace, Giulia e Giovana, que vieram de Brasília para uns bordos pelos canais da Baía de Tinharé, que tem o Morro de São Paulo como um dos destinos mais desejados pelos turistas que chegam a Bahia. Foram quatros dias de alegria e que teve início em Salvador, dia 24/03, quando a família embarcou para uma velejada gostosa até a Gamboa do Morro, que serviu de base para nosso passeio. Sempre ancoramos na Gamboa, porque a ancoragem em frente a vila de Morro de São Paulo não é das mais favoráveis devido ao grande número de embarcações de transporte e passeio que ancoram por lá e não respeitam os limites de velocidade próximo as ancoragens. Aliás, a falta de educação náutica por parte de comandantes de lanchas, motos aquáticas e embarcações de transporte é um tema recorrente e que passa incrivelmente despercebido diante do nariz das autoridades marítimas. 

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A velejada de Salvador a Morro – como a região é batizada pelo povo do mar – é simplesmente fantástica, desde que feita em época certa e seja observada as condições meteorológicas. São 30 milhas náuticas de mar aberto, vento brando e mar de almirante, onde invariavelmente podemos fisgar um peixinho para alegria da tripulação. Alguém há de perguntar:  – E o tempo de velejada? – Bem, tudo vai ficar por conta do vento e do mar, mas normalmente é feita na média de 6 horas de barra a barra. Porém, temos que levar em conta o porto de saída. Se a saída for da Baía de Aratu, onde se localiza o Aratu Iate Clube, a marina Aratu e a marina Ocema, acrescente ao tempo de velejada umas quatros horas, porque a distância até a Barra de Salvador é em torno de 15 milhas. Uma milha náutica equivale a 1,852Km. Chegamos ao Morro no comecinho da noite da quinta-feira, 24/03, com maré de vazante e Lua cheia.

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Na Sexta-Feira da Paixão navegamos até a cidade de Cairu, mas não desembarcamos. Primeiro que Lucia serviu uma deliciosa moqueca de peixe com camarão seco defumado, que degustamos ancorado em frente a bela cidade histórica. Não é fazendo inveja, mas a moqueca estava de-lí-ci-o-sa. O segundo motivo foi que a tripulação iria fazer o passeio, no dia seguinte, em volta da ilha de Tinharé, a bordo de uma lancha rápida e uma das paradas era justamente em Cairu. Diante disso, e com o sabor da moqueca perfumando o paladar, levantamos âncora e retornamos a Gamboa do Morro, numa navegada ao pôr do sol e diante de uma paisagem de encantar o olhar dos mais exigentes.

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No Sábado de Aleluia, como a tripulação foi fazer o passeio de volta a ilha, demos uma arrumada no Avoante e desembarcamos para prosear com os amigos que estavam na ancoragem e ficamos jogando conversa fora, regada com umas cervejinhas geladas, até que o sol se pôr.

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A noite mais uma vez Lucia mandou ver nas panelas e serviu Conchilhone de Bacalhau, que nem é preciso dizer que estava ótimo, e foi mais uma noite de bons papos no cockpit.

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No domingo, 27/03, pela manhã, os sobrinhos embarcaram no catamarã Gamboa do Morro e retornaram a Salvador, para pegar o voo de volta a Brasília. Às 11h30min, levantamos âncora, abrimos as velas do Avoante e aproamos o rumo de Salvador, onde chegamos no Aratu Iate Clube às 23horas e 30minutos. Doze horas de uma velejada maravilhosa e que tivemos a alegria de dar carona a um pássaro oceânico que pousou na borda do nosso botinho de apoio e ficou até o começo da manhã da segunda-feira. Porém, o mais gostoso de todo esse passeio foi ver a felicidade de Gilmar em ter mostrado as filhas, Giulia e Giovana, um mundo em que a simplicidade e a interação permanente com os elementos da natureza transformam vidas e torna a alma do homem livre para sonhar e desbravar novos horizontes.