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Coisas que não entendo

PONTA NEGRA (3)

Confesso que tem coisas que custo a entender, mas tem outras que por mais que eu tente, o entendimento dá a bexiga e não chega. Lendo uma matéria sobre poluição nas praias e rios do Rio Grande do Norte, um estado que se declara um dos paraísos turísticos do Brasil, fiquei matutando com meus botões: O que danado quer dizer a frase “um trecho de mar”? A frase em questão se refere a praia de Ponta Negra, um dos mais belos cartões postais da capital potiguar, que segundo levantamentos feito pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte, IFRN, através do programa Água Azul, o trecho que eu nunca ouvir falar, mas que dizem ser conhecido como Free Willy – e não me perguntem o porque desse nome estrambólico – está impróprio para o banho de mar. A foz do rio Pirangi, outro cartão postal potiguar, e as águas do rio Potengi em frente a praia da Redinha, embaixo da Ponte de Todos os retratos e egos politiqueiros, também sofrem do mesmo mal, ou melhor, estão mais para fossas do que para praias. O que está queimando meu juízo – se é que tenho algum – é a frase “um trecho de mar”. Como danado os estudos chegam a um nível de certeza de que apenas um trecho está infestado de esgoto e outro a poucos metros, mais para trás ou mais para frente, não está? A Praia de Ponta Negra é uma baía e por assim ser, as correntes marinhas sofrem alteração de fluxo e refluxo a depender dos ventos e marés. Pelo menos eu na minha santa ignorância acho que seja assim. Basta caminhar nas areias da praia para ver línguas negras despejando dejetos no mar, mas isso só quem vê e o pobre mortal banhista, porque se for perguntar a alguma “autoridade” a resposta é a mesma de sempre: Vamos averiguar, fazer um estudo técnico, elaborar um planejamento, tentar enquadrar quem está causando o problema, mas sabemos que é muito difícil, porque ninguém quer se expor para denunciar. Bem, quanto ao Rio Potengi há muito sofre com o esgoto da cidade e acho até que ele nem liga mais para uma merdinha a mais ou a menos e no Rio Pirangi a pisadinha é a mesma. Aliás, o Rio Pirangi só vai aparecer nos noticiários no período de verão e enquanto isso o esgoto fica em banho maria. Alguém haverá de dizer: – Homem deixe de leseira e tome ciência, pois se nos mares olímpicos do Cristo Redentor o esgoto está no meio da canela, imagine no Rio Grande do Norte que num vai ter nem disputa de cuspe a distância!

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Uma prosa e um dedinho de conversa

despedida de marcia (30)

Corriam os preparativos para uma regata nas águas do Rio Potengi quando, numa tarde de Sol de 2015, dois amigos bons de papo se programaram para participar da prova. A flotilha de Snipe voltou a se empolgar e cada treino é uma forma de conseguir mais adeptos. E assim o Snipe vai renascendo no Potengi.

No dia da regata, um dos participantes notou que um barco concorrente estava com as velas folgadas e por isso não conseguia avançar a contento. O observador fez o possível para chegar um pouco mais perto do veleiro quase parado no tempo e percebeu que a bordo estavam aqueles dois amigos, conhecidos proseadores, desses que falam mais do que o homem da cobra. Ele se aproximou, sem ser notado, colou o barco no outro, novamente sem ser notado, e esperou que algum dos tripulantes do outro barco desse uma pausa para respirar. Entre uma palavra e outra ele gritou: – As velas estão folgadas, por isso vocês não estão navegando bem.

Os tripulantes do barco abordado ouviram aquilo, olharam para as velas, se entreolharam e responderam: – Vixi, a gente nem tinha notado. Estávamos aqui numa prosa boa danada que esse detalhezinho passou despercebido. E a regata prosseguiu assim!

O Snipe é a base da fundação do Iate Clube do Natal, mas o tempo e algumas diretrizes alheias a razão fizeram com que a estrutura fosse se deteriorando, esquecida nas sombras empoeiradas de um galpão. Velhos snipistas recolheram as velas e em vez do grito forte de “áaagua” o que se ouve são lamentos e lampejos de saudosismo. De vez em quando, nos palanques festivos diante de autoridades, o Snipe é mencionado com ênfase de grandeza e voz impostada.

Infelizmente a vela não se renovou, mas isso não é culpa apenas dos que timoneiam o Iate Clube do Natal. Na grande maioria dos clubes náuticos brasileiros a vela passou a ser tratada como um esporte sem nenhum futuro pela frente. Os motores passaram a preencher os espaços nos pátios e a roubar a cena na água. Os adeptos dos motores assumiram o comando do timão dos clubes e levaram os velejadores a mendigarem por atenção.

Esporte a vela necessita de doutrina, trabalho, paciência, determinação e disciplina. Ele forma cidadãos com uma sólida base educacional e focados em bons valores comportamentais. Forma também jovens comprometidos com o meio ambiente e com ideais cooperativistas. Um barco a vela é um excelente laboratório para treinar equipes e desenvolver sistemas de liderança. Mas tudo isso está praticamente abandonado nas garagens náuticas ou se acabando ao relento.

Logo no nosso Brasil, onde tanto se reclama da falta de incentivos para a educação, do abandono das escolas, da falta de professores, da educação zero, das cadeiras quebradas, da falta de infraestrutura, do abandono da ética e etc… . Reclamamos, mas quando assumimos o comando de um clube náutico, que poderia contribuir com a educação e mudar o quadro social de gerações futuras, fazemos ouvidos de mercador e viramos as costas. E ainda abrimos a boca para dizer que não temos tradição náutica. Desse jeito não podemos ter nunca!

É preciso dizer que muitos barcos que pertenceram às escolinhas foram doados aos clubes por programas do Governo Federal. A grande maioria ainda está em poder dos clubes, que não sofrem nenhuma forma de fiscalização quanto ao uso e manutenção. Descaso, essa sim é a nossa tradição!

Não se faz educação da noite para o dia como bem quer um curso intensivo qualquer. Educação se faz com perseverança, boa vontade, insistência e determinação. Foi-se o tempo em que nosso país primava pela boa educação e ética nas escolas. Hoje, dizem os entendidos, o que importa é ensinar o aluno a ser competitivo na profissão e para isso qualquer malandragem é bem vinda.

A vela no Brasil teve seu auge de glória e excelentes velejadores. Os clubes brasileiros eram respeitados e equipados com os mais modernos barcos de competição. As escolinhas eram abarrotadas de alunos e os professores verdadeiros mestres. As regatas eram as festas mais importantes para os clubes e os campeões estaduais de cada classe gozavam de reconhecimento nacional.

Quem mudou esse quadro juro que não sei, mas sei que ele cometeu um atentado contra a educação brasileira e foi nacionalmente seguido por seus pares. Os clubes se transformaram em espaços voltados apenas para o interesse do sócio dito “social” e perderam o rumo. Hoje estamos diante de um incrível paradoxo: Em alguns clubes o proprietário de um barco não consegue ser admitido justamente por ser proprietário de um barco. A coisa está feia e vai piorar!

Torço para que os abnegados da flotilha de Snipe de Natal consiga ressurgir das cinzas e que nossos amigos, mesmo proseado, sigam navegando.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Serenata do Pescador – Ode a uma linda praiera

Serenata do Pescador, ou simplesmente Praeira, e uma poesia de Othoniel Menezes com letra de Eduardo Medeiros, e que aqui está imortalizada na voz melodiosa do cantor potiguar Fernando Tovar. Cresci ouvindo essa maravilha poética sendo entoada nas varandas da casa de praia do Dr. Bianor Medeiros, grande amigo do meu Pai, e sempre fui envolvido pela emoção. A velha Praia da Redinha já se foi de mãos dadas com os bons tempos de outrora, para não sofrer nas garras de uma modernidade enraivecida. Restaram as lembranças de uma época e a poesia desnuda e apaixonada para uma linda Praeira.

De quem ama o mar

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Olhando essa imagem que copiei de um grupo do facebook, me veio a lembrança de um casal espanhol, que esteve em Natal/RN em 2009. Carlos e Magdalena, chegaram vindo de Fernando de Noronha/PE a bordo catamarã Prati, com pretensões de permanecer na capital potiguar por uma semana. Nesse ínterim, tomaram conhecimento que o navio-veleiro Cisne Branco, da Marinha do Brasil, estava para chegar e resolveram estender por mais uns dias a permanência sobre as águas do Rio Potengi. Fizemos amizade e um certo dia Carlos nos convidou para jantar a bordo do Prati, um estiloso e belo catamarã Catana de 50 pés. No jantar ele comentou sobre o Cisne Branco e disse que se houvesse visitação eles seriam os primeiros da fila. No dia seguinte liguei para o capitão dos portos, na época o CMG Francisco Vasconcelos, um grande amigo, e falei das pretensões do casal espanhol. O comandante Vasconcelos confirmou a chegada do navio-veleiro, porém, não haveria visitação aberta ao público, mas ficou de ver o que poderia fazer. Dois dias depois o Cisne Branco entra imponente no Porto de Natal e ao passar na popa do Prati foi saudado com buzina, bandeiras e acenos pelo casal que estava em grande emoção. A noite o Carlos me perguntou: Nelson, o que aconteceu para não haver nenhum barco e nenhum velejador a esperar o Cisne Branco? Na verdade não soube o que responder e apenas disse que o brasileiro não dava muita importância a essas coisas. Ai ele disse ser uma pena, pois na Espanha, a chegada de um navio belo como aquele era motivo de festa e centenas de embarcações se fariam ao mar para navegar em flotilha. Sem mais o que responder: Apenas balancei a cabeça afirmativamente. O comandante Vasconcelos conseguiu liberar a visitação para o casal e eu e Lucia fomos junto. Juro que nunca vi um homem tão feliz e quando subiu a bordo, os olhos dele se encheram de lágrimas. Por que temos que ser assim tão indiferentes?  

Horas de escuridão

3 Março (289)

Deixe ser, deixe ser
deixe ser, deixe ser
Haverá uma resposta
Deixe ser

(John Lennon / Paul McCartney)

Ontem, 02/04, perdi um amigo. Como é duro falar dessas coisas. Mas ontem perdi um amigo que me foi apresentado pelo mar, justamente o mesmo mar que o levou. Ainda guardo eco das suas palavras para comigo: Foi há pouco mais de quatro meses quando ele me ligou querendo saber sobre balsa, SSB, Epirb, telefone via satélite e também para dizer que estava programando nos fazer uma visita para navegarmos pela Baía de Todos os Santos. Dizia ele que viria acompanhado do seu Pai, seu maior parceiro e amigão do peito. Falou ainda que um dia iria comprar um veleiro para conhecer o mundo. Ele sempre me dizia que invejava minha escolha de vida. Eu apenas ria e acatava todas as suas palavras com muito carinho. Ele foi uma das pessoas mais atenciosas que conheci. Alcimar Pezolito, 45 anos, conhecido por todos como Alemão, um homem apaixonado pelo mar e pelas pescarias. Quantas vezes fomos vizinhos? Não sei precisar, mas sei que adorávamos quando dividíamos o píer do Iate Clube do Natal, ele a bordo da lancha Miss Mares 38, eu e Lucia a bordo do Avoante. Éramos os únicos “moradores” do Clube, ficávamos sozinhos a noite na companhia dos vigilantes e quando Alemão, que residia em São Paulo, ia a Natal para reafirmar sua paixão pela pesca de oceano, era uma alegria. Calado, extremamente educado, responsável, fala mansa, sempre pronto a ouvir, atencioso, carismático. Apaixonado pela vida, pela família e pelo mar. Alemão. Meu amigo Alemão! Hoje, 03/04, fui despertado pelo toque do telefone e num lampejo de não sei o que, disse a Lucia: Eu não vou atender! Ela, que estava arrumando a cabine de proa, respondeu: Mas amor, o telefone está ao seu lado!

IMG-20150403-WA0016Às 18 horas do dia 02 de Abril de 2015, uma lancha bateu nas pedras do molhe da Boca da Barra de Natal com seis tripulantes. Quatro pessoas foram resgatadas e duas perderam a vida. Era uma pescaria em família, porque na embarcação Miss Mares 38 estavam um Pai, uma Mãe, um Filho, um Neto, um Marinheiro e um Amigo. As causas da tragédia não me interessam e nem me permito julgar. Alemão era o Filho, a outra vítima era a Mãe. Dona Iracema, 75 anos. Terá mesmo respostas?      

Rampa. A história jogada no esgoto

Rampa

Tem coisas que vão passando despercebidas, apesar de estarem escancaradas em nossa frente, e quando em algum dia qualquer do futuro pretendemos resgatar o tempo, encontramos apenas desencontros de palavras, promessas vãs, dissimulações governamentais e o abandono nu e cru. A história é mesmo uma velha rabugenta que adora se mostrar rodeada de fantasmas. A Rampa, uma antiga base de hidroaviões em Natal/RN e por sua posição estratégia serviu de palco para a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, acordo selado entre os presidentes Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt, há tempos pede socorro e há tempos vem sendo esquartejada na tentativa, dos seus algozes, de esconder a vergonha causada pela falta de zelo com um patrimônio histórico. Juro que não sou tão velho assim, apesar dos meus cabelos brancos, mas frequentei a Rampa, na companhia dos meus pais, quando ali funcionava um dos melhores restaurantes de Natal. Foi dessa época que veio minha paixão por construções antigas e sempre tive o velho prédio debruçado nas águas do Rio Potengi como referência. O restaurante se desfez no tempo e o velho prédio, que na época era propriedade da Aeronáutica, foi sendo jogado aos cuidados dos ratos, baratas e toda milacria que adora reinar diante do descaso dos homens. Uma parte da massa esquartejada foi parar nas mãos do Iate Clube do Natal. Outra, depois de exalar mal cheiro, recentemente foi entregue aos cuidados da Marinha do Brasil que decidiu construir a sede do Terceiro Distrito Naval e ergue no local uma estranha construção tapando uma das mais belas paisagens do pôr do sol da capital potiguar e jogando uma boa quantidade de cal sobre um passado de glórias. O coração dilacerado da Rampa, que ainda pulsa fraquinho entre os escombros das paredes e arcos da velha construção, dia desses se animou com ecos de discursos zoados em torno de uma placa que anunciava a revitalização do espaço. Confesso que olhei para aquela placa e não senti bons fluídos nos seus escritos delirantes, mas mesmo assim pedi perdão pela minha falta de confiança nas intenções daqueles que se dizem autoridades. O caro leitor pode até achar que essa minha indignação não cabe nas páginas de um diário de bordo de um veleiro de oceano, mas é preciso dizer que a Rampa é parte importante no nascimento do esporte a vela potiguar. Sempre que navego no traves daquele belo prédio esquecido sinto vergonha, e mais vergonha ainda sinto em tentar responder o que não tem resposta, quando alguns tripulantes do Avoante indagam sobre a velha construção abandonada. A Rampa hoje representa apenas um troféu para coroar egos e o lixo que entope seus espaços, pano de fundo para o ringue de lutas demagógicas. O nosso Brasil é coalhado de histórias iguais a essa e a grande maioria são encontradas banhadas pelas águas dos nossos rios e mares. Mas não é nesses locais que jogamos os esgotos das cidades? Boa pergunta.

Esse assunto me veio machucar os pensamentos depois que li a matéria A guerra que Natal esqueceu, assinada pelo jornalista Itaercio Porpino, nas páginas do jornal Tribuna do Norte. Click no link sublinhado e veja a matéria completa.    

Um marco para a navegação

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“…Essa é a cidade de um deus mar, de um deus mar que vive para o sol…” Pedro Mendes, cantor e compositor potiguar, musicou Natal/RN de um modo mais belo impossível e olhe que nem sei se um dia ele já se fez ao mar para ver a Cidade do Sol de frente. De lá ele veria três Reis Magos seguindo o brilho de uma estrela e dai seus versos seriam cada vez mais encantadores. Ponte Newton Navarro, um grande marco de referência da Barra de Natal e que pode ser avistado a quase 20 milhas náuticas. Não se perca, mas conte com muito cuidado as pilastras dos estaiamentos.