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Cadê a água que estava aqui?

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O comandante eu não sei, mas os cunhos desse veleiro são de primeira linha

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…deixando um pouco de si, levando um tanto de mim

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Não pedi licença para copiar e colar, mas sei que serei perdoado

Mastaréu, Mastaréus 

Por Valeria Mendes.

O que são essas tantas linhas verticais que parecem querer fazer uma ligação com as águas e o firmamento?
Estes são os mastros de alumínio fundido, em outra época eram de madeira, que povoam nosso céu, agora que estamos embarcados. Do pouco, aliás pouquíssimo, que conheço desta ciência de velejar, a principal função do mastro é suster a retranca, a cruzeta e o conjunto de velas. Ainda se presta para suporte de antenas, faróis e luzes de navegação. Não quero me ater à sua técnica sobre a qual certamente me sairia muito mal, desejo na verdade avaliar outras questões que podemos perceber.
Faço uma leve reflexão desse conjunto, casco, mastro, velas, que é uma paixão que nós temos, que nos aproxima da natureza, que nos envolve e protege e ao nos deslocarmos nos coloca em contato com as águas e o vento, além de nos dar uma bela aula de física, pois o deslocamento de um barco a vela se dá sob o mesmo conceito das asas de avião, o princípio de Bernoulli. Quando o barco navega o deslocamento se dá a partir de um conjunto de forças que o vento faz nas velas. Alia-se a estas forças uma outra, a resistência da água, que somadas permite assim o movimento de uma boa velejada. Aquela água batendo no casco, o marulhar produzindo pequenas ondas trata-se de mais um princípio físico, quem não se lembra de Newton com uma de suas leis “para toda ação existe uma reação igual e contrária”?
Os árabes e os fenícios que provavelmente foram os primeiros povos a utilizarem este tipo de embarcação à velas nos passaram esse legado, que vai sendo desenvolvido por séculos e séculos, e assim ainda é hoje bastante usado como meio de transporte e lazer, antes feito de modo empírico, hoje com muita tecnologia e diversos aparelhos que são aliados ao conhecimento humano.
Quando vemos um veleiro soltando suas amarras e se afastando do porto de origem seu mastreamento é a última coisa que vemos, lá vai ele a se locomover ao sabor do vento, vai voando nas asas brancas que são suas velas. Alguém partiu daqui, alguém chegará ao seu destino, deixando um pouco de si, levando um tanto de mim.

De volta ao batente

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Eh gente, passei uns dias sem dar o ar da graça por aqui, mas foi por uma boa causa, aliás, acho que posso até dizer que foram dias de férias. Pronto, achei a palavra certa: Férias. Recebemos um convite do comandante Flávio Alcides e da imediata Gerana, para embarcar e perambular pelo mar do Senhor do Bonfim, no catamarã Tranquilidade, e aceitamos de pronto. Porém, nem pense que contarei agora como foram esses dias maravilhosos navegando pela Baía de Todos os Santos, um lugar que amo de paixão, porque essa história contarei com muita calma e detalhes, pois agora tenho que preparar a postagem do anuncio dos ganhadores da segunda edição do concurso Meu Pôr do Sol no Diário do Avoante.   

Agora vou falar na crise

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A Azimut, empresa italiana fabricante de iates de luxo, chegou ao Brasil em 1992, numa parceria com uma empresa nacional que durou até 2010, quando faleceu o sócio brasileiro. A partir de 2010, o estaleiro italiano apostou no franco crescimento do mercado local e seguiu sozinho no negócio e hoje colhe os louros de sua empreitada, mesmo com a economia brasileira metida num emaranhado de tramas, traumas e salamaleques jamais imaginado por essas terras tupiniquins. Bem, em meio a essa tal de crise abrasileirada, os italianos estão acelerando as máquinas de seus palácios flutuante e etiquetando a preços que ultrapassam a casa dos 45 milhões de reais. Quer saber mais? Os gringos apostam que em 2017 venderão em torno de 45 embarcações. Agora vem o xis da questão e que sempre bato nessa tecla quando ouço proprietários de estaleiros brasileiros, produtores de veleiros, reclamando: Segundo o diretor da Azimut, a decisão de permanecer no Brasil não teve relação apenas na clientela potencial, mas principalmente na boa avaliação que o mundo náutico estrangeiro tem nas águas brasileiras, que é uma joia de valor inestimável, apesar dos problemas que temos com burocracia, licenciamento ambiental e obras de infraestrutura. Por que será que uns vislumbram a realização do sonho e outros se apegam apenas com os pesadelos? Fonte: Veja.com 

Duzentos pés de ousadia

ib1-800x374Isaac Burrough Design 60m Catamaran Aft Deck

Ousadia, futurismo, utopia, tudo cabe nos riscados das pranchetas dos designes nesses tempos de recordes sem limites. O que diriam os antigos navegadores se fossem apresentados a um barco construído parcialmente de vidro? No mínimo o projetista seria entregue aos inquisidores para serem queimados nas fogueiras. Mas não precisaríamos voltar tanto no tempo para ver projetos de veleiros envidraçados virando piada em rodadas de bate papo. – O que? – Veleiro de vidro? – Você está maluco! Pois é, vejo no site da Revista Náutica que o designer neozelandês Isaac Burrough, apresentou um projeto de um catamarã de 197 pés, com uma grande área envidraçada cobrindo todo o salão de popa. O veleiro terá espaço para 12 passageiros e 16 tripulantes, um mundão de gente, que se beneficiarão de um espaço de alto luxo com direito a academia de ginástica, cinema e piscina com borda infinita. Burrough afirma que o seu projeto não visa o desempenho, mas sim o luxo e o entretenimento dos passageiros. Se a ousadia vai sair do papel eu não sei, mas que é uma revolução nos conceitos, isso eu não tenho dúvidas. Fonte: site revista náutica.

Conversa alinhavada

03 - março (88)

Nas ondas de um vento que de tão sem pressa mal assanhava as penas das pequeninas gaivotas que voavam despretensiosas sobre um cardume de peixes, o Avoante navegava em câmera lenta e em sua esteira espumas brancas teimavam em não se afastar. Das sombras da velha ilha dos tupinambás ecoavam sons abafados de uma humanidade tão sem causas e extremamente inquieta. Por que será que temos tanta pressa?

Olhando do meu cantinho no cockpit aquele quadro estático e flagrantemente vivo, meu coração se enchia de boas e felizes recordações e sonhos futuros, mas uma pontada de estranheza me cutucava o juízo diante de lembranças de conversas alinhavadas entre felizes homens do mar. E lá ia o meu veleirinho sem nenhum rancor diante daquela brisa que era nadica de nada, que o fazia patinar de um lado para outro a procura do sopro que o levasse a seguir o rumo que eu, seu amigo quase fiel, havia indicado.

Das lembranças das conversas surgiam resquícios de frases, fugidas da destemperança de velhos e novos navegantes, que no afã de adiantar a pressa, a sorte e razão, hasteavam a bandeira da ligeireza, sem ao menos pedirem perdão aos seus veleiros, e cravavam no peito o broche da velocidade mínima para o bom conforto a bordo. Com o eco de palavras tão atabalhoadas e me achando um infeliz abandonado pela sorte da boa velocidade, busquei no branco das velas a leitura para aquele vento tão sem graça que fazia o Avoante estacionar no espaço entre a proa e a popa.

Uma lancha cruzou a nossa proa rasgando água e de suas entranhas vieram gritos de festejos e brindes pela vida. Do meu cantinho observei a demonstração de velocidade e a fugaz alegria que ela proporciona. Na popa surgiu uma velinha branca, mais outra e mais outra, agora formávamos uma flotilha com quatro veleiros navegando na maciota daquele oceano sem vento.

Na segunda visada no rumo da popa as velas aumentaram de tamanho e antes que pudesse observa a terceira vez, elas já seguiam serelepes na proa do meu veleirinho quase parando. Seriam aqueles adeptos da velocidade mínima ou seria eu que insistia em ser agraciado pelas lufadas, que não vinha, do grandioso deus dos ventos e teimosamente ficava ali a ver navios, lanchas e veleiros estranhamente velozes?

Assim como quem não avisa, um ventinho foi chegando displicentemente e sem pestanejar o Avoante avançou com as velas ainda se espreguiçando e forçando um alongamento sem nenhuma intenção. A direção agora era outra e o que era perto o bastante para ser sonhado, ficou longe que nem uma saudade. E lá vai o veleirinho em busca de boas novas e tentando apressar o passo para o sei lá onde.

Olhei em volta e nem sinal das três velinhas que navegavam entristecidas pelos ventos quentes de um porão apertado. Não tinha o que reclamar e muito menos maldizer a minha sina de homem do mar e dos ventos. Era essa a minha escolha e nada no mundo iria tirar de mim aquele prazer amalucado de navegar para um lado na esperança de ir para outro. Pronto! Era disso que eu estava precisando para fazer meu veleirinho navegar em paz e com satisfação. De pensamentos de compreensão. De buscar na incógnita a força motriz que me moveria para frente. De sair do marasmo do ócio, encarar o vento e colher a essência de sua alma.

Precisava sim estar navegando em rumo oposto para ter a certeza que estava no rumo certo, porque é assim que fazem os vencedores, os idealistas, os reacionários, os amantes, os loucos, os vivos, os valentes e todos aqueles que trazem no sangue o antídoto para curar as adversidades. No mar não existe o mínimo e muito menos o máximo, porque o mar não respeita valores exacerbados. O mar só tem uma razão e essa é sem rosto, sem emoção e tão fria quanto o gelo dos polos. O mar não reconhece os valentes e sim os dotados de inteligência para reconhecer o medo. E o vento? O vento é aliado fiel do mar e grande maestro da orquestra de Netuno. É de sua batuta que saem os acordes, os sons, os rufos dos tambores e a maciez da sonoridade.

Precisava saber que estava longe para entender que estava tão perto de mim. Precisava ver meu destino se afastando para reconhecer que minha alma estava feliz e meu coração pulsava forte de alegria. Precisava sentir as velas enfunadas para espantar de minha mente aquelas conversas alinhavadas que falavam de velocidade mínima e máxima. Precisava ter chegado à hora de dar o bordo para lembrar a letra da música que diz: …De jangada leva uma eternidade/De saveiro leva uma encarnação…

Para que a pressa se a vida é tão sem lógica? Para que a pressa? Para que embarcar em um veleiro sabendo que ele é um fiel escudeiro dos ventos, um servo obediente das águas e tentar corromper sua alma?

Depois de oito horas dei por encerrada as quinze milhas navegadas e estava feliz e em paz ao lado do meu Avoante. “…Antes longe era distante/Perto, só quando dava…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

Praia de Caboto

03 - março (139)

Dia desses um amigo perguntou o que eu achava da navegada até a praia de Caboto, localizado logo após a Ilha de Maré, dizendo ele que desejava ir até lá em seu veleiro. Como foi uma pergunta feita em cima da bucha e já estávamos envolvidos pela segunda garrafa de cerveja gelada, meus neurônios bateram cabeça por míseros segundos, na tentativa de me abastecer de argumentos, e antes de pousar o copo americano sobre a mesa – pois cerveja boa é em copo americano –, eu já estava com a resposta na ponta da língua, mas me ative antes que ela saísse e ele interpretasse como besteira besta.

03 - março (144)

Caboto está entre os poucos destinos que ainda não fiz a bordo do Avoante e talvez fique sendo assim, porque não tenho nenhuma vontade de fazê-lo. No comecinho de março de 2016 fui até lá de carro, para ver o que eu estava perdendo, e sinceramente não achei que estava perdendo muita coisa. E olhe que é difícil eu fazer críticas aos destinos navegáveis da Baía de Todos os Santos e principalmente das cidades e povoados do Recôncavo. Para mim não existe nada melhor no mundo a ser navegado do que as águas da Bahia! Mas como eu não conheço o mundo, dou o dito como verdade.

03 - março (163)

Fui conhecer Caboto quando de minha pretensa excursão rodoviária até o Museu Araújo Pinho, que foi publicada aqui dia 10 de maio com todos os pormenores. – Museu? – Que museu? Caboto tinha tudo para ser uma gracinha de lugar, mas por ser distrito de um município rico emergente, devido a arrecadação delirante vinda no rastro da lama petrolífera, mais parece uma cidade jogada as traças. Conheço várias cidades e povoados brasileiros com essa triste sina, inclusive no meu Rio Grande do Norte. O dinheiro entra nos cofres municipais pelas tubulações, saem pelo esgoto e quem quiser que reclame ao bispo, pois o juiz já está abarrotado de quebra cabeças para resolver e a coisa é igual a cantiga da perua, de pior a pior.

03 - março (153)

Os guias náuticos que mapeiam a Baía de Todos os Santos dizem que a navegação até lá é feita em águas rasas, tranquilas e que merecem atenção redobrada, devido a existência de bancos de areia. Na ancoragem deve ser observada a variação da maré e o mais indicado é que seja permanência apenas diurna. Na maré baixa fica quase impossível o desembarque, porque a faixa de lama é extensa e é preciso pular diversos obstáculos de línguas negras.

03 - março (155)

Dizem que alguns barzinhos servem moquecas e mariscos deliciosos, porém, não pude comprovar, pois encontrei todos fechados. Uma igrejinha no centro da praça, que também serve de Centro Comunitário, reverenciado São Roque, é talvez a melhor referência turística. Porém, o que mais me chamou atenção foi a ruína de uma casa tomada pelo mato e que ninguém soube informar do que se tratava. Tentei entabular uma conversa com dois idosos moradores que encontrei na praça, mas eles de nada sabiam, a não ser que quando se entenderam por gente a ruína já existia. Pesquisando por aí soube que era uma região açucareira e que existiam vários engenhos. Será essa uma de suas ruínas?

03 - março (151)

Não esperei para ver, até porque desejava conhecer o museu, mas o pôr do sol deve ser bonito em Caboto e a maré cheia deve dar outro animo ao pequeno povoado. Talvez a proximidade com os monstruosos conglomerados industriais e os vários portos que cercam a região, contribua para o mal trato existente por lá.

03 - março (158)

E pode até ser que eu esteja sendo rígido demais em minhas críticas ao povoado que me recebeu durante uma hora de visita, mas o que eu vi foi isso e como diz o ditado: A primeira impressão é a que fica. Sabe o que tenho a dizer ao amigo que perguntou o que achava da navegada até lá: Que ele vá e depois me diga o que achou.