Arquivo do mês: maio 2015

Onde navegar

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A Revista Náutica, que está nas bancas, trás na seção ONDE NAVEGAR – O roteiro do leitor, matéria com a marca do Avoante. Vá até a banca mais próxima, adquira o seu exemplar e descubra um lugarzinho encantado nas águas do Senhor do Bonfim. 

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É muito frio seu menino!

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O velejador, skipper e grande apaixonado por barcos Joca Lima, enviou essa imagem para mostrar o quanto está frio na Noruega e está mesmo, pois o braço deve ter congelado e ele nem conseguiu mexê-lo para desvirar a câmera fotográfica. Joca faz parte da tripulação do lendário veleiro Saga e, nesse frio de lascar o cano, está a bordo para dar umas velejadas geladas por ai. Ao lado dele está o velejador Roberto Pellicano, comandante em chefe do Saga.

No tabuleiro da baiana tem…

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O Avoante agora abaianou de vez. Já não bastassem as deliciosas moquecas produzidas a bordo, Lucia botou na cabeça que iria aprender a fazer acarajé é aprendeu mesmo.

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Ela se matriculou no Curso de Acarajé e Abará oferecido pelo SENAC do Pelourinho, sob a batuta do professor Elmo, auxiliado pelo professor Adriano, e depois de quatro dias de aulas saiu de lá toda feliz exibindo o diploma e uns quilinhos a mais. No dia seguinte já estava no batente percorrendo a famosa Feira de São Joaquim em busca da matéria-prima dos bolinhos de feijão fradinho, com a ajuda da amiga Cidinha – colega de turma e dona de uma banca de acarajé no Bairro de Pernambués. Os famosos bolinhos, que muita gente brinca dizendo que é hambúrguer de baiano, é levado a sério na Bahia. Existe até uma Lei que regula desde a forma de preparo até a comercialização. Acarajé na Bahia é religião e ai daquele que se meta a besta de tentar fugir dos padrões tradicionais. A baiana do acarajé é bem dizer quase uma divindade e o seu tabuleiro é sagrado.

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E como eu falei em feira: A Feira de São Joaquim é talvez o território baiano dotado de maior baianidade. Ali o visitante encontra de tudo um muito e caminhar entre o rugi rugi das suas vielas entupidas de gente, mercadorias e cores é um verdadeiro exercício de contorcionismo. Até motocicleta circula entre os corredores da feira, o que me pareceu uma coisa tão corriqueira que não vi ninguém incomodado. Sempre tive vontade de visitar a Feira de São Joaquim, mas nunca me animei a ir. Com Lucia pisando firme no terreiro da culinária baiana já vi que a Feira vai ser meu destino obrigatório.

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Não tem como preparar o verdadeiro acarajé da Bahia sem passar antes pela Feira de São Joaquim. Basta o freguês colocar os pés na calçada para sentir a mistura de aromas forte exalados e que tem como carro chefe o camarão defumado e o azeite de dendê. O visual do local não se parece muito acolhedor e a desarrumação dita a regra, porém, o ambiente é alegre, festivo e o cliente só não encontra o que não quer encontrar. Brevemente a Feira receberá uma repaginada e já dá para ver a nova estrutura em construção, tomara que não perca o calor, porque é na Feira de São Joaquim que a Bahia se encontra. Agora vamos a prova dos nove:

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Curso concluído, matéria-prima comprada, só bastava agora Lucia botar a mão na massa. E as cobaias? Isso foi o mais fácil de arranjar, pois basta dizer a um baiano que vai ter um acarajé em tal lugar que ele chega na hora e ainda ajuda na arrumação. O primeiro a ser feito, na cozinha do Avoante, foi o Abará. Pense num moído! O piso do barco terminou coberto por pedaços de folhas de bananeira, cascas de camarão e pingos de dendê. E eu aprendi uma nova profissão: Enxugador de folha de bananeira – utilizada para envelopar o abará. A folha tem que ser lavada, depois enxuta e foi ai que eu entrei. Quem manda ficar olhando! O pagamento foi ter o privilégio de comer o primeiro abará produzido por Lucia e que estava divino.

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Marcamos a degustação para às 18 horas do Sábado, 23/05, na varanda do Angra dos Veleiros, pois Lucia iria utilizar a cozinha do restaurante Vento em Popa, administrado pelo João, para preparar e fritar os acarajés. Na hora marcada estavam todos lá e mais uns agregados para fazer a festa. Quer saber se aprovou? Eu nem respondo, pois sou suspeito.

Coisas do reino da poesia

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“Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer

Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer”

Dorival Caymmi

 

                    

O forte, o farol e o museu

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Você já foi a Bahia? Se não foi precisa ir, mas se já foi, deve conhecer esse monumento inconfundível. Forte de Santo Antônio, localizado na entrada da barra da Baía de Todos os Santos. A mais antiga construção militar do Brasil colônia e o primeiro forte edificado em terras brasileiras no longínquo ano de 1534, quando ainda nem existia a cidade de Salvador. Deixando de lado algumas melhorias básicas requeridas pelo tempo senhor dos destinos, a fortaleza está muito bem conservada. Forte da Barra, como é carinhosamente chamado pelos baianos, é o mais marcante retrato de um povo. Ao redor da bela arquitetura, a Bahia ri, chora, canta, expressa sua fé, dança, caminha, navega e se abre para o mundo.

IMG_0052 Farol da Barra? Sim, é ele mesmo que se espicha para o alto sobre os muros do Forte. Quando estive lá nessa visita, escutei como quem não quer nada uma pessoa perguntar: – Será que ele ainda funciona? Sim, todas as noites a partir das dezoito horas e até o dia clarear. O Farol da Barra, chantado em 1698 é o primeiro farol das Américas. Inicialmente construído em madeira e com lampiões alimentados por óleo de baleia. Em 1839 ganhou um equipamento giratório, luz a querosene e a torre em alvenaria. Em 1890 ganhou novos mecanismos e lente de primeira ordem com 3,5 metros de altura. Em 1937 foi eletrificado e seu alcance luminoso passou a ser de 38 milhas náuticas, para a luz branca, e 34 milhas náuticas, para a luz encarnada. E como funciona bem! Nos dias atuais as luzes dos faróis perdem em alcance para as luzes que brilham sobre os monstruosos arranha-céus, porém, um navegante somente relaxa o coração quando avista os lampejos de um farol.

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Museu Náutico da Bahia. Você que já foi a Bahia conhece? E você baiano, conhece? Em 1998 foi inaugurado nas dependências do Forte de Santo Antônio o Museu Náutico da Bahia, reunindo um valioso acervo da história náutica da terra dos Orixás. Recentemente, depois de vários anos de promessa, fui visitar e me encantei com o que vi. Mas um fato me chamou atenção na hora em que fui comprar a senha de acesso que custa R$ 12,00: Lucia comentou que eu era o editor de um blog e a senhora que vende os ingressos me indagou: – Você é jornalista? Respondi que não, mas quis saber o motivo da pergunta. Ela disse que se eu estivesse ali como jornalista teria que pedir autorização ao 2º Distrito Naval, somente assim poderia entrar. Juro que não entendi!

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O Museu Náutico da Bahia é uma maravilha e vale ser visitado. Com um acervo, ao meu ver ainda pequeno, que reúne peças e equipamentos que fizeram parte da arte da navegação e que deixa muitos saudosistas sonhando acordado. Juro que senti falta de muito mais diante da riqueza náutica do mar dos Tupinambás, mas tudo que está exposto ali tem esmero de detalhes e conservação.  

IMG_0074Peças recolhidas de naufrágios, velhas cartas náuticas, achados arqueológicos, antigas munições, objetos de uso do cotidiano do século XVII, imagens sagradas, tudo isso tendo o mar como pano de fundo e seguindo um excelente padrão de limpeza e organização.

IMG_0082Tem coisas que não deveríamos deixar passar em branco e a história é uma delas. A história é sempre bem vinda, principalmente porque ela amacia arestas, corrige geografias e descarna biografias até chegar ao verdadeiro DNA do personagem histórico. Sou um apaixonado pela matéria, apesar de ter sido um péssimo aluno. Gosto de caminhar em silêncio pelos corredores e salões de um museu tentando ouvir ecos do passado. Adoro adentrar velhas construções para sentir a energia que um dia existiu ali. Quero Espiar por entre frestas em busca de respostas que de tão desbotadas não existem mais. Mas tudo está lá, tão a vista, como a velha frase de um cigano, e acabo em sorrisos. Ai lembro da frase que sempre será pronunciada: Como era estranha a vida dos nossos antepassados.

IMG_0059Demorei para escolher um dia para visitar o forte, demora que levou quase dez anos, mas sempre me prometi que faria. A primeira vez que ouvi falar no museu foi em 2005 quando estava com o Avoante ancorado na Ilha de Campinho, Baía de Camamu. Desde aquele ano, sempre que adentrava a barra de Salvador renovava a promessa da visita. Um dia eu pago. E paguei!

Um livro.

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“ – Esse livro é fantástico!” Estávamos conversando com dois amigos na sala da biblioteca do Aratu Iate Clube – todo clube e toda marina deveria ter uma biblioteca, livre e desburocratizada como a do Aratu – quando um deles levantou pegou um livro e o indicou com a frase que inicia essa postagem. Na hora pensei nos dois que me aguardavam a bordo do Avoante, e que eu teimava em não terminar a leitura, e declinei da indicação. No dia seguinte lá estava eu diante daquela biblioteca ouvindo o eco das palavras do meu amigo: “Esse livro é fan… ”. Peguei! Queda de Gigantes, um romance histórico maravilhosamente fantástico em que o autor, Ken Follett, nos faz caminhar pelos salões dos palácios da Grã-Bretanha, mergulhar nas profundezas escuras das minas de carvão do País de Gales, rastejar entre as trincheiras e campos de batalha da Primeira Guerra Mundial e observar cenas dos bastidores da Revolução Russa. Um período de rápidas transformações e que mudou a face do nosso planeta. O livro é o primeiro volume da trilogia “O Século” e agora vou sair em busca do segundo “O Inverno do Mundo”. Obrigado Mário Hilsenrath pela indicação.

O Navegante – Uma pintura de poesia

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O Navegante

Sidney Miller

Quero um montão de tábuas
E um motor de pano
Pra passear meu corpo
E adormecer meu som
Na esburacada estrada do oceano

Aportarei meu barco apenas de ano em ano
E onde houver silêncio
Eu ficarei cantando
Pra não deixar morrer o gesto humano

Entenderei as águas e os peixes passando
E se me perguntarem pra onde vou e quando
Responderei
Apenas navegando
Apenas navegando

Embarcarei comigo o feminino encanto
Pra que não falte a vida quando for preciso
Uma razão mais forte que o espanto
Mais forte que o espanto

Semearei meu sangue,
Meu amor, meu rosto
Pra que depois de mim eu possa estar presente
Entre as canções que eu não houver composto

Naufragarei um dia
Em pleno mar sem dono
E submerso em lendas como um visitante
Entre os recifes dormirei meu sono

Quero um montão… do oceano