Arquivo do mês: maio 2017

O que é felicidade?

2 Fevereiro (170)

O amigo João Vianey, enviou uma bela crônica, da escritora cearense Socorro Acioli, e ofereço a todos aqueles que batem o mundo a procura da felicidade e não encontram.

“Sobre os felizes”

Existem pessoas admiráveis andando em passos firmes sobre a face da Terra. Grandes homens, grandes mulheres, sujeitos exemplares que superam toda desesperança. Tenho a sorte de conhecer vários deles, de ter muitos como amigos e costumo observar suas ações com dedicada atenção. Tento compreender como conseguem levar a vida de maneira tão superior à maioria, busco onde está o mistério, tento ler seus gestos e aprendo muito com eles.

De tanto observar, consegui descobrir alguns pontos em comum entre todos e o que mais me impressiona é que são felizes. A felicidade, essa meta por vezes impossível, é parte deles, está intrínseco. Vivem um dia após o outro desfrutando de uma alegria genuína, leve, discreta, plantada na alma como uma árvore de raízes que força nenhuma consegue arrancar.

Dos felizes que conheço, nenhum leva uma vida perfeita. Não são famosos. Nenhum é milionário, alguns vivem com muito pouco, inclusive. Nenhum tem saúde impecável, ou uma família sem problemas. Todos enfrentam e enfrentaram dissabores de várias ordens. Mas continuam discretamente felizes.

O primeiro hábito que eles têm em comum é a generosidade. Mais que isso: eles têm prazer em ajudar, dividir, doar. Ajudam com um sorriso imenso no rosto, com desejo verdadeiro e sentem-se bem o suficiente para nunca relembrar ou cobrar o que foi feito e jamais pedir algo em troca.

Os felizes costumam oferecer ajuda antes que se peça. Ficam inquietos com a dor do outro, querem colaborar de alguma maneira. São sensíveis e identificam as necessidades alheias mesmo antes de receber qualquer pedido. Os felizes, sobretudo, doam o próprio tempo, suas horas de vida, às vezes dividem o que têm, mesmo quando é muito pouco.

Eu também observo os infelizes e já fiz a contraprova: eles costumam ser egoístas. Negam qualquer pequeno favor. Reagem com irritação ao mínimo pedido. Quando fazem, não perdem a oportunidade de relembrar, quase cobram medalhas e passam o recibo. Não gostam de ter a rotina perturbada por solicitações dos outros. Se fazem uma bondade qualquer, calculam o benefício próprio e seguem assim, infelizes. Cada vez mais.

O segundo hábito notável dos felizes é a capacidade de explodir de alegria com o êxito dos outros. Os felizes vibram tanto com o sorriso alheio que parece um contágio. Eles costumam dizer: estou tão contente como se fosse comigo. Talvez seja um segredo de felicidade, até porque os infelizes fazem o contrário. Tratam rapidamente de encontrar um defeito no júbilo do outro, ou de ignorar a boa nova que acabaram de ouvir. E seguem infelizes.

O terceiro hábito dos felizes é saber aceitar. Principalmente aceitar o outro, com todas as suas imperfeições. Sabem ouvir sem julgar. Sabem opinar sem diminuir e sabem a hora de calar. Sobretudo, sabem rir do jeito de ser de seus amigos. Sorrir é uma forma sublime de dizer: amo você e todas as suas pequenas loucuras.

Escrevo essa crônica, grata e emocionada, relembrando o rosto dos homens e mulheres sublimes que passaram e que estão na minha vida, entoando seus nomes com a devoção de quem reza. Ainda não sou um dos felizes, mas sigo tentando. Sigo buscando aprender com eles a acender a luz genuína e perene de alegria na alma. Sigamos os felizes, pois eles sabem o caminho…

(Autora: Socorro Acioli – Escritora)

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De olho no tempo

mapservEssa é a imagem enviada pelo Satélite GOES 16, que ainda está em fase de teste, mas  que já envia informações precisas de como está o tempo em nosso planetinha azul. O boletim do CPTEC/INPE diz que:   Nesta terça-feira (30/05), a chuva persiste em parte do leste do Nordeste e o tempo também continuará instável em boa parte do Sul do Brasil. Nestas regiões, novamente, haverá condição para elevados volumes acumulados de precipitação ao final do dia. Em GO, centro e oeste de MG, oeste da BA, centro e norte de SP e sul do TO a umidade deverá ficar abaixo de 40%. Para quem vai ao mar é bom observar os procedimentos de segurança e os equipamentos de salvatagem, porque as ondas estão com agitação moderada e com altura entre 2 e 2,5 metros, que numa situação de instabilidade meteorológica, a coisa pode mudar de humor de uma hora para outra. 

Cartas de Enxu 16

4 Abril (226)

Enxu Queimado/RN, 28 de maio de 2017

Sabe meu amigo Zeca, tomei um grande choque em ter mudado do mar para a terra, não que eu não esperasse por isso, mas a realidade está bem pior do que a utopia da espera. Aí você irá perguntar: – E quando da mudança da terra para o mar, não houve choque? – Ouve não, meu amigo, o que ouve foi um turbilhão de alegrias recheado de maravilhosos deslumbramentos. Mas vou levando assim mesmo, até porque, no retorno, tive a sorte de possuir essa palhocinha de praia tão aconchegante, cercada de coqueiros e arejada pelos velhos e bons alísios que trazem belas poesias ao povo do mar.

Meu amigo, nunca esqueci nossos primeiros papos sobre barcos e de minha ida a sua casa para ver o projeto, feito por você, de um catamarã. Aqueles rabiscos estrambólicos, na visão de um neófito que mal sabia distinguir proa e popa, no primeiro momento me encheram de desesperanças, porém, bastaram algumas explicações mais apuradas, de sua parte, para provar que minhas desesperanças tinham alto grau de fundamento, ainda mais quando fui apresentado a valores e custos das coisas de barcos. Ainda bem que controlei os batimentos cardíacos e nossa conversa tomou o rumo de suas histórias pelos mares do Brasil e do Caribe.

Zecão, mudando de assunto, o que danado está havendo com esse mundo? A coisa está muito desarrumada e sem nenhuma perspectiva de melhora. Diga aí rapaz, o que danado se passa em sua cabeça naqueles momentos de reflexão durante suas navegadas entre Natal e o Atol das Rocas? Sempre gostei de pensar nas cidades durantes meus turnos de comando, porque o mar transforma e acalma sentimentos. Hoje, sob a sombra de minha varandinha, tenho me visto meio desassossegado, mas juro que não perdi a esperança de um dia viver em um mundo igualzinho ao que avistava lá do alto mar.

Os caras que se dizem autoridade e se alto intitulam líderes, agora chegaram onde queriam, pois nos meteram dentro de um ninho de serpentes, onde eles são as cobras, e ficam se divertindo em nos ver espernear e gritar velhas palavras de ordem, que nem cabem mais nos dicionários. Estamos a tal ponto envenenados, que não sabemos mais quando estamos seguindo em frente ou dando passos para trás. Estamos feitos canibais comendo uns aos outros e rindo da cara de todos, como se nada fosse mais importante do que a cara diabólica e as mentiras destiladas pelas línguas das serpentes. A nossa situação é caótica, insolúvel e está indicando que não existirá mais lugar no mundo onde possamos sobreviver sem a presença das serpentes.

Poxa, meu amigo, estamos em pleno século XXI, dezessete anos a mais do que a vida prometida pelos Jetsons, e estamos quase retornando ao mundo dos Flintstones, tamanha é a sanha destruidora dos donos do mundo. As redes sociais, que sempre apostei como sendo o futuro é a desgraça dos encantadores das massas, se mostram a cada dia mais abduzidas por eles, e o pior, cada integrante anuncia uma verdade, ou mentira, mesmo, sabendo ele, que não passa em nenhum crivo.

E a violência? – Não, prefiro não falar sobre isso, pois não costumo assistir e nem ler nada com esse tema, até porque, essa comunidade que hoje me acolhe, tirando alguns roubos de galinhas, boatos ou pequenas e divertidas desavenças pessoais, ainda está imune a esse tema.

Rapaz, acho que estou lhe abusando com temas tão para baixo, ainda mais em um domingo tão gostoso de maré de Lua cavaiando, em que o Sol por aqui faz um esforço tremendo para furar uma barreira de nuvens prometedoras de chuvas. Por isso vou pular uma casa. Ei, os noticiários anunciam muita chuva pelas bandas das Alagoas, mas aqui em nós, a coisa está periclitante e já tem agricultor se conformando que a safra vai para o beleléu. Os meus pezinhos de milho estão prometendo, mas também, eu não arredo o pé de aguar todo dia. O feijão já tirei umas três safras e tenho notado que já começaram a esmorecer. Rapaz, tirar feijão verde do pé, debulhar, colocar na panela e tomar o caldo bem quentinho, com uma cerveja bem gelada, é bom demais! Vixi!!

Carioca, a temporada da lagosta inicia dia primeiro de junho e os barcos já estão prontinhos para se fazerem ao mar. Cada pescador carregando o sonho de uma pescaria aprumada, para tirar o atraso. Enxu Queimado tem a pesca da lagosta como carro chefe de sua economia e é gostoso ver o movimento e ouvir da boca do pescador o que eles esperam da nova safra. Eu acho que esse ano vai ser bom, até porque, o período de defeso vem sendo cumprindo à risca, mas tudo é segredo e a natureza é quem vai dizer, né não!

José Martino, meu amigo Zeca do Borandá, você precisa vir aqui para a gente emendar os bigodes na conversa e colocar os assuntos em dia, rapaz. Deixe de preguiça e venha conhecer as boas terras do Mato Grande e essa praia maravilhosa. Pode vir de barco que garanto uma poita arretada para o fundeio. Deixo um cheiro para Lucia e outro para o filhote arquiteto. Venha, meu amigo, pois você vai se apaixonar por esse lugarejo que é só paz e alegria.

Nelson Mattos Filho

Mergulhadores resgatados na Flórida

Mar-Mergulhadores-Resgate-696x392Dia 24 de maio sete mergulhares, na Flórida/EUA, foram pegos por uma correnteza e arrastados para distante da embarcação que os dava apoio. Dois foram encontrados pela equipe do barco, porém, cinco deles ficaram a deriva e somente foram resgatados com ajuda de equipes de resgate, isso porque se utilizaram dos sinalizadores, conhecidos como salsichão de mergulho e foram facilmente avistados. Aí fico pensando numa conversa que tive com um amigo que gosta de se aventurar pelas maravilhas do fundo do mar. Na ocasião observávamos uma garrafa avermelhada se movimentando sobre o mar e perguntei se seria um mergulhador. Ele disse que sim, mas falou também que aquilo era uma besteira e que não tinha necessidade num lugar daquele  com pouquíssimo movimento de embarcação. Olhei para ele incrédulo diante daquela resposta e para não entrar em polêmica, preferi abrir mais uma cerveja e mudar de assunto. Fonte: Brasil Mergulho  

Aviso aos navegantes

anima_alturaEssa semana, de 22 a 28/05, os ventos andam soltos pelas esquinas do litoral brasileiro e os alísios que acariciam o litoral do Nordeste estão batendo fácil na marca dos 20 nós, cerca de 40 quilômetros por hora. Pela animação do gráfico do CPTEC/INPE, dá para ver que o mar está de gente grande e a orientação da Marinha do Brasil é que embarcações miúdas permaneçam no porto e as demais, revisem o material de salvatagem, os equipamentos de segurança e passem a vista nos motores, velas e bombas de esgoto. Veja o que diz o aviso:

MAR CONTINUARÁ AGITADO COM RISCO DE RESSACA ENTRE O LITORAL NORTE DA BA E AL

Entre hoje(23/05) e o início da quarta-feira(24/05), o mar ainda continuará agitado com risco de ressaca entre o litoral norte de RS e ES devido à chegada das ondas atingindo quase perpendicular à costa com alturas entre 2 e 3 metros. Por outro lado, a persistência dos ventos de sudeste mais intensos continuarão deixando o mar agitado no litoral norte da BA, SE e AL com ondas de sudeste entre 2 e 3 metros de altura entre a terça-feira(23/05) e quinta-feira(25/05). O risco de ressaca continuará na região.

Poema para a humanidade

9 Setembro (148)

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Eduardo Alves da Costa 

 

 

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

 

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

 

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

 

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

 

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas ao tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

 

E por temor eu me calo,

por temor aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

Nota: Em negrito está o fragmento mais conhecido desse poema 

 

 

Lembranças

foto de papai

De que é feito a saudade se não de lembranças? Sou sim um saudosista e faço disso um alimento para nortear minha alma. Vivo minhas lembranças como se fosse o presente e muitas vezes fecho os olhos para não sentir tanta dor, mas se tudo isso são devaneios de loucura, desejo continuar louco.

Ontem tentei dormir e os olhos teimavam em abrir, mas na insistência do cansaço mergulhei naquele estágio em que o corpo levita e a mente se aproxima da cortina dos sonhos, porém, de repente não existia cortina, não existia sonho, não existia nada, apenas eu, com os olhos vidrados no teto, procurando entender o porquê daquele fugaz prazer. Foi nessa hora que escutei o eco da frase entrecortada de soluços, “…a partir de hoje nossa vida vai mudar…”, e como uma fita em alta rotação, o filme retrocedeu e lá estava eu, atendendo um chamado pelo interfone, onde a pessoa dizia: “Nelsinho, corra aqui que seu pai está passando mal”. Sinceramente não lembro da fração de segundos que se passaram entre a colocação do interfone no gancho – e nem sei se o coloquei – e minha entrada naquele escritório que parecia paralisado no tempo. As pessoas estavam imóveis, os olhos arregalados e ninguém falava nada, porque a boca não fechava e nem emitia som. Era como se ali a vida não existisse. Aquela sala parecia um museu de cera em que os personagens estavam retratados em suas mais terríveis expressões. Quando a porta se fechou, a sala tomou vida e lá estava meu pai, com a camisa entreaberta, os braços caídos para os lados, o rosto disforme e a boca emitindo palavras indecifráveis, como se quisesse retomar o controle da situação, mas já não dava. Ali estava um homem que me pedia ajuda e eu, seu filho, seu nome, apenas gritei: Espere aí papai, não me deixe agora que vou pegar o carro. Ao cruzar a porta de volta, cruzei com alguém e pedi que desse a ele água com açúcar e nesse momento o mundo parou novamente, até que me vi dentro do carro, saindo a toda pelo portão e parando em frente ao prédio de onde meu pai já vinha carregado nos braços do funcionário Campos, que tinha o apelido de Campo Redondo. Colocamos ele no carro e saí a toda. Novamente o mundo parou, apesar da minha correria louca pelas ruas da cidade, e apenas voltou a se movimentar em frente a uma loja de materiais de construção, localizada na avenida dois, porém, o mundo se movimentava, mas o carro curiosamente não saía do lugar. – O que houve? Gritei em meio ao nada. Olhei para meu pai, peguei em sua mão, ele me olhou com o olhar distante e lhe falei: Papai, fique comigo e não morra que vou pedir ajuda. – Preciso de um carro. Preciso de ajuda. Meu pai está morrendo lá fora. Todos me olhavam e ninguém esboçava nenhuma reação de ajuda. Corri ao vendedor, que tantas vezes atendeu meu pai naquela loja, e ele apenas disse que não tinha carro a disposição. Corri de volta. Novamente olhei para meu pai e lá estava ele balbuciando palavras incompreensíveis. Novamente peguei em sua mão e ele me olhou como se soubesse tudo que iria acontecer. Um taxi parou e voltamos a correria pelas ruas até o hospital. Dessa vez não larguei sua mão e não parei de falar com ele, pedindo que aguentasse firme que iria ficar bom. Novamente ele me olhou e fechou os olhos, mas sua mão apertava a minha e isso era o que eu queria, pois aquilo era sinal de vida, aquilo era sinal que ele estava comigo. Chegamos ao hospital, ele foi colocado em uma maca, levaram para a urgência e fui junto, mas o médico não aparecia. Deixei ele na sala e corri pelos corredores do hospital Walfredo Gurgel a procura do médico e disseram que ele estava em atendimento, entrei na sala e o puxei pelo braço, – Corra que meu pai está morrendo. O médico pediu calma, levantou e saiu caminhando calmamente. – Doutor, por favor, corra! Cheguei a sala onde meu pai estava na maca, peguei em sua mão, rezei e pedi ao meu irmão, Iranildo, que havia falecido há dez anos, que o socorresse e de repente me vi sentado no corredor de espera do hospital. – Seu pai vai ser transferido para outro hospital, mas estamos providenciando uma ambulância. Disse o médico ao sair do atendimento. – Como providenciando? Nessa hora minha mãe chegou, a ambulância chegou, colocaram meu pai e fomos atrás em outro carro. Na saída do hospital, ao ouvir a sirene da ambulância que o levava para o Hospital São Lucas, minha mãe sentenciou: “- Meu filho, a partir de hoje nossa vida vai mudar! ”. E mudou! Hoje meu pai é a melhor lembrança, a melhor saudade e o melhor dos entreatos que alegram meus sonhos. Aonde ele está eu sei, aonde ele vai eu sei. Quando ele está triste eu sei. Quando ele está alegre, quase sempre, eu sei. Quando ele não está junto a mim eu sei. Não tem um dia que ao abrir os olhos não pense nele. Ele é meu anjo da guarda, mas tem uma coisa que sempre me atormenta: – O que será que ele me dizia naqueles momentos que segurava minha mão e me olhava. Tio Emídio, que também já não está entre nós, certa vez me perguntou qual recado que meu pai mandou para minha Mãe. – Recado? – Sim recado, porque sua Mãe ontem sonhou com ele dizendo que havia deixado um recado com você. Pois é, até hoje tento decifrar aquele olhar e ouvir o eco dos sons disformes que saiam de sua boca e não consigo. Quem sabe uma noite, em que o sono entrar naquele estágio entre a levitação e as profundezas eu consiga escutar.

O eco das palavras de minha Mãe soou por alguns bons momentos entre as paredes do quarto e foi ouvindo-as que peguei na mão de Lucia, dei um beijo e dormi. É assim há 35 anos! Hoje, 22 de maio, Nelson Mattos, meu Pai, o melhor trombonista do mundo, o melhor entre todos os homens, o mais lindo e amado, faria 94 anos e logo cedo minha Mãe passou-me uma mensagem perguntando se ele fosse vivo ainda estaria tocando trombone. – Ceminha, tocando eu não sei, mas a nossa casa hoje estaria cheia e ornamentada de belas e inesquecíveis melodias.

Parabéns meu Pai!

Nelson Mattos Filho