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12ª Regata dos Pescadores de Enxu Queimado

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A praia de Enxu Queimado-Pedra Grande/RN está em festa neste final de semana, 11 e 12 de agosto 2018, com a 12ª Regata dos Pescadores, em homenagem aos pais. A Regata, – uma idealização de Pedrinho e Lucinha, um casal ímpar – depois do Ano Novo e Carnaval, é o maior evento do paraíso praia de Enxu. São dois dias de comemorações com torneio de futebol de praia, campeonato de sinuca, shows musicais, barraca de leilão e outras atrações. A prova no mar, uma competição imperdível, que tem apoio da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte e da Prefeitura Municipal de Pedra Grande, acontece na manhã do domingo, quando falta areia na praia para acomodar tantos torcedores e observadores. Se você, leitor, está pelas paragens maravilhosas do Rio Grande do Norte,  pegue a estrada e venha viver um final de semana sem igual.  Venha, que o povoado de Enxu Queimado lhe receberá de braços abertos!

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Cartas de Enxu 29

4 Abril (164)

Enxu Queimado/RN, 09 de julho de 2018

Mas Governador, porque danado você não veio a Enxu Queimado, homem de Deus? Se foi pelo motivo alegado, na entrevista a um blogueiro da região do Mato Grande, acho que foi fraqueza de sua parte. Onde já se viu um governador se intimidar com protestos, ainda mais protestos que impedem a passagem da mais alta autoridade de um Estado em viagem oficial para cumprir compromissos? Sei não viu! Se eram baderneiros, como você falou, mandasse a polícia desobstruir a via. Se eram moradores, reclamando melhorias prometidas e nunca realizadas, fizesse valer o bom diálogo democrático e desse por resolvido a peleja, mas não pisar no lugar, dando meia volta enquanto estava a mais de 60 quilômetros de distância, foi surreal. Será que o senhor estava de olho no regabofe da fama em São Miguel do Gostoso, para onde se dirigiu após decidir não vir aqui?

Mas tudo bem, ou tudo mal, sei lá, aquele 4 de julho era mesmo dedicado a São Tomé, o israelita, aquele que só acreditava vendo, e sendo assim: Eu não estava acreditando que o Governador do Rio Grande do Norte não viria a Enxu inaugurar uma obra tão importante para a população, tão significativa em termos de ganho para a saúde pública. Obra que esse pequeno povoado praieiro esperava há mais de 40 anos e que deve ter custado uma bagatela do orçamento do Estado. Pois é, o senhor não veio e água encanada de boa qualidade foi liberado sem o tradicional “batismo” oficial. Dizem que quem não é batizado vira pagão. Será que o senhor vai permitir que a água encanada de Enxu Queimado, liberada em 04 de julho de 2018, siga pela história com essa mácula? Água pagã? Faça isso não governador Robinson Farias, deixe de birra e venha cumprir sua obrigação.

Dizem que certa vez o presidente Juscelino recebeu uma sonora vaia ao chegar a uma cerimônia oficial, mas não perdeu a pose e nem sua condição de líder popular, que sabia decifrar a linguagem do povo, ao declarar: “feliz é a nação que pode vaiar seu presidente”. Bastou dizer isso para os aplausos comerem no centro. Governador, tem um ditado que diz que “triste é o poder que não pode”. Não o poder de fazer e meter os pés pelas mãos em atos escusos, mas o poder do bem fazer, de proporcionar melhorias, de caminhar de cabeça erguida em meio a população sem ser apontado por algum dedo acusador, de ter a alegria de prestar contas de seus atos e esses estarem limpos e transparentes. Pois é Governador, o presidente Juscelino Kubitschek, com maestria, mudou o rumo de um momento delicado, pois tinha absoluta certeza do poder que tinha. Não que a história do mito de Diamantina não tivesse fases obscuras, mas ele entrou para a história de cabeça erguida e desfazendo obstáculos.

Claro que o senhor lembra do episódio com o deputado Ulisses Guimarães, oposicionista e líder do MDB em plena ditadura militar, quando caminhava com o grupo de campanha pelo centro de Salvador/BA e deu de cara com uma barreira formada por soldados armados de fuzis e segurando cachorros. Sem aliviar os passos, Ulisses disparou: “Respeitem o presidente da oposição”. Sendo assim, empurrou o cano de um fuzil para o lado, abriu caminho e seguiu em frente com o grupo que o acompanhava.

Pois é, governador Robinson, fico aqui pensando na sua não vinda a Enxu Queimado com medo de enfrentar manifestantes, que nem eram tantos assim. O que terá passado por sua cabeça? Será mesmo que o senhor achava que a população dessa praia linda e maravilhosa iria rechaçar sua vinda, ainda mais sendo para dar vida a um sonho antigo? Os meninos que estavam na “barreira” têm suas magoas, mas não são meninos maus a ponto de pretender agredir um governador. No máximo o senhor levaria uma sonora vaia e quem sabe uma chuva de ovos, porém, isso faz parte do enredo dos regimes democráticos. Dizem, que não ouvi, que uma de suas promessas de campanha por aqui, foi que traria a água e faria o asfalto na estrada que liga Enxu a Pedra Grande, sede do município. A promessa da água está cumprida, mesmo sendo uma água pagã, mas o asfalto foi esquecido e é justamente aí que o bicho pegou, porque a estrada, que o senhor não viu porque desistiu de vir, está em estado lastimável, para não dizer outra coisa. Aliás, não viu a estrada e também não viu as belezas da região, não viu o maravilhoso parque eólico, a fábrica de torres, não viu a beira mar que precisa de ações urgentes, pois Netuno ameaça invadir com seus exércitos, não visitou uma comunidade alegre e em paz. Em paz sim, pois neste paraíso ainda não chegou a tal violência que assombra seu governo. Não sentou na beira mar, sobre uma jangada, para bater um papo descontraído com essa gente feliz. E o pior, não sentiu o sabor de uma suculenta posta do peixe serra, acompanhado de uma cerveja gelada. Eita que é bom demais, homi!

Venha governador Robinson Faria. Venha sem medo e inaugure a obra por seu governo construída. Se o povo tiver de cara feia, desça do carro, abra um sorriso e chame os meninos para uma conversa de pé de ouvido, que garanto que serás bem-sucedido.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 28

1 Janeiro (182)

Enxu Queimado/RN, 03 de julho de 2018

Sabe, Doutor Virgílio, estava aqui pensando, enquanto me espicho na rede armada na varanda, que até hoje não consegui definir o que o senhor representa para mim e meus irmãos, pois amigo é pouco para o tanto que você é. Quem sabe tio, mas há quem diga que tio é parente! – O que? – Pronto, achei a palavra certa: Tio. Tio Virgílio, porque sua amizade com meu Pai e Tio Emídio, meu segundo pai, se dava numa fronteira onde parentesco e amizade é retórica. Mas nem pense que vou me avexar a lhe chamar de tio no decorrer dessa missiva, viu! E vou tratar de entrar nos detalhes dos ocorridos nessa Enxu mais bela, pois a noite já vai longa. E tem moído que nem presta!

Antes que esqueça: Quando vem por aqui para saborear uma cioba gorda? Dr. Liu, o mar aqui é bom de peixe e dá de tudo. Lagosta tem também, mas os tempos estão cruéis para aqueles pescadores que se aventuram a mergulhar em busca das bichinhas. A pesca abriu no começo de junho, porém, até agora, o que foi pego não deu nem para o gasto. Lembro de quando pisei pela primeira vez os pés nessas areias, coisa de mais de 29 anos, que na época da lagosta era festa muita. Tinha caboco que tomava banho de cerveja e depois tirava o excesso com água mineral. Era um tal de chegar caminhão carregado de móveis e utensílios novos para casa, que era bonito de se ver. Carro zero quilômetro, então, vixi! Eram tempos de fartura e sabe o que se dava? No ano seguinte recomeçava o reboliço. Cansei de sentar na calçada da casa de Dona Tita e Seu Nilo, durante a noite, para saborear caldeirões de lagostas no bafo, acompanhado de cerveja, como diria o rei do baião, escumando. Nessa peleja virávamos a noite e ainda sobrava para o dia que vinha. – E acabou porquê? – Vai saber! É tanto disse me disse que é melhor deixar quieto.

Dr. Liu, sabe o que eu queria ver? Queria ver Nelson Mattos e Emídio Mattos batendo pernas por esse paraíso praia. Papai munido com o trombone de vara e Tio Emídio com aquela vasilha de sorvete que ele levava para a casa de Ponta Negra. Eita que a meninada ia adorar!

Liu, venha aqui, homem de Deus, que garanto um estoque novinho de piadas, causos e afins para sua enorme coleção de moídos. Venha sentar sobre uma jangada, na beira mar, para jogar conversa fora com Seu Neném Correia e a galera que não perde um bom bate papo. Durante o falatório você vai alegrar a turma com aqueles causos que só você sabe contar. Eita que vai ser bom! Mas, peraí, esqueça a história daquele “bicho” que Moquinho matou no banheiro, viu!

Dr. Liu, mudando de pau para cacete, tenho achado um bocado de graça com as coisas que me chegam pelas ondas da internet. Por aqui o sinal da internet é bom, apesar de alguns pormenores básicos, e basta piscar o olho para a tela se encher de novidades. Tem umas coisas cabeludas que bem cabiam nas atrações dos velhos trens fantasmas, mas dessa eu tiro de letra, pois danado e quem se mete a discutir os pormenores dessa politicalha barata, aliada aos destrambelhos de uma justiça sem freio. Pois bem, já que pulo essa casa, vou me arvorar da seguinte que é bem mais engraçada. Tempos atrás ouvimos ecos, vindos do planalto central, que afirmava que iriamos estocar ventos e o eco rendeu boas piadas e charges. Agora vejo que um general iraniano está acusando Israel de roubar nuvens. – Como assim? O militar ajuntou a impressa e declarou em alto e bom som, como assim fazem os generais quando querem mandar recado, que os meninos de Netanyahu estão “manipulando as condições meteorológicas” com o intuito de evitar que caia chuva no Irã. – Pode isso, Arnaldo?

Segundo o soldado do aiatolá, as mudanças climáticas no Irã são suspeitas e Israel e outro país da região, trabalham juntos para que as nuvens que entrem no território dos antigos reis aquemênidas não produzam chuvas. Diante dessa conversa mole do general, fico matutando: Quem danado está manipulando as nuvens desse Nordeste velho de guerras? E desse sertão sofrido do Rio Grande do Norte? Será que foi praga de Lampião e seus cabras da peste? Pense num povo amalucado! Deus é mais!

Dr. Liu, e por falar em água, pois num é que amanhã, 04/07, dia do israelita São Tomé, aquele que só acreditava vendo e por isso tomou uma reprimenda do Senhor, chega por essa prainha linda, o Excelentíssimo Governador do Estado, Robinson Faria, para inaugurar e dar vasão ao bem da vida nas torneiras de Enxu. Doutor, dizem que o povo está se manifestando para dar nó em pingo de água diante da presença do homem. Vamos ver, mas tomara que ele saia daqui com boa impressão, pois esse paraíso merece muito mais e o povo é ordeiro.

Doutor Virgílio Alexandrino Neto, Liu, meu tio por querença, pegue Dona Nair pelo braço e venha tomar uns banhos de praia no mar daqui, pois é bom demais da conta. Venha deitar o esqueleto numa rede armada embaixo da varanda dessa cabaninha de praia e ver o mundo de um jeito encantador.

Grande abraço,

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 26

10 Outubro (14)

Enxu Queimado/RN, 06 de Junho de 2018

Eh, meu amigo Venício, acho que chegamos finalmente ao tão sonhado século XXI. Você lembra, claro que lembra, das invencionices contadas pelos nossos pais de como seria o mundo quando chegássemos ao ano 2000? Falavam em carros voadores, passeios espaciais, moradias em Marte e outras milongas mais. Seríamos os Jetsons em carne e osso. Eita que era bom ouvir aqueles moídos e sonhar com a vida daquela família que era o futuro puro e simples. Pois é meu amigo, com dezoito anos de atraso, nada demais em se tratando de ciência, finalmente vemos os primeiros carros voadores tomarem os céus das cidades e, por incrível que pareça, sem chofer. Rapaz, é muita onda, viu!

Aí você irá pensar assim: – Onde danado Nelson tá vendo essas coisas? Será que em Enxu já tem carro voador? – Hahaha, tem não meu amigo, me assunto mesmo é pela tal da internet, que tomou conta desse planetinha azul, de cabo a rabo. Deito na rede, acessando a grande rede, que esqueço do mundo, enquanto os assuntos mundo afora chegam avexado que nem ontem. – Entendeu? – Nem eu, vôti!

Pois bem, abri a telinha e lá estava dizendo que o povo do Google tá nos finalmente para fazer um carro levantar voo e a geringonça se chamará Flyer. Só não vi se terá modelo L, LX, LG, XL ou 1000. Vou perguntar a Luciano de Tita ou a Rodrigo de Paula, os dois mecânicos mais afamados daqui, pois eles devem de saber alguma coisa. Mecânico sabe tudo e um pouco mais! Tomara que eles saibam, pois senão souberem vão é rir da minha cara. – Onde danado tu ouvisse essa mentira Nelson? – Onde já se viu carro voar? – Quem voa é avião! Parece que estou vendo a resenha!

Mas Venício, não é só o doutor Google que se meteu a fazer carro avoar, não, pois os meninos do Uber fizeram pareia com os galegos do 7 a 1, se adiantaram na trapizonga e até botaram os xeiques das arábias para voar num carro drone, cheinho de ventilador no teto. Meu amigo, ria não, pois se os homens das arábias se ariscam em tapetes voadores, imagine num carro que avoa! Isso é besteira pouca! Homi, agora eu vou contar: Dia desses, me chega um amigo, vindo lá das alagoas, e tira do bisaco um drone, dizendo ele que iria bater uns retratos. Ligou o bicho, as hélices começaram a giram fazendo um zumbido que nem uma ruma de muriçoca, as luzes começaram a piscar, meu amigo testou os controles remotos e lá se foi o estranhento pegando altura. Pois quando o bicho emparelhou com as cachadas de cocos do coqueiro, deu um pé de vento que se não fosse a ligeireza do controlador, em trazer o mosquito de volta ao terreiro, era bem capaz do danado ter ido parar nos quintos do judas. – Meu amigo, ninguém tira brincadeira com os alísios do Nordeste quando eles estão apoquentados, não! Vai brincar pra tu ver a cor da chita!

Ei, mudando de voo de carro para voador, você sabia que em Enxu tem caviar? Pois tem! E dizem que o caviar tem o mesmo sabor do que é produzido no estrangeiro, só que o de lá vem da ova do esturjão, peixe que nada nas águas da Rússia e do Irã, e são os mais famosos e mais caros do mundo. O nosso é o primo pobre e vem da ova do peixe voador, peixe que no mar entre Enxu Queimado e Caiçara do Norte, dá que só peste. A ova é pega, pelo menos aqui é assim, com uma armadilha feita com os galhos que sobram dos cachos de cocos, que são lançadas ao mar para os peixes depositarem as ovas. Tem barco que chega com mais de 500 quilos de ova em cada viagem, e entregam o produto aos atravessadores na faixa entre R$ 7,00 e R$ 10,00 o quilo. O que acho estranho é que nessa região ninguém sabe como beneficiar o produto para consumo, o que para mim é um pecado. A ova do voador é uma iguaria rica na cozinha japonesa, que eles chamam de Tobiko, e são comumente utilizados para rechear sushis e outros pratos. Mas fazer o que, num é? As coisas são como são e quem sabe um dia apareça um filho de Deus por essa região para ensinar os segredos dessa iguaria.

Pois é, meu amigo Venício Gama Pacheco, por aqui as coisas vão indo assim e vou contando aqui, acolá como elas são. Fico imaginando no dia em que chegar por aqui os carros voadores e dentro de um deles, buzinando aos quatro ventos, meu amigo Pedrinho de Lucinha aboletado em um deles. Vai ser onda, viu! Quanto ao caviar do voador, até já comi uns sushis com aquelas bolinhas coloridas, só não sabia de onde saía aquela delícia, mas agora já sei e juro que gostei pra valer. Do caviar do esturjão já provei e digo que nem achei lá esse babado todo, mas parodiando Zeca Pagodinho, “…já tirei essa chinfra…”.

Caro amigo, vou ficando por aqui viu, porque a noite já vai alta e Lucia já está com os olhinhos miúdo de sono. Beijo em Sandroca e outro para tu.

Nelson Mattos Filho

Nas veredas das dunas – II

7 Julho (60)

Para quem não viu a primeira parte, ou viu e não lembra, click AQUI

Iniciei esse relato em agosto de 2017 e só agora dei fé que não conclui, ou foi simplesmente por achar que a cidade praia de Galinhos não merecia receber palavras tão críticas de minha parte, ou por receio de meter os pés pelas mãos e não ser compreendido pelos vigilantes internéticos da razão. Bem, foi por algum motivo justo, mas agora, com os miolos uns meses mais velhos e teoricamente mais apaziguadores, vou dar seguimento e darei graças se encontrar na cachola os arquivos sem um tiquinho de mofo. Contar relatos idos não é coisa tão boa assim, até porque as coisas mudam ligeiro e nesse mundão sem freio e sem memória, as pessoas se avexam a esquecer os problemas e tudo fica como foi ou como está. Mas vamos lá!

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Terminei a primeira parte envolvido em um turbilhão de reflexões enquanto observava a paisagem do portinho de Galinhos, mas digo que não me encontrei naquela paisagem e nem senti o pulsar da alma da antiga vilazinha peninsular. Mas deixe quieto! Afonso acelerou o possante e fomos saindo de fininho, porém, desejosos de saborear as famosas tapiocas de Dona Irene, no minúsculo distrito de Galos. O sabor daquela delícia, que tem receita cravada nos compêndios gastronômicos dos deuses, nunca me saiu da memória e nunca haverá de sair. Paramos em frente ao restaurante e encontramos a proprietária com a mesma fisionomia alegre a nos receber. Lucia perguntou se ela ainda lembrava da gente, mas já esperando o não como resposta, pois tantas pessoas passam diariamente naquele recanto que fica complicado puxar a fotografia nos arquivos da mente. Com aquele riso amarelo de quem passou despercebido, olhei em volta, mas também achei que havia algo estranho naquela casa de sabores. O que deveria de ser? Foi aí que Lucia deu a informação que custei a acreditar: – A tapioca não está mais sendo servida! – O que? – Como assim? – Acabou a goma por hoje? – Não, a tapioca saiu definitivamente do cardápio, porque os filhos de D. Irene, que agora administram o restaurante, não querem mais fazer, porque dizem que os clientes só vinham aqui para comer a tapioca e não pediam outros pratos. Portanto, não tem mais tapioca. – Danou-se!

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Procurei lembrar dos fundamentos que aprendi no meu curso de administração, nas ações de marketing que utilizei nos estabelecimentos empresarias em que trabalhei, tentei puxar das teorias dos livros técnicos que li e me arvorei até dos reclames do rapaz que vende o picolé de Caicó, mas não encontrei nada que desse guarida aquela decisão tão extremada. A única coisa que chegou mais perto foi a lembrança do conto de um senhor que vendia cachorro quente na beira da estrada e seus filhos, que conseguiram se formar, conseguiram acabar com um negócio alegando teorias estapafúrdias. – Rapaz, não é possível que tenha acontecido a morte daquela maravilha dos deuses! Para recuperar do susto, pedi uma cerveja para desanuviar as ideias e tomei numa golada só. – Pense numa viagem cheia de surpresas desagradáveis!

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Sem a tapioca de Dona Irene, mas com o bucho forrado por uma peixada, que não recomendo, fui para a beira do rio fotografar a bela paisagem que se amostrava faceira. – Eita lugar bonito e tão incompreendido! Meio sem graça, pegamos o beco de volta enquanto a luz do Sol alumiava a fantástica natureza das dunas e do mar, produzindo cenas de fascinante esplendor. Para aqui, para ali, sobe duna, desce duna, chegamos a Caiçara do Norte, com o astro rei já clareando a barra do outro lado do mundo. Para evitar novas surpresas e visando a segurança e tranquilidade do nosso passeio, preferimos seguir caminho pela RN 120, até a sede do município de Pedra Grande e de lá tomar o rumo de casa, onde chegamos com noite escura e um pouco cansados.

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Não se avexe em tirar conclusões precipitadas diante de tudo que escrevi nesse relato, pois ele é fruto de observações acontecidas há praticamente um ano e em um ano, tudo pode ter mudado, ou voltado a ser o que era. Pode até ser que seja um relato bem crítico, mas é sempre assim quando voltamos a um lugar que um dia nos encantou e não mais encontramos o encanto e nem a poesia ali desenhada. A praia de Galinho é um dos mais concorridos destinos turísticos do Rio Grande do Norte, tem um povo acolhedor, bons restaurantes e pousadas aconchegantes.

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A natureza que envolve a península continua encantadora, apesar da presença das invasoras torres dos geradores eólicos. Mas a invasão do exército eólico não é apenas em Galinhos, a intervenção se dá em praticamente todo litoral norte do RN. Não é o caso aqui de denegrir o progresso que representa o aproveitamento da energia dos ventos, mas bem que ele poderia trazer melhores resultados para as populações envolvidas e não enfeiar tanto a paisagem. Mas aí é outra história.

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– Valeu a viagem a Galinhos? – Valeu e qualquer dia eu volto!

Nelson Mattos Filho

 

Cartas de Enxu 23

3 Março (65)

Enxu Queimado/RN, 14 de abril de 2018

Caro amigo Gerson, como vão as coisas nessa sua Bahia resguardada por Orixás e pelo venerado Senhor do Bonfim? Depois conte um pouco, até para matar minhas saudades, das suas peripécias pelas águas abençoadas de uma baía tão lindamente apaixonante. Por aqui as coisas estão indo como tem que ir e vou contar-lhe um pouquinho dessa vidinha de praieiro, que escolhi viver um tempo.

Pois é meu amigo, nesses tempos modernosos, onde as redes sociais emparedam tudo e a todos, tem sido uma graça observar o cotidiano dessa vilazinha de pescadores que adoro. Claro que os padrões estão bem distantes dos que encontrei há quase trinta anos e tenho visto alguns momentos de esquecimento com as raízes, mas as gerações são assim mesmo e a vida caminha para frente sem parar e o que seria de nós se ainda vivêssemos os costumes dos antepassados! Tem quem ache que tudo deveria voltar ao passado e tem momentos que comungo desse sonho, mas tudo é sonho, né não? Mas que seria bom, seria! Pelo menos viveríamos mais livres e sem esse medo destrambelhado que a tudo corrói.

Meu amigo, e por falar em medo, as notícias que circulam por aí é que o meu Rio Grande do Norte está entre os três Estados mais violentos do Brasil e está figurando entre as cidades mais violentas do mundo. – Será mesmo verdade? Hoje em dia é difícil acreditar nos números que se infestam por aí transvestidos de seriedade e passeiam como se verdadeiros fossem. Porém, digo que essa prainha que tem nome de casa de maribondo queimada e dotada de um conjunto de dunas espetacular, sem falar na gostosura do banho de mar, a vida é bem tranquila e não tem nem aparência com o restante das paragens do “mapa do elefante”. Sim, escuta-se o eco dos traumas em que vive o abandonado e mal-amado Rio Grande do Norte, mas o vírus do mal ainda não vingou por aqui e tomara que os deuses que a tudo protegem, não se descuidem tão cedo desse pedacinho do paraíso.

E por falar em vírus, e como no paraíso nem tudo é perfeito, pois se assim fosse, Adão e Eva não haviam comido aquela maça deliciosa, o mosquito da dengue tem azucrinado os ouvidos do povo, porém, tem voado silencioso pelas oiças dos administradores públicos. Aliás, eles, os mosquitos, e eles, os administradores, sempre agem assim quando o assunto requer para eles uma posição firme. Os mosquitos, porque não querem perder o alimento diário e os administradores, porque são descarados mesmo e tão nem aí para lamurias e sofrimento alheio. Sofrimento para eles e só quando abrem as urnas e o “apurado” não corresponde aos desejos. Pois bem, o general dos mosquitos antes de chegar mandou recado e como ninguém entendeu, ou se fez de desentendido, o danadinho armou o reinado e ordenou aos seus guerreiros para atacar. Ordem dada, ordem cumprida, e assim, a perigosa doença se alastra aos quatro ventos. Mas, Gerson, não pense que é só aqui não, viu, porque o descaso com a saúde pública é escrachado em todo esse torrão chamado Brasil e há quem diga que a culpa é da população que se descuida perigosamente da limpeza dos seus domínios. Digo que também é verdade e basta caminhar despreocupadamente por entre becos e coqueirais, que flagraremos a verdade nua e crua. Mas se não existe uma cobrança firme por conta das autoridades, e está passa a mão abonadora sobre a cabeça de quem não tem limites e nem zelo com a limpeza, a zorra descamba e quando é chegada a hora de recolocar o barco no rumo, a tempestade assopra de lá para cá, e seja o que Deus quiser!

Rapaz, agora que dei por fé que devo estar apoquentado seu juízo de velejador, com esse papo maledicente, ainda mais você, acostumado com os recantos saudáveis da Baía de Todos os Santos, em que a vida caminha lenta. – Tem ido ao Suarez? – Eita lugar bonito da mulesta! Meu amigo, por aqui também tem uns lugarzinhos apaixonantes e que você precisa vir conhecer, para riscar aquelas rotas que só você sabe fazer. Vixi como ia ser bom ver a praia do Marco, Enxu Queimado, Ponta de Tourinho, Serafim e outras tantas por aqui, figurando nas cartas náuticas digitalizadas. Mas vou logo avisando que são todas praias de mar aberto, porém, convidativas para uma boa ancoragem, apreciando um peixe frito acompanhado de tapioca com coco. Você deve estar se perguntando: – E a cachaça? – Tem, e tem da boa!

Pois é, meu caro e bom amigo, Gerson Silva, ou melhor, Gerson do Tô Indo, velejador cabra da peste, não se avexe com meus escrito, pois eles são apenas para lhe dar notícias e contar um tiquinho da vida desse lugar que me acolhe tão carinhosamente. Lucia manda um beijo para Lili, outro para você, e manda recado para que venham aqui o quanto mais breve. Sabe de uma coisa, para apressar a vinda, vou já ali na mercearia de Evilma comprar um quilo de goma para esperar vocês com uma maravilhosa tapioca dos deuses.

Grande abraço, com as graças da Lua Nova.

Nelson Mattos Filho

hipocrisia ambiental

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Desde que enveredei pelos rumos da navegação não consigo olhar para essa paisagem sem vê-la emoldurando uma bela e movimentada marina, porém, a palavra “marina” é sinônimo do “coisa ruim” para a turma que cuida das regulamentações ambientais e dos pseudos dublês de ecologistas. – O que? – Marina? – Sai pra lá satanás!  É assim que agem os “defensores” das coisas da natureza, sem nem sequer dá uma passada de vista no projeto. Pois bem, essa paisagem é talvez um dos pontos turísticos mais fotografados do Rio Grande do Norte e um dos mais afamados portais do turismo potiguar, se bem que nos dias de hoje a fama anda meio cabisbaixa. A bela e mágica Ponta Negra, praia cantada em verso e prosa, hoje é apenas uma sombra desfigurada de um passado brilhante. Da antiga e tranquila praia de veraneio, das pescas de arrastão, das jangadas, das ciobas, dos caícos, das serenatas ao luar e da velha e boa vila dos pescadores, só sobraram as lembranças. Ambientalmente Ponta Negra é um caos!  E olhem que a praia é berço e parque de diversão de quase todos os movimentos ecológicos que atuam em Natal. No nariz dos “fiscais da natureza” – os mesmos que um dia gritaram, espernearam e fizeram birra, contra a construção de edifícios que impediriam a vista que eles tinham da praia – construíram um calçadão, mais agressor impossível. Fincaram hotéis e  restaurantes praticamente na areia. Esgotos escorrem a céu aberto e desaguam no mar. E para fincar a estaca no coração, despejaram toneladas de pedra sobre a faixa de areia para preservar o mais cruel agressor, o calçadão. Agora vejo nas folhas de notícias que o Idema – Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, vários órgãos e ONGs que “fiscalizam” o meio ambiente, se reuniram para discutir propostas – cada uma mais estapafúrdia do que a outra – que visem conter o avanço do mar e consequentemente preservar o calçadão invasor. Hipócritas! Netuno, mostre a eles sua força e exija respeito! – E quanto a marina? – Vixe, deixe quieto, pode não senhor!