Arquivo da tag: litoral do RN

Cartas de Enxu 42

3 Março (7)

Enxu Queimado/RN, 04 de junho de 2019

Bebete, ontem, terceiro dia do mês de junho, tivemos a grata alegria de receber em nossa cabaninha de praia os irmãos Flávio e Jorge Rezende, dois cabras arretados que só vendo e que prezamos a amizade desde os tempos de menino pelas ruas de um bairro delineado pelas belezas inebriantes e cheias de mistérios dos morros do Tirol, em Natal. Foi um dia dedicado as boas lembranças de um tempo que já se foi, mas que continuará eternamente materializado nos maravilhosos arquivos da saudade.

Como seria gostoso se pudéssemos voltar no tempo, pelo menos por um dia, para vivenciarmos momentos felizes ao lado daqueles que, entre uma brincadeira e outra, juramos amizades e assinamos tratados de jamais nos separarmos. Infelizmente a vida não tem replay e o que um dia se foi, se foi para sempre e só nos resta o abraço apertado e o calor do reencontro diante de rostos amadurecidos e feições azeitadas pelas tatuagens da vida.

Bebete, diante da deliciosa moqueca de peixe, servida na panela de barro, que é uma obra prima das receitas de Lucia, Flávio fez uma pergunta que deixou no ar uma resposta que não veio, ou não quis vir para não quebrar o encanto do reencontro e muito menos espalhar fragmentos de tristezas em um momento tão sem igual. Perguntei sobre pessoas, estradas e sobre as variantes do destino e antes de responder ele perguntou assim: – Béris – como ele carinhosamente me chama -, vamos tentar recapitular. – Em que momento da vida caímos no vácuo em que as amizades tomam caminhos distintos? Pois é, minha irmã, não lembramos. Só sei que os deuses que desenham e abençoam as amizades, mais uma vez mexeram os pauzinhos e estamos festejando. No meu entender não existe resposta para a pergunta de Flávio, porque amizades verdadeiras nunca se acabam e assim como as estradas, em algum momento elas voltam e se cruzar, quando não, mostram placas indicativas de onde tal estrada se encontra.

Pois é, Bebete, hoje retomo o caminho ao lado de queridos amigos, mas sem saber até que ponto caminharemos juntos, porque sabemos que inevitavelmente um dia estaremos diante de nova encruzilhada e não tem jeito, pois jamais conseguiremos caminhar com os passos do outro. Ontem estávamos sob a sombra de nossa varandinha, revendo o passado e vislumbrando embasbacados o horizonte que delineia o presente. Tomamos banho de mar como se ainda fossemos três crianças do bairro do Tirol. Tiramos onda um com o outro, rimos dos causos, dos apelidos, lembramos dos cheiros, e até recordei as brigas que tive com Hermann, Fobica e outros. Juro que eu não era brigão, mas também não levava desaforo para casa, mesmo que para isso tivesse que levar uns bofetes, e levei um bocado.

Mas minha irmã, vou deixar as recordações de lado para dizer que Jorginho e Flávio adoraram Enxu Queimado e não tem como ser diferente, porque isso aqui é lindo demais da conta. Eles vieram pagar a promessa que fizeram de me visitar e pagaram com gosto. Flavio agora é um retratista bom que só a bexiga e não pensou duas vezes quando Jorge fez o convite para virem até aqui. Sinceramente, acho que o filme que ele usa na máquina Cannon Rebel T6, deve ter uma danação de poses, pois o cabra não deu sossego ao botão do click. Quando não era ele, era Jorge e eu já estava com pena daquele botãozinho de click, que no final já estava rouco. Bete, eles sabem que um dia foi pouco e esticaram enquanto puderam. Quando chegou na metade da noite da Lua nova, e com duas pizzas no bucho, pegaram o caminho que leva até São Miguel do Gostoso, desapareceram nas sombras e o “retratista da alma” ainda nos presenteou com uns escritos que fez carregar os olhos de água.

Minha irmã, agora me diga, se num é bom rever amigos? Claro que é! Vez em quando, nas Cartas de Enxu, convido um para vir aqui, mas vou logo adiantando que amigo em minha casa não precisa de convite. Alguns já vieram, outros prometeram e tem aqueles que estão pelas veredas dos caminhos e ainda não deram respostas, ou não leram a Carta, mas sei que algum dia darão as caras e aí vai ser festa.

E por falar em vir aqui: Elizabeth Lopes Mattos Jordão, quando será que você e Amaro darão o ar da graça por essa Enxu mais bela? Sei que sua Maracajaú e a super pousada Ponta dos Anéis, não deixam vocês sossegados, mas sei também que vez por outra saem batendo pernas pelos recantos do mundo e numa dessas quem sabe vocês botam os mocotós para caminharem pelas praias mais ao Norte. Venha minha irmã, venha ver coisa bonita e se encantar com esse povoado praieiro. Venha que Lucia promete preparar uma moqueca de bicuda da melhor cepa atlântica.

Venha e venha logo, pois já vou armar a rede na varanda para você tirar um sono com o frescor dos alísios que sopram sobre as dunas.

Beijo.

Nelson Mattos Filho

Anúncios

Cartas de Enxu 41

4 Abril (145)

Enxu Queimado/RN, 23 de maio de 2019

Sabe, Jorginho, a escritora britânica Virginia Woolf, (1882-1941), certa vez disse que, “Sem alguém cálido e respirando do outro lado da página, as cartas são inúteis”.

Sob as sombras avarandadas da minha cabaninha de praia tenho escrito as Cartas de Enxu, com o intuito de contar um pouco das coisas desse pequeno povoado praieiro encravado sobre as dunas do Rio Grande do Norte, como também comentar sobre o cotidiano desse mundo velho de guerras, lutas e manias. As cartas são endereçadas aos amigos, familiares, conhecidos, jornalistas, autoridades e hoje é para você, cabra bom que tenho a alegria de ter como amigo desde os tempos de menino, vividos no território livre da confluência das ruas Conselheiro Brito Guerra e Almirante Teotônio de Carvalho, no velho e gostoso bairro do Tirol, em Natal/RN.

Eh, meu amigo, algumas destas cartas vagam por aí e não conseguem chegar ao destino, ou se chegam, passam despercebidas e é nessas horas que lembro da frase da escritora britânica, mas não me entristeço, porque o propósito é deixar registrado o cotidiano da vida vivida em um minúsculo e aconchegante povoado litorâneo, durante o tempo que ele tiver a boa vontade e o carinho de me acolher. Quanto ao endereçado, é apenas uma forma de homenagear pessoas que quero bem ou chamar a atenção de outros para causas importantes. Hoje a carta é sua, Jorginho, e como sei que você, além de doutor dentista afamado, é um homem que olha para o mar com amor e respeito, vou adiantar que por esses dias do mês de Maria, as águas atlânticas, por aqui, estão numa boniteza mimosa de fazer cair o queixo dos mais céticos.

Doutor, nos últimos dias tenho ouvido falar que o nível dos oceanos está subindo feito rio que vem em cheia desenfreada e os meninos das ciências já apostam que a previsão anunciada para o ano de 2100, que era de quase um metro, pode ser dobrada. Se assim for, acho bom você se apressar para vir conhecer Enxu antes que Netuno invada com suas tropas. O alerta da ciência bate na velha tecla do tal efeito estufa, porém, os prognósticos são tão alarmistas e extremados que está difícil fechar essa conta. De uma coisa eu sei, por aqui o mar tem avançando um bocado e vem caminhando a passos largos.

Amigo, já que falei em um problema ambiental, falarei de outro. Dia desse ouvi buchichos sobre uma cerca fincada ao longo de um terreno e que esta está impedindo o tráfego de veículos a beira mar, quando a maré está alta. Ora, mas quem disse que dunas e beira de praia são vias trafegáveis para automóveis? Faz tempo que as autoridades da terra de Poti precisam assumir a responsabilidade de proibir o uso das praias para tráfego de veículos. Na grande maioria dos Estados brasileiros, inclusive nordestinos, não é permitido. O dano ambiental é enorme, irreversível, além de ser um eminente atentado contra a vida dos banhistas. Eh, meu amigo Jorginho, nos últimos dias o Brasil falou tanto em educação, mas parece que tudo foi dito apenas para florear perfis nas mídias sociais!

Amigo, esse tema merece ser discutido com mais seriedade pela sociedade e o poder público não pode simplesmente virar as costas e deixar que o tempo descida. As areias das praias do litoral Norte do RN é uma verdadeira avenida em que cabe tudo e mais um pouco. Não existe fiscalização, não existem regras, não existe respeito com o banhista e quem se incomodar que vá procurar o bispo. Diariamente trafegam por essa grande e livre avenida, enormes comboios de automóveis tracionados cometendo festivas agressões ao meio ambiente, com patrocínio de grandes marcas famosas. Alguém haverá de indagar sobre o ganho turístico e monetário para os lugares por onde passam os comboios e direi que, não existe ganho turístico, nem monetário, quando o meio ambiente é sistematicamente degradado!

Meu caro, Jorge Leite Dantas de Rezende, essa missiva pode até estar meio macambúzia, mas tem dias que precisamos descarregar sentimentos e para isso, nada melhor do que o ombro de um amigo e digo mais: Não se apegue as minhas lamentações para arranjar motivos para não vir até aqui, ainda mais você, um exímio pescador e conhecedor das lamurias da mãe natureza. Sei que adoraria estirar o esqueleto em uma rede armada sob a sombra da varanda, de frente para o coqueiral, jogar conversa fora saboreando uma branquinha, degustar umas postas de peixe frito, acompanhado com aquele vatapá maravilhoso que somente Lucia sabe fazer.

Venha, traga a esposa e as meninas, porque sei que ficarão maravilhadas com essa prainha encantadora. Traga seu irmão, Flávio Rezende, o mais novo retratista do pedaço, para ele entupir as lentes daquela Canon com fragmentos do que há de mais bonito no mundo.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 40

8 Agosto (37)

Enxu Queimado/RN, 16 de maio de 2019

Mauricio, hoje ao escutar o zumbido do silêncio que faz eco por entre as palhas dos coqueirais que varrem as sobras da noite, enveredei por minhas filosofias de varanda e me enganchei pelas veredas que levam ao nada. Das janelas da cabaninha de praia olho para a floresta de geradores eólicos que cercam essa Enxu mais bela e fico matutando em que lugar do tempo e do espaço mora o futuro. Será que algum dia a humanidade encontrará com ele? Qual a cara do futuro? Será que é novo, será que tem meia idade ou será que ele é um velho rabugento, metido a novo e pinta os cabelos de acaju? Meu amigo, vejo o futuro como um ser tão arisco que quando pensamos que chegamos a ele, o danado se vai e só nos resta olhar para frente e mirar o passado. Pois é Maurição, pense nuns pensamentos amalucados que fui achar de pensar! Mas como você faz parte do grupo de pessoas que escavaca as novidades do mundo computacional, me avexei a escrever esta carta, pois sei que de futuro você entende.

Mauricio, cabra bom, antes de continuar com meu moído filosófico, futurista e amalucado, vou mandar um cheiro para Dona Regina e quando você tiver um tempinho para tomar aquela gela na varanda do Aratu Iate Clube, olhando para o maravilhoso pôr do sol, tome uma por mim e dê um abraço na baianada que por lá se deleita. Pois bem, vamos falar do futuro.

Rapaz, desde que o Brasil se danou a estocar vento, que se não estou enganado tudo começou nas terras da Iracema, pelo menos foi lá que vi os primeiros cata-ventos, escuto falar que enfim chegamos ao futuro. Os primeiros totens cearenses deram cria e hoje seus descendentes se espalham pelo país, produzindo feito coelhos. O Rio Grande do Norte tomou gosto pela coisa e, segundo dizem, fincou o pé e tomou a dianteira na produção de energia eólica. Dizem que pelas terras de Poti está implantado o que existe de mais moderno na seara eólica e foi daí que fiquei criando interrogação no juízo. Escarafunchando pelos atalhos da “grande rede” fiquei sabendo que os galegos da Holanda estão fabricando uma turbina de energia eólica que é uma monstra e tem pareia não. Os holandeses garantem que a bichiguenta, apenas umazinha, terá capacidade de produzir energia para alumiar umas dezesseis mil residências e mais uma danação de bico de luz. Danou-se! A monstra terá 260 metros de altura, o rotor 220 metros, cada hélice terá 107 metros de comprimento e produzirá 45% mais do que qualquer turbina que esteja hoje em funcionamento. Foi aí que ao terminar de ler sobre a holandesa comedora de vento, mirei o parque eólico de Enxu e não vi nem a sombra e nem o vento do futuro.

Eh, Mauricio, esse tal futuro é mesmo escalafobético e ai daquele que tentar passar-lhe a perna! Dia desses chegaram por aqui umas Naus tripuladas com uns marinheiros fantasiados de bacanas, que se diziam donos do mundo e da razão, só prumode tinham nas mãos uns trabucos que pipocavam fogo e amostravam um tal brazão de um tal reino de além-mar e num papo torto para entortar cabeça de índio, meteram os pés pelas mãos e nesse blá, blá, blá, entre uma cachimbada e outra, afirmaram que vinham do futuro, mas nas cartas que enviavam para lá diziam que o futuro era aqui e ele estava nu. Pois é, meu amigo, no espaço entre o passado, o presente e o futuro dessa história meio engembrada, cabe todo tipo de conto e até hoje – que não sei mais se é presente, futuro ou passado – quem conta o conto aumenta um ponto e o que era futuro virou passado e tudo indica que continuará passado e malpassado, pois do que foi passado ninguém conta e do futuro ninguém quer saber, porque todos vivem o presente e este não tem passado e nem futuro. Vixi, agora lascou em banda e nem eu estou entendendo mais nada!

Maurição, hoje a Lua está crescente e toda mimosa fazendo fita no céu. Ei, amigo, o luar por aqui é bonito de se ver, viu! Se eu fosse tu, pegava o beco e vinha dar uns bordos por aqui para comer umas postas de peixe fresquinho da silva. Se bem que os escamudos estão meio arredios e as produções andam poucas. Mas pelo menos dá para a gente arranjar uma dúzia de caíco para colocar na panela do escaldaréu, para comer na mesma moda que os pescadores comiam antigamente, sentados no chão da praia, com uma garrafa de cachaça enfeitando a areia e a Lua luminosa prateando o arredor. Eh, moonlight, curto o presente, adoro a vida que se vivia no passado, pois não conheço o futuro. Se for aquele que está chantado na Praia do Marco, não vale, porque futuro ele nunca teve. Homi, deixa pra lá!

Luis Mauricio Vila, cabra arretado de uma Bahia de mar e cantorias, estou com saudades da sua alegria e das boas risadas. Pegue sua Regina e venha ligeiro ver a vida como ela é e merecer ser. Venha, meu amigo, e venha logo, pois Enxu Queimado fica de cara e de peito aberto para o paraíso.

Vou botar a cerveja no gelo, viu!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 39

11 Novembro (107)

Enxu Queimado/RN, 09 de maio de 2019

Caro amigo, Fernando, bem que poderia juntar letras e escrevinhar sobre jangadas, paquetes, botes, redes e balaios de bicudas gordas, coisas que em Enxu são de belezas infinitas. Poderia falar sobre a imensidão de dunas brancas que cercam o lugar ou ainda dos quilômetros a fio de belas praias encantadas que se estendem até onde a vista alcança. Poderia falar das paneladas de escaldaréu degustadas nas noites a beira mar, acompanhado de deliciosos bate papos e cerveja, como diria o rei do baião, escumando, porque diante da força da brisa noturna dos alísios daqui, não tem gelo que dê conta. Quem quiser tomar cerveja gelada que adiante o passo nas goladas. Poderia falar sobre muitas coisas do cotidiano desse povoado praieiro tão mágico e tão incompreendido, mas vou me atrever a falar de coisas que me enchem de tristeza e desalento, porém, não se avexe e nem me queira mal por carregar essa cartinha com coisas dos pecados dos homens.

Amigo, você ainda lembra daquele dezembro de 2018, quando esteve por aqui? Pois é, naqueles dias andamos um bocado pelas estradas vicinais que traçam picadas por entre os lugarejos que povoam essa região de porta de entrada do sertão e lhe mostramos um Brasil que o Brasil desconhece, mas que é o mais simples e desnudo Brasil real, onde tudo é nada e nada é tudo. Você gostou tanto do “tour” que no dia seguinte embarcou no bugre bala de Luciano e foi ter um passeio de certezas e incertezas pelas dunas até a paradisíaca praia de Galinhos. Agora cá pra nós: Aquele bugre merecia uma participação especial nos filmes de Mad Max, num é não? Pois é, Fernando, aquelas estradas continuam igualmente você viu e irão continuar iguais por muito tempo, porque foram condenadas a uma vida de promessas e quando entra nesse departamento é difícil achar a saída.

Fernando, sei que você gostou daqui e até confessou em um áudio que me deixou feliz e emocionado, pois colocou Enxu um degrau acima de Gostoso, dois degraus arriba de Galinhos e quase emparelhou nossa prainha com a mutante praia de Pipa, afamada que só a peste. Claro que você queria nós agradar com as palavras de altivez e agradou tanto, que até hoje, sempre que tenho oportunidade, faço ecoar seu testemunho. Ei, você sabia que o município de Pedra Grande, do qual Enxu Queimado é distrito, completou neste mês de maio 57 anos de emancipação? Pois foi! Em maio de 2018 escrevi a Carta de Enxu 24, a amiga Lourdinha, e depois de relê-la posso dizer que em um ano nada de novo foi acrescentando e muito foi diminuído, apesar da monstruosidade do parque eólico que aqui gera energia, impostos e empregos. Aliás, comparo as empresas eólicas que usufruem das benesses dos ventos que varrem essa região, com gigantescas sanguessugas, porque sugam até as entranhas do que podem e em troca oferecem míseras migalhas em benefícios e ações sociais. Se os governantes não abrirem os olhos, muito em breve não teremos nem a estrada RN 120, que está praticamente intrafegável, insegura, sem sinalização, sem um mínimo de fiscalização e diariamente recebe dezenas de carretas com largura suficiente para tomar todo o espaço da estrada e carregadass com pesos desaconselháveis para uma via tão precária.

Rapaz, de vez em quando escuto falar em um tal Motores do Desenvolvimento do RN e fico a matutar o que danado é esse bicho! Será que os tais motores bateram biela antes de funcionar? Se a região que dizem ser a maior geradora de energia eólica do País está em situação periclitante, imagine o restante. Não dá para acreditar que paragens com tanta importância em uma área segurança nacional, que emprega milhares de funcionários, ocupada por gigantescas corporações industriais, não conte com um hospital bem equipado, não mantenha suas cidades, cercanias e estradas bem policiadas, não tenha um projeto bem elaborado de capacitação profissional e todas as cidades envolvidas estão situadas no Índice de Desenvolvimento Humano baixo. Pedra Grande ocupa a 5066ª posição entre os 5.565 municípios brasileiros.

Eh, meu amigo Fernando Rabello Sessler, velejador de primeira linhagem, como disse na abertura dessa missiva, queria falar de coisas belas e encantos praieiros, porém, hoje acordei meio sei lá e ao olhar o coqueiral de fronte a minha cabaninha de praia, senti que o bailar das palhas estava com cadência entristecida. A natureza é sabia e mestre em emitir razões em forma de sinais. Nada passa despercebida de suas leis e suas sentenças são enigmáticas. Na história de Adão e Eva o paraíso foi oferecido e bastava que zelassem pela sua manutenção, mas o Casal botou tudo a perder ao sentir o cheiro e provar do sabor de uma doce e apetitosa maçã.

Fernando, não se deixe levar por estas palavras de desabafo pecaminoso, porque elas não levarão a nada. Venha passar mais alguns dias se refrescando nos alísios desse litoral encantador para colher novas experiências de um Brasil quase esquecido. Venha meu amigo, venha que garanto nova rodada de escaldaréu e a velha rede armada na varanda!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 38

10 Outubro (29)

Enxu Queimado/RN, 29 de abril de 2019

Caro amigo, Marcelo, faz dias que estou para escrever-lhe essa missiva, mas a vida vai indo, os assuntos vão se alternando em meio ao cotidiano dessa vilazinha de pescadores e quando dou por conta, estou pegado rabiscando linhas para outro endereçado. Mas se apoquente não que não esqueço de você, viu! Ainda mais quando vejo o estirado de plantações, principalmente feijão, batata doce e milho, pelas cercanias dessa Enxu mais bela, porque caboco bom a entendedor de plantação só tem tu mesmo!

Ei, Flor, como estão as coisas pela Baixa do Sapateiro, lugar de uma Bahia verdadeira e cheia de gingado? Por aqui a vida vai marcando os passos de pouquinho em pouquinho, mas segue em frente sem precisar de muita correria. Correria mesmo somente das motos e carros que trafegam sem muitas precauções de segurança pelas ruas estreitas do povoado. Aliás, nem sei porque os “pilotos” têm tanta pressa em um lugar tão pequeno que se brincar, nem precisaria de locomoção automotiva! Meu amigo, para dar um breque na correria, muitos moradores constroem, por conta própria, o que não é legal, verdadeiras muralhas em formato de lombadas, mas nem isso resolve, porque os motoqueiros – ou seria motociclistas? – aproveitam as “muralhas” para praticar motocross. Sei não viu!

E por falar em ruas, no final de 2018 circulou a notícia que a estrada que liga Pedra Grande, sede do município, a Enxu Queimado, já havia sido aprovada e o dinheiro já estava dormindo em uma conta. Fiquei assim meio sei lá, pois não gosto de dar asas a caboco falante, mas resolvi plantar um pé de cá te espero. Diziam que a estrada estaria pronta em no máximo três meses, e meio, e acho que o que atrapalhou foi o tal do “meio”. Para que danado incluíram “meio” em uma obra tão curta? Pois bem, pelas minhas contas, e levando em consideração o “meio”, a obra estaria pronta agora, final de abril, porém, nadica de nada e até os arautos esqueceram o que tinham dito e hoje fazem ouvidos de mercador. Como diria o jornalista Flávio Rezende: Que situação, rapaz…

Marcelão, mudando de pau para peixe, a pesca por aqui, lugar de pescador, tem andado mais fraca do que caldo de batata. Não sei o que danada o barbudo Netuno está aprontando, mas os peixinhos têm dado trabalho para cair nas redes. A Semana Santa foi praticamente sem peixe e se não fosse a boa vontade do prefeito, em distribuir umas postinhas de atum, acho a turma iria enveredar pelo pecado da carne. Nos buchichos na beira mar os pescadores acreditam que a produção logo, logo vai melhorar e que tudo são os desígnios de Deus, o que acredito e dou fé, porque nos últimos dias já tem pescador com riso mais à vontade. Hoje mesmo, 29/04, Pedrinho mandou notícia que o barco dele havia chegado bem sortido e que tinha umas postinhas de bicuda e garabebel preparadas para mim. Eita que vai ter moqueca na panela de barro!

Ei, primo, e a chuva não para por aqui. Já estamos na soleira da porta do mês de Maio e só se avista nuvens escuras e bem carregadas desfilando pelo Céu de Nosso Senhor. Ano passado foi bem chovido, mas não é de minha lembrança que foi igualmente esse 2019 que caminha a passos largos. Fazia tempo que no Rio Grande do Norte não se ouvia falar em açude estourado e água carregando pedaços de estrada e destruindo pontes. A última chuvada pelos aceiros do Sertão deu o que falar e tirou o sono os meninos da Defesa Civil. Foi um tal de corre daqui, pastora dali, que tem gente com os mocotós doído de tanta correria desenfreada. Dizem que os principais reservatórios do Estado estão tomando água de montão e se continuar nessa pisadinha, vai ser alegria por mais dois anos. Veremos! Meu amigo, Beto de Bia, mandou recado de que o açude Gargalheiras, em Acari, está com promessa encaminhada. Respondi e prometi, que se o bicho despejar água por riba da parede, sairei de Enxu para dar uns mergulhos no velho açude e depois comer uma galinha caipira com pirão e arroz de graxa, sob a guarda de Nossa Senhora da Guia. Claro que vai ter uma “branquinha” para molhar a goela, pois ninguém é de ferro e a Santinha abençoa de todo agrado!

Marcelo Guimarães Flor, quando você voltará para dar uns passeios por aqui, homem de Deus? Dá última vez você veio num pinote e voltou no outro, mas me alegrei porque veio, ainda mais acompanhado do mano Marcelino que ficou feliz demais. Venha, rapaz, venha aproveitar das postas de bicuda e garabebel que Pedrinho reservou, que Lucia garante fazer uma moqueca, caprichada na pimenta, de torar. Aliás, se não quiser vir para a moqueca, venha no começo do mês de São João, pelo menos dança um forrozinho, que sei que você é bom, e aproveita do período da pesca da lagosta que por aqui é bem servido.

Beijo grande, meu amigo!

Nelson Mattos Filho

Cidadania

20190328_12001820190422_085718

“Não é a primeira vez e nem será a última”, assim diz o ditado e assim vamos levando a vida entre trancos e barrancos, mas sem esquecer de sermos felizes, pois se assim não for, seremos engolidos pela máquina de moer paciência.

A praia de Enxu Queimado/RN é sim uma comunidade pacífica e extremamente condescendente com aqueles que não lhe doam um mínimo de atenção – a não ser quando estes estão a vislumbrar a purpurina dos resultados das urnas eleitoras -, mas se não fosse esse relativismo, poderia, com toda propriedade, fazer parte do seletíssimo grupo de lugares no mundo em que se colhem os frutos do turismo consciente, amadurecido, diferenciado, respeitoso, educado, de bem com as causas ambientais e que norteia o bem estar da população local. A praia é dotada de beleza ímpar e áurea inspiradora, mas a moldura está maltratada e corroída pela falta de zelo.

Há anos a comunidade convive com o fantasma de uma tragédia anunciada e que até já ceifou uma vida, mas a morte passou sorridente, o choro cessou, a piedade esmoreceu, o medo se foi e o fantasma continua tranquilamente na espreita.

Como em todo e qualquer pequeno povoado brasileiro – juro que não sei se o problema é recorrente mundo afora – a fiação elétrica dos postes não tem o padrão de altura determinado pelos manuais de segurança. Cada empresa de serviço que utiliza os postes, coloca sua fiação de acordo com a cabeça oca de quem executa o serviço e dificilmente aparece algum responsável pela ordem pública para conferir o que foi feito. O que mais se vê por aí são ruas, becos, vielas e avenidas, cruzadas por fios tão baixos que se brincar servem até como varal de roupas e Enxu Queimado não foge à regra, mas deveria, porque é uma praia de enorme potencial pesqueiro, e por isso recebe diariamente caminhões baús refrigerados, e tem sobre suas dunas e matas de caatinga um gigantesco parque eólico e por isso em suas ruas estreitas circulam, irresponsavelmente, grandes carretas e monstruosos equipamentos de guindastes. Quando não é isso, de vez em quando ainda aparecem enormes ônibus que servem a cantores e bandas de forró e aí a zorra está formada!

Pois bem, em um período de quinze dias a fiação de telefonia, estirada irresponsavelmente sem padronização de altura sobre a rua principal de Enxu Queimado, foi arrancada por enormes caminhões e graças a Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira do lugar, não foi fiação elétrica, porque se assim fosse, o desastre estava feito, porque no primeiro acidente, que nem foi notado pelo caminhoneiro e mesmo se fosse ele teria ido embora do mesmo jeito que foi, sem dar satisfação a ninguém, porque não tinha a quem, a fiação ficou estendida no chão por uma semana. Mal a bagaceira foi concertada, outro caminhão, seguindo o mesmo modus operandi do primeiro, arrancou novamente a fiação, que assim permanece até o dia de hoje, 22/04/2019. – Denunciar a quem? – Rapaz, tenha fé em Deus!

Claro que a administração pública não fará o serviço, até porque não tem pessoas especializadas e nem a fiação lhe pertence, mas bem que poderia mandar uma equipe para isolar a área e acionar os responsáveis para que vidas sejam preservadas e alguma tragédia não venha a acontecer. Uma fiação arriada sobre qualquer via de circulação de pessoas ou automóveis, representa perigo eminente, mesmo que não seja energizada. Basta que um motociclista seja atingido, um carro esbarre, uma pessoa seja enlaçada ou por outros motivos o poste seja derrubado, os responsáveis, diretos e indiretos, serão denunciados e pagarão por suas faltas.

Que Nossa Senhora dos Navegantes nos proteja e ilumine a mente dos homens!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 36

2 Fevereiro (165)

Ângela, não sei se é verdadeiro o conto de que nascemos com o plano de vida traçado em algum lugar entre o Céu e a Terra e por mais que tentemos mudar nosso destino, não tem como. Mas como duvidar do conto, se quando começamos a caminhar no labirinto, o máximo que conseguimos é chegar a uma imensa e indecifrável clareira onde tudo casa com tudo sem nem sabermos o porquê? Amiga, aquele carequinha era o máximo e não tem como deixar de agradecer Aquele que traça o destino das pessoas, em ter cruzado o de vocês com o nosso.

Sabe, amiga, a vida nessa praia paraíso continua caminhando na paz e na tranquilidade e lembra um pouco Terra Caída/SE, aquele pedacinho do Céu debruçado sobre os rios Piauí e Cajazeiras, só não tem o Zé de Teca, porém, tem uma trinca de cabocos resenheiros que se brincar, deixa Zé segurando o queixo. Pois veja só: Certa manhã, depois de uma madrugada de relâmpagos e trovoadas, sentei para papear com uns amigos e o assunto não poderia ser outro a não ser o riscado dos coriscos que lumiaram a noite e o ronco surdo de Thor. Lá pras tantas, alguém afirmou que primeiro vinha o trovão e em seguida o clarão do relâmpago. Tentei corrigir a crença do amigo e por mais que eu argumentasse que primeiro vinha o relâmpago e logo após o trovão, porque a luz é mais rápida do que o som, não teve jeito, pois naquela roda de bate papo todos estavam convencidos que o som vem primeiro do que a luz. Teve até quem dissesse assim: – Menino, quando a gente solta um peido de velha primeiro vem o pipoco e só depois aparece o fogo do traque. E vou confessar uma coisa, viu amiga: Pois num é que saí daquela resenha quase convencido que eu estava errado, tamanha era certeza dos debatedores. No próximo encontro vou perguntar se a Terra é redonda ou plana só para ver o circo pegar fogo. Vai ser onda, viu!

Amiga, nesse mundão sem fronteiras e com a rede de computadores emitindo dados e notícias a cada milionésimo de segundo, por mais isolado que seja o recantinho do planeta o zumbido chega e chega ligeiro e nem uma redinha preguiçosa e despretensiosa, estirada em uma varandinha de praia, serve de trincheira para um vivente se esconder. Pois veja só, estava eu sobre a varandinha, maravilhado com a história de São Lucas, no livro Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldell, quando me deu na telha de pegar o celular, bicho anunciador de boas e más, e na telinha apareceu a notícia de que o presidente dos ianques, Donald Trump, em discurso cutucou os defensores da energia eólica e disse que o barulho emitido pelas pás e turbinas geram câncer. Não é preciso dizer que a largada do galego deu o que falar mundo afora, mas da minha varandinha fiquei a matutar ao olhar para a floresta de “moinhos de vento” que por aqui se estende além de onde a vista alcança e mais um pouco: – Agora danou-se, e se esse “topetudo” estiver certo? Dia desses uma amiga que mora no povoado do Alto da Aroreira, parede e meia com Enxu, disse que tinha horror do barulho constante das torres de eólico, que cercam o lugar. Disse que aquele zumbido surdo dava até dor de cabeça e que muitas vezes não conseguia dormir. – Vai vendo, amiga, vai vendo!

Pois bem, deixei o alerta do galego para lá, pois o danado é dado a falar pelos cotovelos, se bem que acerta quase todas. Lembra do atentado na Suécia? O bixiga só errou a data! Pulei a tela e diante da notícia seguinte encolhi os olhos para ler o que achava que não estava lendo. O STF, que agora se avexou a cesurar a boca e os dedos do povo e a emitir ameaças veladas a torto e a direita, deu carta branca para o sacrifício de animais nos terreiros de umbanda, sob alegação de cunho religioso, cultural e histórico. Cada qual com sua fé, mesmo que seja torta! Agora me diga, Ângela: – E se o santo pedir o sangue, como tem acontecido por aí, de uma pessoa, será que também está dentro da permissão dado pelos senhores supremos?

Eh, amiga, esse mundo está virado de ponta cabeça, ou melhor, sempre esteve. E falando de sacrifícios de humanos: – Você viu que nos Andes encontraram centenas de esqueletos de crianças, coisa feita pelos Incas? Os estudiosos relativizam e dizem que as crianças eram sacrificadas para que os deuses abrandassem os efeitos do El Niño. Será que naquela época tinha STF naquelas montanhas de frente para o Pacífico? Sei lá! E pior é que o danadinho do El Niño e sua irmãzinha querida, continuam dando as cartas e mandando ver nas coisas do tempo, isso quer dizer que as crianças incas morreram por nada. Tem muito pecado em meio a fé!

Pois é, Ângela Cheloni, essa missiva era para falar das coisas dessa Enxu mais bela, mas fui inventar de curiar o celular e me perdi por entre as vias marginais das histórias mal contadas, mas tudo bem porque tudo vale quando se quer puxar conversa com uma amiga.

Beijo e não demore a voltar por aqui, viu!

Nelson Mattos Filho