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Cartas de Enxu 61

3 Março (34)

Enxu Queimado/RN, 24 de março de 2020

Eh, Cristiano, você viu? Levamos um chega pra lá tão violento que acho difícil continuarmos caminhando com os passos apressados em que vínhamos caminhando até então e custa-me acreditar que seremos pessoas melhores depois de atravessar esse turbilhão.

Amigo, ainda estão gravadas em minha cachola a troca de palavras que tivemos sob as sombras das madrugadas dessa Enxu mais bela, claro que as fartas doses daquele escotch maravilhoso, as taças de vinho, as cachacinhas paraibanas e as latinhas de louras geladas deram impulso ao papo cabeça de duas almas noturnas, que insistiam em contrariar o silêncio, mesmo em sussurros, que ecoava do coqueiral, na vã tentativa de resolver os problemas do mundo. Hoje observando o pandemônio que virou nosso planetinha, vejo que aqueles papos tortos, do começo de janeiro, já sinalizavam coisas estranhas.

Pois é, aquela Enxu que você conheceu, há pouco mais de dois meses, hoje é um povoado, assim como todos nesse mundinho metido a besta que apelidamos de Terra, acabrunhado, espantado e a espera de uma esperança que por enquanto é incerta, porque se depender da vontade dos “homens”, não teremos esperanças.

Mas, rapaz, não se avexe e nem se aperrei com as lamúrias escrevinhadas nesta missiva e nem pense que desejo azucrinar seus miolos com esse papo virótico que rodeia o planeta, pois acredito, diante do bombardeio de fakes, notícias fantasiosas, fantasiadas e afins, que não tenho mais nada a dizer, a não ser o que está posto. Porém, diante de tempos tão tétricos, fica difícil não falar de um momento tão cruel para a história da humanidade, até como forma de registro.

Paulista, hoje atravessei a vereda do coqueiral para ir até a beira mar tirar uns retratos e gostei do que vi e retratei, porque adoro apreciar o estirado de praia, para um lado e para o outro, sem um pé de gente e convidativa para caminhadas de reflexão. Rapaz, estava bonito e gostei de saber que a comunidade está empenhada em espantar a “besta fera” de volta para o buraco de onde ela saiu. Dizem que se o buraco for muito profundo, e encontrar luz no fim do túnel, é bem capaz da danada encontrar o caminho de casa. Será verdade?

Cristiano, tirando os nove fora e deixando a “peste de olhinhos puxados” de lado, essa prainha continua linda e assim que passar a borrasca, estará de braços abertos para acolher de bom grado os visitantes que por essas bandas se aventurarem, porque, como diz um amigo, aqui se dá cabimento a todo mundo. Só não sei se com as mesmas portas de agora, pois do jeito que a coisa está sendo pintada, é bem capaz que muitas delas estejam lacradas. Amigo, ainda não vi uma nota oficial, e sincera, para dar guarida aqueles que labutam nos caminhos do empreendedorismo, especialmente os que ralam e tocam a vida na informalidade. A ladainha que sai da boca de governadores e prefeitos, principalmente aqueles que se engalfinham em luta aberta e malcriada com o Planalto, é só fechação e quem reclamar leva chibatada no lombo.

Amigo, tenho sabença que a peste é perigosa e merece atitudes extremadas, mas você que é letrado na tabuada dos números, me diga como fechar a contabilidade do feirante, do vendedor de cachorro-quente, do pescador, do peixeiro, do vendedor de tapioca, do dono do boteco, do taxista, da manicure, do flanelinha, da lavadeira de roupa, da empregada doméstica, do garçom, do dono do restaurante, do vendedor de cocos, do menino do picolé, do lavador de para-brisa, do marceneiro, do músico das domingueiras, do padeiro, do sorveteiro, do camelô e mais uma danação de profissionais que atuam e dão vida as cidades? Para governantes, ministros, secretários, barnabés, deputados, senadores, vereadores, militares, juízes, promotores e demais agregados das tetas da viúva, a coisa é fácil e basta uma canetada para o salário integral ser depositado no bolso, sem faltar um centavo sequer. Para eles é fácil mandar fechar, prender e até sentar a borracha em quem não obedecer às regras do isolamento. Como foi fácil, e criminoso, durante vários e longos anos, abandonar a saúde pública a própria sorte da população. Sei não, amigo, vai ser difícil bater essa conta!

Cristiano Mendonça Ferraz Luz, paulistano arretado, amigo que boas amizades me deram de presente, desculpe essa cartinha tão cheia de azedume, mas esse momento em que vive o mundo tem nos deixado assim meio sei lá e olhe que estamos apenas no começo do sopro de vento para a formação da onda, que depois que estourar na praia, vem o repuxo.

Amigo, eu e a comunidade dessa vilazinha de pescadores, estamos fazendo nossa parte, só espero que a onda pestilenta, se chegar aqui, chegue feito marolinha.

Grande abraço!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 60

2 Fevereiro (9)

Enxu Queimado/RN, 21 de março de 2020

Capitão, antes de tudo quero desejar um Feliz Aniversário!

Presidente, o que danado deu em você para se meter no meio de tanta falação? Rapaz, desculpe lhe chamar assim de modo tão íntimo, mas como já disse na Carta 43, endereçada a você, mesmo sabendo que jamais seria lida, “lhe vejo tão sem apego aos salamaleques das palavras e do cargo, que resolvi pular os princípios da boa educação e respeito”. Pois bem, deixe de azedume, de cotoveladas, de caneladas, de bananas lançadas ao vento e se avexe em governa com serenidade esse Brasil que merece bem mais do que os arroubos de seu patriotismo.

Capitão, estamos caminhando no rumo batido para o caos e o senhor e seus pimpolhos ficam tirando onda de bacana e se achando no direito bota os pés pelas mãos! Faça isso não homem de Deus! Já que o senhor é homem de fé, peça a Jesus que lhe conceda pelo menos uma lasquinha de serenidade para escutar a voz que vem das ruas, que ultimamente está tão descrente das boas atitudes, que nem barulho está fazendo que preste. O dia 15 de março foi o máximo, as panelas das varandas tentaram falar algo mais, as redes sociais, que o senhor tanto faz uso, mostram os indicadores e mesmo assim nada do senhor entender que o país precisa de governo e nada mais. Veja bem: GOVERNO!

Estou convicto de que sua eleição nos livrou de uma boa, mas daí, fechar os olhos para o desmazelo com a boa conduta de liderança que o país precisa, fecho não, capitão! Vou lhe confessar um segredo: Tinha medo quando via seus filhos dando pitaco em tudo e dando ordem em todos e até achei que na hora “h” o então presidente colocaria ordem na “casa”, porém, meus medos se confirmaram, porque essa cartilha é rezada por qualquer homem público desse país sem nenhuma noção de ética pública. Capitão, o senhor foi eleito para governar uma nação e os seus filhos foram eleitos para cargos legislativos. Por isso, em nome da ética e da moral, que tanto o senhor alardeia, saiba separar as coisas, pois seus filhotes não podem falar, se comportar e nem se apresentar como autoridades do governo. Aliás, são muito malcomportados!

Presidente, não precisa o senhor a todo momento sair trocando farpas e sopapos com a imprensa, porque cada vez mais dará munição para ela, pois o senhor não consegue mostrar nada do bom que o seu governo já fez, faz ou fará pela nação. Seu gabinete de comunicação é fraco, seus marqueteiros são inoperantes, suas falas fogem do contexto e nem a maestria e boa ação dos seus ministros conseguem destaque. A imprensa está fazendo o papel dela, gostemos ou não!

Presidente, o senhor foi eleito com largar, expressiva e inquestionável maioria de votos e nem com toda essa bagagem consegue bater tambor diante de um dos mais inexpressivos Congresso já eleito! O que está havendo, capitão? Mude o tom, mude o rumo do seu mandato ou peça a tolha e corra para o chuveiro, mas não deixe que a nação brasileira seja humilhada e confinada dentro das trincheiras da guerrilha ideológica que só nos diminui. Os fuzileiros do lado de lá estão gostando da guerra, viu! E o que dizem seus generais?

Quanto à imprensa, diante das suas falas atabalhoadas e das aparições no cenário de horror que estamos vivenciando com esse maquiavélico vírus, até que está sendo leve, porque a caneta poderia até ser mais dura. Aliás, quanto a fala do “zero 2” sobre a China, ele pode falar o que quiser, pois é maior de idade, parlamentar – até porque ultimamente os parlamentares não se cansam de rechear os tapetes do Congresso de estrume -, porém, o que não podia era o senhor ter levado a peleja como caso de governo e autorizado o Ernesto tirar satisfação. A paulada que o senhor recebeu dos chineses foi muito bem dada e ainda merecia mais!

Capitão, não me tenha como inimigo e nem lance suas bananas contra mim, apenas peço que pare um momento, reflita, ore, respire fundo, respire novamente, olhe a sua volta, levante, fique em posição de sentido e bata continência para as bandeiras da conciliação e da esperança e deixe que elas tremulem acima da sua razão, respeitando cada voto que lhe deu a vitória, como também os que não votaram no seu nome.

Presidente Jair Messias Bolsonaro, moro numa cabaninha de praia, na paradisíaca Enxu Queimado, litoral do município de Pedra Grande/RN, um lugarejo gostoso, mas tão cheio de necessidades, como muitos espalhados por esse Brasil de meu Deus, e sinceramente não sei o que acontecerá se o Covid-19 resolver chafurdar pelas dunas daqui, mas somos um povo ordeiro e que está seguindo como pode as recomendações oficiais. Quando passar essa calamidade e o vírus do mal voltar para as profundezas de onde saiu, e o senhor quiser conhecer uma prainha bonita, venha dar um passeio por aqui que garanto a moqueca.

Mais uma vez, Feliz Aniversário!!

Nelson Mattos Filho

Projeto Uma Palavra

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Dia 26 de janeiro o Projeto Uma Palavra teve seguimento com a palestra da enfermeira Silvana Aparecida de Oliveira, minutos antes da assembleia geral da Colônia de Pescadores de Enxu Queimado, acontecida naquele dia. Silvana atendeu nosso convite e se propôs a bater um papo com a comunidade e escolheu o tema Prevenção do Câncer de Próstata, assunto que, apesar do calor de um verão escaldante, deixou o auditório atento.

O Projeto Uma Palavra foi idealizado para “usar e abusar” dos conhecimentos profissionais, artísticos e culturais dos amigos que veem a nossa casa, para voluntariamente levar boas informações aos moradores da aconchegante praia de Enxu Queimado/RN, que sempre nos acolheu tão carinhosamente.

Silvana, em nome da comunidade, agradeço a atenção e obrigado por dividir com a gente um pouco dos seus conhecimentos.

Nelson Mattos Filho

31/Janeiro/2020

Cartas de Enxu 57

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Enxu Queimado/RN, 26 de janeiro de 2020

Carlinhos, como navegam as coisas em sua velha e boa Bahia? Tenho acompanhado tudo pelos buxinhos que escapam das linhas imaginárias que cruzam as cartas náuticas e que denunciam os rastros dos navegantes abençoados pelo Senhor da Colina Sagrada. Diante de tudo que chegam aos meus ouvidos, trazidos pelo eco dos ventos, defino que tudo vai bem, se bem que algumas coisas precisam de correções. O que seria da navegação se não existissem as correções, não é mesmo? Cabral que não as fez, acabou num sabe onde e condenando um povo a caminhar sem chegar a lugar nenhum. Aliás, ainda estamos nos descobrindo e com vontade de cobrir tudo novamente, porque a correção está difícil.

Amigo, tenho andado pouco por aí, pois essa vidinha de praieiro deixa a gente assim meio paradão. Não sei se é por causa do ar da praia, do marulhar das ondas, do bailar das folhas dos coqueiros, da observação das jangadas entre idas e vindas, dos alísios que por aqui transformam tudo em poesia ou simplesmente do calor apetitoso do Sol, que é um convite para um delicioso mergulho no mar de Enxu, mas é assim, a inércia tomou conta de mim e se não fossem as viagens a Natal, que me desloco de vez em quando para dar um cheiro em Ceminha, os passeios pelo mundo seriam apenas pela telinha brilhante do aparelhinho de celular ou na telona desse computador de mil e uma utilidades. Até meus escrevinhados ficaram raros e embalados no velho papel que se embrulha o deixe para depois, mas vou seguindo assim e quem sabe um dia dona inércia resolve tomar tento e passarei, novamente, a olhar o horizonte com o olhar de curiosidade. Quem sabe!

Meu amigo, escuto dizer que nos dias de hoje não é preciso sair batendo perna para conhecer e saber das coisas do mundo, porque tudo está muito bem nítido no bombardeio de informações que estamos recebendo instantaneamente e sem ter tempo nem de piscar o olho, o que é uma verdade não verdadeira, pois no mundinho digital, a mácula da desinformação exime o ônus da prova. Porém, digo que diariamente varo o mundo sem sair do lugar e ainda fico cansado, porque a caminhada, nas veredas das ondas internéticas, tem que ser ligeira, pois se vacilar, o bonde passa e o próximo é outro papo.

Comodoro, ultimamente minhas andanças estão voltadas para descobrir os caminhos que cercam essa prainha paraíso, que não são poucos, porém, esquecidos e incrivelmente abandonados. Enxu Queimado, no alto de seus 90 anos, tem um acervo paisagístico riquíssimo e uma maravilhosa história tendo o mar como pano de fundo. O Município de Pedra Grande, base desse pequenino povoado praia, e os distritos que lhe servem de satélites, foram aquinhoados com fascinantes tesouros naturais que se estivessem fincados em outros locais, ou mesmo países mundo afora, seriam bem vistos e valorizados. Na época das chuvas temos lagoas de águas cristalinas entre as dunas, assim como as que dão fama aos Lençois maranhense. Temos grutas subterrâneas como poucas no mundo. Uma fauna, apesar das ações desastrosas do homem, de fazer inveja a muitos parques ambientais. Uma flora exuberante e que de tudo dá, desde que se plante. E um povo dotado de um exuberante calor humano. Trilhas fabulosas, ornamentada por fábulas fascinantes, por entre a mata da caatinga. Tudo isso temperado por um clima maravilhoso e sem falar que foi nessas terras que oficialmente o Brasil teve início, em 7 de agosto de 1501.

Pois é, meu amigo Carlinho, muito do que escrevo aqui já foi dito em outras Cartas de Enxu, mas tem coisas que nunca é demais contar mais de uma vez e outras tantas forem preciso, para não caírem no esquecimento, ainda mais em uma região tão cruelmente desassistida. Costumo dizer que hoje vivo no Brasil real, como era real aquele Brasil em que vivi a bordo do Avoante, em que a fala das promessas se perdem no vazio das ações. Essa semana os portais de notícias deram conta de que a China, que enfrenta uma grave e mundialmente preocupante epidemia do coronavírus, surto que tem deixado a medicina feito barata tonta, está construindo um hospital com mil leitos, que deve ficar pronto em seis dias, somente para atender os casos diagnosticados. Diante da notícia tão valiosa e de priorização com saúde humana, olho para as nossas Unidades Básicas de Saúde, muitas delas há anos ainda em fase de projeto e construção, e as que estão em funcionamento, com indecifráveis faltas de equipamentos, medicamentos e estrutura de pessoal, e indago: – Poxa, Seu Cabral, porque não corrigiu a rota de suas Naus?

Carlos Santana, ou melhor, Carlinhos do Xéu, tenho saudades da sua Bahia e da alegria carinhosa do píer do Angra dos Veleiros, um dos portos seguros do Avoante na terra dos Orixás. Ainda lembro de suas palavras certa vez em que atraquei no Angra: – A alegria voltou! Sejam bem-vindos, Nelson e Lucia! Pois é meu amigo, quero dizer a mesma coisa no dia em que você chegar sob a sombra dessa nossa cabaninha, mas não se avexe, pois garanto deixar os assuntos comentados nessa cartinha, bem longe da sua alegria contagiante.

Grande abraço e antes do ponto final, digo que a Lua iniciou a fase de crescimento e a Lua cheia por aqui é linda. Venha conferir!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 54

11 Novembro (137)

Enxu Queimado/RN, 30 de dezembro de 2019

Eh, meu irmão, já vai longe o tempo em que meu amigo Alexandre Jácome, Teltur Viagens e Turismo, falou das belezas da praia de Enxu Queimado e você endossou a parada dizendo que conhecia e por aqui havia passado algumas temporadas na companhia do seu compadre Alexandre Chaves, genro do Sr. Abrão, que possuía uma casa a beira mar e de varandas abertas para os alísios que sopravam por sobre as maravilhosas dunas móveis que se estendiam para o sul até a Praia do Marco. Quanto aos alísios, digo que ainda são os mesmos se bem que ultimamente estão soprando mais avexados e tirando onda em estações climáticas que tradicionalmente eles passam mais parcimoniosos. Coisas dos deuses da natureza! Quanto as dunas, de Enxu ao Marco, digo que receberam a intervenção criminosa dos caras pálidas, que chegaram com a cruz, as bandeiras e as armas do progresso, e hoje praticamente foram riscadas do mapa para dar vez a um gigante parque eólico. Coisas dos sapiens e de suas leis descompensadas! Porém, para não instigar falação, pulemos essa parte!

Pois é, meu irmão, Enxu continua um lugarejo descente, dotado de uma beira mar aconchegante e se olharmos com um olhar mais apurado, não mudou muito desde os verões dos anos oitenta e noventa. Sinceramente, acho até que adormeceu por longo período e acordou meio sonolento em pleno século XXI, tentando resgatar o passado, mas com o foco desnorteado nos horizontes de um futuro incerto. Dia desses sonhei acordado na lembrança dos balaios de bolacha doce e “fresco”- iguaria feita com goma e coco seco ralado – produzidos em fornos artesanais de barro nos quintais das casas e todas as tardes eram vendidos de porta em porta pelas crianças. Eram os bons tempos das casas de farinha, que existiam em quase toda localidade interiorana e que complementava a renda de famílias que se divertiam nas horas da farinhada. Meu irmão, tudo isso ficou para trás e o que restou das velhas casas de farinha foi abandono, promessas politiqueiras e saudações a mandioca, como se palavras jogadas ao vento resolvesse alguma coisa. Como bem diz um velho ditado potiguar: Conversa fiada foi o que fechou o bar cova da onça!

Idio, sou saudosista sim e até tento controlar esse instinto tão cruel para o ser humano diante desses tempos modernosos, em que a razão se perde em meio ao nada e os antigos costumes culturais, para muitos, não passa de balela contada pela história dos povos. Aliás, a defesa da cultura nesses dias em que a década se encaminha serelepe para a entrada do ano derradeiro, não passa de discursos raivosos contra o corte das verbas que abasteciam os sabidos. Acredita não? Pois então bote na vitrola qualquer LP de Gonzagão ou ouça as prosas do Jessier Quirino! Os tempos eram outros, meu irmão! Quer ver coisa esquisita? Tente assistir uma apresentação de foguedo, sem se espantar com a descaracterização que está causado a morte de raríssimas raízes culturais! Tente participar do que ainda resta das festas de padroeiro, Brasil afora, sem se espantar com o esvaziamento dos costumes e a tristeza que ecoam das ladainhas! Entre em qualquer repartição pública que “cuida” da cultura e peça informações sobre tal! É duro, meu irmão, é duro!

Já sei, você está doido para saber sobre a cultura daqui, num é? Pois vou contar assim: A cultura aqui é do mar, das redes de pesca, das jangadas, dos paquetes, dos botes, dos balaios de pescado, da vida ditada na dança das palhas do coqueiral, mas ela está agonizante e jurada de morrer na praia. Dizem por aí, que quando o homem perde o rumo de sua história, sua alma definha até renascer sem os princípios que o fizeram homem. Será verdade?

Meu irmão, juro que não queria azucrinar seu juízo com coisas que fugissem dos limites dessa prainha paraíso, pois queria mesmo era despertar em você a vontade de rever o que um dia encheu seus olhos, mas tem coisas que não caminham longe de outras e por mais que tenhamos o cuidado de desviar dos obstáculos, mais damos de cara com eles. Porém, venha aqui, meu irmão, venha jogar conversa fora sob a sombra dessa cabaninha de praia. Venha estirar a rede na varanda para tocar sua viola. Venha rir da vida e lembrar da vida vivida. Venha sentir o cheiro do mar e caminhar despreocupado por uma beira de praia encantadora. Venha receber o sorriso largo e o abraço de um povo que tenta resistir as desventuras. Venha olhar as estrelas do céu, que por aqui são mais brilhantes. Venha acompanhar o belo passeio da Lua sobre o manto negro do firmamento. Venha assar castanha numa fogueira sobre as dunas para degustar o verdadeiro sabor da terra e venha sem pressa, pois de carreira já basta o tempo.

Idio Nogueira de Mattos Neto, nesse pezinho de nada que falta para findar o ano, dias de luar em quarto crescente, o convite está feito, mas nem precisava, porque minha casa é sua casa e na casa da gente precisa de convite não. Mas digo uma coisa: Se não trouxer a viola vai ter que voltar para buscar. Venha e traga sua trupe pois aqui tem escapas para um monte de rede e o tacho da moqueca é grande.

Beijos em tu e em Neném!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 53

10 Outubro (226)

Enxu Queimado/RN, 12 de novembro de 2019

Parodiando o poeta, pergunto e respondo: – A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? – Os dois!

Pois é, Kátia, dizem por aí, e com toda propriedade, que o Rio Grande do Norte poderia se chamar “Já Teve” e seria até interessante, porque já que existe um município na região Oeste potiguar chamado Venha Ver, as peças publicitárias poderiam incrementar frases assim: “Venha ver o que tem em Já Teve”; “Já Teve, mas venha ver assim mesmo”; “Conheça Já Teve antes que não tenha mais”, e por aí caminharia a nação dos potiguares. Aliás, seria bom a gente se apressar para conhecer Venha Ver antes que ele se torne “Já Teve”, porque o município de pouco mais de 4 mil habitantes, segundo os bruxos da imprensa, está na lista de extinção, como também está o município de Pedra Grande, com 3.275 habitantes, do qual faz parte o pequenino distrito praieiro de Enxu Queimado, pedacinho de chão de onde escrevo essas missivas.

Cunhada, conheci Enxu há mais de trinta anos e de cara me apaixonei pela vidinha simples que se levava por aqui, com os pés pisando ruas de fina areia branca, coberta por leve camada de piçarro, e no final do dia mergulhando o corpo no mar para retirar a poeira avermelhada soprada pelos alísios que acariciavam as dunas e desciam correndo soltos pelas vielas. Eram bons tempos de fartura de lagosta, cestos e mais cestos de serras, garachumbas, galos do alto, guarajubas, ciobas, cavalas, bicudas, ariacós e mais uma ruma de espécies de fazer inveja a um bocado de pescador afamado. – E as galinhas? – Vixi, vou nem contar, mas em todo caso, fizemos muitas estripulias em busca das galinhas alheias. Enxu era uma festa nos idos anos 90. Aí você pergunta: – E não é mais? – É e não é, e acho até que é menos do que mais! – Entendeu? – Nem eu! Rsrsrsr…

Na década de 90 Enxu era um arruado de casas, muitas delas de taipa e com uma dúzia de casas de veranistas, quase todos oriundos do município de João Câmara, e o verão era uma festa de cores, alegria e tinha uma beira mar de fazer valer a fama que os poucos turistas que a conheciam alardeavam aos quatro ventos. A pequena localidade de pescadores recebia reflexos de um futuro promissor e com as antenas ligadas no turismo que avançava pelas praias do Rio Grande do Norte. Ora, não podia ser diferente, pois foi nas areias desse litoral que desembarcaram os enviados do Rei D. Manoel I para fincar a pedra fundamental da criação do país chamado Brasil, em 7 de agosto de 1501. A data, inclusive, está registrada como sendo, além da posse oficial do Brasil, aniversário do Rio Grande do Norte. Como bem diz a frase estampada em todos os documentos da Prefeitura de Pedra Grande: O Brasil começou aqui. E começou mesmo, mas por aqui estancou de repente, e o país seguiu, aos trancos e barrancos, em frente, deixando para trás a história esquecida em um Marco de Posse que até hoje ninguém decidiu o que fazer com ele.

Kátia, como você bem sabe, a Enxu do século XXI é uma praia bela, com um litoral paradisíaco, mas que merecia mais: Mais atenção, mais cuidado, mais carinho, mais investimentos, mais amor, mais responsabilidade com o desenvolvimento sustentável e mais respeito com sua população. O município de Pedra Grande está inserido entre aqueles que receberam fabulosos investimentos oriundos dos empreendedores da energia dos ventos e ostenta em suas terras um vultuoso parque eólico, além de uma gigantesca fábrica de torres. – E só isso basta? – Não, não basta, mas se toda essa pujança for bem aproveitada, adiantaria mais da metade da viagem rumo ao progresso sustentável e Enxu Queimado, como pórtico de entrada ao mar e a grande visibilidade que o mar proporciona, ganharia nova visão turística e quem sabe, tiraria o município da fatídica lista de abate.

Lembro de uma conversa que tive na época, com o então prefeito Chico Vitor, para mim um homem de visão, e ele falava que iria construir a Estrada da Palmeira, uma via ligando Enxu Queimado a Praia do Marco, em um traçado mais curto do que aquele que existia até então. Ele apostava que a estrada seria a redenção das duas praias, porque daria incentivo ao Governo do Estado para continuar com a estrada até São Miguel do Gostoso e no futuro ligar Gostoso, Marco, Enxu e Galinhos. Chico Vitor cumpriu a promessa, mas a Estrada da Palmeira, uma estrada piçarrada, nos padrões das RNs, hoje está praticamente abandonada, com o mato tomando parte da via e muito lixo jogando nas margens.

Pois é, Kátia, olhando o bonde que vai passando e assistindo essa bela prainha ficar empancada na estação, apesar de ter um dos mais lindos cenários litorâneos do Nordeste, não me vem em mente outra palavra a não ser já teve. Palavra essa tão bem apropriada para um Estado que já foi tudo, inclusive fonte originária de um país inesgotável.

Kátia Suely Silva dos Santos, minha cunhada querida, fico triste em ver que essa antiga vilazinha de pescadores perdeu o rumo da Estrada da Palmeira, via que foi pensada vislumbrando os ventos do futuro. Mas não é tanta tristeza assim, porque apesar de tudo, olhando da varanda dessa cabaninha, vislumbro e me sinto vivendo na comunidade que me recebeu carinhosamente há trinta anos. Só não existe mais a inocência e os perigos que rodam essa beirinha de praia são outros!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 50

7 Julho (218)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2019

Luciano, meu amigo, como andam as coisas na sua Bahia mais bela? Por aqui vamos caminhando, cantando, seguindo a canção e achando graça, porque se faltar o riso o bicho pega. E por falar em bicho: Como vai seu ninho de cobras? Pelas bandas daqui, tenho notado que a criação de ovelhas e carneiros diminuiu um pouco, pois faz dias que não avisto os bichinhos caminhando livre, leve e solto pelas ruas e avenidas dessa Enxu querida. – Avenida? Isso mesmo, meu amigo, avenida, pois assim está escrito no endereço da conta de energia elétrica. E por falar em conta de energia, por mais que os encantadores de gente se esmerem em explicar, juro que não consigo entender essa troca de bandeiras. Tem tempo que é verde, tem tempo que a danada amarela e nesse mês de setembro o troço veio num tom encarnado, mais esfomeado do que a molesta. Seu menino, eu ia até falar, mas vou parar por aqui para não “elogiar” a senhora Mãe dos outros.

Amigo, sobre essa troca de bandeiras o que me intriga é ver, da minha varandinha, a danação de torres catadoras de ventos espalhadas a torto e a direito sobre dunas e matas, gritando promessas engabeladoras, e nem sinal das tais bandeiras perderem o ímpeto. Ei, baiano, não se avexe com minhas observações amalucadas, pois são apenas visões de um praieiro que em vez de ficar catando nuvens no belo e infinito céu dessa prainha paraíso, fica dando pitaco em coisas que não entende.

Rapaz, essa semana estive na casa de Ceminha e ao folhear o jornal Tribuna do Norte, cravei a vista numa matéria que falava da nossa falta de interesse nas benesses do grande mar Atlântico, que nos banha. Pois bem, a nota dava conta de que um economista português ajuntou um punhado de interessados, ou desinteressados, sei lá, para dizer uma coisa que seus patrícios de 500 anos atrás já haviam descoberto e até hoje não demos de conta. O portuga disse em alto e bom som, que o potencial costeiro do Rio Grande do Norte é enorme e que até os dias de hoje, por mais que tenhamos trocado o comando do timão, não aproveitamos, ou melhor, desaproveitamos por completo. Ao ler a matéria lembrei de uma palestra que assisti no Sesc, em Natal, com o economista Delfim Neto, na época ministro todo poderoso, em que ele disse que o RN estava lutando uma luta inglória – e hoje está provado -, ao pleitear a implantação de uma refinaria de petróleo, porque a grande redenção desse Estado estava no turismo e no maravilhoso mar que acaricia suas praias. Eh, meu amigo, olhando da minha varandinha o mar emoldurado pelos troncos e palhas dos coqueirais não posso e nem devo deixar de aceitar as palavras do economista português, Miguel Marques, e muitos menos do grande professor Antônio Delfim Neto. Como seria bom se nossos governantes tivessem pelo menos um tiquinho de tempo e vontade para ouvir e falar verdades. Aliás, o tão proclamado Marco de Posse, chantado na praia do Marco/RN, que o diga, porque mais abandono é impossível.

Luciano, mudando o rumo dessa prosa, você acompanhou o moído sobre os “inocentes” livrinhos infantis lançados na feira literária sob as bênçãos de São Sebastião? Se acompanhou, fez bem, pois assim não será pego desprevenido quando algum neto lhe indagar sobre a vida. Se não acompanhou, fez mal, pois perdeu de dar boas risadas com as palavras ditas, escritas e com as afetações de quem canta a música sem nem saber a letra, nem o tom e só sabe entoar o coro. Me contaram que um cabocolinho que comprou, todo falante, um exemplar do tal livrinho, quando chegou em casa o filhinho quis folhear e levou um tapa nas orelhas, pois aquilo não era leitura para uma criança, ainda mais a dele. Vai vendo, viu! Mas fiquei sabendo que quem ficou brabo mesmo foi Seu Quinzinho da Burra, um antigo morador de um povoado distante daqui, pois na adolescência ele sentiu uma queda pela jumentinha mimosa que andava faceira pelas baixas, e depois de ganhar a confiança da bichinha, partiu confiante para uns afagos, amassos e daí para os finalmente foi apenas questão de minutos e um “Ih” mais carinhoso do que o normal. Depois de uns meses o amancebo foi descoberto pelos outros pretendentes da burrinha faceira e a fofoca caiu nos ouvidos do delegado que não contou conversa, mandou chamar Quinzinho e entre perguntas e cacete, fez o pobre namorado entregar o serviço contando coisas de A a Z. O namorador passou uns dias enjaulado, ganhou o agregado no apelido e até os dias de hoje nunca mais passou nem próximo das baixas, mas a saudade é grande daquela a quem tanto carinho dispensou. Pois bem, Seu Quinzinho soube que tem um livrinho ensinando os meninos a chamar uma coelhinha na chincha e que depois de uns alaridos, os senhores do conselho superior deram tudo como certo, justo e encerraram a peleja com pontos para o autor. Agora, Seu Quinzinho, no alto dos seus 90 anos, quer saber quem vai indenizar a desgraça amorosa sofrida nos seus 18 anos. Procede!

Luciano Lopes Guimarães, cabra aventureiro da gota serena, faz tempo que você e a sua mandante Arlene, não dão as caras por essa prainha bela e preguiçosa. Venha, homem de Deus, venha para a gente emendar os bigodes nos bons papos que rolam sob a sobra dessa cabaninha de praia. Venha aproveitar os assopros dos bons alísios de um setembro soprador. Venha que prometo arranjar uma jangada para você traçar rumo até o abençoado e produtivo Cabeço de André, lugar que deixa qualquer pescador abestalhado diante de tanta fartura.

Estou esperando, viu, e já vou colocar as cervejas no gelo!

Nelson Mattos Filho