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Cartas de Enxu 28

1 Janeiro (182)

Enxu Queimado/RN, 03 de julho de 2018

Sabe, Doutor Virgílio, estava aqui pensando, enquanto me espicho na rede armada na varanda, que até hoje não consegui definir o que o senhor representa para mim e meus irmãos, pois amigo é pouco para o tanto que você é. Quem sabe tio, mas há quem diga que tio é parente! – O que? – Pronto, achei a palavra certa: Tio. Tio Virgílio, porque sua amizade com meu Pai e Tio Emídio, meu segundo pai, se dava numa fronteira onde parentesco e amizade é retórica. Mas nem pense que vou me avexar a lhe chamar de tio no decorrer dessa missiva, viu! E vou tratar de entrar nos detalhes dos ocorridos nessa Enxu mais bela, pois a noite já vai longa. E tem moído que nem presta!

Antes que esqueça: Quando vem por aqui para saborear uma cioba gorda? Dr. Liu, o mar aqui é bom de peixe e dá de tudo. Lagosta tem também, mas os tempos estão cruéis para aqueles pescadores que se aventuram a mergulhar em busca das bichinhas. A pesca abriu no começo de junho, porém, até agora, o que foi pego não deu nem para o gasto. Lembro de quando pisei pela primeira vez os pés nessas areias, coisa de mais de 29 anos, que na época da lagosta era festa muita. Tinha caboco que tomava banho de cerveja e depois tirava o excesso com água mineral. Era um tal de chegar caminhão carregado de móveis e utensílios novos para casa, que era bonito de se ver. Carro zero quilômetro, então, vixi! Eram tempos de fartura e sabe o que se dava? No ano seguinte recomeçava o reboliço. Cansei de sentar na calçada da casa de Dona Tita e Seu Nilo, durante a noite, para saborear caldeirões de lagostas no bafo, acompanhado de cerveja, como diria o rei do baião, escumando. Nessa peleja virávamos a noite e ainda sobrava para o dia que vinha. – E acabou porquê? – Vai saber! É tanto disse me disse que é melhor deixar quieto.

Dr. Liu, sabe o que eu queria ver? Queria ver Nelson Mattos e Emídio Mattos batendo pernas por esse paraíso praia. Papai munido com o trombone de vara e Tio Emídio com aquela vasilha de sorvete que ele levava para a casa de Ponta Negra. Eita que a meninada ia adorar!

Liu, venha aqui, homem de Deus, que garanto um estoque novinho de piadas, causos e afins para sua enorme coleção de moídos. Venha sentar sobre uma jangada, na beira mar, para jogar conversa fora com Seu Neném Correia e a galera que não perde um bom bate papo. Durante o falatório você vai alegrar a turma com aqueles causos que só você sabe contar. Eita que vai ser bom! Mas, peraí, esqueça a história daquele “bicho” que Moquinho matou no banheiro, viu!

Dr. Liu, mudando de pau para cacete, tenho achado um bocado de graça com as coisas que me chegam pelas ondas da internet. Por aqui o sinal da internet é bom, apesar de alguns pormenores básicos, e basta piscar o olho para a tela se encher de novidades. Tem umas coisas cabeludas que bem cabiam nas atrações dos velhos trens fantasmas, mas dessa eu tiro de letra, pois danado e quem se mete a discutir os pormenores dessa politicalha barata, aliada aos destrambelhos de uma justiça sem freio. Pois bem, já que pulo essa casa, vou me arvorar da seguinte que é bem mais engraçada. Tempos atrás ouvimos ecos, vindos do planalto central, que afirmava que iriamos estocar ventos e o eco rendeu boas piadas e charges. Agora vejo que um general iraniano está acusando Israel de roubar nuvens. – Como assim? O militar ajuntou a impressa e declarou em alto e bom som, como assim fazem os generais quando querem mandar recado, que os meninos de Netanyahu estão “manipulando as condições meteorológicas” com o intuito de evitar que caia chuva no Irã. – Pode isso, Arnaldo?

Segundo o soldado do aiatolá, as mudanças climáticas no Irã são suspeitas e Israel e outro país da região, trabalham juntos para que as nuvens que entrem no território dos antigos reis aquemênidas não produzam chuvas. Diante dessa conversa mole do general, fico matutando: Quem danado está manipulando as nuvens desse Nordeste velho de guerras? E desse sertão sofrido do Rio Grande do Norte? Será que foi praga de Lampião e seus cabras da peste? Pense num povo amalucado! Deus é mais!

Dr. Liu, e por falar em água, pois num é que amanhã, 04/07, dia do israelita São Tomé, aquele que só acreditava vendo e por isso tomou uma reprimenda do Senhor, chega por essa prainha linda, o Excelentíssimo Governador do Estado, Robinson Faria, para inaugurar e dar vasão ao bem da vida nas torneiras de Enxu. Doutor, dizem que o povo está se manifestando para dar nó em pingo de água diante da presença do homem. Vamos ver, mas tomara que ele saia daqui com boa impressão, pois esse paraíso merece muito mais e o povo é ordeiro.

Doutor Virgílio Alexandrino Neto, Liu, meu tio por querença, pegue Dona Nair pelo braço e venha tomar uns banhos de praia no mar daqui, pois é bom demais da conta. Venha deitar o esqueleto numa rede armada embaixo da varanda dessa cabaninha de praia e ver o mundo de um jeito encantador.

Grande abraço,

Nelson Mattos Filho

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As pescadoras de Enxu Queimado

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– Hoje teve pescaria? – Teve sim, senhor, e da melhor qualidade! As pescadoras da praia de Enxu Queimado, acordaram cedo e foram lançar rede ao mar. Foi uma manhã de alegria que encheu de beleza e formosura as areias de uma das mais belas praias do Rio Grande do Norte. Foram três lances de arrastão e uma bela produção, com direito até a camarão bem nutrido! Viva e parabéns as pescadoras de Enxu!

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Cartas de Enxu 21

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Enxu Queimado/RN, 23 de Fevereiro de 2018

Sabe Nanã, no mar aprendi que os ventos contrários não nos impedem de seguir em frente. Na verdade, eles nos fazem mais confiantes para navegar em mares cada vez mais tempestuosos, desde que estejamos focados e determinados a alcançar um objetivo, porém, para isso não interessa o tempo que se passe, porque a felicidade não está em chegar no menor espaço de tempo, a felicidade, a plenitude, a vitória, está no chegar. Quantas vezes me desesperei, quantas vezes xinguei o vento, as ondas, as correntes marinhas, a chuva, a vida maluca que havia escolhido, e no final da navegada, ao olhar para trás, sentia vergonha das palavras jogadas sobre o mar, pois sabia que todo aquele aperto havia sido criado dentro de minha cabecinha de vento, que não queria enxergar o óbvio: Os elementos estavam se esforçando para dar uma aula e eu não queria ver. Nanã, o mar, a vida, a alma, a natureza, necessitam apenas da nossa paz de espírito para que nos mostrem os caminhos dos coloridos vales onde se fabricam e se realizam os mais belos sonhos e projetos de vida.

Aí você irá perguntar: – E você tem toda essa paz de espírito? – Tenho não minha irmã, pois se tivesse não teria tantas vezes me desesperado com coisas tão simples, tão lógicas e tão mágicas, mas tento e procuro me manter tranquilo e impassível, não como Bruce Lee, mas como Lucia, que nunca a vi se abater e nem olhar para os problemas pelo lado ruim. Para ela, o lado bom está sempre diante de sua vista e nada, nem ninguém, consegue mudar essa visão. Para que querer o ruim se podemos nos agarrar com o bom, não é mesmo?

Minha irmã, essa carta não é para falar das coisas que nos desassossegam, e sim para contar um pouquinho dessa vidinha mais ou menos que escolhi para passar um bom período de minha trajetória. Dessa varandinha de frente para o coqueiral, montei um maravilhoso posto de observação, de onde avisto a pequenina vila de pescadores tomar rumos para lá e para cá, em um vai e vem freneticamente preguiçoso. A cidade caminha lento e a vida passa ligeiro. Ainda não aprendi a medir o tempo por aqui, mas já sei precisar quando se aproxima o final da tarde, porque é o momento que passam tropas de carneiros e ovelhas de volta ao curral. Dizem que uma ovelha negra põe um rebanho a perder, e põe mesmo, pois de vez em quando vejo algum proprietário, na calada da noite, em busca do seu rebanho. Adoro apreciar esse movimento, mas quando a bichinhas entram em meu quintal para comer as plantas, gosto não. Pois é, Nanã, aqui se cria bicho solto nas baixas e na rua, e quem quiser que se acostume, porque reclamar não adianta. Também, reclamar para que, não é mesmo? Cada povo com sua cultura e mania.

Já que falei do horário das ovelhas, vou falar dos galos, que tem o relógio mais certeiro. A regra diz que os cocorocós dos penosos anunciam o nascer do Sol, mas os daqui são adiantados e às 23:30hs, em ponto, soltam a garganta. Eu acho arretado essa passagem, pois sei que é chegado a hora de estirar o esqueleto na cama, se bem que, nem sempre os olhos querem dormir e vou ficando, ficando, até que a madrugada se anuncia alta e vou me aninhar.

Nanã, você gosta de seriguela? Se gostar, tenho uma mini floresta no terreiro e as bichas são doces que só vendo. Quem gosta mesmo são os galos de campina, que chegam com a barra do nascente, fazendo a maior algazarra para acordar quem ainda dorme. A sabedoria dos campinas é de fazer valer ensinamento a raça dos “homens sábios”. Da ruma de seriguela do pé, cada galo de campina só degusta um por dia e deixa quieto o restante para quem vier depois. Nós é que somos gulosos e colhemos até os que não queremos mais, pois quem vier depois que se lixe. Como diz o ditado do mal-educado: Se eu não pegar, o outro vem e pega.

E por falar em deseducação: Nanã, você tem ouvido as letras das músicas dos carnavais de hoje? Aliás, músicas de carnaval não, pois elas tocam o ano inteiro e se brincar tocam até em velório, e não tem que me convença que aquilo é música. A mulherada grita por aí que está sendo maltratada, abusada, assediada e mais uma interminável lista de “adas”, mas basta botar para tocar um paredão, mandando ralar a checa, mostrar o bunda, sentar na maromba ou levar porrada na cara, que as “novinhas” se acabam de dançar e ainda pedem mais. – Reclamar de que e a quem? – De nada e não tem a quem, vamos indo assim mesmo, até o bagaço se desintegrar.

Nanã, Margareth Lopes Mattos, minha irmã e minha madrinha de apresentação, esses são pequenos fragmentos de minhas observações enquanto balanço na rede armada na varanda. Lá no alto brilha uma estrela e pelo reflexo do seu brilho, vejo novos sonhos e felizes horizontes iluminando sua vida.

Um beijo, Margareth, e estou lhe esperando aqui para comer uma moqueca!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 20

9 Setembro (9)

Enxu Queimado/RN, 16 de outubro de 2017

Sergipano, hoje dei por fé que há muito parei de escrever as cartas contando das coisas daqui e fazendo moído das coisas desse mundão de Nosso Senhor. Mas não foi por querer, pois querer eu queria, mas digo que esse negócio de WhatsApp e Facebook ainda vai destruir esse planetinha mal amado. Rapaz, a gente fica tão vidrado nos fuxicos da telinha que esquece da vida. E por falar em Nosso Senhor, você viu que o Rio Grande do Norte superlotou os altares e andores com 30 novos santos mártires de Cunhaú e Uruaçu? É santo seu menino, é santo! É tanto que o governador papa jerimum, com o sorriso de orelha a orelha, temperou o gogó e sob as bênçãos do Papa Francisco afirmou que o RN agora era exportador de santos. Meu amigo, o homem estava tão eufórico que vi a hora ele anunciar que era obra do seu programa de governo. Mas se não foi, um dia vai ser, porque político não deixa uma oportunidade assim passar em branco.

Os mártires de Cunhaú foram assassinados, em 16 de junho de 1645 por soldados holandeses e índios tapuias, enquanto assistiam a missa dominical na Capela do Engenho Cunhaú. Os mártires de Uruaçu foram perseguidos e presos pelo mesmo grupo e mortos em 3 de outubro do mesmo ano, nas margens do rio Uruaçu. Cronistas da época contam que o massacre se deu por motivo religioso, porque os invasores holandeses eram de religião Calvinista e traziam em sua tropa um pastor protestante para converter os invadidos. Porém, há quem diga que tudo se deu por briga pela posse da terra, pois holandeses e portugueses, naqueles tempos, sempre trocaram farpas e sopapos pelo bem bom dessa terrinha chamada Brasil.

Sergipano, saindo dos redutos da fé, as coisas por aqui vão indo do jeito que dá. Este ano a pesca da lagosta está sendo mais fraca do que caldo de batata e o peixe também tem nadado meio desconfiado com as redes. Deve ser a tal da crise que estendeu seus tentáculos pelo mar. Será? Os ventos também não estão ajudando e tem soprado com intensidades bem acima da média de anos anteriores. Quem acha bom é a turma dos geradores eólicos, que aqui tem que nem peste. Olhando de longe é um paliteiro só! O mar, com essa ventania desenfreada, se arrepia todo e assim fica difícil para o pescador correr atrás do sustento. Não é que não tenha peixe e nem lagosta, tem, mas tem pouco. Tudo isso, alinhado com a seca que se apresenta a cada dia com uma cara mais feia do que a outra, tem trazido um ar de incerteza com o futuro próximo.

E por falar em eólico, juro que não me conformo com as coisas desse país sem controle, onde uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os fiscais do meio ambiente rangem os dentes e partem para pegar no mocotó do desafortunado que se arvorar em pegar um bichinho qualquer do mato para servir de mistura no almoço dos bruguelos, mas se abrem em sorrisos permissivos quando da liberação para destruição das matas da caatinga, onde moram os tatus, os camaleões, os veados, as avoantes, em prol de construir parques eólicos. – E as dunas? – Se o caboclo se abestalhar e for tirar uma pá de areia do beiço de uma duna e for pego pelos homens, é papo para uns tantos dias de cadeia e uma multinha a ser paga até a quarta geração da família. Porém, as torres geradoras de energia eólica estão lá como se nada fosse com elas. E não é mesmo!

Sabe meu amigo, deitado em minha rede na varanda e vendo a danação de cata vento espalhado, fico pensando se essa seria mesmo a forma mais limpa para gerar energia. Olhando para as vastas extensões de terras ocupadas pelos parques, não acredito que essa conta seja tão limpa assim. Como diz o ditado: Só o tempo dirá!

Ei, sergipano, diga aí como vão as coisas na sua Terra Caída? Como vai o velho e bom Toma Burro? Rapaz, estou com saudades de comer aquelas sapecas deliciosas, acompanhado de uma branquinha. E as canoas? Estou saudoso de sentar na beira do píer e jogar conversa fora olhando as estrelas e escutando o marulhar das águas do rio. Do pôr do sol esplendoroso. Do incrível tapete de caranguejos chama-marés e dos massunins da ilha da Sogra. Estou saudoso sim, meu amigo, mas qualquer dia darei sossego aos punhas da minha rede e botarei o pé na estrada no rumo da Bahia, onde tenho aquele maravilhoso casal de filhos mais lindos do mundo.

Pois é meu bom amigo Gileno Borges, navegador dos sete mares e o sergipano mais baiano que conheço, a vida nessa minha cabaninha de praia está assim, com um olho no coqueiral e outro nas coisas do mundo. Largue sua preguiça de lado e venha aqui, homem de Deus. Você vai gostar e Cassinha gostará mais ainda.

Um cheiro nos dois e que os santos mártires nos abençoe.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 15

4 Abril (145)

Enxu Queimado/RN, 14 de maio de 2017

Sabe Ceminha, se Deus me concedeu uma graça, essa foi ser seu filho e de todas as alegrias que já tive na vida, a mais maravilhosa é poder continuar te abraçando, acariciando seus cabelos e beijando seu rosto. Sei que não sou aquele filho tão presente, como a senhora queria, porque minha sede de aventura sempre me leva a apostar em rumos que transbordam em dolorosos lamentos em seu coração, mas sei que mesmo assim sigo abençoado, porque sinto a força de sua presença em cada passo que dou.

Ceminha, sei que poderia passar horas e horas escrevendo palavras de ternura e carinho e mesmo assim não falaria tudo o que sinto pela Senhora, justamente porque são palavras vindas de um poço de amor sem fim, mas não vou, pois preciso lhe contar coisas dessa vidinha que escolhi, sob as sombras dos coqueirais de uma Enxu mais bela.

Sabe Mãe, não é difícil e nem complicado optar pelas coisas simples da vida e isso eu aprendi quando aproei pela primeira vez meu Avoante para as águas da Baía de Camamu. Aquela entrada de barra meio enigmática, meio mágica, meio assustadora e bastante interrogativa, foi como a abertura das cortinas de um teatro encantado em que luzes, cores e cenário nos leva a um fascinante delírio de emoções. Aquele momento me transformou e nunca mais consegui ver o mundo através de outras lentes, outras cores, outros cenários e outras certezas, pois aquilo era a vida em seu mais lindo e fiel esplendor. Mas Camamu ficou para trás e um dia voltarei a navegar sobre os segredos de suas águas e com o sonho sonhado de por lá permanecer para sempre. Mas não se avexe minha Ceminha, pois isso são planos de um sonho de vida.

Hoje estou aqui, sobre as sombras da varandinha de uma cabaninha de praia, olhando o mundo pelas lentes com que vi pela primeira vez a linda baía mágica da costa do dendê e sabendo que, apesar dos pesares e das vontades dos homens, a simplicidade, a humildade, o bem querer e o amor, fazem parte de uma só força. – Sabe onde aprendi isso, minha Mãe? – Com a Senhora, com os seus atos, com seus princípios, com a sua ética, com a sua força de Mãe, com a sua determinação, com a sua amizade explicita pelos amigos, com a sua fé em Jesus Cristo e na Virgem Santíssima, com as honras com que recebes os que a procuram, com o carinho de seu olhar para com todos que a cercam, com seus ensinamentos, com a paixão com que abraça suas causas e com todos os doces e saudáveis frutos que a Senhora espalha ao seu redor.

Está vendo Cema, como é fácil deixar que palavras e emoções fluam quando queremos falar de Mãe? Basta deixar os dedos sobre o teclado que eles sabem direitinho juntar as letrinhas, sem esforço algum. O que eu queria mesmo contar era sobre a homenagem que recebi da vereadora Lucia de Pedrinho, assinada em baixo por todos os vereadores que compõem a Câmara de Vereadores de Pedra Grande, na gestão 2017 – 2020, me indicando para receber o Título de Cidadão Pedragrandense. Foi emoção sim, foi uma festa inesquecível, desejo participar de outras com o mesmo fim e queria muito que a Senhora e Tia Cecília estivessem ao meu lado naquela noite. Mas tudo bem, nem tudo que a gente quer a gente pode, recebi o Título, fiz meu agradecimento e voltei para minha cadeira para presenciar a glória e o reconhecimento de uma dama do amor ao próximo.

Cema, foi com lágrimas nos olhos que vi Dona Nerize, com seu andar vacilante, caminhar para receber seu título de cidadã. Ela é um anjo que foi indicada para servir e morar em Enxu Queimado e durante décadas faz a vida florescer sobre a comunidade. Mulher simples, de fala mansa, de mãos abençoadas e que estava, e está, sempre pronta para trazer ao mundo os bebes que ali nascem, unicamente com o propósito de fazer valer sua missão na terra. Basta vê-la caminhando pelas ruas e recebendo os pedidos de bênçãos de adultos e crianças e ela com a voz mais carinhosa abençoado a todos. Seu agradecimento na tribuna da Câmara deixou no ar a leveza e a grandeza de um coração de luz e paz. Foi difícil segurar as lágrimas, e não consegui.

Ceminha, como é gostoso viver em um mundo onde a realidade está ali nua e crua em nossa frente. Como é gostoso abrir os olhos e ver que o a vida continua linda, a paz continua a reinar, os pássaros voam soltos e as pessoas caminham despreocupadas nas ruas e a velha e linda parteira é a personalidade mais importante do lugar. Mas não era assim que deveria ser sempre?

Iracema Lopes Mattos, minha Mãe, minha Rainha, hoje, Dia das Mães, peço sua benção e lhe desejo muito amor, mas peço que me deixe também render homenagens a essa senhora que é Mãe de quase uma cidade inteira, Dona Nerize.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 12

2 Fevereiro (165)

Enxu Queimado, 25 de março de 2017

Sabe meu caro Woden, não o conheço pessoalmente, mas admiro seu trabalho, sua resistência jornalística e leio assiduamente a Coluna do WM nas páginas do jornal papa jerimum Tribuna do Norte, sei que isso não me credencia a sua amizade, porém, me sinto seu amigo pela via do seu filho, Woden Junior, parceiro “derna” dos bons tempos de uma Natal apaixonante e que deixou saudades em quem a viveu. Como dizia o personagem Lilico, o “Homem do Bumbo”, do programa A praça é Nossa: “Tempo bom, não volta mais, saudade… de outros tempos iguais! ”. Depois dessa breve e simplória apresentação, sigo em frente no rastro da chuva que acompanho de minha cabaninha de praia.

O texto de sua coluna do dia 24 de março, depois de discorrer sobre os meandros e segredos do tempo, coisa que os meteorologistas andam mais perdidos do que cego em tiroteio, você fechou o firo com a frase “O Nordeste é mesmo uma Academia”. Pois digo que é mesmo e os estudiosos do clima precisam tirar um tiquinho a atenção dos satélites e computadores para dar um passeio pelas Academias das feiras livres e bancos de praça do interior, pois é ali que se passam as verdades verdadeiras e as esperanças tomam ciência do sim ou do não. E tem mais, esse negócio de “normal” e “abaixo da média” e palavreado de arrodeio.

Seu Woden, não sou do campo, gosto mesmo é das diabruras do mar, pois é nos verdes campos de Netuno e Iemanjá que a vida conta léguas para tirar a prova dos nove daqueles que dizem saber das coisas das navegações. Já vi muito valente acabrunhado diante de uns torinhos de mar, mas também já vi muitos grumetes de alma lavada, pois na lei dos oceanos o que vale mais é o reconhecimento do medo e a vontade do constante aprendizado. Porém, digo que no terreiro dessa cabaninha de praia, que vim ficar debaixo depois que desembarquei do Avoante, me arvorei a espalhar umas sementinhas pelo chão e não me canso de procurar nuvens de chuva nos quadrantes do céu. O feijão já tá bota, não bota. O milho, que plantei um dia desse, já apontou, o inhame está bonito que só vendo e as fruteiras estão faceiras e botando safra. Para quem até uns dias passados estava balançando num veleirinho no meio do mar, até que estou indo bem.

Fico vendo suas notícias de volume de chuva pelo Rio Grande do Norte afora e fico imaginando onde danado você consegue esses números tão milimétricos. Por aqui, nessa Enxu Queimado de uma pequena Pedra Grande, essas informações estão mais raras do que onça brava. E por falar em onça, de vez em quando algumas davam as caras por aqui, mas depois que os parques de energia dos ventos tomaram conta da caatinga, passando o trator em tudo que é pé de jurema, os bichanos se escafederam. Jornalista, se fosse só na mata nativa do sertão estava até bom, mas o trator passou raspando tudo que é duna e daqui uns dias vamos saber apenas que existiu umas tais areias andantes que engoliam cidades.

Mas voltando a frase que fechou sua coluna do dia 24 de março, comentei com Lucia, a dona do meu ser, e como ela pergunta tudo ao pé da letra, tratou logo de interrogar: – Academia de que? Respondi que era Academia de ensino e que seu artigo falava dos erros e acertos dos homens que estudam o tempo. Ela deu um gole no café e disparou: – Eles erram porque não se apegam nos ventos, se prestassem atenção no que dizem os ventos não errariam tanto. Eu ainda quis argumentar falando nos “meninos” dos Andes, mas fiquei quieto. Em nosso tempo de vida a bordo eu nunca acertei uma quando o assunto era se iria chover ou não. Quando eu dizia que vinha chuva, Lucia botava a cabeça fora da gaiuta, olhava para o poente e sentenciava: – Vem não! Aí eu dizia: – Mas amor, o vento está vindo de lá e vem trazendo muitas nuvens escuras. – Mas não vai e pode tratar de terminar o serviço que começou ontem, viu! Pronto, acabava o assunto e a chuva.

Meu caro jornalista Woden Madruga, não sei onde fica Queimada de Baixo, recantinho de terra que você tem tanto carinho e que acolhe uns rebanhos de bodes manhosos, mas um dia vou dar um passeio por lá. Agora, se quiser comer umas postas de bicuda gorda e uns galos do alto mimosos, apareça em Enxu Queimado que garanto que Dona Lucia prepara um pirão de fazer pareia com o da Comadre. Minha casa é fácil de achar, basta chegar e perguntar, porém, se ninguém souber é porque você não está em Enxu.

Eita que já ia esquecendo de assuntar que o tempo hoje, 25 de março, sábado de quaresma, foi de Sol forte e poucas nuvens, porém, o chão está bem chovido. Anote no seu caderninho da chuva, viu!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 05

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Enxu Queimado, 19 de novembro de 2016

Caro amigo violeiro e velejador Mucuripe, você já viu como esse mundo velho tem andado meio escalafobético? Rapaz, a coisa está cada dia mais enuviada e se o caboco ao acordar não se benzer três vezes e não se apegar com a proteção do Jesus Menino, tá arriscado a dá de cara com umas coisas ruins logo nos primeiros passos de uma manhã. Hoje mesmo, ao atalhar uns sites que gosto de ver, li uma frase, do jornalista potiguar François Silvestre, que me deixou assim pensando no descaminho em que estamos atolados até o gogó: “Matar gente, no Brasil, há muito deixou de ser crime. Pelo menos deixou de ser crime punível...”. Mas sabe de uma coisa? Vou deixar esse fiofó de burro para outra hora, pois nesse Brasil abrasileirado num tem homem com aquilo roxo para botar moral na zona. Rapaz, tu já viu que esse tal de Supremo ultimamente tem dado pitaco até em jogo de porrinha? Pois é! E o pior é que decidem o decido e quando a decisão chega onde era para decidir, as partes escutam por um ouvido e a sentença sai pelo outro e a vida segue como se nada tivesse acontecido.

Ei, e o Trump? Tu já viu um cara mais amarmotado do que aquele americano cabra da peste? O galego deve ter feito algum curso de careta, pois para cada retrato o cabrunco tem um trejeito diferente estampado na cara. E a patroa dele? A gringa parece uma cópia pirata da boneca Barbie com a cara mais esticada do que pandeiro de malandro. E como a turma do fuxico não deixa nada passar em branco, já descobriram e postaram nos zapzaps a foto da gringa peladinha da silva. Eu nem vi, mas nesse concurso de beleza das primeiras damas sou mais a Marcela! E tu? E por falar em Trump, por aqui, embaixo do pé de árvore de Pedrinho, o povo ainda ensaiou uma rodada de apostas, mas na hora de juntar a galinhada para casar as apostas, a coisa deu para trás e foram cuidar de assuntar sobre o mar e os ventos que estão meio endiabrados por essas bandas. Agora vou dizer: Pense numa mulher ruim de voto essa esposa de Bill. Acho se ele tivesse botado a Monica no páreo garanto que hoje estaria festejando a vitória atrás das cortinas. Sabe o que me veio na cabeça? – Será que pelas ruas dos “estaites” tocaram aquela musiquinha que fala que “o povo quer o liso”? Se a candidata de Obama não mandou tocar, perdeu uma boa oportunidade de tutucar os brios do ricaço. Ia ser uma graça universal!

Cearense, tu visse a tal da super Lua? Rapaz, a bicha estava bonita que só a peste, mas, sinceramente, não achei que fosse a maior que minhas bolas dos olhos já viram, porém, São Jorge mandou instalar uns leds especiais que iluminou até os cafundós do judas. Pense num holofote! E para comemorar a Lua, pegamos umas castanhas, botamos umas cervejas no isopor, fomos para a beira da praia, acendemos o fogo e pegue assar castanha, tomar cerveja e conversar arezia até umas horas da noite. Só faltou você para tocar umas toadas na viola.

Meu amigo, o ranchinho está ficando bonito, viu. O serviço já vai se encaminhando para o fim e do mais, falta os ajustes do mal feito, a mão de cal nas paredes e melar as portas com uma tinta da cor do mar. Sim, já ia esquecendo de falar nas plantas. Pois é, as acerolas andaram um tempo entristecidas, mas começaram a tomar ciência novamente e já dá para fazer um suco. As pitangas foi quem perderam o prumo e, segundo os entendidos no assunto, já é tempo da entressafra. Pelo menos ficaram os retratos para comparar com a próxima botada. Os coqueiros continuam bonitos, as seriguelas estão botadeiras que só vendo e agora plantei um pezinho de cajueiro precoce que ainda está na fase do cá te espero. As cabras dos vizinhos é que não me deixam sossegado, vez sim, vez não, tenho que correr para botar as danadas para fora do terreiro. Pense numa fuleragem da molesta e os donos tão nem aí para a cor da chita. Tem uma que está até pegando peso e até já sonhei com uma churrasqueira assando um pernil de cabrito. A gente tem cada sonho pecaminoso, né não? Mas que sonhei, sonhei.

Semana passada foi a festa da santa padroeira, Nossa Senhora dos Navegantes, e eu caminhei todo anjo no acompanhamento da procissão, rezei na missa e ainda tirei um retrato ao lado do Padre, pru mode mostrar pra Ceminha. Ela viu, gostou, sorriu e ainda disse um muito bem. Coração de Mãe é bom demais, e quando vem com um afago na cabeça, coisa melhor não há. E Lucia botou o nome na lista para ser afilhada da Santa, e a Santa aceitou de bom grado. Já hoje é o dia da festa profana, animada por umas bandas de forró aputanhado e umas danças meio esquisitas para cabra macho dançar. Eu é que não vou lá, mas pelo tamanho das caixas de som armada no palanque, hoje ninguém dorme. Mas já que vai ser assim, que assim seja.

Pois é meu amigo Elson Fernandes Mucuripe, a vida por aqui vai indo assim e vamos seguindo em frente como Deus quer. Até mais ver e apareça!

Nelson Mattos Filho