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Cartas de Enxu 53

10 Outubro (226)

Enxu Queimado/RN, 12 de novembro de 2019

Parodiando o poeta, pergunto e respondo: – A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? – Os dois!

Pois é, Kátia, dizem por aí, e com toda propriedade, que o Rio Grande do Norte poderia se chamar “Já Teve” e seria até interessante, porque já que existe um município na região Oeste potiguar chamado Venha Ver, as peças publicitárias poderiam incrementar frases assim: “Venha ver o que tem em Já Teve”; “Já Teve, mas venha ver assim mesmo”; “Conheça Já Teve antes que não tenha mais”, e por aí caminharia a nação dos potiguares. Aliás, seria bom a gente se apressar para conhecer Venha Ver antes que ele se torne “Já Teve”, porque o município de pouco mais de 4 mil habitantes, segundo os bruxos da imprensa, está na lista de extinção, como também está o município de Pedra Grande, com 3.275 habitantes, do qual faz parte o pequenino distrito praieiro de Enxu Queimado, pedacinho de chão de onde escrevo essas missivas.

Cunhada, conheci Enxu há mais de trinta anos e de cara me apaixonei pela vidinha simples que se levava por aqui, com os pés pisando ruas de fina areia branca, coberta por leve camada de piçarro, e no final do dia mergulhando o corpo no mar para retirar a poeira avermelhada soprada pelos alísios que acariciavam as dunas e desciam correndo soltos pelas vielas. Eram bons tempos de fartura de lagosta, cestos e mais cestos de serras, garachumbas, galos do alto, guarajubas, ciobas, cavalas, bicudas, ariacós e mais uma ruma de espécies de fazer inveja a um bocado de pescador afamado. – E as galinhas? – Vixi, vou nem contar, mas em todo caso, fizemos muitas estripulias em busca das galinhas alheias. Enxu era uma festa nos idos anos 90. Aí você pergunta: – E não é mais? – É e não é, e acho até que é menos do que mais! – Entendeu? – Nem eu! Rsrsrsr…

Na década de 90 Enxu era um arruado de casas, muitas delas de taipa e com uma dúzia de casas de veranistas, quase todos oriundos do município de João Câmara, e o verão era uma festa de cores, alegria e tinha uma beira mar de fazer valer a fama que os poucos turistas que a conheciam alardeavam aos quatro ventos. A pequena localidade de pescadores recebia reflexos de um futuro promissor e com as antenas ligadas no turismo que avançava pelas praias do Rio Grande do Norte. Ora, não podia ser diferente, pois foi nas areias desse litoral que desembarcaram os enviados do Rei D. Manoel I para fincar a pedra fundamental da criação do país chamado Brasil, em 7 de agosto de 1501. A data, inclusive, está registrada como sendo, além da posse oficial do Brasil, aniversário do Rio Grande do Norte. Como bem diz a frase estampada em todos os documentos da Prefeitura de Pedra Grande: O Brasil começou aqui. E começou mesmo, mas por aqui estancou de repente, e o país seguiu, aos trancos e barrancos, em frente, deixando para trás a história esquecida em um Marco de Posse que até hoje ninguém decidiu o que fazer com ele.

Kátia, como você bem sabe, a Enxu do século XXI é uma praia bela, com um litoral paradisíaco, mas que merecia mais: Mais atenção, mais cuidado, mais carinho, mais investimentos, mais amor, mais responsabilidade com o desenvolvimento sustentável e mais respeito com sua população. O município de Pedra Grande está inserido entre aqueles que receberam fabulosos investimentos oriundos dos empreendedores da energia dos ventos e ostenta em suas terras um vultuoso parque eólico, além de uma gigantesca fábrica de torres. – E só isso basta? – Não, não basta, mas se toda essa pujança for bem aproveitada, adiantaria mais da metade da viagem rumo ao progresso sustentável e Enxu Queimado, como pórtico de entrada ao mar e a grande visibilidade que o mar proporciona, ganharia nova visão turística e quem sabe, tiraria o município da fatídica lista de abate.

Lembro de uma conversa que tive na época, com o então prefeito Chico Vitor, para mim um homem de visão, e ele falava que iria construir a Estrada da Palmeira, uma via ligando Enxu Queimado a Praia do Marco, em um traçado mais curto do que aquele que existia até então. Ele apostava que a estrada seria a redenção das duas praias, porque daria incentivo ao Governo do Estado para continuar com a estrada até São Miguel do Gostoso e no futuro ligar Gostoso, Marco, Enxu e Galinhos. Chico Vitor cumpriu a promessa, mas a Estrada da Palmeira, uma estrada piçarrada, nos padrões das RNs, hoje está praticamente abandonada, com o mato tomando parte da via e muito lixo jogando nas margens.

Pois é, Kátia, olhando o bonde que vai passando e assistindo essa bela prainha ficar empancada na estação, apesar de ter um dos mais lindos cenários litorâneos do Nordeste, não me vem em mente outra palavra a não ser já teve. Palavra essa tão bem apropriada para um Estado que já foi tudo, inclusive fonte originária de um país inesgotável.

Kátia Suely Silva dos Santos, minha cunhada querida, fico triste em ver que essa antiga vilazinha de pescadores perdeu o rumo da Estrada da Palmeira, via que foi pensada vislumbrando os ventos do futuro. Mas não é tanta tristeza assim, porque apesar de tudo, olhando da varanda dessa cabaninha, vislumbro e me sinto vivendo na comunidade que me recebeu carinhosamente há trinta anos. Só não existe mais a inocência e os perigos que rodam essa beirinha de praia são outros!

Nelson Mattos Filho

Projeto Uma Palavra

10 Outubro (205)

Há algum tempo que idealizo “usar e abusar” dos conhecimentos profissionais dos amigos que nos visitam em nossa cabaninha de praia, para levar boas informações aos moradores da aconchegante comunidade de Enxu Queimado/RN, que sempre nos acolheu tão carinhosamente. Além de ser uma forma de agradecimento, o Projeto Uma Palavra, seria uma maneira de proporcionar a pequena comunidade informações de campos das ciências do conhecimento que muitas vezes passam, quando passam, ao longe.

10 Outubro (211)

Foi assim que quando recebi mensagem do amigo Afonso Melo, querendo vir passar uns dias com a gente, respondi que poderia vir, mas teria uma condição: Ministrar uma palestra na Colônia de Pescadores. Falei da proposta e disse que ele enfunaria as velas para que a ideia navegasse em busca de novos horizontes. Ele aceitou de pronto!

Afonso é funcionário da Petrobrás, mergulhador e instrutor de mergulho profissional e recreativo, tarefa que exerce com enorme paixão. A escolha de seu nome para abrir o projeto não foi por acaso, porque desde o começo ele estava em minha alça de mira, apenas faltava a oportunidade e as visitas prometidas não eram concretizadas, mas como bem diz o ditado: Tudo tem seu tempo. E acredito que sim, pois Afonso está de mudança para Vitória/ES, e sua visita, aproveitando uma semana de folga do trabalho, seria talvez o último abraço, da grande amizade que sempre nos uniu, antes de sua partida para as terras capixabas.

Não digo que a palestra foi casa cheia, porque foi tudo decidido de última hora e o amigo Xará, presidente da Colônia de Pescadores de Enxu Queimado, só teve um dia para convocar a turma e perguntou se o evento poderia começar às 19 horas, do dia, 23/10, porque mais tarde teria o jogo entre Flamengo e Grêmio, e ninguém queria perder. Aliás, o time carioca, que deu uma lavagem nos gaúchos, por aqui falta pouquíssimo para se tornar unanimidade. Foi um bate papo gostoso, descontraído e balizado pelas boas regras e normas de segurança que o mergulhador jamais deve deixar de observar. Foi tão bom que no dia seguinte recebemos diversos pedidos, daqueles que não puderam comparecer, para que a palestra fosse repetida, mas infelizmente não foi.

10 Outubro (202)

Pronto, o projeto já navega em mares tranquilos e vamos aguardar que outros amigos venham nos visitar, mas já sabendo eles que terão uma prenda a pagar. Como bem disse Afonso, a semente foi plantada, agora vamos regar para colher os frutos.

Caro e bom amigo, em nome da comunidade, especialmente da Colônia de Pescadores, dessa prainha maravilha, agradeço o carinho de sua atenção com essa causa social e muito obrigado por dividir com a gente um pouco dos seus valiosos conhecimentos.

Nelson Mattos Filho

25/Outubro/2019

Cartas de Enxu 51

8 Agosto (6)

Enxu Queimado/RN, 21 de setembro de 2019

Waltão, como vão as coisas com você e com os seus, meu amigo? Por aqui tudo indo e vindo, porém, mais indo do que vindo e não me pergunte os motivos, porque por mais que observe e tente decifrar os teoremas, mais perdido fico. Como disse um amigo: “Nelson, as coisas são o que são e quando não são, não são, entende?” Rapaz, preferi responder que entendia, pois vai que ele resolvesse explicar!

Amigo, nunca esqueci aquele dia, do ano 2000, quando saímos da Praia do Marco, onde eu tinha uma cabaninha de praia e juntamos aquela turma boa de velejadores, e viemos a Enxu Queimado, eu, Lucia, você e Baleia, tomar um café da manhã, no bar de Dona Tita, regado a cerveja, aliás, mais cerveja e menos café. Naquele tempo a fartura de lagosta por essas bandas ainda era coisa de fazer valer uma boa matéria jornalística e você sabendo disso incentivou a vinda – como desculpa para a cerveja – para bater uns retratos e registrar no bloquinho de anotações algumas informações. Pois saiba que aqueles meninos que carregavam dois carros de mão carregados, até a borda, de lagosta, e que tremeram nas bases e afrouxaram o intestino quando você pediu que eles parassem um pouco, porque você queria bater uma foto, aqueles meninos hoje são adultos, pais de família e ainda lembram do cheiro do “material pastoso” que escorreu por entre as pernas deles. Eles pensaram que você era fiscal do IBAMA. Vez em quando, em conversas de varandas, damos boas risadas lembrando daquele episódio. Mas Waltão, para mim o mais engraçado foi sua tentativa de aprender a subir em um pé de coqueiro. Sei não, viu! Pense num caboco desajeitado e ainda bem que você desistiu antes de receber a segunda lição, pois eu já estava imaginando a cena quando fosse para você descer.

Jornalista, sob a sombra dessa cabaninha de praia fico ouvindo os moídos do mundo, apesar da cacofonia que ecoa das trincheiras da grande rede e que as mídias tracionais teimam em comer corda, e não tenho como refestelar os miolos do juízo. Pense numa bandalheira desenfreada e sem direção lógica! Está todo mundo tão amalucado com a tal mídia social, que ninguém quer mais saber a verdade de nada, basta postar, ou ler o que os “influenciadores” publicam, apertar a tecla de encaminhar e pronto, a “verdade” está confirmada e prontinha para fazer estrago na vida do alheio por intermináveis dois dias até cair no ralo do assunto antigo e sem mais interesse. Waltão, quanto a isso, o navegador Amyr Klink falou assim, em uma entrevista sobre a comemoração dos 35 anos da travessia do Atlântico em um barco a remo: “…Se fosse hoje, eu estaria no Instagram uma boa parte do tempo, nas mídias sociais, provavelmente eu teria uns 2 ou 3 milhões de seguidores e, em uma semana, nenhum. Eu não ia ter mais nada pra falar porque todo mundo já acompanhou o que aconteceu. Então eu teria tido milhões de caras torrando minha vida a bordo na última semana e na primeira semana de volta ao Brasil eu não teria mais nada para contar…”. É assim, amigo!

Rapaz, por falar em mídias sociais, faz dias que escuto os ruídos que hoje, 21/09, é o dia reservado a Limpeza Mundial e sinceramente ainda não consegui entender o que danado isso quer dizer, pois o planetinha azul nunca esteve tão sujo, em todos os sentidos da palavra. Pois bem, acordei neste sábado de Limpeza Mundial, disposto a pegar uma pá, uma vassoura, alguns sacos para juntar lixo e sair em busca da turma que estava imbuída da tal limpeza. Já na cama apurei os ouvidos na tentativa de escurar o ciscado das vassouras e o arrastado das pás, e nada. Levantei, abri a janela, e nem sinal dos voluntários. Pensei com meus botões: Deve ser mais tarde! Tomei café, acompanhado de umas bolachas molhadas no leite, salteadas com queijo, e fui na calçada procurar saber onde estavam todos, e mais uma vez não consegui resposta. Foi aí que passou Dona Leonete, ativista de causas sociais, e perguntei de pronto: Amiga, a Limpeza Mundial já começou por aqui? Ela deu uma risada e respondeu: – Já teve! Olhei para um lado, para o outro e repliquei: E foi? Waltão, você acredita que mundo afora foi diferente daqui? Eu mesmo é que não acredito, pois se quisessem mesmo limpar o planeta, bastava incentivar que cada um limpasse a sua casa e chamasse o vizinho para conferir. Vizinho é bicho fuxiqueiro!

Pois é Walter Garcia, jornalista e velejador arretado, diante do coqueiral e do mar que me acena, fico escutando as loas e matutando nas batalhas travadas sobre as paragens desse planetinha metido a besta e muitas vezes prefiro fechar os olhos, os ouvidos e me calar, pois assim a vida se torna mais salutar. Mas como gosto de ver, ouvir e falar pelos cotovelos, vou seguindo feito balanço de rede: Meio lá, meio cá!

Velejador, que tal voltar a pisar os pés nas areias dessa prainha paraíso? Venha, homem, mas não garanto que terá outros carros de mão com a fartura de lagosta como naquele ano de virada de século. O que foi já era e o que já era, já era mesmo. Entendeu? Se não entendeu, venha que explicarei aqui!

Lucia manda um cheiro!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 50

7 Julho (218)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2019

Luciano, meu amigo, como andam as coisas na sua Bahia mais bela? Por aqui vamos caminhando, cantando, seguindo a canção e achando graça, porque se faltar o riso o bicho pega. E por falar em bicho: Como vai seu ninho de cobras? Pelas bandas daqui, tenho notado que a criação de ovelhas e carneiros diminuiu um pouco, pois faz dias que não avisto os bichinhos caminhando livre, leve e solto pelas ruas e avenidas dessa Enxu querida. – Avenida? Isso mesmo, meu amigo, avenida, pois assim está escrito no endereço da conta de energia elétrica. E por falar em conta de energia, por mais que os encantadores de gente se esmerem em explicar, juro que não consigo entender essa troca de bandeiras. Tem tempo que é verde, tem tempo que a danada amarela e nesse mês de setembro o troço veio num tom encarnado, mais esfomeado do que a molesta. Seu menino, eu ia até falar, mas vou parar por aqui para não “elogiar” a senhora Mãe dos outros.

Amigo, sobre essa troca de bandeiras o que me intriga é ver, da minha varandinha, a danação de torres catadoras de ventos espalhadas a torto e a direito sobre dunas e matas, gritando promessas engabeladoras, e nem sinal das tais bandeiras perderem o ímpeto. Ei, baiano, não se avexe com minhas observações amalucadas, pois são apenas visões de um praieiro que em vez de ficar catando nuvens no belo e infinito céu dessa prainha paraíso, fica dando pitaco em coisas que não entende.

Rapaz, essa semana estive na casa de Ceminha e ao folhear o jornal Tribuna do Norte, cravei a vista numa matéria que falava da nossa falta de interesse nas benesses do grande mar Atlântico, que nos banha. Pois bem, a nota dava conta de que um economista português ajuntou um punhado de interessados, ou desinteressados, sei lá, para dizer uma coisa que seus patrícios de 500 anos atrás já haviam descoberto e até hoje não demos de conta. O portuga disse em alto e bom som, que o potencial costeiro do Rio Grande do Norte é enorme e que até os dias de hoje, por mais que tenhamos trocado o comando do timão, não aproveitamos, ou melhor, desaproveitamos por completo. Ao ler a matéria lembrei de uma palestra que assisti no Sesc, em Natal, com o economista Delfim Neto, na época ministro todo poderoso, em que ele disse que o RN estava lutando uma luta inglória – e hoje está provado -, ao pleitear a implantação de uma refinaria de petróleo, porque a grande redenção desse Estado estava no turismo e no maravilhoso mar que acaricia suas praias. Eh, meu amigo, olhando da minha varandinha o mar emoldurado pelos troncos e palhas dos coqueirais não posso e nem devo deixar de aceitar as palavras do economista português, Miguel Marques, e muitos menos do grande professor Antônio Delfim Neto. Como seria bom se nossos governantes tivessem pelo menos um tiquinho de tempo e vontade para ouvir e falar verdades. Aliás, o tão proclamado Marco de Posse, chantado na praia do Marco/RN, que o diga, porque mais abandono é impossível.

Luciano, mudando o rumo dessa prosa, você acompanhou o moído sobre os “inocentes” livrinhos infantis lançados na feira literária sob as bênçãos de São Sebastião? Se acompanhou, fez bem, pois assim não será pego desprevenido quando algum neto lhe indagar sobre a vida. Se não acompanhou, fez mal, pois perdeu de dar boas risadas com as palavras ditas, escritas e com as afetações de quem canta a música sem nem saber a letra, nem o tom e só sabe entoar o coro. Me contaram que um cabocolinho que comprou, todo falante, um exemplar do tal livrinho, quando chegou em casa o filhinho quis folhear e levou um tapa nas orelhas, pois aquilo não era leitura para uma criança, ainda mais a dele. Vai vendo, viu! Mas fiquei sabendo que quem ficou brabo mesmo foi Seu Quinzinho da Burra, um antigo morador de um povoado distante daqui, pois na adolescência ele sentiu uma queda pela jumentinha mimosa que andava faceira pelas baixas, e depois de ganhar a confiança da bichinha, partiu confiante para uns afagos, amassos e daí para os finalmente foi apenas questão de minutos e um “Ih” mais carinhoso do que o normal. Depois de uns meses o amancebo foi descoberto pelos outros pretendentes da burrinha faceira e a fofoca caiu nos ouvidos do delegado que não contou conversa, mandou chamar Quinzinho e entre perguntas e cacete, fez o pobre namorado entregar o serviço contando coisas de A a Z. O namorador passou uns dias enjaulado, ganhou o agregado no apelido e até os dias de hoje nunca mais passou nem próximo das baixas, mas a saudade é grande daquela a quem tanto carinho dispensou. Pois bem, Seu Quinzinho soube que tem um livrinho ensinando os meninos a chamar uma coelhinha na chincha e que depois de uns alaridos, os senhores do conselho superior deram tudo como certo, justo e encerraram a peleja com pontos para o autor. Agora, Seu Quinzinho, no alto dos seus 90 anos, quer saber quem vai indenizar a desgraça amorosa sofrida nos seus 18 anos. Procede!

Luciano Lopes Guimarães, cabra aventureiro da gota serena, faz tempo que você e a sua mandante Arlene, não dão as caras por essa prainha bela e preguiçosa. Venha, homem de Deus, venha para a gente emendar os bigodes nos bons papos que rolam sob a sobra dessa cabaninha de praia. Venha aproveitar os assopros dos bons alísios de um setembro soprador. Venha que prometo arranjar uma jangada para você traçar rumo até o abençoado e produtivo Cabeço de André, lugar que deixa qualquer pescador abestalhado diante de tanta fartura.

Estou esperando, viu, e já vou colocar as cervejas no gelo!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 49

10 Outubro (26)

Enxu Queimado/RN, 03 de setembro de 2019

Saulo, estava aqui pensando nas coisas dessa Enxu mais bela, enquanto dava umas bicadas numas doses da dita, bendita ou “mardita”, melhor cachaça do mundo, produzida lá no pé da serra seridoense de Samanaú, e rindo sozinho com os muitos moídos que já vivi e presenciei por aqui e foi aí que dei conta que faz tempo que você não dá o ar da sua graça sob a sombra dessa cabaninha de praia. Lembrei de você e também do saudoso e inesquecível Campeão, que adorava ouvir os causos acontecidos nas quebradas dessa prainha arretada de boa. Pois é, meu amigo, o tempo passa, passa ligeiro, segue em frente e deixa o fascínio em forma de lembranças e saudades, algumas boas, outras más, mas quando misturadas, dão o sentido que rege a vida.

Saulo Júnior, como não mirar o maravilhoso coqueiral esparramado sobre a beira mar, e não lembrar das estripulias caridosas de Dona Ana, uma das muitas figuras folclóricas do álbum de Enxu? Dona Ana era avançada demais para uma época em que a inocência nem se dava conta que um dia perderia a razão diante das ideias beligerantes e filosóficas dos intelectuais modernosos. Conta a lenda, que a velha madame, apaziguadora da alma curiosa e irrequieta dos meninos de então, quando o assunto era sobre as formas libidinosas do amor, ela não deixava ponto sem volta. Pois bem, certa vez estávamos em um grupo de bate papos sob a sombra de uma árvore, e ela passa caminhando nos passinhos curtos e lentos dos seus oitenta e tantos anos bem vividos. Ao vê-la passar, Seu Neném fala: – Dona Ana! Ela para, olha e pergunta: – Que foi Neném? – Os meninos estão dizendo que a senhora não dá mais no couro! Ela põe as mãos no quadril, dá uma rabissaca, olha por cima do ombro e desdenha: – Aí, uhuuuuu!!!!! E seguiu sua caminhada, deixando a turma em boas gargalhadas.

Mais uma dose e lá vem a cena acontecida numa noite de Lua nova na estrada que liga Enxu a Pedra Grande. Alma era um rapaz que vivia de comprar pequenos peixes em Enxu Queimado para revendê-los nos povoados mais distantes. Quando terminavam as vendas, Alma se encostava no primeiro balcão de boteco que encontrasse na beira da estrada e entre uma cachacinha e outra ficava de olho aboticado na estrada na esperança de pegar uma carona que o levasse no rumo da volta. Naquela noite o tempo passou rápido na localidade do Alto da Aroeira e nada de aparecer a sonhada carona e assim a cachaça foi duplicando nas ideias, pois fazia poucos dias que Santo, seu velho pai, havia falecido e a branquinha tanto aliviava a dor, quanto aumentava a saudade. Lá para as tantas ele escutou o ronco de um trator e se posicionou na beira da rodagem. O trator, puxando uma carroça, foi chegando, ele pediu parada, mas, Zeca, o tratorista, que vinha guiando no piloto automático, mais bêbado do que o caronista, nem notou sua presença e seguiu em frente. Alma, macaco velho nas artes da carona, apressou o passo e pulou para dentro da carroça, suspirando aliviado, porque já estava perto da meia-noite e a possibilidade de passar outro veículo por ali era difícil.

Quando as luzes do pequeno povoado ficaram para trás, Zeca, de relance, notou a presença de alguém sobre a carroça e gritou: – Quem vem lá? – É Alma! – Alma de quem? – De finado Santo! Saulo, os cabelos de Zeca arrepiaram, ele acelerou o trator até o motor sair do tom e se danou a dar rabos de arraia pela estrada, jogando o trator de um lado para outro, tirando fino nos galhos de jurema preta e nada da Alma desaparecer. E assim foi a correria e o desespero até chegar em Enxu, quando Zeca, já bonzinho da cachaça, meteu o pé no freio, pulou do trator ainda em movimento, olhou para trás e lá estava Alma com os olhos aboticados e gritando; – Zeca, você está ficando doido? Quase me mata, homi! Zeca, quase sem fala e já recuperando a cor, respondeu puxando o que restava de ar dos pulmões: – Fii de uma égua, você que quase mata de susto, seu desgraçado! Segundo contam, depois desse dia Zeca perdeu todos os cabelos da cabeça. Pense num medo!

Pois é, Saulo Andrade dos Santos Junior, meu cunhado e irmão de querer bem, se for contar todos os causos, contos e fatos que fazem parte da história dessa prainha paraíso, é de fazer uma ruma bonita e cheia de graça. Tenho muita coisa guardada na cachola, outras em borrões de anotações e você bem sabe de um bocado, pois entre umas e outras já escutou muitas e riu boas risadas. Mas não custa vir aqui para escutar tudo de novo e rir novamente, pois assim são as coisas boas dessa vida. Aliás, daquela garrafa de Samanaú, a melhor do mundo, deixei sobrar um pezinho de uns quatro dedos, viu! Venha pra gente fechar a contabilidade e venha logo, senão a danada evapora!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 48

5 Maio (34)

Enxu Queimado/RN, 19 de agosto de 2019

Sabe, Maurício, hoje, na paz do luar que derrama fios prateados sobre a noite dessa Enxu mais bela, me peguei fazendo uma retrospectiva de vida e desatei a lembrar dos bons momentos vividos a bordo do veleiro Avoante, subindo e descendo o litoral do Nordeste, plantando, regando e colhendo amizades. Em uma das passagens da fita, veio a imagem de um tripulante, que estava fazendo um dos nossos charters pelos encantos e segredos da bela e colorida Baía de Todos os Santos, e as palavras por ele proferida enquanto degustávamos um vinho, saboreando um risoto de limão siciliano, na enigmática ancoragem do Saco do Suarez, por traz da Ilha do Bom Jesus dos Passos e de frente para a mata atlântica que cobre a Ilha do Frade, ancoragem que segundo contam os livros de história, os holandeses se esconderam durante 60 anos dos olhos e ouvidos dos portugueses, até que em um 2 de julho a brincadeira acabou e até hoje o baiano festeja.

“Nelson e Lucia, vocês não vendem charter e nem curso de vela, vocês vendem sonhos e uma maravilhosa história de vida”. Pois é, Maurício, durante o resto da noite e boa parte da madrugada, a frase cutucou meu juízo e no silêncio e na paz daquela ancoragem tão mágica, adormeci, os circuitos internos do cérebro levaram a frase para o arquivo e assim ela permaneceu esquecida até que hoje, uma velinha branca de paquete cruzou o pedacinho de mar que vislumbro dos domínios de minha varandinha de praia, e pronto, estou aqui a matutar. Pois num é que dia desses, Gilberto da Farmácia, um amigo cultivado sob os alísios que sopram por essa paragens, disse que adorava vir aqui para entabular um conversê, porque, segundo ele, os horizontes se abriam em sua frente. Agora danou-se, um disse que eu vendia sonhos e agora o outro diz que vendo horizontes. Sei não, viu! Rapaz, aqui eu vendo é pizza e saltenhas, e segundo uma criança que passou na calçada, a melhor pizza do universo.

Maurição, pois num é que a tal retrospectiva me fez ver coisas que diante do moído da vida urbana deixei esquecer. Durante onze anos tive uma casa com a varanda de frente para o nascente, o poente e de cara para todos os ventos que se arvorassem a soprar. Foram dias de intensa conjugação com os elementos da natureza e seguindo os ditames de deuses encantados. Por mais que me fizesse de rogado, jamais pude deixar de sorrir e pedir bênçãos diante da magia e das cores do pôr do sol, que nunca se apresentou igualmente o anterior. Via o pôr do sol como um grande livro de páginas infinitas, de versos e crônicas em escritos, desenhos e cores que jamais se repetirão. Hoje, meu amigo, mesmo sabendo da bela maquiagem que as dunas de Enxu produzem para o final da tarde, não consigo tempo para assistir os últimos passos diários do astro rei. Quando consigo, tenho o mesmo deslumbramento e a mesma emoção de sempre, mas sinto minha alma entristecida. Maurício, será que a vida urbana consome a alma das pessoas?

– E a Lua? Pois é amigo, a Lua daqui é linda como a Lua dos outros lugares, mas também não a tenho diante dos meus olhos e nem mantenho a intimidade que tive noutros tempos. Conheço os passos do seu caminhar, sei os segredos de suas cores, consigo sentir seu cheiro e as vezes escuto seus lamentos, mas perdi a intimidade. Aí você pergunta: – Como assim? – Você mora em um paraíso, em uma praia linda, com paisagens belíssimas, com um mar encantador, diante de um coqueiral deslumbrante, cercado de pessoas maravilhosas e sob o teto de uma aconchegante cabaninha praieira, o que falta mais? Pois é, tenho sonhos, horizontes, amigos, família presente e unida, mas falta a intimidade com os elementos da natureza, com a Lua, com o Sol, com os ventos, as correntes marinhas, as ondas, as nuvens, as gotas de sal sobre a face, o balanço do oceano, as vozes do mundo, os sons que ecoam do fundo do mar. Falta o calor do abraço de um mundo que sei que está bem ali, mas um pouco distante demais da mão. Eh, amigo, acho que é isso, a vida urbana consome a alma da gente e fecha os nossos olhos para as maravilhas que somente a natureza pode dar.

Maurício Silva Rosa, você que um dia viveu conosco alguns dias a bordo daquele belo veleirinho avoado, avoando lentamente pelos mares do Senhor do Bonfim, sentindo a natureza correr nas veias e piscando os olhos diante da paisagem desnudada a cada fração de milha navegada, sabe das lamurias que me trazem essa incrível e saudosa retrospectiva, mas não se avexe com essas linhas escritas, porque tudo passa entre um balanço e outro da rede. Além de que, os encantos dessa prainha paraíso é um fabuloso remédio para aplacar minhas saudades.

Amigo, agora me responda: Será que eu ainda consigo vender sonhos ou os tais horizontes que encantam Gilberto? Não, Maurício, não vendo sonhos, nem horizontes, quero mais é dar alegria e mostrar para aqueles que se interessam, que o mundo pode ser melhor, infinitamente melhor, do que este que estamos vivendo. E para isso, nada melhor do que ir ao pomar e colher uma muda de bons amigos.

Venha aqui, amigo, e venha sem pressa, porque embaixo dessa varandinha cabe uma montanha de boas conversas.

– O vinho? – Claro, tem vinho!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 47

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Enxu Queimado/RN, 15 de agosto de 2019

Eh, Pai, domingo, 11/08, foi dia de saudades, mas não aquela saudade que corrói a alma e sai por aí espalhando dor e sorrisos amarelos, mas a saudade do bem querer, das boas lembranças, dos felizes ensinamentos, do amor incondicional e da precisão de ensinamentos, quase cirúrgicos, que trançam os passos e os caminhos dos filhos pela vida afora. Pois é, sempre festejo com alegria esse dia, mesmo sem ter a alegria de vê-lo sentado na mesa. Aliás, nunca entendi os motivos daqueles que declaram não ter motivos para celebrar o Dia dos Pais pela justificativa de que os deles já se foram para os braços do Pai. Eu tenho motivos sim e se assim for permitido, comemorarei por muitos anos, porque o senhor merece e nós, seus filhos, temos mil e um motivos para festejar. O senhor era demais!

Pai, como vão suas tocatas pelos bailes do Céu? Acredito que a orquestra daí está cada dia mais afinada e se esmerando em maravilhosas partituras, pois o que tem subido de gente boa para estrelar o palco do paraíso, não é brincadeira. Dou por visto a alegria da plateia e o rosto de encantamento de Nosso Senhor, diante dos shows. Já por aqui a coisa está cada dia mais feia, pois está ficando só a catrevagem e ainda inventaram um tão de paredão, saído das ideias malignas do tinhoso, que tem pareia não. Aliás, estou planejando entrar no mercado de produzir pen drives para tocar nos paredões, porque achei uma fórmula arretada de gravação e que vai fazer sucesso: Gravarei apenas a introdução das “músicas”, ou no máximo dois minutos de cada, e assim, em um pen drive de 4Gb gravarei umas 8 mil “músicas”. Pai, nunca ouvi um dono de paredão deixar tocar uma faixa – graças aos anjos do Céu – inteira. É só o comecinho e pula para a próxima.

Nessa prainha linda que me dá guarida e carinho, o Dia dos Pais foi comemorado com uma regata que se tornou famosa na região e neste 2019 comemorou a décima terceira edição. É a regata dos Navegantes da Praia de Enxu Queimado, um evento arretado, idealizado e organizado por Pedrinho e Lucinha, casal bom do “carvalho”, e que colore o lugar com as cores da alegria e do companheirismo, qualidades tão peculiares aos pescadores. É gostoso ver o moído do preparo das embarcações nos dias que antecedem a festa e mais gostoso ainda é presenciar a faina e a labuta dos últimos detalhes minutos antes da largada. Pai, o sistema é bruto e aí daquele mastro, vela ou corda que não aguentar o tranco dos puxos e repuxos! Eu, velejador de barcos de plástico, cheios de salamaleques e prá que isso, dou risadas e fico imaginando a cena de um desses iatistas juramentados participando de um preparo de paquete para correr uma “corrida”.

Circulando entre os barcos, abraçando os amigos e batendo retratos a torto e direito, no dia da largada, parei para ver a vela do paquete Brasil 1 – isso mesmo, Brasil 1 – sendo esticada por seis homens sobre o mastro e a retranca e apostei comigo mesmo que aquele sistema não aguentaria e não sei se por força do meu olho grande, ou praga de apostador, a corda partiu e lá se foi a mesa que acomoda o mastro partida em bandas. O reboliço foi grande, porque o tiro de largada se aproximava, e entre palpites e pitacos, inclusive meus, apareceu uma furadeira, com eixo do mandril mais empenado do que o “gato da zinebra”, mas acho que a broca era mais torta, uma extensão com fio desencapado, um martelo, duas chaves de boca, bitola 14, porém, as porcas eram 13, umas latinhas de Itaipava escumando e entre pelejas, gritos e gozações, o armengue ficou pronto e lá foi a “nova estrutura” ser forçada novamente. E num é que aguentou! Tanto aguentou que o barco foi para a competição e não fez feio e nem os tripulantes andaram no burro. – No burro? – Isso mesmo! Os caras enfeitam um burrico e quem faz a pior lambança durante a prova, na chegada tem que passear em meio ao povo sobre o burro. Eita que a gozação é boa!

Pois é, Pai, a vida por aqui vai indo assim e bem diferente dos azedumes e mal costumes das grandes cidades. Por aqui basta pouco para a felicidade aflorar e por mais que os reclames insistam em dizer que babado não é bico e que o caldo vai entornar, ninguém liga muito para as armadilhas e subterfúgios produzidos nos caldeirões das redações. Aliás, os aprendizes de feiticeiros que mexem a colher nas redações dos jornais, precisam pegar a vassoura para dar pelo menos um voozinho por aí. A vida tem andado bem diferente do que eles alegam.

Nelson Mattos, meu querido e amado Pai, pensei em escrever essa cartinha para enviar-lhe no Dia dos Pais, mas dei um bordo, porque não queria que a emoção enuviasse minha cabeça de vento e como bem disse um colega: “O coração das pessoas já não aguenta tanto repuxo”. Pai, por aqui vai tudo bem, tudo indo e bem-vindo. Nelsinho e Amanda continuam me dando alegrias e Ceminha dia desses deu o ar da graça sob essa varandinha, na companhia de Tia Cecília, Grace e Jailson. Saborearam uma das deliciosas moquecas da Lucia, que eu e Jailson degustamos com umas doses da marvada, para não perder a vez, e se foram prometendo voltar em breve. Estou aguardando!

Para encerrar, confirmo que o senhor continua muito vivo e lindo em meus sonhos e tomara que permaneça assim por longos anos, viu! Beijos!

Nelson Mattos Filho