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Cartas de Enxu 56

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Enxu Queimado/RN, 16 de janeiro de 2020

Sabe minha irmã, durante a fração de vida vivida a bordo do veleiro Avoante, todo fim de tarde adorava sentar no cockpit para sentir o pulsar do coração da natureza, ouvir ao longe os ecos das vozes e sons que vinham das cidades diante da ancoragem e pedir bênçãos aos deuses para que aquele momento de paz, emoldurado pela magia do pôr do sol, que jamais se apresentou com a mesma roupagem, chegasse a cada pedacinho do planetinha azul, principalmente as bucólicas e aconchegantes comunidades ribeirinhas em que deixamos tantos e queridos amigos com água nos olhos. Agora, morando embaixo da sombra gostosa dessa cabaninha de praia, estendida sobre o chão de uma Enxu mais bela, tento repetir o velho costume, mas a vida urbana é complexa demais para aliviar a alma. – E o pôr do sol? – Pois é, o pôr do sol!

Grace, falando assim você pode achar que estou com saudade do mar e pode apostar que sim, mas vou driblando essa saudade diante da pequena nesga de oceano que consigo mirar da varandinha da cabaninha, só não sei até quando, porque as cidades exigem progresso e o progresso não aceita e nem reconhece caprichos. Aí você diria: – E porque não mora em uma casa de frente para o mar? Digo: – Bem que poderia, mas assim eu iria sonhar um sonho vivido, vivendo diante de um sonho sonhado. Ficou difícil de entender, não foi? Mas não se avexe, porque também é difícil de explicar, pois esse é um segredo que nem os poetas contam, porque não sabem contar e os que sabem não contam, por medo de perderem a conexão com a alma. – E o pôr do sol?

Minha irmã, dia desses descobri que não tenho mais tempo para o pôr do sol, não que eu não queira, mas a cidade não me permite. Quando morava em uma casinha balançante sobre o mar e meus passos deixavam poeiras de espumas e plânctons em uma esteira que se perdia em pensamentos, o pôr do sol era um quadro pintado e emoldurado por contornos mutantes. A hora da despedida do Astro luz era um grande momento de reflexão e redenção diante da indecifrável magnitude da natureza. Aquele espetáculo me dizia tudo o que era preciso saber daquele dia que se despedia, dos dias que viriam, e a ele me rendia de corpo e alma. Era uma vida medida pelos quartos de tempo e não pelos ponteiros do relógio. A madrugada com suas sombras era o primeiro quatro, o dia com seus brilhos era o segundo, a tarde com seus lusco-fuscos era o terceiro e a noite com seus mistérios fechava o ciclo da vida e assim o veleirinho seguia cambaleante e inebriado em sua saga de bem singrar os mares e nos dar prazer.

Grace, apesar dessa cabaninha encravada em meio a uma maravilhosa natureza viva, onde cantam livres os passarinhos e os alísios aliciam as dunas em um namoro desavergonhado, o pôr do sol visto da varadinha é notado apenas pelas cores pintadas na tela azul do céu e denunciado pelos rebanhos de carneiros que passam na rua de volta a segurança dos cercados. Sei das suas cores, sinto seu pulsar e até escuto o sussurro de sua voz querendo me falar as novidades, mas a inércia me prende sob a cabaninha e assim ele se vai. Ele tem paciência e sabe que um dia novamente estarei postado diante do seu altar. E eu? Fico perdido em uma angustiante desfaçatez.

Mas minha irmã, não se apegue aos meus lamentos, porque são apenas palavras ditas para anestesiar as dores da alma e sempre que posso, e algum amigo me atenta, largo o conforto da cabaninha e me posiciono diante do crepúsculo, mas confesso que não consigo decifrar as palavras que ali estão tão explicitas. Meus sentidos ficam dispersos em meio as vozes urbanas e por mais que tente manter a concentração nada consigo. O que me resta é me render diante da beleza, que nunca é igual.

Foi com esse sentimento que no segundo sábado de janeiro fui com amigos assistir ao espetáculo a beira mar. Levei a máquina fotográfica, umas cervejas geladas para variar, e caminhei sozinho em busca dos melhores ângulos. Naquele dia registrei os últimos movimentos do grande rei e até vi em seu olhar a esperança de me contar boas novas, mas baixei a vista, porém, sem antes deixar de notar em seu rosto um leve sorriso de alegria em me ver ali tão próximo.

Grace Lopes Mattos Barbalho, minha irmã caçulinha, desculpe essa carta tão carregada de insatisfações, mas hoje acordei com saudades do mar, do pôr do sol e precisava contar isso para alguém. A magia do crepúsculo solar sempre me fascinou, mas a partir do momento que soltei as amarras e me vi no mar, para mim ele se tornou um deus.

Quer saber? Venha aqui, minha irmã, venha e traga Jailson para falarmos mais sobre esse tema sobre as areias macias dessa prainha paraíso e prometo te levar para ver um dos mais belos pôr do sol do universo, apesar de eu estar momentaneamente alheio aos seus segredos. Venha, pois estamos na safra da azeitona e os pés estão todos carregados com frutos da melhor cepa. Venha e traga Ceminha, pois quem sabe ao lado dela, recupero a linguagem que vem do Sol.

Beijo!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 55

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Enxu Queimado/RN, 08 de janeiro de 2020

Olá, comandante dos mares de Iemanjá e dos oceanos em que navegam as Naus das boas amizades, embaladas por ondas de afagos, risos, bons papos e temperadas com o néctar colhido nos mais puros canaviais das terras banhadas pelo belo Rio Cunhaú, “água de mulher” segundo o alfabeto tupi, que guarda no fundo do seu leito bons arquivos da história da nação dos potiguares.

Velejador, como vão os aprendizados, colhidos do alto da colina em sua aguçada observação, sobre o suave voo das velas que riscam as águas e dão ar de fascinação a Praia de Barra do Cunhaú? Para não perder a vez: Ergamos um brinde! Saúde!

Amigo, respondendo sua pergunta, feita nos primeiros passos deste ano que marca rumo ao futuro, sobre como estavam soprando os ventos nas bandas por onde o vento faz a curva, digo que sopram faceiros, preguiçosos e mornos vindos das paragens do Norte. Daí, lembro que o poeta arriscou falação e disse, enquanto jurava mentiras em sua caminhada solitária, que os ventos do Norte não movem moinhos e ainda bem que ele assumiu os pecados, pois se tivesse deitado o corpo sob o frescor das palhas do coqueiral dessa Enxu mais bela, veria outros segredos. Mas antes da correção dos incautos, vou dizer que a arte tem interpretações diversas e segundo se conta a boca pequena, os arrodeios do poeta de sangue latino contava a história do sofrimento de um povo, o que não é o caso desse aprendiz de escrevinhador que tenta ser o que não é e da varandinha dessa cabaninha de praia, olha para os modernosos e gigantescos catadores de vento, da eólica, apontados para os ventos que vem do Polo de riba e se arvora a desmiolar o juízo em palavreado amalucado e tomara ter respondido sua pergunta.

Érico, tenho andado meio disperso nos escritos, mas não é por falta de assunto, pois nesse povoado praia o que mais tem é assunto para assuntar. Porém, essa tal de rede social é bicho tinhoso para nos meter em caminhos tortuosos e ainda por cima é danada em nos enganchar em bate-boca e o pior, com gente que nem conhecemos nem mais gordo, nem mais magro, mas um tal de logaritmo afirma que somos amigos desde de criancinha e quando damos por fé, entre uma vírgula e um ponto, lá vai a “amizade” para o beleléu. Pois bem, a gente fica passando o dedo, para cima e para baixo, na telinha e nem percebe que o tempo passou e com ele as ideias dos escritos.

Comandante, a virada do ano por aqui foi na paz que sempre se deu e atesto que nem precisava das tais bandas que se apresentaram com repertório de nem sei o que dizer. Nas festas de Ano Novo, o largo da beira mar, uma pracinha de apetitosa areia branca, vira um grande salão de abraços, apertos de mão, declarações de amizades, crianças brincando despreocupadas, adultos em largos sorrisos e tendo as ondas do mar como testemunha e a Senhora dos Navegantes como fiel guardiã. As badaladas da meia noite são festejadas ao som do pipocar de fogos, que este ano disseram que foi pra mais de 13 minutos. Se foi ou se não foi não dou por certo, pois sempre me atrapalho com as bolhinhas do espumante e daí já viu, né! Juro que queria saber quem danado inventou essa história de beber champanhe em virada de ano. Se era para fazer espuma e esparramar pelo chão, bastava uma Brahma, num é não?

Mas a festança começa mesmo é pela manhã com a tradicional regata de fim de ano e este ano, para não fugir à regra e nem do costume da gozação, o barco de Pedrinho, com ele no governo, chegou em derradeiro. O pior, sempre que estou por aqui ele me convida para fazer parte da tripulação e até já gastei todo o rol das desculpas, mas por enquanto vou me livrando do mico, ou melhor, do burro, pois quem chega por último, ou comete a maior barbeiragem, tem que passear em meio a turma montado num burrico. Meu amigo Pedrinho, no comando do Brasil 1, não perde uma viagem!

Caro amigo, Érico Amorim das Virgens, naquele dia em que você perguntou sobre os ventos que estavam soprando por aqui, juro que imaginei que havia chegado a hora de ver a Musa jogando o ferro no portinho de Enxu e até pedi a Lucia que preparasse uma moqueca das boas e arrochasse na farinha do pirão, pois logo, logo você riscaria o horizonte, mas foi só a vontade, porque fiquei sabendo que seu belo paquete mais uma vez havia desbravado a brava barra do Cunhaú e naquele momento descansava feliz diante da estonteante paisagem que cerca as terras dos Santos Mártires. Porém, não esqueça que me deve uma visita, se bem que te devo bem mais do que uma, mas conta é assim mesmo, quando a gente deve dá preguiça de lembrar!

Amigo, deixa eu te contar um segredo: Ganhei uma garrafa de Samanaú envelhecida, presente de minha irmã Margareth, que vive me acenando, mas nem dou cabimento a ela. Que tal vir aqui para tirar essa história a limpo?

Grande abraço.

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 53

10 Outubro (226)

Enxu Queimado/RN, 12 de novembro de 2019

Parodiando o poeta, pergunto e respondo: – A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? – Os dois!

Pois é, Kátia, dizem por aí, e com toda propriedade, que o Rio Grande do Norte poderia se chamar “Já Teve” e seria até interessante, porque já que existe um município na região Oeste potiguar chamado Venha Ver, as peças publicitárias poderiam incrementar frases assim: “Venha ver o que tem em Já Teve”; “Já Teve, mas venha ver assim mesmo”; “Conheça Já Teve antes que não tenha mais”, e por aí caminharia a nação dos potiguares. Aliás, seria bom a gente se apressar para conhecer Venha Ver antes que ele se torne “Já Teve”, porque o município de pouco mais de 4 mil habitantes, segundo os bruxos da imprensa, está na lista de extinção, como também está o município de Pedra Grande, com 3.275 habitantes, do qual faz parte o pequenino distrito praieiro de Enxu Queimado, pedacinho de chão de onde escrevo essas missivas.

Cunhada, conheci Enxu há mais de trinta anos e de cara me apaixonei pela vidinha simples que se levava por aqui, com os pés pisando ruas de fina areia branca, coberta por leve camada de piçarro, e no final do dia mergulhando o corpo no mar para retirar a poeira avermelhada soprada pelos alísios que acariciavam as dunas e desciam correndo soltos pelas vielas. Eram bons tempos de fartura de lagosta, cestos e mais cestos de serras, garachumbas, galos do alto, guarajubas, ciobas, cavalas, bicudas, ariacós e mais uma ruma de espécies de fazer inveja a um bocado de pescador afamado. – E as galinhas? – Vixi, vou nem contar, mas em todo caso, fizemos muitas estripulias em busca das galinhas alheias. Enxu era uma festa nos idos anos 90. Aí você pergunta: – E não é mais? – É e não é, e acho até que é menos do que mais! – Entendeu? – Nem eu! Rsrsrsr…

Na década de 90 Enxu era um arruado de casas, muitas delas de taipa e com uma dúzia de casas de veranistas, quase todos oriundos do município de João Câmara, e o verão era uma festa de cores, alegria e tinha uma beira mar de fazer valer a fama que os poucos turistas que a conheciam alardeavam aos quatro ventos. A pequena localidade de pescadores recebia reflexos de um futuro promissor e com as antenas ligadas no turismo que avançava pelas praias do Rio Grande do Norte. Ora, não podia ser diferente, pois foi nas areias desse litoral que desembarcaram os enviados do Rei D. Manoel I para fincar a pedra fundamental da criação do país chamado Brasil, em 7 de agosto de 1501. A data, inclusive, está registrada como sendo, além da posse oficial do Brasil, aniversário do Rio Grande do Norte. Como bem diz a frase estampada em todos os documentos da Prefeitura de Pedra Grande: O Brasil começou aqui. E começou mesmo, mas por aqui estancou de repente, e o país seguiu, aos trancos e barrancos, em frente, deixando para trás a história esquecida em um Marco de Posse que até hoje ninguém decidiu o que fazer com ele.

Kátia, como você bem sabe, a Enxu do século XXI é uma praia bela, com um litoral paradisíaco, mas que merecia mais: Mais atenção, mais cuidado, mais carinho, mais investimentos, mais amor, mais responsabilidade com o desenvolvimento sustentável e mais respeito com sua população. O município de Pedra Grande está inserido entre aqueles que receberam fabulosos investimentos oriundos dos empreendedores da energia dos ventos e ostenta em suas terras um vultuoso parque eólico, além de uma gigantesca fábrica de torres. – E só isso basta? – Não, não basta, mas se toda essa pujança for bem aproveitada, adiantaria mais da metade da viagem rumo ao progresso sustentável e Enxu Queimado, como pórtico de entrada ao mar e a grande visibilidade que o mar proporciona, ganharia nova visão turística e quem sabe, tiraria o município da fatídica lista de abate.

Lembro de uma conversa que tive na época, com o então prefeito Chico Vitor, para mim um homem de visão, e ele falava que iria construir a Estrada da Palmeira, uma via ligando Enxu Queimado a Praia do Marco, em um traçado mais curto do que aquele que existia até então. Ele apostava que a estrada seria a redenção das duas praias, porque daria incentivo ao Governo do Estado para continuar com a estrada até São Miguel do Gostoso e no futuro ligar Gostoso, Marco, Enxu e Galinhos. Chico Vitor cumpriu a promessa, mas a Estrada da Palmeira, uma estrada piçarrada, nos padrões das RNs, hoje está praticamente abandonada, com o mato tomando parte da via e muito lixo jogando nas margens.

Pois é, Kátia, olhando o bonde que vai passando e assistindo essa bela prainha ficar empancada na estação, apesar de ter um dos mais lindos cenários litorâneos do Nordeste, não me vem em mente outra palavra a não ser já teve. Palavra essa tão bem apropriada para um Estado que já foi tudo, inclusive fonte originária de um país inesgotável.

Kátia Suely Silva dos Santos, minha cunhada querida, fico triste em ver que essa antiga vilazinha de pescadores perdeu o rumo da Estrada da Palmeira, via que foi pensada vislumbrando os ventos do futuro. Mas não é tanta tristeza assim, porque apesar de tudo, olhando da varanda dessa cabaninha, vislumbro e me sinto vivendo na comunidade que me recebeu carinhosamente há trinta anos. Só não existe mais a inocência e os perigos que rodam essa beirinha de praia são outros!

Nelson Mattos Filho

Projeto Uma Palavra

10 Outubro (205)

Há algum tempo que idealizo “usar e abusar” dos conhecimentos profissionais dos amigos que nos visitam em nossa cabaninha de praia, para levar boas informações aos moradores da aconchegante comunidade de Enxu Queimado/RN, que sempre nos acolheu tão carinhosamente. Além de ser uma forma de agradecimento, o Projeto Uma Palavra, seria uma maneira de proporcionar a pequena comunidade informações de campos das ciências do conhecimento que muitas vezes passam, quando passam, ao longe.

10 Outubro (211)

Foi assim que quando recebi mensagem do amigo Afonso Melo, querendo vir passar uns dias com a gente, respondi que poderia vir, mas teria uma condição: Ministrar uma palestra na Colônia de Pescadores. Falei da proposta e disse que ele enfunaria as velas para que a ideia navegasse em busca de novos horizontes. Ele aceitou de pronto!

Afonso é funcionário da Petrobrás, mergulhador e instrutor de mergulho profissional e recreativo, tarefa que exerce com enorme paixão. A escolha de seu nome para abrir o projeto não foi por acaso, porque desde o começo ele estava em minha alça de mira, apenas faltava a oportunidade e as visitas prometidas não eram concretizadas, mas como bem diz o ditado: Tudo tem seu tempo. E acredito que sim, pois Afonso está de mudança para Vitória/ES, e sua visita, aproveitando uma semana de folga do trabalho, seria talvez o último abraço, da grande amizade que sempre nos uniu, antes de sua partida para as terras capixabas.

Não digo que a palestra foi casa cheia, porque foi tudo decidido de última hora e o amigo Xará, presidente da Colônia de Pescadores de Enxu Queimado, só teve um dia para convocar a turma e perguntou se o evento poderia começar às 19 horas, do dia, 23/10, porque mais tarde teria o jogo entre Flamengo e Grêmio, e ninguém queria perder. Aliás, o time carioca, que deu uma lavagem nos gaúchos, por aqui falta pouquíssimo para se tornar unanimidade. Foi um bate papo gostoso, descontraído e balizado pelas boas regras e normas de segurança que o mergulhador jamais deve deixar de observar. Foi tão bom que no dia seguinte recebemos diversos pedidos, daqueles que não puderam comparecer, para que a palestra fosse repetida, mas infelizmente não foi.

10 Outubro (202)

Pronto, o projeto já navega em mares tranquilos e vamos aguardar que outros amigos venham nos visitar, mas já sabendo eles que terão uma prenda a pagar. Como bem disse Afonso, a semente foi plantada, agora vamos regar para colher os frutos.

Caro e bom amigo, em nome da comunidade, especialmente da Colônia de Pescadores, dessa prainha maravilha, agradeço o carinho de sua atenção com essa causa social e muito obrigado por dividir com a gente um pouco dos seus valiosos conhecimentos.

Nelson Mattos Filho

25/Outubro/2019

Cartas de Enxu 51

8 Agosto (6)

Enxu Queimado/RN, 21 de setembro de 2019

Waltão, como vão as coisas com você e com os seus, meu amigo? Por aqui tudo indo e vindo, porém, mais indo do que vindo e não me pergunte os motivos, porque por mais que observe e tente decifrar os teoremas, mais perdido fico. Como disse um amigo: “Nelson, as coisas são o que são e quando não são, não são, entende?” Rapaz, preferi responder que entendia, pois vai que ele resolvesse explicar!

Amigo, nunca esqueci aquele dia, do ano 2000, quando saímos da Praia do Marco, onde eu tinha uma cabaninha de praia e juntamos aquela turma boa de velejadores, e viemos a Enxu Queimado, eu, Lucia, você e Baleia, tomar um café da manhã, no bar de Dona Tita, regado a cerveja, aliás, mais cerveja e menos café. Naquele tempo a fartura de lagosta por essas bandas ainda era coisa de fazer valer uma boa matéria jornalística e você sabendo disso incentivou a vinda – como desculpa para a cerveja – para bater uns retratos e registrar no bloquinho de anotações algumas informações. Pois saiba que aqueles meninos que carregavam dois carros de mão carregados, até a borda, de lagosta, e que tremeram nas bases e afrouxaram o intestino quando você pediu que eles parassem um pouco, porque você queria bater uma foto, aqueles meninos hoje são adultos, pais de família e ainda lembram do cheiro do “material pastoso” que escorreu por entre as pernas deles. Eles pensaram que você era fiscal do IBAMA. Vez em quando, em conversas de varandas, damos boas risadas lembrando daquele episódio. Mas Waltão, para mim o mais engraçado foi sua tentativa de aprender a subir em um pé de coqueiro. Sei não, viu! Pense num caboco desajeitado e ainda bem que você desistiu antes de receber a segunda lição, pois eu já estava imaginando a cena quando fosse para você descer.

Jornalista, sob a sombra dessa cabaninha de praia fico ouvindo os moídos do mundo, apesar da cacofonia que ecoa das trincheiras da grande rede e que as mídias tracionais teimam em comer corda, e não tenho como refestelar os miolos do juízo. Pense numa bandalheira desenfreada e sem direção lógica! Está todo mundo tão amalucado com a tal mídia social, que ninguém quer mais saber a verdade de nada, basta postar, ou ler o que os “influenciadores” publicam, apertar a tecla de encaminhar e pronto, a “verdade” está confirmada e prontinha para fazer estrago na vida do alheio por intermináveis dois dias até cair no ralo do assunto antigo e sem mais interesse. Waltão, quanto a isso, o navegador Amyr Klink falou assim, em uma entrevista sobre a comemoração dos 35 anos da travessia do Atlântico em um barco a remo: “…Se fosse hoje, eu estaria no Instagram uma boa parte do tempo, nas mídias sociais, provavelmente eu teria uns 2 ou 3 milhões de seguidores e, em uma semana, nenhum. Eu não ia ter mais nada pra falar porque todo mundo já acompanhou o que aconteceu. Então eu teria tido milhões de caras torrando minha vida a bordo na última semana e na primeira semana de volta ao Brasil eu não teria mais nada para contar…”. É assim, amigo!

Rapaz, por falar em mídias sociais, faz dias que escuto os ruídos que hoje, 21/09, é o dia reservado a Limpeza Mundial e sinceramente ainda não consegui entender o que danado isso quer dizer, pois o planetinha azul nunca esteve tão sujo, em todos os sentidos da palavra. Pois bem, acordei neste sábado de Limpeza Mundial, disposto a pegar uma pá, uma vassoura, alguns sacos para juntar lixo e sair em busca da turma que estava imbuída da tal limpeza. Já na cama apurei os ouvidos na tentativa de escurar o ciscado das vassouras e o arrastado das pás, e nada. Levantei, abri a janela, e nem sinal dos voluntários. Pensei com meus botões: Deve ser mais tarde! Tomei café, acompanhado de umas bolachas molhadas no leite, salteadas com queijo, e fui na calçada procurar saber onde estavam todos, e mais uma vez não consegui resposta. Foi aí que passou Dona Leonete, ativista de causas sociais, e perguntei de pronto: Amiga, a Limpeza Mundial já começou por aqui? Ela deu uma risada e respondeu: – Já teve! Olhei para um lado, para o outro e repliquei: E foi? Waltão, você acredita que mundo afora foi diferente daqui? Eu mesmo é que não acredito, pois se quisessem mesmo limpar o planeta, bastava incentivar que cada um limpasse a sua casa e chamasse o vizinho para conferir. Vizinho é bicho fuxiqueiro!

Pois é Walter Garcia, jornalista e velejador arretado, diante do coqueiral e do mar que me acena, fico escutando as loas e matutando nas batalhas travadas sobre as paragens desse planetinha metido a besta e muitas vezes prefiro fechar os olhos, os ouvidos e me calar, pois assim a vida se torna mais salutar. Mas como gosto de ver, ouvir e falar pelos cotovelos, vou seguindo feito balanço de rede: Meio lá, meio cá!

Velejador, que tal voltar a pisar os pés nas areias dessa prainha paraíso? Venha, homem, mas não garanto que terá outros carros de mão com a fartura de lagosta como naquele ano de virada de século. O que foi já era e o que já era, já era mesmo. Entendeu? Se não entendeu, venha que explicarei aqui!

Lucia manda um cheiro!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 50

7 Julho (218)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2019

Luciano, meu amigo, como andam as coisas na sua Bahia mais bela? Por aqui vamos caminhando, cantando, seguindo a canção e achando graça, porque se faltar o riso o bicho pega. E por falar em bicho: Como vai seu ninho de cobras? Pelas bandas daqui, tenho notado que a criação de ovelhas e carneiros diminuiu um pouco, pois faz dias que não avisto os bichinhos caminhando livre, leve e solto pelas ruas e avenidas dessa Enxu querida. – Avenida? Isso mesmo, meu amigo, avenida, pois assim está escrito no endereço da conta de energia elétrica. E por falar em conta de energia, por mais que os encantadores de gente se esmerem em explicar, juro que não consigo entender essa troca de bandeiras. Tem tempo que é verde, tem tempo que a danada amarela e nesse mês de setembro o troço veio num tom encarnado, mais esfomeado do que a molesta. Seu menino, eu ia até falar, mas vou parar por aqui para não “elogiar” a senhora Mãe dos outros.

Amigo, sobre essa troca de bandeiras o que me intriga é ver, da minha varandinha, a danação de torres catadoras de ventos espalhadas a torto e a direito sobre dunas e matas, gritando promessas engabeladoras, e nem sinal das tais bandeiras perderem o ímpeto. Ei, baiano, não se avexe com minhas observações amalucadas, pois são apenas visões de um praieiro que em vez de ficar catando nuvens no belo e infinito céu dessa prainha paraíso, fica dando pitaco em coisas que não entende.

Rapaz, essa semana estive na casa de Ceminha e ao folhear o jornal Tribuna do Norte, cravei a vista numa matéria que falava da nossa falta de interesse nas benesses do grande mar Atlântico, que nos banha. Pois bem, a nota dava conta de que um economista português ajuntou um punhado de interessados, ou desinteressados, sei lá, para dizer uma coisa que seus patrícios de 500 anos atrás já haviam descoberto e até hoje não demos de conta. O portuga disse em alto e bom som, que o potencial costeiro do Rio Grande do Norte é enorme e que até os dias de hoje, por mais que tenhamos trocado o comando do timão, não aproveitamos, ou melhor, desaproveitamos por completo. Ao ler a matéria lembrei de uma palestra que assisti no Sesc, em Natal, com o economista Delfim Neto, na época ministro todo poderoso, em que ele disse que o RN estava lutando uma luta inglória – e hoje está provado -, ao pleitear a implantação de uma refinaria de petróleo, porque a grande redenção desse Estado estava no turismo e no maravilhoso mar que acaricia suas praias. Eh, meu amigo, olhando da minha varandinha o mar emoldurado pelos troncos e palhas dos coqueirais não posso e nem devo deixar de aceitar as palavras do economista português, Miguel Marques, e muitos menos do grande professor Antônio Delfim Neto. Como seria bom se nossos governantes tivessem pelo menos um tiquinho de tempo e vontade para ouvir e falar verdades. Aliás, o tão proclamado Marco de Posse, chantado na praia do Marco/RN, que o diga, porque mais abandono é impossível.

Luciano, mudando o rumo dessa prosa, você acompanhou o moído sobre os “inocentes” livrinhos infantis lançados na feira literária sob as bênçãos de São Sebastião? Se acompanhou, fez bem, pois assim não será pego desprevenido quando algum neto lhe indagar sobre a vida. Se não acompanhou, fez mal, pois perdeu de dar boas risadas com as palavras ditas, escritas e com as afetações de quem canta a música sem nem saber a letra, nem o tom e só sabe entoar o coro. Me contaram que um cabocolinho que comprou, todo falante, um exemplar do tal livrinho, quando chegou em casa o filhinho quis folhear e levou um tapa nas orelhas, pois aquilo não era leitura para uma criança, ainda mais a dele. Vai vendo, viu! Mas fiquei sabendo que quem ficou brabo mesmo foi Seu Quinzinho da Burra, um antigo morador de um povoado distante daqui, pois na adolescência ele sentiu uma queda pela jumentinha mimosa que andava faceira pelas baixas, e depois de ganhar a confiança da bichinha, partiu confiante para uns afagos, amassos e daí para os finalmente foi apenas questão de minutos e um “Ih” mais carinhoso do que o normal. Depois de uns meses o amancebo foi descoberto pelos outros pretendentes da burrinha faceira e a fofoca caiu nos ouvidos do delegado que não contou conversa, mandou chamar Quinzinho e entre perguntas e cacete, fez o pobre namorado entregar o serviço contando coisas de A a Z. O namorador passou uns dias enjaulado, ganhou o agregado no apelido e até os dias de hoje nunca mais passou nem próximo das baixas, mas a saudade é grande daquela a quem tanto carinho dispensou. Pois bem, Seu Quinzinho soube que tem um livrinho ensinando os meninos a chamar uma coelhinha na chincha e que depois de uns alaridos, os senhores do conselho superior deram tudo como certo, justo e encerraram a peleja com pontos para o autor. Agora, Seu Quinzinho, no alto dos seus 90 anos, quer saber quem vai indenizar a desgraça amorosa sofrida nos seus 18 anos. Procede!

Luciano Lopes Guimarães, cabra aventureiro da gota serena, faz tempo que você e a sua mandante Arlene, não dão as caras por essa prainha bela e preguiçosa. Venha, homem de Deus, venha para a gente emendar os bigodes nos bons papos que rolam sob a sobra dessa cabaninha de praia. Venha aproveitar os assopros dos bons alísios de um setembro soprador. Venha que prometo arranjar uma jangada para você traçar rumo até o abençoado e produtivo Cabeço de André, lugar que deixa qualquer pescador abestalhado diante de tanta fartura.

Estou esperando, viu, e já vou colocar as cervejas no gelo!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 49

10 Outubro (26)

Enxu Queimado/RN, 03 de setembro de 2019

Saulo, estava aqui pensando nas coisas dessa Enxu mais bela, enquanto dava umas bicadas numas doses da dita, bendita ou “mardita”, melhor cachaça do mundo, produzida lá no pé da serra seridoense de Samanaú, e rindo sozinho com os muitos moídos que já vivi e presenciei por aqui e foi aí que dei conta que faz tempo que você não dá o ar da sua graça sob a sombra dessa cabaninha de praia. Lembrei de você e também do saudoso e inesquecível Campeão, que adorava ouvir os causos acontecidos nas quebradas dessa prainha arretada de boa. Pois é, meu amigo, o tempo passa, passa ligeiro, segue em frente e deixa o fascínio em forma de lembranças e saudades, algumas boas, outras más, mas quando misturadas, dão o sentido que rege a vida.

Saulo Júnior, como não mirar o maravilhoso coqueiral esparramado sobre a beira mar, e não lembrar das estripulias caridosas de Dona Ana, uma das muitas figuras folclóricas do álbum de Enxu? Dona Ana era avançada demais para uma época em que a inocência nem se dava conta que um dia perderia a razão diante das ideias beligerantes e filosóficas dos intelectuais modernosos. Conta a lenda, que a velha madame, apaziguadora da alma curiosa e irrequieta dos meninos de então, quando o assunto era sobre as formas libidinosas do amor, ela não deixava ponto sem volta. Pois bem, certa vez estávamos em um grupo de bate papos sob a sombra de uma árvore, e ela passa caminhando nos passinhos curtos e lentos dos seus oitenta e tantos anos bem vividos. Ao vê-la passar, Seu Neném fala: – Dona Ana! Ela para, olha e pergunta: – Que foi Neném? – Os meninos estão dizendo que a senhora não dá mais no couro! Ela põe as mãos no quadril, dá uma rabissaca, olha por cima do ombro e desdenha: – Aí, uhuuuuu!!!!! E seguiu sua caminhada, deixando a turma em boas gargalhadas.

Mais uma dose e lá vem a cena acontecida numa noite de Lua nova na estrada que liga Enxu a Pedra Grande. Alma era um rapaz que vivia de comprar pequenos peixes em Enxu Queimado para revendê-los nos povoados mais distantes. Quando terminavam as vendas, Alma se encostava no primeiro balcão de boteco que encontrasse na beira da estrada e entre uma cachacinha e outra ficava de olho aboticado na estrada na esperança de pegar uma carona que o levasse no rumo da volta. Naquela noite o tempo passou rápido na localidade do Alto da Aroeira e nada de aparecer a sonhada carona e assim a cachaça foi duplicando nas ideias, pois fazia poucos dias que Santo, seu velho pai, havia falecido e a branquinha tanto aliviava a dor, quanto aumentava a saudade. Lá para as tantas ele escutou o ronco de um trator e se posicionou na beira da rodagem. O trator, puxando uma carroça, foi chegando, ele pediu parada, mas, Zeca, o tratorista, que vinha guiando no piloto automático, mais bêbado do que o caronista, nem notou sua presença e seguiu em frente. Alma, macaco velho nas artes da carona, apressou o passo e pulou para dentro da carroça, suspirando aliviado, porque já estava perto da meia-noite e a possibilidade de passar outro veículo por ali era difícil.

Quando as luzes do pequeno povoado ficaram para trás, Zeca, de relance, notou a presença de alguém sobre a carroça e gritou: – Quem vem lá? – É Alma! – Alma de quem? – De finado Santo! Saulo, os cabelos de Zeca arrepiaram, ele acelerou o trator até o motor sair do tom e se danou a dar rabos de arraia pela estrada, jogando o trator de um lado para outro, tirando fino nos galhos de jurema preta e nada da Alma desaparecer. E assim foi a correria e o desespero até chegar em Enxu, quando Zeca, já bonzinho da cachaça, meteu o pé no freio, pulou do trator ainda em movimento, olhou para trás e lá estava Alma com os olhos aboticados e gritando; – Zeca, você está ficando doido? Quase me mata, homi! Zeca, quase sem fala e já recuperando a cor, respondeu puxando o que restava de ar dos pulmões: – Fii de uma égua, você que quase mata de susto, seu desgraçado! Segundo contam, depois desse dia Zeca perdeu todos os cabelos da cabeça. Pense num medo!

Pois é, Saulo Andrade dos Santos Junior, meu cunhado e irmão de querer bem, se for contar todos os causos, contos e fatos que fazem parte da história dessa prainha paraíso, é de fazer uma ruma bonita e cheia de graça. Tenho muita coisa guardada na cachola, outras em borrões de anotações e você bem sabe de um bocado, pois entre umas e outras já escutou muitas e riu boas risadas. Mas não custa vir aqui para escutar tudo de novo e rir novamente, pois assim são as coisas boas dessa vida. Aliás, daquela garrafa de Samanaú, a melhor do mundo, deixei sobrar um pezinho de uns quatro dedos, viu! Venha pra gente fechar a contabilidade e venha logo, senão a danada evapora!

Nelson Mattos Filho