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Cartas de Enxu 61

3 Março (34)

Enxu Queimado/RN, 24 de março de 2020

Eh, Cristiano, você viu? Levamos um chega pra lá tão violento que acho difícil continuarmos caminhando com os passos apressados em que vínhamos caminhando até então e custa-me acreditar que seremos pessoas melhores depois de atravessar esse turbilhão.

Amigo, ainda estão gravadas em minha cachola a troca de palavras que tivemos sob as sombras das madrugadas dessa Enxu mais bela, claro que as fartas doses daquele escotch maravilhoso, as taças de vinho, as cachacinhas paraibanas e as latinhas de louras geladas deram impulso ao papo cabeça de duas almas noturnas, que insistiam em contrariar o silêncio, mesmo em sussurros, que ecoava do coqueiral, na vã tentativa de resolver os problemas do mundo. Hoje observando o pandemônio que virou nosso planetinha, vejo que aqueles papos tortos, do começo de janeiro, já sinalizavam coisas estranhas.

Pois é, aquela Enxu que você conheceu, há pouco mais de dois meses, hoje é um povoado, assim como todos nesse mundinho metido a besta que apelidamos de Terra, acabrunhado, espantado e a espera de uma esperança que por enquanto é incerta, porque se depender da vontade dos “homens”, não teremos esperanças.

Mas, rapaz, não se avexe e nem se aperrei com as lamúrias escrevinhadas nesta missiva e nem pense que desejo azucrinar seus miolos com esse papo virótico que rodeia o planeta, pois acredito, diante do bombardeio de fakes, notícias fantasiosas, fantasiadas e afins, que não tenho mais nada a dizer, a não ser o que está posto. Porém, diante de tempos tão tétricos, fica difícil não falar de um momento tão cruel para a história da humanidade, até como forma de registro.

Paulista, hoje atravessei a vereda do coqueiral para ir até a beira mar tirar uns retratos e gostei do que vi e retratei, porque adoro apreciar o estirado de praia, para um lado e para o outro, sem um pé de gente e convidativa para caminhadas de reflexão. Rapaz, estava bonito e gostei de saber que a comunidade está empenhada em espantar a “besta fera” de volta para o buraco de onde ela saiu. Dizem que se o buraco for muito profundo, e encontrar luz no fim do túnel, é bem capaz da danada encontrar o caminho de casa. Será verdade?

Cristiano, tirando os nove fora e deixando a “peste de olhinhos puxados” de lado, essa prainha continua linda e assim que passar a borrasca, estará de braços abertos para acolher de bom grado os visitantes que por essas bandas se aventurarem, porque, como diz um amigo, aqui se dá cabimento a todo mundo. Só não sei se com as mesmas portas de agora, pois do jeito que a coisa está sendo pintada, é bem capaz que muitas delas estejam lacradas. Amigo, ainda não vi uma nota oficial, e sincera, para dar guarida aqueles que labutam nos caminhos do empreendedorismo, especialmente os que ralam e tocam a vida na informalidade. A ladainha que sai da boca de governadores e prefeitos, principalmente aqueles que se engalfinham em luta aberta e malcriada com o Planalto, é só fechação e quem reclamar leva chibatada no lombo.

Amigo, tenho sabença que a peste é perigosa e merece atitudes extremadas, mas você que é letrado na tabuada dos números, me diga como fechar a contabilidade do feirante, do vendedor de cachorro-quente, do pescador, do peixeiro, do vendedor de tapioca, do dono do boteco, do taxista, da manicure, do flanelinha, da lavadeira de roupa, da empregada doméstica, do garçom, do dono do restaurante, do vendedor de cocos, do menino do picolé, do lavador de para-brisa, do marceneiro, do músico das domingueiras, do padeiro, do sorveteiro, do camelô e mais uma danação de profissionais que atuam e dão vida as cidades? Para governantes, ministros, secretários, barnabés, deputados, senadores, vereadores, militares, juízes, promotores e demais agregados das tetas da viúva, a coisa é fácil e basta uma canetada para o salário integral ser depositado no bolso, sem faltar um centavo sequer. Para eles é fácil mandar fechar, prender e até sentar a borracha em quem não obedecer às regras do isolamento. Como foi fácil, e criminoso, durante vários e longos anos, abandonar a saúde pública a própria sorte da população. Sei não, amigo, vai ser difícil bater essa conta!

Cristiano Mendonça Ferraz Luz, paulistano arretado, amigo que boas amizades me deram de presente, desculpe essa cartinha tão cheia de azedume, mas esse momento em que vive o mundo tem nos deixado assim meio sei lá e olhe que estamos apenas no começo do sopro de vento para a formação da onda, que depois que estourar na praia, vem o repuxo.

Amigo, eu e a comunidade dessa vilazinha de pescadores, estamos fazendo nossa parte, só espero que a onda pestilenta, se chegar aqui, chegue feito marolinha.

Grande abraço!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 60

2 Fevereiro (9)

Enxu Queimado/RN, 21 de março de 2020

Capitão, antes de tudo quero desejar um Feliz Aniversário!

Presidente, o que danado deu em você para se meter no meio de tanta falação? Rapaz, desculpe lhe chamar assim de modo tão íntimo, mas como já disse na Carta 43, endereçada a você, mesmo sabendo que jamais seria lida, “lhe vejo tão sem apego aos salamaleques das palavras e do cargo, que resolvi pular os princípios da boa educação e respeito”. Pois bem, deixe de azedume, de cotoveladas, de caneladas, de bananas lançadas ao vento e se avexe em governa com serenidade esse Brasil que merece bem mais do que os arroubos de seu patriotismo.

Capitão, estamos caminhando no rumo batido para o caos e o senhor e seus pimpolhos ficam tirando onda de bacana e se achando no direito bota os pés pelas mãos! Faça isso não homem de Deus! Já que o senhor é homem de fé, peça a Jesus que lhe conceda pelo menos uma lasquinha de serenidade para escutar a voz que vem das ruas, que ultimamente está tão descrente das boas atitudes, que nem barulho está fazendo que preste. O dia 15 de março foi o máximo, as panelas das varandas tentaram falar algo mais, as redes sociais, que o senhor tanto faz uso, mostram os indicadores e mesmo assim nada do senhor entender que o país precisa de governo e nada mais. Veja bem: GOVERNO!

Estou convicto de que sua eleição nos livrou de uma boa, mas daí, fechar os olhos para o desmazelo com a boa conduta de liderança que o país precisa, fecho não, capitão! Vou lhe confessar um segredo: Tinha medo quando via seus filhos dando pitaco em tudo e dando ordem em todos e até achei que na hora “h” o então presidente colocaria ordem na “casa”, porém, meus medos se confirmaram, porque essa cartilha é rezada por qualquer homem público desse país sem nenhuma noção de ética pública. Capitão, o senhor foi eleito para governar uma nação e os seus filhos foram eleitos para cargos legislativos. Por isso, em nome da ética e da moral, que tanto o senhor alardeia, saiba separar as coisas, pois seus filhotes não podem falar, se comportar e nem se apresentar como autoridades do governo. Aliás, são muito malcomportados!

Presidente, não precisa o senhor a todo momento sair trocando farpas e sopapos com a imprensa, porque cada vez mais dará munição para ela, pois o senhor não consegue mostrar nada do bom que o seu governo já fez, faz ou fará pela nação. Seu gabinete de comunicação é fraco, seus marqueteiros são inoperantes, suas falas fogem do contexto e nem a maestria e boa ação dos seus ministros conseguem destaque. A imprensa está fazendo o papel dela, gostemos ou não!

Presidente, o senhor foi eleito com largar, expressiva e inquestionável maioria de votos e nem com toda essa bagagem consegue bater tambor diante de um dos mais inexpressivos Congresso já eleito! O que está havendo, capitão? Mude o tom, mude o rumo do seu mandato ou peça a tolha e corra para o chuveiro, mas não deixe que a nação brasileira seja humilhada e confinada dentro das trincheiras da guerrilha ideológica que só nos diminui. Os fuzileiros do lado de lá estão gostando da guerra, viu! E o que dizem seus generais?

Quanto à imprensa, diante das suas falas atabalhoadas e das aparições no cenário de horror que estamos vivenciando com esse maquiavélico vírus, até que está sendo leve, porque a caneta poderia até ser mais dura. Aliás, quanto a fala do “zero 2” sobre a China, ele pode falar o que quiser, pois é maior de idade, parlamentar – até porque ultimamente os parlamentares não se cansam de rechear os tapetes do Congresso de estrume -, porém, o que não podia era o senhor ter levado a peleja como caso de governo e autorizado o Ernesto tirar satisfação. A paulada que o senhor recebeu dos chineses foi muito bem dada e ainda merecia mais!

Capitão, não me tenha como inimigo e nem lance suas bananas contra mim, apenas peço que pare um momento, reflita, ore, respire fundo, respire novamente, olhe a sua volta, levante, fique em posição de sentido e bata continência para as bandeiras da conciliação e da esperança e deixe que elas tremulem acima da sua razão, respeitando cada voto que lhe deu a vitória, como também os que não votaram no seu nome.

Presidente Jair Messias Bolsonaro, moro numa cabaninha de praia, na paradisíaca Enxu Queimado, litoral do município de Pedra Grande/RN, um lugarejo gostoso, mas tão cheio de necessidades, como muitos espalhados por esse Brasil de meu Deus, e sinceramente não sei o que acontecerá se o Covid-19 resolver chafurdar pelas dunas daqui, mas somos um povo ordeiro e que está seguindo como pode as recomendações oficiais. Quando passar essa calamidade e o vírus do mal voltar para as profundezas de onde saiu, e o senhor quiser conhecer uma prainha bonita, venha dar um passeio por aqui que garanto a moqueca.

Mais uma vez, Feliz Aniversário!!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 59

10 Outubro (268)

Enxu Queimado/RN, 17 de março de 2020

Eh, João, essa vontade que tenho de escrever “cartinhas”, sobre as coisas do cotidiano, as vezes me pega no contrapé e quando percebo, os dias já se foram, os assuntos ficam velhos, as cores desbotaram, os cheiros se perdem no sopro dos alísios e nem o olhar quer mais fazer uso do retrovisor, tamanho é o horizonte que se descortina e já preste a se tornar passado.

Pois é, amigo, comecei esta missiva quando ainda escutava o eco do rufar dos tambores de Momo, porém, sem mais e nem para que, ela ficou adormecida na barra de ferramentas da telinha desse criatório de duendes, que chamamos de laptop, e hoje retomo a escrita, mas fique certo de que tudo que devia estar aqui já escafedeu-se no tempo. Porém, uma coisa terei que confessar, porque na carta anterior, escrita para o amigo Marcelo Vila, me derreti em saudades do maravilhoso sopro de trombone do meu Pai, um folião arretado que não perdia os festejos de Momo e até instiguei a memória para lembrar as estripulias de um professor baiano apaixonado por carnaval e tudo foi se encaixando em um samba mal-acabado de letras e conjugações verbais malamanhadas, mas a folia estava na porta e o bloco tinha que andar, porque a avenida era longa.

Pois bem, havia prometido, isso é, se a cerveja azeitasse nos conformes o peritônio e os músculos das pernas, e dos braços, pegassem a pressão exigida pelos bumbos e clarins, que iria, assim como quem não quer nada, cair na folia, mas como foi uma promessa feita sem muita fé e nenhum santo se apresentou para cobrar a dita, fiquei devendo. Meu amigo, simplesmente perdi a graça com o que hoje chamam de Carnaval. – Se estou ficando velho? – Com certeza! Mas tudo bem, assisti de bom grado tudo o que passou diante da sombra da minha varandinha, levantei alguns brindes a alegria e me recolhi aos encantos do conforto e da comodidade e garanto que foi melhor assim. Pronto, podemos fechar o confessionário e pular duas casas, pois a vida seguiu e corre desembestada pelo mundo feito falação.

Vianey, meu caro, claro que assunto é que não falta por aí e bem que poderia ajuntar letrinhas para cutucar com vara curta o peçonhento Covid-19, o grande vilão da vida moderna, mas o bichim é mandingueiro e mais ligeiro do que o alumeio de corisco, pois de um pisado o danado faz um salto e num piscar de olhos vai de canto a canto do mundo sem nem arrepiar o cabelo e quando alguém dá por visto, o reboliço já é sem tamanho. Pois bem, foi lendo aqui, lendo ali, tentando desanuviar dos malassombros do “malamém” que me apeguei com uma notícia, vinda das terras da Oceania e que me elevou ao céu dessa Enxu mais bela e lembrei das suas falas sobre a linda Serra de Santana, que só conheço de ver de longe, mas que sempre nutri desejo de nela pisar os pés.

João, contam que a ilha de Niue, uma das maiores ilhas de coral do mundo, um estado autônomo em livre associação com a Nova Zelândia, localizada no Pacífico, recebeu recentemente o título de primeiro país de “céu escuro” do mundo, designação que confere ao lugar com a melhor visualização do céu durante a noite e ponto importante de observação de estrelas e planetas. Ora pois, será que os senhores jurados do céu escuro já ouviram falar nas noites de Enxu Queimado, Praia do Marco e Serra de Santana? Acho que não, pois se assim fosse, ficaríamos bem próximo de colocar a mão na taça, se bem que eles não veriam com bons olhos a má localização dos nossos postes de iluminação pública.

A Revista Galileu diz que os polinésios de Niue se comprometeram em reduzir a poluição luminosa e para eles “as estrelas e o céu noturno têm um significado enorme para o modo de vida niuiano, de uma perspectiva cultural, ambiental e de saúde…. e ser uma nação de céu escuro ajudará a proteger o céu noturno de Niue para as futuras gerações de niueanos e visitantes do país.”

Pois, João Vianey de Farias, alguns povos do mundo levam a sério os costumes e selam acordos sinceros e honestos com o futuro dos seus e sempre que por aqui olho para o firmamento, fico entristecido em ver que estamos perdendo a visão do grande manto dos sonhos em troca de uma iluminação sem nenhum compromisso com a razão. Lembro com saudades dos meus primeiros dias na Praia dos Marcos, que não tinha energia, quando ficava na varanda observando o passeio das estrelas e admirando abobalhado a Via láctea. Recordo que em minhas andanças pelas veredas do Seridó, onde está encravada a Serra de Santana, ficava encantado com o brilho enigmático daquele céu, brilho de magia, brilho de encanto, brilho poético, brilho de estupor. Será ainda assim o céu de Santana, caro amigo? Será que céu escuro de Niue se compara ao nosso céu?

João Vianey, rapaz, acho bom você trazer D. Fátima até aqui para tirarmos essa história a limpo diante de um tacho de moqueca, pois acho que botei os pés pelas mãos e me perdi em meio a escuridão das ideias.

Grande abraço!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 58

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Enxu Queimado/RN, 22 de fevereiro de 2020

Eh, Marcelão, mais um Carnaval para alegramos a alma com as boas vitaminas da saudade. Como esquecer, caro amigo, aquele maravilhoso som de um trombone de vara soprado com o coração? Cada nota, cada tom, cada gesto, cada balanço e cada sorriso do trombonista era como bálsamo aos ouvidos e olhos daqueles que assistiam e se deleitavam ao final de cada melodia. Tinha pareia não! Aquele fantástico trombonista era simplesmente divino!

Pois é, amigo, desde que aquele velho músico deixou os palcos da vida terrena e se bandeou para o mistério das orquestras celestiais, os confetes e serpentinas perderam parte do brilho que coloriam nossos Carnavais. Se foram as fantasias, confeccionadas a todo vapor na máquina de costura de Salva. Se foram as feijoadas, as paneladas, os caldos da caridade e os assaltos tão esperados e disputados pelos amigos. Na casa dele, dois assaltos eram famosos e mereciam toda deferência dos anfitriões: A Escola de Samba Asa Branca, do saudoso Severino Guedes e o bloco do jornalista e cronista social Adalberto Rodrigues. Era festa para mais de légua e que enchiam de boas energias o reinado de Momo!

Não tinha como ficar indiferente ao sopro daquele trombone e até a execução do frevo Vassourinhas tinha outra magia. Aliás, todo som que saía da campana daquele trombone era magistral e não tem como lembrar daquele trombonista sem deixar que lágrimas rolem na face, por isso que vou mudar o tom dessa marchinha e deixar que os sons do Carnaval invadam meus ouvidos.

– Mas que som? Pois é, que som! Não mais existem músicas de Carnaval, o que existe é um balaio de gatos de ritmos, se é que podemos chamar de ritmo, e com letras que denigrem as imagens de colombinas e pierrôs, deixando-os rentem a lama do chão e tudo abençoado por um tal de “Carnaval multicultural”, que garanto nem o inventor do tema sabe explicar o que danado isso quer dizer. – Se dá vontade de sair de casa para assistir o Carnaval? Dá não, mas ainda gosto e boto fé que um dia vai aparecer um bom filho de Momo para botar novamente ordem no salão.

Eh, amigo, nesse primeiro dia do Carnaval 2020, amanheci saudoso e ao vasculhar o youtube, em buscar de um frevo para dar um bom dia aos amigos, e ao ver uma apresentação do bom baiano Armandinho Macedo com a Orquestra Spok Frevo, tocando o frevo Último Dia, uma obra-prima, tive que enxugar as lágrimas, principalmente quando entrou o solo do trombone. Aquele vídeo, aquele som, foi demais para um coração folião, nascido, batizado e criado em meio as boas partituras.

Mas Carnaval é Carnaval e aquele velho trombonista gostava de dizer que um Carnaval perdido jamais será recuperado. É pensando assim que sempre lembro de um professor baiano, se não me falha a memória, de nome Edmilson, amigo de Sr. Milton Palma, meu ex-sogro. O professor era um cidadão pacato e durante o ano inteiro dificilmente participava de alguma festa, coisa que na Bahia é quase diária, mas quando começava a folia de Momo, ele comprava um abadá e timidamente ia para a avenida. Na concentração do bloco ele comprava uma cerveja, comprava a segunda, a alegria começava a dar pressão na musculatura, o trio dava o primeiro toque, ele levantava um dedo, o atabaque batia, ele levantava outro dedo e quando dava por si, estava pulando feito doido e só parava na manhã da Quarta-Feira de Cinzas, na Praça Castro Alves, quando o último acorde soava vindo do Encontro de Trios.

Pois é, Eugênio Marcelo Vila, meu amigo/irmão, neste Carnaval dessa Enxu mais bela, acho que vou fazer como o velho professor baiano, vou abrir a primeira cerveja, a segunda, a terceira, esquecer as péssimas músicas que saem dos paredões e quando os músculos pegarem pressão e a cabeça estiver etilicamente azeitada, vou sair pelas ruas e becos dessa bela vilazinha praieira, em busca da paz e distribuindo alegria aos quatro cantos. Se o fôlego e as pernas aguentarem, vou pisar o chão das areias da beira mar e pular na animação das bandas oficiais do evento, entre elas, a Banda Grafitte, vinda lá das dunas natalenses do bairro de Santos Reis. Pois é, apesar da falação de alguns, o Grafitão agita as massas e diante da batida do seu swing, é difícil ficar parado. Claro que não existe um fantástico naipe de metais, como bem merece um bom Carnaval, mas nem tudo é como a gente quer, num é não? Vale relembrar o comediante Lilico, quando cantava assim: “Tempo bão, não volta mais/Saudades de outros tempos iguais…”.

Viva Momo! Viva o Carnaval! Viva Nelson Mattos, o melhor trombonista que já existiu e mais animado folião do mundo! VIVA!!!!!!!!

Nelson Mattos Filho

Prosa de uma noite de verão

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Tem coisas que nós, pobres mortais, custamos a entender e por mais que queimemos os neurônios, mais ficamos batendo cabeça no velho e gostoso, as vezes insosso, papo de dar jeito nas coisas do mundo, mesmo sem saber para que lado fica a porta de entrada e muito menos a de saída. Mas enquanto tiver uma “gela”, uma meiota de cachaça, um pratinho de farofa e um caldinho para rebater, a coisa vai que vai longe.

Pois foi assim que dia desses sentei embaixo da sombra da árvore, que dá frescor ao Cantinho do Ivo, uma esquina divertida onde o moído corre solto, no povoado de Enxu Queimado, e entre uma latinha gelada e outra, alguém puxou do balaio dos assuntos a carta marcada com o consumo de combustível dos automóveis. De pronto e sem pestanejar e antes que eu desse um gole no néctar da latinha em que a esfinge de uma moça faz pose provocante, o ronco dos motores já ia alto e tinha deles fazendo pecaminosos três quilômetros por litro, o que achei uma aberração, pois meu Unozinho me agrada e dá conforto percorrendo 17 km/l. Eita carrinho arretado e valente!!

Rapaz, a discussão foi acalorada, animada, engraçada e incrementada com marcas de carros que dificilmente alguns deles cruzarão as estradas, ruas e becos de Enxu, se bem que de vez em quando passam levas de super possantes riscando as trilhas a beira mar, para cima e para baixo, mas antes que novo assunto caísse sobre a mesa, alguém lascou a frase: “Homi deixe de ser besta, carro bebedor é carro de pobre, carro de rico é econômico”. Pronto, foi a senha para mais uma rodada de cerveja, mas daí, sem mais nem pra que, lembrei de um almoço em São Paulo, quando estive presidente da Associação de Supermercado do Rio Grande do Norte, e que sentei em uma mesa com sete dos maiores empresários supermercadista do país, e lá para as tantas um deles falou da pretensão de comprar um helicóptero e após indicações de marcas e modelos, pois quase todos ali possuía um, logicamente que eu não fazia parte do grupo dos “quase”, o pretendente ventilou saber qual o salário médio de um piloto. Após breve fração de segundos de silêncio, um integrante do grupo dos “quase” sentenciou: “Caro amigo, esqueça, pois você nunca irá possuir um. Qualquer aeronave dessas indicadas nessa mesa custa mais de 4 milhões de dólares e você está preocupado com o salário do piloto!”. Novo silêncio e ainda bem que o garçom chegou com a bandeja de whisky para espalhar o sangue e desanuviar o ambiente.

Hoje vi nas folhas digitais que o magnata Bill Gates, criador dos duendes, fadas e dragões que dão vida a essa ferramenta que escrevo, tirou a carteira – será que ele usa isso? – do bolso e comprou um iatezinho maneiro por, segundo os fuxiqueiros, 600 milhões de euros. Pechincha! O brinquedinho de Bill, quando sair do estaleiro, terá 112 metros de comprimento, cinco andares, capacidade para acomodar 14 passageiros, 31 tripulantes e autonomia para navegar 3.750 milhas náuticas com as 56 toneladas de hidrogênio líquido distribuídos em 2 tanques selados a vácuo e resfriados a -253º C. Isso mesmo, hidrogênio! Será o primeiro iate do mundo movido com esse combustível, ou melhor, um barco, segundo o estaleiro, que pretende construir um futuro melhor e criar inspirações.

Agora me diga: Se o barco for mesmo do Bill Gates, parece que não é, pois o estaleiro construtor já se adiantou em negar, mas cruzando os dedos para que seja verdade, ele quer lá saber quanto custa um litro de hidrogênio líquido? E o salário do comandante? Porém, o Bill pode não querer saber, mas os frequentadores do Cantinho do Ivo, com certeza querem, além de ser um bom motivo para tomar umas cervas geladas, e por isso já vou me assuntar e me danar a fazer a conta para puxar a carta no próximo encontro. Se um litro de hidrogênio líquido, na Europa, custa em torno de 3 euros, para Bill encher o tanque irá desembolsar, no barato, um prêmio acumulado de Mega-Sena para soltar as amarras no Porto de Natal e atracar em algum porto argentino. – Ah, sim, o salário do comandante: Se ele me convidar, faço um desconto e fecho baratinho. – E ele pagaria? – Sei lá, acho que sim, pois acho que Bill faz conta disso não, além do mais, acho que ele ficaria tiririca da vida se um colega de mesa fizesse a mesma sentença que fez o outro do helicóptero.

Quanto ao consumo, sei dizer nada não, porque meu negócio é barco a vela, mas parodiando o amigo da mesa do Cantinho, digo: – Homi, barco bebedor é barco de metido, barco de rico de verdade, consome pouco! Foi assim que certa vez estava com o Avoante no píer da marina de Itaparica/BA, e atracou uma lancha com cinco motores de popa, com 225 Hp cada um, vindo de uma pescaria. Como quem não quer nada cheguei perto e para matar a curiosidade, perguntei ao proprietário: – Essa lancha consome muito? Ele respondeu sem nem olhar para mim: – Sei não, só mando encher e pago! Pegue besta!

Nelson Mattos Filho

Projeto Uma Palavra

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Dia 26 de janeiro o Projeto Uma Palavra teve seguimento com a palestra da enfermeira Silvana Aparecida de Oliveira, minutos antes da assembleia geral da Colônia de Pescadores de Enxu Queimado, acontecida naquele dia. Silvana atendeu nosso convite e se propôs a bater um papo com a comunidade e escolheu o tema Prevenção do Câncer de Próstata, assunto que, apesar do calor de um verão escaldante, deixou o auditório atento.

O Projeto Uma Palavra foi idealizado para “usar e abusar” dos conhecimentos profissionais, artísticos e culturais dos amigos que veem a nossa casa, para voluntariamente levar boas informações aos moradores da aconchegante praia de Enxu Queimado/RN, que sempre nos acolheu tão carinhosamente.

Silvana, em nome da comunidade, agradeço a atenção e obrigado por dividir com a gente um pouco dos seus conhecimentos.

Nelson Mattos Filho

31/Janeiro/2020

Cartas de Enxu 57

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Enxu Queimado/RN, 26 de janeiro de 2020

Carlinhos, como navegam as coisas em sua velha e boa Bahia? Tenho acompanhado tudo pelos buxinhos que escapam das linhas imaginárias que cruzam as cartas náuticas e que denunciam os rastros dos navegantes abençoados pelo Senhor da Colina Sagrada. Diante de tudo que chegam aos meus ouvidos, trazidos pelo eco dos ventos, defino que tudo vai bem, se bem que algumas coisas precisam de correções. O que seria da navegação se não existissem as correções, não é mesmo? Cabral que não as fez, acabou num sabe onde e condenando um povo a caminhar sem chegar a lugar nenhum. Aliás, ainda estamos nos descobrindo e com vontade de cobrir tudo novamente, porque a correção está difícil.

Amigo, tenho andado pouco por aí, pois essa vidinha de praieiro deixa a gente assim meio paradão. Não sei se é por causa do ar da praia, do marulhar das ondas, do bailar das folhas dos coqueiros, da observação das jangadas entre idas e vindas, dos alísios que por aqui transformam tudo em poesia ou simplesmente do calor apetitoso do Sol, que é um convite para um delicioso mergulho no mar de Enxu, mas é assim, a inércia tomou conta de mim e se não fossem as viagens a Natal, que me desloco de vez em quando para dar um cheiro em Ceminha, os passeios pelo mundo seriam apenas pela telinha brilhante do aparelhinho de celular ou na telona desse computador de mil e uma utilidades. Até meus escrevinhados ficaram raros e embalados no velho papel que se embrulha o deixe para depois, mas vou seguindo assim e quem sabe um dia dona inércia resolve tomar tento e passarei, novamente, a olhar o horizonte com o olhar de curiosidade. Quem sabe!

Meu amigo, escuto dizer que nos dias de hoje não é preciso sair batendo perna para conhecer e saber das coisas do mundo, porque tudo está muito bem nítido no bombardeio de informações que estamos recebendo instantaneamente e sem ter tempo nem de piscar o olho, o que é uma verdade não verdadeira, pois no mundinho digital, a mácula da desinformação exime o ônus da prova. Porém, digo que diariamente varo o mundo sem sair do lugar e ainda fico cansado, porque a caminhada, nas veredas das ondas internéticas, tem que ser ligeira, pois se vacilar, o bonde passa e o próximo é outro papo.

Comodoro, ultimamente minhas andanças estão voltadas para descobrir os caminhos que cercam essa prainha paraíso, que não são poucos, porém, esquecidos e incrivelmente abandonados. Enxu Queimado, no alto de seus 90 anos, tem um acervo paisagístico riquíssimo e uma maravilhosa história tendo o mar como pano de fundo. O Município de Pedra Grande, base desse pequenino povoado praia, e os distritos que lhe servem de satélites, foram aquinhoados com fascinantes tesouros naturais que se estivessem fincados em outros locais, ou mesmo países mundo afora, seriam bem vistos e valorizados. Na época das chuvas temos lagoas de águas cristalinas entre as dunas, assim como as que dão fama aos Lençois maranhense. Temos grutas subterrâneas como poucas no mundo. Uma fauna, apesar das ações desastrosas do homem, de fazer inveja a muitos parques ambientais. Uma flora exuberante e que de tudo dá, desde que se plante. E um povo dotado de um exuberante calor humano. Trilhas fabulosas, ornamentada por fábulas fascinantes, por entre a mata da caatinga. Tudo isso temperado por um clima maravilhoso e sem falar que foi nessas terras que oficialmente o Brasil teve início, em 7 de agosto de 1501.

Pois é, meu amigo Carlinho, muito do que escrevo aqui já foi dito em outras Cartas de Enxu, mas tem coisas que nunca é demais contar mais de uma vez e outras tantas forem preciso, para não caírem no esquecimento, ainda mais em uma região tão cruelmente desassistida. Costumo dizer que hoje vivo no Brasil real, como era real aquele Brasil em que vivi a bordo do Avoante, em que a fala das promessas se perdem no vazio das ações. Essa semana os portais de notícias deram conta de que a China, que enfrenta uma grave e mundialmente preocupante epidemia do coronavírus, surto que tem deixado a medicina feito barata tonta, está construindo um hospital com mil leitos, que deve ficar pronto em seis dias, somente para atender os casos diagnosticados. Diante da notícia tão valiosa e de priorização com saúde humana, olho para as nossas Unidades Básicas de Saúde, muitas delas há anos ainda em fase de projeto e construção, e as que estão em funcionamento, com indecifráveis faltas de equipamentos, medicamentos e estrutura de pessoal, e indago: – Poxa, Seu Cabral, porque não corrigiu a rota de suas Naus?

Carlos Santana, ou melhor, Carlinhos do Xéu, tenho saudades da sua Bahia e da alegria carinhosa do píer do Angra dos Veleiros, um dos portos seguros do Avoante na terra dos Orixás. Ainda lembro de suas palavras certa vez em que atraquei no Angra: – A alegria voltou! Sejam bem-vindos, Nelson e Lucia! Pois é meu amigo, quero dizer a mesma coisa no dia em que você chegar sob a sombra dessa nossa cabaninha, mas não se avexe, pois garanto deixar os assuntos comentados nessa cartinha, bem longe da sua alegria contagiante.

Grande abraço e antes do ponto final, digo que a Lua iniciou a fase de crescimento e a Lua cheia por aqui é linda. Venha conferir!

Nelson Mattos Filho