Arquivo da tag: praia de enxú-queimado

Cartas de Enxu 41

4 Abril (145)

Enxu Queimado/RN, 23 de maio de 2019

Sabe, Jorginho, a escritora britânica Virginia Woolf, (1882-1941), certa vez disse que, “Sem alguém cálido e respirando do outro lado da página, as cartas são inúteis”.

Sob as sombras avarandadas da minha cabaninha de praia tenho escrito as Cartas de Enxu, com o intuito de contar um pouco das coisas desse pequeno povoado praieiro encravado sobre as dunas do Rio Grande do Norte, como também comentar sobre o cotidiano desse mundo velho de guerras, lutas e manias. As cartas são endereçadas aos amigos, familiares, conhecidos, jornalistas, autoridades e hoje é para você, cabra bom que tenho a alegria de ter como amigo desde os tempos de menino, vividos no território livre da confluência das ruas Conselheiro Brito Guerra e Almirante Teotônio de Carvalho, no velho e gostoso bairro do Tirol, em Natal/RN.

Eh, meu amigo, algumas destas cartas vagam por aí e não conseguem chegar ao destino, ou se chegam, passam despercebidas e é nessas horas que lembro da frase da escritora britânica, mas não me entristeço, porque o propósito é deixar registrado o cotidiano da vida vivida em um minúsculo e aconchegante povoado litorâneo, durante o tempo que ele tiver a boa vontade e o carinho de me acolher. Quanto ao endereçado, é apenas uma forma de homenagear pessoas que quero bem ou chamar a atenção de outros para causas importantes. Hoje a carta é sua, Jorginho, e como sei que você, além de doutor dentista afamado, é um homem que olha para o mar com amor e respeito, vou adiantar que por esses dias do mês de Maria, as águas atlânticas, por aqui, estão numa boniteza mimosa de fazer cair o queixo dos mais céticos.

Doutor, nos últimos dias tenho ouvido falar que o nível dos oceanos está subindo feito rio que vem em cheia desenfreada e os meninos das ciências já apostam que a previsão anunciada para o ano de 2100, que era de quase um metro, pode ser dobrada. Se assim for, acho bom você se apressar para vir conhecer Enxu antes que Netuno invada com suas tropas. O alerta da ciência bate na velha tecla do tal efeito estufa, porém, os prognósticos são tão alarmistas e extremados que está difícil fechar essa conta. De uma coisa eu sei, por aqui o mar tem avançando um bocado e vem caminhando a passos largos.

Amigo, já que falei em um problema ambiental, falarei de outro. Dia desse ouvi buchichos sobre uma cerca fincada ao longo de um terreno e que esta está impedindo o tráfego de veículos a beira mar, quando a maré está alta. Ora, mas quem disse que dunas e beira de praia são vias trafegáveis para automóveis? Faz tempo que as autoridades da terra de Poti precisam assumir a responsabilidade de proibir o uso das praias para tráfego de veículos. Na grande maioria dos Estados brasileiros, inclusive nordestinos, não é permitido. O dano ambiental é enorme, irreversível, além de ser um eminente atentado contra a vida dos banhistas. Eh, meu amigo Jorginho, nos últimos dias o Brasil falou tanto em educação, mas parece que tudo foi dito apenas para florear perfis nas mídias sociais!

Amigo, esse tema merece ser discutido com mais seriedade pela sociedade e o poder público não pode simplesmente virar as costas e deixar que o tempo descida. As areias das praias do litoral Norte do RN é uma verdadeira avenida em que cabe tudo e mais um pouco. Não existe fiscalização, não existem regras, não existe respeito com o banhista e quem se incomodar que vá procurar o bispo. Diariamente trafegam por essa grande e livre avenida, enormes comboios de automóveis tracionados cometendo festivas agressões ao meio ambiente, com patrocínio de grandes marcas famosas. Alguém haverá de indagar sobre o ganho turístico e monetário para os lugares por onde passam os comboios e direi que, não existe ganho turístico, nem monetário, quando o meio ambiente é sistematicamente degradado!

Meu caro, Jorge Leite Dantas de Rezende, essa missiva pode até estar meio macambúzia, mas tem dias que precisamos descarregar sentimentos e para isso, nada melhor do que o ombro de um amigo e digo mais: Não se apegue as minhas lamentações para arranjar motivos para não vir até aqui, ainda mais você, um exímio pescador e conhecedor das lamurias da mãe natureza. Sei que adoraria estirar o esqueleto em uma rede armada sob a sombra da varanda, de frente para o coqueiral, jogar conversa fora saboreando uma branquinha, degustar umas postas de peixe frito, acompanhado com aquele vatapá maravilhoso que somente Lucia sabe fazer.

Venha, traga a esposa e as meninas, porque sei que ficarão maravilhadas com essa prainha encantadora. Traga seu irmão, Flávio Rezende, o mais novo retratista do pedaço, para ele entupir as lentes daquela Canon com fragmentos do que há de mais bonito no mundo.

Nelson Mattos Filho

Anúncios

Cartas de Enxu 40

8 Agosto (37)

Enxu Queimado/RN, 16 de maio de 2019

Mauricio, hoje ao escutar o zumbido do silêncio que faz eco por entre as palhas dos coqueirais que varrem as sobras da noite, enveredei por minhas filosofias de varanda e me enganchei pelas veredas que levam ao nada. Das janelas da cabaninha de praia olho para a floresta de geradores eólicos que cercam essa Enxu mais bela e fico matutando em que lugar do tempo e do espaço mora o futuro. Será que algum dia a humanidade encontrará com ele? Qual a cara do futuro? Será que é novo, será que tem meia idade ou será que ele é um velho rabugento, metido a novo e pinta os cabelos de acaju? Meu amigo, vejo o futuro como um ser tão arisco que quando pensamos que chegamos a ele, o danado se vai e só nos resta olhar para frente e mirar o passado. Pois é Maurição, pense nuns pensamentos amalucados que fui achar de pensar! Mas como você faz parte do grupo de pessoas que escavaca as novidades do mundo computacional, me avexei a escrever esta carta, pois sei que de futuro você entende.

Mauricio, cabra bom, antes de continuar com meu moído filosófico, futurista e amalucado, vou mandar um cheiro para Dona Regina e quando você tiver um tempinho para tomar aquela gela na varanda do Aratu Iate Clube, olhando para o maravilhoso pôr do sol, tome uma por mim e dê um abraço na baianada que por lá se deleita. Pois bem, vamos falar do futuro.

Rapaz, desde que o Brasil se danou a estocar vento, que se não estou enganado tudo começou nas terras da Iracema, pelo menos foi lá que vi os primeiros cata-ventos, escuto falar que enfim chegamos ao futuro. Os primeiros totens cearenses deram cria e hoje seus descendentes se espalham pelo país, produzindo feito coelhos. O Rio Grande do Norte tomou gosto pela coisa e, segundo dizem, fincou o pé e tomou a dianteira na produção de energia eólica. Dizem que pelas terras de Poti está implantado o que existe de mais moderno na seara eólica e foi daí que fiquei criando interrogação no juízo. Escarafunchando pelos atalhos da “grande rede” fiquei sabendo que os galegos da Holanda estão fabricando uma turbina de energia eólica que é uma monstra e tem pareia não. Os holandeses garantem que a bichiguenta, apenas umazinha, terá capacidade de produzir energia para alumiar umas dezesseis mil residências e mais uma danação de bico de luz. Danou-se! A monstra terá 260 metros de altura, o rotor 220 metros, cada hélice terá 107 metros de comprimento e produzirá 45% mais do que qualquer turbina que esteja hoje em funcionamento. Foi aí que ao terminar de ler sobre a holandesa comedora de vento, mirei o parque eólico de Enxu e não vi nem a sombra e nem o vento do futuro.

Eh, Mauricio, esse tal futuro é mesmo escalafobético e ai daquele que tentar passar-lhe a perna! Dia desses chegaram por aqui umas Naus tripuladas com uns marinheiros fantasiados de bacanas, que se diziam donos do mundo e da razão, só prumode tinham nas mãos uns trabucos que pipocavam fogo e amostravam um tal brazão de um tal reino de além-mar e num papo torto para entortar cabeça de índio, meteram os pés pelas mãos e nesse blá, blá, blá, entre uma cachimbada e outra, afirmaram que vinham do futuro, mas nas cartas que enviavam para lá diziam que o futuro era aqui e ele estava nu. Pois é, meu amigo, no espaço entre o passado, o presente e o futuro dessa história meio engembrada, cabe todo tipo de conto e até hoje – que não sei mais se é presente, futuro ou passado – quem conta o conto aumenta um ponto e o que era futuro virou passado e tudo indica que continuará passado e malpassado, pois do que foi passado ninguém conta e do futuro ninguém quer saber, porque todos vivem o presente e este não tem passado e nem futuro. Vixi, agora lascou em banda e nem eu estou entendendo mais nada!

Maurição, hoje a Lua está crescente e toda mimosa fazendo fita no céu. Ei, amigo, o luar por aqui é bonito de se ver, viu! Se eu fosse tu, pegava o beco e vinha dar uns bordos por aqui para comer umas postas de peixe fresquinho da silva. Se bem que os escamudos estão meio arredios e as produções andam poucas. Mas pelo menos dá para a gente arranjar uma dúzia de caíco para colocar na panela do escaldaréu, para comer na mesma moda que os pescadores comiam antigamente, sentados no chão da praia, com uma garrafa de cachaça enfeitando a areia e a Lua luminosa prateando o arredor. Eh, moonlight, curto o presente, adoro a vida que se vivia no passado, pois não conheço o futuro. Se for aquele que está chantado na Praia do Marco, não vale, porque futuro ele nunca teve. Homi, deixa pra lá!

Luis Mauricio Vila, cabra arretado de uma Bahia de mar e cantorias, estou com saudades da sua alegria e das boas risadas. Pegue sua Regina e venha ligeiro ver a vida como ela é e merecer ser. Venha, meu amigo, e venha logo, pois Enxu Queimado fica de cara e de peito aberto para o paraíso.

Vou botar a cerveja no gelo, viu!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 39

11 Novembro (107)

Enxu Queimado/RN, 09 de maio de 2019

Caro amigo, Fernando, bem que poderia juntar letras e escrevinhar sobre jangadas, paquetes, botes, redes e balaios de bicudas gordas, coisas que em Enxu são de belezas infinitas. Poderia falar sobre a imensidão de dunas brancas que cercam o lugar ou ainda dos quilômetros a fio de belas praias encantadas que se estendem até onde a vista alcança. Poderia falar das paneladas de escaldaréu degustadas nas noites a beira mar, acompanhado de deliciosos bate papos e cerveja, como diria o rei do baião, escumando, porque diante da força da brisa noturna dos alísios daqui, não tem gelo que dê conta. Quem quiser tomar cerveja gelada que adiante o passo nas goladas. Poderia falar sobre muitas coisas do cotidiano desse povoado praieiro tão mágico e tão incompreendido, mas vou me atrever a falar de coisas que me enchem de tristeza e desalento, porém, não se avexe e nem me queira mal por carregar essa cartinha com coisas dos pecados dos homens.

Amigo, você ainda lembra daquele dezembro de 2018, quando esteve por aqui? Pois é, naqueles dias andamos um bocado pelas estradas vicinais que traçam picadas por entre os lugarejos que povoam essa região de porta de entrada do sertão e lhe mostramos um Brasil que o Brasil desconhece, mas que é o mais simples e desnudo Brasil real, onde tudo é nada e nada é tudo. Você gostou tanto do “tour” que no dia seguinte embarcou no bugre bala de Luciano e foi ter um passeio de certezas e incertezas pelas dunas até a paradisíaca praia de Galinhos. Agora cá pra nós: Aquele bugre merecia uma participação especial nos filmes de Mad Max, num é não? Pois é, Fernando, aquelas estradas continuam igualmente você viu e irão continuar iguais por muito tempo, porque foram condenadas a uma vida de promessas e quando entra nesse departamento é difícil achar a saída.

Fernando, sei que você gostou daqui e até confessou em um áudio que me deixou feliz e emocionado, pois colocou Enxu um degrau acima de Gostoso, dois degraus arriba de Galinhos e quase emparelhou nossa prainha com a mutante praia de Pipa, afamada que só a peste. Claro que você queria nós agradar com as palavras de altivez e agradou tanto, que até hoje, sempre que tenho oportunidade, faço ecoar seu testemunho. Ei, você sabia que o município de Pedra Grande, do qual Enxu Queimado é distrito, completou neste mês de maio 57 anos de emancipação? Pois foi! Em maio de 2018 escrevi a Carta de Enxu 24, a amiga Lourdinha, e depois de relê-la posso dizer que em um ano nada de novo foi acrescentando e muito foi diminuído, apesar da monstruosidade do parque eólico que aqui gera energia, impostos e empregos. Aliás, comparo as empresas eólicas que usufruem das benesses dos ventos que varrem essa região, com gigantescas sanguessugas, porque sugam até as entranhas do que podem e em troca oferecem míseras migalhas em benefícios e ações sociais. Se os governantes não abrirem os olhos, muito em breve não teremos nem a estrada RN 120, que está praticamente intrafegável, insegura, sem sinalização, sem um mínimo de fiscalização e diariamente recebe dezenas de carretas com largura suficiente para tomar todo o espaço da estrada e carregadass com pesos desaconselháveis para uma via tão precária.

Rapaz, de vez em quando escuto falar em um tal Motores do Desenvolvimento do RN e fico a matutar o que danado é esse bicho! Será que os tais motores bateram biela antes de funcionar? Se a região que dizem ser a maior geradora de energia eólica do País está em situação periclitante, imagine o restante. Não dá para acreditar que paragens com tanta importância em uma área segurança nacional, que emprega milhares de funcionários, ocupada por gigantescas corporações industriais, não conte com um hospital bem equipado, não mantenha suas cidades, cercanias e estradas bem policiadas, não tenha um projeto bem elaborado de capacitação profissional e todas as cidades envolvidas estão situadas no Índice de Desenvolvimento Humano baixo. Pedra Grande ocupa a 5066ª posição entre os 5.565 municípios brasileiros.

Eh, meu amigo Fernando Rabello Sessler, velejador de primeira linhagem, como disse na abertura dessa missiva, queria falar de coisas belas e encantos praieiros, porém, hoje acordei meio sei lá e ao olhar o coqueiral de fronte a minha cabaninha de praia, senti que o bailar das palhas estava com cadência entristecida. A natureza é sabia e mestre em emitir razões em forma de sinais. Nada passa despercebida de suas leis e suas sentenças são enigmáticas. Na história de Adão e Eva o paraíso foi oferecido e bastava que zelassem pela sua manutenção, mas o Casal botou tudo a perder ao sentir o cheiro e provar do sabor de uma doce e apetitosa maçã.

Fernando, não se deixe levar por estas palavras de desabafo pecaminoso, porque elas não levarão a nada. Venha passar mais alguns dias se refrescando nos alísios desse litoral encantador para colher novas experiências de um Brasil quase esquecido. Venha meu amigo, venha que garanto nova rodada de escaldaréu e a velha rede armada na varanda!

Nelson Mattos Filho

Cidadania

20190328_12001820190422_085718

“Não é a primeira vez e nem será a última”, assim diz o ditado e assim vamos levando a vida entre trancos e barrancos, mas sem esquecer de sermos felizes, pois se assim não for, seremos engolidos pela máquina de moer paciência.

A praia de Enxu Queimado/RN é sim uma comunidade pacífica e extremamente condescendente com aqueles que não lhe doam um mínimo de atenção – a não ser quando estes estão a vislumbrar a purpurina dos resultados das urnas eleitoras -, mas se não fosse esse relativismo, poderia, com toda propriedade, fazer parte do seletíssimo grupo de lugares no mundo em que se colhem os frutos do turismo consciente, amadurecido, diferenciado, respeitoso, educado, de bem com as causas ambientais e que norteia o bem estar da população local. A praia é dotada de beleza ímpar e áurea inspiradora, mas a moldura está maltratada e corroída pela falta de zelo.

Há anos a comunidade convive com o fantasma de uma tragédia anunciada e que até já ceifou uma vida, mas a morte passou sorridente, o choro cessou, a piedade esmoreceu, o medo se foi e o fantasma continua tranquilamente na espreita.

Como em todo e qualquer pequeno povoado brasileiro – juro que não sei se o problema é recorrente mundo afora – a fiação elétrica dos postes não tem o padrão de altura determinado pelos manuais de segurança. Cada empresa de serviço que utiliza os postes, coloca sua fiação de acordo com a cabeça oca de quem executa o serviço e dificilmente aparece algum responsável pela ordem pública para conferir o que foi feito. O que mais se vê por aí são ruas, becos, vielas e avenidas, cruzadas por fios tão baixos que se brincar servem até como varal de roupas e Enxu Queimado não foge à regra, mas deveria, porque é uma praia de enorme potencial pesqueiro, e por isso recebe diariamente caminhões baús refrigerados, e tem sobre suas dunas e matas de caatinga um gigantesco parque eólico e por isso em suas ruas estreitas circulam, irresponsavelmente, grandes carretas e monstruosos equipamentos de guindastes. Quando não é isso, de vez em quando ainda aparecem enormes ônibus que servem a cantores e bandas de forró e aí a zorra está formada!

Pois bem, em um período de quinze dias a fiação de telefonia, estirada irresponsavelmente sem padronização de altura sobre a rua principal de Enxu Queimado, foi arrancada por enormes caminhões e graças a Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira do lugar, não foi fiação elétrica, porque se assim fosse, o desastre estava feito, porque no primeiro acidente, que nem foi notado pelo caminhoneiro e mesmo se fosse ele teria ido embora do mesmo jeito que foi, sem dar satisfação a ninguém, porque não tinha a quem, a fiação ficou estendida no chão por uma semana. Mal a bagaceira foi concertada, outro caminhão, seguindo o mesmo modus operandi do primeiro, arrancou novamente a fiação, que assim permanece até o dia de hoje, 22/04/2019. – Denunciar a quem? – Rapaz, tenha fé em Deus!

Claro que a administração pública não fará o serviço, até porque não tem pessoas especializadas e nem a fiação lhe pertence, mas bem que poderia mandar uma equipe para isolar a área e acionar os responsáveis para que vidas sejam preservadas e alguma tragédia não venha a acontecer. Uma fiação arriada sobre qualquer via de circulação de pessoas ou automóveis, representa perigo eminente, mesmo que não seja energizada. Basta que um motociclista seja atingido, um carro esbarre, uma pessoa seja enlaçada ou por outros motivos o poste seja derrubado, os responsáveis, diretos e indiretos, serão denunciados e pagarão por suas faltas.

Que Nossa Senhora dos Navegantes nos proteja e ilumine a mente dos homens!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 36

2 Fevereiro (165)

Ângela, não sei se é verdadeiro o conto de que nascemos com o plano de vida traçado em algum lugar entre o Céu e a Terra e por mais que tentemos mudar nosso destino, não tem como. Mas como duvidar do conto, se quando começamos a caminhar no labirinto, o máximo que conseguimos é chegar a uma imensa e indecifrável clareira onde tudo casa com tudo sem nem sabermos o porquê? Amiga, aquele carequinha era o máximo e não tem como deixar de agradecer Aquele que traça o destino das pessoas, em ter cruzado o de vocês com o nosso.

Sabe, amiga, a vida nessa praia paraíso continua caminhando na paz e na tranquilidade e lembra um pouco Terra Caída/SE, aquele pedacinho do Céu debruçado sobre os rios Piauí e Cajazeiras, só não tem o Zé de Teca, porém, tem uma trinca de cabocos resenheiros que se brincar, deixa Zé segurando o queixo. Pois veja só: Certa manhã, depois de uma madrugada de relâmpagos e trovoadas, sentei para papear com uns amigos e o assunto não poderia ser outro a não ser o riscado dos coriscos que lumiaram a noite e o ronco surdo de Thor. Lá pras tantas, alguém afirmou que primeiro vinha o trovão e em seguida o clarão do relâmpago. Tentei corrigir a crença do amigo e por mais que eu argumentasse que primeiro vinha o relâmpago e logo após o trovão, porque a luz é mais rápida do que o som, não teve jeito, pois naquela roda de bate papo todos estavam convencidos que o som vem primeiro do que a luz. Teve até quem dissesse assim: – Menino, quando a gente solta um peido de velha primeiro vem o pipoco e só depois aparece o fogo do traque. E vou confessar uma coisa, viu amiga: Pois num é que saí daquela resenha quase convencido que eu estava errado, tamanha era certeza dos debatedores. No próximo encontro vou perguntar se a Terra é redonda ou plana só para ver o circo pegar fogo. Vai ser onda, viu!

Amiga, nesse mundão sem fronteiras e com a rede de computadores emitindo dados e notícias a cada milionésimo de segundo, por mais isolado que seja o recantinho do planeta o zumbido chega e chega ligeiro e nem uma redinha preguiçosa e despretensiosa, estirada em uma varandinha de praia, serve de trincheira para um vivente se esconder. Pois veja só, estava eu sobre a varandinha, maravilhado com a história de São Lucas, no livro Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldell, quando me deu na telha de pegar o celular, bicho anunciador de boas e más, e na telinha apareceu a notícia de que o presidente dos ianques, Donald Trump, em discurso cutucou os defensores da energia eólica e disse que o barulho emitido pelas pás e turbinas geram câncer. Não é preciso dizer que a largada do galego deu o que falar mundo afora, mas da minha varandinha fiquei a matutar ao olhar para a floresta de “moinhos de vento” que por aqui se estende além de onde a vista alcança e mais um pouco: – Agora danou-se, e se esse “topetudo” estiver certo? Dia desses uma amiga que mora no povoado do Alto da Aroreira, parede e meia com Enxu, disse que tinha horror do barulho constante das torres de eólico, que cercam o lugar. Disse que aquele zumbido surdo dava até dor de cabeça e que muitas vezes não conseguia dormir. – Vai vendo, amiga, vai vendo!

Pois bem, deixei o alerta do galego para lá, pois o danado é dado a falar pelos cotovelos, se bem que acerta quase todas. Lembra do atentado na Suécia? O bixiga só errou a data! Pulei a tela e diante da notícia seguinte encolhi os olhos para ler o que achava que não estava lendo. O STF, que agora se avexou a cesurar a boca e os dedos do povo e a emitir ameaças veladas a torto e a direita, deu carta branca para o sacrifício de animais nos terreiros de umbanda, sob alegação de cunho religioso, cultural e histórico. Cada qual com sua fé, mesmo que seja torta! Agora me diga, Ângela: – E se o santo pedir o sangue, como tem acontecido por aí, de uma pessoa, será que também está dentro da permissão dado pelos senhores supremos?

Eh, amiga, esse mundo está virado de ponta cabeça, ou melhor, sempre esteve. E falando de sacrifícios de humanos: – Você viu que nos Andes encontraram centenas de esqueletos de crianças, coisa feita pelos Incas? Os estudiosos relativizam e dizem que as crianças eram sacrificadas para que os deuses abrandassem os efeitos do El Niño. Será que naquela época tinha STF naquelas montanhas de frente para o Pacífico? Sei lá! E pior é que o danadinho do El Niño e sua irmãzinha querida, continuam dando as cartas e mandando ver nas coisas do tempo, isso quer dizer que as crianças incas morreram por nada. Tem muito pecado em meio a fé!

Pois é, Ângela Cheloni, essa missiva era para falar das coisas dessa Enxu mais bela, mas fui inventar de curiar o celular e me perdi por entre as vias marginais das histórias mal contadas, mas tudo bem porque tudo vale quando se quer puxar conversa com uma amiga.

Beijo e não demore a voltar por aqui, viu!

Nelson Mattos Filho

Feira de arte e cultura em Enxu Queimado

20190311_180511O grupo Mulheres Conquistando Autonomia, da Praia de Enxu Queimado/Pedra Grande, realizará no próximo final de semana, 15 e 16/03, a 1ª Feira de Arte e Cultura da Praia de Enxu Queimad0 – FECAPE. Evento que tem como meta divulgar a cultura e os sabores de uma das mais belas praias do Rio Grande do Norte. Uma excelente oportunidade de conhecer um pedacinho do paraíso!

 

Escritos de uma segunda de Carnaval

IMG_20190304_103525_112

O Carnaval já vai alto pelas dunas e coqueirais de Enxu Queimado e pelo eco das músicas – músicas? – que invadem o povoado, poderíamos até dizer que é mais um Carnaval que se vai sem deixar saudades, mas aí seria demais, porque cada geração tem suas músicas preferidas, porém, nem todas tiveram a alegria de ter vivido os tempos dourados dos geniais compositores e letristas. Mas tem nada não, enquanto os gênios ficam esquecidos, sem querer, vamos cantarolando uma tal de Tu Tá na Gaiola, com “versos” que dizem assim: “…Ei, tu tá na gaiola….Cheiro de maconha boa….Várias piranha jogando….Ei, tu tá na gaiola….Vem sentando na piroca….Ei, tu tá na gaiola….Vai descendo a buc….tá na gaiola…”. Enquanto o tal Mc Kevin, emplaca sua loa de violação, as novinhas e os defensores dos direitos da mulherada, fazem coreografias em frente aos palcos e paredões Brasil afora! – E depois? – Ora, depois é outro dia!

Eita que esse mundão tá virado num traque e o Mc Kevin é apenas um tiquinho de nadica de nada em meio ao fogaréu da fuleragem e sua “música” foi feita apenas para um verão e ponto final e quem achou ruim, é porque nem advinha o que virá amanhã. Deus é mais, ou menos, já nem sei mais!

E por falar em fogaréu, os meninos das ciências do tempo anunciam que o mundo está bem pertinho de pegar fogo. Eles apostam que lá pras bandas de 2100 – bem pertinho, viu! – o Sol vai torrar o juízo de quase 50% da população do “planetinha azul”. Dizem que será uma onda de calor tão monstruosa que nem o “tinhoso” jamais imaginou. – Sabe em quem eles põem a culpa? – Pois é, em nós mesmo, mas nos acusam de uma forma tão relativista que a sentença entra por um ouvido e sai ligeiro pelo outro. Tomara que Santo Antão do ventilador ponha as barbas de molho e bote as ideias para funcionar, senão, os nossos netinhos tão ferrados, ou melhor, torrados. Mas vou logo avisando, viu Seu Sol: – Já deixei de usar os famigerados canudinhos, não jogo lixo na rua, não poluo os oceanos, nem os rios, gosto de cerveja gelada e de umas cachacinhas para esquentar o pé da orelha. “….tu tá na gaiola…” Homi, vai pra lá! Pense numa bixiga insistente!

E por falar nas coisas do tempo, pois num é que São Pedro resolveu abrir as torneiras do Céu durante o Carnaval. O Céu está bonito que só vendo e a chuva tem dado o ar da graça todos os dias. A mata da caatinga que cerca essa Enxu mais bela está uma boniteza sem igual. As borboletas fazem a festa em meios as flores do mato e a bicharada tem andado com riso de orelha a orelha. E os barreiros? Eita que tão de água de ponta a ponta. É tanta água que não chega um carro por aqui que não venha pintado de marrom. Já ontem mesmo, o amigo Lutero convidou para tomar leite no curral, diretamente do peito da vaca, mas foi logo avisando que a estrada estava difícil. Deixei quieto e guardei o convite para usar mais na frente. Tem tempo, tem tempo!

Mudando o ar da graça, nesses dias de reinado de momo tenho navegado pouco pelos portais de notícias e mais pelas estripulias das trincheiras das redes sociais, para saber os moídos dos pierrôs e colombinas e tenho comprovado que esses personagens não são mais os mesmos e nem deveriam ser, pois caíram no alçapão da gaiola e perderam o passo do frevo e das velhas marchinhas. Aliás, sempre que passo a vista pelas manchetes da grande mídia, me apego no mesmo mantra de mané luiz, que dá até uma dor de tanta falta de criatividade jornalística. Será que os velhos mananciais do jornalismo também entraram na onda da gaiola? Os caras estão batendo na mesma tecla e nem se dão por conta. Não tem ninguém pensando diferente e todos estão agindo que nem cartomante, tentando adivinhar o futuro pelas cartas, ou melhor, por colunas mais ideológicas impossível. Quer saber: Com toda milacria, as redes sociais estão mil anos à frente das redações e prontinhas para jogar a pá de cal sobre a carniça. – Quer apostar? – Aposte não, pois quem apostou perdeu a última eleição!

Pensa que esqueci do Mc Kevin, esqueci não, e nem posso, seus sucessos comandam os paredões. Se não gostou da Gaiola, que tal Sobe balão e Desce B…..? Isso mesmo, Desce B…..! E ele “canta” assim: “…No baile da Colômbia/Hoje eu como uma ninfeta/No baile da Colômbia/Hoje eu como uma ninfeta…”.

Mas tudo bem, o Carnaval está no terceiro dia e hoje em Enxu Queimado é dia do bloco As Putas de Segunda, mas antes que você fique imaginando o reboliço, digo que é um dos blocos mais tradicionais do lugar, onde donzelos se vestem de donzelas e saem pelas ruas espalhando alegria, paz e amor. – E a música? – Bem, a música não é preciso puxar muito pelo juízo para apostar no estilo do Mc Kevin!

E lá vem as Putas! “…tu tá na gaiola…/…e não para não novinha…”

Nelson Mattos Filho