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Cartas de Enxu 54

11 Novembro (137)

Enxu Queimado/RN, 30 de dezembro de 2019

Eh, meu irmão, já vai longe o tempo em que meu amigo Alexandre Jácome, Teltur Viagens e Turismo, falou das belezas da praia de Enxu Queimado e você endossou a parada dizendo que conhecia e por aqui havia passado algumas temporadas na companhia do seu compadre Alexandre Chaves, genro do Sr. Abrão, que possuía uma casa a beira mar e de varandas abertas para os alísios que sopravam por sobre as maravilhosas dunas móveis que se estendiam para o sul até a Praia do Marco. Quanto aos alísios, digo que ainda são os mesmos se bem que ultimamente estão soprando mais avexados e tirando onda em estações climáticas que tradicionalmente eles passam mais parcimoniosos. Coisas dos deuses da natureza! Quanto as dunas, de Enxu ao Marco, digo que receberam a intervenção criminosa dos caras pálidas, que chegaram com a cruz, as bandeiras e as armas do progresso, e hoje praticamente foram riscadas do mapa para dar vez a um gigante parque eólico. Coisas dos sapiens e de suas leis descompensadas! Porém, para não instigar falação, pulemos essa parte!

Pois é, meu irmão, Enxu continua um lugarejo descente, dotado de uma beira mar aconchegante e se olharmos com um olhar mais apurado, não mudou muito desde os verões dos anos oitenta e noventa. Sinceramente, acho até que adormeceu por longo período e acordou meio sonolento em pleno século XXI, tentando resgatar o passado, mas com o foco desnorteado nos horizontes de um futuro incerto. Dia desses sonhei acordado na lembrança dos balaios de bolacha doce e “fresco”- iguaria feita com goma e coco seco ralado – produzidos em fornos artesanais de barro nos quintais das casas e todas as tardes eram vendidos de porta em porta pelas crianças. Eram os bons tempos das casas de farinha, que existiam em quase toda localidade interiorana e que complementava a renda de famílias que se divertiam nas horas da farinhada. Meu irmão, tudo isso ficou para trás e o que restou das velhas casas de farinha foi abandono, promessas politiqueiras e saudações a mandioca, como se palavras jogadas ao vento resolvesse alguma coisa. Como bem diz um velho ditado potiguar: Conversa fiada foi o que fechou o bar cova da onça!

Idio, sou saudosista sim e até tento controlar esse instinto tão cruel para o ser humano diante desses tempos modernosos, em que a razão se perde em meio ao nada e os antigos costumes culturais, para muitos, não passa de balela contada pela história dos povos. Aliás, a defesa da cultura nesses dias em que a década se encaminha serelepe para a entrada do ano derradeiro, não passa de discursos raivosos contra o corte das verbas que abasteciam os sabidos. Acredita não? Pois então bote na vitrola qualquer LP de Gonzagão ou ouça as prosas do Jessier Quirino! Os tempos eram outros, meu irmão! Quer ver coisa esquisita? Tente assistir uma apresentação de foguedo, sem se espantar com a descaracterização que está causado a morte de raríssimas raízes culturais! Tente participar do que ainda resta das festas de padroeiro, Brasil afora, sem se espantar com o esvaziamento dos costumes e a tristeza que ecoam das ladainhas! Entre em qualquer repartição pública que “cuida” da cultura e peça informações sobre tal! É duro, meu irmão, é duro!

Já sei, você está doido para saber sobre a cultura daqui, num é? Pois vou contar assim: A cultura aqui é do mar, das redes de pesca, das jangadas, dos paquetes, dos botes, dos balaios de pescado, da vida ditada na dança das palhas do coqueiral, mas ela está agonizante e jurada de morrer na praia. Dizem por aí, que quando o homem perde o rumo de sua história, sua alma definha até renascer sem os princípios que o fizeram homem. Será verdade?

Meu irmão, juro que não queria azucrinar seu juízo com coisas que fugissem dos limites dessa prainha paraíso, pois queria mesmo era despertar em você a vontade de rever o que um dia encheu seus olhos, mas tem coisas que não caminham longe de outras e por mais que tenhamos o cuidado de desviar dos obstáculos, mais damos de cara com eles. Porém, venha aqui, meu irmão, venha jogar conversa fora sob a sombra dessa cabaninha de praia. Venha estirar a rede na varanda para tocar sua viola. Venha rir da vida e lembrar da vida vivida. Venha sentir o cheiro do mar e caminhar despreocupado por uma beira de praia encantadora. Venha receber o sorriso largo e o abraço de um povo que tenta resistir as desventuras. Venha olhar as estrelas do céu, que por aqui são mais brilhantes. Venha acompanhar o belo passeio da Lua sobre o manto negro do firmamento. Venha assar castanha numa fogueira sobre as dunas para degustar o verdadeiro sabor da terra e venha sem pressa, pois de carreira já basta o tempo.

Idio Nogueira de Mattos Neto, nesse pezinho de nada que falta para findar o ano, dias de luar em quarto crescente, o convite está feito, mas nem precisava, porque minha casa é sua casa e na casa da gente precisa de convite não. Mas digo uma coisa: Se não trouxer a viola vai ter que voltar para buscar. Venha e traga sua trupe pois aqui tem escapas para um monte de rede e o tacho da moqueca é grande.

Beijos em tu e em Neném!

Nelson Mattos Filho

Na paz

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O alma boa, jornalista, ativista de causas sociais, e agora retratista juramentado, o potiguar Flávio Rezende, tem varado os quatro cantos do Rio Grande do Norte em busca de imagens para encher de cores e belezas as lentes de sua Canon Rebel e num tá nem aí, ele enquadra a cena, aponta a máquina e sai todo amostrado divulgando a arte de seus cliques. Flávio é autor de 27 livros e o último, Brechando o Planet, é uma pequena amostra de sua nova paixão. A foto que ilustra essa postagem não está no livro, mas conta um pouco da tranquilidade do homem do mar enfrentando as manias da modernidade.    

Cartas de Enxu 53

10 Outubro (226)

Enxu Queimado/RN, 12 de novembro de 2019

Parodiando o poeta, pergunto e respondo: – A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? – Os dois!

Pois é, Kátia, dizem por aí, e com toda propriedade, que o Rio Grande do Norte poderia se chamar “Já Teve” e seria até interessante, porque já que existe um município na região Oeste potiguar chamado Venha Ver, as peças publicitárias poderiam incrementar frases assim: “Venha ver o que tem em Já Teve”; “Já Teve, mas venha ver assim mesmo”; “Conheça Já Teve antes que não tenha mais”, e por aí caminharia a nação dos potiguares. Aliás, seria bom a gente se apressar para conhecer Venha Ver antes que ele se torne “Já Teve”, porque o município de pouco mais de 4 mil habitantes, segundo os bruxos da imprensa, está na lista de extinção, como também está o município de Pedra Grande, com 3.275 habitantes, do qual faz parte o pequenino distrito praieiro de Enxu Queimado, pedacinho de chão de onde escrevo essas missivas.

Cunhada, conheci Enxu há mais de trinta anos e de cara me apaixonei pela vidinha simples que se levava por aqui, com os pés pisando ruas de fina areia branca, coberta por leve camada de piçarro, e no final do dia mergulhando o corpo no mar para retirar a poeira avermelhada soprada pelos alísios que acariciavam as dunas e desciam correndo soltos pelas vielas. Eram bons tempos de fartura de lagosta, cestos e mais cestos de serras, garachumbas, galos do alto, guarajubas, ciobas, cavalas, bicudas, ariacós e mais uma ruma de espécies de fazer inveja a um bocado de pescador afamado. – E as galinhas? – Vixi, vou nem contar, mas em todo caso, fizemos muitas estripulias em busca das galinhas alheias. Enxu era uma festa nos idos anos 90. Aí você pergunta: – E não é mais? – É e não é, e acho até que é menos do que mais! – Entendeu? – Nem eu! Rsrsrsr…

Na década de 90 Enxu era um arruado de casas, muitas delas de taipa e com uma dúzia de casas de veranistas, quase todos oriundos do município de João Câmara, e o verão era uma festa de cores, alegria e tinha uma beira mar de fazer valer a fama que os poucos turistas que a conheciam alardeavam aos quatro ventos. A pequena localidade de pescadores recebia reflexos de um futuro promissor e com as antenas ligadas no turismo que avançava pelas praias do Rio Grande do Norte. Ora, não podia ser diferente, pois foi nas areias desse litoral que desembarcaram os enviados do Rei D. Manoel I para fincar a pedra fundamental da criação do país chamado Brasil, em 7 de agosto de 1501. A data, inclusive, está registrada como sendo, além da posse oficial do Brasil, aniversário do Rio Grande do Norte. Como bem diz a frase estampada em todos os documentos da Prefeitura de Pedra Grande: O Brasil começou aqui. E começou mesmo, mas por aqui estancou de repente, e o país seguiu, aos trancos e barrancos, em frente, deixando para trás a história esquecida em um Marco de Posse que até hoje ninguém decidiu o que fazer com ele.

Kátia, como você bem sabe, a Enxu do século XXI é uma praia bela, com um litoral paradisíaco, mas que merecia mais: Mais atenção, mais cuidado, mais carinho, mais investimentos, mais amor, mais responsabilidade com o desenvolvimento sustentável e mais respeito com sua população. O município de Pedra Grande está inserido entre aqueles que receberam fabulosos investimentos oriundos dos empreendedores da energia dos ventos e ostenta em suas terras um vultuoso parque eólico, além de uma gigantesca fábrica de torres. – E só isso basta? – Não, não basta, mas se toda essa pujança for bem aproveitada, adiantaria mais da metade da viagem rumo ao progresso sustentável e Enxu Queimado, como pórtico de entrada ao mar e a grande visibilidade que o mar proporciona, ganharia nova visão turística e quem sabe, tiraria o município da fatídica lista de abate.

Lembro de uma conversa que tive na época, com o então prefeito Chico Vitor, para mim um homem de visão, e ele falava que iria construir a Estrada da Palmeira, uma via ligando Enxu Queimado a Praia do Marco, em um traçado mais curto do que aquele que existia até então. Ele apostava que a estrada seria a redenção das duas praias, porque daria incentivo ao Governo do Estado para continuar com a estrada até São Miguel do Gostoso e no futuro ligar Gostoso, Marco, Enxu e Galinhos. Chico Vitor cumpriu a promessa, mas a Estrada da Palmeira, uma estrada piçarrada, nos padrões das RNs, hoje está praticamente abandonada, com o mato tomando parte da via e muito lixo jogando nas margens.

Pois é, Kátia, olhando o bonde que vai passando e assistindo essa bela prainha ficar empancada na estação, apesar de ter um dos mais lindos cenários litorâneos do Nordeste, não me vem em mente outra palavra a não ser já teve. Palavra essa tão bem apropriada para um Estado que já foi tudo, inclusive fonte originária de um país inesgotável.

Kátia Suely Silva dos Santos, minha cunhada querida, fico triste em ver que essa antiga vilazinha de pescadores perdeu o rumo da Estrada da Palmeira, via que foi pensada vislumbrando os ventos do futuro. Mas não é tanta tristeza assim, porque apesar de tudo, olhando da varanda dessa cabaninha, vislumbro e me sinto vivendo na comunidade que me recebeu carinhosamente há trinta anos. Só não existe mais a inocência e os perigos que rodam essa beirinha de praia são outros!

Nelson Mattos Filho

Projeto Uma Palavra

10 Outubro (205)

Há algum tempo que idealizo “usar e abusar” dos conhecimentos profissionais dos amigos que nos visitam em nossa cabaninha de praia, para levar boas informações aos moradores da aconchegante comunidade de Enxu Queimado/RN, que sempre nos acolheu tão carinhosamente. Além de ser uma forma de agradecimento, o Projeto Uma Palavra, seria uma maneira de proporcionar a pequena comunidade informações de campos das ciências do conhecimento que muitas vezes passam, quando passam, ao longe.

10 Outubro (211)

Foi assim que quando recebi mensagem do amigo Afonso Melo, querendo vir passar uns dias com a gente, respondi que poderia vir, mas teria uma condição: Ministrar uma palestra na Colônia de Pescadores. Falei da proposta e disse que ele enfunaria as velas para que a ideia navegasse em busca de novos horizontes. Ele aceitou de pronto!

Afonso é funcionário da Petrobrás, mergulhador e instrutor de mergulho profissional e recreativo, tarefa que exerce com enorme paixão. A escolha de seu nome para abrir o projeto não foi por acaso, porque desde o começo ele estava em minha alça de mira, apenas faltava a oportunidade e as visitas prometidas não eram concretizadas, mas como bem diz o ditado: Tudo tem seu tempo. E acredito que sim, pois Afonso está de mudança para Vitória/ES, e sua visita, aproveitando uma semana de folga do trabalho, seria talvez o último abraço, da grande amizade que sempre nos uniu, antes de sua partida para as terras capixabas.

Não digo que a palestra foi casa cheia, porque foi tudo decidido de última hora e o amigo Xará, presidente da Colônia de Pescadores de Enxu Queimado, só teve um dia para convocar a turma e perguntou se o evento poderia começar às 19 horas, do dia, 23/10, porque mais tarde teria o jogo entre Flamengo e Grêmio, e ninguém queria perder. Aliás, o time carioca, que deu uma lavagem nos gaúchos, por aqui falta pouquíssimo para se tornar unanimidade. Foi um bate papo gostoso, descontraído e balizado pelas boas regras e normas de segurança que o mergulhador jamais deve deixar de observar. Foi tão bom que no dia seguinte recebemos diversos pedidos, daqueles que não puderam comparecer, para que a palestra fosse repetida, mas infelizmente não foi.

10 Outubro (202)

Pronto, o projeto já navega em mares tranquilos e vamos aguardar que outros amigos venham nos visitar, mas já sabendo eles que terão uma prenda a pagar. Como bem disse Afonso, a semente foi plantada, agora vamos regar para colher os frutos.

Caro e bom amigo, em nome da comunidade, especialmente da Colônia de Pescadores, dessa prainha maravilha, agradeço o carinho de sua atenção com essa causa social e muito obrigado por dividir com a gente um pouco dos seus valiosos conhecimentos.

Nelson Mattos Filho

25/Outubro/2019

Sobre barcos e barcos

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Existem barcos que vão ali, outros vão alhures e alguns que são verdadeiras obras-primas da engenharia marinheira e que tornam infinitos sonhos e horizontes

Cartas de Enxu 43

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Enxu Queimado/RN, 30 de junho de 2019

Presidente, rapaz, desculpe a ousadia de enviar-lhe essa missiva e também a intimidade do “rapaz”, pois lhe vejo tão sem apego aos salamaleques das palavras e do cargo, que resolvi pular os princípios da boa educação e respeito que Ceminha ensinou, mesmo arriscando levar uns puxões de orelha. Mas antes de seguir ajuntando letras nos moídos, vou contar um tiquinho do porquê das Cartas de Enxu.

Idealizei as Cartas para contar um pouco das coisas do cotidiano da pequena comunidade praieira de Enxu Queimado/RN, onde moro atualmente sob as sombras de uma cabaninha de praia, e por aí vou indo contando fatos, causos, costumes e reparando nas necessidades que aqui são muitas. Pronto, já que contei um conto, vou contar o contado. Mas Capitão, antes de mais nada, me diga aí de onde danado vosmicê tira tanta coragem para se meter em falação? Pense num caboco pra gostar de peleja!

Presidente, Enxu Queimado, distrito do pequeno município de Pedra Grande/RN, é uma joia de lugar com a cara escancarada para o paraíso e com um povo ordeiro que faz inveja a uma ruma de lugar mundo afora. Por aqui a vida ainda é contada passo a passo que nem a letra de uma música do rabequeiro pernambucano Siba, “…toda vez que dou um passo, o mundo sai do lugar…”, porém, nem tudo são flores e quando são, vez em quando tem uns espinhos que é para o povo não esquecer o tranco.

Jair, o senhor está precisando conversar na linguagem do povo e o povo que o cerca precisa encolher a língua, senão o baralho vai embaralhar de vez. Sei que a orquestra estava bastante desafinada, porém, afinação se faz em um instrumento de cada vez, senão desanda no compasso e não tem maestro que consiga botar ordem no terreiro. Seus meninos estão muito ouriçados e tem horas que merecem até levar umas chineladas das boas. Onde já se viu criança se meter em conversa de adulto? Lá em casa tinha isso não e se acontecesse, Ceminha botava um quente e dois fervendo!

Homem de Deus, esse negócio de mandar recado e ditar diretrizes pelas linhas curtas do Twitter tem futuro não! Além do mais, a grande maioria do povo nem sabe o que danado é tuitar e aqui em Enxu tem esse bicho não. O papo cabeça por aqui é via WhatsApp, pelas teimas intermináveis sob a sobra de pé de pau ou embaixo de uma barraca a beira mar. Capita, se não for assim, ou através da telona de uma TV, o recado sai atravessado, distorcido e mal falado, porque quem conta um conto aumenta um ponto e quando o conto vem da sua conta, aí danou-se! Não vá na onda do “galego do topete”, pois ele tem panos pras mangas, viu! Quer um conselho? Bote uns coturnos macios e vá bater pernas por aí para escutar e dizer as verdades que precisam ser ditas e ouvidas.

Presidente, sei que muita coisa boa foi feita nesses seis meses de mandato, mas a engrenagem mestra que move o moinho do governo está pisando no eixo da grampola e se não for reparado ligeiro, vai torar em bandas! Tome tento, homem, pois até os “inocentes” do Congresso estão tirando onda de bons moços, porque lábia eles têm para dar, emprestar, alugar e receber, que é o que mais gostam. Seu povo aí está batendo cabeça e nós aqui é que recebemos a pancada. – Quer que fale mais, quer? – Pois lá vai: Está faltando conversa olho no olho e no fio do bigode, está sobrando lero-lero e acho que já estou sendo chato com essa conversa de pitaqueiro barato. Pronto, falei!

Seu Messias, que tal vir dar um passeio por essa prainha linda e aconchegante? Faz tempo que não aparece uma autoridade bacana por essas dunas brancas e quando aparece, chega transvestido de candidato e sendo assim a promessa corre solta pelos alísios e se vão para nunca mais. Capitão, o povo daqui não quer muito, quer apenas 11 quilômetros de estrada asfaltada que ligue o povoado a sede do município, um posto de saúde decentemente bem equipado e com bons médicos, boas escolas e um programa de incentivo para melhorar a flotilha de barcos de pesca, porque os barquinhos estão sofridos e com idade para lá de avançada. Se o senhor garantir que vem, vou ajeitar com Xará, presidente da colônia de pesca, para ajuntar os pescadores e assim o senhor fala o que quiser falar, mas não venha com mais promessa, porque de prometido e não cumprido os balaios já estão cheios.

Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, desculpe o atrevimento dessa cartinha mal escrita, mas gostaria muito que o senhor desse o ar da graça por essa prainha paraíso, que garanto que Dona Michelle vai adorar conhecer. Venha ver as riquezas de um pedaço quase esquecido do Brasil, apesar do gigantesco, porém, socialmente deficiente, parque eólico plantado sobre dunas e matas. Venha tirar um retrato no histórico e abandonado Marco de Posse, localizado  na Praia do Marco, parede e meia com Enxu. Venha degustar da moqueca produzida por Lucia, que é dos deuses, e venha se fartar em um delicioso caldeirão de lagosta feita no bafo. Venha que garanto estirar uma rede sob a varandinha de minha humilde cabaninha, para o senhor jogar conversa fora e tirar um cochilo sonhando o sonho dos justos.

Até mais!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 28

1 Janeiro (182)

Enxu Queimado/RN, 03 de julho de 2018

Sabe, Doutor Virgílio, estava aqui pensando, enquanto me espicho na rede armada na varanda, que até hoje não consegui definir o que o senhor representa para mim e meus irmãos, pois amigo é pouco para o tanto que você é. Quem sabe tio, mas há quem diga que tio é parente! – O que? – Pronto, achei a palavra certa: Tio. Tio Virgílio, porque sua amizade com meu Pai e Tio Emídio, meu segundo pai, se dava numa fronteira onde parentesco e amizade é retórica. Mas nem pense que vou me avexar a lhe chamar de tio no decorrer dessa missiva, viu! E vou tratar de entrar nos detalhes dos ocorridos nessa Enxu mais bela, pois a noite já vai longa. E tem moído que nem presta!

Antes que esqueça: Quando vem por aqui para saborear uma cioba gorda? Dr. Liu, o mar aqui é bom de peixe e dá de tudo. Lagosta tem também, mas os tempos estão cruéis para aqueles pescadores que se aventuram a mergulhar em busca das bichinhas. A pesca abriu no começo de junho, porém, até agora, o que foi pego não deu nem para o gasto. Lembro de quando pisei pela primeira vez os pés nessas areias, coisa de mais de 29 anos, que na época da lagosta era festa muita. Tinha caboco que tomava banho de cerveja e depois tirava o excesso com água mineral. Era um tal de chegar caminhão carregado de móveis e utensílios novos para casa, que era bonito de se ver. Carro zero quilômetro, então, vixi! Eram tempos de fartura e sabe o que se dava? No ano seguinte recomeçava o reboliço. Cansei de sentar na calçada da casa de Dona Tita e Seu Nilo, durante a noite, para saborear caldeirões de lagostas no bafo, acompanhado de cerveja, como diria o rei do baião, escumando. Nessa peleja virávamos a noite e ainda sobrava para o dia que vinha. – E acabou porquê? – Vai saber! É tanto disse me disse que é melhor deixar quieto.

Dr. Liu, sabe o que eu queria ver? Queria ver Nelson Mattos e Emídio Mattos batendo pernas por esse paraíso praia. Papai munido com o trombone de vara e Tio Emídio com aquela vasilha de sorvete que ele levava para a casa de Ponta Negra. Eita que a meninada ia adorar!

Liu, venha aqui, homem de Deus, que garanto um estoque novinho de piadas, causos e afins para sua enorme coleção de moídos. Venha sentar sobre uma jangada, na beira mar, para jogar conversa fora com Seu Neném Correia e a galera que não perde um bom bate papo. Durante o falatório você vai alegrar a turma com aqueles causos que só você sabe contar. Eita que vai ser bom! Mas, peraí, esqueça a história daquele “bicho” que Moquinho matou no banheiro, viu!

Dr. Liu, mudando de pau para cacete, tenho achado um bocado de graça com as coisas que me chegam pelas ondas da internet. Por aqui o sinal da internet é bom, apesar de alguns pormenores básicos, e basta piscar o olho para a tela se encher de novidades. Tem umas coisas cabeludas que bem cabiam nas atrações dos velhos trens fantasmas, mas dessa eu tiro de letra, pois danado e quem se mete a discutir os pormenores dessa politicalha barata, aliada aos destrambelhos de uma justiça sem freio. Pois bem, já que pulo essa casa, vou me arvorar da seguinte que é bem mais engraçada. Tempos atrás ouvimos ecos, vindos do planalto central, que afirmava que iriamos estocar ventos e o eco rendeu boas piadas e charges. Agora vejo que um general iraniano está acusando Israel de roubar nuvens. – Como assim? O militar ajuntou a impressa e declarou em alto e bom som, como assim fazem os generais quando querem mandar recado, que os meninos de Netanyahu estão “manipulando as condições meteorológicas” com o intuito de evitar que caia chuva no Irã. – Pode isso, Arnaldo?

Segundo o soldado do aiatolá, as mudanças climáticas no Irã são suspeitas e Israel e outro país da região, trabalham juntos para que as nuvens que entrem no território dos antigos reis aquemênidas não produzam chuvas. Diante dessa conversa mole do general, fico matutando: Quem danado está manipulando as nuvens desse Nordeste velho de guerras? E desse sertão sofrido do Rio Grande do Norte? Será que foi praga de Lampião e seus cabras da peste? Pense num povo amalucado! Deus é mais!

Dr. Liu, e por falar em água, pois num é que amanhã, 04/07, dia do israelita São Tomé, aquele que só acreditava vendo e por isso tomou uma reprimenda do Senhor, chega por essa prainha linda, o Excelentíssimo Governador do Estado, Robinson Faria, para inaugurar e dar vasão ao bem da vida nas torneiras de Enxu. Doutor, dizem que o povo está se manifestando para dar nó em pingo de água diante da presença do homem. Vamos ver, mas tomara que ele saia daqui com boa impressão, pois esse paraíso merece muito mais e o povo é ordeiro.

Doutor Virgílio Alexandrino Neto, Liu, meu tio por querença, pegue Dona Nair pelo braço e venha tomar uns banhos de praia no mar daqui, pois é bom demais da conta. Venha deitar o esqueleto numa rede armada embaixo da varanda dessa cabaninha de praia e ver o mundo de um jeito encantador.

Grande abraço,

Nelson Mattos Filho