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Sobre barcos e barcos

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Existem barcos que vão ali, outros vão alhures e alguns que são verdadeiras obras-primas da engenharia marinheira e que tornam infinitos sonhos e horizontes

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Cartas de Enxu 43

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Enxu Queimado/RN, 30 de junho de 2019

Presidente, rapaz, desculpe a ousadia de enviar-lhe essa missiva e também a intimidade do “rapaz”, pois lhe vejo tão sem apego aos salamaleques das palavras e do cargo, que resolvi pular os princípios da boa educação e respeito que Ceminha ensinou, mesmo arriscando levar uns puxões de orelha. Mas antes de seguir ajuntando letras nos moídos, vou contar um tiquinho do porquê das Cartas de Enxu.

Idealizei as Cartas para contar um pouco das coisas do cotidiano da pequena comunidade praieira de Enxu Queimado/RN, onde moro atualmente sob as sombras de uma cabaninha de praia, e por aí vou indo contando fatos, causos, costumes e reparando nas necessidades que aqui são muitas. Pronto, já que contei um conto, vou contar o contado. Mas Capitão, antes de mais nada, me diga aí de onde danado vosmicê tira tanta coragem para se meter em falação? Pense num caboco pra gostar de peleja!

Presidente, Enxu Queimado, distrito do pequeno município de Pedra Grande/RN, é uma joia de lugar com a cara escancarada para o paraíso e com um povo ordeiro que faz inveja a uma ruma de lugar mundo afora. Por aqui a vida ainda é contada passo a passo que nem a letra de uma música do rabequeiro pernambucano Siba, “…toda vez que dou um passo, o mundo sai do lugar…”, porém, nem tudo são flores e quando são, vez em quando tem uns espinhos que é para o povo não esquecer o tranco.

Jair, o senhor está precisando conversar na linguagem do povo e o povo que o cerca precisa encolher a língua, senão o baralho vai embaralhar de vez. Sei que a orquestra estava bastante desafinada, porém, afinação se faz em um instrumento de cada vez, senão desanda no compasso e não tem maestro que consiga botar ordem no terreiro. Seus meninos estão muito ouriçados e tem horas que merecem até levar umas chineladas das boas. Onde já se viu criança se meter em conversa de adulto? Lá em casa tinha isso não e se acontecesse, Ceminha botava um quente e dois fervendo!

Homem de Deus, esse negócio de mandar recado e ditar diretrizes pelas linhas curtas do Twitter tem futuro não! Além do mais, a grande maioria do povo nem sabe o que danado é tuitar e aqui em Enxu tem esse bicho não. O papo cabeça por aqui é via WhatsApp, pelas teimas intermináveis sob a sobra de pé de pau ou embaixo de uma barraca a beira mar. Capita, se não for assim, ou através da telona de uma TV, o recado sai atravessado, distorcido e mal falado, porque quem conta um conto aumenta um ponto e quando o conto vem da sua conta, aí danou-se! Não vá na onda do “galego do topete”, pois ele tem panos pras mangas, viu! Quer um conselho? Bote uns coturnos macios e vá bater pernas por aí para escutar e dizer as verdades que precisam ser ditas e ouvidas.

Presidente, sei que muita coisa boa foi feita nesses seis meses de mandato, mas a engrenagem mestra que move o moinho do governo está pisando no eixo da grampola e se não for reparado ligeiro, vai torar em bandas! Tome tento, homem, pois até os “inocentes” do Congresso estão tirando onda de bons moços, porque lábia eles têm para dar, emprestar, alugar e receber, que é o que mais gostam. Seu povo aí está batendo cabeça e nós aqui é que recebemos a pancada. – Quer que fale mais, quer? – Pois lá vai: Está faltando conversa olho no olho e no fio do bigode, está sobrando lero-lero e acho que já estou sendo chato com essa conversa de pitaqueiro barato. Pronto, falei!

Seu Messias, que tal vir dar um passeio por essa prainha linda e aconchegante? Faz tempo que não aparece uma autoridade bacana por essas dunas brancas e quando aparece, chega transvestido de candidato e sendo assim a promessa corre solta pelos alísios e se vão para nunca mais. Capitão, o povo daqui não quer muito, quer apenas 11 quilômetros de estrada asfaltada que ligue o povoado a sede do município, um posto de saúde decentemente bem equipado e com bons médicos, boas escolas e um programa de incentivo para melhorar a flotilha de barcos de pesca, porque os barquinhos estão sofridos e com idade para lá de avançada. Se o senhor garantir que vem, vou ajeitar com Xará, presidente da colônia de pesca, para ajuntar os pescadores e assim o senhor fala o que quiser falar, mas não venha com mais promessa, porque de prometido e não cumprido os balaios já estão cheios.

Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, desculpe o atrevimento dessa cartinha mal escrita, mas gostaria muito que o senhor desse o ar da graça por essa prainha paraíso, que garanto que Dona Michelle vai adorar conhecer. Venha ver as riquezas de um pedaço quase esquecido do Brasil, apesar do gigantesco, porém, socialmente deficiente, parque eólico plantado sobre dunas e matas. Venha tirar um retrato no histórico e abandonado Marco de Posse, localizado  na Praia do Marco, parede e meia com Enxu. Venha degustar da moqueca produzida por Lucia, que é dos deuses, e venha se fartar em um delicioso caldeirão de lagosta feita no bafo. Venha que garanto estirar uma rede sob a varandinha de minha humilde cabaninha, para o senhor jogar conversa fora e tirar um cochilo sonhando o sonho dos justos.

Até mais!

Nelson Mattos Filho

Cartas de Enxu 28

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Enxu Queimado/RN, 03 de julho de 2018

Sabe, Doutor Virgílio, estava aqui pensando, enquanto me espicho na rede armada na varanda, que até hoje não consegui definir o que o senhor representa para mim e meus irmãos, pois amigo é pouco para o tanto que você é. Quem sabe tio, mas há quem diga que tio é parente! – O que? – Pronto, achei a palavra certa: Tio. Tio Virgílio, porque sua amizade com meu Pai e Tio Emídio, meu segundo pai, se dava numa fronteira onde parentesco e amizade é retórica. Mas nem pense que vou me avexar a lhe chamar de tio no decorrer dessa missiva, viu! E vou tratar de entrar nos detalhes dos ocorridos nessa Enxu mais bela, pois a noite já vai longa. E tem moído que nem presta!

Antes que esqueça: Quando vem por aqui para saborear uma cioba gorda? Dr. Liu, o mar aqui é bom de peixe e dá de tudo. Lagosta tem também, mas os tempos estão cruéis para aqueles pescadores que se aventuram a mergulhar em busca das bichinhas. A pesca abriu no começo de junho, porém, até agora, o que foi pego não deu nem para o gasto. Lembro de quando pisei pela primeira vez os pés nessas areias, coisa de mais de 29 anos, que na época da lagosta era festa muita. Tinha caboco que tomava banho de cerveja e depois tirava o excesso com água mineral. Era um tal de chegar caminhão carregado de móveis e utensílios novos para casa, que era bonito de se ver. Carro zero quilômetro, então, vixi! Eram tempos de fartura e sabe o que se dava? No ano seguinte recomeçava o reboliço. Cansei de sentar na calçada da casa de Dona Tita e Seu Nilo, durante a noite, para saborear caldeirões de lagostas no bafo, acompanhado de cerveja, como diria o rei do baião, escumando. Nessa peleja virávamos a noite e ainda sobrava para o dia que vinha. – E acabou porquê? – Vai saber! É tanto disse me disse que é melhor deixar quieto.

Dr. Liu, sabe o que eu queria ver? Queria ver Nelson Mattos e Emídio Mattos batendo pernas por esse paraíso praia. Papai munido com o trombone de vara e Tio Emídio com aquela vasilha de sorvete que ele levava para a casa de Ponta Negra. Eita que a meninada ia adorar!

Liu, venha aqui, homem de Deus, que garanto um estoque novinho de piadas, causos e afins para sua enorme coleção de moídos. Venha sentar sobre uma jangada, na beira mar, para jogar conversa fora com Seu Neném Correia e a galera que não perde um bom bate papo. Durante o falatório você vai alegrar a turma com aqueles causos que só você sabe contar. Eita que vai ser bom! Mas, peraí, esqueça a história daquele “bicho” que Moquinho matou no banheiro, viu!

Dr. Liu, mudando de pau para cacete, tenho achado um bocado de graça com as coisas que me chegam pelas ondas da internet. Por aqui o sinal da internet é bom, apesar de alguns pormenores básicos, e basta piscar o olho para a tela se encher de novidades. Tem umas coisas cabeludas que bem cabiam nas atrações dos velhos trens fantasmas, mas dessa eu tiro de letra, pois danado e quem se mete a discutir os pormenores dessa politicalha barata, aliada aos destrambelhos de uma justiça sem freio. Pois bem, já que pulo essa casa, vou me arvorar da seguinte que é bem mais engraçada. Tempos atrás ouvimos ecos, vindos do planalto central, que afirmava que iriamos estocar ventos e o eco rendeu boas piadas e charges. Agora vejo que um general iraniano está acusando Israel de roubar nuvens. – Como assim? O militar ajuntou a impressa e declarou em alto e bom som, como assim fazem os generais quando querem mandar recado, que os meninos de Netanyahu estão “manipulando as condições meteorológicas” com o intuito de evitar que caia chuva no Irã. – Pode isso, Arnaldo?

Segundo o soldado do aiatolá, as mudanças climáticas no Irã são suspeitas e Israel e outro país da região, trabalham juntos para que as nuvens que entrem no território dos antigos reis aquemênidas não produzam chuvas. Diante dessa conversa mole do general, fico matutando: Quem danado está manipulando as nuvens desse Nordeste velho de guerras? E desse sertão sofrido do Rio Grande do Norte? Será que foi praga de Lampião e seus cabras da peste? Pense num povo amalucado! Deus é mais!

Dr. Liu, e por falar em água, pois num é que amanhã, 04/07, dia do israelita São Tomé, aquele que só acreditava vendo e por isso tomou uma reprimenda do Senhor, chega por essa prainha linda, o Excelentíssimo Governador do Estado, Robinson Faria, para inaugurar e dar vasão ao bem da vida nas torneiras de Enxu. Doutor, dizem que o povo está se manifestando para dar nó em pingo de água diante da presença do homem. Vamos ver, mas tomara que ele saia daqui com boa impressão, pois esse paraíso merece muito mais e o povo é ordeiro.

Doutor Virgílio Alexandrino Neto, Liu, meu tio por querença, pegue Dona Nair pelo braço e venha tomar uns banhos de praia no mar daqui, pois é bom demais da conta. Venha deitar o esqueleto numa rede armada embaixo da varanda dessa cabaninha de praia e ver o mundo de um jeito encantador.

Grande abraço,

Nelson Mattos Filho

As pescadoras de Enxu Queimado

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– Hoje teve pescaria? – Teve sim, senhor, e da melhor qualidade! As pescadoras da praia de Enxu Queimado, acordaram cedo e foram lançar rede ao mar. Foi uma manhã de alegria que encheu de beleza e formosura as areias de uma das mais belas praias do Rio Grande do Norte. Foram três lances de arrastão e uma bela produção, com direito até a camarão bem nutrido! Viva e parabéns as pescadoras de Enxu!

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O catamarã de velocidade – IV

20160423_171355Na literatura náutica existe uma infinidade de tratados sobre enjôo e os motivos que levam a ele. Em meio a rodadas de conversas entre navegadores o tema é tratado com desdém, risos, piadas e tem até quem declare, em alto e bom som, que o problema se deve a frescura ou simplesmente alteração do psicológico. As teorias são muitas e dificilmente se acha um navegador com coragem para admitir que enjoa. Alguns, para se livrar da pecha de fracote, conseguem admitir que logo no começo da vida náutica enjoavam, mas que isso é coisa do passado e ponto final. A conversinha é essa!

Nos meus vinte e poucos anos fui diagnosticado com uma forte e terrível labirintite que me deixou acamado por mais de uma semana. A danada foi tão poderosa que no dia que senti sua presença, às cinco horas da manhã, tentei levantar da cama e cai para trás sentindo o mundo rodar em minha volta. Eu disse sentindo, pois nem abrir os olhos eu pude. Apenas no terceiro dia consegui sair da cama e mesmo assim rastejando para ir ao banheiro e tomar um banho. Foi duro!

Depois de uma semana, o médico que estava me atendendo, em casa, jogou a tolha e indicou para que eu fosse à doutora Joaquina, afirmando que somente ela poderia me curar. Marcamos a consulta, fomos até o consultório da doutora e depois de dez dias os efeitos maléficos da labirintite estavam praticamente curados. Ufa! Como foi bom abrir os olhos e ver que tudo estava paradinho.

No dia em que a doutora me liberou, disse assim: – Nelson, você nunca vai poder passear de barco e nem suportará luzes fortes e incidentes em direção a sua vista, porque são coisas que podem desencadear novas crises. Respondi: – Doutora, sendo assim, uma parte está resolvida, pois nunca tive barco e nem pretendo ter. Quanto às luzes, vou me precaver. Isso aconteceu há mais de trinta anos e Lucia gosta de dizer que eu ainda não estava sob seu poder. Dizer o que? Nada né! Aí você pergunta: – E o que isso tem haver com essa história? Peraí que chego lá!

O Tranquilidade navegava ao largo da costa sergipana e nem sinal de nada, porque passávamos a mais de 20 milhas da costa e, vendo apenas céu e mar, a ordem da tripulação era curtir o azul infinito, as nuvens, o vento no rosto e encher a boca de água com o cheiro delicioso que vinha da cozinha. Claro que não faltaram algumas cervejas gelada para esfriar a goela, mas eu não quero fazer inveja a ninguém.

Logo pela manhã eu havia colocado a linha na água na esperança de surpreender a tripulação com um peixinho, porém, tive que trocar várias vezes de isca artificial e juro que o problema não foi do pretenso pescador, mas sim das próprias iscas, porque todas acabavam enroscadas na linha. A última tentativa foi com um pequeno anzol revestido com uma lula rosa artificial, que até já havia esquecido que tinha lançado ao mar. Já no finalzinho da tarde a carretilha gritou e quando corri para pegar a vara, senti que tinha pegado um peixe um pouquinho maior do que eu estava acostumado.

A segunda providência foi pedir para folgarem as velas do Tranquilidade, para diminuir a velocidade, e iniciar a luta com o peixe. O bicho era pesado, o maior peixe que até então eu já havia pescado, e quando deu um salto vi que era um belo de um dourado. Eu e ele ficamos na peleja por quase trinta minutos e por várias vezes tive que soltar quase toda a linha do carretel, para depois recolher tudo novamente e com muita dificuldade. Quando o dourado cansou – eu também – foi à vez de embarcá-lo, com muita dificuldade e com a ajuda providencial do Myltson.

Quando estiramos o peixe sobre o convés vimos a real dimensão do resultado da pescaria. O dourado tinha mais de metro e pesava por volta de 15 quilos e me perguntei como consegui pescá-lo com um anzol tão pequeno. Ao tentar retirar o anzol notei que o segredo foi à gula do dourado. O bicho foi com tanta sede ao pote que o anzol entrou e enganchou em suas guelras.

Com a adrenalina a mil, devido ao esforço da puxada, e aliado a tentativa quase inglória de retirar o anzol sem me ferir, trabalhando abaixado e com a cabeça baixa, comecei a sentir os sinais do enjôo. Como sempre acontece e para não deixar que ele tome conta do meu eu, meti o dedo na goela, apressei o resultado e continuei tratando o peixe, pois queria provar a delícia do seu sabor o mais breve possível.

Bem, o peixe estava delicioso, eu enjôo sim e agradeço a doutora Joaquina um dia ter me curado de uma labirintite, que se fosse recorrente eu jamais poderia está relatando essa história ocorrida no mar. Aliás, ela disse que eu nunca iria navegar e esqueci-me desse detalhe.

O Tranquilidade segue o rumo e agora com um peixão a bordo.

Nelson Mattos Filho/Velejador